O que é uma Anticandidatura? Em apoio à indicação de Beatriz Vargas ao Supremo Tribunal Federal

A vacância de uma cadeira no Supremo Tribunal Federal com a morte do Ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato, colocou no centro do debate público a seguinte pergunta: o que se deseja de alguém que venha a ocupar um assento na Máxima Corte?

Considerando o papel do STF na defesa da Constituição da República Federativa do Brasil, gostaríamos que a pessoa indicada, além de atender aos requisitos obrigatórios de nacionalidade brasileira, cidadania plena, reputação ilibada e notável saber jurídico, seja uma praticante da empatia no seu sentido macropolítico. Mas o que isso quer dizer exatamente?

Que defendemos que a vaga do STF seja preenchida por uma juíza que possua conhecimentos críticos em pautas cruciais à manutenção de um regime democrático no Brasil: equidade de gênero, raça, sexualidade, reforma agrária, segurança pública, sistema penitenciário. Por isso, expressamos nosso apoio a Beatriz Vargas, indicada por diversas organizações dos movimentos sociais (Mulheres, Indígenas, Negros, LGBT) e ativistas independentes como a advogada adequada ao preenchimento da vaga.

Quando falamos em Anticandidatura, não estamos indicando um nome a Temer, mas fortalecendo o debate público sobre a importância de um Poder Judiciário com representantes escolhidos de forma democrática e condizente com as principais questões a serem enfrentadas no Brasil.

Neste contexto, o termo Anticandidatura refere-se à urgência de apresentar formalmente ao Presidente Michel Temer uma contraproposta de nossa autoria à indicação de Alexandre Moraes, uma vez que o mesmo distancia-se dos requisitos que consideramos necessários para compor o grupo dos onze ministros do STF.

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Dona de longa trajetória no Direito, a Anticandidata Beatriz Vargas é docente da UnB, referência nos debates sobre descarcerização do sistema penitenciário e possui destacada atuação na defesa dos direitos humanos, em especial no que tange ao Movimento Sem-Teto, às crianças e adolescentes e à diversidade racial e de gênero.

Reforçando nosso potencial de sujeitas políticas na luta pela democracia, convidamos todas (os) a assinarem conosco o Manifesto da Anticandidatura Feminista de Beatriz Vargas ao STF

Amanhã, 15/02 às 10h, o documento será entregue ao Senado no Plenário 6 da Ala Nilo Coelho. O ato contará com a participação de feministas de todo o Brasil.

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Escravidão e Subjetividades

O livro didático História, Sociedade e Cidadania, voltado para o ensino médio, de Alfredo Boulos Junior, citou uma frase minha sobre a abolição em uma de suas questões, contrapondo a uma afirmação de Emília Viotti da Costa, uma das referências em minha formação como historiadora. Reproduzo aqui:

DEBATES DA HISTORIA: A abolição tem sido alvo de constantes debates entre os historiadores. Para alguns, como Emília Viotti da Costa, professora da Universidade de São Paulo (USP), “a abolição libertou os escravos do pesado fardo da escravidão e abandonou os negros à sua própria sorte”. Para outros, como a historiadora Hebe Maria Mattos, professora da Universidade Federal Fluminense, “a abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros […]”. Qual delas, em sua opinião, tem um argumento mais convincente? Justifique.

Li a questão e fiquei pensando, serão as duas afirmações realmente opostas? A história da experiência do racismo, entendido como memória/estigma da escravidão, aproxima, me parece, as duas assertivas. Por que (e como) o acontecimento ímpar da abolição (que reconheceu a igualdade civil entre todos os brasileiros, libertando os escravizados do fardo pesado da escravidão) não implicou na superação do racismo no Brasil, abandonando os “negros”, categoria socialmente construída, à sua própria sorte? Esta é a questão que as duas afirmativas tomadas em conjunto provocam.

Pensar a experiência da escravidão, do racismo e da violência colonial como trauma, individual e coletivo, é um campo de reflexão que tem se expandido nos últimos anos.

Em um contexto que entrelaça estruturas políticas do antigo regime e expansão comercial europeia na África e nas Américas, as relações entre capitalismo e escravidão, caras à Emília Viotti da Costa, também têm sido intensamente revisitadas.

Nesse cenário, uma história da constituição do mundo atlântico que englobe as estruturas políticas preexistentes à expansão europeia e a experiência do estigma da colonização e da escravização das populações indígenas e africanas apenas começa a ser escrita.

Este foi um dos pontos de coesão dos textos da coletânea Escravidão e Subjetividades no Atlântico Luso-Brasileiro e Francês, que organizei com Myriam Cottias, historiadora francesa da escravidão e da memória da escravidão, com textos de autorxs brasileirxs e francesxs, entre eles Martha e Keila aqui do Blog. O livro foi lançado em e-book neste ano de 2016, como resultado do edital Saint-Hilaire, cooperação acadêmica entre Brasil e França na área das humanidades.  

Convido os leitores do blog a acessarem a obra, disponível online, em português e francês. Com o livro, procuramos ressaltar a importância de insistir na história social como processo, e nos “jogos de escala” como estratégia, para enfrentar os dilemas que mais de 3 séculos de escravização africana nas Américas apresentam para a contemporaneidade. 

Os capítulos abordam experiências de sujeitos históricos individuais, entendidos como agentes sociais. De fato, na maioria dos casos, os autores os consideram também, ainda que nem sempre explicitamente, como sujeitos sensíveis, tomados como subjetividades específicas, ainda que em sociedades não individualistas, como era o caso da maioria das sociedades escravistas, sobretudo antes do século 19. Este segundo ponto de costura dos textos emergiu da leitura final do conjunto pelas organizadoras e acabou sendo escolhido como título do trabalho. 

Escravidão e Subjetividades revisita as sociedades escravistas do Atlântico luso brasileiro e francês desde o ponto de vista dos sujeitos racializados que elas acabaram por produzir.

