Sobre esperança e democracia

O texto a seguir foi encaminhado à Folha de São Paulo (Opinião: Tendências e Debates), no dia seguinte à condenação de Lula pelo incrível caso do “triplex” (13/7). Foi publicado, com alguns cortes de citações e com uma foto escolhida pelos editores, que lhe acrescentava sentidos, em 01/08. Um dia significativo: véspera da autorização ou recusa, pela Câmara dos Deputados, do pedido do MP para processar Michel Temer criminalmente e dia de mais um adiamento do julgamento do pedido de habeas corpus de Rafael Braga. Decidi republicá-lo aqui no blog, em versão ampliada, para registrar, com os devidos créditos, as citações de alguns textos e entrevistas que o inspiraram. Para fins de arquivamento e com uma tênue esperança de estar errada quanto aos resultados da votação de hoje no Congresso. #ForaTemer #DiretasJá

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Sem esperança, não há democracia

Em uma recente roda de conversa em que participei em São Paulo no Centro Ruth Cardoso, com Marcelo Ridente e Renato Janine Ribeiro, em comemoração aos 60 anos da Fulbright, Marcelo nos fez todos constatar que, pela primeira vez, desde o final dos anos 1970, olhávamos com pessimismo para o futuro do Brasil. Tentei me consolar da triste realidade refletindo sobre o caráter internacional da crise que vivemos, mas logo lembrei que o pessimismo à brasileira estava fundado em algo mais do que o sentido reacionário, stricto sensu, dos eventos sociais que estão na base da onda conservadora que assola o mundo.

O avanço reacionário no Brasil tem um travo mais amargo. Ele vem junto com a nostalgia de um ordenamento estamental de sociedade, inscrito sobretudo no desrespeito à soberania popular. Um desrespeito naturalizado na velha formulação de que o povo não sabe votar, o que torna possível aprovar, sem qualquer constrangimento, um programa de reformas, em muitos aspectos inconstitucional e contrário a direitos humanos fundamentais dos quais o Brasil é signatário, inequivocamente derrotado nas urnas.

O avanço reacionário no Brasil está inscrito também, e principalmente, na dificuldade do nosso judiciário, quase todo recrutado nas classes médias e altas tradicionais, em julgar de forma imparcial os integrantes do grupo racial e social a que pertence a maioria dos seus membros, o que resulta em “uma certa dificuldade de prender os iguais” nas palavras do Ministro Barroso do Supremo Tribunal Federal.

Nossas instituições jurídicas, ainda que funcionando livremente, não foram capazes de impedir o golpe parlamentar de 2016, perpetrado por congressistas quase todos acusados, com provas, da prática do crime de corrupção passiva. Representantes das mais diferentes instâncias do judiciário brasileiro podem condenar, sem provas concretas e a penas exorbitantes, jovens negros portadores de pinho sol que ousam sair às ruas em manifestações políticas ou ex-operários que ousaram ser Presidente da República e tirar o Brasil do mapa da fome, mas mantém livre e exercendo mandato parlamentar, com base em noções aristocráticas de reputação e honra, senadores de famílias de elite com flagrante de corrupção passiva e obstrução da justiça denunciados pelo Ministério Público.

#LIbertemRafaelBraga

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Golpes parlamentares podem derrubar presidentes de forma ilegítima, a justiça pode legalmente produzir injustiças, mas nada é mais grave do que a perda de confiança nas instituições democráticas que estas ações desencadeiam. Alguém ainda espera que o congresso vá autorizar a investigação das gravíssimas denúncias contra Michel temer? Sem esperança, não há democracia.

Desde sua primeira eleição, em 2002, tem havido comparações entre o papel histórico de Luís Inácio Lula da Silva no Brasil com o de Abraham Lincoln, nos Estados Unidos. Pode-se dizer, no mínimo, que a emergência política de ambos foi consequência das chamadas revoluções de mercado, ocorridas nos dois países nas décadas que precederam seus governos, na primeira metade do século XIX nos Estados Unidos e na segunda metade do século XX no Brasil. Lincoln e Lula buscaram aprofundar o que percebiam como efeitos positivos da generalização da economia de mercado, mas também democratizar os seus efeitos.  Lincoln nunca foi um abolicionista radical, nem Lula um socialista, como sempre registraram seus críticos à esquerda. Mas as sociedades estamentais que eles desafiaram não os puderam perdoar. Como a velha elite estamental sulista derrotada, os golpistas brasileiros estão à procura de seu John Wilkes Booth. O medo às vezes mata a esperança. Sérgio Moro se apresenta para o papel, trocando a pistola pela toga.

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João José Reis: DISCURSO EM AGRADECIMENTO AO PRÊMIO MACHADO DE ASSIS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 20 de JULHO de 2017

Sou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Prêmio Machado de Assis. Sendo um historiador da escravidão (embora não apenas) permitam-me imaginar a concessão do prêmio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem àqueles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravidão — penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, muito especialmente, Machado de Assis, que dá seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, além de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravidão, no que acompanho um de seus mais destacados intérpretes, Sidney Chalhoub, também historiador da escravidão.

Outro historiador, o acadêmico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: “A escravidão foi o processo mais importante e profundo de nossa história.” Não podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de suas vítimas; e o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.  Ela deixou marcas indeléveis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de várias espécies – as desigualdades sociais e raciais, o racismo sistêmico, o racismo episódico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (já chamado “racismo virtual”), hoje o principal veiculo de pregação de todos os ódios, inclusive do ódio racial.

O Brasil precisará de esforço hercúleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informação, mais educação e ações afirmativas, umas entrelaçadas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas últimas décadas. Entre elas, destacaria três: as cotas educacionais, o ensino da história afro-brasileira e a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.

As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades públicas já resultaram em mudança na cor dessas instituições, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prestígio – Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas estão dando certo.

A introdução, no ensino fundamental e médio, de disciplina voltada para a história e a cultura afro-brasileiras, com ênfase na história da África, prometia uma equiparação a conteúdos sobre a história da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a África voltou a ser emparedada naquela acepção, denunciada por Cruz e Souza, de “África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, África dos suplícios e das maldições eternas”, enfim, a África que predomina na grande mídia, refém de uma “história única”, na expressão certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Torço pelo retorno da África às escolas.

Uma história de outras vozes está representada na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tráfico luso-brasileiro de cativos. Essa instituição acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas Áfricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa mensal de 530 reais. Pois a comunidade da UNILAB esteve ameaçada recentemente com o corte desse minúsculo item do orçamento nacional. Urge defender a UNILAB!

Políticas de inclusão racial, além do esforço para educar e informar todos os brasileiros sobre a imensa contribuição dos africanos e seus descendentes para a formação histórica e cultural do país, são, entre outras, medidas necessárias – não sei se suficientes – no combate ao legado nefasto da escravidão. Prefiro acreditar que seja produto da ignorância, e não desfaçatez, gestos de delinquência simbólica como batizar um restaurante chique de Senzala. Desejo, desejamos um país onde não seja preciso uma jovem negra empunhar, numa recente manifestação de rua, cartaz que dizia: “A casa-grande surta quando a senzala aprende a ler.”

