#ForaTemer #DiretasJá

Nesta segunda feira, o Conversa de Historiadoras registra a sequência de áudios comprometedores do Presidente ilegítimo Michel Temer.  É uma forma de documentar, também aqui no blog, a dupla intenção do golpe de 2016, prestes a entrar em nova fase: “estancar a sangria” na classe política imposta pelas investigações de corrupção e implementar o programa derrotado nas urnas.  

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml

Temer fala sobre a atuação de Cunha no Impeachment

Liberado áudio de Temer e dono da JBS – completo 

Divulgamos, também, o roteiro da participação do ilegítimo no impeachment fraudulento, de acordo com a Presidente eleita Dilma Rousseff, em matéria do site Viomundo: 

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/relendo-dilma-depois-da-delacao-de-joesley-que-comprou-a-eleicao-de-eduardo-cunha.html

Por fim, convidamos todos a conferir, hoje a noite, o programa Espelho. Lázaro Ramos entrevista Giovana Xavier. Imperdível!

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E a ir às ruas conosco pedindo #DiretasJá.

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SEGUNDO DOSSIÊ 13 DE MAIO

HEBE MATTOS, MARTHA ABREU, MONICA LIMA,  KEILA GRINBERG, GIOVANA XAVIER, ANA FLAVIA MAGALHÃES PINTO.

Sobre o 13 de maio (ou eles passarão)

Hebe Mattos

Em treze de maio de 1888, o primeiro e mais importante movimento social da história do Brasil celebrou sua maior vitória, a abolição legal da escravidão no país. A lei reconheceu formalmente a liberdade de cerca de 750 mil pessoas (em sua maioria ilegalmente escravizada desde 1831, quando foi aprovada a primeira lei de abolição do tráfico de cativos africanos) sem qualquer indenização a seus supostos proprietários.

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Foi uma revolução de veludo onde os últimos escravizados foram os grandes protagonistas. Desde 1885, um governo conservador formado por senhores escravistas reprimia violentamente o movimento abolicionista e as fugas de escravizados. Parecia não haver alternativa a não ser seguir o lento cronograma de indenização gradual dos senhores previsto em lei de 1885. Mas as fugas em massa se acentuaram em finais de 1887 e transformaram ruas, cidades e campos do país em território livre. A lei sancionou um fato consumado.

O que veio depois ficou muito aquém da esperança de abolicionistas e libertos nos dias de festas que se seguiram. A memória da abolição em poucos anos passou a ser celebrada de uma perspectiva senhorial, com sinhazinhas, mães pretas e uma princesa que “doava” a liberdade aos cativos.

Apenas após a constituição de 1988, exatos cem anos depois, o Estado nacional brasileiro começou a encarar e instituição da escravidão como um passado sensível. Afinal, as sociedades pós-escravistas se formaram alicerçadas em um crime contra a humanidade. O texto constitucional reconheceu, pela primeira vez, que o país era formado por populações racializadas, que conviviam, no dia a dia de todos, negros e brancos, com a atualização do estigma, do preconceito, da dor e da injustiça, abrindo a possibilidade de tentar reparar os danos do passado, atualizados no presente.

É a esperança que se renova com o movimento #fazendasemracismo que os grupos detentores do patrimônio imaterial negro do Rio de Janeiro e o ministério público federal estão encaminhando para repensar o turismo histórico nas antigas regiões cafeeiras do Vale do Paraíba. A história do sofrimento, das lutas e da cultura da última geração de africanos, sequestrados e escravizados ilegalmente no Brasil, precisa ser celebrada e conhecida de todos. Para que os seus descendentes tenham suas histórias e memórias reconhecidas, para que todos os que são vítimas do racismo possam ter sua dignidade restaurada, para que possamos todos os brasileiros olhar para o nosso passado de injustiça e buscar sua superação.

Neste 13 de maio, recordamos também o dia seguinte da posse do atual governo ilegítimo e a instauração do que chamei, inspirada no filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, de República dos Cupins.  No filme, o velho edifício na praia da Boa Viagem em Recife, onde se passa a história como uma metáfora para a República de 1988 no Brasil, é finalmente condenado à destruição por uma infestação de cupins criminosamente provocada.

Desde o golpe parlamentar do ano passado, o ataque aos direitos previstos na constituição de 1988 tem sido diuturno. Na atual reforma trabalhista, há mesmo quem tente tornar realidade o velho chiste de que de tão reacionários vão propor revogar a Lei Áurea. Neste 13 de maio de 2017, proponho nos inspirarmos na revolução de veludo iniciada pelos escravizados em 1887, para alimentar a esperança de que chegaremos a 2018, e à comemoração dos 130 anos da abolição, tendo restaurado o espírito cidadão da constituição de 1988 e o estado democrático de direito.

Ainda as festas do 13 de maio

Martha Abreu

Escrevo essas linhas, pensando na festa que deve estar acontecendo no Quilombo São José da Serra, nessa linda noite estrelada de 13 de maio, dia dos Pretos Velhos e do fim da escravidão no Brasil.

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Deve estar perto da hora da entrada do jongo de São José, impactante como sempre.  E já deve estar dando para ouvir  o ponto que, ao som de tambores, estremeceu o Vale do Paraíba naquele ano de 1888: “Tava dormindo angoma me chamou, Levanta povo que o cativeiro acabou”.