Aborda as subjetividades racializadas dos “livres de cor”construídas pelas práticas do catolicismo na América portuguesa do século 18 através  da trajetória do Santo Pardo Gonçalo Garcia no Recife  [Larissa Vianna] e a institucionalização do racismo em Portugal, com a manutenção da mancha de sangue para os escravos libertados pela abolição da escravidão no reino, no mesmo período [Antônio Mendes].

Discute  a interseção entre classificacões jurídicas e subjetividades no colonialismo católico português e francês,  inclusive nas escolhas matrimoniais de índios e africanos livres ou escravizados [Charlotte Castelnau-LÉstoile] ou nas relações políticas, mas pessoalizadas, entre monarcas africanos e europeus, apagadas da memória enquanto seus registros se transformavam em objeto de museus coloniais [Mariza Soares].

Conecta aspirações de cidadania e histórias de vida ao analisar as expectativas frustradas de integração dos “livres de cor” no Haiti pre-revolucionário [Dominique Rogers], as desventuras de Rufina, sequestrada e vendida como escrava para o Brasil duas vezes na vida – uma na África outra no Uruguai [Keila Grinberg], as subjetividades cativas reveladas nos diários do administrador de uma plantation na Martinica [Myriam Cottias], as experiências diferenciadas de africanos livres ou resgatados da escravidão como trabalhadores por contrato, no Caribe francês, após a abolição da escravidão [Céline Flory].

Por fim, aborda as relações entre racialização e subjetividades na trajetória de artistas negros que encenaram estereótipos racistas no Brasil, na França ou nos Estados Unidos [Martha Abreu], bem como na solidão de intelectuais afro-brasileiros  [Hebe Mattos] e afro-franceses [Elsa Geneste] frente ao colonialismo europeu na África de finais do século 19.

Por conta do Escravidão e Subjetividades,  fui convidada a participar, no final de outubro, de um seminário multidisciplinar sobre o impacto psicológico da escravidão para as populações da diáspora africana, que reuniu psicólogos, psiquiatras, historiadores e cientistas sociais, na Martinica.

Faço parte da geração que,  nos anos 1980,  fez mais profundamente a crítica da influência das chamadas teorias da patologia social na famosa “escola sociológica paulista”, por transformarem a experiência da escravidão em um  quase completo aniquilamento cultural e moral para escravizados e libertos. Durante o seminário, tive oportunidade de refletir sobre  a pertinência do problema de base daqueles trabalhos, entre eles os textos seminais de Florestan Fernandes e Emília Viotti da Costa: as desvantagens sociais e psicológicas inerentes à experiência da escravidão e do racismo e sua reprodução no pós-abolição.  E sobre a importância de revisitá-lo de perspectivas que integrem as subjetividades negras, com sua agência social e riqueza cultural,  no centro das discussões.   

Na semana seguinte, participei de um segundo seminário, Slavery and Global Public History. Comecei a escrever este texto no avião, retornando da Universidade de Brown. Neste caso, foi a experiência do projeto Passados Presentes que me trouxe até ali. Pensar a representação da escravidão no espaço público é também pensar as subjetividades negras e a construção (e desconstrução) do racismo na contemporaneidade.  Foram ricas e sugestivas as discussões sobre descolonização de narrativas, propondo desconstruir e desnaturalizar imagens coloniais e escravistas nos espaços de museus e livros didáticos, sem apagar sua memória social ou existência como imagem de arte. 

Ao chegar ao Rio, o turbilhão do golpe me impediu de publicar o texto imediatamente. Em meio a ele, uma reportagem no The Intercept, sobre turismo histórico em uma antiga plantation do Rio de Janeiro, em que os turistas reencenam a escravidão como sujeitos senhoriais, me deixou simplesmente chocada com a naturalização do racismo ainda prevalecente no país. É como se reencenássemos Auschwitz, vivendo sem críticas o papel do nazista, em uma visita à Alemanha!  

Para qualquer brasileiro antiracista, a reportagem de Cecília Oliveira no The Intercept foi (mais) um grito de alerta e um soco no estômago. Como e onde exibir uma imagem de punição física de cativos do Debret levando em conta seus efeitos sobre as subjetividades das crianças negras e brancas?  Como contextualizar para estudantes negros e  brancos a leitura de um texto racista de Monteiro Lobato? Ainda que postas já há algum tempo do ponto de vista político, esses são desafios e discussões que  nós,  historiadorxs profissionais, não podemos mais adiar.

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O ProfHistoria e o bom combate

Afirmo sem medo de errar que o ProfHistoria é a maior novidade da pós-graduação em História no Brasil. Como a Monica Lima já escreveu por aqui, o mestrado profissional em Ensino de História, nome completo do ProfHistoria, ocorre hoje em 27 universidades de todo o Brasil, congregando professores da Educação Básica e do ensino superior em torno de um objetivo comum: contribuir para a melhoria do ensino de História no Brasil. Queremos contribuir com reflexões, mas também com ações práticas, de preferência umas atreladas às outras.

Um bom exemplo do impacto que programa já provoca ficou evidente no Seminário de Ensino de História da Africa, da Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas Escolas, ocorrido sábado passado na UNIRIO. A partir dos trabalhos finais de mestrandos do Programa, realizamos um dia inteiro de discussão em torno de quatro temas: religiosidade afro-brasileira; arte, histórias e biografias; patrimônio e ensino de História indígena; e currículo e relações étnico-raciais.

