Dançando na corda bamba…

Estive no encontro de artistas e intelectuais com Lula, em um hotel do Rio de Janeiro, no último sábado. Admiro muitíssimo o ex-Presidente Lula e tudo que simboliza, mas nunca pensei que defenderia sua candidatura a um terceiro mandato. É o que faço sem sombra de dúvidas e com entusiasmo neste momento. Lula com sua capacidade de diálogo democrático me parece hoje a mais forte esperança para que o estado de exceção colocado em marcha desde a sua condução coercitiva em março de 2016 possa ser revertido, restabelecendo o estado democrático de direito no país.

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Na mesa do evento, o ex-chanceler Celso Amorim, que espero ver candidato a governador do Rio de Janeiro, lembrou um velho dito popular que bem sintetiza o estado policial em que estamos vivendo desde 2016: sabemos que estamos numa ditadura quando tocam a campanhia de casa às 6 horas da manhã e temos medo de que não seja o leiteiro. O abuso das conduções coercitivas de pessoas sobre as quais não pesa acusação alguma, com endereço conhecido, que não foram previamente intimadas a depor, é prova de que o uso do aparato policial e jurídico para pura e simples intimidação política infelizmente virou rotina. O caso da verdadeira invasão policial da UFMG é só o mais recente exemplo disso. Mas é também um pouco mais.

Colocar em suspeita sem provas contundentes uma proposta da envergadura moral do Memorial da Anistia, sob direção acadêmica de uma das mais respeitadas historiadoras brasileiras, Heloisa Starling, é simplesmente inadmissível. Batizar uma operação policial de combate à suposta malversação de verbas públicas com um dos mais pungentes versos da música de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornou símbolo do movimento pela anistia, é um ataque direto à memória das lutas democráticas no Brasil.

Diante do medo, do susto e do desencanto só resta voltar aos versos de “O Bêbado e a Equilibrista”.  Mais de trinta anos depois, a esperança continua a dançar na corda bamba de sombrinha, sabendo que em cada passo dessa linha pode se machucar.

Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar!

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20 de Novembro: com Ciência Negra

A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e a enunciação. No âmbito do racismo a boca torna-se o órgão da opressão por excelência, ela representa o órgão que os (as) brancos (as) querem – e precisam – controlar e, con-sequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente repreendido.

(Grada Kilomba – Plantation Memories: Episodes Everyday Racism, 2010.)

Em pesquisa recente organizada pela Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, constata-se que apenas 3% dos professores da UFRJ declaram-se como pretos e pardos. Dados similares foram apontados pelo censo racial de docentes promovido pelo Coletivo Estudantil Nuvem Negra na PUC-Rio, dentro da campanha Quantos Professores Negros Você tem? Em seu trabalho, a socióloga Joselina da Silva identificou, com base em pesquisa quantitativa no SINAES e no INEP, que, em 2005, dos 63.234 professores universitários do Brasil, somente 251 eram mulheres negras. Frente a esses dados pouco discutidos pela comunidade científica e diante da necessidade de não retroceder, no mês da Consciência Negra, dedico meu texto a uma “escrita de Nós”. Isso para dimensionar a importância que a formação acadêmica deve ocupar na vida das pessoas negras como parte de um projeto coletivo de autonomia e liberdade que passa pela educação como um direito humano.

 

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Quando o assunto é a representatividade negra, a comunidade acadêmica, hegemonicamente branca, é marcada por um enorme abismo entre a teoria e a prática. No caso da História, por exemplo, por mais que as pesquisas historiográficas avancem nas conclusões e conceitos, como no advento das categorias de “agência”, “experiência”, “precariedade da liberdade” e do seu impacto para reinterpretar os processos de escravidão e pós-abolição à luz do protagonismo de pessoas escravizadas, em termos de equidade racial, os movimentos para democratização dos comitês científicos de eventos e agências de fomento às pesquisas, do mercado editorial assim como dos concursos públicos são inócuos. Segue-se o baile com uma maioria de acadêmicos brancos produzindo pesquisas sobre o negro, numa espécie de destino natural. Essa configuração branco realizador – negro executor impede que estudantes dos dois grupos raciais tenham acesso às diversas formas de narrativas e produção de conhecimento científico, reforçando a história única.

