Arquivo da tag: #quilombos

“Defrontamo-nos com a feroz urgência do agora” – Luther King é bom para a Humanidade

Na última terça-feira, 4 de abril, celebrou-se e problematizou-se o 50º aniversário do discurso Beyond Vietnam: a time to break silence [Além do Vietnã: um tempo de romper o silêncio], que o reverendo Martin Luther King Jr. proferiu na Riverside Church, próxima ao coração do Harlem, em Nova York, em 1967. Menos lembrado que o I have a dream, proferido durante a Marcha de Washington de 1963, esse discurso, escrito em parceria com o historiador Dr. Vincent Harding, marca o momento em que Luther King se posiciona enfaticamente contra a guerra e se afasta de uma fidelidade nacionalista ingênua.

Beyond Vietnan

Martin Luther King, em 4 de abril de 1967, na Riverside Church. Sentados: Rabino Abraham Heschel, Dr. Henry Steele Commanger e Dr. John C. Bennett.

 

Ainda que marcando um distanciamento do comunismo, Luther King acusava a guerra de ser “inimiga dos pobres” e defendia uma ação revolucionária pautada na solidariedade entre os povos, suas agendas de luta e o respeito pela Humanidade numa escala global. Conectava, portanto, a luta pelos direitos civis dos negros estadunidenses com esforços do povo vietnamita em defesa de sua independência do domínio francês. Denunciava a retirada de investimentos governamentais para a superação da pobreza interna para financiar a destruição de outros povos no exterior, e a desproporção de jovens negros enviados ao país asiático, quando esses eram desrespeitados como cidadãos enquanto estavam em solo nacional. E ia além. Apontava para o fato de que a ação violenta de seu país obrigava gerações futuras a responder por atrocidades injustificáveis cometidas contra outras nações como Guatemala, Peru, Venezuela, África do Sul, Moçambique, Camboja, Tailândia…

A conjuntura de emergências de lutas contra as desigualdades e injustiças cobrava posicionamentos sérios e responsáveis: “Esta é uma época para as verdadeiras escolhas e não para as falsas. Este é o momento em que as nossas vidas devem ser colocadas em jogo, se a nossa nação quiser sobreviver à própria insensatez. Toda pessoa de convicções humanitárias deve escolher o protesto que melhor convém às suas crenças, mas todos devemos protestar”.

Para além de nos fazer pensar sobre a cilada em que novamente se meteram os EUA − nação composta por grupos populacionais de todo o mundo sub-representados politicamente, mas numericamente representativos para o funcionamento do país −, o discurso de Luther King cai como uma luva não apenas para refletir sobre os significados da recente ação de Trump na Síria e suas medidas e as ameaças contra o México e países islâmicos. Revisitar esse passado serve como um convite a olhar nossas próprias histórias de ontem e de hoje.

A propósito, assistir ao vídeo da palestra de Jair Bolsonaro, deputado pelo Partido Social Cristão (PSC), representante da extrema direita, na sede da Hebraica-Rio, no último dia 3, me fez pensar que as palavras de Luther King seriam boas não apenas para os judeus, como dizia o avô da Keila Grinberg, mas para toda a Humanidade. Durante uma hora, foi dada oportunidade a um bufão fascista falar atrocidades racistas, machistas, sexistas, homofóbicas e elitistas e ainda ser aplaudido calorosamente por seu público seleto num lugar em que isso deveria ser terminantemente inviável.

A gravidade do fato faz com que as reações tenham que ir além do louvável protesto promovido por um grupo de judeus na porta da Hebraica no momento da palestra, registrado no vídeo O ovo da serpente; bem como das ações protocoladas pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Frente Favela Brasil, perante a Procuradoria-Geral da República em Brasília e o Ministério Público Federal no Rio. Há uma espécie de obrigação coletiva em defesa da vida a ser respeitada e com urgência. Se há quem se encante pelas atuais faces do totalitarismo, precisamos explicitar os múltiplos rostos das e dos que não abrem mão de desejar uma sociedade livre e de fato democrática. Pensar a esse respeito me remeteu a outros tempos, em que um desejo de solidariedade entre judeus, negros e nordestinos conseguiu algum resultado no Brasil.

