Juízo Final?

“É o juízo final/

a história do Bem e do Mal/

Quero ter olhos pra ver/

A maldade desaparecer…”

(Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)

 

Terminou hoje a olimpíada do #ForaTemer. O quadro de medalhas do Brasil colocou em evidência, uma vez mais, os resultados positivos das políticas de inclusão social implementadas a partir de 2002. O programa Segundo Tempo, do Governo Federal, iniciado em 2003, deu ao Brasil um triplo medalhista em uma mesma olimpíada, Isaías Queiroz. No momento em que publico este post,  começa a cerimônia de encerramento da festa olímpica, sem a presença do presidente interino, transformando em realidade o desejo de quase todos, ainda que temporariamente. Pelo menos no encerramento das olimpíadas ele está fora! #ForaTemer!

Com apelo ecológico, a belíssima festa de abertura não chegou a fugir das interpretações mais correntes do país, com sua força simbólica e repetidos silêncios: o mito das três raças, a cordialidade do brasileiro, a gambiarra como capacidade de improvisação.  Vale a pena ler o texto de Lilia Schwarcz sobre o tema. Fez isso, entretanto, não apenas de forma plasticamente bela, mas com uma mensagem fortemente relacionada a alguns valores políticos que estão, neste momento, sob impiedoso ataque no Brasil. Entre eles: inclusão social, tolerância e pluralidade cultural. Recebeu os aplausos do mundo.

O show colocou representantes LGBTs à frente das comitivas,  dedicou metade de seu tempo ao protagonismo cultural negro na cidade olímpica e encenou (ainda que de forma discreta) a violência da escravidão. No final da cerimônia, todas as delegações se misturaram, uma solução simples, mas nunca antes executada para representar o espírito olímpico. O hino nacional com a voz e o violão de Paulinho da Viola ou as performances de Wilson das Neves e Elza Soares foram simplesmente inesquecíveis. Como muitos registraram, foi um Brasil sem “complexo de vira-latas” o que foi visto no palco do Maracanã. Alegoria à brasileira de um ufanismo democrático e politicamente correto, no melhor sentido da expressão, marca do país nas últimas décadas.

O constrangimento da cerimônia estar presidida literalmente por um usurpador foi enormemente ampliado pelo espírito do espetáculo.  As vaias a ele dirigidas concluíram a festa e quase poderiam estar no roteiro. Difícil acreditar que não haja senadores comprometidos com a democracia em número suficiente para reagir à ilegitimidade do governo interino e ao triste cenário que ele prepara para o futuro. Mantenho as esperanças, mesmo diante do oligopólio midiático que tenta de todas as formas escamotear a ruptura com a legalidade decorrente da inacreditável sessão da Câmara dos Deputados de 17 de abril, e da reconhecida deterioração do ambiente político, quase todo envolvido em escândalos de corrupção. Aproxima-se o juízo final, com todas as ambiguidades de sentido que a expressão sugere.

Caravanas da Democracia se dirigem à  Brasília neste final de agosto para acompanhar o julgamento do processo de impeachment no Senado Federal. Chegarei por lá, com Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian, no dia 27, quando lançaremos o livro Historiadores Pela Democracia. O golpe de 2016 e a força do passado, que organizamos juntas.

Conforme relatamos na introdução do volume, o movimento Historiadores Pela Democracia surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos em vídeo, cresceu como um grupo de discussões no Facebook (hoje com quase 10 mil membros) e cristalizou-se com a iniciativa de visitar a presidenta Dilma no Palácio do Alvorada, em apoio à legitimidade de seu mandato, que passava a simbolizar a soberania do voto e a própria democracia. Encontro que se deu no dia 7 de junho e para o qual foi elaborado um vídeo-manifesto.

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Reunindo historiadores com carreira consolidada nacional e internacionalmente e jovens profissionais de história, o movimento não pretende representar todos os profissionais da área, mas está em sintonia com muitos deles. Editado em tempo recorde pela Alameda Editorial, o livro reúne historiadores de diferentes gerações em um exercício de história imediata.

Escritos no calor do processo da atual crise política brasileira, os textos reunidos no livro lançam uma pluralidade de olhares sobre a sucessão de acontecimentos ao mesmo tempo em que demonstram uma preocupação comum: nossa democracia corre risco (texto da orelha do livro).

A partir de um olhar historiográfico, os autores tomam por base problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos políticos recentes. Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto analisado informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto reunido sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão. A seleção e reunião dos textos em ordem cronológica permitiram esboçar uma primeira proposta de periodização do golpe em curso. Ela estrutura as quatro partes em que a obra está dividida.

