Domingo, 13 de Maio, 130 anos depois…

O blog celebra o 13 de maio com uma conversa entre suas veteranas…

Hebe Mattos

2018!

130 anos das fugas em massa de escravizados que surpreenderam abolicionistas e “emperrados” e mudaram o rumo previsto para a abolição no Brasil. Cerca de 750 mil pessoas, apenas 5% da população do país, ainda estava “legalmente” sob a condição de escravidão ou regime de trabalho forçado em princípios de 1888. Estes trabalhadores escravizados se concentravam, porém, em fazendas cafeeiras que eram o baluarte da economia agro-exportadora do país. O chefe do Conselho de Ministros, Marquês de Cotegipe, assumira o governo em 1885 com o compromisso de parar a pressão do movimento abolicionista. A proposta do gabinete liberal anterior de liberar os cativos sexagenários sem indenização (quase todos africanos com as idades aumentadas na matrícula para esconder sua origem no contrabando de escravos) fora rejeitada quase que por unanimidade. A lei afinal aprovada, conhecida como Saraiva-Cotegipe, libertava os sexagenários mediante indenização em tempo de serviço e adiava a abolição final para mais quase uma década, após indenizações pecuniárias aos proprietários. Paralelamente, novas medidas legais endureciam as punições para os que apoiassem as crescentes fugas de cativos.

Para além das previsões dos mais radicais abolicionistas, porém, as fugas em massa se generalizaram a partir de janeiro de 1888.   A surpreendente iniciativa dos últimos cativos fez deles, ao final, os principais agentes a definir o “timing” do processo. Alforrias em massa foi a resposta possível à desobediência civil que poderia inviabilizar a colheita daquele ano. Sobretudo nas mais prósperas fazendas cafeeiras de São Paulo. A mudança de posição dos até então empedernidos escravistas paulistas redefiniu o jogo de forças no “andar de cima”.

Em 10 março, o gabinete antiabolicionista liderado pelo Marquês de Cotegipe foi substituído por outro, sob liderança do também conservador João Alfredo, convertido à abolição imediata e sem indenização como solução para a crise. Em maio, quase que por unanimidade,  a lei estava aprovada pelo mesmo congresso escravagista que antes legitimara as ações de perseguição aos abolicionistas que apoiavam as fugas dos escravizados. Ela confirmava a liberdade de fato, que as deserções coletivas tinham estabelecido.  Em 13 de maio, em um domingo, dia do aniversário do bisavô, Dom João VI, a Princesa Isabel assinava a Lei Áurea. A impressionante multidão presente na missa campal comemorativa de 17 de maio ficou registrada para a posteridade em fotografia pioneira. Os batuques comemorativos dos últimos libertos foram ouvidos por mais de duas semanas depois da assinatura da  lei.

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Infelizmente, as esperanças de que as reformas se aprofundariam, com alguma forma de compensação aos recém libertos, no regime monárquico ou em um novo, republicano, duraram pouco. Em pouco mais de um ano, a monarquia foi derrubada por um golpe militar com amplo apoio dos antigos fazendeiros escravistas, chamados “republicanos do 14 de maio”.  No novo contexto político, que se manteve por quase dois anos sem uma nova constituição, as discussões sobre reparação aos libertos caíram no esquecimento. Para se livrar das pressões por indenização aos proprietários, Rui Barbosa, ministro da fazenda, queimou a documentação da matrícula dos últimos escravizados, que embasava a política de indenizações do período imperial. A nova constituição republicana, finalmente aprovada, em 1891, ainda que consagrando a liberdade, negava o direito de voto aos analfabetos, maioria da população, sem fazer da educação pública um dever do estado, enquanto o silêncio racial do texto legal fazia do estigma da escravidão uma marca comum a todos os que traziam na pele a memória da origem africana.

Em 1988, cem anos depois, o movimento negro ainda precisava denunciar nas ruas a abolição incompleta. As lutas pela redemocratização daquela década trariam, porém, mudanças  significativas para a questão. Os artigos 215 e 216 da constituição aprovada no mesmo ano reconheceram, pela primeira vez, a pluralidade étnica e cultural do país. A participação dos movimentos negros na constituinte foi fundamental para a aprovação do artigo 68 das Disposições Transitórias do texto constitucional, assegurando direitos territoriais às comunidades remanescentes de quilombo.

Naquele ano, muito jovem, apresentei emocionada os resultados de minhas primeiras entrevistas com camponeses negros sobre a memória do pós-emancipação no Brasil, em diversos seminários celebrando o centenário da abolição, onde encontrei pela primeira vez o professor Thomas Holt, da Universidade de Chicago. Ele estava no Brasil convidado a compartilhar conosco suas pesquisas pioneiras sobre o pós emancipação na Jamaica e nos Estados Unidos, em perspectiva comparada.  Será uma grande emoção reencontrá-lo na próxima semana, no segundo seminário Histórias do Pós-abolição do Mundo Atlântico, organizado pelo GTEP (GT/ Anpuh _ Emancipações e Pós-Abolição) na Fundação Getúlio Vargas, desta vez acompanhada de expressiva maioria de pesquisadorxs e historiadorxs negrxs, formadxs nos últimos 30 anos.