Em outubro de 1992, Luiza Erundina, mulher e nordestina, era a prefeita de São Paulo. Diante do aumento do registro de ataques neonazistas a judeus, negros e nordestinos, um grupo de organizações realizou naquele mês o lançamento do Movimento de Entidades Democráticas contra o Ressurgimento do Nazismo e Todas as Formas de Discriminação, na sede da OAB-São Paulo. As cerca de trinta entidades envolvidas eram lideradas pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra, a Federação Israelita do Estado de São Paulo e o Centro de Tradições Nordestinas. Numa ação posterior, reunindo cerca de dez mil pessoas no Vale do Anhangabaú, realizou-se um importante ato de repúdio ao racismo e de afirmação das identidades étnico-raciais e religiosas das comunidades agredidas.

Semanas antes daquele lançamento, a Polícia Federal havia prendido um líder de um grupo defensor da supremacia branca, sob a acusação de ele ter participado da invasão à rádio Atual, dedicada à cultura nordestina, deixando gravadas nas paredes frases racistas. Outros casos eram investigados, mas não demorou muito para que novos ataques com a mesma motivação fossem promovidos. O trágico assassinato do jovem negro, de 16 anos, Fabio Henrique Oliveira Santos, espancado até a morte por 30 “carecas” em abril de 1993 teve desfecho irreversível. Afora isso, como noticiou o Djumbay, jornal negro de Pernambuco, na edição de maio de 1993, as mulheres de Geledés passaram a receber na sede do Instituto cartas anônimas ameaçadoras. Uma delas apresentava este conteúdo:

“Aberta a temporada de caça as galinhas de Angola. Pagarão caro pela prisão de nossos líderes, negros malditos. Pensam que os brancos da África são idiotas para cederem o que é deles por direito, pedaços de carne podre ambulante? Sabemos como agem, onde e quando. Por isso parem de nos provocar.”

A articulação antirracista em São Paulo não se intimidou e conquistou a criação da primeira Delegacia de Crimes Raciais do Brasil ainda em 1993, iniciativa replicada em outras localidades, como o Rio de Janeiro no ano seguinte. Certamente esse foi um momento importante de quebra de silêncio e empenho pela criação e o fortalecimento de laços de solidariedade. O Geledés, por exemplo, desde 1991, havia implementado o SOS Racismo, um serviço de assessoria jurídica, cujos dados foram bastante úteis quando da criação da delegacia especial.

SOS Racismo

Geledés

No entanto, como avaliou Sueli Carneiro, fundadora do próprio Geledés, já em 2001, quando uma nova onda de forte violência racista precisou ser enfrentada: “O sucesso dessas ações nos conduziu ao erro de baixar a vigilância, de nos desarticular e de nos desmobilizar depois de empurrar para sombras os herdeiros de Hitler, ou seja nos esquecemos do ovo da serpente” (Sueli Carneiro. Pelo direito de ser. In: Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2001, p. 43).

Vivemos situação semelhante mais uma vez, e não estamos em meio a uma farsa. Diferentemente dos anos 1990, em que as ações discriminatórias e até mesmo letais poderiam ser circunscritas à ação de jovens ideologicamente confusos aproveitados por lideranças escondidas, agora temos os promotores do ódio abertamente defendendo suas convicções de opressão e massacre de populações negras, indígenas, pobres, mulheres, nordestinos/as, homossexuais, etc., ocupando cadeiras no parlamento, nas igrejas, discursando em espaços de prestígio, que conferem legitimidade ao que dizem.

O que observou Luther King, para os EUA de 1967, nos serve bastante bem cinquenta anos depois: “Não mais poderemos suportar o culto do deus do ódio ou curvar-nos diante do altar da retaliação. Os oceanos da história tornaram-se turbulentos pelas sempre crescentes marés do rancor. A história está abarrotada de naufrágios de nações e indivíduos que seguiram o caminho do ódio autodestrutivo. […] Defrontamo-nos com a feroz urgência do agora”.

***

O discurso Beyond Vietnan foi traduzido para o português e publicado em: KING, Martin Luther. Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 2006.

.

