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Sobre Hebe e Martha

Hebe Mattos e Martha Abreu criaram o blog conversa de historiadoras em março de 2014. Durante dois anos, o blog teve todos os seus textos assinados por ambas, em co-autoria. Em 2016, o blog se expande, incorporando novas colaborações e artigos individuais, mas os textos em co-autoria das duas historiadoras continuam presentes.

Viva o Carnaval!

Nos últimos 50 anos, o Brasil que não está no retrato tornou-se objeto de estudo de historiadorxs profissionais. A história vista de baixo, a história das mulheres e das relações de gênero, a história social da escravidão, a história indígena, a história da memória (e dos esquecimentos), incluindo o estudo da ditadura civil militar e dos crimes então cometidos pelo estado brasileiro, são temáticas que mereceram inúmeros artigos, livros, debates, teses e dissertações, desenvolvidos nas últimas décadas nas universidades brasileiras, com reconhecimento acadêmico internacional. A partir das leis 10639 e 11645, com a parceria, pressão e incentivo dos movimentos sociais, começamos a ultrapassar os muros da universidade. Este blog é um pouco filho deste momento.

As novas pesquisas históricas estão hoje também nas escolas de samba. O uso de trechos de documentos de arquivos, como os jornais escritos por intelectuais negros no século XIX, transformados em alegoria no desfile de 2018 da Paraíso do Tuiuti  e a petição de Esperança Garcia contra os maus tratos e torturas que sofria de seu “senhor”, no vitorioso desfile da Mangueira deste 2019,  evidenciam a presença, cada vez mais importante, dos jovens profissionais de história, muitas vezes ligados às comunidades, no mundo do carnaval. Neste ano, o segundo carro da Mangueira,  genocídio indígena,  desenvolvido a partir do monumento aos bandeirantes de São Paulo, construiu uma alegoria simplesmente fenomenal para a violência constitutiva de nossa memória nacional, mais um resultado dessa nova imaginação histórica, metodologicamente sofisticada e  comprometida com a diversidade.

Em 2016, um dos textos campeões de visualizações do blog, de autoria de Martha Abreu, comentou a cegueira dos comentaristas da TV Globo em abordar a riqueza, o embasamento e a complexidade, em termos históricos e culturais, das narrativas dos enredos das escolas de samba.

Este ano não foi exceção. Apesar do deslumbramento com o desfile da Mangueira, os comentaristas insistiam em afirmar que o carnavalesco Leandro Vieira trazia um ponto de vista sobre a história do Brasil que colocava luz em possibilidades e personagens sobre os quais quase nada se sabia. A força das narrativas canônicas da história brasileira, ainda institucionalizadas na maioria dos museus e monumentos, fez Fátima Bernardes comentar que o carnavalesco havia lido dezenas de teses e dissertações para fazer o enredo, mas que provavelmente não encontrou quase nada sobre os temas tratados. Os comentários conseguiram relativizar o carro “ditadura assassina”, transformar a denúncia do genocídio indígena cometido pelos bandeirantes em “questão de ponto de vista” e não explicar ao público quem foram Dandara, Luiza Mahin, os caboclos de julho ou o Dragão do Mar de Aracati.

Ainda assim, o vitorioso enredo de Leandro Vieira tornou evidente o que, até então, apenas alguns reconheciam: as escolas de samba como lugar privilegiado de produção de pensamento crítico sobre a história do Brasil, local de produção de história pública no sentido mais sofisticado e abrangente do termo. Reconhecimento que começou a se estabelecer desde o carnaval do ano passado, com o histórico desfile da Paraíso do Tuiuti, em que comemoramos 130 anos da Lei Áurea e 30 anos da Constituição da 1988.

Neste ano, a Mangueira realizou na avenida, com o brilho de um irretocável desfile carnavalesco, o que muitos professores de história vem fazendo em seus cursos,  com alcance bem menor, é verdade: contar a história de baixo para cima e aclamar com orgulho personagens heróicos da história do Brasil, com Dandaras, Cariris, Malês, Dragões do Mar, Luizas Mahins, Esperanças Garcias e Marielles.