As festas do Quilombo de São José ganharam muita visibilidade nesses últimos 20 anos e fortaleceram não só a vitoriosa luta pela terra, como também a formação de centenas de jovens negros que cresceram ouvindo falar de suas histórias e duras vitórias.  No último sábado em Vassouras, ouvi de uma jovem professora negra o quanto estava emocionada por conhecer Toninho Canecão, líder do quilombo. Ela havia crescido com a importante referência dos quilombolas de São José na valorização da cultura negra e no combate ao racismo no Vale do café. Como o Quilombo de Manoel Congo no século XIX, o Quilombo de São José da Serra, no século XXI, é um marco para novas possibilidades de realização da igualdade e da justiça.

Ao lado de Toninho Canecão, e de outras lideranças dos movimentos negros, como Maria de Fátima Santos, de Pinheiral, assistimos  no sábado passado, dia 6 de maio,  a construção de uma dessas possibilidades com a assinatura do TAC (termo de ajuste de conduta) entre os representantes da Fazenda Santa Eufrásia, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O TAC propõe novas formas de visitação aos antigos casarões do café  e inicia o movimento #fazendasemracismo. Entre as estratégias, além de placas, vídeos e folders, que divulguem de forma completa e justa a história dos escravizados, as novas regras envolvem  compromissos com a  visibilidade de grupos culturais negros da região e com os locais de visitação construídos pelos seus próprios descendentes. Como destacou a professora Iolanda de Oliveira, da Faculdade de Educação da UFF, o TAC é um importante instrumento educativo de combate ao racismo em todo turismo de memória desenvolvido no velho Vale do Paraíba.

Felicidade guerreira *

                                                                                              Monica Lima

Nas experiências em salas de aula, no ensino de História, o que aconteceu com os cativos depois do 13 de maio de 1888 sempre se torna motivo de discussão. A imagem novelesca dos recém-libertos vagando pelas estradas, perdidos, abandonados, formando cortejos de retirantes, era e ainda é uma representação recorrente, forte. Com as referências de pesquisas recentes sobre o processo de emancipação e o pós-abolição tornou-se possível desconstruir essa visão e pensar em caminhos de muita luta e da criação de espaços de negociação conquistados, nos quais a permanência na terra também esteve presente. Certamente não foi nada simples, mas tampouco os escravizados estavam despreparados para enfrentar o mundo do trabalho e tudo o que o fim da escravidão significava.

E sim, não só no 13, mas no 14 de maio de 1888, como se sabe, houve festa, por que o fim da escravidão foi uma conquista e conquistas se festejam. A imagem da festa, menos presente na memória coletiva sobre o que veio a seguir da assinatura da lei, nos debates sobre a importância de recordar essa celebração foi equivocadamente associada a uma certa falta de consciência sobre o que haveria de vir. Afinal, isso é fato: não houve nenhuma política de inclusão da população negra que havia sido escravizada ou que descendia diretamente dos ex-cativos. Mas, em nada o festejar significava não compreender toda a dureza da situação – afinal, desde sempre, celebrar é ganhar força para viver e lutar.

Já nas comemorações dos cem anos da abolição em 1988, enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro celebraram a data e em quase todos se pode observar como temas das letras dos belos sambas uma crítica à apologia da assinatura da lei pela Princesa e a presença da desigualdade racial e social. A Imperatriz Leopoldinense cantou “Me mandou uma princesa, que fingiu me libertar”; a Estação Primeira de Mangueira veio com “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”; “O Rio é negro, e o negro luta pelo Rio, buscando a liberdade, enfrentando o desafio”, disse o Império Serrano; e a Unidos de Vila Isabel trouxe a luta de Palmares influenciando a abolição, e o grito: “Valeu, Zumbi! ”.

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O que aconteceu no pós-abolição com a população negra e a presença das marcas da escravidão na mentalidade brasileira nos ajuda a entender como se imagina o imediato pós-13 de maio de 1888. O que não se pode recuperar facilmente é a centelha de esperança que deve ter existido naquelas pessoas e a sensação de que aquilo havia sido uma conquista, e de que se poderia avançar mais nessa estrada de liberdade. Como historiadora me dou a liberdade de imaginar, com certas referências, esses sentimentos nas pessoas, nos batuques, nas quebradas das cidades naquele então. E fico pensando se, junto com o olhar crítico, não devemos, frente ao avanço do retrocesso hoje, lembrar que só a luta traz essa alegria. E que dessa matéria também somos feitos, e nos fortalecemos.

13 de Maio em Sala de Aula

Keila Grinberg

Passei o 13 de Maio em Piraí, conversando com os alunos do curso de licenciatura em História a distancia da UNIRIO sobre o projeto Passados Presentes e a memória da escravidão. Foi emocionante estar ali, bem no meio do Vale do Paraíba fluminense, discutindo o ensino de uma História que não tem medo do passado e nem da luta contra o racismo no presente. Muitos foram de lá direto para o Quilombo de São José festejar. Eu voltei para casa orgulhosa por fazer parte do corpo docente de uma universidade pública que mantém um curso de qualidade agregando alunos do interior do Estado do Rio de Janeiro, pensado para quem não tem condições de deslocar-se até a capital. Afinal, desde 1888 se sabe que, sem investir em educação universal e pública, não conseguiremos deixar para trás as marcas da escravidão na sociedade brasileira.

