Arquivo do autor:Hebe Mattos

Sobre Hebe Mattos

Hebe Mattos é Professora Titular de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense e coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem da mesma universidade (LABHOI/UFF). É autora, entre outros livros, de Ao Sul da História (1987, 2009); Das Cores do Silêncio (1995, 1998, 2013) e Memórias do Cativeiro (com Ana Lugão Rios), 2005.

À guisa de retrospectiva …

Terminou ontem o mandato de Dilma Rousseff.

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A  vitória eleitoral da extrema direita se deve em grande parte à força dessa imagem. Para o machismo e a misoginia ainda predominantes em nossa sociedade, uma posse sem o gênero masculino no carro presidencial foi da ordem do intolerável. Mas não podemos esquecer que a posse da primeira mulher presidente do Brasil aconteceu, ainda que não a tenham deixado completar o segundo mandato. Assim como a do presidente operário que  tirou o Brasil do mapa da fome. Resistir é também dever de memória.

Recupero aqui, como restrospectiva e forma de arquivamento, os artigos que publiquei na sessão de opinião da Folha de São Paulo, desde o golpe branco que destituiu a presidenta eleita. Aos que quiserem se aventurar, acredito que a leitura em sequência deles acrescenta algo à compreensão do processo que estamos vivendo.

Agora, é preciso dar tempo ao tempo.  Mesmo que a vitória eleitoral da extrema direita seja, em grande parte, resultado de mais de dois anos de golpe, ainda assim o novo governo volta a ter a legitimidade das urnas. Apesar de ter, nas primeiras 24 horas, extinto a secretaria da diversidade e inclusão do MEC, passado a demarcação das terras quilombolas e indígenas para o Ministério da Agricultura e retirado os direitos da população LGBT da pauta dos direitos humanos, o novo presidente jurou respeitar a constituição. Que assim seja.

O blog sai de férias, como de hábito. Em março vamos avaliar se teremos fôlego para continuar as conversas.

Convidamos Magnoli a vir dançar a quadrilha da democracia

publicado em 27/06/2016  02h00 (reproduzido sem alterações)

Em tempos de festa junina, Demétrio Magnoli acusa o movimento Historiadores Pela Democracia de “formação de quadrilha”, em texto publicado na Folha em 25/6.

O artigo começa com o meu nome, honrando-me com a companhia de renomadíssimos colegas de ofício que, estando no exterior, só puderam participar da iniciativa com depoimentos em vídeo ou por escrito.

Esses e outros depoimentos e vídeos podem ser consultados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. Convido todos a fazerem isso.

Como não é historiador, Demétrio Magnoli não consultou tais documentos. Se o fez, omite isso, mas ainda assim afirma que nossa iniciativa “viola os princípios que regem o ofício do historiador”, que temos “vocação totalitária” e que queremos escrever versão da história útil para o “Partido”, com P maiúsculo.

Como já tive oportunidade de escrever no blog “Conversa de historiadoras”, sobre editorial de teor semelhante publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, a utilização desse tipo de lógica maniqueísta por órgãos de imprensa é surpreendente e muito preocupante.

Os depoimentos individuais foram feitos por alguns dos mais importantes historiadores do país, mas também por jovens profissionais e estudantes de história, englobando uma enorme diversidade de orientações políticas, bem como de escolas historiográficas e teóricas.

Juntos, formam uma narrativa polifônica e plural, que vem se somar ao alentado movimento da sociedade civil em defesa da Constituição de 1988 e de resistência ao governo interino, ao programa que tem desenvolvido sem o amparo das urnas e à forma como chegou ao poder.

Em comum, têm a preocupação com os sentidos republicanos e democráticos da ordem política brasileira, ameaçados desde a votação da Câmara dos Deputados de 17 de abril, de triste memória.

“A Força do Passado” é o título do arquivo de textos do tumblr, com exercícios de história imediata publicados ao longo dos últimos meses, que servirão de base para a organização de um livro.

A tese de que há um golpe branco em andamento, como reação conservadora às mudanças da sociedade brasileira produzidas desde a adoção da Constituição de 1988, é hipótese que defendo, junto a outros colegas e, por enquanto, inspirou o título da coletânea.

Para os que discordam que um golpe branco à democracia brasileira está em curso, basta escolher dialogar com alguns dos muitos e diferenciados argumentos dos depoimentos e textos arquivados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. As autorias individuais estão bem assinaladas e os autores têm tradição democrática.

Por fim, para não parecer que só tenho discordância com o artigo de Magnoli, gostaria de me solidarizar com a sua defesa dos cinco jornalistas da “Gazeta do Povo” processados por juízes paranaenses.

Quanto ao título do seu artigo, não pretendemos processá-lo, e aqui falo pelos colegas citados. Temos certeza de que eram as festas juninas que Magnoli tinha em mente quando falou em formação de quadrilha.

Nós o convidamos a deixar de lado o maniqueísmo e o discurso de intolerância e a vir dançar conosco a quadrilha da democracia.

Os historiadores e a democracia

Publicado em 31/08/2016  02h00 (reproduzido sem alterações)

Em plena votação final do processo de impeachment no Senado, o livro “Historiadores pela Democracia: o Golpe de 2016 e a Força do Passado” vem a público, pela Alameda Editorial, organizado por mim, Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian.

Escritos no calor do processo da atual crise política brasileira, os textos reunidos são um exercício de história imediata, organizados em ordem cronológica, a partir de uma proposta de periodização do processo político em curso, um dos campos mais clássicos de atuação do historiador profissional.

O livro é também uma resposta às críticas ao movimento Historiadores pela Democracia, veiculadas nas páginas de opinião de jornais e revistas e nas redes sociais após o lançamento do vídeo-manifesto do movimento.

Essas críticas, no que apresentavam de substantivo, são similares às formuladas a um movimento que surgiu pouco depois nos EUA, Historians Against Trump (historiadores contra Trump). Alegam que os autores poderiam se manifestar politicamente enquanto cidadãos, mas não como historiadores profissionais.

Aqui, como lá, tal juízo se estrutura a partir de uma visão antiquada e autoritária do ofício do historiador.

A historiografia contemporânea não supõe a construção de versões unívocas da história, mas um conhecimento sobre o passado que está sempre se transformando a partir da formulação de novas questões. É o rigor metodológico, com diversidade teórica e multiplicidade de abordagens, o que define nossa formação profissional.

No livro, a partir de um olhar historiográfico, os autores tomam por base problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos políticos recentes. A força do legado do passado escravista, ainda atuante na sociedade brasileira, é a chave de algumas abordagens.

Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto analisado informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto reunido sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão.

“Os Riscos do Vice-presidencialismo”, de 2009, de Luiz Felipe Alencastro, abre a narrativa do volume. Na sequência, os textos nos fazem reviver as eleições de 2014, a continuada contestação ao resultado eleitoral em 2015 e a força da cultura política da hipocrisia nos acontecimentos recentes.