Como em anos anteriores, não foi só a Mangueira!  Várias escolas mostraram outros personagens, como os moradores de rua da Império Serrano,  os orixás e a negritude da Portela na homenagem a Clara Nunes, o bode eleito da Tuiuti (grande Jack Vasconcelos!), o Xangô do Salgueiro, o Cristo negro da Estácio  e até mesmo a ala final da Vila Isabel  (a mesma  Vila que cantou a princesa!), com os escravizados em festa depois da abolição logo atrás de um carro que trazia a faixa “Marielle presente” (uma faixa apresentada pela família da vereadora e pela própria atriz que interpretava a princesa abolicionista!).

Talvez o mais impressionante tenham sido os personagens do navio negreiro da Unidos da Tijuca, representando “o pão que o diabo amassou”?    Soubemos que alguns sambistas do carro se negaram a entrar. Era muita dramatização de dor e sofrimento negros num dia de carnaval.  Mas estava lá, o navio para ninguém esquecer (aliás, vale um estudo mais profundo sobre as representações dos navios negreiros nos desfiles).

Sabemos hoje que os carnavais sempre foram momentos de discussão e reflexão coletivas em vários momentos da história do país. Em 1888, por exemplo, no ano da Abolição, o historiador Eric Brasil registrou a invasão de fantasias de diabinhos por todos os cantos da cidade, “infernizando” os adeptos do carnaval elegante.  Os últimos carnavais, sem dúvida, têm contado diversas histórias do Brasil, mas principalmente têm contado outras histórias da escravidão, da liberdade, da negritude e do racismo.  E não só os carnavalescos são os responsáveis: compositores, mestres de bateria, puxadores, passistas, mestres salas, coreógrafos, figurinistas, todos se envolvem na produção de uma outra narrativa pública e coletiva da história.

É uma nova geração, formada em tempo de liberdade e de instituições públicas de ensino, que, em diálogo com renovadas pautas de combate ao racismo e a toda forma de discriminação, está fazendo toda a diferença!!!

Como disse Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira, “nosso carnaval teve um compromisso social”. “É a história de nossa raça, os verdadeiros desbravadores da história do Brasil. É a vitória do povo preto”

Salve Mangueira!!! Lavou a alma de milhões de brasileiros e das historiadoras do Blog.

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Evelyn Bastos, rainha de bateria da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com um documento de época: a petição de Esperança Garcia 05/03/2019 (Daniel Ramalho/VEJA.com)

 

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Cartas aos amigos que decidiram votar B.

Martha Abreu

Ao longo de décadas, muitos afetos e muitas conversas, risos e momentos inesquecíveis nos aproximaram, mas hoje não consigo fazê-los entender que o candidato B. é um mal muito maior (Essa carta é mais uma tentativa). Até certo ponto, seguimos juntos na avaliação das gestões do PT e suas perigosas relações com os mecanismos da corrupção e com os políticos que representavam as velhas oligarquias de poder. A partir daí, mais nada em comum: vocês me apresentam uma lista de medos de que tudo vai piorar, de que vamos nos tornar a Venezuela, de que Lula vai governar o país e de que o PT precisa aprender que não pode tudo…

Será que é só isso que importa nesta eleição? Será que isso é suficiente para justificar o voto de vocês em um candidato que já defendeu teses contrárias à dignidade humana e aos valores civilizacionais, que não respeita os acordos universais sobre o meio ambiente, que nega acontecimentos históricos mais do que provados e documentados, que não vê importância na defesa dos povos indígenas e quilombolas, que apresenta um programa educacional de governo baseado nos valores militares, no controle e diminuição da importância dos professores, na desvalorização do sentido público da educação e no ensino à distância desde a escola básica? Pergunto a vocês como, com essa perspectiva, iremos combater o desemprego e formar trabalhadores e cidadãos preparados para os desafios do mundo globalizado?

Eu gostaria muito que vocês não passassem por cima de tudo isso somente para derrotar o PT na eleição para Presidente (as derrotas do partido já são inúmeras pelo Brasil em todos os níveis). Mas caso seja derrotado o PT, com o que ficaremos? Que ministros teremos nas pastas de educação, cultura, meio ambiente e trabalho? Como continuaremos a fazer parte da comunidade mundial que preza os valores da humanidade e da civilização democrática? Para que mundo melhor vamos poder contribuir e sonhar?

