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Sobre Hebe Mattos

Hebe Mattos é Professora Titular de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense e coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem da mesma universidade (LABHOI/UFF). É autora, entre outros livros, de Ao Sul da História (1987, 2009); Das Cores do Silêncio (1995, 1998, 2013) e Memórias do Cativeiro (com Ana Lugão Rios), 2005.

O Medo do Espelho

O golpe parlamentar de 17 de abril de 2016, o dia da infâmia, completa um ano. Naquele dia, o show de horrores da câmara dos deputados, comandado pelo hoje condenado Eduardo Cunha, pela primeira vez expôs aos holofotes do mundo a hipocrisia secular e a putrefação ética atual da classe política brasileira. O triste espetáculo não foi suficiente para fazer surgir, no âmbito do poder judiciário ou da opinião pública, alguma iniciativa capaz de impedir a cassação ilegal dos 54 milhões de votos que elegeram a presidente Dilma Rousseff.

Formei-me historiadora em plena luta – vitoriosa – pela redemocratização do país que marcou a década de 1980. Chamada por economistas de “década perdida”, naqueles anos vi nascerem meus três filhos, movimentos sociais ainda fortemente ativos na cena pública, meu primeiro livro e a esperança de que a ainda que tardia implantação do sufrágio universal na experiência política brasileira, com a extensão do direito de voto aos analfabetos, era o condão que faltava para a consolidação de uma institucionalidade democrática no país. A medida me parecia antídoto eficaz para a velha tentação elitista e oligárquica do nosso ordenamento político, uma espécie de ethos estamental estruturante, nascido sob a égide da cultura patrimonialista e da instituição da escravidão. O que aconteceu no Brasil no outono passado abalou essa esperança. A cassação dos 54 milhões de votos que elegeram Dilma Rousseff por uma manobra parlamentar duvidosa, mas sancionada por agentes do judiciário pautados pelos holofotes de empresas de mídia decididas a derrubar a presidenta, foi algo além do que eu ousara imaginar nos meus piores pesadelos.

É irônico que o primeiro ano do golpe de 2016 seja celebrado ao som das repercussões da lista de Fachin e do vazamento das gravações das delações da Odebrecht. A metáfora da República dos Cupins para qualificar o governo de usurpadores que sucedeu a presidenta me foi inspirada pelo filme Aquarius, que estreou na mesma época,  e se mostrou praticamente profética.

No premiado filme de Kleber Mendonça Filho, o velho edifício Aquarius, onde se passa a história, é finalmente condenado à destruição por uma infestação de cupins criminosamente provocada. Como no filme, na crise atual não sabemos mais se será possível vencer a cultura política da hipocrisia mantendo de pé o edifício democrático. Na maioria das vezes em que setores expressivos da sociedade brasileira a combateram foi para abraçar projetos abertamente autoritários. E é a repetição da velha história que mais uma vez nos ameaça. A História, decididamente, não é a mestra da vida.

O tema da hipocrisia como cultura política brasileira foi uma das linhas de força que compuseram o livro Historiadores Pela Democracia: o golpe de 2016 e a força do passado, presente sobretudo em textos originalmente publicados aqui no blog e no tumblr historiadores pela democracia. O engajamento politico de historiadores do Brasil colonial e escravista na resistência contra o golpe parlamentar de 2016 se fez a partir de uma percepção clara do sentido reacionário, stricto sensu, de que se revestia a onda de ódio que dava substrato social aos eventos.

Ainda que haja um óbvio fundo factual na força dessas tradições, sempre me insurgi a fazer delas camisas de força insuperáveis, definidas pela gramática da incompletude ou da falta. Estaríamos, nós, brasileiros, condenados à conciliação das elites e à cultura dos privilégios, eternamente mal adaptados à modernidade democrática?  Há aí, do meu ponto de vista, toda uma história de conflitos, agências, atualizações e redefinições de tradições a serem mais bem compreendidas e narradas.

Não é surpresa para qualquer pessoa minimamente informada que as relações promíscuas entre empreiteiras e poder público no Brasil remontam aos anos 1950 e se aprofundaram durante a ditadura militar. A divulgação do depoimento de Emilio Odebrecht, apontando o que chamou de “demagogia” da “grande imprensa” brasileira, que teria conhecimento das práticas agora trazidas a público há pelo menos 30 anos, reforça uma vez mais a analogia do momento atual com a retomada do tráfico negreiro após a sua proibição formal pelo primeiro estado nacional brasileiro, em 1831. Apesar disso, não apenas as semelhanças, mas também as diferenças entre os dois contextos, merecem ser ressaltadas.

