Samba na universidade

No dia 21 de março passado, no Salão Nobre do prédio histórico da UFRJ no Largo de São Francisco de Paula número 1, centro do Rio de Janeiro, o compositor, escritor e intelectual Martinho da Vila ministrava a aula magna de início de semestre do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A sala estava lotada, não havia lugar nem no chão, todos os espaços foram tomados por estudantes, professores e funcionários e pelo público externo que compareceu ao evento acadêmico. Na sua fala, Martinho trouxe ideias sobre a importância da universidade e sobre o racismo. Sua presença nesse dia também fazia referência à data da aula magna – quando se celebra um dia de luta e de dor na história da população negra no mundo.

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Martinho da Vila ministrando aula magna no Instituto de História da UFRJ

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Aula inaugural de Martinho da Vila no Instituto de História da UFRJ

Em 21 de março de 1960, no bairro de Shaperville, na cidade de Joanesburgo, na África do Sul, aproximadamente vinte mil pessoas protestavam contra a lei do passe que passaria a obrigar a população negra do país a carregar um documento que permitiria a minoria branca no poder ter maior controle sobre a sua movimentação. O protesto pacífico, de absoluta maioria negra, com muitos estudantes jovens, foi reprimido com truculência pelas tropas do governo sul-africano, levando à morte sessenta e nove pessoas e ferindo outras cento e sessenta e nove. Essa ação violenta do regime racista do apartheid, que ficou conhecida como Massacre de Shaperville causou grande comoção local e também no mundo, levando a que a Organização das Nações Unidas passasse a estabelecer a data como Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

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Massacre de Shaperville, África do Sul

A presença do sambista em local de destaque e reconhecimento acadêmico nesse dia em especial teve relação não apenas com o significado dessa data, mas também com as mudanças pelas quais as universidades brasileiras vêm passando. Nos últimos anos, principalmente em função das ações afirmativas implantadas no acesso de alunos às universidades públicas, tem havido sensível alteração no perfil dos estudantes de graduação e pós-graduação. E, acompanhando essa transformação, tem crescido o ativismo negro e ampliado os espaços de debate sobre temas que são trazidos pelas demandas desses grupos. A aula magna de Martinho da Vila no IH-UFRJ, além de fazer parte do calendário acadêmico oficial, esteve também vinculada a uma série de eventos incluídos na campanha denominada 21 dias de ativismo contra o racismo, iniciativa inédita de diversos grupos e instituições desenvolvida em diferentes espaços do Rio de Janeiro durante o mês de março, para discutir e visibilizar diversas frentes de luta contra a discriminação racial. O resultado dessas inúmeras iniciativas e encontros tendo como foco a luta contra o racismo terá sua atividade de encerramento amanhã, segunda-feira, dia 27 de março, numa atividade na UERJ, marcando com a militância o espaço dessa universidade que, sendo pioneira na adoção de políticas de ação afirmativa e com reconhecido mérito acadêmico em diversas áreas do conhecimento, vem sofrendo um gravíssimo processo de desmonte por parte do governo estadual.

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21 dias de ativismo contra o racismo: encerramento

Martinho da Vila atualmente frequenta o curso de Relações Internacionais numa universidade privada, iniciativa que teve a partir de sua nomeação como embaixador da ONU junto aos países de língua portuguesa, e fez público seu entusiasmo e interesse sobre o que vem aprendendo. Citou inclusive um de seus professores mais admirados, o antropólogo Jacques D’Adesky, que estava presente. A aula magna de Martinho da Vila e o que disse sobre a luta contra o racismo fez lembrar a linda letra do samba de Candeia, Dia de Graça, que diz: “E cante o samba na universidade. E verás que seu filho será príncipe de verdade. Aí então jamais tu voltarás ao barracão. ” Certamente não se pode tomar a poesia ao pé da letra, a luta para não voltar ao barracão ainda se revela longa. Mas, sem dúvida, a entrada de mais estudantes negros e pobres na universidade contribui decisivamente para a desconstrução de formas de pensar o mundo e a história e, sobretudo, de agir frente a ela. A academia se beneficia, e mais ainda a sociedade. O dia de graça é um dia como foi esse mesmo, e de outras formas de escuta e diálogo que devem vir.

Dia de Graça, samba de Candeia

Considerar a presença de novos sujeitos no campo acadêmico relaciona-se diretamente com luta contra o racismo e também com a necessidade de um compromisso permanente com a defesa da história e da memória das populações que foram longamente silenciadas. Isso traz à preocupação preservar e valorizar lugares de memória da população africana, como o Cemitério de Pretos Novos, na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se muito provavelmente do mais importante campo santo de inumação de africanos recém-chegados às Américas em toda a diáspora africana no continente. Hoje, o local que vem sendo à duras penas conservado e aberto à visitação e pesquisa, está ameaçado por falta de apoio mínimo para seu custeio. Nossos ancestrais, que sobreviveram à travessia, mas não à vida como cativos recentemente desembarcados, exigem nossa atuação para que a materialidade de sua história continue a ser objeto de estudo e conhecimento. O Instituto de Pretos Novos resiste, e não está sozinho.