O Brasil tem ritmos e tempos de mudança lentos e peculiares. Há dois anos os “emperrados” estão no poder e tentam conter, desacelerar ou reverter a vontade de inclusão social que deu sentido à constituição de 1988. Resta-nos defendê-la e apostar na profundidade do processo democrático vivido nas últimas décadas.

Como em 1888, a imprevisibilidade pode estar do nosso lado.

Martha Abreu

1988, um ano para não esquecer!

Embora tenhamos muito para pensar e discutir nesses 130 anos da abolição, hoje quero  escrever sobre o centenário da abolição, há 30 anos. 1988 foi um ano marcante e inesquecível para quem o viveu, negros e brancos, militantes e acadêmicos,  historiadores e sambistas.  Posso dizer que nada ficou como antes na história das escravidão/abolição e nas discussões sobre as relações raciais no Brasil.

Festivais, marchas, protestos e seminários aconteceram em todos os lugares do Brasil. As universidades não ficaram de fora.  Lembro bem de um desses seminários, na reitoria da UFF, onde foram discutidas, com muita exaltação,  as novíssimas pesquisas de historiadores que, criticando a então dominante visão do “escravo coisa”, destacavam o protagonismo negro na luta pela abolição. Como seria possível valorizar essa perspectiva, sem perdermos de vista a violência da escravidão e os limitadíssimos efeitos da Lei Áurea? Aquele debate foi fundamental em minha formação!!

Ao longo de 1988, e desde 1987, também lembro bem da presença dos movimentos negros (e indígenas) nas discussões da Constituinte brasileira, que seria aclamada no final daquele mesmo ano.  Ali seriam aprovadas importantes medidas para o combate ao racismo e reconhecimento da importância da população afrodescendente, tanto no reconhecimento dos direitos quilombolas, quanto na afirmação de um Brasil diverso em termos culturais e populacionais. E isso não era pouca coisa naquele momento.

Mas faço mesmo questão de registrar os desfiles das Escolas de Samba. A discussão do centenário seria levada para a Avenida pela Estação Primeira de Mangueira, com o enredo  “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?, e pela Unidos de Vila Isabel, “Kizomba, a festa da raça”, encerrando de vez (assim espero) a ideia de que as escolas de samba eram locais para o “povo” esquecer seus problemas.  Maior patrimônio construído pelos descendentes de escravizados no Rio de Janeiro, essas Escolas de Samba colocaram diretamente o dedo nas feridas da escravidão e da abolição.

Nos versos da Mangueira,  cantava-se uma  “liberdade que ninguém viu”, uma “senzala que se transformou em favela”, sem que se tivesse reconhecido “que o negro  também construiu as riquezas do nosso Brasil”. Zumbi foi aclamado em toda a Avenida, mas especialmente pelo arrepiante verso da Vila Isabel que trazia o personagem como protagonista da luta contra a escravidão, contra o racismo e contra o “apartheid”:  “Valeu Zumbi! O grito forte dos Palmares, que correu terras, céus e mares, influenciando a abolição…”

30 anos depois, um filme sobre o desfile da Vila Isabel nos leva de volta àquele ano inesquecível.  Mas agora, com fortíssima emoção, na voz e na memória dos participantes da escola do Morro dos Macacos.  Em ano inesquecível, um filme imperdível realizado por um grupo de jovens carnavalescos, historiadores, cineastas e antropólogos, que tem feito a diferença na atividade dos departamentos culturais das escolas de samba através do trabalho de consolidação de suas histórias e memórias.

Como relata a sinopse do documentário, “Kizomba – 30 anos de um grito negro na Sapucaí” é uma celebração do primeiro título da Unidos de Vila Isabel no grupo especial das escolas de samba. O desfile antológico que marcou não só a história da agremiação, mas como toda a história do carnaval carioca é lembrado por apaixonados componentes dos mais diversos segmentos. O mito da Kizomba continua presente na memória e nos corações daqueles que participaram do carnaval de 1988. “Quem viu, viu. Quem não viu não vai ver mais”.

Veja o teaser do documentário clicando na imagem a seguir.

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A direção é de Nathalia Sarro (historiadora formada pela UFF, maior orgulho!!). A direção de fotografia, de Nathália Rodrigues. Câmaras e montagem de  Nathália Rodrigues  e Nathalia Sarro. Assistentes de produção,  Beatriz Barcelos, Danilo Garcia, Vitor Hugo Santos. Roteiro, Nathalia Sarro e Fatima Rodrigues. Diretor cultural, Vinícius Natal. Pesquisa, acervo e realilzação,  Vila Cultura. Duração – 72mim

Mônica Lima

Se não fosse o Preto Velho

“O Preto Velho é um negro feiticeiro, se não fosse o Preto Velho, não acabava o cativeiro.”

A assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 trouxe festa no dia seguinte e após, e a memória dessa celebração foi reiterada em canções e poemas negros. No entanto, a continuidade e o aprofundamento das desigualdades no Brasil, acompanhados de uma leitura oficial da abolição da escravidão como uma dádiva da princesa fizeram com que, especialmente a partir da segunda metade do século vinte, se rejeitasse a data como ocasião de celebração entre os setores mais engajados na luta contra o racismo no Brasil. Hoje, o entendimento da abolição como resultante da luta de muitos negros e negras, juntamente à militância de abolicionistas brancos, confere outro lugar para esse dia histórico.

Porém, para além da discussão sobre as ocasiões a se celebrar, há que se destacar outros lados da comemoração do treze de maio. No vasto campo das religiosidades de matriz africana, em algumas vertentes, este é o dia de saudar os Pretos Velhos. Em muitas letras de cantigas das giras, eles seriam os responsáveis pela abolição, pois sua força no sagrado foi determinante para que se alcançasse a desejada liberdade. As diversas imagens que circulam nas redes no dia de hoje nos fazem lembrar que essa data também remete às profundezas de nossa ancestralidade.

Seriam eles, para muitos, a razão da cura e da esperança, como foi lindamente representado pela comissão de frente da escola de samba Paraíso do Tuiuti no seu arrebatador desfile no Carnaval do Rio de Janeiro desse ano. Os pretos-velhos, curvados, sem a agilidade e a força da juventude, seriam aqueles capazes de trazer conforto frente à dor e à desesperança, e assim gerar a recuperação e a redenção. No treze de maio, por essas e outras razões, são lembrados e louvados.

Nos estudos sobre as sociedades africanas e suas culturas muitas vezes encontramos referências à importância do papel dos mais velhos e sobre como sua sabedoria e ciência não somente iluminam a tomada de decisões dos mais novos como dão suporte ao que pode trazer a mudança. O peso da ancestralidade não é paralisante nem conduz a um passado perdido no tempo. Todo ao contrário. Os antigos dão o alicerce para a construção de novas moradas, e a direção segura para rotas de mudança.

Nesse treze de maio em que se celebram os 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, fica um desejo – e uma esperança – de que os desafios do presente nos façam lembrar da profundidade do nosso passado. Que a força da nossa ancestralidade, da nossa história, nos permita derrotar o mal e abrir novos caminhos.

 

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A Estranha Derrota?

Inaugurando minhas atividades docente na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), fui convidada a ministrar uma disciplina de ementa aberta para a turma dos calouros, alunos que acabaram de entrar na Universidade. Inspirada no texto clássico de Marc Bloch, Apologia da História ou O Ofício do Historiador,  eu a intitulei “História Para Que?”.

Para que serve a história? Esta é a pergunta que abre o texto, escrito em um campo de concentração, inacabado por conta da execução do autor pelos nazistas em 1944. Foi o primeiro texto que li com a minha orientadora, Maria Yedda Linhares, ainda na iniciação científica. Tenho hoje a idade que ela tinha quando eu a conheci. Não tive dúvidas que era o texto que eu devia revisitar para construir a nova disciplina.

Pouco antes de Apologia da História, Marc Bloch escreveu A Estranha Derrota, misto de testemunho e exercício de história imediata sobre a capitulação francesa aos nazistas, onde o grande medievalista conjugava uma narrativa pessoal sobre os acontecimentos recentes, dos quais participara como oficial do exército francês, com reflexões sobre a história e seus condicionamentos de longa duração. A releitura do texto é, para mim, sempre instigante.  O texto de Bloch me faz refletir sobre história e testemunho, sobre lugar de fala e produção do conhecimento, sobre agência e identidades na produção dos sujeitos históricos, individuais e coletivos. Uma pequena joia do ofício do historiador, sobre o qual teorizaria no texto posterior, inacabado.

Bloch morreu num dos momentos mais trágicos de reversão de expectativas democráticas da história ocidental.  Um trauma coletivo de tal envergadura que os textos europeus de reflexão sobre o tempo e a história do período continuam imensamente atuais. O dele, inclusive.

Na primeira aula com os novos alunos, junto ao primeiro capítulo do livro de Bloch, assistimos também à icônica “Ted Talk” de Chimamanda Adichie, sobre o perigo da história única. Minha intenção era ir um pouco além da história europeia, mas, sobretudo, na linha pessoal dos textos finais de Marc Bloch, em que escreveu como um historiador e soldado francês, refletir, como brasileira, sobre a história do Brasil, enquanto estado nacional.

De um certo ponto de vista, do qual compartilho, a história do Brasil, até 1988, pode ser sintetizada na contínua produção de um outro, colonizado, ao qual se negava o direito à história e à cidadania. Para explicar de forma simples a afirmação, cito um exemplo.