O artigo 179 da Constituição Monárquica de 1824 reconhecia amplamente os direitos civis de todos os brasileiros, revogava a tortura e o castigo infamante e todos os privilégios hereditários do antigo regime português. Os direitos políticos eram censitários assim como na ordem constitucional inglesa, estadunidense ou francesa do mesmo período. A escravidão ficava mantida como instituição histórica, em nome do direito de propriedade, mas o novo estado se comprometia a interromper o tráfico atlântico e os novos processos de escravização, como então acontecia na República escravista dos Estados Unidos, e também nos impérios coloniais (ainda escravistas) da França e da Inglaterra.  Na Constituição brasileira, mais generosa no que se refere à inclusão racial do que a de seus pares escravistas do Ocidente, à exceção da Inglaterra, os libertos não poderiam ser eleitos, mesmo tendo a renda exigida, mas não havia restrições formais aos direitos políticos de seus descendentes. Segundo os liberais da época, no Brasil havia apenas escravos ou cidadãos.

A lei de extinção do tráfico de 1831 não foi aprovada “para inglês ver”, como passou para a história. Muitos lutaram para que fosse implementada, especialmente setores urbanos integrantes da população livre dita “de cor”, maioria no país, que formavam entre os chamados liberais exaltados, grupos que enfatizavam a linguagem dos direitos na sua apropriação do liberalismo histórico.

Mas a lei de 1831 também se tornou alvo de um vigoroso processo de desobediência por parte de setores da classe senhorial que, em nome da liberdade de mercado, e de uma leitura utilitarista do liberalismo, sustentavam a expansão escravista da lavoura cafeeira, que rapidamente se tornaria a base da economia nacional, inserindo com sucesso o novo país no mercado capitalista global em expansão.

A retomada do tráfico atlântico foi o substrato econômico mais importante do movimento político conhecido como Regresso, que alcançou o poder em 1837.  Ainda assim, não conseguiram revogar a lei de 1831 (ainda que tentassem), optando por fechar os olhos para seu descumprimento. Como tenho reiteradamente repetido, a hipocrisia generalizada como política de estado nascia ali.

Também o racismo institucional brasileiro se definiria naquele contexto. Uma outra lei, de 1830, proibira a imigração de africanos livres, inaugurando – também pela via da hipocrisia – a institucionalização do racismo no país, que culminaria na prática de silenciar sobre a cor dos brasileiros livres nos documentos oficiais. O racismo à brasileira e a hipocrisia como tradição política têm origens comuns, se não são, a rigor, a mesma coisa.

O medo do espelho, o horror de olhar a própria imagem, como na famosa narrativa do livro O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, pode ser uma boa metáfora para a cultura da hipocrisia na política brasileira nascida junto com nosso primeiro estado nacional.

A lei que colocaria fim ao tráfico atlântico de escravizados, em 1850, sem revogar oficialmente a lei de 1831, o fez com o compromisso tácito das autoridades de manter o silêncio sobre a ilegalidade anterior. Depois dela, cerca de 750 mil africanos continuariam escravizados ilegalmente com a cumplicidade das autoridades imperiais.

Também o silêncio oficial sobre a cor da população livre inaugurado nessa mesma época mostrar-se-ia tradição duradoura na nossa história administrativa e um dos principais alicerces do nosso racismo institucional. A recente experiência democrática brasileira foi capaz, entretanto, de romper com ela, com a aprovação do estatuto da igualdade racial em 2010.

É possível vencer o medo do espelho como projeto político? Enquanto sociedade democrática, seremos capazes de olhar para nossa imagem no espelho, ficar horrorizados com ela, e ainda assim fazer a coisa certa: respeitar as regras do jogo e refundar o país em novas eleições diretas?

Com a divulgação da lista de Fachin, o “compromisso tácito de silêncio sobre a ilegalidade anterior”, que caracterizou o acordo para a aprovação da lei de 1850, pode não se atualizar em 2017.

Também a tentação autoritária – a outra forma frequentemente assumida pelo silêncio/hipocrisia brasileiros  – pode não se apresentar como sina?

As culturas de ódio e os perigos da “logaritimização” do debate político, com suas bolhas de comunicação determinadas pelo funcionamento das novas redes sociais, são riscos globais. Ainda assim, o processo de urbanização, a massificação do acesso ao letramento e à cultura audiovisual e mais de 30 anos de experiência democrática construíram um espaço de debate público no Brasil do século 21 de dimensões incomparáveis com as que prevaleceram nos séculos 19 e 20. As virtudes da experiência democrática iniciada em 1988 são incomparavelmente maiores do que os limites éticos do presidencialismo de coalizão, de profundas raízes na tradição política brasileira. São essas virtudes que podem ter tornado os antigos vícios, finalmente, intoleráveis.

Somos hoje uma sociedade culturalmente plural e fragmentada por diferenças políticas que dificilmente serão bem compreendidas se continuarem a ser lidas de forma binária ou maniqueísta.

Novos e velhos atores políticos nem sempre se entendem e veem estupefatos práticas ilegais antes silenciadas serem expostas à luz do dia.

No momento em que finalizo este texto, entretanto, a cultura política da hipocrisia continua a processar seletivamente a difusão de novas informações e a tentar impor aspas ao golpe parlamentar de 2016.

Como de hábito, os mortos assombram os vivos.