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Durante o evento, que ocorrerá às 16 horas no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, haverá mesa redonda com as organizadoras e autores presentes, seguida de debate sobre a conjuntura que se abre para a continuidade da luta democrática. No lançamento será mais uma vez exibido o Vídeo Manifesto Historiadores Pela democracia, que está recebendo legendas em inglês.

A Presidenta Dilma Rousseff foi convidada para o lançamento. Torcemos para que ela possa comparecer.

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VOTAÇÃO NA LASA RATIFICA DENÚNCIA DO GOLPE NO BRASIL

Por ampla maioria (87% dos votantes), foi aprovada a resolução do Conselho Executivo da LASA em defesa da democracia no Brasil.

Resolution on Brazil Whereas: the arbitrary and casuistic manner in which the impeachment process is being carried out against President Dilma Rousseff constitutes an attack against Brazilian democracy; Whereas democracy is an indispensable condition for attaining a dignified and socially just future for all of the region’s inhabitants; and Whereas: the international community of Latin Americanists has long stood in solidarity with struggles in defense of democracy. Be it resolved that: LASA denounces the current impeachment process in Brazil as antidemocratic and encourages its members to call the world’s attention to the dangerous precedents that this process establishes for the entire region. The resolution will be sent out to the membership for voting. She also noted that LASA will put together a delegation to go to Brazil to observe the impeachment process.

Em tradução livre:

Resolução sobre o Brasil: Considerando: a arbitrariedade e a maneira casuística pela qual o processo de impeachment está sendo conduzido no Brasil contra a Presidenta Dilma Rousseff constitui um ataque contra a democracia brasileira; considerando que a democracia é indispensável condição para atingir um futuro digno e socialmente justo para todos os habitantes da região; e considerando que a comunidade internacional de latino-americanistas tem sempre atuado solidariamente com as lutas em defesa da democracia. Fica resolvido: LASA denuncia o corrente processo de impeachment no Brasil como antidemocrático e encoraja seus membos a chamar a atenção do mundo para o perigoso precedente que o processo representa para toda a região. A resolução será enviada para ser votada por seus membros. A LASA formará também uma delegação que irá acompanhar o processo de impeachment no Brasil.

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O relatório da delegação enviada ao Brasil para observar o processo de impeachment, sob a presidência de Sidney Chalhoub, Professor de História do Brasil da Universidade de Harvard, será conhecido em breve.

Ainda este mês de agosto será lançado pela Alameda Editorial, o livro Historiadores Pela Democracia: O Golpe de 2016 e A Força do Passado, organizado por Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian.

#FORATEMER

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Notícias da Semana

No papo coletivo de hoje, as historiadoras do blog resolveram comentar alguns aspectos da semana que passou sobre os quais não vale passar batido.

Cotas na Pós-Graduação! (por Hebe Mattos e Mônica Lima)

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Nessa última semana de julho, o colegiado do Programa de Pós-Graduação em História da UFF, um dos mais antigos cursos de mestrado e doutorado em História no Brasil, aprovou o edital de Seleção para 2017 com 20% de reserva de vagas para ação afirmativa (negros, indígenas e deficientes físicos).  A decisão foi aprovada no início de julho em reunião de colegiado por ampla maioria e o edital aprovado, por unanimidade, em 27 de julho. A UFF, como universidade, começa também a discutir a questão, já regulamentada na UNIRIO e nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. O exemplo do PPGH/UFF, curso de excelência, primeiro do Brasil na área de história a obter a nota máxima (7) de avaliação da CAPES,  é um exemplo que faz diferença. Um edital histórico.

Também o núcleo da UFRJ do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História – ProfHistoria aprovou, em recente reunião de seu colegiado, a adoção de ações afirmativas de caráter racial e social para seu próximo processo seletivo. Formado por professores do Instituto de História e da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, inserido em redes local (no estado do Rio de Janeiro) e nacional de programas de pós-graduação, articuladas pelo MEC, a aprovação no núcleo da UFRJ tem um significado especial, pois a universidade é a instituição que ancora o mestrado profissional e que, em outros períodos, reunia em seus seletos grupos de pesquisadores fortes adversários das ações afirmativas.

Em tempos de golpe e retrocesso, as duas decisões têm enorme importância prática e simbólica. Nenhum direito a menos!