No conjunto, os artigos constroem uma narrativa com final aberto do golpe institucional de 2016.

Os lançamentos em Brasília e em São Paulo, durante o simulacro de julgamento no Senado da presidente eleita, Dilma Rousseff, colocam o livro e seus autores também como atores da história, que, afinal, todos fazemos.

E continuaremos a fazer, em qualquer cenário futuro, em defesa da democracia e dos direitos inscritos na Constituição de 1988.

A velha democracia

Publicado em 27/09/2016  02h00 (reproduzido sem alterações)

A crise política que vivemos é em parte tipicamente brasileira (ou latino-americana), com suas velhas elites sempre dispostas ao golpe contra a vontade política das maiorias, mas é também reflexo da crise global da democracia representativa. A discussão sobre os limites da legalidade democrática e o estado de exceção está na ordem do dia.

O uso do termo “estado de exceção” -inspirado no livro homônimo do filósofo Giorgio Agamben- para caracterizar a ordem de prisão decretada pelo juiz Sergio Moro contra o ex-ministro Guido Mantega causou celeuma entre alguns acadêmicos.

Como de hábito, não faltou quem lembrasse que a comoção com a prisão sem motivos claros, em um hospital em que ele acompanhava a mulher doente, seria exagerada. Pareceria sugerir que se inaugurava algo novo na Justiça brasileira, quando a prática seria de fato corriqueira nas periferias.

A afirmação é verdadeira e coloca em foco um limite fundamental da experiência democrática brasileira. Mas é também problemática, pois, levada às últimas consequências do ponto de vista lógico, acaba por tornar indistintas as fronteiras entre estado de exceção e Estado de Direito.

No limite, torna possível afirmar, por exemplo, não ter havido propriamente um golpe contra o regime democrático brasileiro em 1964, simplesmente porque não tínhamos um regime democrático na ocasião. Afinal, como poderia existir democracia de fato em um país em que os analfabetos não votavam e o Partido Comunista estava cassado?

Continuando com o mesmo raciocínio, também o Estado Novo não teria sido um golpe à ordem democrática, pois sob as Constituições de 1824, 1891 e 1934 havia fraude eleitoral, práticas de tortura, inúmeras rupturas políticas e restrições aos direitos de voto.

Uma baixa adesão aos valores democráticos é um pré-requisito contextual para qualquer golpe contra a democracia. As experiências democráticas concretas têm zonas de exceção mais ou menos amplas, delimitadas por fronteiras culturais e hierarquias socioeconômicas.

No Brasil, tais espaços de exceção continuam especialmente amplos e fortemente marcados pelo racismo. O Estado democrático de Direito é formado, entretanto, pela presunção da ilegalidade de tais práticas. Desvalorizar as fronteiras formais entre Estado de Direito e estado de exceção deslegitima a defesa dos direitos democráticos efetivamente existentes.

A democracia dos Estados Unidos conviveu com a legalidade da escravidão, seguida da segregação racial e depois do encarceramento negro em massa. Os Estados liberais europeus não têm história muito mais edificante. Isso não retira a importância dos valores democráticos na história dessas sociedades.

Como bem sinalizou a presidente eleita Dilma Rousseff, a divulgação ilegal de conversas da Presidência da República rompeu a fronteira entre Estado de Direito e estado de exceção, construindo as condições para o golpe parlamentar que a tirou do poder. A seletividade política crescente de membros do Judiciário brasileiro é mais um passo em direção ao abismo.

A tentativa de aprovação de uma reforma educacional profunda por medida provisória, também. A prisão de Mantega, abortada pela reação da opinião pública, era parte do processo. Ou damos os nomes aos bois agora ou em breve não poderemos mais gritar para saber onde está o Amarildo.

Sem esperança, não há democracia

Publicado em 01/08/2017  02h00 (reproduzido sem alterações)

Em uma recente roda de conversa da qual participei no Centro Ruth Cardoso, em São Paulo, Marcelo Ridente nos fez a todos constatar que, pela primeira vez desde o final dos anos 1970, olhávamos com pessimismo para o futuro do Brasil.

Tentei me consolar da triste realidade refletindo sobre o caráter internacional da crise que vivemos, mas logo me lembrei de que o pessimismo à brasileira estava fundado em algo mais do que o sentido reacionário dos eventos sociais que estão na base da onda conservadora que assola o mundo.

O avanço reacionário no Brasil tem um travo mais amargo. Ele vem junto com a nostalgia de um ordenamento estamental de sociedade, inscrito sobretudo no desrespeito à soberania popular.

Um desrespeito naturalizado na velha formulação de que o povo não sabe votar, o que torna possível aprovar, sem qualquer constrangimento, um programa de reformas, em muitos aspectos inconstitucional e contrário a direitos humanos fundamentais dos quais o Brasil é signatário, derrotado nas urnas.

O avanço reacionário no Brasil está inscrito também, e principalmente, na dificuldade de nosso Judiciário, quase todo recrutado nas classes médias e altas tradicionais, em julgar de forma imparcial integrantes de seu grupo racial e social.

Nossas instituições jurídicas, ainda que funcionando livremente, não foram capazes de impedir o golpe parlamentar de 2016, perpetrado por congressistas quase todos acusados da prática de atos ilícitos.

Representantes das mais diferentes instâncias do Judiciário brasileiro podem condenar, sem provas concretas e a penas exorbitantes, jovens negros que ousam sair às ruas em manifestações políticas ou ex-operários que ousaram ser presidente da República e tirar o Brasil do mapa da fome.

No entanto, mantêm livres e exercendo mandato parlamentar, com base em noções aristocráticas de reputação e honra, senadores de famílias de elite denunciados pelo Ministério Público por corrupção passiva e obstrução à Justiça.

Golpes parlamentares podem derrubar presidentes de forma ilegítima; a Justiça pode legalmente produzir injustiças, mas nada é mais grave do que a perda de confiança nas instituições democráticas. Alguém ainda espera que o Congresso vá autorizar a investigação das gravíssimas denúncias contra Michel Temer? Sem esperança, não há democracia.

Desde a primeira eleição de Lula, em 2002, tem havido comparações de seu papel histórico no Brasil ao de Abraham Lincoln nos Estados Unidos.

Pode-se dizer, no mínimo, que a emergência política de ambos foi consequência das chamadas revoluções de mercado, ocorridas nos dois países nas décadas que precederam seus governos.

Lincoln e Lula buscaram aprofundar o que percebiam ser frutos positivos da generalização da economia de mercado, mas também tentaram democratizar os seus efeitos.

Lincoln nunca foi um abolicionista radical, Lula tampouco um socialista, como sempre registraram seus críticos à esquerda. Mas as sociedades estamentais que eles desafiaram não os puderam perdoar.