Ter contato com professores universitários negros é importante porque transgride o lugar de subalternidade reservado a pretas e pretos na história oficial do país, oferecendo uma linguagem de possibilidade mais democrática na qual a intelectualidade negra também seja reconhecida. Para transgredir essa fixação de sentidos precisamos prover universitários negros dos subsídios para assumir e fortalecer o lugar de acadêmicos. Isso se associa às perspectivas postas por Eduardo de Oliveira e Oliveira em “De uma ciência para e não tanto sobre o negro”, texto no qual o sociólogo defende a importância de que acadêmicos negros interpretem e produzam conhecimentos sobre nossas experiências com nossas próprias ferramentas teórico-metodológicas. É a partir desse mote que o intelectual, não por acaso silenciado nos currículos universitários, cunha o conceito de “ciência para o negro”. Tal conceito mobiliza parte das ações que conduzo na UFRJ assim como a categoria de “escrevivência”, de Conceição Evaristo. Embora este último seja originalmente um conceito da Literatura, tenho me dedicado à sua reconfiguração para dar vida a uma agenda acadêmica com metodologias de trabalho focadas na juventude negra e na crítica à ideia de objetividade como sinônimo de neutralidade científica.

Essa tomada de posição materializa-se em iniciativas que conduzo como a disciplina Intelectuais Negras, na qual durante todo o semestre lemos e discutimos autoras negras brasileiras, a coordenação do Programa de Educação Tutorial Conexões de Saberes Diversidade, que conta com a participação de 12 bolsistas de graduação negros e cotistas e funciona internamente como o Programa de Formação Ciência para o Negro e no Grupo Intelectuais Negras, um espaço que promove ações de ensino, pesquisa e extensão a partir dos conhecimentos orais e escritos de mulheres negras, sistematizados em iniciativas como o catalogo Intelectuais Negras Visíveis, publicação que reúne 181 profissionais de diferentes áreas de atuação e regiões brasileiras.

Logo PET - oficial

A tarefa de construir uma agenda acadêmica negra na universidade pública é complexa e se relaciona à afirmação de Conceição Evaristo de que “nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”. Se hoje as novas gerações conseguem chegar à academia, ainda que em condições de permanência absolutamente precárias e questionáveis, os desafios postos para colocar em prática o “nenhum passo a menos” são gigantescos. Mas nesse 20 de novembro encoraja perceber pelas palavras de uma estudante da UFRJ, que temos conseguido aprimorar a arte de falar pelos estilhaços da máscara:

Qual a importância da formação acadêmica em sua vida?

Como a primeira pessoa da minha família a entrar numa universidade pública, a formação acadêmica na minha vida representa a possibilidade de poder ser. Independente daquilo que faço ou estudo, para os meus pais, desde que eu esteja feliz, o meu entrar na UFRJ foi um marco de que podemos ser o que quisermos ser. Embora, todo o sistema social funcione para impedir pessoas negras e faveladas de alcançarem altos cargos e tenha conseguido atrapalhar o sonho da minha mãe, por exemplo, de terminar o ensino médio e ingressar numa faculdade, meus pais me apoiaram durante toda a minha vida e se transformaram no mais forte alicerce que eu podia ter para buscar ir além. Ir além do esperado para pessoas como eu, ir além das estatísticas e das expectativas. A formação acadêmica desempenha na minha vida o afago que a minha família ansiava. O suspiro por ter construído novos passos. A esperança de alcançar lugares inimagináveis pelos meus antepassados, não tão distantes. É um romper de silêncios e uma fabricação de chaves que abram portas de oportunidades para os que não se veem capazes de simplesmente ser o que quiserem ser.

 

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Escravidão é estrutura (ainda sobre Vazante)

Todo bom filme que ousa abordar temas sensíveis causa polêmica. Vazante é um bom filme. Não fosse, ninguém perderia tempo com ele. É justamente por ser um bom filme sobre o patriarcalismo escravista brasileiro, nossa tragédia de origem, que ele incomoda. E provoca a também boa polêmica, aquela que é boa justamente por alimentar visões diferentes, contrastantes, divergentes. (Temos que defender as divergências com unhas e dentes; é terrível o tempo das certezas que nos espreita).

Assisti a Vazante como se o encosto da poltrona tivesse espinhos. A cada tentativa de me ajeitar, um incômodo, uma mudada de posição. É assim também que leio as críticas e reações a respeito. A cada incômodo, uma tentativa de me ajeitar, uma mudada de posição. Acontece que, cá entre nós, é impossível se ajeitar com um tema espinhoso como é o da escravidão, e esta talvez seja a melhor novidade da recepção de Vazante: nos dias de hoje, ninguém tem como virar as costas para o passado escravista e dizer que ele não nos diz respeito. Cresci num mundo de descendentes de imigrantes que, por terem aqui chegado no século XX, achavam que a escravidão era coisa do passado dos outros, não tinha nada a ver com a gente. Mas como bem disse a escritora Ana Maria Gonçalves em recente debate sobre o filme, não podemos ignorar como a história da escravidão afeta hoje a vida dos negros no Brasil (estou citando de cabeça; quem quiser checar a fala e acompanhar o debate, que também contou com o cineasta Joel Zito de Araújo e com a própria diretora Daniela Thomas, clique aqui).  E todos nós que vivemos nesta sociedade racista lidamos, embora muito desigualmente, com as marcas da escravidão.

