Passados sensíveis (sobre a polêmica em torno de Vazante, filme de Daniela Thomas)

Vazante, novo filme de Daniela Thomas, é obra de longa maturação. Há cerca de 15 anos organizei, com Mariza Soares e Sheila de Castro Faria, uma primeira consultoria de pesquisa histórica para o roteiro então em elaboração. Perdi o contato com a cineasta, ex-colega dos primeiros semestres de minha graduação em história na UFF, depois disso. Só fui reencontrá-la ao aceitar o convite para assistir o corte final, em 2016, pouco antes da estreia no festival de Berlim.

Difícil descrever o impacto que tive ao me deparar com as imagens do filme. O mundo claustrofóbico, violento e intimamente segregado da escravidão das Minas Gerais oitocentista parecia ter saído dos velhos manuscritos com os quais comumente trabalhávamos – inventários post-mortem, processos criminais, registros paroquiais, iconografia de época… e se transformado em cinema, sob o ponto de vista de Antônio, tropeiro/traficante de escravos, português de meia idade e de sua segunda esposa, a menina Beatriz, obrigada a casar com o viúvo de sua tia, 40 anos mais velho, antes de completar 12 anos de idade.

Antônio decide se servir sexualmente de Beatriz apenas depois da primeira menstruação. Com o dote recebido pelo casamento, a família da menina, que vivia em um sítio dentro da propriedade de Antônio, muda-se para a cidade do Serro. Beatriz, sua avó e Antônio tornam-se os únicos brancos na fazenda.  Vivem em meio de africanos recém-chegados do tráfico transatlântico, conduzidos a ferros para serem vendidos como escravos na região, que por vezes fugiam e se aquilombavam nas redondezas, de escravizados e libertos tropeiros, que vigiavam os recém-chegados e conduziam os comboios de mercadorias, e em meio à comunidade de senzala da fazenda – formada por cativos e libertos que administravam o dia a dia da propriedade na ausência do senhor.

A primeira metade do filme é contada sob a perspectiva de Antônio, como um Casa_ Grande_e_Senzala no qual o comércio de mercadorias e de cativos ocupa lugar central. Antônio é uma “ilha branca” cercada de corpos negros que, a maior parte do tempo, o obedecem. Por que?  É na branquitude de Antonio e no seu poder de trazer as mercadorias que chegam dos portos do novo país até aqueles sertões, do sal a trabalhadores africanos escravizados, que se encontram as chaves do seu poder. O filme coloca o espectador no ponto de vista do senhor/traficante de escravos, buscando uma quase empatia, o que provoca angústia e mal-estar.

Antônio não é sádico, mas se mostra funcionalmente cruel. Obriga sexualmente a africana Feliciana, mãe do jovem Virgílio, representada pela atriz Jai Baptista, em atuação soberba, em um estupro continuado e regular. Depende do casal Joana e Porfírio para administração da fazenda nas suas muitas ausências, incluindo os cuidados com sua sogra e a menina/esposa, proporcionando um poder específico e uma relativa autonomia para a comunidade de senzala – o que efetivamente acontecia nas fazendas escravistas dos sertões. O preço pago era a naturalização da tortura, dos ferros e dos açoites, administrados pelos próprios feitores negros, cativos ou libertos, como o personagem Jeremias, sobretudo para fazer dos africanos novos, trabalhadores escravos. Neste jogo de ambiguidades, os personagens negros são defendidos por atuações vigorosas, que fazem o espectador vislumbrar um mundo negro de hierarquias e tensões, mas também de solidariedades e segredos – que, como o branco Antônio, o espectador não conhece nem consegue alcançar. Talvez se o roteiro do filme avançasse um pouco mais neste mundo apenas sugerido, fosse menos doloroso como experiência, sobretudo para plateias negras. Por outro lado, se o fizesse, romperia com a opção de contar a fazenda escravista a partir do olhar branco, raiz do mal-estar que a narrativa provoca.