Nunca fui filiada ao PT e sempre valorizei minha postura crítica em relação a suas políticas e posições. Mas não posso deixar de registrar minha experiência nesses últimos 15 anos, como professora e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, ao acompanhar de perto várias importantes políticas educacionais e culturais implementadas pelos seus últimos governos – muitas delas sob o Ministério da Educação de Haddad. Entre essas inúmeras políticas, destaco, no campo que mais conheço, a ampliação das universidades, institutos federais e escolas técnicas em todo o país; a ampliação dos financiamentos para pesquisa, ensino e apoio a alunos de baixa renda; o crescimento dos programas de pós-graduação, a política de cotas, o programa nacional de distribuição (e avaliação) de livros didáticos, a distribuição de livros para a formação do professor e de literatura para todas as escolas do país; o apoio ao aumento do piso dos professores e a implementação de vários programas de melhoria da qualidade de ensino (em todas as áreas e na matemática especialmente!!); a valorização e apoio financeiro para as culturas populares e negras através de editais e pontos de cultura, entra várias outras.

Meus amigos, vivemos nesses últimos 15 anos uma vigorosa transformação silenciosa no campo da inclusão educacional e cultural que foi pouco divulgada e é pouco conhecida. Embora isso tudo esteja ameaçado de ruir, vou apostar que todo esse esforço não será perdido ou esquecido. Milhares de jovens, adultos e suas famílias foram atingidos por políticas que transformaram suas vidas. E é nisso que vou votar!!

Hebe Mattos

Como todo mundo no Brasil, tenho familiares e amigos que pensam em votar nulo ou em Bolsonaro no segundo turno. Dirijo-me a eles. Queria primeiramente que soubessem que nunca fui filiada ao PT e que votei muitas vezes por, mas também muitas vezes contra o partido, em diferentes ocasiões. Tornei-me defensora entusiasta do mandato da presidenta Dilma, em defesa da legalidade democrática e como forma de reação ao “antipetismo”, um sentimento que começava a transformar os defensores do partido em objeto de ódio coletivo, como o “judeu” de Hitler ou o “negro” da Ku Klux Klan nos Estados Unidos. Na contramão da corrente, vesti a camisa do PT, resgatando sua história republicana e democrática, a despeito dos erros de muitos dos seus quadros, erros compartilhados com todos os demais partidos políticos e que remontavam a tradições políticas brasileiras do século 19. Escrevi muitos textos sobre o tema, que vocês podem não ter lido ou que talvez não os tenham convencido.

Muitos como eu fizeram o mesmo gesto, apoiando explicitamente as virtudes do PT, apesar de seus erros, contando que nossa reputação intelectual e política acabaria por diminuir o sentimento de ódio que crescia e envenenava o ambiente social. Qual a surpresa ao nos vermos imediatamente estigmatizados como “petralhas”, “comunistas”, “feminazi” ou “esquerdopatas”. E tem sido sempre assim, cada nova pessoa que percebe o perigo e o denuncia é imediatamente rotulado. O neofascismo é hoje uma força política mundial que se baseia em fundamentalismos diversos que guardam em comum a vontade de eliminação do outro político do qual discordam. Hordas fascistas já cantam nas ruas que vão matar gays, feministas e ativistas em geral. Em nome disso, topam um candidato sabidamente corrompido, com um assessor econômico envolvido em denúncias, com um programa político simplesmente inexistente, mas que, e acho que isso é o essencial, fez apologia da tortura de seus inimigos políticos da tribuna do Congresso Nacional. Se vocês concordam com o elogio público feito por Bolsonaro ao torturador Carlos Brilhante Ulstra, a quem chamou de “o terror de Dilma Rousseff”, não precisam continuar a leitura. Sinceramente, espero que ninguém concorde.