Nas primeiras décadas que se seguiram à independência do Brasil, aconteceram diversas revoltas federalistas no país, todas derrotadas pela monarquia centralizada no Rio de Janeiro. Após a rendição, os líderes revoltosos com origem nas classes senhoriais foram quase sempre tratados como prisioneiros de guerra ou prisioneiros políticos e, muitos deles, depois, anistiados. Líderes de revoltas de extração popular, entretanto, pretos, pardos e caboclos, nos termos da época, foram muitas mais vezes condenados à morte , frequentemente sendo processados por crimes previstos no código criminal do império, o que basicamente desqualificava o caráter político de seus movimentos. Na Bahia, em 1837, Francisco Sabino, médico que liderara uma revolução liberal, descrito como mulato, foi condenado por incitar “insurreição de escravos”.

A  República seguiria a tradição imperial, apesar da abolição da escravidão. A Constituição de 1988 foi o primeiro texto constitucional brasileiro a tentar quebrar esta premissa, ao reconhecer o voto do analfabeto e a pluralidade racial e cultural do país. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva foi  um dos protagonistas e é o principal ícone desta vontade política de incorporação.

A vontade de inclusão da república de 1988, sob ataque desde o golpe parlamentar de 2016, foi amplificada com o acesso à internet a partir dos anos 2000.  A rede mundial de computadores representou, em todo o mundo, uma enorme democratização do acesso à comunicação e também da capacidade de produzir e difundir informações e conteúdos. Este processo trouxe, por outro lado, como efeito paralelo indesejado, uma espécie de democratização perversa, onde os mais mesquinhos sentimentos se sentiram liberados para serem publicamente compartilhados e, ao encontrar seus iguais, sentirem-se legitimados. Este segundo movimento facilitou, sobretudo nos últimos anos, a ressurgência de fundamentalismos, de fascismos e de movimentos francamente reacionários, em todo mundo.

A história é a ciência que indaga sobre os seres humanos no tempo, como ensina Marc Bloch. Ela trata de mudança. Ela se faz no presente e os acontecimento passados sempre podem ser revisitados. O passado nunca se repete, ainda que o presente esteja sempre informado pelo passado e processos de longa duração permaneçam condicionando movimentos e possibilidades.

O que me encanta nos dois últimos textos de Bloch é o otimismo que, apesar de tudo, os informa. Em uma situação extrema, eles fazem apologia da história e do ofício do historiador. Como historiador, Bloch tinha certeza do  futuro fracasso de qualquer projeto que pretenda controlar os sentidos da história, como era o caso do nazismo que combatia e que viria a assassiná-lo.

Faço esta digressão para falar do tempo presente. E, claro, de Brasil. Ontem, quando comecei a assistir a missa em celebração ao aniversário de Dona Mariza e de solidariedade ao ex-presidente Lula em São Bernardo pela Rede TVT, pela internet, o altar a céu aberto, cercado de povo, me lembrou a fotografia da missa campal em celebração à abolição da escravidão no Brasil, em 17 de maio de 1888.

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Em pouco tempo, as mesmas imagens que eu estava assistindo na internet (produzidas pela TVT) estavam no G1 e no UOL, e foram vistas por todo o país e em todo mundo, em tempo real. Lula controlava o enredo televisionado da sua própria prisão. O que me parecia totalmente inesperado e novamente me evocou o caráter surpreendente, para os contemporâneos, dos acontecimentos que precederam o desfecho político da abolição, sobretudo a desobediência civil que permitiu as fugas em massa dos últimos cativos.

Não tenho qualquer veleidade de prever o que virá nos próximos dias. Seja o que for, a capacidade política de ex-presidente Lula de controlar a narrativa dos eventos de ontem impregnou de sentidos políticos a sua “rendição”.

Como nos ensinou Marc Bloch, a história nunca se repete. E como sugeriu o inspirado discurso de Lula, por mais longo que seja, o inverno não pode impedir a primavera.

30226219_1665253480178349_1081419481768525824_oFoto Francisco Proner Ramos

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2018!

Voltamos! A demora em recomeçar 2018 veio em grande medida do acúmulo de novas tarefas das historiadoras do blog. Vejam vocês:

Ana Flavia Magalhães Pinto é a mais nova professora do Departamento de História da Universidade de Brasília. Assume as novas atividades profissionais na coordenação do GT Emancipações e Pós-abolição da ANPUH e da organização do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, previsto para 15-18 de maio deste ano, na FGV.

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Giovana Xavier é a nova colunista do NEXO Jornal e mantém o seu Preta Dotora, agora no face, mas continua conversando com a gente.

Keila Grinberg,  neste semestre, é titular da Andrés Bello Chair in Latin American Cultures and Civilizations da NYU. Em entrevista  no site da cátedra, ela explica as suas atividades por lá durante o semestre, entre elas, a organização  do simpósio “Slave Pasts in the Present: Narrating Slavery though the Arts, Tecnology, and Tourism”, onde Hebe, Martha e Mônica Lima irão participar.