#IPNresiste

Durante sua fala, Martinho da Vila também cantou e fez cantar a letra de outro samba, de Dona Ivone Lara, Sorriso Negro, e chamou a atenção para a frase “Negro sem emprego, fica sem sossego...”, contextualizando as consequências desses difíceis dias que a sociedade brasileira vem passando, com a presente ameaça aos direitos conquistados em anos de luta e frente às reformas que atingem especialmente os trabalhadores. Em diversos momentos recorreu à poesia de sambas para trazer à plateia suas reflexões. Nessa ocasião de aprendizagem memorável, mostrou uma vez mais que essas e outras produções culturais negras e populares têm muito a dizer na academia. Celebramos um dia de luta nos encantando com a inteligência e a elegância do intelectual sambista, conscientes da importância de nos mantermos juntos e firmes para os novos embates.

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Fogo na Dor: o #8M e os temerários perigos da história única

Foi em fevereiro que pipocou na minha timelaje o chamado para uma Greve Internacional de Mulheres no dia 08 de março de 2017. As autoras, dentre as quais se incluem Angela Davis, Nancy Fraser e Tithi Bhattacharya, provocavam-nos a manter acesa a onda de protestos observada nas marchas de mulheres contra Trump, em 21 de janeiro nos EUA.

Autoras Greve Internacional #8M

Intelectuais Feministas autoras do Manifesto à Greve Internacional das Mulheres.

No documento, as ativistas conclamavam mulheres a lutarem por um feminismo que represente 99% das pessoas, revisando erros e acertos e focando na importância de uma agenda expandida – anti-racista, anti-imperialista, anti-heterossexista e anti-neoliberal – para os movimentos com este recorte. Por aqui, feministas negras do naipe de Deise Benedito e Lúcia Xavier aderiram à mobilização, compartilhando reflexões e propondo ações ligadas ao cenário brasileiro nas redes sociais. A rápida adesão por milhões de mulheres confirmou a impossibilidade crescente de separar o mundo e o ativismo em “real” e “virtual”. Afinal, em um país de maioria feminina, campeão em índices de feminicídio, trabalho doméstico e lesbobitransfobia, o que pode ser mais real do que conclamar as mulheres para irem às ruas lutarem por direitos trabalhistas, de saúde e segurança?

O fato é que este cenário de mobilização é alimentado porque sentimos na pele que nossas conquistas enquanto mulheres estão cotidianamente ameaçadas por políticas conservadoras, elaboradas por um patriarcado do século XXI, no qual o lar, os filhos e o orçamento doméstico definem, sem parcimônia, o “ser mulher”. Se não por acaso o conclame ao #8M, é assinado majoritariamente por mulheres “de cor” (women of color) no Brasil é preciso sempre lembrar que esse violento processo de biologização e hierarquização dos gêneros repercute de forma incisiva na vida das mulheres negras  em todos os campos.

Esse impacto confirma a importância de identificar os eixos de opressão que se articulam, como defendeu Kimberlé Crenshaw, ao criar nos anos 1990, o conceito de interseccionalidade. Trata-se de categoria central para compreender que classe é definida pelas experiências de raça, raça pelas experiências de gênero, gênero pelas experiências de sexualidade e assim sucessivamente. Nessa lógica, percebemos que a ausência de Mulheres Negras nos centros e notas de rodapé é prática corriqueira na academia, como narrado em “De mãos dadas com minha irmã: solidariedade feminista”, texto de bell hooks que nos ajuda a compreender a falta de nexo no modo de pautar o Racismo Estrutural, para dar um exemplo “à brasileira”.

Como as histórias não são únicas este 08 de março foi palco de uma conquista significativa. Na batalha por representatividade na mídia, tivemos Taís Araújo estreando no programa Saia Justa e narrando na primeira pessoa o Brasil brasileiro da falsa democracia racial que mata 23 jovens negros por minuto.

Tais Araújo - Saia Justa

A atriz e apresentadora Taís Araújo.

A fala da atriz, sintonizada com as agendas dos movimentos negros e feministas, no Canal GloboSat GNT, representa uma vitória para Mulheres Negras como a designer gráfica Maria Julia Ferreira, autora da campanha GNT Se Você Não Me Vê Eu Não Vejo Você!!!, de 2013.