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Daí que, em Vazante, a escravidão não é moldura, é estrutura (para quem não leu, estou aqui dialogando com Flavia Oliveira, “Escravidão é moldura”, O Globo, 07 de novembro de 2017). A escravidão e o racismo são tão centrais para a narrativa do filme como o são para a compreensão da história brasileira.  É a existência da escravidão que fundamenta as relações violentas, opressoras e traumáticas tratadas no filme. E que nos confronta com situações difíceis de digerir, como aquela que também a mim marcou, na qual um dos personagens, africano, líder dos demais, fala, angustiado, em uma língua que quase ninguém entende, nem mesmo o negro – possivelmente liberto, ali desempenhando a função de capataz – que, a mando do senhor, apontava uma arma para o rebelde. É com ele que o homem branco desabafa: “eu não sei o que esse negro está dizendo”. Seu interlocutor também não sabia. É a escravidão que torna compreensível esta cena terrível. Da mesma forma, é só à luz do nazismo que conseguimos encarar a situação dos kapos judeus, forçados a colaborar para sobreviver durante o Holocausto. Quando uma vítima aponta uma arma para outra, nenhuma das duas sobrevive.

É também a escravidão a chave de leitura da perversidade de uma sociedade que naturaliza o estupro das mulheres escravizadas por seus senhores, que convive com a relação entre uma moça ainda meio criança com o homem que antes havia casado com sua tia e que não tolera o amor entre um menino negro escravizado e uma menina branca, criada para ser sua futura sinhá.

Em Vazante, Daniela Thomas constrói uma narrativa sobre o passado fincada no presente. Têm razão os que dizem que a recepção do filme seria outra há dez, quinze anos atrás, e é maravilhoso que seja assim. Há tempos atrás o filme seria outro também. Precisamos tanto de filmes corajosos quanto de plateias barulhentas, indignadas, apaixonadas. Plateias de todas as cores, participadoras e provocadoras, não espectadoras. Que o bom barulho provocado por este filme ecoe no futuro: precisamos de filmes, discos e livros que, como bem escreveu neste blog Hebe Mattos, encarem de frente o “trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu”. 

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“A Redenção de Cam”, de Modesto Brocos, 1894. Acervo Museu Nacional de Belas Artes

É em nome dessa provocação que saí do cinema pensando que, se a narrativa de Vazante nos instiga a lidar imperiosamente com este passado, é na cena final que o filme, ao se distanciar da História, propõe outros olhares sobre sua superação. Ao subverter a clássica imagem da ama de leite negra amamentando a criança branca, Daniela Thomas inverte a cena principal do famoso quadro A Redenção de Cam (1894), no qual o pintor Modesto Brocos sugere que o embranquecimento, fruto da mestiçagem, seria a redenção da nação. Sem omitir a tragédia que a originou, não seria a imagem de uma mulher branca amamentando uma criança negra uma alegoria do empretecimento como possibilidade de redenção?

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Cores e lugares do Novembro Negro

“É minha força, é nossa energia
Que vem de longe pra nos fazer companhia”
Raça, Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976

 

E novembro chegou novamente! Para boa parte das pessoas com quem convivo, é chegada a hora de viver o Novembro Negro, o mês Nacional da Consciência Negra! Tempo de rememorar e celebrar a saga de Palmares e outras tantas lutas pela liberdade protagonizadas por descendentes de africanas/os escravizadas/os no Brasil. Há ainda quem associe outras cores a esses dias: o Novembro Azul, da mobilização pela prevenção do câncer de próstata; o Novembro Laranja, da campanha nacional de alerta ao zumbido no ouvido, sendo também laranja o 25, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Não podemos esquecer da possibilidade de acrescentar as cores do arco-íris ao 20, também reivindicado como Dia Internacional da Memória Transgênera.

Curiosamente, todas essas apropriações mantêm estreito diálogo com a saúde, o direito à vida, reivindicam o existir com dignidade. Com um pouco de sensibilidade, é fácil entender como o racismo, o machismo, a homofobia/transfobia adoecem quem é atingida/o e quem atinge também, prejudicando homens e mulheres, surdas/os, ouvintes, etc. E nisso comprometem até mesmo a nossa capacidade de enxergar as possíveis articulações entre as diferentes perspectivas de luta. Assim, logo de cara, a tendência é tomar essas práticas de apropriação do tempo como mero ensejo para rivalidades e disputas por visibilidade no presente.