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Mônica Lima é uma das organizadoras  do Primeiro Encontro da Associação Brasileira de Estudos Africanos – ABE África, que irá se realizar entre 11 e 13 de abril desse ano no Instituto de História da UFRJ (prédio do IFCS/UFRJ).  Estão confirmadas as presenças de Kabengele Munanga e Petronilha Gonçalves, entre outros pesquisadores da área.  Kabengele Munanga é professor titular de Antropologia da USP e Professor Titular Senior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É congolês, naturalizado brasileiro, autor de diversos livros sobre educação antirracista e ensino de História da África e cultura afro-brasileira. Petronilha Gonçalves é professora titular em Ensino-Aprendizagem em Relações Étnico-Raciais e Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos. Foi relatora do projeto das diretrizes para o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira no Conselho Nacional de Educação.

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As veteranas do Blog, Hebe e Martha, que assinam este post de reabertura, também estão recomeçando. Hebe iniciou suas atividades como Professora Titular Livre da UFJF e Martha assumiu como professora visitante do Mestrado Profissional em Ensino de história da UNIRIO. Paralelo aos recomeços, estão à frente, com Mônica Lima e toda a equipe do Blog, da coordenação de conteúdo para a curadoria científica do Centro de Interpretação do Cais do Valongo. Vamos dar notícias por aqui dos desdobramentos desse trabalho.

Diante do acúmulo de atividades, o Blog este ano será basicamente lugar de informação e divulgação sobre os andamentos dos novos projetos e dos eventos em que estão sendo discutidos. Além disso, nos comprometemos todas com, pelo menos, um texto por semestre, sobre questões de fundo das nossas conversas (história pública e escravidão, democracia, racismo, cultura negra, feminismos, entre muitos outros temas). Aos seguidores do Blog, prometemos, podemos diminuir o ritmo, mas vamos caprichar na qualidade.

Por fim, neste mês de março, convidamos todos a se engajarem na campanha 21 dias de ativismo contra o racismo, que se encontra na sua segunda edição. Militantes antirracistas das mais diversas origens, professores, artistas, escritores, intelectuais de diferentes campos se reuniram desde dezembro de 2017 para organizar essa verdadeira maratona tendo a luta contra racismo como eixo definidor. A programação é intensa, muito variada e são estimuladas as iniciativas locais que se incorporam à campanha. Confiram a página no Facebook!

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Boas Festas!

Queridos amig@s do Conversa de Historiadoras.  Desejando boas festas, fechamos o blog de 2017 e entramos em recesso.  A princípio, voltaremos – como boas brasileiras – depois do carnaval. Passamos o dia de ontem trocando mensagens que, aproveitando o espírito natalino, compartilhamos com os amigos do blog.

GIOVANA XAVIER: Juntas somos mais fortes! Mulheres incríveis, indispensáveis ao mundo, e para mim essenciais como referência e fonte de inspiração. Nesse 2017 foi muito bom estar com vocês em conversas de historiadoras sobre raça, gênero, feminismos, escravidão, pós-abolição e tantas outras pautas. Lindo presságio me dar conta de que, após um dia sem celular, enquanto me divido entre o forno, a cerva no grau e a lista mirim para Papai Noel, dedicamos tempo para contemplar e compartilhar em registros sensíveis o arco-íris que tomou conta da cidade caótica, porém também maravilhosa. Amo vocês! Feliz Pretas Festas! Obrigada a todo mundo pela caminhada de mãos dadas. Pode vir 2018!

 

KEILA GRINBERG: Aqui nesse blog nós adoramos falar. Por whatsapp, por email, de viva voz, nós conversamos e conversamos. Ao contrário do que talvez possa parecer a quem nos lê, concordamos um pouco e discordamos muito –  só que discordamos acaloradamente nos detalhes e concordamos apaixonadamente no essencial. O ano que começa nos exigirá força e alegria para proteger a liberdade das boas conversas, aquelas bem relaxadas, em que ninguém tem medo de dizer o que pensa, todos falam, todos escutam e ninguém ganha no berro. Que em 2018 continuemos, todos, concordando no essencial: que o diálogo vença o grito.