 

2 Comentários

Arquivado em antiracismo, história e memória, história pública, politicas de reparação, Uncategorized

Memorial Passados Presentes no Quilombo São José

No próximo sábado, 19 de setembro, convidamos todos os amigos do Blog a celebrarem conosco no Quilombo São José, com feijoada e roda de jongo, a inauguração da exposição permanente e do memorial Passados Presentes. Contrataremos um ônibus para os que quiserem aderir à festa, saindo do Rio de Janeiro na parte da manhã e retornando no final da tarde. No caminho, o ônibus visitará o memorial do projeto na cidade de Pinheiral. O grupo de jongo de Pinheiral, os quilombolas do Bracuí e outros jongueiros do Pontão do Jongo e do Caxambu estarão presentes à festa. Para reservar seu lugar ou ter mais informações, basta entrar em contato através do e-mail contatopassadospresentes@gmail.com, até a próxima quarta feira, 16 de setembro.

Como os que acompanham regularmente o Blog já sabem, no Quilombo São José, localizado no município de Valença, no Rio de Janeiro, encontra-se um dos roteiros pilotos do projeto de turismo de memória Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil. O memorial do Quilombo São José conta a saga de Tertuliano e Miquelina e de Pedro e Militana, antepassados dos atuais moradores, desde a África até o Brasil. Narra também a luta de seus descendentes pelo território quilombola ocupado ainda no século 19 e a força da tradição cultural do Jongo, que tem origem na África Central.

A exposição permanente e os pontos de memória ali sinalizados foram identificados pelos moradores mais antigos do local, em diálogo com a equipe do projeto e com a pesquisa sobre a história e a memória do grupo, desenvolvida por Hebe há mais de 20 anos. São os moradores, porém, que contam a história local a partir do que ouviram de seus pais e avós.

Em 30 de abril de 2015, os quilombolas tomaram oficialmente posse do território onde viveram seus antepassados e onde continuam a celebrar a herança cultural deles recebida. O jongo do Quilombo São José é um dos mais tradicionais do estado do Rio de Janeiro e a festa de maio ali realizada é hoje referência para todo o país. A sinalização do local para o turismo de memória permite aos visitantes ouvir diversos pontos de jongo e ter acesso às narrativas dos quilombolas mais antigos. Através de visitas guiadas, é possível também realizar percursos mais longos, de grande interesse histórico e ecológico, que incluem o centenário pé de jequitibá, a cachoeira saudada nos pontos de jongo e as ruínas do engenho velho.

A intensidade dos trabalhos para finalizar o projeto Passados Presentes afetou a periodicidade do Blog. Até novembro, quando pretendemos fazer o lançamento dos roteiros históricos do Centro do Rio de Janeiro e a festa de inauguração do memorial do Quilombo do Bracuí, vamos aparecer por aqui sempre que tivermos uma notícia nova de mais uma etapa cumprida.

Adoraremos encontrar vocês no sábado no Quilombo São José!

blog sao jose 11blog sao jose 2blog sao jose 3blog sao jose4blog sao jose 7blog sao jose 6blog sao jose 8blog sao jose 12blog saonjose 9blog sao jose 10

3 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública, remanescente de quilombo

Um Dia de Vitória!

Semana passada não teve blog. Estávamos em campo, numa visita intensa e rica como sempre ao Quilombo de São josé da Serra, ao Centro de Referência do Jongo de Pinheiral e ao Quilombo do Bracuí. Foi mais uma viagem de trabalho do projeto Passados Presentes que, com apoio do Edital Petrobras de Patrimônio Imaterial e em parceria com as comunidades, irá sinalizar lugares de memória e erguer monumentos memoriais em cada uma das localidades. No final do texto, uma pequena reportagem visual da nossa visita. A iniciativa busca honrar as vítimas da tragédia da escravização e celebrar o milagre do patrimônio cultural construído em terras brasileiras pela última geração de africanos escravizados aqui chegada.

Começamos pelo Quilombo São José e ali a visita teve um sabor especial. A primeira visita de Hebe ao Quilombo se deu em 1998, há exatos 17 anos, junto ao ITERJ e a Fundação Palmares, para fazer a pesquisa que embasou o relatório de reconhecimento do Quilombo, redigido naquele ano. Anos mais tarde e muitas visitas depois, a emoção foi grande quando a caminho do Quilombo para as filmagens do filme Jongos, Calangos e Folias, já em conjunto com Martha, vimos pela primeira vez, na estrada, uma sinalização oficial de local de interesse histórico – com a indicação Quilombo São José. Parecia que a titulação estava finalmente próxima. Ledo engano.