Maria Julia Ferreira - GNT

A auto narrativa de Taís assim como as intervenções altamente qualificadas de Djamila Ribeiro em sua participação no Programa Estúdio I dedicado ao Dia Internacional da Mulher confirmam também a importância da luta por estarmos em todos os lugares. A inteligência que nos faz caminhar das margens para o centro, apropriando-nos das contradições e produzindo saberes em nome do fortalecimento da comunidade negra e de nossas pautas.

#8M - Dja Ribeiro

A filósofa e intelectual pública Djamila Ribeiro.

Nessa caminhada destaca-se o direito ao bem viver, reivindicado pela Marcha das Mulheres Negras e por ativistas como Dona Debora Silva, do Movimento das Mães de Maio. Direito este diariamente aniquilado como demonstra a triste história de João Victor de Souza de Carvalho, mais um de nossos meninos brutalmente impedido de ser humano aos 13 anos.João Victor de Souza

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Para seguirmos todos os dias pensando e praticando o #8M de forma interseccional e condizente com a realidade brasileira, também destacamos a criatividade e a força da psicóloga da UFRJ Luciene Lacerda, feminista negra idealizadora da Campanha 21 dias de Ativismo contra o Racismo. Abraçado por ativistas negros (e brancos) de diferentes áreas, o movimento realiza durante o mês de março centenas de atividades relacionadas à luta contra o racismo no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense e em Macaé.

#8M-21dias

A luta por existir e reexistir como insistimos atinge de forma específica mulheres negras, conforme comprovam os dados do IPEA no estudo Retrato das desigualdades. Lançada no último 06 de março, a pesquisa reúne dados sobre trabalho, família e escolaridade entre mulheres no país entre 1995 e 2015 e também foi lembrada no instigante texto da jornalista Luciana Barreto, que conecta rostos e vozes de intelectuais negras como Mônica Lima e Nathália Braga em celebração à nossa ancestralidade.

#8M - Luciana Barreto

Luciana Barreto, jornalista da TV Brasil

#8M - Luciene Lacerda

Na boa companhia de Luciene Lacerda, idealizadora da Campanha 21 Dias de Ativismo  Contra o Racismo. Foto: Daniele Grazinoli.

No meu mural do “Dia sem Mulher”, tem lugar cativo o texto “Calar é preciso” da jornalista Flávia Oliveira, propositalmente publicado no after day. Flavia, nossa intelectual negra que  em breve estreia como apresentadora do TED – Compartilhando Ideias, no Canal Futura, tacou fogo na dor narrando em números e reflexões densas a vulnerabilidade a que estão sujeitas às mulheres brasileiras dentro da combinação reforma política e restrição orçamentária. Tem assento permanente também mulheres como Dona Débora Silva, que carregam a sabedoria de transformar morte em vida frente ao genocídio da população negra.#8M - Flavia Oliveira

Flávia Oliveira, colunista do jornal O Globo

#8M - Mães de Maio

Dona Débora Silva, ativista do Movimento Mães de Maio.

Se na luta por sermos visíveis e respeitadas, Chimamanda Adichie ensinou-nos que muitas histórias importam, é hora dela própria repensar que as muitas mulheridades também importam. Nesse sentido, é o momento de todas Nós lutarmos em busca de um sol amarelo no qual o direito às identidades de gênero brilhe para além do pênis e da vagina. Essa travessia é oposta à trilhada por feminismos dito “radicais” que naturalizam a história única, biologizando experiências de gênero e distorcendo o sentido político de  radicalidade, originário da insurgência política negra nas lutas pela liberdade.

E por falar nas muitas histórias que verdadeiramente nos importam, encerramos o texto com o registro da banca de defesa de monografia da estudante Isadora dos Santos Nascimento. Após cumprir os ritos acadêmicos com toda a competência e sensibilidade herdada de nossas ancestrais, a jovem publicou malandramente em seu Instagram: #vaiterpretapedagoga.

#8M - Isadora Nascimento

A pedagoga Isadora dos Santos Nascimento comigo, a Profa. Dra. Núbia Oliveira e o Prof. Dr. Sergio Luiz Baptista na cerimônia defesa da monografia intitulada Relações étnico-raciais nos manuais didáticos de História do 4 e do 5 ano dos anos iniciais do Ensino Fundamental: análise das imagens da população negra na Faculdade de Educação da UFRJ.

No 08 de Março e sempre UM SALVE a Isadora, à Dona Débora e a todas as Mulheres Negras do Brasil e do mundo por lutarmos de múltiplas formas pelo direito de existir e reexistir.

Axé!

#8M - Mulheres Negras

Feministas Negras na Greve Internacional das Mulheres, 08 de março no Rio de Janeiro.