MÔNICA LIMA: Não seja tão leviano/Respeita minha Aruanda/Tem quase cinco mil anos/ De existência minha banda (Alabê de Jerusalém)

E lá se vai 2017. Dirão alguns – prenhes de razão, como o Jorge Maravilha do Chico Buarque – “já vai tarde”. A onda conservadora e racista que cresce, impudica e violenta; a perda acelerada de direitos tão duramente conquistados; o estreitamento dos espaços para a Arte e a Cultura; a política deliberada de desmantelamento das universidades estaduais no Rio de Janeiro – que ainda assim, resistem -; tudo isso e uma lista interminável de coisas ruins que chegaram e se anunciaram nesse ano. Querer que essa marca do tempo que passa seja superada é uma forma de dizer que se acredita que há uma mudança possível, para o bem, e que caminhar decidido em direção a ela, começando um novo ano, dá um gás na alma e no corpo cansados.// No verso do Alabê de Jerusalém que abre esse trecho do post, está contida uma ideia que me fortalece nesses tempos de desânimo, olhando o mundo e minha família ampliada: nossos ancestrais foram obrigados a fazer a travessia nos porões dos navios e sofreram muito, mas têm cinco mil anos de história de criação de belezas e conhecimento, resistência e afirmação. Estou com elas e eles nessa e em muitas horas. Temos uma longa história, que estudo por ofício, prazer e compromisso. E por isso, celebro e luto.// Nesse ano teve a Mwana – Infância e Relações Raciais no Brasil e na África, uma exposição linda no Espaço Jessie Jane Vieira de Souza da UFRJ, que gerou muitas atividades. Com os erês, as crianças, celebramos a vida e as lutas contra o racismo, e as infindas alegrias de brincar. Poucas coisas podem fortalecer mais a nossa vontade de seguir em frente do que a responsabilidade frente aos pequenos seres humanos que merecem um mundo muito, mas muito melhor do que esse que vivemos hoje. E nessa história, perceber que brincadeira é coisa séria, assim como contação de história, roda de capoeira, ou dançar e cantar ao som do dvd Nana e Nilo– personagens infantis negros de desenho animado brasileiro. Na roda, na gira. Tudo isso foi 2017 também.// Portanto, estamos prontas para 2018.

HEBE MATTOS/MARTHA ABREU/ANA FLÁVIA MAGALHÃES PINTO// 2017 passou rápido e pesado. A crise entre capitalismo e democracia se aprofundou no mundo todo, proliferaram fundamentalismos de todos os tipos e o impensável foi se transformando em rotina. Por outro lado, a imprevisibilidade da história nunca foi tão esperada. Continuamos a acreditar nos efeitos positivos da democratização e ampliação dos atores políticos, no Brasil e no mundo. 2018 pode surpreender!

Recebam nossos votos de boas festas e de muita saúde, paz, afetos e democracia no novo ano.

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Dançando na corda bamba…

Estive no encontro de artistas e intelectuais com Lula, em um hotel do Rio de Janeiro, no último sábado. Admiro muitíssimo o ex-Presidente Lula e tudo que simboliza, mas nunca pensei que defenderia sua candidatura a um terceiro mandato. É o que faço sem sombra de dúvidas e com entusiasmo neste momento. Lula com sua capacidade de diálogo democrático me parece hoje a mais forte esperança para que o estado de exceção colocado em marcha desde a sua condução coercitiva em março de 2016 possa ser revertido, restabelecendo o estado democrático de direito no país.

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Na mesa do evento, o ex-chanceler Celso Amorim, que espero ver candidato a governador do Rio de Janeiro, lembrou um velho dito popular que bem sintetiza o estado policial em que estamos vivendo desde 2016: sabemos que estamos numa ditadura quando tocam a campanhia de casa às 6 horas da manhã e temos medo de que não seja o leiteiro. O abuso das conduções coercitivas de pessoas sobre as quais não pesa acusação alguma, com endereço conhecido, que não foram previamente intimadas a depor, é prova de que o uso do aparato policial e jurídico para pura e simples intimidação política infelizmente virou rotina. O caso da verdadeira invasão policial da UFMG é só o mais recente exemplo disso. Mas é também um pouco mais.

Colocar em suspeita sem provas contundentes uma proposta da envergadura moral do Memorial da Anistia, sob direção acadêmica de uma das mais respeitadas historiadoras brasileiras, Heloisa Starling, é simplesmente inadmissível. Batizar uma operação policial de combate à suposta malversação de verbas públicas com um dos mais pungentes versos da música de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornou símbolo do movimento pela anistia, é um ataque direto à memória das lutas democráticas no Brasil.

Diante do medo, do susto e do desencanto só resta voltar aos versos de “O Bêbado e a Equilibrista”.  Mais de trinta anos depois, a esperança continua a dançar na corda bamba de sombrinha, sabendo que em cada passo dessa linha pode se machucar.

Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar!

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20 de Novembro: com Ciência Negra

A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e a enunciação. No âmbito do racismo a boca torna-se o órgão da opressão por excelência, ela representa o órgão que os (as) brancos (as) querem – e precisam – controlar e, con-sequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente repreendido.

(Grada Kilomba – Plantation Memories: Episodes Everyday Racism, 2010.)