IMG_5226

Foram precisos mais de 7 anos, como em uma promessa de Folia de Reis, para que o Quilombo entrasse plenamente de posse de seu território, processo que se completou em 30 de abril de 2015, apenas 2 dias antes da nossa última visita. Difícil descrever a emoção de Hebe, ao caminhar com Antônio Nascimento Fernandes até o coração da área que permaneceu por todos estes anos proibida aos quilombolas. O filme que reproduzimos aqui, já circulou amplamente pela internet, mas ficará registrado no nosso blog, como celebração deste momento de vitória.

Frame_SaoJose_Maio2015_8Frame_SaoJose_Maio2015_9Bracui_Maio2015_1Bracui_Maio2015_5Bracui_Maio2015_6Bracui_Maio2015_6Frame_Pinheiral_Maio2015_11

Frame_Pinheiral_Maio2015_1Frame_Pinheiral_Maio2015_5

Fotos 1, 2 e 3 – Quilombo São José; Fotos 4, 5 e 6 – Quilombo do Bracuí; Fotos 7, 8 e 9 – Grupo de Jongo de Pinheiral.

5 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória, politicas de reparação

Encontros na estrada

Dando continuidade ao projeto Passados Presentes, que está mapeando os lugares de memória do patrimônio imaterial da diápora africana no Rio de Janeiro, estivemos este fim de semana no Quilombo São José da Serra. O quilombo irá receber uma das três exposições permanentes previstas no projeto coordenado por nós e Keila Grinberg com apoio do edital Petrobras Cultural de Patrimônio Imaterial.

O post da semana registra a viagem de trabalho e a agradável surpresa de encontrar em visita por lá Nielson Bezerra, um dos idealizadores do Museu Vivo de São Bento, em Duque de Caxias, com uma turma de professores e pesquisadores da Baixada Fluminense. As visitas ao Quilombo podem ser agendadas por escolas e grupos interessados, com Antônio Nascimento Fernandes, pelo telefone (024) 2457 1130.

Aproveitamos o encontro para também divulgar por aqui o trabalho verdadeiramente excepcional que vem sendo desenvolvido pelo Museu Vivo de São Bento em torno do patrimônio cultural da diáspora africana na Baixada Fluminense.  Eles são os responsáveis por levar para a  Biblioteca Leonel Brizola em Duque de Caxias, a versão itinerante da exposição Kumbukumbu: África, memória e patrimônio,  do Museu Nacional e uma memorável palestra  do historiador João José Reis. Neste mês da consciência negra, inauguram nos dias 19 e 20, nos jardins do Museu, também um memorial em homenagem ao centenário de Joãozinho Da Gomeia, com lançamento de dois livros sobre o importante personagem da história da religiosidade afrobrasileira no Rio de Janeiro.

Nossa viagem de trabalho resultou em um encontro bem documentado, cheio de crianças bonitas e regado a muito jongo.

 photo 1photo 2capela sao jose 2014keila na sao jose e o iphone 1photo 4dagomeia

Deixe um comentário

Arquivado em cultura negra, história e memória, remanescente de quilombo

Passados Presentes

Passados Presentes é o nome do novo projeto que estamos desenvolvendo no LABHOI/UFF, em colaboração com Keila Grinberg, do NUMEM/UNIRIO, para inventariar lugares de memória do patrimônio imaterial da diáspora africana no Rio de Janeiro, com apoio do Edital Petrobras Cultural.

O trabalho inclui sinalizar e identificar lugares de memória no interior de alguns quilombos do Rio de Janeiro. Neste fim de semana, realizamos nossa primeira oficina com o Quilombo do Bracuí e conversamos sobre o projeto com Toninho, do Quilombo São José e Fatinha, do Centro de Referência do Jongo de Pinheiral.

Neste post, um relatório visual sobre o fim de semana, com fotos de Daniela Yabeta.