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Escravidão e Subjetividades

O livro didático História, Sociedade e Cidadania, voltado para o ensino médio, de Alfredo Boulos Junior, citou uma frase minha sobre a abolição em uma de suas questões, contrapondo a uma afirmação de Emília Viotti da Costa, uma das referências em minha formação como historiadora. Reproduzo aqui:

DEBATES DA HISTORIA: A abolição tem sido alvo de constantes debates entre os historiadores. Para alguns, como Emília Viotti da Costa, professora da Universidade de São Paulo (USP), “a abolição libertou os escravos do pesado fardo da escravidão e abandonou os negros à sua própria sorte”. Para outros, como a historiadora Hebe Maria Mattos, professora da Universidade Federal Fluminense, “a abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros […]”. Qual delas, em sua opinião, tem um argumento mais convincente? Justifique.

Li a questão e fiquei pensando, serão as duas afirmações realmente opostas? A história da experiência do racismo, entendido como memória/estigma da escravidão, aproxima, me parece, as duas assertivas. Por que (e como) o acontecimento ímpar da abolição (que reconheceu a igualdade civil entre todos os brasileiros, libertando os escravizados do fardo pesado da escravidão) não implicou na superação do racismo no Brasil, abandonando os “negros”, categoria socialmente construída, à sua própria sorte? Esta é a questão que as duas afirmativas tomadas em conjunto provocam.

Pensar a experiência da escravidão, do racismo e da violência colonial como trauma, individual e coletivo, é um campo de reflexão que tem se expandido nos últimos anos.

Em um contexto que entrelaça estruturas políticas do antigo regime e expansão comercial europeia na África e nas Américas, as relações entre capitalismo e escravidão, caras à Emília Viotti da Costa, também têm sido intensamente revisitadas.

Nesse cenário, uma história da constituição do mundo atlântico que englobe as estruturas políticas preexistentes à expansão europeia e a experiência do estigma da colonização e da escravização das populações indígenas e africanas apenas começa a ser escrita.

Este foi um dos pontos de coesão dos textos da coletânea Escravidão e Subjetividades no Atlântico Luso-Brasileiro e Francês, que organizei com Myriam Cottias, historiadora francesa da escravidão e da memória da escravidão, com textos de autorxs brasileirxs e francesxs, entre eles Martha e Keila aqui do Blog. O livro foi lançado em e-book neste ano de 2016, como resultado do edital Saint-Hilaire, cooperação acadêmica entre Brasil e França na área das humanidades.  

Convido os leitores do blog a acessarem a obra, disponível online, em português e francês. Com o livro, procuramos ressaltar a importância de insistir na história social como processo, e nos “jogos de escala” como estratégia, para enfrentar os dilemas que mais de 3 séculos de escravização africana nas Américas apresentam para a contemporaneidade. 

Os capítulos abordam experiências de sujeitos históricos individuais, entendidos como agentes sociais. De fato, na maioria dos casos, os autores os consideram também, ainda que nem sempre explicitamente, como sujeitos sensíveis, tomados como subjetividades específicas, ainda que em sociedades não individualistas, como era o caso da maioria das sociedades escravistas, sobretudo antes do século 19. Este segundo ponto de costura dos textos emergiu da leitura final do conjunto pelas organizadoras e acabou sendo escolhido como título do trabalho. 

Escravidão e Subjetividades revisita as sociedades escravistas do Atlântico luso brasileiro e francês desde o ponto de vista dos sujeitos racializados que elas acabaram por produzir.

Aborda as subjetividades racializadas dos “livres de cor”construídas pelas práticas do catolicismo na América portuguesa do século 18 através  da trajetória do Santo Pardo Gonçalo Garcia no Recife  [Larissa Vianna] e a institucionalização do racismo em Portugal, com a manutenção da mancha de sangue para os escravos libertados pela abolição da escravidão no reino, no mesmo período [Antônio Mendes].

Discute  a interseção entre classificacões jurídicas e subjetividades no colonialismo católico português e francês,  inclusive nas escolhas matrimoniais de índios e africanos livres ou escravizados [Charlotte Castelnau-LÉstoile] ou nas relações políticas, mas pessoalizadas, entre monarcas africanos e europeus, apagadas da memória enquanto seus registros se transformavam em objeto de museus coloniais [Mariza Soares].

Conecta aspirações de cidadania e histórias de vida ao analisar as expectativas frustradas de integração dos “livres de cor” no Haiti pre-revolucionário [Dominique Rogers], as desventuras de Rufina, sequestrada e vendida como escrava para o Brasil duas vezes na vida – uma na África outra no Uruguai [Keila Grinberg], as subjetividades cativas reveladas nos diários do administrador de uma plantation na Martinica [Myriam Cottias], as experiências diferenciadas de africanos livres ou resgatados da escravidão como trabalhadores por contrato, no Caribe francês, após a abolição da escravidão [Céline Flory].

Por fim, aborda as relações entre racialização e subjetividades na trajetória de artistas negros que encenaram estereótipos racistas no Brasil, na França ou nos Estados Unidos [Martha Abreu], bem como na solidão de intelectuais afro-brasileiros  [Hebe Mattos] e afro-franceses [Elsa Geneste] frente ao colonialismo europeu na África de finais do século 19.