Em pesquisa recente organizada pela Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, constata-se que apenas 3% dos professores da UFRJ declaram-se como pretos e pardos. Dados similares foram apontados pelo censo racial de docentes promovido pelo Coletivo Estudantil Nuvem Negra na PUC-Rio, dentro da campanha Quantos Professores Negros Você tem? Em seu trabalho, a socióloga Joselina da Silva identificou, com base em pesquisa quantitativa no SINAES e no INEP, que, em 2005, dos 63.234 professores universitários do Brasil, somente 251 eram mulheres negras. Frente a esses dados pouco discutidos pela comunidade científica e diante da necessidade de não retroceder, no mês da Consciência Negra, dedico meu texto a uma “escrita de Nós”. Isso para dimensionar a importância que a formação acadêmica deve ocupar na vida das pessoas negras como parte de um projeto coletivo de autonomia e liberdade que passa pela educação como um direito humano.

 

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Quando o assunto é a representatividade negra, a comunidade acadêmica, hegemonicamente branca, é marcada por um enorme abismo entre a teoria e a prática. No caso da História, por exemplo, por mais que as pesquisas historiográficas avancem nas conclusões e conceitos, como no advento das categorias de “agência”, “experiência”, “precariedade da liberdade” e do seu impacto para reinterpretar os processos de escravidão e pós-abolição à luz do protagonismo de pessoas escravizadas, em termos de equidade racial, os movimentos para democratização dos comitês científicos de eventos e agências de fomento às pesquisas, do mercado editorial assim como dos concursos públicos são inócuos. Segue-se o baile com uma maioria de acadêmicos brancos produzindo pesquisas sobre o negro, numa espécie de destino natural. Essa configuração branco realizador – negro executor impede que estudantes dos dois grupos raciais tenham acesso às diversas formas de narrativas e produção de conhecimento científico, reforçando a história única.

Ter contato com professores universitários negros é importante porque transgride o lugar de subalternidade reservado a pretas e pretos na história oficial do país, oferecendo uma linguagem de possibilidade mais democrática na qual a intelectualidade negra também seja reconhecida. Para transgredir essa fixação de sentidos precisamos prover universitários negros dos subsídios para assumir e fortalecer o lugar de acadêmicos. Isso se associa às perspectivas postas por Eduardo de Oliveira e Oliveira em “De uma ciência para e não tanto sobre o negro”, texto no qual o sociólogo defende a importância de que acadêmicos negros interpretem e produzam conhecimentos sobre nossas experiências com nossas próprias ferramentas teórico-metodológicas. É a partir desse mote que o intelectual, não por acaso silenciado nos currículos universitários, cunha o conceito de “ciência para o negro”. Tal conceito mobiliza parte das ações que conduzo na UFRJ assim como a categoria de “escrevivência”, de Conceição Evaristo. Embora este último seja originalmente um conceito da Literatura, tenho me dedicado à sua reconfiguração para dar vida a uma agenda acadêmica com metodologias de trabalho focadas na juventude negra e na crítica à ideia de objetividade como sinônimo de neutralidade científica.

Essa tomada de posição materializa-se em iniciativas que conduzo como a disciplina Intelectuais Negras, na qual durante todo o semestre lemos e discutimos autoras negras brasileiras, a coordenação do Programa de Educação Tutorial Conexões de Saberes Diversidade, que conta com a participação de 12 bolsistas de graduação negros e cotistas e funciona internamente como o Programa de Formação Ciência para o Negro e no Grupo Intelectuais Negras, um espaço que promove ações de ensino, pesquisa e extensão a partir dos conhecimentos orais e escritos de mulheres negras, sistematizados em iniciativas como o catalogo Intelectuais Negras Visíveis, publicação que reúne 181 profissionais de diferentes áreas de atuação e regiões brasileiras.

Logo PET - oficial

A tarefa de construir uma agenda acadêmica negra na universidade pública é complexa e se relaciona à afirmação de Conceição Evaristo de que “nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”. Se hoje as novas gerações conseguem chegar à academia, ainda que em condições de permanência absolutamente precárias e questionáveis, os desafios postos para colocar em prática o “nenhum passo a menos” são gigantescos. Mas nesse 20 de novembro encoraja perceber pelas palavras de uma estudante da UFRJ, que temos conseguido aprimorar a arte de falar pelos estilhaços da máscara:

Qual a importância da formação acadêmica em sua vida?

Como a primeira pessoa da minha família a entrar numa universidade pública, a formação acadêmica na minha vida representa a possibilidade de poder ser. Independente daquilo que faço ou estudo, para os meus pais, desde que eu esteja feliz, o meu entrar na UFRJ foi um marco de que podemos ser o que quisermos ser. Embora, todo o sistema social funcione para impedir pessoas negras e faveladas de alcançarem altos cargos e tenha conseguido atrapalhar o sonho da minha mãe, por exemplo, de terminar o ensino médio e ingressar numa faculdade, meus pais me apoiaram durante toda a minha vida e se transformaram no mais forte alicerce que eu podia ter para buscar ir além. Ir além do esperado para pessoas como eu, ir além das estatísticas e das expectativas. A formação acadêmica desempenha na minha vida o afago que a minha família ansiava. O suspiro por ter construído novos passos. A esperança de alcançar lugares inimagináveis pelos meus antepassados, não tão distantes. É um romper de silêncios e uma fabricação de chaves que abram portas de oportunidades para os que não se veem capazes de simplesmente ser o que quiserem ser.