Invocar a escravidão passou à ordem do dia. Com uma maioria de detentos negros (cerca de 60%) amontoados em espaço exíguo, nossas prisões são comparadas a senzalas onde não é servida a boa comida do restaurante Senzala. Comparação talvez injusta, porque a vida de seus escravos valia mais para o senhor do que parece valer a vida dos presos para os governos e a sociedade que, conivente, se cala. Preso não conta como cidadão, ele é preto, ou, se branco, é também preto de tão pobre – já acusou Caetano Veloso. A precariedade da cidadania, filha da desigualdade social e racial, tem sido vinculada ao passado escravista com insistência. Ainda na semana passada, Milton Hatoum escreveu em sua coluna de O Globo: “Quase quatro séculos de escravidão, e mais de um século de uma democracia manca, interrompida por várias ditaduras, só poderiam gerar uma sociedade extremamente desigual.”

Há, no entanto, outra dimensão inquietante nessa ordem de questões, que é quando, em vez de alegoria, a escravidão se insinua como dado de realidade efetiva ou em construção.

Como no passado, o ciclo começa com o tráfico – de trabalhadoras e trabalhadores sexuais, domésticos, industriais ou rurais. Imigrantes legais e ilegais são com frequência resgatados de porões insalubres nas grandes cidades, onde trabalham, moram e morrem. Na zona rural chovem denúncias de pessoas submetidas a trabalho (forçado, exaustivo, degradante) análogo à escravidão, matéria que hoje mobiliza pesquisadores e membros da Justiça do Trabalho numa discussão que já ganhou foro internacional.

A recentíssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Luís Alexandre farias, “as mudanças criam condições legais e permitem que a legislação banalize aquelas condições que identificamos como trabalho análogo ao escravo”. E a respeito do princípio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maurício Ferreira Brito, que encabeça a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravidão voluntária: “A depender do que se negocie”, ele alertou, “você pode legalizar práticas do trabalho escravo.” Seria uma graça que este procurador fosse tão ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licença agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. Não me convencem as ressalvas da lei: se isso não é trabalho degradante, o que mais será?

Sobre a reforma trabalhista, aceitem um exercício de imaginação pessimista. Não resisto a comparar o “trabalho intermitente” ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo à rua para alugar ele próprio sua força de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locatário. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprirá fazê-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poderá, como autônomo intermitente servir em vários estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascerá, assim, o professor ao ganho.

Some-se a recente Lei da Terceirização e alcançamos o quadro quase completo de precarização radical do trabalho. A terceirização agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na segurança ou na limpeza, poderão doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e fazê-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascerá, então, o professor de aluguel.

Por felicidade, já passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedicação exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um professor pesquisador. À minha universidade e aos órgãos de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agradeço ter podido escrever a obra historiográfica agora premiada. Dela já falou, com generosidade, o professor José Murilo de Carvalho.

Queria apenas acrescentar que meus livros, artigos, capítulos em coletâneas etc, foram e continuam a ser escritos com paixão pelos temas de que tratam, sem o selo de garantia da objetividade perfeita exigida pelo positivista. Busquei, sim, a compreensão weberiana. No entanto, não permito que minhas inclinações ideológicas e minha utopias pautem as interpretações que faço dos processos, episódios e personagens sobre os quais escrevo. História panfletária, nem pensar! Me curvo às evidências que brotam dos arquivos, e elas não cessam de surpreender com um universo muito mais complexo do que caberia numa explanação fácil e porventura maniqueísta, que divida o mundo entre o herói e o bandido.

Meus livros são povoados de escravos que fogem de toda parte para toda parte, criam quilombos nas periferias da Cidade da Bahia ou nos mangues de Barra do Rio de Contas, se levantam em nome de Alá e de Ogum, mas nesses escritos também se encontram escravos que negociam com seus senhores um cativeiro menos opressivo. Escravos que querem e senhores que permitem a acumulação de bens e a compra da alforria. A maioria de meus personagens têm nomes, subjetividade, não são peças passivas da máquina escravista. Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, João Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina, homens e mulheres à frente das revoltas escravas baianas. O alufá Rufino José Maria, liberto malê que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatlântico de gente. Domingos Sodré, adivinho e curandeiro nagô que fornecia beberagens a escravos para amansar seus senhores, mas era ele próprio senhor de escravos. Manoel Joaquim Ricardo, dono de dezenas de escravos, liberto haussá que prosperou a ponto de ser contado entre os homens que formavam os 10% mais ricos de Salvador. E alguns outros mais…

Contudo, termino com um aviso aos navegantes: a ascensão social aconteceu para poucos escravos desembarcados ou nascidos no Brasil. A maioria morreu escravizada. No balanço final, fico com Joaquim Nabuco, que escreveu:

Não importa que tantos dos seus filhos espúrios tenham exercido sobre irmãos o mesmo jugo, e se tenham associado como cúmplices aos destinos da instituição homicida, a escravidão na América é sempre o crime da raça branca, elemento predominante da civilização nacional…

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25º Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha

Neste mês, completam-se 25 anos da realização do I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana. Entre os dias 19 e 25 de julho de 1992, mais de trezentas participantes de 32 países compartilharam experiências e formularam direcionamentos para agendas comuns. Os debates foram feitos tanto por quem esteve ali como representante de alguma organização ou coletivo quanto pelas participações independentes, sendo a presença das afro-brasileiras bastante ressaltada.

Como observado por Ochy Curiel − intelectual-ativista do movimento antirracista e lésbico-feminista da América Latina e do Caribe, no artigo “La Red de Mujeres Afrolatinoamericanas y Afrocaribeñas: un intento de acción política transnacional atacado por la institucionalización” −, naquele momento, a experiência nos movimentos sociais era algo bastante recente para muitas, faltando ainda estrutura e maturidade organizativa para que fosse possível, logo de cara, atuar a partir daquela escala ampliada. Mesmo assim, havia um desejo de impulsionar um espaço político transnacional que resultou na criação da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas (REDLAC); e a instituição do 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha.

De lá para cá, esforços têm sido feitos para manter a REDLAC em pé, embora as condições efetivas para a realização dos objetivos estejam bem aquém do necessário. Isso, no entanto, não quer dizer que as questões colocadas a partir dali tenham se perdido. O que temos visto é a construção de caminhos diversos e distintos para mobilizar mulheres negras, fruto da influência das chamadas pioneiras e da apropriação da agenda por outras protagonistas. Além do que possível verificar no atual site da Rede, há um empenho de se aprofundar a perspectiva transnacional que pode ser medida pela crescente popularização do 25 de julho pelo continente.

Para ficarmos no que tem acontecido no Brasil, e sem a pretensão de dar conta de tudo o que está sendo feito, o primeiro exemplo a se destacar é o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, o Latinidades, que chega à sua décima edição com tema “Horizontes de liberdade: afro-futurismo nas asas da Sankofa”. A despeito dos reveses agravados pelo golpe, no sentido de enfraquecer as ações voltadas ao combate do racismo e do sexismo num país de maioria negra, as organizadoras desta edição convidam a uma reflexão coletiva da máxima relevância, sobretudo neste momento de aguda crise democrática: “como a arte e os saberes de mulheres negras, assim como nossas lutas históricas e contemporâneas por direitos e por liberdade, incidem no presente? Como podem nos orientar a pensar e a criar o futuro? O conceito de Sankofa, dos povos Akan, nos ensina que tudo aquilo que foi perdido, esquecido, renunciado ou roubado no passado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou recuperado no presente”. O Festival acontecerá novamente em Brasília, no Museu da República, na Semana da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, entre os dias 27 de 30 de julho. Confira a programação completa no site e também pela página do Latinidades no Facebook.