Eu estou convencida de que a maioria dos eleitores de Bolsonaro no primeiro turno não é neofascista, e que muitos que pensam em votar nele ou nulo no segundo turno o fazem por subestimar o risco à democracia que ele representa. São democratas liberais ou conservadores, na maioria das vezes cristãos, que se tornaram antipetistas, justificando este antipetismo a partir dos muitos erros do partido e com argumentos específicos. Se este for o caso, peço que pelo menos escutem o Haddad e acompanhem os debates (se o outro candidato não fugir deles). Haddad é um político com trajetória impecável, de grande comprometimento com a democracia e com o sentimento republicano, que acredita na importância do equilíbrio das contas públicas, bem como na possibilidade de fazer da ampliação do acesso à educação e ao mercado de consumo de massas ferramentas efetivas de inclusão social, que acredita na liberdade de imprensa e nos direitos humanos universais e que, sobretudo, será capaz de conversar com o congresso tão diverso que se elegeu e buscar um governo que consiga restabelecer o equilíbrio democrático que perdemos desde o impeachment.

Queridos amigos e parentes, vivo no Rio de Janeiro, já ouvi os novos fascistas cantarem nas ruas pregando a morte e tive medo. A avalanche de notícias falsas que antecedeu o primeiro turno exemplifica bem sua forma de ação. Quem apoia publicamente torturadores não tem limites. A violência começa com os eleitores de esquerda, com LGBTs, com os pretos, com as feministas, 1/3 da população já está na linha de tiro e eles prometem armar a população, mas não se enganem, a lista de quem são os outros vai crescer se não mudarmos o rumo dessas eleições. Ninguém está a salvo.

Se detestam tanto o que ocorre na Venezuela, lembro que Bolsonaro e a extrema-direita brasileira são o que temos de mais parecido com o que se passa por lá. O problema não é o programa econômico que apresentam, aparentemente opostos, mas a forma com que organizam sua prática política. Sobre isso, sugiro a todos a leitura do texto de Steven Levitsky, da Universidade de Harvard, autor do livro “Como morrem as democracias”. Ele compara a Alemanha de Hitler, a Venezuela do chavismo e o risco da eleição de Bolsonaro.

Para além de qualquer argumento lógico, pela felicidade e segurança dos nossos filhos e netos,  que merecem crescer juntos num Brasil com escola pública para todos, sem racismo e sem homofobia, peço que neste segundo turno votem pela vida, pela democracia, pela civilização, votem Haddad presidente.

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2018!

Voltamos! A demora em recomeçar 2018 veio em grande medida do acúmulo de novas tarefas das historiadoras do blog. Vejam vocês:

Ana Flavia Magalhães Pinto é a mais nova professora do Departamento de História da Universidade de Brasília. Assume as novas atividades profissionais na coordenação do GT Emancipações e Pós-abolição da ANPUH e da organização do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, previsto para 15-18 de maio deste ano, na FGV.

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Giovana Xavier é a nova colunista do NEXO Jornal e mantém o seu Preta Dotora, agora no face, mas continua conversando com a gente.

Keila Grinberg,  neste semestre, é titular da Andrés Bello Chair in Latin American Cultures and Civilizations da NYU. Em entrevista  no site da cátedra, ela explica as suas atividades por lá durante o semestre, entre elas, a organização  do simpósio “Slave Pasts in the Present: Narrating Slavery though the Arts, Tecnology, and Tourism”, onde Hebe, Martha e Mônica Lima irão participar.

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Mônica Lima é uma das organizadoras  do Primeiro Encontro da Associação Brasileira de Estudos Africanos – ABE África, que irá se realizar entre 11 e 13 de abril desse ano no Instituto de História da UFRJ (prédio do IFCS/UFRJ).  Estão confirmadas as presenças de Kabengele Munanga e Petronilha Gonçalves, entre outros pesquisadores da área.  Kabengele Munanga é professor titular de Antropologia da USP e Professor Titular Senior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É congolês, naturalizado brasileiro, autor de diversos livros sobre educação antirracista e ensino de História da África e cultura afro-brasileira. Petronilha Gonçalves é professora titular em Ensino-Aprendizagem em Relações Étnico-Raciais e Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos. Foi relatora do projeto das diretrizes para o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira no Conselho Nacional de Educação.

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As veteranas do Blog, Hebe e Martha, que assinam este post de reabertura, também estão recomeçando. Hebe iniciou suas atividades como Professora Titular Livre da UFJF e Martha assumiu como professora visitante do Mestrado Profissional em Ensino de história da UNIRIO. Paralelo aos recomeços, estão à frente, com Mônica Lima e toda a equipe do Blog, da coordenação de conteúdo para a curadoria científica do Centro de Interpretação do Cais do Valongo. Vamos dar notícias por aqui dos desdobramentos desse trabalho.