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13 de Maio, espelhos estilhaçados e a busca da pretessência

Giovana Xavier

Qual o lugar da Lei Áurea na história do Brasil? Dádiva? Conquista? Quais as narrativas ao seu redor? Estas, de certa forma, são perguntas que têm mobilizado os movimentos sociais negros ao longo do tempo. Nos anos 1930, o jornalista negro José Correia Leite, editor do Clarim d´Alvorada, conclamava os “homens de cor” a lutarem pela “segunda abolição”, dado o estado de precariedade em que se encontrava a população negra em São Paulo e em todo o país. Saltando no tempo, chegamos aos anos 1970, quando o poeta e jornalista Oliveira e Silveira, assinalava, no Rio Grande do Sul, o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra. Esta proposição consagrou a data da morte de Zumbi dos Palmares como contraponto ao 13 de maio de 1888, trazendo para o centro da discussão a importância de enquanto negros e negras narrarmos nossas próprias histórias.

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(Foto: Marcha Contra o Racismo/1988, de Januário Garcia).

Embora, em termos práticos e jurídicos, a Lei Áurea tenha se traduzido na construção de um sentido de liberdade extremamente precário para a população negra, o fato é que o dia seguinte à sua assinatura, significou o fim de um Brasil organizado a partir das categorias dicotômicas do senhor e do escravo. Menos do que desaparecer, tais categorias foram ressignificadas na sociedade livre, que aprimorou políticas de racialização baseadas no estabelecimento de hierarquias entre negros e brancos. Ainda assim, a abolição representou a vitória de séculos de lutas e mobilizações negras individuais e coletivas em busca da liberdade. Como disse Lima Barreto “era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez”. As palavras do autor, levado pelo pai ao Largo do Paço para festejar a abolição, em plena Sexta-Feira 13, “data áurea” em que o pequeno Lima completava 7 anos de meninice, mantêm-se vivas.

O monólogo Tragam-me a cabeça de Lima Barreto, estrelado pelo incrível ator Hilton Cobra, sob direção de Fernanda Júlia Onisajé do Núcleo de Teatro Brasileiro de Alagoinhas (NATA) e produção de Naira Silva Fernandes, criadora do Projeto Melanina Carioca, mostra o poder das palavras do escritor em desestabilizar o racismo e desarrumar a afirmação de que nada mudou.

Hilton Cobra - Tragam me a cabeçaO ator Hilton Cobra no monólogo “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”, no Teatro SESC Copacabana/RJ.

O “veneno do conhecimento”, injetado em gerações passadas e presentes de intelectuais negros como o próprio Cobra, diretor da Cia. dos Comuns, também chegou à FLIP 2017, no qual Lima será o grande homenageado. Estas contaminações reatualizam a importância de celebrarmos a abolição como uma conquista da população negra. Uma conquista dolorosa, que coexiste com muitas permanências, é bem verdade.

Em termos das permanências, devemos lembrar que a implementação das cotas raciais em universidades públicas, apresentadas como principal cartão de visitas das vitórias da luta antirracista no Brasil, coexistem com o aumento estrondoso da população carcerária, em sua maioria negra. “Para cada um graduado, 1.000 encarcerados”. Eis aí o perverso passado-presente que nos acompanha e com o qual temos de lidar diariamente, construindo nossas próprias respostas para problemas criados pela supremacia branca do Brasil.

As mobilizações protagonizadas por universitários negros para a implementação das cotas raciais na Unicamp e a recente implementação das ações afirmativas para negros, indígenas e portadores de necessidades especiais no Mestrado Profissional de História da UFRJ fazem parte deste repertório de respostas que “bagunçam os lugares da mesa”, na expressão certeira da estudante de História Taina Santos.

Ao mesmo tempo em que denunciamos as mazelas que o racismo nos impõe, faz parte do nosso processo de cura enquanto comunidade negra praticar a ação afirmativa de contar, celebrar e narrar nossas conquistas com amor e poesia. Praticando este exercício, registro emocionada a beleza da Ocupação Conceição Evaristo, uma exposição em homenagem à história e obra da autora mineira, que fica em exibição até 17 de junho no Espaço Itaú Cultural, em São Paulo.

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Ao ser entrevistada pela filósofa e intelectual pública Djamila Ribeiro, a vencedora do Prêmio Jabuti com Olhos d’água, ensina-nos sobre o poder das narrativas negras: “nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”.

São estes estilhaços que transformam a solidão vivida por Conceição Evaristo, Lima Barreto, Hilton Cobra e tantos outros intelectuais negros que dedicam seu trabalho à construção de projetos coletivos para a comunidade negra, que fortalecem a “pretessência” de humanidade e liberdade que nos constitui como comunidade desde a travessia.

E sem perder o compromisso político de fazer lembrar que as Mulheres Negras somos as condutoras deste bonde, neste 13 de maio vai meu salve a Conceição Evaristo, mãe de Iná e a Marilda Moura, mãe de Ana Liz, que vem a ser mãe de Herman. Ana Liz é uma poetisa e decoradora presa injustamente desde 2015 aguardando julgamento por um crime que não cometeu. Recentemente, a jovem teve negado pela justiça brasileira o direito à prisão domiciliar para cuidar de seu menino. Aparentemente em posições extremas Conceição, Marilda, Ana Liz e todas Nós seguimos estilhaçando o racismo e o machismo que nos subalterniza.

Em busca de nossas próprias versões da história, deixemo-nos contaminar pela linda poesia do poeta e historiador Duan Kissonde. Afinal, não se espantem, pois, o Rio Grande do Sul é terra de “Pretessência”:

Preta a essência que busco

Batuco no lusco-fusco

Do meu próprio ser

Lapido, ancestralizo,

Estudo e questiono

Com muita paciência

Mas jamais abandono

A minha pretessência!