Latinidades

Na cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, acontecerá, pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo. Iniciada no contexto de preparação para a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, de 2015, esta manifestação também marcará a celebração dos dez anos da incorporação do nosso 25 de julho no calendário oficial do estado do Rio de Janeiro, por meio da Lei n. 5.071/07 – algo que em nível federal só foi conquistado em 2014, via Lei n. 12.987. Ação convocada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras – RJ, a marcha está marcada para o domingo 30 de julho, com concentração no Posto 4 da Praia de Copacabana, às 9h.

Marcha RJ

Em Salvador, num esforço de ampliação do alcance do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e de construção de uma agenda comum de intervenção, o Odara − Instituto da Mulher Negra deu início, em 2013, ao Julho das Pretas. A quinta edição traz o tema Pela Vida das Mulheres Negras, “destacando a necessidade de mais ações coletivas e políticas públicas que visem ao enfrentamento da violência recorrente e sistemática contra mulheres e meninas negras”. Neste ano, além de promover uma feira para empreendedoras negras, está garantida a realização de uma conferência com a intelectual-ativista afro-estadunidense Angela Davis no auditório da Reitoria da UFBA, que veio ao Brasil para dar um curso sobre Feminismo Negro Decolonial, em Cachoeira-BA.

Julho das Pretas BA

Também em São Paulo, por força do grupo da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em articulação com a Aparelha Luzia, teve início neste último sábado o Julho das Pretas, um “ciclo de eventos para a construção da Marcha do #25deJulho”. A noite contou com a intervenção de mais vinte mulheres, que agitaram o espaço que já se tornou conhecido como um território de afirmação negra na cidade de São Paulo. No ano passado, a Marcha reuniu de duas mil mulheres negras no centro da cidade de São Paulo. E a agitação vista no primeiro dia do mês diz que este ano também será marcante.

Julho das Pretas SP

Esses e outros eventos têm apontado para uma dinâmica bastante interessante que articula ativismo, produção de pensamento de e sobre mulheres negras e formulação de políticas públicas. Longe de se tornar possível graças a uma relação bem resolvida com a academia e os organismos de Estado, as ações iniciadas a partir do movimento social de mulheres negras, interessadas num diálogo transnacional, têm criado possibilidades de ampliar e fortalecer o entendimento das mulheres negras a respeito dos significados de suas trajetórias e experiências, algo que certamente cria outras possibilidade de se fazer e contar histórias.

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“Não vamos mais caber!”

Com essa frase, David Alfredo e Luis Araújo, dois jovens negros, marcaram o estribilho do texto que leram na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, no Museu do Amanhã, situado na zona portuária do Rio de Janeiro. O documento, escrito por eles, foi nomeado como Manifesto Baobá e apresentado no dia 24 de junho de 2017, antecedido pelas danças e cantos do Jongo da Serrinha, no espaço de entrada do museu. Esse foi um dia de festa na Praça Mauá, em frente da qual fica o museu, que foi ocupada antes, nesse mesmo dia, pelo Afoxé Filhos de Gandhi homenageando Mãe Beata e o Jongo da Serrinha lembrando nossas raízes africanas e saudando São João, entre outras presenças e lembranças.

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Jongo da Serrinha em frente ao Museu do Amanhã, na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, em 24 de junho de 2017

O Manifesto reivindica territórios a serem conquistados e ocupados pela juventude negra, e lembra o reduzido espaço que lhe foi destinado, o não-lugar que lhe coube historicamente. Declara: “Estamos transbordando os limites, rompendo as barreiras, fissurando os muros…” Traz a memória da dor “em cada gota de suor que cai da pele negra cansada de esforço de pesar uma tonelada e valer muito menos no mercado. ” E afirma que “No pranto de cada mãe, que enterra um filho, no som de cada tiro que leva a vida, no afiar de cada faca que desce o morro, no choro de cada criança que nasce, é possível escutar: Não vamos mais caber!

Não mesmo.

Em recente visita de trabalho realizada à Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, no Campus dos Malês, em São Francisco do Conde – Bahia, meus olhos se encantaram com a vida pulsante nas salas de aula, corredores e espaços comuns daquela instituição acadêmica. Criada no primeiro governo Lula, assinalando desde seu início uma identidade singular e marcadamente plural, tendo como política universitária o estímulo e apoio à presença de estudantes africanos dos países de língua oficial portuguesa. Uma experiência única e fundamental para o Brasil, que deveria ser cada vez melhor compreendida e estudada – e certamente apoiada, garantida em sua continuidade e expansão. Em que outro lugar do país se pode encontrar uma maioria absoluta de estudantes negras e negros e escutar os muitos sotaques do Português falado em África e línguas crioulas do continente, somadas aos falares brasileiros com diversos acentos, sobretudo, do Nordeste? E no dia da África, em 25 de maio, realizarem uma festa trazendo a junção de muitas sonoridades e movimentos, dos diferentes instrumentos, das cores de roupas e adornos, e os músicos de RAP das áfricas e brasis que, nas suas idas e vindas, (re)encontraram seus ritmos e poesias?

 

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Festa do dia da África, celebrada por estudantes africanos e brasileiros com muita música e dança, na UNILAB – Campus dos Malês, São Francisco do Conde – BA, em 25 de maio de 2017

Novas realidades vem surgindo. Atravessam os muros, enriquecem e iluminam o cenário enrijecido e obscuro de espaços tradicionalmente brancos e elitistas. Surpreendem às vezes, jovens negras e negros, por sua força, altivez e autonomia. Há quem os esperasse agradecidos – como, e por quê? Certamente sabem que aquilo e quem lhes sustenta não está lhes esperando do lado de dentro. Mas, muitos reconhecem que há aliados, e que houve desbravadores, pioneiros. Nada disso se fez e se faz sem histórias que vêm de longe. Mas, o que de novo há é que nos últimos anos a onda negra cresceu e vem vindo, lavando com sua força, como uma bênção, as praias antes restritas do saber e do (re)conhecimento. Como disse o Manifesto: vem ocupando os espaços, desconhecendo os limites que lhe foram impostos. Ainda bem.

Assenhorear-se de novos territórios pode significar também estabelecer regras e cuidados com nossa história e memória, pressionando e dialogando no sentido de fazer respeitar o que nossos ancestrais viveram e a forma como queremos que tudo isso seja lembrado. Nesse sentido, um dos resultados é o evento que se realizará no próximo dia 1º de julho e faz parte do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da  Fazenda Santa Eufrásia, inaugurando novas conversas sobre o turismo de memória no Vale do Café, no estado do Rio de Janeiro.

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Tudo indica que essas conquistas podem fazer dos brasileiros cidadãos melhores, e assim nos fortalecermos em tempos tão difíceis e desesperançados, para lutarmos por nossos direitos: os que conquistamos e os que ainda queremos obter.

Que não caibamos nesse restrito espaço de vergonha pública que querem nos confinar.