Cultura negra e cultura popular ocupando espaços (por Martha Abreu)

Dia 23 de julho, o debate sobre salvaguarda do jongo esquentou a festa no Museu Casa do Pontal – Arte Popular Brasileira. Toninho Caneção, do quilombo de São José da Serra,  e Dyonne Boy, do jongo da Serrinha, mostraram como é importante ocupar os espaços dos museus e das escolas para a valorização dos jongueiros e seu patrimônio. O mesmo desafio, para o caso dos sambistas, foi discutido no dia 30 de julho no Segundo Encontro de Departamentos Culturais das Escolas de Samba organizado pelo Departamento Cultural da Visa Isabel.  A melhor novidade desse último encontro foi perceber a presença de muitos jovens, sambistas e historiadores, investindo na construção das histórias de suas Escolas e buscando estratégias de registro e valorização das memórias de seus baluartes. Fazer cultura e fazer política parece ser um aprendizado consolidado.

Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha chega à nona edição (por Ana Flávia Magalhães Pinto)

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Se comunicação é poder, não interessa apenas consumir produtos. É importante e estratégico ter o domínio das tecnologias e dos meios, bem como disputar a produção das mensagens e das narrativas a respeito do que temos vivido em sociedade. Com esse entendimento, a nona edição do Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha adotou o tema “Comunicação” e ocupou diferentes espaços da capital federal, entre os dias 25 e 31 de julho, para refletir sobre experiências do passado, apresentar iniciativas em curso e articular possibilidades futuras. A intensa programação criou ainda condições para o diálogo entre um público bastante amplo, que vai das nossas bem pequenas representantes da “Geração Tombamento” às mais experientes referências do Movimento de Mulheres Negras. Começando na segunda-feira com uma saudação a Exu, orixá da comunicação, na Rodoviária de Brasília, uma encruzilhada da cidade, abriu-se um tempo para se apropriar de debates sobre democratização da mídia, imprensa negra, comunicação pública, construção de redes livres de internet e telefonia celular, canais independentes, educomunicação, além de ouvir e contar histórias, dançar, cantar, poetizar, celebrar a vida e ainda denunciar o golpe, que atenta contra o que foi possível avançar até agora. Em 2017, o Festival Latinidades chegará ao seu décimo ano! Guarde na agenda a semana do 25 de julho, pois a coisa promete!

25/07: Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana Caribenha (por Giovana Xavier)

Uma data a cada ano mais e mais apropriada pelos movimentos sociais para conferir visibilidade às lutas de mulheres negras contra as opressões de gênero, raça e sexualidades. Conectada à máxima dos feminismos negros de que “Nossos passos vêm de longe” para compreender a sua importância vale aqui lembrar o conceito de “amefricana”. Cunhado pela feminista negra Lélia Gonzales, ele alude às origens americanas e africanas como constituintes das identidades de mulheres pretas. Esta perspectiva, nomeada nos anos 1980 pela historiadora negra Beatriz Nascimento de “atlântica” guia-nos para o tempo presente. Um agora no qual destaca-se a II Marcha das Mulheres Negras. Realizada no dia 31/07/16 na Praia de Copacabana, o ato político liga-se à luta pelo direito ao “bem-viver” não apenas de mulheres, mas de todo o povo negro, cotidianamente privado de direitos básicos relacionados à educação, à saúde, ao trabalho. Assim, os trabalhos da última semana do mês de julho foram marcados por muitas atividades em torno das pautas pretas. Destaca-se aí a I Semana Carolina Maria de Jesus: mulher negra e a cultura periférica afro-brasileira, organizado pelas estudantes negras integrantes do Coletivo Carolinas da UERJ. E como uma levanta a outra, a semana que homenageia a histórica líder quilombola Tereza de Benguela, findou-se em grande estilo. Com milhares de mulheres negras de diferentes gerações e perspectivas fincando na areia da princesinha do mar as nossas histórias e reivindicações. Em meio a tantas dores e dissabores, é sempre bonito e pungente ver e fazer parte de um movimento vivo que liga o passado e o presente por meio da presença das “mais velhas” e “mais novas”. Como não podia deixar de ser, malungas como Azoilda Loretto da Trindade, Joselita Souza e Luiza Bairros foram lembradas. Vocês assim como as milhões de mulheres negras espalhadas pelo mundo são visíveis. Presente!

Só a Constituição salva (por Keila Grinberg)

Semana passada, estive na sede da CAPES, em Brasilia, para uma reunião dos coordenadores do Mestrado Profissional em Ensino de História, o ProfHistoria. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um cartaz no elevador convidando a todos os servidores e colaboradores para uma “reunião especial”, no auditório do 1o subsolo, de 12:30 a 13:30h. O convite era assinado pelo “Grupo de Oração CAPES”. Cheguei atrasada, mas não tinha com que me preocupar: na saída, no mesmo elevador (quem for a CAPES não deve usar as escadas: perde-se muito) outro cartaz convidava a todos para “prestigiar mais uma celebração de fé” no mesmo auditório, de 12:45h às 14h. Desta vez não me atrasei e a cena que presenciei foi a que as imagens mostram: uma igreja católica montada em pleno auditório.