 

 

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O Carnaval do #ForaTemer

Fechamos 2016 sem fazer retrospectiva e começamos 2017 sem os votos de praxe, mas o primeiro post coletivo do ano teve a força de fazer as duas coisas ainda que de forma indireta. O “conversa de historiadoras” abriu o ano apoiando a anticandidatura de Beatriz Vargas ao Supremo Tribunal Federal e antecipando o #Fora Temer que explodiu no carnaval em grande estilo e por todo o país (clique na figura para ver o víde0).

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O #ForaTemer foi notícia até na Globo, o que pode indicar eleição indireta no horizonte e uma possível segunda fase do golpe, já que o #DiretasJá não teve o mesmo sucesso. De todo modo, carnaval sempre foi política. Em Salvador, os foliões gritaram #ForaTemer e se opuseram com criatividade à violência policial às manifestações populares, velho problema que se tornou mais agudo nos últimos meses. As redes sociais amplificaram os significados da força do protesto coletivo em forma de riso.

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Quem foi ao Mulheres de Chico ontem, na Pedra do Leme, no Rio de Janeiro, não tem dúvida: de um jeito ou de outro,  amanhã vai ser outro dia.

Nos desfiles das escolas de samba, sobretudo no Rio, os graves acidentes com carros alegóricos trouxeram, com razão, muita energia para a discussão (antiga) sobre os problemas que a espetacularização midiática e o caráter de festa oficial do carnaval da Sapucaí podem representar.

Vale a pena, porém, colocar as lentes também no outro lado da moeda: a potencialidade criativa e de inovação que o encontro entre energia comunitária e indústria cultural pode produzir.

O desfile da Unidos da Tijuca foi lugar de um dos tristes acidentes. Um daqueles casos em que o show, simplesmente, não devia continuar.

Ainda assim, o enredo sobre o encontro de Pixinguinha e Louis Amstrong, celebrando a força cultural do Atlântico Negro não passou em branco. O desfile tornou conhecido do grande público um encontro cuja repercussão esteve, até então, reduzida a trabalhos intelectuais do campo da história e dos estudos culturais.

Pena que a cegueira seletiva da Rede Globo, que continua a monopolizar a transmissão pela TV, e  o desconhecimento sobre os enredos e a história das escolas de boa parte dos comentaristas, não permitam amplificar ainda mais a importância da mensagem.  Também o impactante navio negreiro na abertura da Vila Isabel e seu enredo sobre o som da cor,  cantando as dores da diáspora africana e, mais uma vez, a força da música negra no Atlântico, quase não foram mencionados pela cobertura, que só enfatizou as falhas técnicas do desfile… que preguiça.

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A diáspora banto nas Américas foi cantada também pela União da Ilha, com enredo lembrando Macurá Dilé, o tempo que teve início, mas não tem fim, tradição do candomblé Angola. Foi uma aula em plena festa!  Vale ainda destacar a presença na Imperatriz de caciques vindos do Xingu. A verde e branco da Leopoldina não poupou críticas aos inimigos das terras indígenas!

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Se os carros alegóricos foram o grande problema, a visão dos meninos da Mangueira empurrando o carro de São Jorge com animação e euforia dá bem conta do que as imagens da TV continuam a não mostrar. A cena foi filmada por Lívia Monteiro,  historiadora da congada mineira, em sua primeira vez na Sapucaí, completamente emocionada pela experiência.

Aliás, como escreveu Martha em sua conta no facebook, em mensagem em grande parte incorporada neste post, o desfile da Mangueira foi irresistível.  As imagens de Cristo, dividindo um carro com Oxalá, a força de São Jorge e do Divino, e a porta bandeira Debora Oliveira, vestida de azul e dourado, incorporando Nossa Senhora Aparecida, são mesmo inesquecíveis. Em tempo de fortalecimento de tantas intolerâncias, entre elas o veto do Cristo no desfile das campeãs,  a Mangueira mostrou o quanto a “ajuda do santo” faz parte de nossa história.

O carnaval terminou com festa em Madureira, um dos berços do samba, com a dupla vitória de Portela e Império Serrano!

Ainda no clima da festa, pedindo #ForaTemer e #DiretasJá,  o “conversa de historiadoras”  pede passagem e começa oficialmente o ano de 2017.

Mangueira! Rogai por nós!!

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O que é uma Anticandidatura? Em apoio à indicação de Beatriz Vargas ao Supremo Tribunal Federal

A vacância de uma cadeira no Supremo Tribunal Federal com a morte do Ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato, colocou no centro do debate público a seguinte pergunta: o que se deseja de alguém que venha a ocupar um assento na Máxima Corte?