Estamos de pé

Ana Flávia Magalhães Pinto

Muitos são os motivos que me levam a nutrir uma sintonia especial com o mês de maio. Por força da simbologia atribuída a datas diferentes e próximas, este é um daqueles momentos do ano em que, quase que simultaneamente, sou chamada atenção para aspectos dos mais centrais da vida humana, pelo menos tal como a vejo. Dia do Trabalhador, Dia da Língua Portuguesa para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Dia das Mães e Dia da Abolição da Escravidão no Brasil/Dia Nacional da Denúncia contra o Racismo. Liberdade, família, afeto, direitos, cidadania, língua e identidade… Essas datas comemorativas, em particular, ganham importância por serem ocasiões para a avaliação dos resultados obtidos nas disputas de narrativas que têm sido travadas em torno do apagamento e/ou do reconhecimento de pessoas e grupos na história do Brasil, com destaque para as possibilidades de valorização e respeito do vivido por africanas/os e suas/seus descendentes neste país.

Foto da Missa Campal

Infelizmente, o obtido ontem pode não valer para hoje e menos ainda está garantido amanhã. Há dez anos, as Casas Bahia fizeram muita gente se emocionar diante da televisão com um comercial em que no mês da abolição uma mulher negra foi apresentada como a representação de aspectos dos mais bonitos da maternidade em sentido amplo. Ganhe um minuto do dia, assistindo novamente ao vídeo. Neste ano, porém, além de não dialogar com os debates sobre representatividade num país de maioria negra, o que a rede de varejo de móveis e eletrodomésticos nos oferece é a figura de Dona Hermínia, personagem de Paulo Gustavo, que diverte por seus arroubos de violência e descontrole no trato com os filhos e pessoas próximas. Tudo bem que nenhuma mãe ou mulher é obrigada a ser um anjo de candura, mas representações dessa natureza favorecem que tipo de entendimento sobre nós mulheres e que qualidade de relações entre outras mulheres numa sociedade desigual?

A propósito, outro ponto que tem mexido muito com a gente é a questão do trabalho. As reformas forçadas pelo governo que assumiu o poder após o golpe no ano passado têm mobilizado temores sobre “retornos do cativeiro” ou atualizações mais perversas da abolição que indiscutivelmente foi capenga, mesmo que não por falta de empenho e luta promovida por pessoas negras livres, libertas e escravizadas – é bom dizer. A despeito de como entendamos a conexão entre passado e presente, a dificuldade de assumir e enfrentar o modo como o racismo tem operado de modo decisivo na definição e na preservação de direitos e deveres no Brasil tem feito com que muitos setores da sociedade recorram às imagens da escravidão mais como alegoria do que como algo concreto. Talvez seja isso que esteja irritando muitos/as pensadores/as negros/as dos quatros cantos, uma vez que não é de agora que denunciam as continuidades da lógica escravista.

Usemos de franqueza, essa deformidade histórica está na raiz do porquê a agenda da luta contra o racismo (e pela liberdade do jovem negro Rafael Braga – cuja mãe, Adriana Braga, está hoje passando de coração apertado por ele ter sido injustamente condenado a 11 anos de prisão) não tenha se tornado uma prioridade inegociável para setores da esquerda hegemônica, nem tenha tido destaque nas manifestações da Greve Geral do 28 de abril e do 1º de Maio, exceto pelas intervenções de grupos negros, a exemplo da Frente Alternativa Preta em São Paulo (Assista ao vídeo). Há um problema, muita gente sabe e até admite, mas boa parte dessa muita gente ainda não sabe o que fazer, porque enfrentar significa assumir suas próprias inabilidades. A prisão arbitrária de Luciano Firmino, Ricardo Santos e Juraci Santos, por uma semana, não deixa dúvida do alcance da vulnerabilidade de que estamos falando.

Seja como for, certo é que maio marca muitos tempos de luta que se encontram no presente e projetam futuros. Outro dia desta semana, enquanto desfrutava da qualidade do Café Épico, estabelecimento localizado na Lapa carioca, de propriedade de um casal negro, me peguei pensando em como uma música de Nei Lopes e Wilson Moreira dá conta desse meu apego por este mês e tudo o que ele representa, a depender de como nos relacionamos com seus significados.  O Jongo do Irmão Café começa assim: “Auê, meu irmão café! / Auê, meu irmão café! / Mesmo usados, moídos, pilados, / vendidos, trocados, estamos de pé: / Olha nós aí, meu irmão café!”. Para ouvir o resto, é só dar mais um clique aqui.

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#FazendaSemRacismo

Sábado, dia 6 de maio de 2017. Na frente do velho  casarão da  Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, realizou-se a cerimônia pública de assinatura do TAC (Termo de Ajuste de Conduta)  entre os representantes da Fazenda, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro .

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Todos os que ali compareceram, comunidades quilombolas e jongueiras, comissão da igualdade racial da OAB, professores da região, da Universidade Federal Fluminense e da UNIRIO, entre outros, tinham muito o que celebrar!! Virava-se a página de um tipo de turismo que fere direitos da população negra, ao apresentar roteiros históricos de forma incompleta e injusta com os escravizados e seus descendentes,  construtores da riqueza e dos casarões dos vales outrora repletos de café.

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O TAC significa uma nova forma de se fazer a visitação nas antigas fazendas de café, incorporando e respeitando a história do povo negro, de forma que valorize sua resistência à opressão, e o patrimônio cultural construído por ele no Vale do Paraíba. A implementação do TAC pode abrir novas formas de visibilidade e sustentabilidade para as comunidades negras da região, e contribuir para a implantação de um turismo sem racismo.