Obrigada, David Alfredo e Luis Araújo. Viva o Manifesto Baobá!

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Uma festa que não termina e uma tese que virou filme!!!

Final de maio, interior de Minas Gerais, Piedade do Rio Grande.  Foi lá que participei da festa de Congada e Moçambique em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Mercês e São Benedito.

Como festeira e historiadora das festas, preciso confessar que ainda aprendi muito com os congadeiros e moçambiqueiros de Piedade.  Primeiramente, com a energia desse povo que não quer esquecer o passado. Mais ainda, por escolherem uma festa com santo católico negro e duas nossas senhoras brancas  (uma associada à liberdade e outra à valorização do povo negro)  para contar, com muito orgulho e garra, sua história em cantos, movimentos, guizos, sanfonas, tambores, pandeiros e orações.

Uma história que, se começou nos tempos do cativeiro, teve um evento fundador na década de 1920, com a criação da Associação congadeira como entidade civil. Era a luta pelo direito de fazer sua própria festa, em plena Primeira República, mesmo com tantas proibições e impedimentos, como tão bem mostrou Livia Monteiro, em sua tese de doutorado defendida na UFF, em 2016. Orgulho e luta pela cidadania sempre caminharam juntos nessa festa.

A festa dura 3 dias!!! Três dias inteiros que te envolvem com sons, procissões, missas, danças, encontros, abraços, sorrisos e lágrimas. Um dia para cada santo.  Na sexta feira, são Benedito é saudado com “viva que viva”’; no sábado, os congadeiros cantam “vamos festejar a fogueira da senhora das mercês”, e no domingo, a queridíssima nossa senhora do Rosário é levada pelos moçambiqueiros – que a resgataram da gruta, mito fundador da festa – e cantam “nossa senhora do Rosário, ela não falava, no dia 13 de maio ela deu sua palavra”. Em qualquer lugar da cidade, podemos ouvir os movimentos e deslocamentos  dos festeiros e participar de suas celebrações.

Os 3 dias de festa me fizeram pensar muito neste longo tempo festivo. Sem dúvida, eles te permitem mergulhar inteiramente na lógica da festa e da celebração. E te permitem reviver, com muita intensidade, momentos dramáticos da história da comunidade.

Entrar na igreja com os cantos e instrumentos negros, era algo proibido. Nos três dias de festa fazemos isso, ao lado dos congadeiros, algumas vezes, ora na igreja Matriz, ora na igreja de nossa senhora do Rosário. Nesse momento  mágico, com os sons dos congadeiros invadindo as igrejas e nossos corações ouvimos os cantos “oh senhor padre abre a porta, que eu também quero entrar, quero ouvir a santa missa que o senhor vai celebrar. O senhor ia a igreja, era os pretos que levava, o senhor entrava pra dentro, preto cá fora ficava” e sentimos o poder dos festeiros de ocupar todos os espaços possíveis – certamente não apenas dentro da igreja. E a sensação se repete, mais de uma vez, no outro dia…  Com as imagens dos santos nos seus ombros, amparados com muitas flores, também temos a sensação, como teria dito outro historiador, que aqui até os santos e nossas senhoras dançam no ritmo afro-brasileiro.

Outro exemplo emblemático é quando os congadeiros tornam-se moçambiqueiros. Às roupas brancas e fitas coloridas cruzadas no peito, juntam-se os paus e os guizos nos pés. O som produzido pelos guizos e os movimentos dos corpos com os paus nos transportam a outro tempo, um tempo que pode ser associado ao da conquista da liberdade, em algum momento do passado e futuro. O movimento é outro. Sem dúvida, mais guerreiro, como destaca Livia Monteiro, e mais afirmativo. Mas são os mesmos congadeiros, agora  contando outras histórias e cantando ao som da liberdade seus cânticos.

Infelizmente, não pude ficar para o último dia da festa, tinha que voltar ao tempo cronológico. Entretanto, se a festa acabou em Piedade, tenho certeza que ela não acabou em nossos corações. Se eu carrego a festa até hoje, posso  imaginar que com os congadeiros não seja muito diferente. A festa de maio de 2017 deve continuar presente até a de 2018. Deve continuar fortalecendo suas lutas cotidianas e seus desafios de construção de uma sociedade realmente igualitária e justa. A festa torna-se  um alimento para o fortalecimento de suas bandeiras e sonhos.

Certamente nem todos esses sonhos se realizam. E certamente não por culpa da festa. Mas a transformação é visível quando tomamos conhecimento que já existem congadeiros na universidade. Alguns fazendo História na Universidade Federal de São João del Rei  e alunos de Silvia Brugger! A presença de muitos jovens e crianças nas apresentações também anima a todos e nos traz a certeza que estão aprendendo  com os mais velhos a sua história e as possibilidades de novos caminhos.

Nesta festa de 2017 tivemos ainda o lançamento do filme Dos Grilhões aos Guizos: festa de maio e as narrativas do passado.  Fruto da tese de Livia Monteiro, em parceria com Natalia Ferracilli, na direção, e  Renato Oliveira, na fotografia e montagem, o filme foi projetado num enorme telão em praça pública. Alegria geral! Grande festa!

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Para mais informações sobre o documentário, acesse, curta e entre em contato através da página no Facebook: https://www.facebook.com/DosGrilhoesAosGuizos/

A Festa de Maio de 2017 marcou também o início das comemorações dos 90 anos de fundação da Associação de Congada e os congadeiros em sua página oficial no Facebook consideraram que “foi a Festa da Coroação” e agradeceram a todos que ajudaram a fazer dessa “a maior e mais emocionante Festa da Congada e Moçambique dos últimos anos”.

Como dizem os congadeiros, até o ano que vem! Se Deus permitir!

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Senhora Liberdade!

Alessandra Nicodemos é a convidada dessa semana, com apresentação de Monica Lima.

Pelos caminhos de muitas voltas das redes sociais chegou às minhas mãos, recentemente, um texto atribuído à Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral sobre as origens dos direitos humanos. Nele, dirigindo-se aos jovens, a juíza lembraria que as conquistas que geraram os direitos foram alcançadas a partir da luta popular – foram feitas “com a carne do povo”.  Parece lugar-comum, mas não é. Hoje, frente a tantas ameaças, isso tem que ser ensinado e aprendido para que fique impregnado na memória e na forma de entendermos o mundo. Para não nos conformarmos nunca com a perda de direitos fundamentais tão duramente conquistados, e nos conscientizarmos que o direito que ainda nos falta obter também só será alcançado com nossa atuação, enfrentando os que dele se apropriaram e que assim constroem seu privilégio.

Sabemos que a aprendizagem só se realiza de forma completa e vital num ambiente de liberdade. De liberdade de pensar, de discutir, de questionar. E essa liberdade no ambiente escolar e universitário é fundamental para que se desenvolva um espírito crítico e um pensamento autônomo, requisitos indispensáveis para uma mente aberta para novos conhecimentos. No entanto, alguns grupos reacionários se apropriaram da palavra liberdade para construir seu discurso e defender práticas e ideias que em tudo se distanciam dela. Falas e textos que pretendem amordaçar os professores e impedir o acesso a uma informação crítica e problematizadora se disfarçam com uma roupagem que não lhes serve, dizendo defender o que mais querem destruir.