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Quem esteve lá ouviu professores entusiasmados com as suas práticas e ansiosos por compartilhar suas pesquisas.  Ninguém há de discordar que o momento é de resistência e luta pela defesa das conquistas obtidas nos últimos anos no campo da Educação. Mas o que vimos no sábado foi um grupo de professores animados em transformar os grandes desafios da sala de aula em experiências positivas. Mais do que nunca, é disto que precisamos. Como sempre, o tempo foi curto para o tanto que havia a conversar. Faremos outros. Enquanto isso, divulgaremos em breve aqui os trabalhos apresentados. Afinal, os mestres do ProfHistoria têm pressa, que há muito o que fazer e nenhum tempo a perder.

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O seminário foi uma iniciativa conjunta do ProfHistória/Rede Rio e do projeto de pesquisa “Passados Presentes: memórias da escravidão e políticas de reparação nas políticas públicas na área de educação no Brasil”, realizado pelo LABHOI/UFF, NUMEM/UNIRIO e pela Universidade de Columbia (NY, EUA), no âmbito do edital FAPERJ/Columbia. Abaixo, a programação completa.

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PROGRAMAÇÃO:

09:00 às 10:30
Mesa 1: Religiosidade Afro-Brasileira e o Ensino de História
Debatedora: Ivana Stolze Lima (FCRB e PUC-Rio)

Isabelle de Lacerda Nascentes Coelho – mestranda no ProfHistória (UFRRJ) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
O Axé na Sala de Aula: abordando as religiões afro-brasileiras no Ensino de História.

Carolina Barcellos Ferreira – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora das redes municipais de Nova Iguaçu e Rio de Janeiro
“Isso é coisa da macumba?” Elaboração de um material pedagógico de História sobre as religiosidades afro-brasileiras em museus do Rio de Janeiro.

Jessika Rezende Souza – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
Entre a cruz e o terreiro: uma análise em torno da integração entre a religiosidade afro-brasileira e o Ensino de História no Museu do Negro.

10:30 às 12:30
Mesa 2: Arte, Histórias e Biografias no Ensino de História da Africa e da Cultura Afro-Brasileira
Debatedora: Giovana Xavier (UFRJ)

Rafael Bastos Alves Privatti – mestre pelo ProfHistória (PUC-Rio) / professor da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Desenhos animados e ensino de História: uma aposta para o letramento nas séries iniciais da escolarização.

Lucas Moreira Calvo – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professor da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Histórias conectadas no ensino de História: tecendo conexões entre o Norte da África e a Península Ibérica no período da expansão islâmica (séculos VII-IX).

Joana D’arc Araújo da Silva – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
Enegrecendo as Belas Artes: ensinando história por meio das trajetórias de dois pintores negros do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX.

Carolina Viana Machado – mestre pelo ProfHistoria (UFRJ)
O pós-abolição nas aulas de História: uma análise do papel social atribuído aos negros na História ensinada.

14:00 às 15:30
Mesa 3: Patrimônio e Ensino de História Indígena
Debatedora: Regina Celestino (UFF)

Marcia de Souza da Silva Maia – mestranda no ProfHistória (Puc-Rio) / professora da rede particular de São João de Meriti
Parque Indígena do Xingu: um jogo para a lei 11.645/2008.

Carla Cristina Bernardino Ramos – mestre pelo ProfHistória (UFRJ) / professora da rede municipal de Araruama e da rede estadual do Rio de Janeiro
Presença Indígena em Araruama: Patrimônio e Ensino de História.

Thais Elisa Silva da Silveira – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora da rede municipal de Duque de Caxias
Identidades Invisíveis: indígenas em contexto urbano e ensino de história na região metropolitana do Rio de Janeiro.

15:30 às 17:30
Mesa 4: Currículo e relações étnico-raciais no ensino de História
Debatedora: Cecília Silva Guimarães (UNIRIO)

Ana Carolina Mota da Costa Batista – mestre pelo ProfHistória (UFF) / professora da rede municipal de Araruama e da rede estadual do Rio de Janeiro
Relações étnico-raciais na voz do professor: currículo em debate no contexto quilombola.

Cristiane Lemos – mestre pelo ProfHistória (UNIRIO) / professora da rede estadual do Rio de Janeiro
Tecendo caminhos para aplicação da lei 10639/2003: um relato de experiência em turmas de 3º ano do Ensino Médio da rede pública.

Camila Abreu – mestre pelo ProfHistória (UNIRIO) / pós-graduada em Arte e Cultura (IUPERJ)
Quilombo de Maria Conga em Magé: memória, identidade e ensino de História.

Fernanda Nascimento Crespo – mestre pelo ProfHistória (UERJ) / professora da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro
O Brasil de Laudelina: usos do biográfico no ensino de história.

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Ocupar e Resistir: Conquista de Pinheiral em dia de Zumbi, por Hebe Mattos, Martha Abreu, Keila Grinberg e Elaine Monteiro

Dia 20 de novembro de 2016. Apesar dos retrocessos e ameaças aos direitos inscritos na Constituição de 1988 que marcaram o ano, foi um dia histórico para a comunidade jongueira de Pinheiral, que recebeu oficialmente, da prefeitura, a posse coletiva de parte das terras que cercam às ruínas do casarão central da antiga fazenda de São José do Pinheiro, antiga residência de uma dos maiores fazendeiros e traficantes de africanos escravizados do Brasil do século 19, José Joaquim de Souza Breves.

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Depois de muitos anos de luta, pelo menos desde os anos de 1980, a emoção contagiou a todos que lá estiveram para assistir  às comemorações bem em frente ao velho casarão em ruínas, de onde se avista o antigo terreiro de café, as casas que já foram as senzalas e o memorial do Projeto Passados Presentes, erguido nesse espaço outrora identificado com o poder senhorial, hoje o Parque das Ruínas da Fazenda São José do Pinheiro.

O prefeito de Pinheiral, Professor José Arimathea, conclui seu mandato fazendo justiça aos descendentes da trabalhadores africanos das antigas fazendas cafeeiras da região que, ao migrarem para a cidade ao longo do século 20,  a transformaram na “capital do jongo” do estado do Rio de Janeiro.