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Imagem utilizada pela empresa Direito de Ouvir para ilustrar um informe sobre o Novembro Laranja

Mas, tentando ir além do conflito que afasta, façamos um exercício de aproximação. Vivemos num país de maioria negra, certo?! Certo! 54% da população, segundo dados do IBGE para 2014. Por que razão, então, nos limitamos a pensar apenas o Novembro Negro como negro? Por que o azul, o laranja ou o multicolorido não são prontamente entendidos como negros também? Por que esses outros falam da população em geral? Um instante! Somos a maioria da população e, mesmo assim, não podemos dar a medida do que é o “em geral”? Olha aí o alcance do racismo engolfando e indo além da linguagem.

Sem gerar prejuízo a qualquer outro grupo, novembro, em suas múltiplas cores, muito bem poderia e deveria ser um momento de esforço concentrado para a defesa do respeito às pessoas de todos os sexos, identidade de gênero, orientação sexual, variedade de deficiências, etc., por partir justamente da experiência da população negra. Alterar as matrizes de pensamento de uma sociedade em que o “racismo por denegação”*, citando Lélia Gonzalez, gerou um dos quadros mais complexos de desigualdade racial do mundo passa por fazer com que as pessoas adquiram a habilidade de sentirem à vontade em ser medidas pela régua da existência da gente negra, sem que isso signifique limitação da sua humanidade. Romper com a violência naturalizada contra tanta gente, talvez faça até mesmo com que no futuro as experiências de pessoas surdas não gerem tanta estranheza ao aparecerem em concursos públicos, como aconteceu na prova de redação do Enem 2017.

Reconhecer a importância do Novembro Negro, em suas múltiplas cores associadas, é, portanto, romper com os vícios gerados pelo mito fundador das três raças que esteve e está a serviço do elogio à dominação do homem-branco-europeu-heterossexual-agente-da-colonização-e-da-civilização-vitoriosa, por muito tempo considerado como o sujeito universal por excelência.

Atravessando a fronteira nacional brasileira, vale lembrar que esse, aliás, tem também sido o esforço da Comisión Organizadora 8 de Noviembre, uma ampla frente de entidades afro-argentinas, em torno da afirmação do Dia Nacional dos/as Afro-Argentinos/as e da Cultura Afro, reconhecido oficialmente em 2013 por meio da Lei n. 26.852. A data foi construída a partir da memória de María Remedios del Valle, uma mulher negra que combateu no exército pela independência argentina no início do século XIX e se tornou posteriormente conhecida como a “Madre de la Patria”. Uma das várias pessoas negras que sobreviveram aos combates, María Remedios é uma personagem emblemática para se desmontar o mito do desaparecimento negro na Argentina ao longo do século XIX. Sua trajetória e a de outras personalidades e grupos têm sido, então, acionadas pelas organizações afro em suas atividades em vários momentos do ano, com o intuito de criar condições para que as violências cometidas contra a população afro não passem em branco.

8 de Novembro

A lei corresponde, portanto, ao encaminhamento de uma agenda política maior e está estreitamente associada a uma conquista anterior: a inclusão do quesito cor/raça no censo populacional de 2010, por meio do que tem se objetivado identificar não apenas os indivíduos fenotipicamente negros, mas também aqueles/as de origem afro. Além de buscar a visibilidade no agora, trata-se de uma ação interessada em fazer um contraponto à construção de que os argentinos de hoje são descendentes apenas de europeus e de povos originários com os quais o vínculo é cada vez mais distante.

Diferentemente do Brasil, os/as afro-argentinos/as estão longe de ser maioria populacional em seu país. Todavia, pensando nos relatos compartilhados, podemos dizer que o racismo e a discriminação não se fazem mais ou menos perversos a depender da quantidade de pessoas contra as quais são imprimidos. O grande problema segue sendo a violação do status de Ser Humano dessas mulheres e homens em ambas as sociedades, e outras tantas pelas Américas e o restante do mundo.

De tal sorte, embora os problemas associados ao subregistro não tenham sido superados nem mesmo aqui, as mobilizações de lá, ao avançarem, merecem nossa solidariedade, tal como precisamos em outros tempos para alcançar a legitimação do 20 de novembro e toda a agenda política vinculada a ele. Disso efetivamente depende a viabilidade de termos respeitados os muitos sentidos de liberdade nos próximos Novembros Negros que faremos.

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*GONZALEZ, Lélia. A categoria cultural da amefricanidade. Revista Tempo Brasileiro, n. 92-93, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1988, p. 69-82.