A liberdade definitivamente não combina com os que se dizem de uma escola sem partido, os que dizem defender uma escola livre ou ideias assemelhadas – estes só querem mesmo é silenciar quem ameaça seus podres poderes. Querem usurpar, uma vez mais, um conteúdo que não lhes pertence, pois, a conquista da liberdade não resulta da ação das forças conservadoras. Essa palavra, que o sonho humano alimenta – como escreveu lindamente Cecilia Meireles – não é deles. Ela é dos que lutam contra a exploração dos trabalhadores, contra o autoritarismo, o racismo, o machismo, a homofobia e todos os males presentes em nossa longa história de opressão e preconceito.

mordaça

Lembrando tudo isso e indo mais além, Alessandra Nicodemos, professora da Faculdade de Educação da UFRJ,  nos brinda com um texto ao mesmo tempo de reflexão e informação sobre recentes ataques das forças reacionárias aos professores de História. São ameaças à liberdade – reais, concretas. E nós, agora?

Escola sem partido, para quem?

Alessandra Nicodemos

Professores/as de História uni-vos!

Hoje vivemos um significativo avanço conservador, em escala global e local, que pode ser considerado como reflexo de um novo padrão de desenvolvimento econômico que necessita da reestruturação profunda na relação capital-trabalho, o que reconhecemos sendo materializado, nas disputas atuais em torno das propostas da Reforma da Previdência e principalmente, da Reforma Trabalhista no país.

Esse processo implica, ainda, em alterações nas relações sociais gerais e nas relações de poder no Brasil no tempo presente, principalmente na tentativa de construção de uma nova sociabilidade e de novos valores político-sociais. Essas novas relações de poder estão na ordem do dia, após o Golpe de Estado que atravessamos e que enterram definitivamente, para aqueles que acalantavam essa possibilidade, a conciliação de classe. Nos marcos do cenário econômico-político que atravessamos, a democracia, a garantia de direitos, o respeito a diversidade, a liberdade de ensinar e aprender, são entraves que podem – e devem – ser rapidamente removidos ou neutralizados, na construção desses novos padrões de sociabilidade.

A reinvenção nos padrões de sociabilidade, proposta por esse ideário conservador, e materializado em projetos políticos que se encontram em disputa, tem implicado em ações contundentes sobre a Educação Formal, e principalmente, sobre o trabalho e o trabalhador docente.  A educação formal precisa ser controlada e deve passar por mudanças significativas para se adaptar aos “novos” tempos, tornando-se, assim, um instrumento importante na construção de um ideário inspirado na colaboração e harmonização das classes sociais e na ausência de conflitos sociais.  Portanto, o processo de coesão social é simples e depende de uma sociedade civil ativa, na qual os indivíduos, através do diálogo e da tolerância, constroem o bem comum, desde que as contradições de nossa realidade social não sejam identificadas, problematizados e/ou desnaturalizadas nos processos de escolarização.

A opção dos docentes pela reflexão sobre os conflitos, as contradições e os mecanismos de opressão que imperam em nossa sociedade, sejam os de gênero, étnico-raciais e de classe, passam a ser considerados, no discurso conservador, como uma “tomada de partido” ou ainda, como “ideologização do docente” em sua prática curricular, a partir da falsa premissa de que a educação formal venha ser um processo neutro de construção do conhecimento. Esse processo de criminalização e perseguição de docentes atuantes em escolas e universidades, tem tido como alvo mais recorrente os/as professores/as de História. A natureza de nosso campo epistemológico, o avanço em pesquisas com diferentes temas e sujeitos históricos e a análise crítica dos processos históricos, desenvolvidos nos últimos tempos, têm sofrido ataques sérios, nas redes sociais, em discursos maniqueístas e empobrecedores de tão importantes debates.

Porém, precisamos denunciar que tais ações começam a ganhar espaço em um terreno perigoso – principalmente se considerarmos o cenário de exceção que atravessamos – que é a criminalização dos professores e professoras em função de seus posicionamentos teóricos, políticos e pedagógicos. Atualmente temos três casos de processo formal –  de danos morais a processos administrativos –  envolvendo professores e professoras de História em nosso país e em todos eles temos como marca a judicialização do debate da liberdade de ensinar-aprender, ou seja, delegamos a outros sujeitos fora da escola/universidade a possibilidade de indicar o que deve ou não deve estar presente ou ser legitimo nas opções e seleções que os docentes fazem. Esse processo de judicialização, anula a prerrogativa do exercício da autonomia docente, que se constitui como princípio basilar na oferta de políticas públicas em educação, como garante a atual legislação brasileira.  E tais processos judiciais, enviesados por uma tendência de “fla-flu” que atravessamos atualmente, podem desembocar em condenações e perda de direitos desses docentes – funcionários públicos em sua grande maioria – em nome da defesa de uma suposta neutralidade no processo de ensino-aprendizagem, mas que na verdade se constituem em aberta perseguição política e judicial a todos/as que se posicionam contra hegemonicamente.

Precisamos estar atentos, fortes e unidos, em diálogo com os/as nossos/as estudantes e a sociedade, no anúncio de que a escola/universidade é um lugar, ou deve ser, de liberdade na construção do conhecimento e nessa direção, no próximo dia 06 de junho de 2017, se torna imperativo, nosso apoio a Professora Doutora Marlene de Fáveri, que atualmente sofre processo judicial, acusada de perseguição ideológica, pelo seu posicionamento nas discussões de gênero que desenvolve na Universidade Federal de Santa Catarina.

marlenefaveri

Professora Marlene de Fáveri. Catarinas: jornalismo com perspectiva de gênero.

Foto: Dieine Andrade

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Dossiê Conversa de Historiadoras Negras – Cotas na Unicamp Já!

Na próxima terça-feira, dia 30 de maio de 2017, o Conselho Universitário da Unicamp decidirá a respeito da adoção das cotas raciais no sistema de ingresso dos seus cursos de graduação. A mobilização está intensa e animada. Já nesta segunda-feira, 29, será realizado um Festival/Ato pelas Cotas, que contará com a participação de ativistas, artistas e demais membros da comunidade acadêmica.

Cotas 1

O Blog Conversa de Historiadoras se soma à essa onda contra o racismo e, portanto, em defesa da democracia, apresentando hoje um papo coletivo preto, o Dossiê Conversa de Historiadoras Negras − Cotas na Unicamp Já!, escrito por quatro mulheres que estiveram e/ou estão na Unicamp como discentes e docentes: Ana Flávia Magalhães Pinto, Giovana Xavier, Lucilene Reginaldo e Taina Aparecida Silva Santos.

 

“Enxugando gelo”: as cotas em debate na Universidade Estadual de Campinas

Lucilene Reginaldo, Professora do Departamento de História – Unicamp

Na próxima semana, no dia 30 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp irá discutir e votar uma proposta de mudança na sua política de ação afirmativa para o ingresso nos cursos de graduação. Desde 2004, a universidade adota um modelo de bonificação com acréscimo de pontos na nota do vestibular aos estudantes oriundos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Entre as críticas recebidas pelo programa, destaca-se o impacto diminuto da política no tocante ao ingresso de negros (pretos e pardos) e indígenas. A insistência e ressonância destas críticas na comunidade acadêmica – e penso que tão somente elas – foram responsáveis por algumas mudanças significativas no sistema de bonificação que, entre outras consequências, conseguiu elevar o número de estudantes negros ingressantes através do concurso vestibular. Os números, entretanto, continuam abaixo da representação demográfica da população negra no estado de São Paulo e não impactam de maneira semelhante todos os cursos.