Como a velha elite sulista derrotada nos EUA, os golpistas brasileiros estão à procura de seu John Wilkes Booth. O medo às vezes mata a esperança. Sergio Moro se apresenta para o papel, trocando a pistola pela toga.

Sobre o crime comum de Lula

Publicado em 9.abr.2018 às 2h00 (reproduzido com pequenas atualizações)

Foi manchete nesta FolhaLula é o primeiro presidente da República brasileiro condenado por crime comum. As fragilidades das acusações ao ex-presidente me parecem suficientes para fundamentar a convicção da perseguição política em qualquer observador imparcial. Mas, infelizmente, é um fato.

Esse fato revela o sentido mais profundo do golpe iniciado em 2016, processo sem direção política específica, resultado de um inusitado consenso elitista e antidemocrático envolvendo os principais formadores de opinião do Brasil.

Boa parte das convicções da Lava Jato, exemplificada sobretudo no famoso Powerpoint apresentado por alguns procuradores, está baseada em uma interpretação da história brasileira recente. Essa interpretação guarda inquietante analogia com um episódio da história dos Estados Unidos: o processo de desqualificação política da chamada reconstrução radical, após a guerra de secessão que aboliu a escravidão naquele país, um dos meus temas recentes de pesquisa.

Para os que não conhecem a história, eu conto. Nos EUA, no antigo sul escravista derrotado, o período conhecido como “Reconstrução Radical” (1865-1877) foi pioneiro em reconhecer direitos civis e políticos aos ex-cativos tornados livres com a vitória da União.

Muitos tiveram acesso à educação, participaram politicamente em seus locais de moradia, votando e sendo eleitos, junto aos políticos republicanos abolicionistas oriundos do norte do país. As conquistas sociais realizadas nesse curto espaço de tempo preenchem as melhores páginas da história social e política sobre o pós-emancipação estadunidense.

No entanto, o movimento foi, ao longo dos anos seguintes, totalmente desmoralizado, com base em denúncias seletivas de corrupção, a partir das quais se afirmava que toda a ação política dos negros sulistas e o idealismo republicano eram uma simples fachada para a ação criminosa de um grupo de aventureiros corruptos que enganavam libertos desinformados.

Tal interpretação foi celebrizada em um dos filmes pioneiros da indústria do cinema americano, “O Nascimento de Uma Nação” (Griffith, 1915), no qual os cavaleiros da Ku Klux Klan são os mocinhos da história. A estreia recente e polêmica de “O Mecanismo“, de José Padilha, na Netflix, com a mesma chave maniqueísta, me levou, mais uma vez, a me impressionar com os paralelos entre os dois processos.

A Constituição de 1988 foi o primeiro texto constitucional brasileiro a reconhecer o direito de voto universal e a pluralidade racial e cultural da sociedade brasileira.

O espetáculo de humilhação pública da prisão do ex-presidente operário por “crime comum” não afetou em nada a percepção da corrupção no país, que só faz aumentar, mas tem potencial para destruir a autoestima e a autoconfiança política de milhões de brasileiros.

A capacidade política de Lula de controlar a narrativa de sua própria prisão atenuou, pelo menos por algum tempo, esta possibilidade. O ataque aos ideais democráticos da Constituição de 1988, iniciado com o golpe parlamentar de 2016, sofreu ali um revés. Como sugeriu seu inspirado discurso, por mais longo que seja, o inverno não pode impedir a primavera.

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A derrota do golpe de 2016

Publicado em 30.set.2018 às 2h00 (reproduzido parcialmente)

A paranoia contra o inexistente “kit gay” (2011/2013) e a reação à PEC do serviço doméstico (2013), episódios do primeiro governo de Dilma Rousseff, foram sintomas pioneiros do movimento reativo –pois se trata do desejo de desfazer o que já está feito– que hoje toma forma concreta e assustadora na sociedade brasileira.

A reação à presença de uma mulher, só, no Palácio do Planalto, não ocupou lugar menor no processo, mas dois outros vetores reativos precipitaram a liberação dos demônios que, desde então, vieram do porão à luz.

O primeiro é o sentimento estamental, típico de sociedades pós-escravistas. Os antigos setores médios da sociedade brasileira continuam a aspirar por um estilo de vida quase colonial: com serviços domésticos baratos e acesso diferenciado à saúde e à educação.

Apesar de um salutar movimento de pressão pela melhoria do serviço público, a maior parte da “velha classe média” simplesmente não tolerou as consequências do sufrágio universal, sobretudo a ampliação da sociedade de mercado –que trouxe mais concorrência pelos melhores empregos e vagas nas universidades e tornou os serviços privados de qualidade cada vez mais elitizados.

O segundo vetor tem mais sintonia com o mundo globalizado. Milhões adentraram à economia de mercado na era Lula, fazendo emergir, na esfera pública, uma religiosidade militante e conservadora, que se vinha afirmando desde os anos 1980 no seio das classes populares economicamente ascendentes, com setores intolerantes e fundamentalistas.

Não se conformaram, sobretudo, com a afirmação de direitos para a comunidade LGBT, inclusive ao casamento e à adoção, com base na Constituição de 1988, que hoje ampara milhares de novas famílias legalmente constituídas.

A representação política desses dois mundos reativos é legítima como qualquer outra, mas sua junção nos abriu a porta do inferno quando deixamos romper-se o tênue equilíbrio de forças que a sabedoria do voto popular conseguira garantir. Na ópera-bufa da sessão parlamentar de 17 de abril de 2016, exibida em cadeia nacional de TV, o tema da corrupção política já tinha se tornado a cereja do bolo.

O cruzamento do ethos estamental com o ethos patriarcal, unindo velhas e novas classes médias, alavancou a falsa ideia de uma “ditadura do politicamente correto”, colocando em xeque a própria noção de direitos humanos.

A ascensão de uma candidatura simplesmente fascista junto a parte expressiva do eleitorado, capaz de colocar em risco a ordem democrática, é expressão disso.

A lição mais clara dessa campanha, até agora, é a derrota eleitoral das elites políticas –parlamentares, jurídicas e midiáticas– que, ao não aceitarem os resultados das urnas, capitanearam o impeachment sem crime de responsabilidade da presidenta eleita e a impediram de governar.

A vontade elitista e antidemocrática, mas legal, de desrespeitar a vontade popular permanece. A cassação de mais de 3 milhões de títulos eleitorais pela maioria do STF foi sua mais recente expressão, mas o substrato de ódio reativo que emprestou base social à empreitada se deslocou dos seus mentores originais e hoje caminha com as próprias pernas.

E o Brasil escolheu…

Publicado em 15.nov.2018 às 2h00 (reproduzido sem alterações)

Após o golpe parlamentar de 2016, anti-intelectualismo e fundamentalismos diversos, que estão na base de uma nova extrema direita de abrangência global, rapidamente tornaram-se preponderantes na base de apoio do governo Temer.