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Mwana

Mwana quer dizer criança no idioma Xona, falado em Moçambique, Zimbábue e Zâmbia. O Xona (grafado algumas vezes como Xhona) pertence ao tronco linguístico banto – origem de diversas línguas africanas que existem ao sul da linha do Equador no continente e que, pela história da travessia atlântica de cativos, marcaram fortemente o Português falado no Brasil. Nosso vínculo com o termo mwana situa-se, mais além do parentesco dos termos banto no vocabulário que usamos, na presença desse universo cultural de matriz africana nos formando como sociedade.

Porém, a Mwana a que me refiro é o nome de uma exposição de fotos, acompanhada por uma série de atividades, vinculada ao Espaço Memória Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza (Espaço JJ), projeto de extensão da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ. As atividades dessa curadoria Mwana: Infância e Relações Raciais no Brasil e na África estão programadas até o dia 29 de novembro desse ano, mas a exposição no Espaço JJ seguirá até 31 de março de 2018, com chances de mais atividades acontecerem no seu último mês.

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Cartaz de divulgação da programação. Arte e design de Fábio Marinho (UFRJ).

O tema central da Mwana, indicado no subtítulo, aparece nas trinta e duas fotos – belíssimos trabalhos generosamente cedidos por Lucas Landau e Stela Caputo – e em atividades com crianças (contação de histórias, oficina de arte, roda de capoeira e samba de roda), além da exibição de filmes com debates, mesas-redondas, oficinas de formação de educadores e apresentações artísticas, quase sempre às quartas-feiras – por isso carinhosamente chamadas de Quartas Pretinhas. Em todos esses momentos, a criança é o centro da discussão, com atenção especial aos temas sensíveis relacionados à expressão e sofrimento do racismo na infância e à problematização das formas de representação da criança negra.

Mwana tem uma dupla origem, como tantas coisas. Por um lado, nasce da pesquisa histórica para elaboração do dossiê de candidatura do Cais do Valongo a patrimônio da humanidade, do qual participei direta e intensamente. Ao lidar com as fontes relacionadas ao tráfico atlântico de africanos escravizados durante o período de funcionamento do cais, entre fins do século XVIII e 1831, constatei o expressivo número de crianças cativas nas embarcações que aportavam na cidade do Rio de Janeiro, num percentual que gira em torno de 30% do total de desembarcados.  Não se tratava de uma novidade: o crescimento do número de crianças na demografia do tráfico escravista no século XIX já fora assinalado em trabalhos de historiadores brasileiros e estrangeiros, como Manolo Florentino e Ben Lawrance, e mais recentemente, em trabalho de  Marcus Carvalho. Crianças escravizadas recém-chegadas do continente são identificadas em especial nos relatos de viajantes sobre o mercado do Valongo e também se fazem ver ao visitar-se a iconografia de época. Nos restos mortais encontrados no Cemitério de Pretos Novos estão igualmente presentes em grande número. Tudo isso que, a muitos, como a mim, comove profundamente, fortaleceu, na redação do dossiê de candidatura, a tese que apresentou o Cais do Valongo como sítio histórico de caráter sensível – entendimento totalmente aceito pelo Comitê da UNESCO.

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Por outro lado, Mwana também nasceu da luminosidade existente nas imagens produzidas por Lucas Landau, jovem e talentoso fotógrafo brasileiro que, ao voltar de sua viagem de trabalho na África do Sul no ano passado, trouxe na bagagem um acervo lindíssimo sobre crianças de Blikkiesdorp, na periferia da Cidade do Cabo, e de uma escola rural na província do Limpopo. E ele decidiu doar essas fotos para quem pudesse pretender usá-las para estudo, o que fez com que chegassem frente aos meus olhos e até as minhas mãos. Nas imagens que trouxe, a brincadeira, o riso e a disposição para a pose frente à máquina fotográfica me conquistaram de pronto. Não eram realidades maquiadas, em diversas fotos se percebe a dureza das circunstâncias – mas, as crianças estavam ali, afirmativamente, encarando a vida. Um enfoque fazendo a diferença dos lugares-comuns de miséria, doença e morte em que sempre situam as crianças negras africanas. Como ele mesmo relata, elas se colocaram para a foto, pautaram seus sorrisos e suas brincadeiras.