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O grupo de jongo de Pinheiral,  através do CREASF, centro de referência de estudo afro sul fluminense, e de suas lideranças, as irmãs Maria de Fátima (Fatinha), Maria da Graça e Maria Amélia dos Santos, viu um dos seus mais antigos sonhos, o de transformar as ruínas da antiga sede da fazenda e seu entorno em local de memória e celebração da cultura negra, se fazer realidade, em julho de 2015.  Uma ação concebida no âmbito na década internacional do afrodescendente (Década AFRO) instituída pela ONU (2015-2024) e do Projeto Rota do Escravo, da UNESCO.  Um passado para não ser mais esquecido, que faz de Pinheiral, a “cidade do jongo”.

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A comunidade jongueira da cidade torna-se agora, e para sempre, a principal guardiã desse lugar de celebração da herança africana e da identidade negra e jongueira.

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Em tempos de resiliência, esse dia 20 de novembro foi mesmo especial para a cultura e a consciência negra no velho vale cafeeiro. Vai ficar na história da região. Vai ficar na nossa história, coordenadoras do projeto Passados Presentes, desenvolvido em parceria com a comunidade jongueira.  Foi um dia de muito AXÉ!

Para registrar ainda com mais força a emoção do dia de hoje, transcrevemos a fala de Fatinha, em uma entrevista que nos concedeu em 2009, em momento que ainda não era possível imaginar tamanha conquista. Apesar dos tempos sombrios, o patrimônio negro de Pinheiral está nas mãos dos seus herdeiros legítimos, eles saberão garantir o futuro.

“…Porque a gente sempre pensou em fazer um centro cultural no casarão, isso é uma ideia muito antiga, a gente dançava em vários cantos da cidade, nos terreiros das casas, na rua e ficava aquela coisa com o casarão… foram os escravos que construíram aquilo tudo e nada daquilo nos pertence…foram nossos antepassados, os negros que vieram da África que construíram aquilo lá”

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Bert Barickman (1958-2016), um contraponto praiano, por Álvaro Nascimento.*

*with an English translation at the end by Tyler Ralston.

Quem o ouvia pela primeira vez imaginava-o imigrante português por sua dicção próxima aos lusitanos. Por sinal, sua relação com a língua era excelente, fazia mesmo inveja aos nativos. Como escrevia e falava bem aquele americano de estatura mediana, olhos bem claros e pele comumente bronzeada. Hospedava-se em Copacabana sempre e circulava pelos cantos da cidade com extrema facilidade (encontrei-o em arquivos e bibliotecas em meio a pesquisas ou no suburbano bairro de Bento Ribeiro onde foi saudar o primeiro ano de meu filho Peri).

Mas foi no Picote, um já falecido boteco pé-sujo do Flamengo, onde tivemos inesquecíveis conversas sobre a vida, a experiência de ensino na academia, o desenvolvimento de pesquisa e o amor pela cidade do Rio de Janeiro. Toda vez que vinha para estas bandas enviava simpático e-mail já agendando uma data para o chope. Bebíamos vários, degustávamos pescadinhas fritas e empadas, enquanto ele fumava incontáveis cigarros.

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Foi num desses encontros que ele me contou da competição que fazia entre seus alunos e alunas de pós graduação, no bar No Anchovies, perto da Universidade de Arizona, Tucson, onde lecionava. Ele me contava sobre essa disputa com entusiasmo. Tyler Ralston, um dos seus orientandos, participou certa vez e relatou haver dois times, o River (Rio Ypiranga) e o Hill (a colina sagrada do Senhor do Bonfim). A disputa resumia-se a quem melhor cantava o Hino Nacional Brasileiro no caso do primeiro time, e o Hino do Senhor do Bonfim, no segundo. Ainda havia outras criações a cada ano (sim, o evento era parte do cronograma anual de curso) como vestirem-se de Caetano Veloso e Gilberto Gil para cantarem o hino na versão de Tropicália. Tudo isso acontecia depois de umas bebidas, só pra quebrar a timidez, e era julgado pela turma de estudantes do ano anterior. Bar cheio e muita alegria. Seus orientandos haviam de experimentar o Brasil mesmo distantes daqui. Bert era muito sério e alegre.

Conto tudo isto antes, pois Bert curtia a vida tanto quanto amava a pesquisa. Mas o cara era incrível e reconhecidíssimo por seu trabalho. Sob orientação de Joseph Love, na Universidade de Illinois, redigiu elogiadíssima tese sobre o Recôncavo Baiano, rompendo com o que Maria Yeda Linhares considerou como sendo o “atestado de óbito do chamado dualismo estrutural da sociedade colonial, que se construía no Brasil e segundo a qual a colônia teria se constituído para produzir açúcar nada mais do que açúcar, a monocultura que sustentaria a mão-de-obra africana importada.” Bert chegou a este reconhecimento não somente em termos teóricos, mas também por sua capacidade de articulação metodológica na investigação de fontes paroquiais, censos, inventários e diversas fontes manuscritas. Como afirmou Marcus Carvalho, o livro Um Contraponto Baiano, Açúcar, Fumo, Mandioca e Escravidão no Recôncavo, 1780-1860 (Civilização Brasileira, 2003) é um “verdadeiro manual prático de metodologia.”

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Acompanhei mais de perto a sua pesquisa, que agora encontra-se interrompida (li 4 capítulos, mas ainda restavam outros 4, segundo o próprio autor). Trata-se de uma História Social das praias do Rio de Janeiro, onde o amigo brasilianista analisou os diversos sentidos dos banhos de mar e experiências dos banhistas nos séculos XIX e XX. É um trabalho belíssimo e deveras meticuloso. Bert queria entender o porque de as pessoas irem à praia, como elas iam vestidas, que transportes utilizavam, a temperatura das águas, os esportes praticados, as praias frequentadas, as classes sociais e cores dos banhistas, como era ser mulher e homem na areia, o que e como comiam, quem vendia e o que vendiam. Daí surgiam debates fundamentais sobre, por exemplo, como lidar com o bronzeamento, para amorenar-se, numa sociedade racista como a nossa? Enfim, o que era ser “moreno”? Questões como estas se multiplicam nos quatro capítulos que até hoje guardo, agora, como relíquias.