Diante do acúmulo de atividades, o Blog este ano será basicamente lugar de informação e divulgação sobre os andamentos dos novos projetos e dos eventos em que estão sendo discutidos. Além disso, nos comprometemos todas com, pelo menos, um texto por semestre, sobre questões de fundo das nossas conversas (história pública e escravidão, democracia, racismo, cultura negra, feminismos, entre muitos outros temas). Aos seguidores do Blog, prometemos, podemos diminuir o ritmo, mas vamos caprichar na qualidade.

Por fim, neste mês de março, convidamos todos a se engajarem na campanha 21 dias de ativismo contra o racismo, que se encontra na sua segunda edição. Militantes antirracistas das mais diversas origens, professores, artistas, escritores, intelectuais de diferentes campos se reuniram desde dezembro de 2017 para organizar essa verdadeira maratona tendo a luta contra racismo como eixo definidor. A programação é intensa, muito variada e são estimuladas as iniciativas locais que se incorporam à campanha. Confiram a página no Facebook!

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O Carnaval do #ForaTemer

Fechamos 2016 sem fazer retrospectiva e começamos 2017 sem os votos de praxe, mas o primeiro post coletivo do ano teve a força de fazer as duas coisas ainda que de forma indireta. O “conversa de historiadoras” abriu o ano apoiando a anticandidatura de Beatriz Vargas ao Supremo Tribunal Federal e antecipando o #Fora Temer que explodiu no carnaval em grande estilo e por todo o país (clique na figura para ver o víde0).

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O #ForaTemer foi notícia até na Globo, o que pode indicar eleição indireta no horizonte e uma possível segunda fase do golpe, já que o #DiretasJá não teve o mesmo sucesso. De todo modo, carnaval sempre foi política. Em Salvador, os foliões gritaram #ForaTemer e se opuseram com criatividade à violência policial às manifestações populares, velho problema que se tornou mais agudo nos últimos meses. As redes sociais amplificaram os significados da força do protesto coletivo em forma de riso.

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Quem foi ao Mulheres de Chico ontem, na Pedra do Leme, no Rio de Janeiro, não tem dúvida: de um jeito ou de outro,  amanhã vai ser outro dia.

Nos desfiles das escolas de samba, sobretudo no Rio, os graves acidentes com carros alegóricos trouxeram, com razão, muita energia para a discussão (antiga) sobre os problemas que a espetacularização midiática e o caráter de festa oficial do carnaval da Sapucaí podem representar.

Vale a pena, porém, colocar as lentes também no outro lado da moeda: a potencialidade criativa e de inovação que o encontro entre energia comunitária e indústria cultural pode produzir.

O desfile da Unidos da Tijuca foi lugar de um dos tristes acidentes. Um daqueles casos em que o show, simplesmente, não devia continuar.

Ainda assim, o enredo sobre o encontro de Pixinguinha e Louis Amstrong, celebrando a força cultural do Atlântico Negro não passou em branco. O desfile tornou conhecido do grande público um encontro cuja repercussão esteve, até então, reduzida a trabalhos intelectuais do campo da história e dos estudos culturais.

Pena que a cegueira seletiva da Rede Globo, que continua a monopolizar a transmissão pela TV, e  o desconhecimento sobre os enredos e a história das escolas de boa parte dos comentaristas, não permitam amplificar ainda mais a importância da mensagem.  Também o impactante navio negreiro na abertura da Vila Isabel e seu enredo sobre o som da cor,  cantando as dores da diáspora africana e, mais uma vez, a força da música negra no Atlântico, quase não foram mencionados pela cobertura, que só enfatizou as falhas técnicas do desfile… que preguiça.

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A diáspora banto nas Américas foi cantada também pela União da Ilha, com enredo lembrando Macurá Dilé, o tempo que teve início, mas não tem fim, tradição do candomblé Angola. Foi uma aula em plena festa!  Vale ainda destacar a presença na Imperatriz de caciques vindos do Xingu. A verde e branco da Leopoldina não poupou críticas aos inimigos das terras indígenas!