Foto 1: Varal – Exposição (Jongo de Pinheiral); Fotos 2 e 3: Hebe e Daniela (LABHOI) conversando com Fatinha (Jongo de Pinheiral) e Toninho (São José da Serra); Fotos 4 a 9: Oficina dirigida por Elaine (Pontão da Cultura-UFF),  casa da Marilda , Quilombo do Bracuí.

varal pinheiralphoto 3photo 4oficina bracui 3oficina bracui 5oficina bracui 7oficina bracui 1oficina bracui 6

 

2 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória

Escravidão, Pós-Abolição e a Política da Memória

Alguns trechos da resenha do antropólogo Luis Nicolau Parés para a Caixa de DVDs Passados Presentes (AfroAsia 49).

No campo da historiografia do negro no Brasil, a transição da escravidão para a emancipação e o período pós-Abolição talvez sejam das áreas que mais vitalidade adquiriram na última década. Uma expressão dessa tendência é a coletânea Passados presentes, uma série de quatro documentários sobre as trajetórias, memórias e práticas culturais dos descendentes dos escravizados na região da antiga província do Rio de Janeiro. Os quatro filmes, intitulados Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-Abolição (2005), Jongos, calangos e folias: música negra, memória e poesia (2007), Versos e Cacetes: o jogo do pau na cultura afro-fluminense (2009) e Passados presentes: memória negra no sul fluminense (2011), foram produzidos pelo Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI/UFF), sob a direção geral das historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu.

Lançada em 2012, a coletânea reúne trabalhos produzidos ao longo de mais de seis anos, a partir do acervo audiovisual do LABHOI, que hoje conta com cerca de 300 horas de gravações. O primeiro filme, Memórias do cativeiro, utiliza, entre outros, registros de entrevistas com descendentes de escravos africanos gravadas em São Paulo, em 1987, e no Rio de Janeiro e Espírito Santo nos anos de 1994 e 1995. Porém, o conteúdo substancial da série está baseado em registros videográficos mais recentes, produzidos, na sua maioria, na primeira década deste século, no estado do Rio de Janeiro, e constitutivos do Acervo UFF Petrobrás Cultural – Memória e Música Negra, principal base documental da série.

Para além [do] foco na política da memória, consoante com o espírito do LABHOI, a coletânea é inovadora na sua tentativa de desenvolver formas de narrativa historiográfica a partir de uma escrita audiovisual.

Como os quatro documentários têm por base o mesmo acervo documental, várias personagens aparecem de forma reiterada, conferindo ao conjunto uma relativa unidade. Por exemplo, o entranhável senhor Manoel Seabra, nascido em 1919, liderança da comunidade da antiga Fazenda São José da Serra, no município de Valença, no Vale do Paraíba — hoje Quilombo de São José — aparece, no primeiro filme, rememorando seus ancestrais africanos, vindos da Bahia; no segundo, dançando o jongo; e, no terceiro, praticando o jogo do pau. O senhor Manuel Morais, líder da comunidade do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, aparece também em diversos momentos. Assim, embora os documentários tenham sua autonomia, acabam por oferecer uma visão multifacetada e polifônica de uma mesma realidade sociocultural.

Como se sabe, a presença contemporânea de famílias afrodescendentes na região sudeste do estado do Rio de Janeiro é, em grande medida, resultado histórico do recrutamento massivo de mão de obra escravizada, em meados do século XIX, para satisfazer a demanda da economia do café. No Vale do Paraíba, concretamente, nesse período, os africanos chegaram a constituir 90% da população. As falas, recordações, práticas culturais e ação política dos descendentes desses escravizados são o alvo prioritário de reflexão historiográfica da coletânea em questão.

[confira a resenha integral, com abordagem em separado de cada um dos filmes]

… A estrutura narrativa, nos dois primeiros filmes, impõe a cronologia linear do tempo historiográfico, partindo da África, passando pelo cativeiro, a Abolição, até o presente. Porém, o tempo da memória negra não acompanha necessariamente essa linearidade, ao contrário, funciona como uma reverberação que se move em múltiplas direções e sentidos. Trata-se de uma memória de luzes e sombras, de silêncios, de interrupções e vazios. Há uma consciência da perda, com a insistência na ideia de que os velhos não falavam, não passavam para os mais novos, mas também uma tenaz reconstrução da cadeia de transmissão: meu pai contava, meu pai me falou, os antigos contavam… O registro videográfico tem a capacidade de mostrar esse esforço vacilante da recordação, ora com o trunfo impiedoso do esquecimento que submerge, ora com a vitória da lembrança que, puxando o fio do primeiro verso, traz o seguinte e, no final, a cantiga toda reemerge. O maior desafio da escrita videográfica seria construir uma narrativa que evocasse ou refletisse a dinâmica errática e imprevisível dessa memória espectral.