Fiquei surpresa e incomodada com o que aconteceu. Em primeiro lugar, pela cena em si. Uma celebração religiosa em pleno Ministério da Educação. Depois, pelas reações disparatadas de alguns que leram meu post no facebook a respeito. No primeiro dia, divulgando apenas a imagem do primeiro cartaz, escrevi “pode isso?”. Era só uma pergunta retórica, mas muita gente se achou no dever de responder e explicar que sim, podia. Não pode. Para isso temos Constituição, e ela é clara: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público” (art. 19, parágrafo 1).

Que fique bem claro: não tenho nada contra religião alguma. Admiro aqueles que têm fé e encontram esperança e sustentação em alguma religião. Justamente por isso, a cena na CAPES é inaceitável. Não se trata de inibir quem quer orar. Trata-se de defender a laicidade do Estado. Só o Estado laico pode garantir plenamente o exercício da liberdade religiosa. Escrevi ao gabinete da presidência da CAPES, expressando meu desconforto e solicitando providências. Recebi a promessa de que serão averiguadas “quais providências poderão ser tomadas sobre o assunto em questão”.

Nestes tempos sombrios, não podemos desgarrar da Constituição um segundo que seja. Só ela salva.

Você já ouviu falar de orixá na escola? (por Mônica Lima)

Uma professora do ensino fundamental de Itaguaí enfrentou o preconceito e trouxe a cultura afro-brasileira para a escola, tocando no sensível tema das religiosidades. Nesse trabalho teve o apoio não só da direção da escola e da secretaria municipal de Educação de seu município como das famílias das suas alunas e alunos – muitas delas católicas ou evangélicas. Viviane Martins planejou um ano inteiro de estudo e atividades integradoras com sua turma de quinto ano. Fez cursos e se preparou para tratar essas temáticas com toda sua inteireza, com meninos e meninas da turma em que é professora na Escola Tereza de Araújo Sagário. Tendo como eixo central a cultura afro-brasileira em seus diversos aspectos (linguagem, conhecimentos de botânica, medicina natural, arte), seus alunos estudaram assuntos inseridos nas diferentes matérias do currículo e terminaram o ano celebrando essas aprendizagens com teatro e dança. Festejaram os cem anos do samba com estilo e ginga e se vestiram de orixás, dançando ao som dos tambores. Os responsáveis pelos alunos, de diferentes matrizes religiosas, aplaudiram e acompanharam o trabalho pedagógico da professora Viviane – que explica esse apoio da seguinte maneira: “Eu expliquei direitinho aos alunos do que se tratava, e eles explicaram aos pais. Quando fui conversar com as famílias, disseram que já tinham entendido, que os filhos e filhas tinham explicado tudo. ”

Uma parte do trabalho da professora Viviane Martins foi apresentado no Salão Nobre no Instituto de História da UFRJ, num evento realizado em parceria pelo Laboratório de Estudos Africanos – LEÁFRICA e o Coletivo de Estudantes Afro-religiosos – AGÔ. Contou com a presença de mães de alunos e alunas da turma da professora Viviane, da diretora da escola e da coordenadora de Educação para a Diversidade Étnico-Racial e da Secretária de Educação do município de Itaguaí. Estudantes universitários, professores da rede pública de ensino, professores universitários estiveram presentes e se encantaram com a apresentação dos alunos e com o relato da experiência. Estavam na mesa desse evento que se chamou “Racismo na escola: perspectivas de enfrentamento”, além da professora Viviane Martins, a yalorixá e antropóloga Rosiane Rodrigues e a Monica Lima – professora de História da África na UFRJ. A sala estava cheia, numa tarde de terça-feira, dia 19 de julho de 2016. Uma aula de respeito, diversidade e beleza

 

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Por onde anda a BNCC?

Em meio a todos os ataques à liberdade de ensino, promovidos pelos defensores do movimento “Escola Sem Partido”, uma pergunta está no ar: por onde anda a Base Nacional Curricular Comum (BNCC)?

Se a primeira versão da BNCC, com razão, gerou polêmicas e debates acalorados, a segunda, apresentada pelo MEC, no dia 3 de maio, ainda na gestão de Dilma Rousseff, acabou ficando um pouco esquecida, ao menos em nossas listas de discussão. Provavelmente em função da união de todos educadores contra um inimigo comum e que cresce rapidamente nesses últimos tempos, a chamada “Escola Sem Partido”.