Desde antes disso, vinham-se mostrando presentes em setores do Judiciário, numa preocupante politização dos operadores de Justiça, exemplarmente ilustrada pelas ações de cerceamento às universidades que precederam o segundo turno das eleições, a tempo declaradas inconstitucionais pelo STF.

O crescimento da extrema direita foi a grande surpresa eleitoral do primeiro turno, que se confirmou com a vitória do atual presidente eleito, no segundo. Como explicá-lo?

Facebook e WhatsApp assumiram que houve roubo de dados e uso de robôs em suas plataformas no primeiro turno das eleições no Brasil. Podem ter amplificado preconceitos que ajudaram a reverter tendências históricas de parte do eleitorado, sobretudo das classes populares. Mas não os inventaram.

Muitos apontam a circulação de notícias falsas em aplicativos e redes sociais como sintoma de nossa entrada na era da pós-verdade, caldo de cultura no qual o chamado novo “populismo de direita” seria criador e criatura. O fenômeno é mais complexo. As redes sociais democratizam as comunicações. As chamadas fake news apenas amplificam preconceitos, antes invisíveis, que passam a ter espaço no debate público.

Se houve suposto impulsionamento ilegal e direcionado dessas mensagens, o problema a se combater, nas redes ou na imprensa tradicional, é o mesmo: monopólio da informação e abuso de poder econômico.

Mais surpreendente, para mim, foi ver quase a totalidade das classes médias brancas e letradas do centro-sul do Brasil abraçar, com entusiasmo, a violência como valor (o gesto de atirar no inimigo, como símbolo).

Desde o surgimento do país como monarquia liberal e escravista, a hipocrisia, entendida como o elogio que o vício presta à virtude, constituiu-se como principal alicerce do nosso preconceito de ter preconceito e do mito da democracia racial entre nós, como nos ensinou Florestan Fernandes.

As transformações socioculturais dos últimos 30 anos parecem ter provocado uma mudança nesse traço essencial da cultura política brasileira, de consequências imprevisíveis.

É sempre importante ouvir a voz das urnas. Mesmo quando o voto do vizinho nos causa horror. Em um país racista, ainda profundamente marcado pela herança escravista nas relações sociais, que sempre autorizou o genocídio cotidiano de jovens pretos e da população LGBT nas periferias, uma parte expressiva do eleitorado das classes privilegiadas assumir o ódio como bandeira política faz sentido, ainda que seja absolutamente assustador.

Preconceito e cinismo emergiram vitoriosos e sem véus dessa eleição. Para superá-los, será preciso encarar feridas abertas, sempre presentes em nossa sociedade, que insistimos em não olhar. Será arriscado e doloroso, muito se pode avançar no autoritarismo dentro da ordem democrática, mas precisamos acreditar que a sociedade brasileira e os valores fundamentais da República de 1988 serão capazes de resistir e dar conta da tarefa.

Feliz 2019!

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A Estranha Derrota?

Inaugurando minhas atividades docente na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), fui convidada a ministrar uma disciplina de ementa aberta para a turma dos calouros, alunos que acabaram de entrar na Universidade. Inspirada no texto clássico de Marc Bloch, Apologia da História ou O Ofício do Historiador,  eu a intitulei “História Para Que?”.

Para que serve a história? Esta é a pergunta que abre o texto, escrito em um campo de concentração, inacabado por conta da execução do autor pelos nazistas em 1944. Foi o primeiro texto que li com a minha orientadora, Maria Yedda Linhares, ainda na iniciação científica. Tenho hoje a idade que ela tinha quando eu a conheci. Não tive dúvidas que era o texto que eu devia revisitar para construir a nova disciplina.

Pouco antes de Apologia da História, Marc Bloch escreveu A Estranha Derrota, misto de testemunho e exercício de história imediata sobre a capitulação francesa aos nazistas, onde o grande medievalista conjugava uma narrativa pessoal sobre os acontecimentos recentes, dos quais participara como oficial do exército francês, com reflexões sobre a história e seus condicionamentos de longa duração. A releitura do texto é, para mim, sempre instigante.  O texto de Bloch me faz refletir sobre história e testemunho, sobre lugar de fala e produção do conhecimento, sobre agência e identidades na produção dos sujeitos históricos, individuais e coletivos. Uma pequena joia do ofício do historiador, sobre o qual teorizaria no texto posterior, inacabado.

Bloch morreu num dos momentos mais trágicos de reversão de expectativas democráticas da história ocidental.  Um trauma coletivo de tal envergadura que os textos europeus de reflexão sobre o tempo e a história do período continuam imensamente atuais. O dele, inclusive.

Na primeira aula com os novos alunos, junto ao primeiro capítulo do livro de Bloch, assistimos também à icônica “Ted Talk” de Chimamanda Adichie, sobre o perigo da história única. Minha intenção era ir um pouco além da história europeia, mas, sobretudo, na linha pessoal dos textos finais de Marc Bloch, em que escreveu como um historiador e soldado francês, refletir, como brasileira, sobre a história do Brasil, enquanto estado nacional.

De um certo ponto de vista, do qual compartilho, a história do Brasil, até 1988, pode ser sintetizada na contínua produção de um outro, colonizado, ao qual se negava o direito à história e à cidadania. Para explicar de forma simples a afirmação, cito um exemplo.

Nas primeiras décadas que se seguiram à independência do Brasil, aconteceram diversas revoltas federalistas no país, todas derrotadas pela monarquia centralizada no Rio de Janeiro. Após a rendição, os líderes revoltosos com origem nas classes senhoriais foram quase sempre tratados como prisioneiros de guerra ou prisioneiros políticos e, muitos deles, depois, anistiados. Líderes de revoltas de extração popular, entretanto, pretos, pardos e caboclos, nos termos da época, foram muitas mais vezes condenados à morte , frequentemente sendo processados por crimes previstos no código criminal do império, o que basicamente desqualificava o caráter político de seus movimentos. Na Bahia, em 1837, Francisco Sabino, médico que liderara uma revolução liberal, descrito como mulato, foi condenado por incitar “insurreição de escravos”.

A  República seguiria a tradição imperial, apesar da abolição da escravidão. A Constituição de 1988 foi o primeiro texto constitucional brasileiro a tentar quebrar esta premissa, ao reconhecer o voto do analfabeto e a pluralidade racial e cultural do país. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva foi  um dos protagonistas e é o principal ícone desta vontade política de incorporação.