Li, sugeri mudanças e todas aquelas ações que amigos/as fazem quando são convidados a avaliar partes ou o resultado final do trabalho. Mas ele gostava de ouvir também sobre minha adolescência de suburbano na praia dos anos 1980, década em que as linhas de ônibus criadas pelo então governador Leonel Brizola tornaram mais fácil o acesso de suburbanos às praias de Ipanema e Leblon.

Entre chopes, pescadinhas, empadas (ele adorava as empadas do Picote) e cigarros, eu começava a lembrar de como era ir à praia. Para não serem zoados como suburbanos e invasores da praia, por metidinhos moradores do balneário, muitos rapazes chegavam a Cascadura só de sunga de praia e, às vezes, descalços para fingirem-se moradores da Barra da Tijuca ou do Recreio dos Bandeirantes (isto era comum também entre aqueles que iam a Ipanema e Copacabana). Pegávamos ônibus extremamente lotados, sem ar condicionado; algo até hoje comum entre as empresas prestadoras de péssimos serviços à população.

Lembrava de como temia as ondas, da fome que dava (comíamos um sanduba de pão com mortadela e bebíamos Coca-Cola na saída da praia); que não íamos para Ipanema (o povo de lá nos incomodava), mas para a Barra (que não possuía tantos moradores e os emergentes de agora). Nos divertíamos muito. Ah, e também da moda da praia da galera. Não valia shorts “Sulze” como se vendia no camelô ou na feira, mas “Silze” das lojas principais de Madureira. Bronzeamento havia de ser com óleo de avião ou Rayito del Sol (vindo do Paraguay). As moças já passavam água oxigenada para aloirar os pelos das coxas e braços que não eram “raspados” e davam maior frisson nos garotos. As bermudas das “gatas” tinham o vão das pernas desfiadas a mão. Muito daquela moda depois foi incorporada pelas empresas. Ele anotava todas estas informações, comparava com relatos da imprensa que lia e dos programas televisivos que conseguia levantar.

Meu querido amigo Bert Barickman, como curtia conversar contigo. Cara, descansa aí que sua obra está pronta (afora as que você me enviaria, já tenho quase 250 páginas tuas prontas, meu camarada!). Se esse papo de outra vida for sério, te encontrarei novamente no Picote para rirmos muito do passado.

Um abraço já saudoso de ti.

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When you heard him speak for the first time, you might have thought that he was a Portuguese immigrant because of his continental diction.  His superb command of the language, in fact, made native speakers envious.  How eloquently he spoke and wrote, that suntanned medium-built American with bright blue eyes.  He always stayed in Copacabana, navigating through the various quarters of the city with the greatest of ease (I often found him in archives and libraries deep into his research, or in the distant suburban neighborhood of Bento Ribeiro, where he went to celebrate my son Peri’s first birthday).

But it was in Picote, a now defunct hole-in-the-wall bar in Flamengo, where we had unforgettable discussions about life, our teaching experiences in academia, the progress of our research, and our love for the city of Rio de Janeiro.  Every time he came to these shores, he would send a friendly email, with the date of our chopp already scheduled.  We drank our drafts and sampled their fried seafood appetizers and savory pies, while he smoked countless cigarettes.

It was during one of these encounters that he told me, with unbridled enthusiasm, about the singing competition that he had for his graduate students at the University of Arizona.  Tyler Ralston, one of his students, related that Bert organized the class into two teams: River (the Ypiranga River), and Hill (the Sacred Hill of the Senhor do Bonfim).  On the day of the competition, the rivals met at No Anchovies, a bar in Tucson, where each team sang its respective song: the Brazilian national anthem for the River, while the Hill sang the anthem for the Senhor do Bonfim.  Every year, Bert encouraged the students to take the event to new levels of creativity (yes, it was part of the course syllabus).  One year, the participants, dressed like Caetano Veloso and Gilberto Gil, sang the national anthem Tropicalia style; another year, Hill organized an elaborate procession that arrived marching into the bar.  The two teams often had a few drinks prior to their respective performances, if only to shake off the jitters.  Participants from previous years, now having attained the status of judges, convened to vote on their decision and then announced the winner to the bar, which was always packed and brimming with energy on the day of the competition.  Bert’s students experienced Brazil half a world away.  Bert was at once very serious and joyful.

Beyond all of this, Bert enjoyed life as much as he loved his research.  The guy was incredible and highly recognized for his work.  Under the direction of Joseph Love at the University of Illinois, Bert wrote his highly-praised dissertation on the Bahian Recôncavo, breaking with what Maria Yeda Linhares considered to be the “death certificate of the so-called structural dualism of colonial society, which was being built in Brazil and according to which, the colony would have existed to produce sugar and nothing but sugar; the monoculture that would support the imported African labor.”  Bert arrived at his conclusions not only in theoretical terms, but also for his innovative research of parroquial records, census data, plantation inventories, and various written sources.  As Marcus Carvalho affirms, the book A Bahian Counterpoint: Sugar, Tobacco, Cassava, and Slavery in the Recôncavo, 1780-1860 (Stanford University Press, 1998), is “truly a practical manual for methodology.”