Para os interessados, a BNCC continua caminhando, mesmo que um pouco atrasada,  no percurso previsto. Depois de entregue a segunda versão, em maio de  2016, o documento começa a ser discutido em seminários estaduais, com professores, secretários e dirigentes municipais, pelo que pode ser visto no site Movimento Pela Base.  De acordo com o calendário apresentado para as reuniões, devem estar ocorrendo nessa semana, até o final de julho, reuniões na Bahia, Paraíba, Distrito Federal, Pernambuco, Sergipe, São Paulo, Ceará e no Rio de Janeiro!! Alguém está sabendo? Até agora, para além de muitas fotos, não consegui ter notícias dos resultados das reuniões que já aconteceram, muito menos avaliar o quanto os seminários regionais poderão intervir nos conteúdos e sentidos do texto final. No Rio de Janeiro, pelo que consegui descobrir, irá acontecer entre os dias 27 e 28 de julho, na Universidade Castelo Branco, centro.

Terminada essa fase, prevista para agosto, todas as contribuições serão sistematizadas pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) para, finalmente, ser enviado ao MEC e aprovado, ou não, no Conselho Nacional de Educação. Pelo site Movimento Pela Base podemos acompanhar, ao menos em termos gerais, o movimento destas reuniões e os próximos passos.

Todo esse planejamento dos encontros estaduais, pelo que informa o site do Movimento, parece ter sido organizado, entre  20 e  21 de junho último, num seminário em Brasília, sob a coordenação de Hilda Micarello, coordenadora da equipe de redação da BNCC, desde a primeira versão do documento, ainda em 2015. Ao lado de Hilda Micarello, teriam participado Delaine Bicalho (Língua Portuguesa), Katia Smole (Matemática), Ghisleine Trigo (Ciências da Natureza), Gabriela Pellegrino (História) e Natacha Costa (Desenvolvimento integral). Na mesa dedicada às etapas, participaram Beatriz Ferraz (Educação Infantil), Anna Helena Altenfelder (Ensino Fundamental) e Ricardo Cardozo (Ensino Médio).

Os problemas de uma base nacional curricular comum são inúmeros, como muitos já apontaram, desde a primeira versão. Além da perigosa uniformização dos conteúdos e a ameaça à autonomia dos professores, o controle sobre o material didático e sobre os sistemas de avaliação por grupos privados poderosos precisam ser considerados – e combatidos.  Esta segunda versão, por sua vez, também está longe de ser unanimidade e prometo voltar ao assunto em outra oportunidade.

No momento, minha proposta é tentar encontrar,  ao menos como estratégia, algo interessante e positivo em todo esse esforço da BNCC, já explicitado na primeira versão: por um lado, a garantia de conteúdos mínimos que defendam a diversidade racial,  social, regional e de gênero no ensino da História do Brasil; por outro, e complementarmente, a realização, em todos as dimensões, de uma história realmente plural. A segunda versão, ainda que com muitos problemas, consegue, na minha avaliação, manter estes valores.

Não será importante defendermos conjuntamente essas premissas? Quem sabe a BNCC poderá  se tornar um bom lugar – ou uma boa bandeira – para lutarmos por um conteúdo de História dentro da tradição humanística e democrática que defendemos?

Vale ainda considerar que a PL867/2015, que busca incluir o Programa da Escola sem Partido entre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, não consegue encaminhar ou propor conteúdos mínimos. Sua pretensão é limitar e constranger a liberdade da prática docente, a liberdade do professor de educar numa perspectiva crítica e de valorização das diferenças. O único momento em que a PL 867/2015 se refere a conteúdos é, como sempre, para tolher alguma ação do professor. No caso, para vedar os conteúdos que “veiculariam”, na sua versão, “doutrinação ideológica e política em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”.

Ora, haveria algum conteúdo de História imune a esses “perigos”? Pensar criticamente sobre a produção de fatos e versões – o que eles chamam de “doutrinação política e ideológica” –   são os instrumentos máximos de nossa profissão. Alguém conhece algum conteúdo que possa ser trabalhado sem essa perspectiva crítica? (Os mais velhos devem lembrar o que conseguíamos fazer com os conteúdos  obrigatórios do  ensino de Moral e Cívica e OSPB dos anos 1970!).

Bem, mas mesmo sem conseguirem propor conteúdos formais para o ensino de História, é bom lembrar que os defensores da Escola Sem Partido estão  de olho na BNCC – e podem estar atuando nos seminários regionais. Foi bastante divulgado o quanto seus representantes buscaram relações próximas com o  Ministro da Educação, Mendonça Filho, tentando  paralisar os trabalhos da BNCC, acusada de ser “excessivamente ideológica”. Há deputados que defendem  levar sua discussão e aprovação para o Congresso Nacional  – ferindo completamente  o que está estabelecido pelo Plano Nacional de Educação (PNE –  Lei 13.005/2014), que garante a aprovação final ao Conselho Nacional de Educação.