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Se os carros alegóricos foram o grande problema, a visão dos meninos da Mangueira empurrando o carro de São Jorge com animação e euforia dá bem conta do que as imagens da TV continuam a não mostrar. A cena foi filmada por Lívia Monteiro,  historiadora da congada mineira, em sua primeira vez na Sapucaí, completamente emocionada pela experiência.

Aliás, como escreveu Martha em sua conta no facebook, em mensagem em grande parte incorporada neste post, o desfile da Mangueira foi irresistível.  As imagens de Cristo, dividindo um carro com Oxalá, a força de São Jorge e do Divino, e a porta bandeira Debora Oliveira, vestida de azul e dourado, incorporando Nossa Senhora Aparecida, são mesmo inesquecíveis. Em tempo de fortalecimento de tantas intolerâncias, entre elas o veto do Cristo no desfile das campeãs,  a Mangueira mostrou o quanto a “ajuda do santo” faz parte de nossa história.

O carnaval terminou com festa em Madureira, um dos berços do samba, com a dupla vitória de Portela e Império Serrano!

Ainda no clima da festa, pedindo #ForaTemer e #DiretasJá,  o “conversa de historiadoras”  pede passagem e começa oficialmente o ano de 2017.

Mangueira! Rogai por nós!!

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Ocupar e Resistir: Conquista de Pinheiral em dia de Zumbi, por Hebe Mattos, Martha Abreu, Keila Grinberg e Elaine Monteiro

Dia 20 de novembro de 2016. Apesar dos retrocessos e ameaças aos direitos inscritos na Constituição de 1988 que marcaram o ano, foi um dia histórico para a comunidade jongueira de Pinheiral, que recebeu oficialmente, da prefeitura, a posse coletiva de parte das terras que cercam às ruínas do casarão central da antiga fazenda de São José do Pinheiro, antiga residência de uma dos maiores fazendeiros e traficantes de africanos escravizados do Brasil do século 19, José Joaquim de Souza Breves.

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Depois de muitos anos de luta, pelo menos desde os anos de 1980, a emoção contagiou a todos que lá estiveram para assistir  às comemorações bem em frente ao velho casarão em ruínas, de onde se avista o antigo terreiro de café, as casas que já foram as senzalas e o memorial do Projeto Passados Presentes, erguido nesse espaço outrora identificado com o poder senhorial, hoje o Parque das Ruínas da Fazenda São José do Pinheiro.

O prefeito de Pinheiral, Professor José Arimathea, conclui seu mandato fazendo justiça aos descendentes da trabalhadores africanos das antigas fazendas cafeeiras da região que, ao migrarem para a cidade ao longo do século 20,  a transformaram na “capital do jongo” do estado do Rio de Janeiro.

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O grupo de jongo de Pinheiral,  através do CREASF, centro de referência de estudo afro sul fluminense, e de suas lideranças, as irmãs Maria de Fátima (Fatinha), Maria da Graça e Maria Amélia dos Santos, viu um dos seus mais antigos sonhos, o de transformar as ruínas da antiga sede da fazenda e seu entorno em local de memória e celebração da cultura negra, se fazer realidade, em julho de 2015.  Uma ação concebida no âmbito na década internacional do afrodescendente (Década AFRO) instituída pela ONU (2015-2024) e do Projeto Rota do Escravo, da UNESCO.  Um passado para não ser mais esquecido, que faz de Pinheiral, a “cidade do jongo”.

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A comunidade jongueira da cidade torna-se agora, e para sempre, a principal guardiã desse lugar de celebração da herança africana e da identidade negra e jongueira.

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Em tempos de resiliência, esse dia 20 de novembro foi mesmo especial para a cultura e a consciência negra no velho vale cafeeiro. Vai ficar na história da região. Vai ficar na nossa história, coordenadoras do projeto Passados Presentes, desenvolvido em parceria com a comunidade jongueira.  Foi um dia de muito AXÉ!