Refletindo sobre a memória da escravidão em Serra Leoa, Rosalind Shaw distingue entre a memória discursiva, expressa por meio das falas, e a memória prática, que se perpetua inscrita nos comportamentos, nos gestos, nas danças e nos rituais. Se o primeiro e o último documentários lidam, predominantemente, com a voz dos entrevistados e, portanto, com a memória discursiva, o segundo, Jongos, calangos, e folias, embora continue a privilegiar o busto falante, focaliza também o papel da palavra no contexto ritual, apresentando, assim, um caso de articulação desses dois tipos de memória. Já o terceiro filme, com seu foco no jogo do pau, abriria espaço para uma reflexão sobre o papel do corpo na experiência da dança e do ritual e, portanto, para as formas de memória prática. Porém, como já foi dito, a performance ritual recebe uma atenção discreta no documentário. A possibilidade do “dar a ver” ao espectador, própria do filme etnográfico, é aqui minimizada em favor do “dar a ouvir”, ou seu correlato, o “dar a voz”.

Os quatro filmes combinam de forma proporcionada o primeiro plano das vozes afrodescendentes com a informação contextual fornecida por cartazes, voz em off  e, sobretudo, o diálogo e contraponto dos comentários dos historiadores e pesquisadores. Nesse sentido, cabe destacar o seleto grupo de consultores com que o projeto contou e a participação de vários bolsistas de produção científica. Porém, o espaço conferido à reflexividade, ou seja, à visibilidade dos produtores do filme no próprio filme, é pouco. Só na metade do primeiro filme se escuta, brevemente, a voz dos entrevistadores, e nos créditos aparecem imagens dos cineastas. O segundo filme incorpora entrevistas com historiadores, e aparecem tangencialmente imagens das diretoras do filme. No terceiro, a voz do entrevistador é mais audível, e Assunção interage com os entrevistados, inclusive se engajando com eles no jogo do pau. No quarto filme, as diretoras Mattos e Abreu aparecem brevemente e, talvez num dos momentos mais etnográficos da coletânea, Geraldo Romão, membro da comunidade do Bracuí, acompanha a equipe de filmagem, apresentando o quilombo e visitando o antigo engenho da fazenda. Essa sequência registra a interação entre filmmakers e filmado e, nela, o filmado é quem dirige e comanda a cena.

Concluindo, cabe destacar o valor historiográfico e o interesse didático de uma coletânea que deve contribuir de forma significativa para a difusão e valorização da memória e do patrimônio cultural dos afrodescendentes nas salas de aulas, tanto do ensino secundário, no contexto das diretrizes nacionais para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, como no ensino superior. Nesse sentido, vale lembrar a riqueza dos “Extras” dos DVDs, com registros documentais de performances rituais, informações sobre as regiões visitadas e sobre os participantes do filme, assim como entrevistas com pesquisadores e referências de documentos históricos. Junto à seriedade historiográfica e a sua vocação didática, Passados presentes apresenta um elevado índice militante, com uma aguçada consciência do papel que a representação do passado e a representação da memória têm na política do presente e na luta pelos direitos de cidadania das populações afrodescendentes. A rica polifonia de vozes desses documentários, aliada à persuasão comunicativa inerente à linguagem cinematográfica, capaz de atingir um público amplo e variado, com certeza deverá contribuir para essa reafirmação política e cultural.

memories of catptivity still1 memories of captivity still 2 jongos, calando and folias still 1 jongos, calangos e folias still 2 jongos, calangos e folias_caxambu maos e tambores

1 comentário

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública, historiografia

Sobre as ruínas do Sahy

Ninguém esquece um elefante. Nossa querida amiga e colega, a saudosa Ana Lugão Rios, assim intitulou um de seus textos abordando a demografia e a memória do tráfico ilegal de escravos no litoral fluminense na primeira metade do século XIX.  Estávamos então surpresas com a descoberta de uma muito viva tradição oral sobre a chegada ilegal de africanos escravizados na região, durante o desenvolvimento do projeto de história oral Jongos, Calangos e Folias, em 2007. No artigo, Ana revisitava a demografia do tráfico ilegal, centenas de milhares de pessoas chegadas em cerca de 20 anos no Rio de Janeiro, numa estreita faixa de terra entre o mar e a montanha.