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Estudantes da Escola Primária St Patrick Mathibela, localizada em Namakgale, Limpopo, zona rural da África do Sul. Foto de Lucas Landau

E Mwana não ficou por aí. A força do olhar das crianças sul-africanas fez lembrar as nossas heranças, o legado intangível dessa energia vital que cruzara o Atlântico dolorosamente e tantas belezas criara por aqui. E, a partir desse fio de contas que entrelaça as histórias, entraram as belíssimas fotos de Stela Caputo, pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que tem como sujeitos de seus estudos as crianças de terreiro. As fotografias para ela são instrumentos dessa investigação que trilha há pelo menos uma década. Nas imagens de Stela, a doçura, a pureza e a firmeza do olhar das crianças nos diferentes espaços religiosos de matriz africana no Brasil desafiam o preconceito e o racismo religioso. O grupo de pesquisa Kékéré – que significa pequeno em iorubá – por ela coordenado, fez um vídeo comovente em que aparecem algumas das crianças presentes nas fotos.

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Dandara e as folhas. Foto de Stela Caputo

As crianças, visitantes especialmente importantes à Mwana, vem interagindo com as fotografias, escolhem as suas preferidas, enxergam (percebem) situações (“essa aqui está voando” – dizem sobre uma das imagens) e dialogam a partir do que observam na vitrine de objetos artísticos e afro-religiosos que faz parte da exposição, tecendo comentários e observações. Nas rodas de contação de histórias africanas e afro-brasileiras, conhecem personagens que trazem na pele a beleza da cor da noite, com as quais muitas se identificam. Mwana já teve a visita de crianças das duas unidades de Educação Básica da UFRJ: a Escola de Educação Infantil e o Colégio de Aplicação, e espera receber, em visitas guiadas agendadas, outras escolas. E não somente as crianças se encantam.

Por isso, conto uma das muitas histórias da Mwana. Na noite após a montagem, ao sair, encontro duas funcionárias da equipe de limpeza da universidade, duas mulheres negras, tirando fotos – selfies – na exposição. Uma delas, empunhando o celular ao lado de uma das imagens dos meninos africanos que nos trouxe Lucas Landau, sorria e dizia: “parecem meus sobrinhos.” A outra me vê passando e diz, mostrando as fotos das crianças de terreiro de Stela Caputo, falando em tom propositalmente baixo: “adoro isso, é minha religião também.”

Estudantes, funcionários técnicos e professores, não só da UFRJ, circulam pelo Espaço JJ – de dimensões reduzidas, modestas, mas que adora receber. E a programação é diversificada. Já houve sessão de cinema com o documentário Menino 23, seguida por intenso debate. Na semana que vem, terá samba de roda e capoeira com crianças cegas e com baixa visão, trazidas por educadores do Instituto Benjamin Constant. E mais virá. Tudo isso, como bem mostra o cartaz, entrando na roda, na gira da Mwana.

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Como me tornei historiadora… divulgando a imperdível entrevista de Giovana Xavier ao NEXO JORNAL!

O blog hoje divulga a entrevista de Giovana Xavier, ao NEXO JORNAL, que começa indagando: Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

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Esta é uma pergunta difícil de responder porque ela é resultado de muitas histórias. Fui criada por uma família de mulheres negras que acreditaram e colocaram em prática o poder da educação como instrumento de liberdade e ascensão social. Minha mãe, Sonia Regina (ancestral) foi a primeira da família a cursar a universidade. Isso revela uma característica típica de famílias negras: o investimento na formação de um indivíduo (geralmente o mais novo) como projeto de liberdade e transformação coletivo. Essa marca, sempre presente nas histórias que hoje escuto meus estudantes pretos contarem, é um saber que temos aprimorado como comunidade negra e que evidencia os limites da meritocracia como conceito que dê conta de explicar as oportunidades desiguais que recebemos a depender de quem somos em termos raciais, de gênero, de classe, sexualidade. Então posso dizer que o fato de ter sido socializada em um matriarcado que acreditou que eu poderia ser quem eu quisesse, estimulando-me a ler, escrever, aprender outros idiomas, motivou-me a transgredir, indo além do destino esperado para as meninas negras do Brasil: o trabalho doméstico, ramo em que inclusive trabalhei por um tempo, quando fui arrumadeira de pousada na Ilha Grande na adolescência. Meu primeiro trabalho foi aos 11 anos, entregando panfletos “Vendo Ouro” na ponte do subúrbio do Méier, no Rio de Janeiro, onde fui criada. Até hoje tenho pavor de receber esses papéis, por saber das violências e perversidades que rodeiam a juventude que desde cedo tem de se virar, encarando a rua como local de trabalho. Essas experiências de inserção no mercado informal somadas à oportunidade de ter estudado em uma escola branca de classe média me geraram um ponto de vista denso sobre como estar em dois mundos e, do interior deles, criar o meu próprio. Acho que esta tem sido minha busca pelo “caminho de casa”, para usar a expressão marcante da escritora ganense Yaa Gyasi. Na linha “força, foco e fé”, pergunto-me diariamente: como, na condição de mulheres negras, podemos e devemos reivindicar a intelectualidade, construindo um universo para chamar de nosso, dentro e fora da academia? A história, enquanto matéria dedicada à interpretação de processos sociais e à construção de identidades individuais e coletivas, oferece ferramentas para responder à minha pergunta. Entretanto, estamos falando ao mesmo tempo de uma disciplina que contradiz minha própria motivação se considerarmos que ela foi criada a partir de uma lógica branca, masculina e eurocêntrica. As ferramentas da história e da academia como um todo precisam ser empretecidas na forma de uma ciência para o negro, conforme sinalizado pelo sociólogo Eduardo Oliveira e Oliveira e pela historiadora Beatriz Nascimento nos anos 1980. Entendendo-me como continuidade, essa é minha missão, definida por meus ancestrais. É isso que me motiva a seguir fazendo ciência, diariamente.