Sem dúvida, está difícil avaliar o futuro da BNCC. Mas vou continuar preferindo torcer por ela. E se conseguirmos manter, ao menos em termos gerais, os princípios apresentados na primeira versão, vamos ter o que comemorar, se a BNCC for aprovada.

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“Pássaro Preto”, por Giovana Xavier e Monica Lima

Mataram um estudante! Podia ser seu filho.

Essa frase, escrita em faixas e cartazes, gritada pela multidão que acompanhou o enterro de Edson Luís de Lima Souto nas ruas da cidade do Rio de Janeiro em março de 1968, sempre esteve em minha memória sobre a ditadura militar – construída não pela vivência, mas pela leitura e estudos sobre esse período da história brasileira. Nas últimas semanas ela voltou, ressignificada, a partir da notícia do assassinato de Diego Vieira Machado, encontrado morto no campus da Ilha do Fundão da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com fortes sinais de violência.

O que têm em comum essas duas histórias? Aparentemente nada, além de serem ambos paraenses, filhos de famílias pobres, terem vindo ao Rio de Janeiro para estudar, e serem negros. Circunstâncias diametralmente distintas e contextos pessoais de morte muito diversos. No entanto, a frase segue ressoando. Podia ser meu filho. Meu irmão. Meu aluno.

Sim, poderia ser meu aluno. Um daqueles que desafiam, instigam e trazem, na atitude e nas ideias, provocações – que devem estar presentes na vida universitária. Um aluno que se propõe, na vida acadêmica e pessoal, transgredir e enfrentar. Artista, lutador, poeta – dizem os relatos daqueles que o conheceram de perto. E segundo consta, aberta e assumidamente homossexual. Nas fotos, vejo e imagino: jovem, negro, forte e belo. Um estudante que não se conformava com o preconceito, que não se curvava aos ditames do chamado “bom comportamento”. Como tantos, ou talvez como poucos.

Essas teriam sido, conforme os indícios trazidos pelo ataque que sofreu, as razões de seu assassinato.  Seriam sinais de um crime de ódio, motivado por homofobia agregada ao racismo, movido pela intolerância – por sua atitude, por sua presença, por tudo que fazia e representava. Diego trazia no corpo as marcas de toda a iniquidade de seus assassinos, como evidências da ânsia sempre assustadora que o preconceito tem em torturar e eliminar “o outro”. Os agentes dessa morte pareciam desejar mostrar, por toda crueldade de sua ação, seu poder de destruição.

Infelizmente não se trata de um caso isolado, já se sabe. Em outros espaços, e em outras universidades brasileiras, tragédias assim ocorrem com frequência apavorante. E, no dia a dia no nosso país, a feiura rasgada do racismo e da intolerância à diversidade na orientação sexual, injuriam, ferem e matam. Calar não é uma opção. Ficar com o sofrimento circunscrito ao interior de si ou às rodas de amigos e redes sociais não consegue dar mais conta do tamanho dessa dor. E ela se amplia com outras dores que se vêm a somar, e junto com a história de Diego, na mesma semana vem Joselita de Souza, trazendo na sua morte as marcas da violência de sua tristeza inconsolável. Os cento e onze tiros no carro onde estava seu filho Betinho e seus amigos atingiram, dias depois, o coração de Joselita. Outra história, tão diferente, tão parecida. E o mesmo final.

Podia ser meu filho.

A cada vez que ouço a frase “o estudante da UFRJ que morreu”, corrijo-a. A retificação não tem a ver com a dicotomia entre certo e errado, mas com o compromisso que devemos assumir na luta por respeito e igualdade a quem vive e à memória de nossos mortos. Diego Vieira Machado não morreu. Ele foi brutalmente assassinado, espancado e encontrado sem calça e sem documentos – conforme relatos. Embora já tenha tempo que aprendemos que violências não se medem, a tragédia da qual ele foi vítima no dia 02/07/2016 é um caso extremo, que não pode ser pensado isoladamente. Ele é parte da história de violências vivenciadas cotidianamente por estudantes negros.

Tais violências são observáveis nas precárias condições das residências estudantis, em atrasos e cortes de bolsas, no escasso número de bandejões, nos empecilhos para obtenção de passes livres, nos currículos acadêmicos, marcados pela negação do direito de acessar o pensamento e o conhecimento científico produzido por autoras e autores negros, nos relatos de situações de humilhação e constrangimento em salas de aula. Tudo isso insere-se no racismo estrutural, que faz com que desigualdades construídas socialmente sejam naturalizadas e normatizadas como problemas inerentes a grupos específicos, hierarquicamente chamados de “outro”.