Considerando o papel do STF na defesa da Constituição da República Federativa do Brasil, gostaríamos que a pessoa indicada, além de atender aos requisitos obrigatórios de nacionalidade brasileira, cidadania plena, reputação ilibada e notável saber jurídico, seja uma praticante da empatia no seu sentido macropolítico. Mas o que isso quer dizer exatamente?

Que defendemos que a vaga do STF seja preenchida por uma juíza que possua conhecimentos críticos em pautas cruciais à manutenção de um regime democrático no Brasil: equidade de gênero, raça, sexualidade, reforma agrária, segurança pública, sistema penitenciário. Por isso, expressamos nosso apoio a Beatriz Vargas, indicada por diversas organizações dos movimentos sociais (Mulheres, Indígenas, Negros, LGBT) e ativistas independentes como a advogada adequada ao preenchimento da vaga.

Quando falamos em Anticandidatura, não estamos indicando um nome a Temer, mas fortalecendo o debate público sobre a importância de um Poder Judiciário com representantes escolhidos de forma democrática e condizente com as principais questões a serem enfrentadas no Brasil.

Neste contexto, o termo Anticandidatura refere-se à urgência de apresentar formalmente ao Presidente Michel Temer uma contraproposta de nossa autoria à indicação de Alexandre Moraes, uma vez que o mesmo distancia-se dos requisitos que consideramos necessários para compor o grupo dos onze ministros do STF.

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Dona de longa trajetória no Direito, a Anticandidata Beatriz Vargas é docente da UnB, referência nos debates sobre descarcerização do sistema penitenciário e possui destacada atuação na defesa dos direitos humanos, em especial no que tange ao Movimento Sem-Teto, às crianças e adolescentes e à diversidade racial e de gênero.

Reforçando nosso potencial de sujeitas políticas na luta pela democracia, convidamos todas (os) a assinarem conosco o Manifesto da Anticandidatura Feminista de Beatriz Vargas ao STF

Amanhã, 15/02 às 10h, o documento será entregue ao Senado no Plenário 6 da Ala Nilo Coelho. O ato contará com a participação de feministas de todo o Brasil.

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Escravidão e Subjetividades

O livro didático História, Sociedade e Cidadania, voltado para o ensino médio, de Alfredo Boulos Junior, citou uma frase minha sobre a abolição em uma de suas questões, contrapondo a uma afirmação de Emília Viotti da Costa, uma das referências em minha formação como historiadora. Reproduzo aqui:

DEBATES DA HISTORIA: A abolição tem sido alvo de constantes debates entre os historiadores. Para alguns, como Emília Viotti da Costa, professora da Universidade de São Paulo (USP), “a abolição libertou os escravos do pesado fardo da escravidão e abandonou os negros à sua própria sorte”. Para outros, como a historiadora Hebe Maria Mattos, professora da Universidade Federal Fluminense, “a abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros […]”. Qual delas, em sua opinião, tem um argumento mais convincente? Justifique.

Li a questão e fiquei pensando, serão as duas afirmações realmente opostas? A história da experiência do racismo, entendido como memória/estigma da escravidão, aproxima, me parece, as duas assertivas. Por que (e como) o acontecimento ímpar da abolição (que reconheceu a igualdade civil entre todos os brasileiros, libertando os escravizados do fardo pesado da escravidão) não implicou na superação do racismo no Brasil, abandonando os “negros”, categoria socialmente construída, à sua própria sorte? Esta é a questão que as duas afirmativas tomadas em conjunto provocam.

Pensar a experiência da escravidão, do racismo e da violência colonial como trauma, individual e coletivo, é um campo de reflexão que tem se expandido nos últimos anos.

Em um contexto que entrelaça estruturas políticas do antigo regime e expansão comercial europeia na África e nas Américas, as relações entre capitalismo e escravidão, caras à Emília Viotti da Costa, também têm sido intensamente revisitadas.

Nesse cenário, uma história da constituição do mundo atlântico que englobe as estruturas políticas preexistentes à expansão europeia e a experiência do estigma da colonização e da escravização das populações indígenas e africanas apenas começa a ser escrita.

Este foi um dos pontos de coesão dos textos da coletânea Escravidão e Subjetividades no Atlântico Luso-Brasileiro e Francês, que organizei com Myriam Cottias, historiadora francesa da escravidão e da memória da escravidão, com textos de autorxs brasileirxs e francesxs, entre eles Martha e Keila aqui do Blog. O livro foi lançado em e-book neste ano de 2016, como resultado do edital Saint-Hilaire, cooperação acadêmica entre Brasil e França na área das humanidades.  

Convido os leitores do blog a acessarem a obra, disponível online, em português e francês. Com o livro, procuramos ressaltar a importância de insistir na história social como processo, e nos “jogos de escala” como estratégia, para enfrentar os dilemas que mais de 3 séculos de escravização africana nas Américas apresentam para a contemporaneidade. 