Ainda iremos comentar com mais calma a conquista desse TAC, mas, por enquanto, é muito importante a sua divulgação como uma atitude educativa e de reparação. Ele precisa estar presente nos roteiros turísticos e nas escolas da região. Entre as muitas cláusulas, recomendo a leitura da de número 7 que determina a construção de duas placas em local visível. Ali estarão registrados marcos importantes da história dos escravizados e, como direito de memória, seus nomes e o de suas famílias.

Não deixem de ler e divulgar!! Vejam também as reportagens em vídeo e texto e no The Intercept.

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Lima Barreto, Hilton Cobra e as muitas vidas que vão além da morte

A matéria-prima da literatura, sem muita possibilidade de fuga, é a vida, seja a vivida diretamente por quem escreve, as que se dão a observar ou ainda as cabíveis na imaginação. Como, então, o registro das vivências com as quais um/a escritor/a trabalha literariamente pode ser prejudicial ao bom resultado de seus escritos? O problema estaria no que vem fraturado na origem ou no que é fraturado pelo contato, pela recepção? Em que termos e quando se estabelece o desencontro entre o/a autor/a, sua obra e o mundo no qual ambos buscaram e buscam existir?

Afonso Henriques de Lima Barreto, nasceu negro, livre, filho de pais também negros e livres, no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881. Ao longo de quatro décadas, fez-se homem numa cidade que se expandia de modo intenso e desigual, e ousou acreditar que ele e o que tinha a dizer mereciam ser considerados. Ousadia não porque vivesse numa sociedade em que, de antemão, as pessoas não pudessem falar. A lei maior republicana defendia a valorização dos talentos e virtudes de seus cidadãos, tal como fizera a carta magna imperial… Brasileiro, não sendo mendigo, analfabeto, mulher ou militar de baixa patente (e olhe lá), qualquer indivíduo estaria apto a exercer até mesmo o direito ao voto.

Lima Barreto

Lima Barreto, 1909.

Ironias à parte, a ousadia começava quando, no trato cotidiano, a conversa se fazia outra. O país de Lima Barreto fora fundado na escravidão de africanos e seus descendentes, onde as possibilidades de liberdade e cidadania para essas pessoas se construíram em paralelo a crenças e costumes que as reivindicavam como incompatíveis e faltas de habilidades à condição de sujeitos autônomos. Ser humano convicto, Lima fez-se, pois, um atrevido incorrigível, que insistia em se incomodar com o “sentimento geral da [sua] inferioridade [ser] decretada a priori (Recordações do Escrivão Isaías Caminha), com o fato de “a capacidade mental dos negros [ser] sempre discutida a priori e a dos brancos, a posteriori” (Diário Íntimo).

Morreu, em 1922, na véspera do dia de finados, deixando o legado de uma vida que resultou em romances, contos, crônicas e mais um tanto de papeis escritos com objetivos diversos, nos quais, de modo natural ou intencional, deu vazão ao que Lélia Gonzalez chamaria tempos depois de “pretuguês”, produto de vidas que promoveram a africanização do português falado no Brasil. A despeito de interdições constantes, que atingiram até mesmo seu direito de andar nas ruas de sua cidade, interagiu com o mundo e criou personagens, diálogos, cenas que pareceram cruas e indigestas demais ao paladar dos adversários/críticos autorizados a dar a medida da sua obra e da sua própria pessoa. É que sua literatura força a presença de homens e mulheres negras e outros indesejados no primeiro plano, num momento de esforço concentrado para entendê-los como parte de um passado em vias de esquecimento e desaparição.

Não por acaso, ao longo de décadas, palavras como ressentimento, mágoa, isolamento, excentricidade, inadequação, estranheza, recalque e impotência se tornaram recorrentes nas mais diversas oportunidades para se falar a seu respeito e de tudo a ele relacionado. Difícil não construir a partir daí a imagem do fracasso ou quando muito de um sucesso trágico, com o qual não cabe estabelecer identificação positiva. Apresentado como sujeito desconectado do que seria a postura pressuposta e regular a outros “homens de cor” mais velhos e da sua geração, a Lima Barreto caberia o lugar de pária, exemplo incomum e inadequado de alguém que teria forçado a barra para falar de um racismo entranhado no paraíso da mestiçagem. Eis as linhas gerais de como se promover a fratura de uma pessoa, de um escritor e de uma obra.

Traga-me a cabeça de Lima Barreto, monólogo interpretado por Hilton Cobra, chega aos palcos, neste conturbado 2017, como um exercício de cura compartilhada com o público, no qual somos convidadas/os a ver o escritor negro como protagonista de um acerto de contas com o passado que cria novas possibilidades de futuro. “E quantas mortes existam, muitas, nelas eu viverei. Pois se em vida me submeti às mais sórdidas humilhações, em morte não cederei” – diz o personagem Lima Barreto, antes do início do seu confronto com as sete teses fundamentais defendidas por um grupo de eugenistas que requerem a exumação de seu corpo, a fim de examinar o cérebro desse homem que deveria ser geneticamente incapaz de produzir intelectualmente bem, porque não representante de uma raça tida como superior.

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Hilton Cobra, em Traga-me a cabeça de Lima Barreto, 2017. Foto: Valmyr Ferreira.