Para registrar ainda com mais força a emoção do dia de hoje, transcrevemos a fala de Fatinha, em uma entrevista que nos concedeu em 2009, em momento que ainda não era possível imaginar tamanha conquista. Apesar dos tempos sombrios, o patrimônio negro de Pinheiral está nas mãos dos seus herdeiros legítimos, eles saberão garantir o futuro.

“…Porque a gente sempre pensou em fazer um centro cultural no casarão, isso é uma ideia muito antiga, a gente dançava em vários cantos da cidade, nos terreiros das casas, na rua e ficava aquela coisa com o casarão… foram os escravos que construíram aquilo tudo e nada daquilo nos pertence…foram nossos antepassados, os negros que vieram da África que construíram aquilo lá”

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Celebrando #PassadosPresentes

Em 2 de junhos de 2014, fizemos o nosso primeiro post com a hashtag Passados Presentes. Com o título “Uma Aula de História Pública” contávamos uma visita de Martha com uma turma da UFF ao Quilombo do Bracuí e dávamos a notícia:

“A partir deste mês de junho, iniciamos no LABHOI/UFF, em associação como o NUMEM, da UNIRIO, coordenado por Keila Grinberg, e apoio do Edital Petrobras Cultural, um projeto de história pública sobre o tema, com o título Passados Presentes: Patrimônio Imaterial e Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos no Rio de Janeiro.”

Quase dois anos depois, celebramos ontem, 2 de abril de 2016, a disponibilização de todo o conteúdo previsto para o projeto no aplicativo Passados Presentes, com 4 roteiros de memória. No evento, foi lançado um novo circuito.

Mais de 500 pessoas, segundo o Museu de Arte do Rio (MAR), percorreram em diversos grupos os caminhos da antiga Pequena África no Centro do Rio.  Não deixe de conferir a reportagem da TV Brasil sobre  evento e a versão atualizada do teaser do roteiro,  ambos com imagens inéditas da histórica caminhada.

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No lançamento, nas dependências do MAR, ficamos emocionadas com a primeira exibição do curta de Guilherme Hoffmann, Criando Passados Presentes, de 23 minutos, sobre o “making of” do projeto, em parceria com o Grupo de Jongo de Pinheiral e os quilombos do Bracuí e de São José da Serra. Um pequeno e emocionante histórico de dois anos do mais gratificante trabalho.

Através de Maria de Fátima Silveira Santos (Fatinha), Antônio Nascimento Fernandes (Toninho) e Marilda de Souza, agradecemos mais uma vez a todos que fizeram do sonho realidade.

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COORDENAÇÃO GERAL E TEXTOS

Hebe Mattos – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF)

Martha Abreu – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Organizadora, com Hebe Mattos e Milton Guran, do Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Negreiro e da História dos Africanos escravizados no Brasil da UNESCO – www.labhoi.uff.br/node/1507

Keila Grinberg – historiadora, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Núcleo de Documentação, História e Memória (NUMEM/UNIRIO)

CONSULTORIA DE PESQUISA

Matthias Assunção – Matthias Röhrig Assunção – historiador na Universidade de Essex, Reino Unido, e pesquisador associado ao LABHOI/UFF

Elaine Monteiro _ Educadora, Universidade Federal Fluminense e Coordenadora do Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu www.pontaojongo.uff.br

COORDENAÇÃO DE PESQUISA

Daniela Yabeta _ Historiadora, pos-doutoranda no LABHOI/UFF (CNPq/FAPERJ)

ASSISTENCIA DE PESQUISA

Lívia Monteiro _ Historiadora, doutoranda no PPGH/UFF.

APOIO TÉCNICO

Alexandre Abrantes e Clarissa Mainardi (LABHOI/UFF)

BOLSISTAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA (APOIO FAPERJ/CNPq):

Eline Cypriano; Daniely Sant’Anna; Lissa Passos; Raquel Terto; Thamyris Morais; Vanessa Gonçalves.

ASSESORIA E CONSULTORIA DE PESQUISA NAS COMUNIDADES

Jongo de Pinheiral:
Maria de Fátima da Silveira Santos, Maria Amélia da Silveira Santos e Maria das Graças da Silveira Santos.

Quilombo de São José da Serra:
Antônio do Nascimento Fernandes, Almir Gonçalves Fernandes, Gilmara da Silva Roberto e Luciene Estevão Nascimento.