Os capítulos abordam experiências de sujeitos históricos individuais, entendidos como agentes sociais. De fato, na maioria dos casos, os autores os consideram também, ainda que nem sempre explicitamente, como sujeitos sensíveis, tomados como subjetividades específicas, ainda que em sociedades não individualistas, como era o caso da maioria das sociedades escravistas, sobretudo antes do século 19. Este segundo ponto de costura dos textos emergiu da leitura final do conjunto pelas organizadoras e acabou sendo escolhido como título do trabalho. 

Escravidão e Subjetividades revisita as sociedades escravistas do Atlântico luso brasileiro e francês desde o ponto de vista dos sujeitos racializados que elas acabaram por produzir.

Aborda as subjetividades racializadas dos “livres de cor”construídas pelas práticas do catolicismo na América portuguesa do século 18 através  da trajetória do Santo Pardo Gonçalo Garcia no Recife  [Larissa Vianna] e a institucionalização do racismo em Portugal, com a manutenção da mancha de sangue para os escravos libertados pela abolição da escravidão no reino, no mesmo período [Antônio Mendes].

Discute  a interseção entre classificacões jurídicas e subjetividades no colonialismo católico português e francês,  inclusive nas escolhas matrimoniais de índios e africanos livres ou escravizados [Charlotte Castelnau-LÉstoile] ou nas relações políticas, mas pessoalizadas, entre monarcas africanos e europeus, apagadas da memória enquanto seus registros se transformavam em objeto de museus coloniais [Mariza Soares].

Conecta aspirações de cidadania e histórias de vida ao analisar as expectativas frustradas de integração dos “livres de cor” no Haiti pre-revolucionário [Dominique Rogers], as desventuras de Rufina, sequestrada e vendida como escrava para o Brasil duas vezes na vida – uma na África outra no Uruguai [Keila Grinberg], as subjetividades cativas reveladas nos diários do administrador de uma plantation na Martinica [Myriam Cottias], as experiências diferenciadas de africanos livres ou resgatados da escravidão como trabalhadores por contrato, no Caribe francês, após a abolição da escravidão [Céline Flory].

Por fim, aborda as relações entre racialização e subjetividades na trajetória de artistas negros que encenaram estereótipos racistas no Brasil, na França ou nos Estados Unidos [Martha Abreu], bem como na solidão de intelectuais afro-brasileiros  [Hebe Mattos] e afro-franceses [Elsa Geneste] frente ao colonialismo europeu na África de finais do século 19.

Por conta do Escravidão e Subjetividades,  fui convidada a participar, no final de outubro, de um seminário multidisciplinar sobre o impacto psicológico da escravidão para as populações da diáspora africana, que reuniu psicólogos, psiquiatras, historiadores e cientistas sociais, na Martinica.

Faço parte da geração que,  nos anos 1980,  fez mais profundamente a crítica da influência das chamadas teorias da patologia social na famosa “escola sociológica paulista”, por transformarem a experiência da escravidão em um  quase completo aniquilamento cultural e moral para escravizados e libertos. Durante o seminário, tive oportunidade de refletir sobre  a pertinência do problema de base daqueles trabalhos, entre eles os textos seminais de Florestan Fernandes e Emília Viotti da Costa: as desvantagens sociais e psicológicas inerentes à experiência da escravidão e do racismo e sua reprodução no pós-abolição.  E sobre a importância de revisitá-lo de perspectivas que integrem as subjetividades negras, com sua agência social e riqueza cultural,  no centro das discussões.   

Na semana seguinte, participei de um segundo seminário, Slavery and Global Public History. Comecei a escrever este texto no avião, retornando da Universidade de Brown. Neste caso, foi a experiência do projeto Passados Presentes que me trouxe até ali. Pensar a representação da escravidão no espaço público é também pensar as subjetividades negras e a construção (e desconstrução) do racismo na contemporaneidade.  Foram ricas e sugestivas as discussões sobre descolonização de narrativas, propondo desconstruir e desnaturalizar imagens coloniais e escravistas nos espaços de museus e livros didáticos, sem apagar sua memória social ou existência como imagem de arte. 

Ao chegar ao Rio, o turbilhão do golpe me impediu de publicar o texto imediatamente. Em meio a ele, uma reportagem no The Intercept, sobre turismo histórico em uma antiga plantation do Rio de Janeiro, em que os turistas reencenam a escravidão como sujeitos senhoriais, me deixou simplesmente chocada com a naturalização do racismo ainda prevalecente no país. É como se reencenássemos Auschwitz, vivendo sem críticas o papel do nazista, em uma visita à Alemanha!  