Por conta do Escravidão e Subjetividades,  fui convidada a participar, no final de outubro, de um seminário multidisciplinar sobre o impacto psicológico da escravidão para as populações da diáspora africana, que reuniu psicólogos, psiquiatras, historiadores e cientistas sociais, na Martinica.

Faço parte da geração que,  nos anos 1980,  fez mais profundamente a crítica da influência das chamadas teorias da patologia social na famosa “escola sociológica paulista”, por transformarem a experiência da escravidão em um  quase completo aniquilamento cultural e moral para escravizados e libertos. Durante o seminário, tive oportunidade de refletir sobre  a pertinência do problema de base daqueles trabalhos, entre eles os textos seminais de Florestan Fernandes e Emília Viotti da Costa: as desvantagens sociais e psicológicas inerentes à experiência da escravidão e do racismo e sua reprodução no pós-abolição.  E sobre a importância de revisitá-lo de perspectivas que integrem as subjetividades negras, com sua agência social e riqueza cultural,  no centro das discussões.   

Na semana seguinte, participei de um segundo seminário, Slavery and Global Public History. Comecei a escrever este texto no avião, retornando da Universidade de Brown. Neste caso, foi a experiência do projeto Passados Presentes que me trouxe até ali. Pensar a representação da escravidão no espaço público é também pensar as subjetividades negras e a construção (e desconstrução) do racismo na contemporaneidade.  Foram ricas e sugestivas as discussões sobre descolonização de narrativas, propondo desconstruir e desnaturalizar imagens coloniais e escravistas nos espaços de museus e livros didáticos, sem apagar sua memória social ou existência como imagem de arte. 

Ao chegar ao Rio, o turbilhão do golpe me impediu de publicar o texto imediatamente. Em meio a ele, uma reportagem no The Intercept, sobre turismo histórico em uma antiga plantation do Rio de Janeiro, em que os turistas reencenam a escravidão como sujeitos senhoriais, me deixou simplesmente chocada com a naturalização do racismo ainda prevalecente no país. É como se reencenássemos Auschwitz, vivendo sem críticas o papel do nazista, em uma visita à Alemanha!  

Para qualquer brasileiro antiracista, a reportagem de Cecília Oliveira no The Intercept foi (mais) um grito de alerta e um soco no estômago. Como e onde exibir uma imagem de punição física de cativos do Debret levando em conta seus efeitos sobre as subjetividades das crianças negras e brancas?  Como contextualizar para estudantes negros e  brancos a leitura de um texto racista de Monteiro Lobato? Ainda que postas já há algum tempo do ponto de vista político, esses são desafios e discussões que  nós,  historiadorxs profissionais, não podemos mais adiar.

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A República dos Cupins

Em seu primeiro pronunciamento como presidente não mais interino, Michel Temer declarou que não toleraria ser chamado de golpista. Sem legitimidade no cargo, tenta o impossível, controlar o uso da palavra por seus adversários.

No livro “Historiadores Pela Democracia”, que teve lançamento em Brasília e São Paulo durante o julgamento no Senado, o texto de Laurent Vidal recupera a acepção clássica da expressão “golpe de estado”, conforme seu uso na política europeia desde finais do século 16. No capítulo, o autor cita definição do século 17: “ações ousadas e excepcionais que os príncipes são obrigados a implementar diante de situações difíceis e desesperadas, contra o direito natural”.

Com as gravações de Sérgio Machado e as medidas já tomadas pelo governo interino, tornou-se muito claro que a destituição da presidenta visou dois objetivos principais: evitar a “sangria” da classe política, ameaçada com investigações sobre a corrupção endêmica que a caracteriza, e implementar o projeto político derrotado nas urnas. Para atingi-los, foram tomadas medidas ousadas e excepcionais contra o direito natural. Como assumiram muitos senadores que votaram pela destituição do cargo da presidenta, mas contra a sua condenação com a perda dos direitos políticos.

Em sua defesa no Senado, Dilma usou acepção análoga, citou mesmo o 18 Brumário de Luís Bonaparte como exemplo, e repetiu uma metáfora que tem feito com frequência. Se pensamos a democracia como uma árvore, o golpe militar é um machado, que mata a árvore pela raiz. O golpe parlamentar (ou institucional, como eu prefiro) seria como um fungo, que mata a árvore aos poucos se não se renovar a oxigenação.

Os primeiros dias do novo “governo” marcaram também o início da resistência democrática. Manifestações de protestos vêm acontecendo  em todo o país, inclusive cidades e regiões que foram baluartes da oposição ao governo deposto, desproporcionalmente reprimidas. Deborah Fabri, uma menina de 19 anos, perdeu a visão do olho esquerdo atingido por estilhaços de bomba ou bala de borracha, o advogado Mauro Rogério Silva dos Santos foi espancado e algemado na rua, em um caso que associa violência política e racismo institucional. Os fascistas saem ainda mais do armário. Um professor da UNESP conseguiu o prodígio de comemorar a mutilação da jovem Debora.