Ao longo de uma hora, temos assim o prazer de assistir à comissão formada por vivos e mortos da estirpe de Renato Kehl, Nina Rodrigues, Afrânio Peixoto, Fernando Azevedo, Gobineau e Monteiro Lobato ser contestada por um Lima Barreto que, a despeito de carregar suas dores, não se constrange ou se intimida mesmo diante de recorrentes tentativas de uso da autoridade dos renomados homens de ciência para controlá-lo e silenciá-lo. Em vez disso, é seu desejo de falar que orienta o tempo, o que é aproveitado para que possa até mesmo dialogar consigo mesmo, com sua ancestralidade, seus fantasmas, afetos e desafetos íntimos.

Sob a direção de Fernanda Júlia, diretora do Nata − Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas e com texto assinado pelo experiente dramaturgo Luiz Marfuz, o espetáculo marca os 40 anos de vida artística e profissional de Cobra e é dedicado à “bem lembrada” Luiza Bairros, mulher que o “fez negro e a partir daí participou de forma decisiva de todas as etapas da [sua] vida”. Ele que é o fundador da Cia dos Comuns (2001); criador do Fórum de Performance Negra (2005) e do Festival Olonadé – A Cena Negra Brasileira (2010); e articulador do movimento Akoben – Por uma política cultural honesta (2012), ações catalizadoras do teatro negro nas últimas décadas.

Tal como a literatura de Lima, o teatro de Hilton Cobra é militante. Negrator, este. Negritor, aquele. Juntos, tornam-se uma presença arrebatadora! Ao se encontrarem no palco, celebram as vidas, as muitas, insistentes e desabusadas vidas negras, tal como debocha Lima em Cobra: “Em 1923, um político brasileiro, cujo nome não convém lembrar, afirmou que, na fusão de duas raças, venceria sempre a superior. E que, por isso, no Brasil, o negro desapareceria dentro de setenta anos. Bem, já lá se vão quase cem. E nós continuamos aqui. De plantão. Calados ou indignados, ressentidos ou revoltados, derrotados ou bem-sucedidos e, mais do que bem-nascidos, seremos sempre muito bem-lembrados”.

A primeira temporada da peça esteve em cartaz até hoje, dia 7 de maio, no Teatro Sesc Copacabana, no Rio Janeiro. Eu, que vi as duas últimas apresentações, saí com a sensação de que muito mais gente teria e merecia dizer sobre sua interação com o espetáculo, que não termina quando as luzes se apagam. Há rumores de que logo, logo estará de volta e que, se fizermos a nossa parte como público, a fúria transformadora do “pretiço barreto escritor” pode ir muito além da capital carioca.

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Uma sociedade nascida estamental sempre será estamental?

É um acinte à democracia o desrespeito com a figura presidencial de Luís Inácio Lula da Silva.  A requisição judicial de presentes recebidos pelo político, no exercício da Presidência da República, depositados no Instituto Lula, é quase inacreditável. É a dignidade presidencial do ex-chefe de estado que basicamente se busca atingir. Como nas antigas sociedades estamentais, onde as pessoas eram consideradas diferentes em dignidade e direitos, às vésperas do dia do trabalho, o presidente operário, com dezenas de titulo de doutor honoris causa de universidades de todo o mundo, não parece merecer o mesmo respeito que seus antecessores da justiça do país que governou.

No estado nacional brasileiro, que desde a sua primeira constituição reconheceu formalmente a igualdade de todos os cidadãos perante à lei, o padrão de comportamento é antigo e remonta mais uma vez aos tempos do chamado “Regresso” (1837). O movimento político garantiu a  centralização política e a generalização do tráfico ilegal de africanos escravizados no Brasil imperial, acionando a velha lógica estamental na nova ordem formalmente liberal.

Na derrota das insurreições federalistas que marcaram o chamado período regencial, lideranças políticas populares foram sistematicamente criminalizadas ou associadas à condição escrava, enquanto opositores de elite eram anistiados. Um comportamento judicial tão injusto quanto atual. Lembremos da condenação recente e absolutamente escandalosa de Rafael Braga. Uma sociedade nascida estamental sempre será estamental?

O país dos elegantes continua atado ao século 19. O STF liberou o teto salarial da alta burocracia federal na mesma semana em que o congresso nacional, quase todo acusado de corrupção, aprovou a retirada de direitos trabalhistas da maioria da população. E isso só foi noticiado como escândalo no New York Times.

A atual mobilização dos trabalhadores brasileiros combate bem mais do que uma pauta neoliberal de reformas econômicas. Os trabalhadores brasileiros lutam pelo direito ao século 20, por seus direitos políticos, civis, sociais e culturais, garantidos na Constituição de 1988.

A truculência ilegal da repressão às manifestações ocorridas durante a greve geral de 28 de abril ameaça os mais básicos direitos civis. A unidade de narrativas da grande mídia, negando os fatos e a palavra greve, aprofunda o ataque, golpeando, a um só tempo, direitos civis e direitos sociais. O escândalo de um governo não eleito aprovando a toque de caixa uma pauta de reformas derrotada nas urnas coloca em cheque a garantia dos direitos políticos e a soberania do sufrágio popular. Um dia antes da greve geral de 28 de abril, povos indígenas em luta pela demarcação de suas terras e pelo direito à diversidade cultural tiveram a entrada barrada no Congresso Nacional.

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A exclusão simbólica dos indígenas do mundo da política e o ataque à dignidade do presidente operário são gestos complementares da pauta estamental do golpe de 2016.

Dizem que a jabuticaba é uma fruta que só existe no Brasil. A prevalência da linguagem dos direitos está em cheque em todo mundo, não apenas no Brasil, mas o país cultiva algumas “jabuticabas” podres difíceis de engolir.