Se considerarmos que o Brasil é o lugar do mundo que mais mata por homofobia, tiraremos a nossa venda dos olhos. Sem ela, conseguiremos enxergar como eu um país de maioria de população negra, no qual a cada 23 minutos um jovem preto é assassinado, faz todo sentido a frase “Podia ser meu filho ou filha”.

Em memória de Diego Vieira Machado, estudante negro cotista que atravessou o Brasil em busca do sonho de ingressar em uma universidade pública para estudar e foi assassinado no principal campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seguiremos mais vivas trabalhando para o “inesperado”.

Sou pássaro preto
estendo as minhas asas
coloco fogo na dor
espalho as cinzas pelo meu corpo
forjo uma pele nova a cada momento
jogo as cinzas ao vento
e voo
águia negra
a ressuscitar diante de qualquer tempestade
mais forte
mais célebre
mais viva
espere o inesperado…

(Espere o inesperado, de Cristiane Sobral)

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CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO por Suzette Bloch e Fernando Nicolazzi

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Divulgada segunda feira na página pessoal do historiador Fernando Nicolazzi no facebook, publicamos hoje, para registro e maior circulação, a CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO, EM RESPOSTA AO EDITORIAL DE 14 DE JUNHO DE 2016*, escrita pela neta de Marc Bloch.

Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.

Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.

O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.

Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.

Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!

O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Mas deixo a palavra ao historiador Fernando Nicolazzi, integrante do grupo de Historiadores pela democracia, para quem solicitei escrever este direito de resposta com outras vozes.

O convite feito por Suzette Bloch para juntar minhas palavras às suas, no ato solidário e indispensável de combater a impostura de um jornal comprometido, em cada linha de seus editoriais, com a defesa de um golpe de Estado em curso, não poderia ser recusado. Este mesmo jornal, que há alguns meses disse um “basta!” à democracia, ecoando o gesto autoritário cometido pelo Correio da Manhã em 1964, agora direciona seus impropérios ao grupo de historiadores e historiadoras que atuam em defesa dos princípios democráticos de nossa sociedade. Faço parte deste grupo e estive na audiência realizada com a presidenta eleita Dilma Rousseff no último dia 7 de junho.

O editorial de 14 de junho, que pretende definir o “lugar de Dilma na história”, faz menção a palavras escritas por Marc Bloch, desvinculando-as irresponsavelmente daquele que as escreveu. Nesse sentido, instrumentaliza politicamente o nome do historiador francês, autor de uma apologia da história elaborada no momento mesmo em que atuava na resistência contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas. Suzette Bloch, em justificável indignação, já apontou acima o desrespeito ético e a desonestidade intelectual que caracterizam este texto. Quanto a isso não cabem aqui outras palavras.

Porém, é preciso fazer frente também à outra dimensão contida naquele editorial: sua falaciosa representação dos historiadores e historiadoras que assinaram o manifesto, definidos ali como intelectuais “a serviço de partidos políticos”, comprometidos com a elaboração de um “pensamento único”, “bajuladores do poder”. O editorial traz ainda as marcas da sua baixeza moral ao sugerir, sem qualquer respaldo aceitável, que muitos dos participantes do encontro com a presidenta a “detestam”. Nada mais desonesto, nada mais mentiroso! Mas também nada mais compreensível!

Afinal, não é difícil compreender que, para setores da sociedade comprometidos com a manutenção da exclusão em suas diferentes formas, a defesa da democracia e da inclusão social cause incômodo e provoque atitudes como esta que, faltando com a verdade, apenas encontra amparo na ofensa e na intolerância. Além disso, é fácil compreender que essa seja a única forma de linguagem política assumida pelo jornal, que já definiu os opositores ao golpe de “matilha de petistas e agregados”: a propagação do seu ódio na busca de cumplicidade, como se ele fosse compartilhado por todas as pessoas. Basta acompanhar as inúmeras e diversas intervenções dos Historiadores pela democracia para constatar quão caluniador e distante dos fatos é o editorial.

O golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ataca direitos sociais, políticos e civis que são fundamentais para a existência da democracia. Tais direito foram conquistas feitas pela sociedade e não simples concessões governamentais. Lutar contra este golpe não significa defender um governo ou um partido político, mas sim defender a vigência de princípios básicos de cidadania, considerando que a justiça social deve ser um valor preponderante em nossa sociedade. Foram estas razões que me fazem participar do grupo, além da convicção íntima, enquanto historiador e enquanto cidadão, de que posicionar-se pela democracia se coloca hoje como um imperativo incontornável na nossa vida pública.