I closely followed his research, which is now interrupted (I read four chapters, but four chapters remain, according to the author).  It deals with the social history of the beaches of Rio de Janeiro, where our Brazilianist friend analyzed the diverse meanings of beach-going and the experiences of sea bathers during the nineteenth and twentieth centuries.  It is a beautiful and truly meticulous work.  Bert wanted to understand why people went to the beach, what they wore, what means of transportation they used, the temperature of the water, the sports they played, the beaches that they frequented, the social classes and the races of the beachgoers, what it meant to be a man or a woman on the sands, what they ate, and what they sold.  From these entry points emerged crucial debates regarding, for example, how to deal with tanning (how to darken oneself in a racist society such as ours?) and finally what it means to be dark-skinned.  Questions such as these multiplied in the four chapters that I have today, which I now guard as relics.

I read, offered suggestions, and undertook whatever actions friends take when they are invited to evaluate parts or final drafts of a work. Nevertheless, he liked to hear about my adolescence as a suburbano at the beach during the 1980s, the decade when Leonel Brizola created the bus routes that made it easier for us suburbanites to get to beaches such as Ipanema and Leblon.

Over cold beer, appetizers, savory pies (he loved empadas from Picote) and cigarettes, I began to remember what it was like to go to the beach.  I recalled that in order that we not be pegged as suburbanites and beach invaders by snobby residents of those upscale neighborhoods, many of us arrived from Cascadura wearing just our Speedos, and sometimes even barefoot, in order to disguise ourselves as locals from Barra da Tijuca or Recreio dos Bandeirantes (this was also common for those that went to Ipanema and Copacabana).  We hopped on busses packed to the gills with no air conditioner; something still common today among the businesses that offer crappy service to the public.

I remembered how I feared the waves, how we managed hunger (we ate bologna sandwiches and drank Coca-Cola when we finally left the beach).  I recalled that we didn’t go to Ipanema (the people from there irritated us), but rather to Barra (it didn’t have so many residents like it does today).  We had a great time.  Ah…the beach fashion of our crew.  We didn’t wear the “Sulze” shorts that they sold on sidewalks and street fairs, but “Silze” from the main stores of Madueira.  Tanning had to be done with “Avião” oil or “Rayito del Sol” (imported from Paraguay).  The girls put hydrogen peroxide on their thighs and arms to dye their body hair blonde so that it wasn’t “rough” and wouldn’t scare off the guys.  The “babes” also made fringes on their jean shorts by hand: a style that  many businesses later incorporated into their merchandise. Bert took careful notes of all of this information, comparing it to news articles and television programs from the ear that he managed to track down.

My dear friend Bert Barickman, how I enjoyed talking with you.  Rest assured, man, that your work is ready (outside what you sent me, I already have almost 250 of your pages ready to go, comrade!)  If that talk about the other life was serious, I will meet you again at Picote, and we’ll have a good laugh about the past.

Um abraço já saudoso de ti.

screen-shot-2016-11-13-at-17-41-20O conversa de historiadoras homenageia Bert Barickman com este belo texto do nosso colega Álvaro Nascimento. Bert foi colega de mestrado de Hebe e Martha na UFF nos anos 1980. Foi um grande amigo de Ana Lugão Rios. Nos últimos anos, o prêmio para o ganhador da competição entre os River e os Hill era um DVD Memórias do Cativeiro. Amigo, aí do outro lado, Ana Lugão vai adorar conversar com você sobre sua pesquisa sobre a praia, que o Álvaro já leu e que nós todas queremos ler. Saudades. 

River X Hill (fotos)

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Justiça e violência na Bruzundanga, por Sidney Chalhoub

Ó vida, ó céus, ó azar… A Bruzundanga não dá sossego às historiadoras do futuro. Passaram a semana perplexas com um artigo assinado por dois procuradores da Lava-Jato, um deles ás no powerpoint, no qual se diz que “o debate” sobre as investigações de corrupção “transcendeu o meio jurídico e, para nossa sorte [deles, procuradores], ganhou o gosto popular” (grifo meu). Cáspite, como assim? O que tem a ver investigação judicial com “gosto popular”?

Confusas, mas sempre intrigadas com aquela sociedade desaparecida havia milênios, as historiadoras foram aos alfarrábios de praxe, quer dizer, às obras completas de Machado de Assis, o grande clássico de sociologia bruzundanguense. Quincas Borba, capítulo XLVII. Rubião vinha ladeira abaixo, a pensar na bela Sofia, quiçá a vislumbrar em si mesmo os primeiros sinais de insanidade. Ao se acomodar no tílburi, lembrou de um episódio que presenciara na juventude, que decerto lhe marcara fundo o espírito. Agora, num momento de transe mental, caído por Sofia, preocupado com a reação dela aos seus avanços, a cena de outrora reapareceu inteira à sua frente. Uma das historiadoras exclamou de repente: “A cena do enforcamento! É isso! Toni Morrisson, Playing in the Dark. Lembram?” Ninguém entendeu nada.

As historiadoras leram juntas e meditaram sobre a passagem seguinte, de Quincas Borba. Rubião vinha andando sempre, até que “Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um préstito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principais figuras eram dous pretos. Um deles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a cor fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade pública. Lido o papel, o préstito seguiu…”. Rubião ficou “impressionado”, dividido entre duas “forças íntimas” –uma que lhe mandava seguir caminho, outra “que fosse ver enforcar o preto”. Rubião “fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso”. O tal acaso fez com que seguisse o préstito, pensando todavia que não queria ver a execução. Queria ver só “a marcha do réu, a cara do carrasco, as cerimônias…”. De vez em quando o préstito parava, gente se apinhava às portas e janelas, o oficial de justiça relia a sentença. Os muitos curiosos conversavam sobre o crime, diziam que o assassino era “homem frio e feroz”. Sem dar por si, Rubião se encontrava em meio à “multidão compacta”, no largo do Moura, o local da execução. Tentou voltar, mas cada um de seus pés foi para um lado. O réu subiu à forca, uma onda de tremor pegou a turba toda, Rubião sem entender “que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham ali”. Seguiu-se o instante fatal: “o réu esperneou, contraiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada”.