As “pedaladas” que determinaram a cassação de mais de 54 milhões de votos foram flexibilizadas menos de dois dias depois do julgamento no Senado e uma medida provisória se apressa a retirar o caráter publico e a independência da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). A Comissão da Anistia sofreu intervenção, com desfaçatez cada vez mais inacreditável foram nomeados conselheiros até mesmo acusados de terem colaborado com a ditadura militar. A democracia e a Constituição de 1988 estão sob ataque. Somente eleições diretas  podem resgatar a legitimidade perdida pelo “governo” federal.

Foi uma semana dura. Com a aprovação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto, podemos estar testemunhando o fim da Nova República e o início de uma nova era política no país. Por uma ironia do destino, Aquarius, o genial filme de Kleber Mendonça Filho, teve estreia nacional no dia seguinte e me inspirou a sugerir a alcunha para o novo período que dá titulo a este artigo.

Uma ode à resistência, Aquarius é simplesmente imperdível e tem muitas camadas de interpretações e leituras. Entre elas, uma metáfora magistral da crise política do país.

Protesto no Festival de Cannes por diretor e elenco do filme Aquarius.

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lançamento do livro: Historiadores Pela Democracia. O Golpe de 2016 e a força do passado, em 27/8/2016 na UNB, Brasília e em 31/8/2016, na UNIFESP, São Paulo.

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Juízo Final?

“É o juízo final/

a história do Bem e do Mal/

Quero ter olhos pra ver/

A maldade desaparecer…”

(Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)

 

Terminou hoje a olimpíada do #ForaTemer. O quadro de medalhas do Brasil colocou em evidência, uma vez mais, os resultados positivos das políticas de inclusão social implementadas a partir de 2002. O programa Segundo Tempo, do Governo Federal, iniciado em 2003, deu ao Brasil um triplo medalhista em uma mesma olimpíada, Isaías Queiroz. No momento em que publico este post,  começa a cerimônia de encerramento da festa olímpica, sem a presença do presidente interino, transformando em realidade o desejo de quase todos, ainda que temporariamente. Pelo menos no encerramento das olimpíadas ele está fora! #ForaTemer!

Com apelo ecológico, a belíssima festa de abertura não chegou a fugir das interpretações mais correntes do país, com sua força simbólica e repetidos silêncios: o mito das três raças, a cordialidade do brasileiro, a gambiarra como capacidade de improvisação.  Vale a pena ler o texto de Lilia Schwarcz sobre o tema. Fez isso, entretanto, não apenas de forma plasticamente bela, mas com uma mensagem fortemente relacionada a alguns valores políticos que estão, neste momento, sob impiedoso ataque no Brasil. Entre eles: inclusão social, tolerância e pluralidade cultural. Recebeu os aplausos do mundo.

O show colocou representantes LGBTs à frente das comitivas,  dedicou metade de seu tempo ao protagonismo cultural negro na cidade olímpica e encenou (ainda que de forma discreta) a violência da escravidão. No final da cerimônia, todas as delegações se misturaram, uma solução simples, mas nunca antes executada para representar o espírito olímpico. O hino nacional com a voz e o violão de Paulinho da Viola ou as performances de Wilson das Neves e Elza Soares foram simplesmente inesquecíveis. Como muitos registraram, foi um Brasil sem “complexo de vira-latas” o que foi visto no palco do Maracanã. Alegoria à brasileira de um ufanismo democrático e politicamente correto, no melhor sentido da expressão, marca do país nas últimas décadas.

O constrangimento da cerimônia estar presidida literalmente por um usurpador foi enormemente ampliado pelo espírito do espetáculo.  As vaias a ele dirigidas concluíram a festa e quase poderiam estar no roteiro. Difícil acreditar que não haja senadores comprometidos com a democracia em número suficiente para reagir à ilegitimidade do governo interino e ao triste cenário que ele prepara para o futuro. Mantenho as esperanças, mesmo diante do oligopólio midiático que tenta de todas as formas escamotear a ruptura com a legalidade decorrente da inacreditável sessão da Câmara dos Deputados de 17 de abril, e da reconhecida deterioração do ambiente político, quase todo envolvido em escândalos de corrupção. Aproxima-se o juízo final, com todas as ambiguidades de sentido que a expressão sugere.

Caravanas da Democracia se dirigem à  Brasília neste final de agosto para acompanhar o julgamento do processo de impeachment no Senado Federal. Chegarei por lá, com Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian, no dia 27, quando lançaremos o livro Historiadores Pela Democracia. O golpe de 2016 e a força do passado, que organizamos juntas.

Conforme relatamos na introdução do volume, o movimento Historiadores Pela Democracia surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos em vídeo, cresceu como um grupo de discussões no Facebook (hoje com quase 10 mil membros) e cristalizou-se com a iniciativa de visitar a presidenta Dilma no Palácio do Alvorada, em apoio à legitimidade de seu mandato, que passava a simbolizar a soberania do voto e a própria democracia. Encontro que se deu no dia 7 de junho e para o qual foi elaborado um vídeo-manifesto.