 

GIN - capa FB

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Escravidão é estrutura (ainda sobre Vazante)

Todo bom filme que ousa abordar temas sensíveis causa polêmica. Vazante é um bom filme. Não fosse, ninguém perderia tempo com ele. É justamente por ser um bom filme sobre o patriarcalismo escravista brasileiro, nossa tragédia de origem, que ele incomoda. E provoca a também boa polêmica, aquela que é boa justamente por alimentar visões diferentes, contrastantes, divergentes. (Temos que defender as divergências com unhas e dentes; é terrível o tempo das certezas que nos espreita).

Assisti a Vazante como se o encosto da poltrona tivesse espinhos. A cada tentativa de me ajeitar, um incômodo, uma mudada de posição. É assim também que leio as críticas e reações a respeito. A cada incômodo, uma tentativa de me ajeitar, uma mudada de posição. Acontece que, cá entre nós, é impossível se ajeitar com um tema espinhoso como é o da escravidão, e esta talvez seja a melhor novidade da recepção de Vazante: nos dias de hoje, ninguém tem como virar as costas para o passado escravista e dizer que ele não nos diz respeito. Cresci num mundo de descendentes de imigrantes que, por terem aqui chegado no século XX, achavam que a escravidão era coisa do passado dos outros, não tinha nada a ver com a gente. Mas como bem disse a escritora Ana Maria Gonçalves em recente debate sobre o filme, não podemos ignorar como a história da escravidão afeta hoje a vida dos negros no Brasil (estou citando de cabeça; quem quiser checar a fala e acompanhar o debate, que também contou com o cineasta Joel Zito de Araújo e com a própria diretora Daniela Thomas, clique aqui).  E todos nós que vivemos nesta sociedade racista lidamos, embora muito desigualmente, com as marcas da escravidão.

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Daí que, em Vazante, a escravidão não é moldura, é estrutura (para quem não leu, estou aqui dialogando com Flavia Oliveira, “Escravidão é moldura”, O Globo, 07 de novembro de 2017). A escravidão e o racismo são tão centrais para a narrativa do filme como o são para a compreensão da história brasileira.  É a existência da escravidão que fundamenta as relações violentas, opressoras e traumáticas tratadas no filme. E que nos confronta com situações difíceis de digerir, como aquela que também a mim marcou, na qual um dos personagens, africano, líder dos demais, fala, angustiado, em uma língua que quase ninguém entende, nem mesmo o negro – possivelmente liberto, ali desempenhando a função de capataz – que, a mando do senhor, apontava uma arma para o rebelde. É com ele que o homem branco desabafa: “eu não sei o que esse negro está dizendo”. Seu interlocutor também não sabia. É a escravidão que torna compreensível esta cena terrível. Da mesma forma, é só à luz do nazismo que conseguimos encarar a situação dos kapos judeus, forçados a colaborar para sobreviver durante o Holocausto. Quando uma vítima aponta uma arma para outra, nenhuma das duas sobrevive.

É também a escravidão a chave de leitura da perversidade de uma sociedade que naturaliza o estupro das mulheres escravizadas por seus senhores, que convive com a relação entre uma moça ainda meio criança com o homem que antes havia casado com sua tia e que não tolera o amor entre um menino negro escravizado e uma menina branca, criada para ser sua futura sinhá.

Em Vazante, Daniela Thomas constrói uma narrativa sobre o passado fincada no presente. Têm razão os que dizem que a recepção do filme seria outra há dez, quinze anos atrás, e é maravilhoso que seja assim. Há tempos atrás o filme seria outro também. Precisamos tanto de filmes corajosos quanto de plateias barulhentas, indignadas, apaixonadas. Plateias de todas as cores, participadoras e provocadoras, não espectadoras. Que o bom barulho provocado por este filme ecoe no futuro: precisamos de filmes, discos e livros que, como bem escreveu neste blog Hebe Mattos, encarem de frente o “trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu”. 

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“A Redenção de Cam”, de Modesto Brocos, 1894. Acervo Museu Nacional de Belas Artes

É em nome dessa provocação que saí do cinema pensando que, se a narrativa de Vazante nos instiga a lidar imperiosamente com este passado, é na cena final que o filme, ao se distanciar da História, propõe outros olhares sobre sua superação. Ao subverter a clássica imagem da ama de leite negra amamentando a criança branca, Daniela Thomas inverte a cena principal do famoso quadro A Redenção de Cam (1894), no qual o pintor Modesto Brocos sugere que o embranquecimento, fruto da mestiçagem, seria a redenção da nação. Sem omitir a tragédia que a originou, não seria a imagem de uma mulher branca amamentando uma criança negra uma alegoria do empretecimento como possibilidade de redenção?

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