A proposta a ser votada nos próximos dias tem como principal subsídio o relatório do grupo de trabalho – reivindicado e instituído com a responsabilidade de organizar três audiências públicas no segundo semestre de 2016 – formado por representantes das organizações que pautaram o tema das cotas na paralisação estudantil (Frente Pró-Cotas e Núcleo de Consciência Negra), professores e funcionários.  Em síntese, e à luz de amplo debate sobre o papel da universidade pública no combate ao racismo e às desigualdades sociais, bem como de uma avaliação minuciosa das experiências de implementação de cotas, o que se propõe para Unicamp é uma política de reserva de vagas (cotas) informada por critérios sociais e raciais.

Cotas - Audiências

Primeira Audiência – Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil, 13.10.2016. Fonte: Jornal da Unicamp 

Desde fevereiro, o relatório e proposta inicial do GT têm sido amplamente discutidos em diferentes espaços da Unicamp, tendo encontrado em alguns momentos resistências mais ou menos sistemáticas. Levada pelo movimento e pela força da condição e das circunstâncias – se assim posso dizer – como membro do GT que elaborou o relatório, tenho participado de vários debates com diferentes grupos e em várias unidades, atravessando inclusive a “confortável e previsível” fronteira das ciências humanas, conversando com professores, alunos e funcionários da área de saúde, das engenharias, das ciências exatas. Embora em muitos momentos tenha me sentido teletransportada para os acalorados debates ocorridos entre 2002 e 2006 – o que obviamente nos remete ao franco atraso e à resistência da Universidade de Campinas, em particular, e das universidades paulistas em geral, em relação às políticas de ação afirmativa baseadas no princípio das cotas – o debate atual tem algo de contemporâneo. Assim, mesmo a reprodução dos velhos argumentos, quando repostos no momento político atual, redimensiona e atualiza as antigas resistências.

Confesso, com certa hesitação, a recorrência de certos argumentos pôs à prova minha considerável paciência e capacidade de argumentação! “Ninguém sabe quem é negro no Brasil”. “As cotas colocarão em perigo os centros de excelências”. “As cotas enxugam gelo! Precisamos melhorar o ensino básico”. Diante destes argumentos a apresentação de dados que demonstram as desigualdades raciais no tocante à renda, educação, saúde e segurança, amplamente divulgados e debatidos há décadas, os estudos e avaliações que atestam o desempenho positivo dos cotistas e os resultados acadêmicos da diversidade, bem como as limitações das políticas universalistas no combate às desigualdades raciais, nem sempre foi bem sucedida.

Sem muita precisão metodológica, arrisco identificar uma face coletiva neste conjunto de argumentos. Nas entrelinhas da argumentação de impossibilidade de uma política de acesso ao ensino superior que defina metas e priorize os grupos que estão sub-representados ou ausentes na universidade pública se revela a defesa da manutenção de privilégios que não são jamais questionados na sua natureza histórica. Desse modo, a defesa do centro de excelência tem por suposto a universalidade de uma elite científica e intelectual. Diante das reticências deste grupo, cujo desconhecimento – proposital ou contingente – do histórico de implantação das cotas no Brasil frequentemente remetia a discussão à estaca zero, os versos de BNegão foram evocados como consolo: “Sigo na batida, a frequência desse pensamento não pode ser captada com perfeição por um receptor enferrujado pelos padrões do dia-a-dia/Enxugando o gelo, sua realidade segura por um fiapo de cabelo”.

É certo que o debate sobre as cotas extrapola os muros dos centros de excelência – o que não é nenhuma novidade – mas, de certa forma, singularmente se recoloca no contexto político atual. Políticas de ampliação da cidadania, o que quer dizer, direitos políticos, acesso aos bens materiais e de prestígio são inadmissíveis para a pequena parcela de privilegiados da sociedade brasileira. Desde a minha “área de conforto”, ou seja, olhando para o passado, não tenho dúvidas de que a interpretação é pertinente. Mas o que realmente me preocupa neste momento são as consequências desta pertinência para o futuro da nossa fragilizada democracia.

Cotas Já − Para que uma reunião de estudantes negros/as não seja convite para piada sobre quilombo?

Ana Flávia Magalhães Pinto, pós-doutoranda e doutora em História pela Unicamp

Considerada a segunda melhor universidade da América Latina, pelo QS University Rankings, a Unicamp se orgulha de ser uma referência na pesquisa acadêmica no Brasil e manter “a liderança entre as universidades brasileiras no que diz respeito a patentes e ao número de artigos per capita publicados anualmente em revistas indexadas na base de dados ISI/WOS”. Vendo através dessas lentes, mesmo que a instituição não esteja entre as cem melhores do mundo, estaríamos legitimados a falar tranquilamente sobre qualidade e excelência. Todavia, é o atraso da Unicamp que a torna digna de atenção no atual cenário. Um atraso perante a democracia, que também poderia ser visto por meio de números, mas que é facilmente percebido nas salas de aula e nos espaços abertos da universidade.

A presença de estudantes negros (pretos e pardos) nos cursos de graduação segue sendo empiricamente tímida, a despeito do que dizem as estatísticas divulgadas nos resultados de vestibular e dados de matrícula. Diante desse fato, a dificuldade e a demora da Unicamp, como instituição, em reconhecer o maior impacto das políticas de cotas em relação a outras políticas de ação afirmativa voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociorraciais, como o PAAIS, a colocam em situação de atraso e nos obriga a seguir fazendo um debate recuado em relação ao que se encontra bastante avançado em outras universidades brasileiras.

Sindicato de Empregadas Domésticas Campinas

Sindicato das Empregadas Domésticas de Campinas em apoio à implementação das cotas na Unicamp. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

A despeito de toda a disputa discursiva, ideológica, política etc. que se vivenciou desde pelo menos o início dos anos 2000, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de 26 de abril de 2012, projetou a discussão para um outro nível. Ou seja, quando a suprema corte julgou improcedente a ação movida pelo partido Democratas (DEM), em 2009, contra o programa de ingresso de estudantes negros da UnB, reconheceu a constitucionalidade das políticas de cotas raciais nas universidades, e as considerou como medidas necessárias para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil; uma etapa decisiva foi cumprida, tendo como desdobramento imediato a promulgação da Lei n. 12.711, de 29 de agosto 2012, e a posterior Lei n. 12.990, de 9 de junho de 2014, que versa sobre a reserva de vagas em concursos públicos.

A lei federal, por certo, não rege o funcionamento de universidades estaduais, como a Unicamp, o que faz com que as coisas tenham aqui uma trajetória particular. E, por falar em particularidades e generalidades, às vésperas da votação pelo Conselho Universitário da proposta de incorporação das cotas raciais na política de acesso à graduação, me peguei pensando sobre episódios corriqueiros que ajudam a entender como o atraso desta universidade pôde ser não apenas tolerado, mas também tomado como marca de prestígio. As cenas não se limitam a registros de dor, mas mesmo as demonstrações de afeto e solidariedade estabelecidas por nós, pessoas negras, estão infelizmente conectadas a violências, porque funcionam como mecanismo de defesa e reação a hostilidades.