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Reunindo historiadores com carreira consolidada nacional e internacionalmente e jovens profissionais de história, o movimento não pretende representar todos os profissionais da área, mas está em sintonia com muitos deles. Editado em tempo recorde pela Alameda Editorial, o livro reúne historiadores de diferentes gerações em um exercício de história imediata.

Escritos no calor do processo da atual crise política brasileira, os textos reunidos no livro lançam uma pluralidade de olhares sobre a sucessão de acontecimentos ao mesmo tempo em que demonstram uma preocupação comum: nossa democracia corre risco (texto da orelha do livro).

A partir de um olhar historiográfico, os autores tomam por base problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos políticos recentes. Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto analisado informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto reunido sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão. A seleção e reunião dos textos em ordem cronológica permitiram esboçar uma primeira proposta de periodização do golpe em curso. Ela estrutura as quatro partes em que a obra está dividida.

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Durante o evento, que ocorrerá às 16 horas no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, haverá mesa redonda com as organizadoras e autores presentes, seguida de debate sobre a conjuntura que se abre para a continuidade da luta democrática. No lançamento será mais uma vez exibido o Vídeo Manifesto Historiadores Pela democracia, que está recebendo legendas em inglês.

A Presidenta Dilma Rousseff foi convidada para o lançamento. Torcemos para que ela possa comparecer.

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VOTAÇÃO NA LASA RATIFICA DENÚNCIA DO GOLPE NO BRASIL

Por ampla maioria (87% dos votantes), foi aprovada a resolução do Conselho Executivo da LASA em defesa da democracia no Brasil.

Resolution on Brazil Whereas: the arbitrary and casuistic manner in which the impeachment process is being carried out against President Dilma Rousseff constitutes an attack against Brazilian democracy; Whereas democracy is an indispensable condition for attaining a dignified and socially just future for all of the region’s inhabitants; and Whereas: the international community of Latin Americanists has long stood in solidarity with struggles in defense of democracy. Be it resolved that: LASA denounces the current impeachment process in Brazil as antidemocratic and encourages its members to call the world’s attention to the dangerous precedents that this process establishes for the entire region. The resolution will be sent out to the membership for voting. She also noted that LASA will put together a delegation to go to Brazil to observe the impeachment process.

Em tradução livre:

Resolução sobre o Brasil: Considerando: a arbitrariedade e a maneira casuística pela qual o processo de impeachment está sendo conduzido no Brasil contra a Presidenta Dilma Rousseff constitui um ataque contra a democracia brasileira; considerando que a democracia é indispensável condição para atingir um futuro digno e socialmente justo para todos os habitantes da região; e considerando que a comunidade internacional de latino-americanistas tem sempre atuado solidariamente com as lutas em defesa da democracia. Fica resolvido: LASA denuncia o corrente processo de impeachment no Brasil como antidemocrático e encoraja seus membos a chamar a atenção do mundo para o perigoso precedente que o processo representa para toda a região. A resolução será enviada para ser votada por seus membros. A LASA formará também uma delegação que irá acompanhar o processo de impeachment no Brasil.

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O relatório da delegação enviada ao Brasil para observar o processo de impeachment, sob a presidência de Sidney Chalhoub, Professor de História do Brasil da Universidade de Harvard, será conhecido em breve.

Ainda este mês de agosto será lançado pela Alameda Editorial, o livro Historiadores Pela Democracia: O Golpe de 2016 e A Força do Passado, organizado por Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian.

#FORATEMER

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CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO por Suzette Bloch e Fernando Nicolazzi

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Divulgada segunda feira na página pessoal do historiador Fernando Nicolazzi no facebook, publicamos hoje, para registro e maior circulação, a CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO, EM RESPOSTA AO EDITORIAL DE 14 DE JUNHO DE 2016*, escrita pela neta de Marc Bloch.

Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.

Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.

O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.

Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.

Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!

O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Mas deixo a palavra ao historiador Fernando Nicolazzi, integrante do grupo de Historiadores pela democracia, para quem solicitei escrever este direito de resposta com outras vozes.

O convite feito por Suzette Bloch para juntar minhas palavras às suas, no ato solidário e indispensável de combater a impostura de um jornal comprometido, em cada linha de seus editoriais, com a defesa de um golpe de Estado em curso, não poderia ser recusado. Este mesmo jornal, que há alguns meses disse um “basta!” à democracia, ecoando o gesto autoritário cometido pelo Correio da Manhã em 1964, agora direciona seus impropérios ao grupo de historiadores e historiadoras que atuam em defesa dos princípios democráticos de nossa sociedade. Faço parte deste grupo e estive na audiência realizada com a presidenta eleita Dilma Rousseff no último dia 7 de junho.

O editorial de 14 de junho, que pretende definir o “lugar de Dilma na história”, faz menção a palavras escritas por Marc Bloch, desvinculando-as irresponsavelmente daquele que as escreveu. Nesse sentido, instrumentaliza politicamente o nome do historiador francês, autor de uma apologia da história elaborada no momento mesmo em que atuava na resistência contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas. Suzette Bloch, em justificável indignação, já apontou acima o desrespeito ético e a desonestidade intelectual que caracterizam este texto. Quanto a isso não cabem aqui outras palavras.