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O fim da era dos direitos?

O texto abaixo foi escrito para ser lido para ouvidos estrangeiros, mas creio que ajuda a entender a profundidade do luto e da incerteza em que as instituições democráticas brasileiras se encontram mergulhadas.  Seguem o original em inglês e uma versão em português para os que estiverem interessados. 

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What global issues are more relevant for contemporary Brazil?// Quais questões globais são mais relevantes para o Brasil contemporâneo?

(Debate realizado no Columbia Global Center do Rio de Janeiro, em 24 de abril de 2014. Texto apresentado por Hebe Mattos. Participantes no Rio de Janeiro: Luiz Felipe Alencastro, Bolivar Lamounuer, Daniela Pinheiro, Hebe Mattos, debatedores por vídeo conferência: Katharina Pistor, Josh Simon, Somini Sengupta, Vishakha Desai, Carol Gluck e Safwan Masri)

Good afternoon to all. I’d like to thank the Columbia Global Center of Rio de Janeiro for this invitation. I really appreciate the opportunity to participate in this debate.// Boa tarde a todos. Gostaria de agradecer ao Columbia Global Center do Rio de Janeiro por este convite. Aprecio muito a oportunidade de participar neste debate.

I chose to discuss just one global issue that seems to me the more relevant in the present contemporary social and political context in Brazil: the emergence of a new popular right wing global public opinion that challenges the understanding that tolerance, expansion of rights and freedom are or should be the main tools of contemporary democracies. It’s a reactionary global movement, stricto sensu, that put religious believes, racism and xenophobia once more in the world political agenda. // Escolhi discutir apenas uma questão global que me parece mais relevante no atual contexto social e político contemporâneo no Brasil: o surgimento de uma nova opinião pública popular de direita que desafia a compreensão de que tolerância, expansão dos direitos e  liberdade  são ou deveriam ser as principais ferramentas das democracias contemporâneas. É um movimento global reacionário, stricto sensu, que recoloca convicções religiosas, racismo e xenofobia mais uma vez na agenda política mundial.

The emergence of this new sociopolitical force in the Brazilian electoral scene was ironically a consequence of the expansion of the size of the market economy in the last decades and a great political surprise. The breakdown of the so called “presidencialismo de coalisão” led to the rupture between the new right wing popular middle class that vote for PMDB and others called physiological political parties and the left wing popular and middle class electors of Partido dos Trabalhadores.//O surgimento dessa nova força sociopolítica na cena eleitoral brasileira foi ironicamente uma consequência da expansão do tamanho da economia de mercado nas últimas décadas e uma grande surpresa política. A desagregação do chamado “presidencialismo de coalisão” levou à ruptura entre a nova classe média popular de direita que vota pelo PMDB e por outros partidos políticos de perfil fisiológico e os eleitores à esquerda, de camadas populares ou classe média, do Partido dos Trabalhadores.

By the other hand, the presence of this new electoral force in Europe and the US has also had a huge impact in Brazil, encouraging Brazil’s old elitist and authoritarian political traditions to “get out of the closet”. Anti-liberal political tradition was always strong in Latin America, both in the left and the right wings. In Brazil, however, acting with effectiveness to reverse electoral results was always more common in the discourse and practice of the right wing, even when it assumed economic liberalism as a political program. “Elite’s coup d’état”,” not necessarily by military hand, much more frequently by elite conciliation, was quite a national tradition, an old fashion phantom of politics in the country, that had seemed to have been overcome with the Constitution of 1988.//  Por outro lado, a presença desta nova força eleitoral na Europa e nos EUA teve impacto em diversos setores da elite econômica e da chamada alta classe média, incentivando velhas tradições políticas elitistas e autoritárias a “sair do armário”. A tradição política anti-liberal sempre foi forte na América Latina, tanto na esquerda quanto na direita. No Brasil, no entanto, atuar com eficácia para reverter resultados eleitorais foi sempre mais comum no discurso e na prática da direita, mesmo quando assumiu o liberalismo econômico como um programa político. O desrespeito aos resultados das urnas, não necessariamente por mão militar, muito mais frequentemente por conciliação de setores das elites políticas, é praticamente uma tradição nacional, um velho fantasma da política que parecia ter sido superado com a Constituição de 1988.

The encounter of the old elitist political culture with the new right-wing force present in Brazilian society and institutions built the social basis of the parliamentary coup against the elected President Dilma Rousseff that happened last year. The cost of the institutional coup for Brazilian democracy is incommensurable, and, up to this moment, there are no political forces or institutions in the country to reverse it. An impeachment based only on political reasons resulted in a non-elected new government, formed by conservative old white men, almost all of them accused of corruption, putting in practice deep constitutional reforms and other political proposals defeated in the last general election.// O encontro da velha cultura política elitista com a nova força de direita presente na sociedade e nas instituições brasileiras construiu a base social do golpe parlamentar contra a presidente eleita Dilma Rousseff ocorrido no ano passado. O custo do golpe institucional para a democracia brasileira é incomensurável e, até o momento, não há forças ou instituições políticas no país para reverter isso. Um impeachment baseado somente em razões políticas conduziu a um governo não-eleito, formado por homens brancos, com idade elevada e conservadores, quase todos acusados da corrupção, colocando em prática propostas de reformas constitucionais derrotadas nas últimas eleições gerais.