Logo que ingressei na Unicamp para cursar o doutorado, em 2009, achava um barato ser cumprimentada por funcionários/as negros/as que reconheciam com facilidade a novidade da minha presença nas áreas públicas da universidade e me lançavam um sorriso suave e uma faísca no olhar ao passar por mim, gestos de uma cumplicidade silenciosa. O mais divertido era saber que isso acontecia com outros/as poucos/as colegas também negros/as. Da mesma forma, era motivo de festa cada vez que se sabia de um/a estudante negro/a aprovado/a no processo de seleção de qualquer programa de pós-graduação. O costume da exclusão fazia com que as doses homeopáticas de inclusão fossem sentidas como porções cheias.

Essa sensação agradável, porém, logo tinha seu encanto roubado ao fatalmente se adquirir o hábito de ficar apreensiva/o já antes de entrar nas bibliotecas sabendo que, a qualquer momento, mais um/a estudante branco/a poderia te abordar pedindo para que você procurasse algum livro ou prestasse algum serviço pra ele/a. Ou ainda quando um/a colega de curso se mostrava surpreso/a por você dominar mais do que o conteúdo das disciplinas, sobretudo por não entender como isso se casava com sua profunda erudição sobre os “Pagodes Anos 90”, antes de isso se tornar moda entre a galera “cult-bacaninha”. E o que dizer quando um professor, ao avistar um grupo de estudantes negros reunidos em volta de uma mesa pública do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, se aproximou e perguntou com ar de empolgação: “Isso aqui é um quilombo?”.

Os registros do atraso da Unicamp em prejuízo à promoção da democracia no Brasil que poderiam ser feitos por estudantes, funcionários/as concursados/as e terceirizados/as, e os/as poucos/as professores/as negros/as dariam para a edição de muitos volumes, repletos de informações suficientes para evidenciar a fragilidade da excelência da instituição. Isso, aliás, serviria muito bem para marcar a inquestionável legitimidade das políticas de cotas, defendidas hoje por mais gente além de nós negros, ainda minoria nesse espaço. Seja como for, o momento agora é para que posicionamentos sejam tomados. Diante da mobilização que rompe os limites da universidade, no dia 30, saberemos até que ponto a Unicamp gosta de avanço, liderança e bons conceitos.

A luta antirracista e o poder ser: afrontes e a construção de um novo projeto humanista

Taina Aparecida Silva Santos, graduanda em História pela Unicamp

Entre luzes e som, só encontro, meu corpo, a ti. Velho companheiro das ilusões de caçar a fera. Corpo de repente aprisionado pelo destino dos homens de fora. Corpo/mapa de um país longínquo que busca outras fronteiras, que limitam a conquista de mim. Quilombo mítico que me faça conteúdo da sombra das palavras. Contornos irrecuperáveis que minhas mãos tentam alcançar (Beatriz Nascimento, O conceito de quilombo e a resistência cultural negra [1977]. In: Alex Ratts. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo:Imprensa Oficial, 2006).

 Entre todos os processos que compõem a luta pela implementação das cotas raciais na Unicamp, um especial, tem me chamado muito a atenção, não pelo fato de eu fazer parte disto, mas, sim, pela sensação de sentir-me pertencente ou ligada a algo que muitos outros negros e negras com que partilho esses momentos andam percebendo também. Demarco a experiência desses corpos pretos, primeiramente, pela violência a que o racismo os submetem pelo simples fato de existirem. Essa reflexão é importante, pois, chegado o momento que a discussão tomou grandes proporções a ponto de tornar-se imprescindível que a comunidade como um todo, acadêmica ou não, tomasse posições verbalizadas, silenciosas, favoráveis ou contrárias, acredito que, para aquelas e aqueles de pele escura, essa questão sacudiu nossas identidades pessoais e coletivas. Algo complexo que, ao refletir sobre, me vejo mais desvendando um caminho, um mapa, do qual ainda não sei as fronteiras e nem onde conseguirei alcançar, porém, a cada dia que passa, fica mais evidente que esse mapa são os nossos corpos, como nos lembra Beatriz Nascimento (Cf. Christen Smith. Lembrando Beatriz Nascimento: quilombos, memórias e imagens negras radicais. In: Sidney Chalhoub e Ana Flávia Magalhães Pinto (orgs.). Pensadores negros, pensadoras negras: séculos XIX e XX. Belo Horizonte: Fino Traço, 2016). Corpos que, no contexto em questão e até na experiência da formação de movimentos negros no Brasil e na diáspora, têm constituído um território negro.

Marcha Antirracista (66)

Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Desde que iniciei meus estudos na Unicamp, em 2014, eu participo de um grupo de negras e negros que se reúne uma vez por semana, durante o horário do almoço, em umas mesinhas que ficam na parte central da Universidade – PB. Ao me aproximar desses estudantes acabei conhecendo os outros poucos negros e negras – estudantes, funcionários e professores presentes nessa ilha branca da cidade de Campinas, que atuavam, circularam ou circulavam em torno do Núcleo de Consciência Negra, outros grupos que tiveram composição e atuação semelhante dentro ou fora da universidade. Conheci, também, pretos e pretas que não fizeram parte de nenhum grupo do tipo, porém, independentemente de cada de nós, 2016 presenciamos algo inédito na história da Unicamp: a universidade parou com a eclosão de uma greve estudantil, na qual a denúncia do racismo tomou proporções incríveis e as cotas raciais junto com a ampliação das políticas de permanência estudantil tornaram-se uma das pautas principais da mobilização.

Protagonizados pelos estudantes negros, os embates para convencer as pessoas de que a violência que aflige as nossas vidas importam foram duros e acirrados, em muitos momentos até dolorosos, pois, se pensarmos na presença negra na Unicamp, esses afrontamentos vêm de muito antes dessa greve. Entretanto, a politização em torno da discussão das cotas que se transformou numa “quizumba”, como diria Lélia Gonzalez, abriram os meus olhos para perceber os significantes dos nossos corpos como territorialidades multilocalizadas em determinados tempos nesse espaço, pois uma série de outros estudantes negros, para além daquele grupo que se reunia todas as sextas-feiras nas mesinhas do PB, ao meio dia, passou a tomar para si essa luta também, tensionando o cotidiano inquestionável a ponto instaurar um clima no qual se deu a entender que situações racistas não passariam mais em branco, nem em silêncio. É certo que nem eu, nem nenhum dos meus colegas invetou a roda da luta antirracista na Unicamp, que isso seja lembrado, em respeito àquelas e àqueles que vieram antes de nós. Porém, muitas conversas “não colam mais”, principalmente àquelas que tentam justificar uma naturalização da nossa ausência em espaços como uma universidade pública que é mantida com nosso dinheiro. Nossas vozes, se multiplicaram e estamos avançando no sentido de nos compreendermos enquanto sujeitos de direito inscritos em corpos que se constituem enquanto territórios políticos.