A vontade de inclusão da república de 1988, sob ataque desde o golpe parlamentar de 2016, foi amplificada com o acesso à internet a partir dos anos 2000.  A rede mundial de computadores representou, em todo o mundo, uma enorme democratização do acesso à comunicação e também da capacidade de produzir e difundir informações e conteúdos. Este processo trouxe, por outro lado, como efeito paralelo indesejado, uma espécie de democratização perversa, onde os mais mesquinhos sentimentos se sentiram liberados para serem publicamente compartilhados e, ao encontrar seus iguais, sentirem-se legitimados. Este segundo movimento facilitou, sobretudo nos últimos anos, a ressurgência de fundamentalismos, de fascismos e de movimentos francamente reacionários, em todo mundo.

A história é a ciência que indaga sobre os seres humanos no tempo, como ensina Marc Bloch. Ela trata de mudança. Ela se faz no presente e os acontecimento passados sempre podem ser revisitados. O passado nunca se repete, ainda que o presente esteja sempre informado pelo passado e processos de longa duração permaneçam condicionando movimentos e possibilidades.

O que me encanta nos dois últimos textos de Bloch é o otimismo que, apesar de tudo, os informa. Em uma situação extrema, eles fazem apologia da história e do ofício do historiador. Como historiador, Bloch tinha certeza do  futuro fracasso de qualquer projeto que pretenda controlar os sentidos da história, como era o caso do nazismo que combatia e que viria a assassiná-lo.

Faço esta digressão para falar do tempo presente. E, claro, de Brasil. Ontem, quando comecei a assistir a missa em celebração ao aniversário de Dona Mariza e de solidariedade ao ex-presidente Lula em São Bernardo pela Rede TVT, pela internet, o altar a céu aberto, cercado de povo, me lembrou a fotografia da missa campal em celebração à abolição da escravidão no Brasil, em 17 de maio de 1888.

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Em pouco tempo, as mesmas imagens que eu estava assistindo na internet (produzidas pela TVT) estavam no G1 e no UOL, e foram vistas por todo o país e em todo mundo, em tempo real. Lula controlava o enredo televisionado da sua própria prisão. O que me parecia totalmente inesperado e novamente me evocou o caráter surpreendente, para os contemporâneos, dos acontecimentos que precederam o desfecho político da abolição, sobretudo a desobediência civil que permitiu as fugas em massa dos últimos cativos.

Não tenho qualquer veleidade de prever o que virá nos próximos dias. Seja o que for, a capacidade política de ex-presidente Lula de controlar a narrativa dos eventos de ontem impregnou de sentidos políticos a sua “rendição”.

Como nos ensinou Marc Bloch, a história nunca se repete. E como sugeriu o inspirado discurso de Lula, por mais longo que seja, o inverno não pode impedir a primavera.

30226219_1665253480178349_1081419481768525824_oFoto Francisco Proner Ramos

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Arquivado em democracia, história e memória

Dançando na corda bamba…

Estive no encontro de artistas e intelectuais com Lula, em um hotel do Rio de Janeiro, no último sábado. Admiro muitíssimo o ex-Presidente Lula e tudo que simboliza, mas nunca pensei que defenderia sua candidatura a um terceiro mandato. É o que faço sem sombra de dúvidas e com entusiasmo neste momento. Lula com sua capacidade de diálogo democrático me parece hoje a mais forte esperança para que o estado de exceção colocado em marcha desde a sua condução coercitiva em março de 2016 possa ser revertido, restabelecendo o estado democrático de direito no país.

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Na mesa do evento, o ex-chanceler Celso Amorim, que espero ver candidato a governador do Rio de Janeiro, lembrou um velho dito popular que bem sintetiza o estado policial em que estamos vivendo desde 2016: sabemos que estamos numa ditadura quando tocam a campanhia de casa às 6 horas da manhã e temos medo de que não seja o leiteiro. O abuso das conduções coercitivas de pessoas sobre as quais não pesa acusação alguma, com endereço conhecido, que não foram previamente intimadas a depor, é prova de que o uso do aparato policial e jurídico para pura e simples intimidação política infelizmente virou rotina. O caso da verdadeira invasão policial da UFMG é só o mais recente exemplo disso. Mas é também um pouco mais.

Colocar em suspeita sem provas contundentes uma proposta da envergadura moral do Memorial da Anistia, sob direção acadêmica de uma das mais respeitadas historiadoras brasileiras, Heloisa Starling, é simplesmente inadmissível. Batizar uma operação policial de combate à suposta malversação de verbas públicas com um dos mais pungentes versos da música de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornou símbolo do movimento pela anistia, é um ataque direto à memória das lutas democráticas no Brasil.

Diante do medo, do susto e do desencanto só resta voltar aos versos de “O Bêbado e a Equilibrista”.  Mais de trinta anos depois, a esperança continua a dançar na corda bamba de sombrinha, sabendo que em cada passo dessa linha pode se machucar.

Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar!

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Passados sensíveis (sobre a polêmica em torno de Vazante, filme de Daniela Thomas)

Vazante, novo filme de Daniela Thomas, é obra de longa maturação. Há cerca de 15 anos organizei, com Mariza Soares e Sheila de Castro Faria, uma primeira consultoria de pesquisa histórica para o roteiro então em elaboração. Perdi o contato com a cineasta, ex-colega dos primeiros semestres de minha graduação em história na UFF, depois disso. Só fui reencontrá-la ao aceitar o convite para assistir o corte final, em 2016, pouco antes da estreia no festival de Berlim.

Difícil descrever o impacto que tive ao me deparar com as imagens do filme. O mundo claustrofóbico, violento e intimamente segregado da escravidão das Minas Gerais oitocentista parecia ter saído dos velhos manuscritos com os quais comumente trabalhávamos – inventários post-mortem, processos criminais, registros paroquiais, iconografia de época… e se transformado em cinema, sob o ponto de vista de Antônio, tropeiro/traficante de escravos, português de meia idade e de sua segunda esposa, a menina Beatriz, obrigada a casar com o viúvo de sua tia, 40 anos mais velho, antes de completar 12 anos de idade.

Antônio decide se servir sexualmente de Beatriz apenas depois da primeira menstruação. Com o dote recebido pelo casamento, a família da menina, que vivia em um sítio dentro da propriedade de Antônio, muda-se para a cidade do Serro. Beatriz, sua avó e Antônio tornam-se os únicos brancos na fazenda.  Vivem em meio de africanos recém-chegados do tráfico transatlântico, conduzidos a ferros para serem vendidos como escravos na região, que por vezes fugiam e se aquilombavam nas redondezas, de escravizados e libertos tropeiros, que vigiavam os recém-chegados e conduziam os comboios de mercadorias, e em meio à comunidade de senzala da fazenda – formada por cativos e libertos que administravam o dia a dia da propriedade na ausência do senhor.

A primeira metade do filme é contada sob a perspectiva de Antônio, como um Casa_ Grande_e_Senzala no qual o comércio de mercadorias e de cativos ocupa lugar central. Antônio é uma “ilha branca” cercada de corpos negros que, a maior parte do tempo, o obedecem. Por que?  É na branquitude de Antonio e no seu poder de trazer as mercadorias que chegam dos portos do novo país até aqueles sertões, do sal a trabalhadores africanos escravizados, que se encontram as chaves do seu poder. O filme coloca o espectador no ponto de vista do senhor/traficante de escravos, buscando uma quase empatia, o que provoca angústia e mal-estar.