O que, de fato, vira Rubião? Por que, num momento de transe, sua mente o levara de volta a esse episódio da juventude? Rubião descia da casa de Palha e Sofia no início da década de 1870. O narrador informa que ele presenciara o episódio do enforcamento quando ainda era muito jovem. É razoável supor que o acontecimento lembrado ocorrera nalgum momento da década de 1840. Leitores e leitoras do século XIX apreciariam a passagem suprindo algumas informações que as historiadoras futuras da Bruzundanga aprenderam com muita pesquisa e alguma imaginação. Assim, tanto o condenado quanto o carrasco eram escravos, forçados ambos a participar da “cerimônia”. Além disso, o réu fora condenado no âmbito da lei de exceção de junho de 1835, aprovada após insurreições escravas em Minas Gerais e na Bahia, que abreviara os trâmites legais para o julgamento pelo júri e a execução, sem direito a recurso, dos escravos acusados de atentar contra a vida de seus senhores, familiares e feitores.

Rubião vira um enforcamento que se fizera cicatriz na alma, algo que nunca compreenderia, mas que se tornaria ferida de novo, conforme ele próprio passara a circular nas altas rodas senhoriais da Corte. Ele vira a encenação da justiça como afirmação do poder e da violência do domínio escravocrata, em espetáculo público, na economia regrada da punição exemplar, destinada a inspirar terror por meio do jeito solene em que a violência máxima –o assassinato por parte do Estado- se oferecia à curiosidade popular. Era a execução da lei. Outras cousas ficavam submersas. Réu e carrasco, mui provavelmente cativos, o eram numa época em que centenas de milhares de africanos chegavam ao país por contrabando, para serem reduzidos à escravidão ilegalmente nas fazendas de café das províncias do Rio de Janeiro e, em seguida, de São Paulo. Exemplo de corrupção sistêmica no bojo mesmo da formação do Estado nacional. A cafeicultura, ou o centro-sul do país, reforçava a sua vocação de metrópole, de poder colonial interiorizado a sugar e exaurir a força de trabalho de africanos contrabandeados e demais escravizados comprados às províncias do norte e nordeste do país. Rubião viu um enforcamento e intuiu um dos sentidos mais profundos da história bruzundanguense.

Corta, disse uma das historiadoras, como se percebesse que precisava despertar as companheiras da introspecção provocada pela leitura da passagem de Machado de Assis. “2016, ano do impichamento”, disse ela, segurando entre os dedos um papel amarelecido e craquelê que encontrara no restolho do acervo de um obscuro historiador da Bruzundanga, cujo nome se perdera na noite dos tempos. Era a transcrição de trecho duma entrevista de Jurema Werneck, médica, ativista do movimento negro, feminista. As palavras eram de uma lucidez cortante; a ledora as pronunciava de um jeito calmo, pausado, como se não fosse possível lê-las doutro modo.

Jurema dizia “que a Lava Jato é complexa porque está, acredito que está, pegando criminoso. Acredito também que está usando meios ilegais”. Referia-se em seguida às “pessoas que tem que ficar na cadeia (…) até confessar, até fazer uma delação premiada. Isso é um absurdo”. Prosseguiu assim: “eu queria dizer que essa experiência (…) não é inovação. (…)De onde eu vim isso é todo dia, não é? Todo mundo está dizendo que não tem democracia no Brasil, que isso é uma ditadura. Isso era o que a gente dizia. (…) O nosso discurso [agora] está na rua, na boca dos outros [risos]. A gente disse que era assim mesmo, a polícia é assim, o juiz é assim, não é? Os partidos são assim, os brancos são assim. Porque são assim. Só que agora estão estendendo [esses procedimentos] aos brancos do PT, que é menos branco (…) porque é PT. Eles são menos brancos que os outros brancos. (…) Eles são menos brancos que os outros porque são do PT. (…) Deve ser tudo nordestino, na cabeça do reacionário, é tudo nordestino, então é menos branco. Então estão tratando esses brancos como nos tratam”, mas a nossa “democracia” sempre foi essa.

Silêncio profundo no recinto da entrevista, anotou o historiador. À margem, talvez porque fosse chegado a uma tirada retórica, rabiscou que Jurema “deixara exposto o ventre da história bruzundanguense”. Nesse ponto, as historiadoras reviraram os olhos, entre condescendentes e compreensivas. De qualquer modo, acharam que havia ali uma hipótese sugestiva a respeito daquilo que unia Rubião e os procuradores, algo que os fazia andar às escuras (playing in the dark…).

As historiadoras ainda não descobriram até quando continuou o tribunal de exceção high tech chamado Lava-Jato. Querem acreditar que prosseguiu até que todos os corruptos fossem punidos. Porém a investigação deixou de cativar o “gosto popular” depois que juízes e procuradores foram obrigados a se comportar segundo as responsabilidades de suas funções, tornando-se sérios ao ponto de a mídia corporativa não lhes dar mais a mínima bola. A partir daí a Bruzundanga foi feliz para sempre enquanto durou.

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“Reza de Mãe” para que a Casa Grande siga surtando!!

 

“Domingo era dia de refresco, mas o suco vinha morno” (Reza de Mãe, p. 59)

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Lançamento de Reza de Mãe na Aparelha Luzia, 3.11.2016

Todos os dias, Vingança traveste-se de Esperança, toma lá uma talagada de café e se lança como protagonista de uma sequência dinâmica e monótona de ações que falam da vida e do seu inverso. Vingança tem seus múltiplos sentidos e feições. É gente homem, mulher, criança, jovem e pessoa que carrega o peso de ter visto muito acontecer, mas pouca coisa mudar.