Para qualquer brasileiro antiracista, a reportagem de Cecília Oliveira no The Intercept foi (mais) um grito de alerta e um soco no estômago. Como e onde exibir uma imagem de punição física de cativos do Debret levando em conta seus efeitos sobre as subjetividades das crianças negras e brancas?  Como contextualizar para estudantes negros e  brancos a leitura de um texto racista de Monteiro Lobato? Ainda que postas já há algum tempo do ponto de vista político, esses são desafios e discussões que  nós,  historiadorxs profissionais, não podemos mais adiar.

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O ProfHistoria e o bom combate

Afirmo sem medo de errar que o ProfHistoria é a maior novidade da pós-graduação em História no Brasil. Como a Monica Lima já escreveu por aqui, o mestrado profissional em Ensino de História, nome completo do ProfHistoria, ocorre hoje em 27 universidades de todo o Brasil, congregando professores da Educação Básica e do ensino superior em torno de um objetivo comum: contribuir para a melhoria do ensino de História no Brasil. Queremos contribuir com reflexões, mas também com ações práticas, de preferência umas atreladas às outras.

Um bom exemplo do impacto que programa já provoca ficou evidente no Seminário de Ensino de História da Africa, da Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas Escolas, ocorrido sábado passado na UNIRIO. A partir dos trabalhos finais de mestrandos do Programa, realizamos um dia inteiro de discussão em torno de quatro temas: religiosidade afro-brasileira; arte, histórias e biografias; patrimônio e ensino de História indígena; e currículo e relações étnico-raciais.

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Quem esteve lá ouviu professores entusiasmados com as suas práticas e ansiosos por compartilhar suas pesquisas.  Ninguém há de discordar que o momento é de resistência e luta pela defesa das conquistas obtidas nos últimos anos no campo da Educação. Mas o que vimos no sábado foi um grupo de professores animados em transformar os grandes desafios da sala de aula em experiências positivas. Mais do que nunca, é disto que precisamos. Como sempre, o tempo foi curto para o tanto que havia a conversar. Faremos outros. Enquanto isso, divulgaremos em breve aqui os trabalhos apresentados. Afinal, os mestres do ProfHistoria têm pressa, que há muito o que fazer e nenhum tempo a perder.

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O seminário foi uma iniciativa conjunta do ProfHistória/Rede Rio e do projeto de pesquisa “Passados Presentes: memórias da escravidão e políticas de reparação nas políticas públicas na área de educação no Brasil”, realizado pelo LABHOI/UFF, NUMEM/UNIRIO e pela Universidade de Columbia (NY, EUA), no âmbito do edital FAPERJ/Columbia. Abaixo, a programação completa.

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PROGRAMAÇÃO:

09:00 às 10:30
Mesa 1: Religiosidade Afro-Brasileira e o Ensino de História
Debatedora: Ivana Stolze Lima (FCRB e PUC-Rio)

Isabelle de Lacerda Nascentes Coelho – mestranda no ProfHistória (UFRRJ) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
O Axé na Sala de Aula: abordando as religiões afro-brasileiras no Ensino de História.

Carolina Barcellos Ferreira – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora das redes municipais de Nova Iguaçu e Rio de Janeiro
“Isso é coisa da macumba?” Elaboração de um material pedagógico de História sobre as religiosidades afro-brasileiras em museus do Rio de Janeiro.

Jessika Rezende Souza – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
Entre a cruz e o terreiro: uma análise em torno da integração entre a religiosidade afro-brasileira e o Ensino de História no Museu do Negro.

10:30 às 12:30
Mesa 2: Arte, Histórias e Biografias no Ensino de História da Africa e da Cultura Afro-Brasileira
Debatedora: Giovana Xavier (UFRJ)

Rafael Bastos Alves Privatti – mestre pelo ProfHistória (PUC-Rio) / professor da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Desenhos animados e ensino de História: uma aposta para o letramento nas séries iniciais da escolarização.

Lucas Moreira Calvo – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professor da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Histórias conectadas no ensino de História: tecendo conexões entre o Norte da África e a Península Ibérica no período da expansão islâmica (séculos VII-IX).

Joana D’arc Araújo da Silva – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Enegrecendo as Belas Artes: ensinando história por meio das trajetórias de dois pintores negros do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX.

Carolina Viana Machado – mestre pelo ProfHistoria (UFRJ)
O pós-abolição nas aulas de História: uma análise do papel social atribuído aos negros na História ensinada.

14:00 às 15:30
Mesa 3: Patrimônio e Ensino de História Indígena
Debatedora: Regina Celestino (UFF)

Marcia de Souza da Silva Maia – mestranda no ProfHistória (Puc-Rio) / professora da rede particular de São João de Meriti
Parque Indígena do Xingu: um jogo para a lei 11.645/2008.