Mas apesar da força da tradição oral, até muito recentemente, só a memória local parecia querer lembrar do acontecido, sem que historiadores ou outros formadores de opinião se interessassem em parar para ouvir o que os moradores da região tinham a dizer. É impressionante o silêncio na historiografia e na memória oficial sobre o tema por todo o século XX. Já na primeira metade do século XIX, apesar da atividade negreira envolver enormes estruturas e milhares de pessoas, os que a ela se dedicavam intencionalmente não deixaram registros escritos. Quase todas as fontes históricas mencionando a atividade são produtos das tentativas de repressão, realizadas logo após a aprovação da primeira lei de abolição do tráfico em 1831 e, principalmente, ao longo da primeira metade da década de 1850, após a lei que finalmente “pegou”. Elas nos dão notícias de 500, 800 e até mil pessoas em um só desembarque.

As ruínas na praia do Sahy, em Mangaratiba, bem em frente à Restinga da Marambaia, são um testemunho eloquente da envergadura desse silêncio e do tamanho daquilo que se tentou esconder. Formadas por extensas paredes de pedra protegidas por densa vegetação, há muito tempo elas estão ali para serem vistas por quem tem olhos para ver, sem que historiadores ou documentos oficiais consigam precisar do que se trata. O que vemos hoje é uma enorme área murada com laterais de cerca de 100 metros, com indícios de um cais, um cemitério e possivelmente de um pequeno canal em seu interior. Tudo isso ligado a uma segundo complexo retangular ou quadrado, menor, com laterais de cerca de 30 metros. Para olhos leigos, as ruínas passam a impressão de uma pequena vila fortificada, bem perto do mar.

Para quem tem ouvidos para ouvir, talvez o mistério não seja tão grande. Segundo os moradores da região, trata-se de um mercado e armazem de escravos, ligados à área de “engorda” de africanos recém chegados na restinga da Marambaia. Um informante se referiu explicitamente a um “cemitério de pretos novos” em um dos limites externos das ruínas e há registros da existência de um calabouço, relatado pela primeira tentativa de trabalho arqueológico na área. Os moradores contam ainda, com graça, antigas lendas que percorrem quase todo sítio com forte memória ligada à escravidão atlântica, como por exemplo a história de um conjunto de escravos que teriam se atirado para a morte da Pedra da Conquista, “após um banquete com coisas roubadas de seus senhores”. O relato evoca fortemente a narrativa de Rocha Pitta, no século XVIII, sobre a possível morte de Zumbi dos Palmares, atirando-se com seus seguidores de um penhasco, que durante anos prevaleceu como verdade histórica e foi registrada nos primeiros livros didáticos brasileiros do século XIX. Cercada de tão forte tradição oral, a área das ruínas do Sahy tem hoje extenso uso religioso, como local para rituais e oferendas de cultos afro-brasileiros.

A arqueóloga e historiadora Camilla Agostini, com autorização do IPHAN e apoio da Fundação Mario Peixoto da Prefeitura de Mangaratiba, do CNPq e da FAPERJ, está começando a pesquisar o sítio arqueológico, em um projeto baseado no LABHOI-UFF, do qual participamos como co-proponentes junto ao CNPq e à FAPERJ.

Estivemos no sítio na última quarta feira, quando registramos um primeiro relatório audiovisual das hipóteses de Camilla sobre os antigos usos da área. A beleza das ruínas e a envergadura do trabalho que a arqueóloga começa a desenvolver podem ser acompanhados no pequeno trecho de filme abaixo. No dia seguinte, seguimos viagem para o Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, local onde ouvimos pela primeira vez a forte tradição oral sobre o tráfico ilegal. Nessa segunda parte da viagem, nosso objetivo era apresentar um projeto de exposição permamente, voltada para o turismo de memória, para a qual contamos com o  apoio do último Edital Petrobras Cultural de Patrimônio Imaterial. Em breve daremos mais notícias sobre esse projeto