Vingança é a desforra de diariamente sobreviver à guerra de entrar no busão/trem lata de sardinha/navio negreiro, para encarar o esculacho do subemprego e da subalternidade; de aprender a beber pouca água e segurar a bexiga para suportar a viagem de horas até o centro da cidade ou a volta de lá; de engolir a humilhação sofrida “quando perguntou se ia receber sua paga”; de chegar em casa, encontrar a filha já dormindo e mesmo assim contar histórias emboladas, pedir proteção à santa para que os “esgotos” não alcancem a pureza da menina e, sem sentir, desabar no sono…

Vingança é também encarar torcidas rivais e se firmar ponta de lança em torneio de futebol de bairro no fim de semana; trocar solidariedade com outras iguais na fila da visita e não sucumbir após as “três cocorinhas”; é matar e também morrer para ridicularizar a quem tanto ajudou a rebaixar outras vidas; é comemorar uma conquista besta, mas grande porque coletiva e sair pela quebrada juntando pau para fazer fogueira na companhia do pequeno parceiro.

E Vingança boa é ainda transformar tudo isso em sustento para a prosa, desafiar modelos narrativos e colocar a gente negra e periférica no centro da escrita literária, com suas falas, seus medos, sonhos, felicidades e frustrações. E não se trata apenas de temática, coisa de interesse de quem alimenta fascínio por um cotidiano alheio, que cabe em determinadas páginas dos jornais, mas segue estranho aos catálogos de livros de literatura, sobretudo se escritos por quem, de tanto naturalizar, desnaturalizou essas e outras cenas e histórias.

Eis o “troco” passado por Allan da Rosa em seu novo livro Reza de Mãe e outros contos, cuja primeira reunião de lançamento aconteceu na Ação Educativa, no último 17 de outubro, e que já foi recebido em outros espaços de cultura negra de São Paulo, como a Aparelha Luzia, o Núcleo de Consciência Negra e o GRES Quilombo. A responsabilidade da publicação foi confiada e assumida pela Editora Nós, empresa criada ano passado pela jornalista e escritora Simone Paulino, com foco em projetos literários inovadores. Não por acaso, é assim que se expressam seus anseios editoriais: “Vamos ser plurais, democráticos, inclusivos, afetivos. Princípio este que se reflete também na concepção da marca – uma palavra única, de três letras, mas indivisível, com um centro aberto no qual as pessoas e as ideias poderão entrar”. De fato, será muito importante que isso aconteça e permaneça!

Pois marcando a estreia do autor na prosa de ficção, as 104 páginas que compõem o volume são o primeiro resultado concentrado das andanças que o escritor Allan da Rosa têm feito por veredas outras que as da poesia. Historiador, angoleiro, mestre e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), homem negro, morador do Taboão da Serra e caminhador do mundo, ele havia publicado Vão (Edições Toró, 2005); Morada, com Guma (Edições Toró, 2007); Da Cabula (Prêmio Nacional de Dramaturgia Negra, 2014); Zagaia (DCL, 2007); A Calimba e a Flauta, com Priscila Preta (Capulanas, 2012); e Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem (Aeroplano, 2013).

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Reza de Mãe, aliás, mais do que um novo caminho, parece-me um adensamento desse esforço reflexivo que vem de alguns anos, em que literatura, educação, ancestralidade, arte e história são postos em diálogo, a fim de garantir a conversa com quem não pode ficar de fora dela. Sem cair num didatismo simplificador, os quinze textos mantêm estreita relação com princípios da própria Pedagoginga, já que: “Lâmina e dádiva que atravessa a Pedagoginga é sim bailar [nas nossas] contradições, para que nossa compreensão não se mutile e não nos enforque na hipocrisia, para que não anunciemos liberdade mas oferecendo cabresto” (Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem, p. 17). Parente próxima da Pretagogia, a escrita de Allan da Rosa é dessas inúmeras elaborações intelectuais que escapam à matriz limitada que sustenta a convicção de sujeitos como Marco Antonio Villa, que se só conseguem tratar como desatino e heresia aquilo que não reflete a si mesmos.

Escritos com tinta batizada de cerol, as tramas de palavras de Allan da Rosa grudam e cortam interpretações rasteiras a respeito das pessoas, famílias e espaços da chamada periferia, que para muitas/os de nós é o centro do mundo, o pior e o melhor dele. Os contos dialogam entre si não apenas por meio de personagens que aparecem em diferentes histórias e situações, mas também tendo como referencial as possibilidades e impossibilidades de proteção, afeto, contato e cuidado entre gerações de pessoas representadas. Nesse sentido, justamente por garantir a seus sujeitos ficcionais características humanas, não espere encontrar nas páginas do livro um equilíbrio acalentador entre dor e alegria. Como na vida das pessoas de carne e osso, não é sempre que se tem a mesma quantidade de arroz e feijão no prato. Mas o fato é, tal como os tais córregos poluídos que ainda margeiam certas sequências de casas, de que gosta de falar Allan, as pessoas seguem, enquanto não desaparecem.

Reza de Mãe carrega, portanto, um forte potencial didático e pode muito bem servir nas salas de aula como um recurso outro que as tão importantes letras e músicas de rap e outros versos da literatura afro-brasileira contemporânea. Afinal, mesmo sendo a produção e a publicação de poesias menos interditadas, não é de hoje que há investimentos na escrita negra em prosa. Uma medida desse empenho se acompanha nas edições dos Cadernos Negros dedicadas a isso desde os anos 1980. Sem falar das obras individuais de escritores/as como Oswaldo de Camargo e Conceição Evaristo, cujo o livro Olhos d’Água conquistou o terceiro lugar do 57º Prêmio Jabuti (2015) na categoria Contos e Crônicas. De tal sorte, em tempos de esforços de negação da legitimidade de temas, perspectivas e pessoas incomuns ao alegado centro, é hora de investir na ampliação de nosso conhecimento pelas escritas negras e periféricas. Fica, portanto, o convite para se chegar à nova criação do capoeira Allan da Rosa.

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