Antônio não é sádico, mas se mostra funcionalmente cruel. Obriga sexualmente a africana Feliciana, mãe do jovem Virgílio, representada pela atriz Jai Baptista, em atuação soberba, em um estupro continuado e regular. Depende do casal Joana e Porfírio para administração da fazenda nas suas muitas ausências, incluindo os cuidados com sua sogra e a menina/esposa, proporcionando um poder específico e uma relativa autonomia para a comunidade de senzala – o que efetivamente acontecia nas fazendas escravistas dos sertões. O preço pago era a naturalização da tortura, dos ferros e dos açoites, administrados pelos próprios feitores negros, cativos ou libertos, como o personagem Jeremias, sobretudo para fazer dos africanos novos, trabalhadores escravos. Neste jogo de ambiguidades, os personagens negros são defendidos por atuações vigorosas, que fazem o espectador vislumbrar um mundo negro de hierarquias e tensões, mas também de solidariedades e segredos – que, como o branco Antônio, o espectador não conhece nem consegue alcançar. Talvez se o roteiro do filme avançasse um pouco mais neste mundo apenas sugerido, fosse menos doloroso como experiência, sobretudo para plateias negras. Por outro lado, se o fizesse, romperia com a opção de contar a fazenda escravista a partir do olhar branco, raiz do mal-estar que a narrativa provoca.

A partir de um determinado ponto da história, o foco narrativo se desloca de Antonio para a menina Beatriz, que com a avó enlouquecida desde a morte da filha, durante as longas viagens do tropeiro, cresce sob a proteção e os cuidados da comunidade de senzala. A ingenuidade do olhar de Beatriz, um olhar quase infantil, feminino e também subalterno, nos deixa ver um pouco mais do mundo negro que a envolve e nos permite acompanhar sua aproximação com Virgílio. Os dois jovens conseguem viver a paixão que os une antes de se consumar o casamento dela. O quarteto Antônio, Feliciana, Beatriz e Virgílio é o condutor do filme até o seu final trágico e alegórico:  a mestiçagem brasileira como filha da violência e do estupro, o genocídio negro como consequência e a possibilidade de empretecimento como redenção.

Em tempos de “Django Unchained” explodindo a plantation, Vazante escancara o absurdo de imaginar a escravidão como mito fundador de uma nacionalidade brasileira racialmente “democrática”, como ainda faz a leitura canônica de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. É um filme sobre patriarcalismo e racismo, que constrói sua narrativa do ponto de vista da sinhazinha branca “vendida” como esposa aos 12 anos. Apesar ou por causa disso, tem sido quase insuportável para as primeiras plateias negras que o assistiram. Crítica de Juliano Gomes, na revista CINETICA, fala da angústia que o filme suscita e o acusa indignado de reforçar imagens coloniais ao se limitar à velha “impotência da superconsciência branca”. Têm razões desse ponto de vista, Vazante não descoloniza o olhar, pelo menos como leitura imediata.

A crítica de Juliano é, porém, dilacerada, desenvolvida a partir de uma dupla possibilidade de recepção da obra. Muito do que escrevi aqui me foi suscitado por ela. Ao assumir como título “A nova fita branca”, que suponho referir-se ao filme “A Fita Branca“, de Michael Haneke,  que sugere, como raízes do Mal que possibilitou a ascensão do nazismo, as relações familiares da Alemanha de início do século XX, me ofereceu a chave de leitura que busquei desenvolver neste texto: o racismo íntimo como Mal que está na raiz da brasilidade. Os comentários sobre a catarse coletiva durante a discussão do filme no festival de Brasília têm esquecido de se referir sobre o silêncio branco na sala de debates.

Vazante mobiliza passados sensíveis. Quebra com a ética do silêncio sobre nossas identidades racializadas e nos faz brancos ou negros quando o assistimos. Foi desenvolvido em co-produção com Portugal, em um momento em que setores da sociedade portuguesa tentam romper o silêncio racial para combater o mito do bom colonialismo, como a recente série de reportagens do jornal O Público, sobre o tema, ilustra. Com imediata reação de intelectuais conservadores brancos, brasileiros e portugueses.  É um filme que fala sobre racismo e patriarcalismo de um ponto de vista eticamente crítico, mas sociologicamente compreensivo. Vem produzindo reações vigorosas das sensibilidades e plateias negras felizmente presentes e ativas no século 21. Entre o ressurgimento do conservadorismo branco e as demandas de protagonismo dos movimentos negros, os debates e silêncios na recepção da obra são parte integrante da potência do filme.

Vazante desnuda o racismo e o papel fundamental do tráfico de escravizados no colonialismo português e no Estado brasileiro que o sucedeu. No filme, os cativos da África foram interpretados por novos imigrantes africanos, cada vez mais presentes no Brasil de hoje, e os integrantes da comunidade de senzala por moradores dos quilombos das cercanias das locações, sem dúvida remanescentes dos cativos que interpretam e do continuum de comunidades de senzala, camponeses negros livres e quilombolas históricos que, então, formavam o mundo negro das Minas Gerais.

Vazante  é uma experiência estética deslumbrante que provoca mal-estar. Um mal-estar a ser enfrentado. Precisamos falar do trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu. Dos passados de violência em cada família, negras ou brancas. Da violência das mestiçagens que nos constituíram e se reinventaram nas imigrações europeias que se seguiram. De racismo e privilégio. De dor e ressentimentos.

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Sobre esperança e democracia

O texto a seguir foi encaminhado à Folha de São Paulo (Opinião: Tendências e Debates), no dia seguinte à condenação de Lula pelo incrível caso do “triplex” (13/7). Foi publicado, com alguns cortes de citações e com uma foto escolhida pelos editores, que lhe acrescentava sentidos, em 01/08. Um dia significativo: véspera da autorização ou recusa, pela Câmara dos Deputados, do pedido do MP para processar Michel Temer criminalmente e dia de mais um adiamento do julgamento do pedido de habeas corpus de Rafael Braga. Decidi republicá-lo aqui no blog, em versão ampliada, para registrar, com os devidos créditos, as citações de alguns textos e entrevistas que o inspiraram. Para fins de arquivamento e com uma tênue esperança de estar errada quanto aos resultados da votação de hoje no Congresso. #ForaTemer #DiretasJá

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Sem esperança, não há democracia

Em uma recente roda de conversa em que participei em São Paulo no Centro Ruth Cardoso, com Marcelo Ridente e Renato Janine Ribeiro, em comemoração aos 60 anos da Fulbright, Marcelo nos fez todos constatar que, pela primeira vez, desde o final dos anos 1970, olhávamos com pessimismo para o futuro do Brasil. Tentei me consolar da triste realidade refletindo sobre o caráter internacional da crise que vivemos, mas logo lembrei que o pessimismo à brasileira estava fundado em algo mais do que o sentido reacionário, stricto sensu, dos eventos sociais que estão na base da onda conservadora que assola o mundo.