Para a íntegra da entrevista: https://www.nexojornal.com.br/profissoes/2017/10/16/Como-me-tornei-historiadora-e-a-vida-entre-livros-arquivos-e-salas-de-aula

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Hebe Mattos: novas histórias (#lacre)

Bela nova caminhada amiga

Martha Abreu

Dia 8 de outubro foi dia de seu aniversário e de comemorações pela sua entrada na Universidade Federal de Juiz de Fora, como professora titular.  Novos desafios e conquistas esperam minha grande parceira.  Seu brilho acadêmico, coragem intelectual, poder de argumentação e  sensibilidade de análise para as mais diferentes situações, em breve, irão contagiar muita gente.

Conheci Hebe quando éramos muito jovens e entrávamos no mestrado em 1981! Os sonhos eram vários e os projetos para mudarmos o mundo – e se possível a historiografia – bastante fortes também. Logo passei a admirar aquela jovem brilhante, que lia muito mais rápido do que eu e que tinha sacadas impressionantes. Além de tudo, conseguia conciliar a maternidade com a produção acadêmica. Hebe mostrou a todos que era possível ser mulher, mãe, intelectual e professora reconhecida. Tudo ao mesmo tempo!

Por essa época fizemos alguns trabalhos juntos e estudamos para um concurso que nenhuma das duas foi bem sucedida. Nada poderia prever a qualidade e a força de uma parceria que aconteceria algum tempo depois. Em meio a constantes conversas pelos corredores da UFF, depois que me tornei professora da UFF, em 1991, o jongo de São José da Serra e os debates em torno da  Lei 10.639 iriam nos unir de vez através de nossos interesses sobre escravidão/abolição e cultura negra.

No momento quero agradecer por todas as nossas parcerias e cumplicidades. E, mais ainda, desejar muitas alegrias, afetos e realizações nesse novo momento de sua vida. Mesmo com diferentes endereços institucionais, estaremos juntas, sempre. Bela nova caminhada amiga!

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Hebe Mattos, Martha Abreu e Robert Slenes com Marilda de Souza, liderança do Quilombo do Bracuí. Angra dos Reis, 2005.

Tudo novo, de novo

Mônica Lima

Conheci Hebe Mattos logo depois que ela defendeu sua linda tese de doutorado, que se transformou no livro Das Cores do Silêncio, leitura necessária pra’ se entender o Brasil do século XIX e de hoje. Para os estudos sobre a escravidão, nem precisa dizer, é um clássico. Desse momento em diante passei a acompanhar sua produção acadêmica, incluindo os lançamentos dos filmes do projeto Passado Presentes e diversas outras atividades. Sempre me encantava e me surpreendia seu entusiasmo em cada novo projeto – e sempre havia novidades! No diálogo com as áfricas das minhas pesquisas, encontrava pontes de contato e referências nos seus trabalhos.

No doutorado na UFF foi minha orientadora e me lembro bem que saía das reuniões com ela levando ideias novas sobre o que estava escrevendo e uma sensação muito boa de que tudo aquilo iria dar certo. Para um pós-graduando há poucas coisas tão fundamentais como a produção dessa autoconfiança. No decorrer da minha vida profissional após o doutorado, tivemos a chance de fazer outras coisas juntas. E todas as vezes essas situações de trabalho vinham trazendo um mundo de possibilidades novas para olhar e pensar o que eu estava fazendo com minhas aulas e minhas pesquisas de História. Fora isso, sua atitude militante como historiadora me enche de coragem pra fazer o mesmo na luta contra o racismo e pelos espaços negros na universidade.

Mas, o assunto aqui não sou eu. É ela.

