Afinal… o que de fato fez a princesa Isabel no 13 de maio? 

Num dia como hoje, em que informações sem qualquer base científica são espalhadas como se fossem verdades históricas pela Fundação Palmares, é importante deixar claro o papel da princesa Isabel na abolição da escravidão. Afinal, o que de fato ela fez pela abolição da escravidão?

Segue um trecho do posfácio do livro “O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia” ( Chão Editora, 2019), escrito por Mariana Muaze e por mim:

“Ao voltar de viagem, em junho de 1887, Isabel se viu dividida entre as preocupações para garantir a continuidade do Império, as rivalidades com o sobrinho — que, animado com a desconfiança pública com os nomes de Isabel e do conde d’Eu, disputava uma possível vaga de imperador — e as idas à igreja. Parecia não ter a mínima ideia do que se passava nas ruas: ‘Na ausência do imperador, a política naturalmente cochila’, escreveu ela à condessa de Barral, sintomaticamente, em 14 de julho de 1887, enquanto republicanos celebravam em praça publica o aniversário da Revolução Francesa. Ao mesmo tempo, nas fazendas da região cafeeira, continuavam as revoltas e as fugas de escravos, bem como a repressão contra eles. A pressão sobre a princesa era grande. Seu pai, no exterior, havia recebido a extrema-unção (ele ainda viveria por pouco mais de três anos). Sem grande popularidade nem tino político, ela hesitava em colocar a abolição na agenda do Governo, decepcionando os abolicionistas monarquistas, principalmente André Rebouças, amigo de longa data, que tentava persuadi-la a abraçar a causa.

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Fotografia de Marc Ferrez/Coleção Dom João de Orléans e Bragança, sob guarda do Acervo do Instituto Moreira Salles (in “O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia, p. 96)

 

Demorou a fazer isso. Só no início de 1888, quando a abolição já era dada como certa e inevitável, e até escravistas empedernidos começavam a libertar seus escravos incondicionalmente, na esperança de que continuassem trabalhando em suas fazendas, a princesa deu ouvidos a Rebouças e promoveu sua famosa Batalha das Flores, inspirada no Carnaval francês, percorrendo as ruas de Petrópolis com o marido e os filhos, pedindo donativos em prol dos escravos. Poucos dias depois, em nova carta à condessa de Barral, declarou ser a abolição “uma caridade grande”, “que parecia estar no ânimo de todos”. (…)

Em maio de 1888, a abolição da escravidão foi votada em regime de urgência. O Parlamento aprovou, por 83 votos a favor e 9 contra, o projeto de lei que extinguia, sem indenização, a escravidão no Brasil. Já em clima de festa, Isabel ofereceu banquete a catorze escravos. No dia 13, desceu de Petrópolis para assinar a lei. Estava extinta a escravidão no Brasil.” (p. 104/5).

Foi isso. Depois de décadas e décadas de lutas da população escravizada, só em fevereiro de 1888 a princesa Isabel foi, a duras penas, convencida pelo engenheiro abolicionista negro André Rebouças a apoiar a causa. Sua atuação não chegou a quatro meses, e só teve início quando a abolição já “parecia estar no ânimo de todos”. O resto é lenda.

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Arquivado em história pública, historiografia

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