Porém, é preciso fazer frente também à outra dimensão contida naquele editorial: sua falaciosa representação dos historiadores e historiadoras que assinaram o manifesto, definidos ali como intelectuais “a serviço de partidos políticos”, comprometidos com a elaboração de um “pensamento único”, “bajuladores do poder”. O editorial traz ainda as marcas da sua baixeza moral ao sugerir, sem qualquer respaldo aceitável, que muitos dos participantes do encontro com a presidenta a “detestam”. Nada mais desonesto, nada mais mentiroso! Mas também nada mais compreensível!

Afinal, não é difícil compreender que, para setores da sociedade comprometidos com a manutenção da exclusão em suas diferentes formas, a defesa da democracia e da inclusão social cause incômodo e provoque atitudes como esta que, faltando com a verdade, apenas encontra amparo na ofensa e na intolerância. Além disso, é fácil compreender que essa seja a única forma de linguagem política assumida pelo jornal, que já definiu os opositores ao golpe de “matilha de petistas e agregados”: a propagação do seu ódio na busca de cumplicidade, como se ele fosse compartilhado por todas as pessoas. Basta acompanhar as inúmeras e diversas intervenções dos Historiadores pela democracia para constatar quão caluniador e distante dos fatos é o editorial.

O golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ataca direitos sociais, políticos e civis que são fundamentais para a existência da democracia. Tais direito foram conquistas feitas pela sociedade e não simples concessões governamentais. Lutar contra este golpe não significa defender um governo ou um partido político, mas sim defender a vigência de princípios básicos de cidadania, considerando que a justiça social deve ser um valor preponderante em nossa sociedade. Foram estas razões que me fazem participar do grupo, além da convicção íntima, enquanto historiador e enquanto cidadão, de que posicionar-se pela democracia se coloca hoje como um imperativo incontornável na nossa vida pública.

Em um texto que pretende dizer o que deve ser o exercício da historiografia, lemos apenas o uso inconsequente da história e a utilização deturpada da obra de um historiador que soube como poucos escrever sobre o próprio métier. Apesar da indignação causada, o editorial cumpriu seu papel esperado, sem nenhuma surpresa. E ao menos algo positivo ficará dessa situação: não será preciso aguardar historiadores futuros para colocar o Estadão em seu devido lugar na história, ou seja, ao lado dos golpistas do passado, os mesmos que em 2 de abril de 1964 comemoraram a vitória do “movimento democrático” que hoje conhecemos como ditadura civil-militar e que, além de vitimar milhares de pessoas, ampliou a desigualdade social no Brasil. Seus editorialistas continuam realizando com esmero essa função no presente.

*O texto foi enviado para o portal Estadão, como resposta ao editorial publicado em 14/06/2016. Não houve resposta por parte dos editores.

 

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O ofício do historiador e os formadores de quadrilha/ por Silvia Hunold Lara/ Historiadora, pela democracia

Nos últimos meses, um grupo de historiadores decidiu se manifestar publicamente em defesa da democracia. Fazendo uso de meios de comunicação alternativos, criou nas redes sociais o grupo Historiadores pela Democracia, produziu vídeos e textos, além de um manifesto em defesa do governo legítimo que está sendo deposto por meio de um golpe. Há ali gente de tendências diversas, tanto do ponto de vista político como profissional. O que os une é a certeza de que o Legislativo e o Judiciário, com apoio dos grandes meios de comunicação, associaram-se para afastar do poder a presidente democraticamente eleita que, apesar da crise e de vários erros (incluindo relações ambíguas com corruptos), vinha se mantendo na defesa de direitos básicos estabelecidos na Constituição.

Em 7 de junho, uma parte desse grupo foi ao Alvorada, prestar sua solidariedade a Dilma Rousseff, afastada da presidência sob a alegação de ter cometido “crimes de responsabilidade” que, aliás, também foram praticados por seus antecessores e por vários governadores e prefeitos. O Legislativo fez uso de mecanismos constitucionais e o Judiciário estabeleceu o ritual do processo. A aparente legalidade não esconde, entretanto, o golpe articulado por forças retrógradas que se instalaram no poder e esforçam-se por dar uma guinada ultra liberal na economia, diminuir conquistas dos trabalhadores, limitar políticas sociais e restringir direitos humanos.

Os historiadores não foram os primeiros nem os únicos profissionais a se manifestar, nem a denunciar o golpe em curso. Mas chamaram a atenção de dois dos principais jornais do sudeste brasileiro: um publicou um editorial agressivo contestando a qualidade profissional dos participantes do grupo (“O lugar de Dilma na história”. O Estado de São Paulo, 14/06/16), e o outro um artigo, assinado por um de seus articulistas habituais, criminalizando o movimento (Demétrio Magnoli, “Formação de Quadrilha”. Folha de São Paulo, 25/06/16).