O avanço reacionário no Brasil tem um travo mais amargo. Ele vem junto com a nostalgia de um ordenamento estamental de sociedade, inscrito sobretudo no desrespeito à soberania popular. Um desrespeito naturalizado na velha formulação de que o povo não sabe votar, o que torna possível aprovar, sem qualquer constrangimento, um programa de reformas, em muitos aspectos inconstitucional e contrário a direitos humanos fundamentais dos quais o Brasil é signatário, inequivocamente derrotado nas urnas.

O avanço reacionário no Brasil está inscrito também, e principalmente, na dificuldade do nosso judiciário, quase todo recrutado nas classes médias e altas tradicionais, em julgar de forma imparcial os integrantes do grupo racial e social a que pertence a maioria dos seus membros, o que resulta em “uma certa dificuldade de prender os iguais” nas palavras do Ministro Barroso do Supremo Tribunal Federal.

Nossas instituições jurídicas, ainda que funcionando livremente, não foram capazes de impedir o golpe parlamentar de 2016, perpetrado por congressistas quase todos acusados, com provas, da prática do crime de corrupção passiva. Representantes das mais diferentes instâncias do judiciário brasileiro podem condenar, sem provas concretas e a penas exorbitantes, jovens negros portadores de pinho sol que ousam sair às ruas em manifestações políticas ou ex-operários que ousaram ser Presidente da República e tirar o Brasil do mapa da fome, mas mantém livre e exercendo mandato parlamentar, com base em noções aristocráticas de reputação e honra, senadores de famílias de elite com flagrante de corrupção passiva e obstrução da justiça denunciados pelo Ministério Público.

#LIbertemRafaelBraga

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Golpes parlamentares podem derrubar presidentes de forma ilegítima, a justiça pode legalmente produzir injustiças, mas nada é mais grave do que a perda de confiança nas instituições democráticas que estas ações desencadeiam. Alguém ainda espera que o congresso vá autorizar a investigação das gravíssimas denúncias contra Michel temer? Sem esperança, não há democracia.

Desde sua primeira eleição, em 2002, tem havido comparações entre o papel histórico de Luís Inácio Lula da Silva no Brasil com o de Abraham Lincoln, nos Estados Unidos. Pode-se dizer, no mínimo, que a emergência política de ambos foi consequência das chamadas revoluções de mercado, ocorridas nos dois países nas décadas que precederam seus governos, na primeira metade do século XIX nos Estados Unidos e na segunda metade do século XX no Brasil. Lincoln e Lula buscaram aprofundar o que percebiam como efeitos positivos da generalização da economia de mercado, mas também democratizar os seus efeitos.  Lincoln nunca foi um abolicionista radical, nem Lula um socialista, como sempre registraram seus críticos à esquerda. Mas as sociedades estamentais que eles desafiaram não os puderam perdoar. Como a velha elite estamental sulista derrotada, os golpistas brasileiros estão à procura de seu John Wilkes Booth. O medo às vezes mata a esperança. Sérgio Moro se apresenta para o papel, trocando a pistola pela toga.

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Uma sociedade nascida estamental sempre será estamental?

É um acinte à democracia o desrespeito com a figura presidencial de Luís Inácio Lula da Silva.  A requisição judicial de presentes recebidos pelo político, no exercício da Presidência da República, depositados no Instituto Lula, é quase inacreditável. É a dignidade presidencial do ex-chefe de estado que basicamente se busca atingir. Como nas antigas sociedades estamentais, onde as pessoas eram consideradas diferentes em dignidade e direitos, às vésperas do dia do trabalho, o presidente operário, com dezenas de titulo de doutor honoris causa de universidades de todo o mundo, não parece merecer o mesmo respeito que seus antecessores da justiça do país que governou.

No estado nacional brasileiro, que desde a sua primeira constituição reconheceu formalmente a igualdade de todos os cidadãos perante à lei, o padrão de comportamento é antigo e remonta mais uma vez aos tempos do chamado “Regresso” (1837). O movimento político garantiu a  centralização política e a generalização do tráfico ilegal de africanos escravizados no Brasil imperial, acionando a velha lógica estamental na nova ordem formalmente liberal.

Na derrota das insurreições federalistas que marcaram o chamado período regencial, lideranças políticas populares foram sistematicamente criminalizadas ou associadas à condição escrava, enquanto opositores de elite eram anistiados. Um comportamento judicial tão injusto quanto atual. Lembremos da condenação recente e absolutamente escandalosa de Rafael Braga. Uma sociedade nascida estamental sempre será estamental?

O país dos elegantes continua atado ao século 19. O STF liberou o teto salarial da alta burocracia federal na mesma semana em que o congresso nacional, quase todo acusado de corrupção, aprovou a retirada de direitos trabalhistas da maioria da população. E isso só foi noticiado como escândalo no New York Times.

A atual mobilização dos trabalhadores brasileiros combate bem mais do que uma pauta neoliberal de reformas econômicas. Os trabalhadores brasileiros lutam pelo direito ao século 20, por seus direitos políticos, civis, sociais e culturais, garantidos na Constituição de 1988.

A truculência ilegal da repressão às manifestações ocorridas durante a greve geral de 28 de abril ameaça os mais básicos direitos civis. A unidade de narrativas da grande mídia, negando os fatos e a palavra greve, aprofunda o ataque, golpeando, a um só tempo, direitos civis e direitos sociais. O escândalo de um governo não eleito aprovando a toque de caixa uma pauta de reformas derrotada nas urnas coloca em cheque a garantia dos direitos políticos e a soberania do sufrágio popular. Um dia antes da greve geral de 28 de abril, povos indígenas em luta pela demarcação de suas terras e pelo direito à diversidade cultural tiveram a entrada barrada no Congresso Nacional.

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A exclusão simbólica dos indígenas do mundo da política e o ataque à dignidade do presidente operário são gestos complementares da pauta estamental do golpe de 2016.

Dizem que a jabuticaba é uma fruta que só existe no Brasil. A prevalência da linguagem dos direitos está em cheque em todo mundo, não apenas no Brasil, mas o país cultiva algumas “jabuticabas” podres difíceis de engolir.

FRANCA10

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O fim da era dos direitos?/What global issues are more relevant for contemporary Brazil?

O texto abaixo foi escrito para ser lido para ouvidos estrangeiros, mas creio que ajuda a entender a profundidade do luto e da incerteza em que as instituições democráticas brasileiras se encontram mergulhadas.  Seguem o original em inglês e uma versão em português para os que estiverem interessados.