My point here is: neither the current ethic crisis, highlighting the pervasiveness of corruption and hypocrisy in Brazilian political practices – nor the present economic recession – would be problems to Brazilian democratic institutions if the electoral result would not have been disrespected in 2016. This opened the door for practices of exception with unforeseen consequences.// Meu ponto aqui é: nem a crise ética atual, que evidencia o caráter pervasivo da corrupção e da hipocrisia nas práticas políticas brasileiras  nem a atual recessão econômica seriam problemas para as instituições democráticas brasileiras se o resultado eleitoral não tivesse sido desrespeitado em 2016. O golpe abriu as portas para práticas de exceção com consequências temerárias e imprevisíveis.

Whatever the electoral force of the new Brazilian popular right wing might be, whatever the discredit of traditional political parties might be, only new general elections can bring some hope to the crisis of political legitimacy that, at this moment, challenge the future of Brazilian democracy.// Qualquer que seja a força eleitoral da nova direita popular, qualquer que seja o descrédito dos partidos políticos tradicionais, só novas eleições gerais podem trazer alguma esperança à crise de legitimidade política que, neste momento, desafia o futuro da democracia brasileira .

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I’d like to thank once more the organizers. Promoting a real dialogue in a global perspective among scholars of different cultural, political and intellectual backgrounds is the right thing to do. I’m pretty sure of that. Interdisciplinary collaboration and episteme interchange are goals to be achieved to make this dialogue truly productive.// Gostaria de agradecer mais uma vez os organizadores. Promover um diálogo real numa perspectiva global entre estudiosos de diferentes contextos culturais, políticos e intelectuais é a coisa certa a fazer. Eu tenho certeza disso. A colaboração interdisciplinar e o intercâmbio entre epistemes são metas a serem alcançadas para tornar este diálogo verdadeiramente produtivo.

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“Essa história é o presente”

Hoje, 23 de abril, se festejou São Jorge em diferentes partes do Brasil, mas no Rio de Janeiro tal celebração, como sempre, assumiu especial importância. Desde a meia-noite se escutaram fogos e vivas por diversos cantos da cidade e muitos admiradores e fiéis do santo se juntaram para aguardar a alvorada em frente aos templos católicos que a ele são dedicados. Durante o dia, a sua imagem circulou por ruas da cidade em cortejo.

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Rio de Janeiro, bairro do Estácio, 23 de abril de 2017. Foto de Fernanda Crespo.

Em terreiros os tambores tocaram para Ogun, orixá trazido das terras iorubanas da África pelos escravizados e que aqui foi identificado com o guerreiro católico. Conta a história que Jorge, guerreiro nascido na Turquia, com trajetória de muitas bravuras, recusou a obedecer a ordem do Imperador romano Diocleciano e por isso foi condenado. Ogun, em sua origem protetor da agricultura, guardião da forja e patrono dos ofícios manuais, na diáspora africana no Brasil passou a ser representado carregando a espada com a qual é reconhecido como o vencedor das demandas. Dois, mas para muitos, um só.

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É verdade que o santo católico do dia é reivindicado como patrono pelas forças da repressão assim como pelos seus combatentes. Mas, nessa noite, nas ruas da cidade dos cariocas, sobretudo nas esquinas do centro velho e do subúrbio e nas comunidades, sobressai sua face de aguerrido defensor dos desfavorecidos. E é dessa face que eu me lembro quando não consigo esquecer a condenação do jovem Rafael Braga.

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E vem também à mente história de Ana Liz. E me recordo dos rostos negros na galeria dos condenados da Casa de Correção do Rio de Janeiro no século dezenove – rico e emocionante acervo de imagens e histórias disponível na Biblioteca Nacional. .

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Junto a essas imagens me chegam também à memória os anúncios de fuga de escravizados nos jornais da cidade na mesma época, trazendo a descrição por vezes detalhada da aparência com a indicação de marcas corporais que assinalavam o sofrimento daquelas pessoas – em sua maioria jovens, muitas ainda crianças.

 

Nesse momento, chega forte a frase de James Baldwin no “Eu não sou seu negro”, excelente documentário sobre a história de luta por direitos dos negros estadunidenses: “a história não é o passado. Essa história é o presente”. Assim como é presente o racismo na nossa sociedade, que não foi revogado com a legislação que aboliu a escravatura nem mesmo com os avanços da Constituição Federal que o reconheceu como crime inafiançável e imprescritível.

Na alvorada de Jorge e Ogun, o que se pode pedir é outra justiça. Essa é a demanda de nossos dias em que crianças e jovens negros continuam morrendo a cada poucos minutos, como registram as estatísticas oficiais assustadoras. É uma demanda forte no nosso país, cujo povo tem todas as razões para duvidar daqueles que foram encarregados da criação, aplicação e ponderação das leis. Que venham outros santos e orixás para ajudar e fortalecer, serão muito necessários porque a luta é grande, e há muitas frentes. Como diz a letra da linda canção de Moacyr Luz, Medalha de São Jorge: “a malvadeza desse mundo é grande em extensão”. Mas, que principalmente possamos nos fortalecer – nós, nesse plano terrenal, juntos, contra essa maldade toda, tão forte e tão antiga.

Está chegando o dia 28 de abril, data da greve geral nacional, convocada para lutarmos contra a perda de nossos direitos, e contra as reformas pretendidas pelo governo – que só viriam a aprofundar a exclusão e a injustiça. Será um momento para que tudo isso possa ser dito em alto e bom som. E que se diga e se repita até lá. Não podemos, nem vamos esquecer. E a perseverança vai ganhar do sórdido, como também disse outra canção feita pra Jorge, lindamente interpretada pelo Soul de Brasileiro.

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