Ambos têm uma ideia bem tacanha do que seja o ofício do historiador. O primeiro afirma que o papel da história é “o de reconstituir o passado para entender o que somos no presente”. O segundo diz que “o historiador indaga o passado, formulando hipóteses que orientam a investigação e reconstrução da trama dos eventos”. Pois aí está o problema: o papel do historiador nunca foi o de “reconstituir” o passado. Analisando os documentos produzidos pelos diversos sujeitos que participam de um acontecimento ou fazem parte da sociedade, nós interpretamos o passado, procurando explicá-lo. Essa explicação nunca é unívoca, posto que deve compreender as diversas forças que produziram os “fatos”. Nem tampouco é singular: a história – como aprendem os alunos desde o primeiro ano do curso – não se escreve com verbos regulares e, geralmente, usa o plural. Isso acontece com o passado histórico que, pela sua própria natureza, como o presente, é prenhe de tensões e vozes dissonantes. O mesmo se dá com o trabalho dos historiadores, que só se realiza no diálogo com interpretações e explicações diversas. Ao supor a unicidade da história e dos profissionais que denunciam o golpe, os dois jornalistas produzem um efeito de verdade muito útil para a defesa de suas posições.

O Estado de São Paulo acusa os Historiadores pela Democracia de serem “intelectuais a serviço de partidos que se dizem revolucionários”, registrando que todos aqueles profissionais estão a serviço do “lulopetismo”. O articulista daFolha de São Paulo os coloca como militantes de um Partido totalitário. O primeiro recorre a um neologismo depreciativo. Ele faz par com outros, mais recentes, como “esquerdopata”, “petralha”, “feminazi”. São substantivos coletivos que servem claramente para desqualificar todos os que não pensam como o emissor do discurso. O uso varia conforme a ênfase que se queira dar: contra uma opção político-partidária, contra os que defendem princípios democráticos e/ou libertários ou os direitos das mulheres e de outras minorias. Como se em cada um desses registros só coubesse uma forma única de ser e de pensar. O tratamento coletivo e pejorativo serve, assim, a uma visão incapaz de abarcar a pluralidade. O mesmo acontece quando se tenta explicar que a atitude desses historiadores estaria sendo conduzida por um Partido, com “P” maiúsculo. Tal fantasmagoria só revela a completa ignorância do colunista em relação à diversidade de posições desses profissionais da área de História – alguns dos mais competentes e destacados, no Brasil e no exterior.

Além de associar dessemelhantes, o colunista da Folha acusa os Historiadores pela Democracia de possuírem “alinhamento ideológico” próximo ao “alinhamento corporativo” dos juízes do Paraná que tiveram seus salários divulgados em uma reportagem. Como se trata de um atentado contra a liberdade de imprensa, ele analisa contradições entre a pretendida defesa dos valores democráticos por associações de magistrados e o assédio judicial cometido contra os jornalistas. Aqui, o golpe e o “sequestro do sistema de justiça” podem ser denunciados. Estranhamente, o articulista não associa os historiadores aos jornalistas, mas sim aos juízes, invertendo completamente a lógica mais elementar. São os juízes que estão recorrendo a estratagemas e brechas do sistema legal para cassar, na prática (como diz o próprio Magnoli) os direitos dos jornalistas. Se pode admitir isso nesse caso, por que não consegue concordar com aqueles que denunciam que, “na prática”, o que se assiste é à produção lenta e gradual de um golpe contra a democracia? Ao preferir xingar, acusar e desqualificar, juntando desiguais sob o signo de comportamentos deploráveis, o colunista se aproxima – ele sim – mais dos juízes que de seus colegas jornalistas.

O que, na manifestação dos Historiadores pela Democracia teria incomodado tanto os autores desses dois textos e seus patrões? A pista está nos títulos. O lugar que todos nós ocupamos na história não está nas mãos dos historiadores, nem terão esses profissionais uma só verdade sobre ela, como já expliquei. Como são partidários de uma história unívoca e “verdadeira”, temem que a narrativa histórica não lhes faça “justiça”. Historiadores do presente e do futuro certamente lerão os documentos produzidos ao longo desse processo e poderão mostrar, com base neles, as forças atuantes, seus protagonistas, os vencedores e vencidos, e aqueles que ficaram em cima do muro. Todos nós temos um lugar – e aqueles que lutaram pela pluralidade e pela diversidade poderão estar juntos, mesmo sendo diferentes. O nome disso é democracia.

Os que usam malabarismos retóricos para criminalizar os que não pensam como eles estão fora deste campo. Ao imaginar uma quadrilha, usar neologismos pejorativos e maiúsculas generalistas, imputam ao outro unicidades que buscam apenas intimidar. Certamente exageros e figuras de linguagem fazem parte da disputa de ideias e argumentos. Mas nesses textos há mais que isso. A história tem exemplos dolorosos desse tipo de comportamento – basta lembrar textos e atitudes de alguns jornalistas, militantes e intelectuais da Alemanha ou da Itália nos anos 1930. O nome disso é fascismo.

(o post Contradança: réplicas às críticas ao movimento historiadores pela democracia foi atualizado com respostas às novas críticas ao movimento; clique na imagem para ver o vídeo manifesto)

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