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What global issues are more relevant for contemporary Brazil?// Quais questões globais são mais relevantes para o Brasil contemporâneo?

(Debate realizado no Columbia Global Center do Rio de Janeiro, em 24 de abril de 2014. Texto apresentado por Hebe Mattos. Participantes no Rio de Janeiro: Luiz Felipe Alencastro, Bolivar Lamounuer, Daniela Pinheiro, Hebe Mattos, debatedores por vídeo conferência: Katharina Pistor, Josh Simon, Somini Sengupta, Vishakha Desai, Carol Gluck e Safwan Masri)

Good afternoon to all. I’d like to thank the Columbia Global Center of Rio de Janeiro for this invitation. I really appreciate the opportunity to participate in this debate.// Boa tarde a todos. Gostaria de agradecer ao Columbia Global Center do Rio de Janeiro por este convite. Aprecio muito a oportunidade de participar neste debate.

I chose to discuss just one global issue that seems to me the more relevant in the present contemporary social and political context in Brazil: the emergence of a new popular right wing global public opinion that challenges the understanding that tolerance, expansion of rights and freedom are or should be the main tools of contemporary democracies. It’s a reactionary global movement, stricto sensu, that put religious believes, racism and xenophobia once more in the world political agenda. // Escolhi discutir apenas uma questão global que me parece mais relevante no atual contexto social e político contemporâneo no Brasil: o surgimento de uma nova opinião pública popular de direita que desafia a compreensão de que tolerância, expansão dos direitos e  liberdade  são ou deveriam ser as principais ferramentas das democracias contemporâneas. É um movimento global reacionário, stricto sensu, que recoloca convicções religiosas, racismo e xenofobia mais uma vez na agenda política mundial.

The emergence of this new sociopolitical force in the Brazilian electoral scene was ironically a consequence of the expansion of the size of the market economy in the last decades and a great political surprise. The breakdown of the so called “presidencialismo de coalisão” led to the rupture between the new right wing popular middle class that vote for PMDB and others called physiological political parties and the left wing popular and middle class electors of Partido dos Trabalhadores.//O surgimento dessa nova força sociopolítica na cena eleitoral brasileira foi ironicamente uma consequência da expansão do tamanho da economia de mercado nas últimas décadas e uma grande surpresa política. A desagregação do chamado “presidencialismo de coalisão” levou à ruptura entre a nova classe média popular de direita que vota pelo PMDB e por outros partidos políticos de perfil fisiológico e os eleitores à esquerda, de camadas populares ou classe média, do Partido dos Trabalhadores.

By the other hand, the presence of this new electoral force in Europe and the US has also had a huge impact in Brazil, encouraging Brazil’s old elitist and authoritarian political traditions to “get out of the closet”. Anti-liberal political tradition was always strong in Latin America, both in the left and the right wings. In Brazil, however, acting with effectiveness to reverse electoral results was always more common in the discourse and practice of the right wing, even when it assumed economic liberalism as a political program. “Elite’s coup d’état”,” not necessarily by military hand, much more frequently by elite conciliation, was quite a national tradition, an old fashion phantom of politics in the country, that had seemed to have been overcome with the Constitution of 1988.//  Por outro lado, a presença desta nova força eleitoral na Europa e nos EUA teve impacto em diversos setores da elite econômica e da chamada alta classe média, incentivando velhas tradições políticas elitistas e autoritárias a “sair do armário”. A tradição política anti-liberal sempre foi forte na América Latina, tanto na esquerda quanto na direita. No Brasil, no entanto, atuar com eficácia para reverter resultados eleitorais foi sempre mais comum no discurso e na prática da direita, mesmo quando assumiu o liberalismo econômico como um programa político. O desrespeito aos resultados das urnas, não necessariamente por mão militar, muito mais frequentemente por conciliação de setores das elites políticas, é praticamente uma tradição nacional, um velho fantasma da política que parecia ter sido superado com a Constituição de 1988.

The encounter of the old elitist political culture with the new right-wing force present in Brazilian society and institutions built the social basis of the parliamentary coup against the elected President Dilma Rousseff that happened last year. The cost of the institutional coup for Brazilian democracy is incommensurable, and, up to this moment, there are no political forces or institutions in the country to reverse it. An impeachment based only on political reasons resulted in a non-elected new government, formed by conservative old white men, almost all of them accused of corruption, putting in practice deep constitutional reforms and other political proposals defeated in the last general election.// O encontro da velha cultura política elitista com a nova força de direita presente na sociedade e nas instituições brasileiras construiu a base social do golpe parlamentar contra a presidente eleita Dilma Rousseff ocorrido no ano passado. O custo do golpe institucional para a democracia brasileira é incomensurável e, até o momento, não há forças ou instituições políticas no país para reverter isso. Um impeachment baseado somente em razões políticas conduziu a um governo não-eleito, formado por homens brancos, com idade elevada e conservadores, quase todos acusados da corrupção, colocando em prática propostas de reformas constitucionais derrotadas nas últimas eleições gerais.

My point here is: neither the current ethic crisis, highlighting the pervasiveness of corruption and hypocrisy in Brazilian political practices – nor the present economic recession – would be problems to Brazilian democratic institutions if the electoral result would not have been disrespected in 2016. This opened the door for practices of exception with unforeseen consequences.// Meu ponto aqui é: nem a crise ética atual, que evidencia o caráter pervasivo da corrupção e da hipocrisia nas práticas políticas brasileiras  nem a atual recessão econômica seriam problemas para as instituições democráticas brasileiras se o resultado eleitoral não tivesse sido desrespeitado em 2016. O golpe abriu as portas para práticas de exceção com consequências temerárias e imprevisíveis.

Whatever the electoral force of the new Brazilian popular right wing might be, whatever the discredit of traditional political parties might be, only new general elections can bring some hope to the crisis of political legitimacy that, at this moment, challenge the future of Brazilian democracy.// Qualquer que seja a força eleitoral da nova direita popular, qualquer que seja o descrédito dos partidos políticos tradicionais, só novas eleições gerais podem trazer alguma esperança à crise de legitimidade política que, neste momento, desafia o futuro da democracia brasileira .

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I’d like to thank once more the organizers. Promoting a real dialogue in a global perspective among scholars of different cultural, political and intellectual backgrounds is the right thing to do. I’m pretty sure of that. Interdisciplinary collaboration and episteme interchange are goals to be achieved to make this dialogue truly productive.// Gostaria de agradecer mais uma vez os organizadores. Promover um diálogo real numa perspectiva global entre estudiosos de diferentes contextos culturais, políticos e intelectuais é a coisa certa a fazer. Eu tenho certeza disso. A colaboração interdisciplinar e o intercâmbio entre epistemes são metas a serem alcançadas para tornar este diálogo verdadeiramente produtivo.

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