Carla Cristina Bernardino Ramos – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede municipal de Araruama e da rede estadual do Rio de Janeiro
Presença Indígena em Araruama: Patrimônio e Ensino de História.

Thais Elisa Silva da Silveira – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora da rede municipal de Duque de Caxias
Identidades Invisíveis: indígenas em contexto urbano e ensino de história na região metropolitana do Rio de Janeiro.

15:30 às 17:30
Mesa 4: Currículo e relações étnico-raciais no ensino de História
Debatedora: Cecília Silva Guimarães (UNIRIO)

Ana Carolina Mota da Costa Batista – mestre pelo ProfHistória (UFF) / professora da rede municipal de Araruama e da rede estadual do Rio de Janeiro
Relações étnico-raciais na voz do professor: currículo em debate no contexto quilombola.

Cristiane Lemos – mestre pelo ProfHistória (UNIRIO) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
Tecendo caminhos para aplicação da lei 10639/2003: um relato de experiência em turmas de 3º ano do Ensino Médio da rede pública.

Camila Abreu – mestre pelo ProfHistória (UNIRIO) / pós-graduada em Arte e Cultura (IUPERJ)
Quilombo de Maria Conga em Magé: memória, identidade e ensino de História.

Fernanda Nascimento Crespo – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
O Brasil de Laudelina: usos do biográfico no ensino de história.

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Ocupar e Resistir: Conquista de Pinheiral em dia de Zumbi, por Hebe Mattos, Martha Abreu, Keila Grinberg e Elaine Monteiro

Dia 20 de novembro de 2016. Apesar dos retrocessos e ameaças aos direitos inscritos na Constituição de 1988 que marcaram o ano, foi um dia histórico para a comunidade jongueira de Pinheiral, que recebeu oficialmente, da prefeitura, a posse coletiva de parte das terras que cercam às ruínas do casarão central da antiga fazenda de São José do Pinheiro, antiga residência de uma dos maiores fazendeiros e traficantes de africanos escravizados do Brasil do século 19, José Joaquim de Souza Breves.

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Depois de muitos anos de luta, pelo menos desde os anos de 1980, a emoção contagiou a todos que lá estiveram para assistir  às comemorações bem em frente ao velho casarão em ruínas, de onde se avista o antigo terreiro de café, as casas que já foram as senzalas e o memorial do Projeto Passados Presentes, erguido nesse espaço outrora identificado com o poder senhorial, hoje o Parque das Ruínas da Fazenda São José do Pinheiro.

O prefeito de Pinheiral, Professor José Arimathea, conclui seu mandato fazendo justiça aos descendentes da trabalhadores africanos das antigas fazendas cafeeiras da região que, ao migrarem para a cidade ao longo do século 20,  a transformaram na “capital do jongo” do estado do Rio de Janeiro.

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O grupo de jongo de Pinheiral,  através do CREASF, centro de referência de estudo afro sul fluminense, e de suas lideranças, as irmãs Maria de Fátima (Fatinha), Maria da Graça e Maria Amélia dos Santos, viu um dos seus mais antigos sonhos, o de transformar as ruínas da antiga sede da fazenda e seu entorno em local de memória e celebração da cultura negra, se fazer realidade, em julho de 2015.  Uma ação concebida no âmbito na década internacional do afrodescendente (Década AFRO) instituída pela ONU (2015-2024) e do Projeto Rota do Escravo, da UNESCO.  Um passado para não ser mais esquecido, que faz de Pinheiral, a “cidade do jongo”.

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A comunidade jongueira da cidade torna-se agora, e para sempre, a principal guardiã desse lugar de celebração da herança africana e da identidade negra e jongueira.

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Em tempos de resiliência, esse dia 20 de novembro foi mesmo especial para a cultura e a consciência negra no velho vale cafeeiro. Vai ficar na história da região. Vai ficar na nossa história, coordenadoras do projeto Passados Presentes, desenvolvido em parceria com a comunidade jongueira.  Foi um dia de muito AXÉ!

Para registrar ainda com mais força a emoção do dia de hoje, transcrevemos a fala de Fatinha, em uma entrevista que nos concedeu em 2009, em momento que ainda não era possível imaginar tamanha conquista. Apesar dos tempos sombrios, o patrimônio negro de Pinheiral está nas mãos dos seus herdeiros legítimos, eles saberão garantir o futuro.

“…Porque a gente sempre pensou em fazer um centro cultural no casarão, isso é uma ideia muito antiga, a gente dançava em vários cantos da cidade, nos terreiros das casas, na rua e ficava aquela coisa com o casarão… foram os escravos que construíram aquilo tudo e nada daquilo nos pertence…foram nossos antepassados, os negros que vieram da África que construíram aquilo lá”

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