Quilombo do Bracuí:
Marilda de Souza Francisco, Angélica Souza Pinheiro e Luciana Adriano da Silva.

Quilombo da Pedra do Sal:
Damião Braga.

Instituto dos Pretos Novos:
Marced Guimarães e Claudio Honorato.

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO E ARTE DO MEMORIAL: André De Castro

DESIGNER SÊNIOR E ILUSTRAÇÃO: Julia Haiad

DESIGNERS: João Roma e Victor Lifsitch

CENOTÉCNICO: André Salles

EQUIPE LOCAL DE MONTAGEM: Walmir de Souza Francisco; Antônio de Pádua Estevão; Jorge dos Passos Estevão e Carlos Roberto Roberto.

CRIAÇÃO AUDIO-VISUAL: Guilherme Hoffmann

TECNOLOGIA – SITE E APLICATIVO: Digitok

REVISÃO DOS TEXTOS: Simone Intrator e Renata Saavedra

GERENCIAMENTO DE REDES SOCIAIS: Renata Saavedra

VERSÃO EM INGLÊS: Kristin McGuire

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Somma Comunicações

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Isabel Pacheco

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Cria Produções

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PASSADOS PRESENTES – Circuito PEQUENA ÁFRICA

Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil chega à cidade do Rio de Janeiro. O circuito Pequena África, na região portuária da cidade, completa os roteiros de memória que contam a história da última geração de escravizados africanos no Rio de Janeiro, em um aplicativo de celular.

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19 pontos principais estão assinalados no mapa. Em três deles, com o leitor de código QR do aplicativo pode-se ouvir a voz de lideranças comunitárias e historiadores nos falando sobre a importância histórica da região. Outros 42 pontos, 7 dos quais sobre as atuais rodas de rua da capoeira da cidade, completam o roteiro, e podem ser acessados na função Perto de Mim.

Um filme de Guilherme Hoffmann sobre o desenvolvimento do projeto será exibido no próximo sábado, durante o lançamento do novo circuito,  dia 2 de abril, às 10 horas, no Museu de Arte do Rio. Em seguida, faremos parte do percurso em visita guiada.

Os locais que o visitante terá a oportunidade de conhecer são uma parte da cidade do Rio de Janeiro denominada de Pequena África pelo artista e sambista Heitor dos Prazeres no início do século 20. Divulgada em livros, letras de música e enredos de escolas de samba, a expressão passou a identificar parte significativa da zona portuária da cidade, onde a presença africana e o patrimônio cultural negro marcaram para sempre a história não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil.

Entre o final do século 18 e a primeira metade do século 19, a região foi marcada pelas  atividades de comércio e recepção dos africanos escravizados. Hoje as ruínas do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos rememoram a passagem  de mais de um milhão de africanos pela Pequena Africa, uma história de dor e sofrimento que não pode ser esquecida.

Na virada do século 19 para o 20, a vida cultural da Pequena África e da própria cidade foi renovada, com a chegada de migrantes negros, vindos especialmente  da Bahia e de antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, e de imigrantes portugueses, italianos e judeus.

A Pequena África passou a ser o centro de criação da cultura negra carioca e da organização de novas formas de mobilização política. Em torno de sindicatos, capoeiras, casas de santo, gestaram-se greves, revoltas urbanas e novos gêneros musicais. Naquele contexto, o samba emergiu como um gênero específico, e ganhou visibilidade em todo o país; também foram fundadas associações negras, sociais e dançantes, com seus cordões e ranchos, que ligaram a Pequena África ao que de mais moderno estava sendo produzido em termos musicais e artísticos no período.

O circuito Pequena África foi desenvolvido por nós (Hebe/Martha) e Keila Grinberg (co-autora deste texto), em parceria com o Quilombo da Pedra do Sal e o Instituto dos Pretos Novos. Semana passada, fizemos parte do circuito com Damião Braga, liderança do Quilombo, Claudio Honorato, historiador do IPN, Ruben Zonenschein, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do app, e a jornalista Flávia Oliveira.

Como turismo comunitário e de memória, o projeto conta com apoio do Museu de Arte do Rio. O folder do projeto será distribuído gratuitamente na entrada do Museu, ponto zero do roteiro.

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