A mobilização encadeada pela discussão sobre o desprezo que a Unicamp – enquanto reflexo da realidade social, política e econômica brasileira, em especial, paulista – vem alimentando em relação às nossas vidas, logo, também, em relação às políticas de combate ao racismo, evidenciou uma territorialidade para além de um espaço físico, apontando para uma rede entre nossos corpos que conectou os negros e negras que ali estavam. Acabou, também, potencializando a compreensão de uma linguagem entre nós que ampliou a sensibilidade no que diz respeito àquilo que nos fere, o que, também intensificou a altura dos nossos gritos.

Esse processo tem sido curioso, pois a conexão entre nós está longe de se dar no âmbito de uma possível essência. Pelo contrário, esse território é constituído sobre muitas diferenças e contradições que fazem parte do ser. No entanto, todos esses movimentos têm nos mostrado que essas possibilidades causadas pela interrelação entre corpos negros e esse espaço tão hostil indicam a necessidade da reformulação de um novo pacto de humanidade, pois, se é sobre racismo que estamos falando, reconhecer a desumanização das populações negras e indígenas como um dos maiores massacres da nossa sociedade é essencial para compreender a dimensão de um problema que ainda perdura nas nossas vidas.

Sendo assim, não para concluir, mas sim, para passar a bola nesse momento de reflexão que essa luta, entre outras, nos inspira, compartilho as palavras de Abdias do Nascimento:

“Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça, na igualdade e no respeito a todos os seres humanos, na liberdade; uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racismo. Uma democracia autêntica, fundada pelos destituídos e os deserdados desse país, aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas caducas de instituições políticas, sociais e econômicas as quais serviram unicamente para procrastinar o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pode vir com a transformação radical das estruturas vigentes. Cabe mais uma vez insistir,: não nos interessa a proposta de uma adaptação aos moldes de sociedade capitalista e de classes. Essa não é a solução que devemos aceitar como se fora mandamento inelutável. Confiamos na idoneidade mental do negro, e acreditamos na reinvenção de nós mesmos e da nossa história. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fundado em sua experiência histórica, na utilização do conhecimento crítico e inventivo de suas instituições golpeadas pelo colonialismo e o racismo” (Abdias do Nascimento. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1980).

Corpos Pretos, conselhos brancos: racismo acadêmico e cotas raciais na Unicamp

Giovana Xavier, Professora de Ensino de História UFRJ e coordenadora do Grupo Intelectuais Negras

Recentemente, fui convidada a contribuir com um artigo para o terceiro número do jornal do Coletivo Nuvem Negra da PUC, uma organização incrível de universitários pretos que, dentre outras ações, deram vida à destemida campanha “Quantas Professores Negros a PUC-Rio tem?”, que traz como objetivo a realização de um censo racial da categoria docente na universidade em que estudam. Pois bem.

O grupo de estudantes, nos quais se destacam jovens lideranças como Lucas de Deus e Yasmin Thainá, solicitou-me dedicar algumas linhas ao legado das Intelectuais Negras nas universidades brasileiras, dentre as quais podemos e devemos sempre lembrar de Azoilda Loretto da Trindade, Beatriz Nascimento, Lelia Gonzales, Luiza Bairros para ficarmos com algumas. Para mim, professora universitária que faz questão de explicitar sua raça e titulação através da identidade Preta ‘Dotora’, o convite do Coletivo despertou, além do orgulho e da importância de apoiar as novas gerações, a reflexão do quanto as conquistas alcançadas até aqui são irreversíveis.

Marcha Antirracista (29)

Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Pensar nessa irreversibilidade, expressa na hashtag #nenhumdireitoamenos, significa também refletir o quanto nossas conquistas têm sido construídas às custas de muitas violências às quais nossos corpos pretos estão submetidos, dentro e fora do espaço acadêmico. Como a conversa aqui é in-academia e pautada por historiadoras Pretas, rememoro algumas das minhas histórias como estudante de doutorado na Unicamp, sempre na esperança de que as palavras lançadas nos fortaleçam e inspirem para a construção de projetos políticos que nos representem.

A primeira delas − um trauma com o qual tive de lidar por muitos anos − refere-se à hostilidade de meus colegas de turma de doutorado quando apresentei meu projeto de pesquisa na linha de História Social da Cultura (Cecult). À ocasião, a investigação focava-se na temática dos concursos de beleza negra em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Até hoje fico a me perguntar: qual seria o problema: a beleza ou o negra? Muitas são as respostas, mas nenhuma delas nos exime de algo com o qual temos de lidar como corpos pretos no mundo acadêmico branco: o preço de ser identificada e interpretada como a exceção do seu grupo racial. Ser exceção na Unicamp fez com que eu passasse quatro horas sujeita a “conselhos” bem intencionados sobre como “escrever melhor”, “procurar temas de pesquisas mais adequados”, “programas de pós-graduação que combinassem mais comigo”. O mais cool de tudo isso é que prestei bastante atenção em todas as dicas. Menos de um ano depois da conclusão do doutorado estava eu concursada e empregada como Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Namastê!

A segunda história, também passada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, refere-se a uma situação em sala de aula. Ao realizar uma disciplina obrigatória, o professor, que dentro das contradições que só as elites brancas têm o direito de experimentar, não era muito chegado a lecionar, dividiu o programa de seu curso em seminários, que ficaram sob a nossa responsabilidade. Ao longo de um semestre, cada grupo de pós-graduandos escolhia seu tema, preparava um seminário e apresentava à turma. Um dos grupos, composto por pessoas brancas, em sua maioria com sobrenomes dominados pelas consoantes (o que é autoexplicativo das muitas facetas do privilégio) apresentou-nos a biografia de Primo Levi. Lembro-me que o grupo levou a turma às lágrimas, dadas as tragédias e violências ignóbeis do Nazismo alemão. Recordo também que havia na sala, algumas exceções da pele preta, além de mim. Ufa!

Lá pelas tantas, interrompi o grupo e pontuei o quanto como historiadores deveríamos discutir qual grupo tem o direito de ter sua história interpretada a partir da categoria “holocausto”. Seria oportuno debatermos os diferentes status entre “holocausto” do povo judeu e “genocídio” da população negra. Torta de climão servida, o professor, figura rara nas suas próprias aulas, lembrou-me educadamente que existiam muitos poucos negros nas universidades, por isso as pesquisas sobre escravidão, tráfico e desumanização eram tão escassas. A colega ao meu lado, ostentando suas consoantes, olhou-me de cima a baixo, com a certeza escravocrata de que cada um tem seu lugar e lançou: “se não está satisfeita, faça você mesma pesquisas sobre sua história e sua gente”.

***

Se de boas intenções o inferno está cheio, fica a pergunta: o que seria dos corpos pretos sem os conselhos brancos?

Quando olho para trás e vejo onde chegamos hoje, enche-me de orgulho estar de fora e de dentro de uma Unicamp na qual os lugares da mesa estão sendo bagunçados. A votação, no próximo 30 de maio no Conselho Universitário da Unicamp, sobre a proposta de mudança da política de ações afirmativas para ingresso na graduação, me faz cantar:

Eles querem que alguém / Que vem de onde nóis vem / Seja mais humilde, baixa a cabeça / Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda.

 Não esqueceremos! Afinal, aprendemos com Mãe Beatá de Iemonjá, transformada ontem em estrela, que quantas vezes voltarmos à terra retornaremos Negros.

Mãe Beata

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