Em um texto que pretende dizer o que deve ser o exercício da historiografia, lemos apenas o uso inconsequente da história e a utilização deturpada da obra de um historiador que soube como poucos escrever sobre o próprio métier. Apesar da indignação causada, o editorial cumpriu seu papel esperado, sem nenhuma surpresa. E ao menos algo positivo ficará dessa situação: não será preciso aguardar historiadores futuros para colocar o Estadão em seu devido lugar na história, ou seja, ao lado dos golpistas do passado, os mesmos que em 2 de abril de 1964 comemoraram a vitória do “movimento democrático” que hoje conhecemos como ditadura civil-militar e que, além de vitimar milhares de pessoas, ampliou a desigualdade social no Brasil. Seus editorialistas continuam realizando com esmero essa função no presente.

*O texto foi enviado para o portal Estadão, como resposta ao editorial publicado em 14/06/2016. Não houve resposta por parte dos editores.

 

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Axé, Luiza Bairros! Axé, Yalodê!

A você que nos mostrou a possibilidade de ser, muito obrigada!

 

Luiza 2

Sueli Carneiro, Patricia Hill Collins, Luiza Bairros e Angela Davis no Festival Latinidades, 2014.

 

Foi num sábado de 1998 ou 1999. Era século XX. Em algum dia daquela semana, Edson Cardoso mandou um recado que eu guardei da seguinte maneira: “Tenho de estar na Enap, às 15 horas, para ver duas mulheres que vão falar”. De Planaltina ao final da W3 Sul, eu bem lembro que me perguntei: “Mas o que será que essas mulheres vão falar de tão importante?”. Cheguei lá antes da hora. Estava rolando uma daquelas discussões da pesada entre as/os militantes presentes. Era o tempo em que ainda me assustava com esse tipo espaço. Mas, em dado momento, aquela agitação toda foi interrompida. As cadeiras da sala foram reorganizadas e as duas mulheres se encaminharam à mesa. Eram Luiza Bairros e Sueli Carneiro, anotei no caderno aqueles dois nomes, achando que poderia esquecer depois.

Do desconhecimento e da desconfiança, em alguns minutos, passei a um estado de maravilhamento. Ali sentadas, elas olhavam para aquela audiência com cumplicidade e altivez. Eu nunca tinha visto nenhuma mulher negra fazer aquilo em toda a minha vida! A voz de Luiza, em especial, me mobilizava. Era grave e muito firme, embalava palavras extremamente bem articuladas e criava em mim a sensação de estar em frente a um espelho e querer ver minha imagem ali refletida. É isso. Aquele momento marcou o momento da minha vida em que eu descobri que ser mulher negra era mais do que me sentir acuada, fora de lugar no mundo.

A despeito de todos os nãos cotidianos, aquelas duas mulheres me mostraram a possibilidade de realmente ser. Uma me despertava a possibilidade e a outra aparecia como a confirmação de que isso era mais que viável. Eram duas! E, partir delas, passei a encontrar muitas outras e olhar no espelho passou a ser oportunidade para ver traços de Jurema, Wânia, Vilma, Martha, Vera, Sinha, Inaldete, Janaina, Lúcia, Ana, Conceição e tantas outras em meu rosto, em minha história.

Lembro disso hoje por não saber ainda como lidar com ausência física de Luiza Bairros, por tentar me organizar para o desafio de me conectar a ela pela força da ancestralidade. Ao longo desses anos, nunca houve contexto de dizer obrigada pelos muitos momentos em que ela me protegeu, com suas palavras e atitudes, da violência do racismo, do machismo, do elitismo, que grassam nos mais variados espaços sociais, com destaque para a academia, para onde ela disse que nós teríamos que ir e fazer a luta com todas as armas necessárias.

Entre tantas recordações de felicidade guerreira, escolheria, por fim, uma que me leva ao encontro de estudantes negros na UnB, em 2005, quando Luiza Bairros deu uma boa chamada na nossa geração, dizendo que a viabilidade do movimento negro não se garantia apenas pelos homens que adoram o microfone, mas sobretudo pelas mulheres que normalmente são as que mais trabalharam na retaguarda para que a coisa toda aconteça. Lembro que ficamos muito orgulhosas de sermos tratadas como protagonistas.

Assim como eu, sei que muitas mulheres e jovens negras têm muito a contar dessa que nos foi caminho e agora virou estrela.

Axé, Luiza Bairros! Axé, Yalodê! Em sua honra e memória, seguiremos!

 

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