Hebe Mattos, depois de uma vida – ou várias – na Universidade Federal Fluminense, vai para outra universidade, em outra cidade, outro estado. Tudo novo, de novo. Estou celebrando por ela e por todos os estudantes e colegas que irão tê-la como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. Celebro também por que já imagino que ela vai continuar criando projetos, inventando coisas novas e iluminando vários caminhos a partir desse novo lugar. O que ela está trazendo com o tema passados sensíveis é um novo campo dos estudos sobre a história de africanos e seus descendentes e sobre o Brasil. Que venha, Hebe. Parabéns muitas vezes, e que a ousadia e o brilhantismo de sua trajetória como historiadora sigam nos inspirando.

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Felizardos os alunos da UFJF

Keila Grinberg

Quando defendi minha tese de doutorado, a primeira orientada pela Hebe (há controvérsias, mas desse título não abro mão!), escrevi que era fácil reconhecer seu dedo em várias partes do texto e na própria forma de conceber a questão que o motivou. Hebe me presenteou com a trajetória de Antonio Pereira Rebouças, dividindo comigo um tema de estudo que seria e ainda é seu.

Este não seria o primeiro presente da Hebe para mim. Anos antes, ela havia dividido comigo a pesquisa sobre as ações de liberdade no Arquivo Nacional – que eu só “descobri” porque ela havia me dito onde estavam. E agora, passados tantos anos, ao achar que estava definindo um tema novo, lá estavam as questões sobre as quais ela já me havia chamado a atenção. Seu dedo continua lá.

Ainda hoje não dou um passo acadêmico — dizendo melhor, acho que não dou um passo — sem me consultar com a minha para-sempre-orientadora. Tive a maior sorte de ter a Hebe como professora na graduação e na pós-graduação da UFF. Felizardos os alunos da UFJF!

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Caminhos abertos!

Ana Flavia Magalhães Pinto

Uma historiadora da escravidão no Brasil compromissada em dialogar com as questões e as pessoas do tempo presente. Essa foi a imagem que formulei a respeito de Hebe Mattos desde as primeiras leituras que fiz de seus textos lá pelo ano de 1998. Ainda estudante de jornalismo, minha expectativa era permanecer atenta à produção daquela professora e trabalhar para que um dia ela figurasse no meu caderninho de fontes que me permitiriam falar com propriedade sobre experiências da população negra e o problema do racismo na sociedade brasileira, argumentar sobre a legitimidade das ações afirmativas, etc.

Acontece que a influência do pensamento e da postura de Hebe Mattos acabou sendo decisiva para que a produção historiográfica se tornasse bem mais que um instrumento acessório do meu fazer jornalístico. Virei historiadora porque pessoas como ela despertaram em mim o fascínio pelo ofício! Foi lendo Hebe, aliás, que me dei conta da importância de se investigar os caminhos da liberdade da gente negra antes e depois da abolição. É, portanto, com muita alegria e gratidão que celebro sua vida e sua coragem para alterar rotas, modelos e práticas da pesquisa acadêmica, evidenciando a relevância do nosso trabalho na construção de uma sociedade de fato democrática!

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É o poder!

Giovana Xavier

Para celebra-la em palavras lembrei-me do Programa Mulher e Ciência criado pelo CNPq em 2005. A iniciativa, que conta com uma rica base de dados, comprova que ainda que as desigualdades de gênero definam a distribuição de recursos e conhecimentos no Brasil, numericamente mulheres e homens estão em paridade como pesquisadores. Ao mesmo tempo, esse avanço não apaga o difícil desafio de ser mulher e fazer ciência em um país patriarcal e conservador como o nosso. E toda vez que vejo, leio, ouço Hebe Mattos repasso essa história e ponho-me a pensar: como nos anos 1980 uma mulher jovem, mãe, de baixa estatura ousou se aventurar pelos falocêntricos caminhos da história agrária, constituindo-se como referência com o eternamente bombástico Das cores do silêncio? Com o tempo, primeiro na condição de leitora, depois de aluna, hoje de amiga e parceira de trabalho, fui aprendendo a ver que a coragem é um traço, diga-se de passagem sempre ressignificado por Hebe, que após experiências diversificadas de ensino e pesquisa em diferentes partes do globo terrestre, se joga no desafio de voltar no tempo olhando para frente. Ela, que chegou à UFF como docente aos 25 anos, é a mais nova Professora Titular Livre de História do Brasil na Universidade Federal de Juiz de Fora. Aos 59 anos, conquistou a vaga ao estilo lacre de ser, ou seja, trazendo para o centro da discussão as relações entre história, memória da escravidão e o compromisso que nós historiadoras (es) devemos assumir com as transformações através do conhecimento científico que produzimos. Hebe querida, parabéns! Que você siga olhando o passado e mirando o futuro tal qual o pássaro do Adinkra Sankofa.

Conversa brinda com Ana Maria

 

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