A visita às ruínas do Sahy não nos evocou apenas a tradição oral com a qual temos convivido desde 2007, mas também a necessária releitura dos nossos dados de pesquisa sobre a primeira metade do século XIX. Hebe, por exemplo, juntamente com Keila Grinberg, há muito vem trabalhando com alguns escritos do jurista autodidata Antônio Rebouças, por diversas vezes deputado na assembléia legislativa brasileira pela província da Bahia nas décadas que se seguiram à independência política. A renovação do conhecimento sobre o funcionamento do tráfico ilegal abriu novas perspectivas para a interpretacão de alguns de seus escritos. Homem pardo, nos termos de época, ele era ativo combatente pela extinção do tráfico negreiro. Em face da aprovação no Senado de uma proposição para revogar a lei de abolição do tráfico de 1831, em 1837, defendeu na Câmara, naquele mesmo ano, a revogação paralela de uma outra lei, de 1830, que proibia a entrada de africanos livres no país. Segundo ele, respeitáveis chefes de família estariam envolvidos nos desembarques e nas compras dos africanos contrabandeados, o que comprovava serem os trabalhadores africanos desejáveis e impossível a repressão à sua entrada no país. Em vista disso, defendia a continuidade do comércio com a África, sob a fiscalização das autoridades brasileiras, como já acontecia nas Antilhas francesas, e a incorporação dos recém-chegados desde 1828 [data dos primeiros acordos com a Inglaterra] com o estatuto de africanos livres. Sintetizando seu pensamento, podemos afirmar que ele considerava urgente conter a crescente tragédia humanitária que se configurava com o aumento da mortalidade dos cativos sob o égide da ilegalidade, o que, em suas palavras, resultava por vezes na “perda de carregações inteiras”, ao mesmo tempo em que se mostrava contrário a adoção de políticas de branqueamento da população livre. Não teve sucesso em revogar a lei que proibia a imigração de africanos livres, de 1830, mas talvez por temor de que sua proposição fosse aprovada, a revogação da lei de extinção do tráfico de 1831 também não foi confirmada na Câmara. Continuou em vigor e a ser escandalosamente descumprida, transformando as lindas praias da Costa Verde em um espetáculo de horror, até meados da década de 1850.

Hoje, quase ninguém se lembra das proposições de Antônio Rebouças, apesar dele ter publicado em livro todos os seus principais discursos parlamentares. Os sentidos de sua defesa da revogação da lei de 1830, juntamente com a lei de extinção do tráfico de 1831, simplesmente perderam-se com o apagamemto da memória dos efeitos cotidianos de mais de 20 anos de tráfico ilegal.  Em pleno século XXI, do Cais do Valongo ao Sahy, passando pelas memórias dos quilombolas do Bracuí, as iniciativas de memorialização do tema significam uma inflexão importante na forma como até recentemente foi construída a narrativa nacional brasileira.  Ainda que tarde, o Brasil como nação começa a falar sobre nosso esquecido holocausto particular e a tentar reparar as feridas por ele deixadas em nossa sociedade.

Camilla está em trabalho de campo na região, com uma equipe de voluntários de altíssimo nível, formada por Fernanda Codevilla / Pós-doutoranda em Arqueologia pela UFMG; Jimena Cruz / Mestre em Arqueologia pela UFMG; Thiago Campos Pessoa / Doutorando em História pela UFF; Pedro Gil Mendonça / Graduando em Arqueologia pela PUC/GO; Suzana Correa Barbosa / Jornalista, Graduanda e Mestranda em História pela UFF; Iran Maia / Graduando em História pela UFF; Alana Verani/ Graduanda em História pela UFF; e Renata Anunciação da Silva Borges / Graduanda em História CEDERJ. O trabalho de campo conta ainda com a consultoria de Ximena Villagran / Geoarqueóloga, Pós-doutoranda Universitat Tubingen e com o apoio de Raquel Terto / Graduanda em História pela UFF, enviando documentos de arquivos via internet.  O trabalho de campo conta com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente / Prefeitura de Mangaratiba; da Fundação Mário Peixoto; da Associação dos Pescadores Maricultores Lazer do Sahy e da Associação de Moradores do Sahy. É o segundo trabalho de campo no sítio sob a coordenação de Camilla. O projeto contou, em sua primeira fase,  com o a colaboração especial de Mirian Bondim (da Fundação Mario Peixoto).  A todos, muito obrigada!

26 Comentários

Arquivado em história e memória, história pública