A partir de um determinado ponto da história, o foco narrativo se desloca de Antonio para a menina Beatriz, que com a avó enlouquecida desde a morte da filha, durante as longas viagens do tropeiro, cresce sob a proteção e os cuidados da comunidade de senzala. A ingenuidade do olhar de Beatriz, um olhar quase infantil, feminino e também subalterno, nos deixa ver um pouco mais do mundo negro que a envolve e nos permite acompanhar sua aproximação com Virgílio. Os dois jovens conseguem viver a paixão que os une antes de se consumar o casamento dela. O quarteto Antônio, Feliciana, Beatriz e Virgílio é o condutor do filme até o seu final trágico e alegórico:  a mestiçagem brasileira como filha da violência e do estupro, o genocídio negro como consequência e a possibilidade de empretecimento como redenção.

Em tempos de “Django Unchained” explodindo a plantation, Vazante escancara o absurdo de imaginar a escravidão como mito fundador de uma nacionalidade brasileira racialmente “democrática”, como ainda faz a leitura canônica de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. É um filme sobre patriarcalismo e racismo, que constrói sua narrativa do ponto de vista da sinhazinha branca “vendida” como esposa aos 12 anos. Apesar ou por causa disso, tem sido quase insuportável para as primeiras plateias negras que o assistiram. Crítica de Juliano Gomes, na revista CINETICA, fala da angústia que o filme suscita e o acusa indignado de reforçar imagens coloniais ao se limitar à velha “impotência da superconsciência branca”. Têm razões desse ponto de vista, Vazante não descoloniza o olhar, pelo menos como leitura imediata.

A crítica de Juliano é, porém, dilacerada, desenvolvida a partir de uma dupla possibilidade de recepção da obra. Muito do que escrevi aqui me foi suscitado por ela. Ao assumir como título “A nova fita branca”, que suponho referir-se ao filme “A Fita Branca“, de Michael Haneke,  que sugere, como raízes do Mal que possibilitou a ascensão do nazismo, as relações familiares da Alemanha de início do século XX, me ofereceu a chave de leitura que busquei desenvolver neste texto: o racismo íntimo como Mal que está na raiz da brasilidade. Os comentários sobre a catarse coletiva durante a discussão do filme no festival de Brasília têm esquecido de se referir sobre o silêncio branco na sala de debates.

Vazante mobiliza passados sensíveis. Quebra com a ética do silêncio sobre nossas identidades racializadas e nos faz brancos ou negros quando o assistimos. Foi desenvolvido em co-produção com Portugal, em um momento em que setores da sociedade portuguesa tentam romper o silêncio racial para combater o mito do bom colonialismo, como a recente série de reportagens do jornal O Público, sobre o tema, ilustra. Com imediata reação de intelectuais conservadores brancos, brasileiros e portugueses.  É um filme que fala sobre racismo e patriarcalismo de um ponto de vista eticamente crítico, mas sociologicamente compreensivo. Vem produzindo reações vigorosas das sensibilidades e plateias negras felizmente presentes e ativas no século 21. Entre o ressurgimento do conservadorismo branco e as demandas de protagonismo dos movimentos negros, os debates e silêncios na recepção da obra são parte integrante da potência do filme.

Vazante desnuda o racismo e o papel fundamental do tráfico de escravizados no colonialismo português e no Estado brasileiro que o sucedeu. No filme, os cativos da África foram interpretados por novos imigrantes africanos, cada vez mais presentes no Brasil de hoje, e os integrantes da comunidade de senzala por moradores dos quilombos das cercanias das locações, sem dúvida remanescentes dos cativos que interpretam e do continuum de comunidades de senzala, camponeses negros livres e quilombolas históricos que, então, formavam o mundo negro das Minas Gerais.

Vazante  é uma experiência estética deslumbrante que provoca mal-estar. Um mal-estar a ser enfrentado. Precisamos falar do trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu. Dos passados de violência em cada família, negras ou brancas. Da violência das mestiçagens que nos constituíram e se reinventaram nas imigrações europeias que se seguiram. De racismo e privilégio. De dor e ressentimentos.

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Gumercindo Dórea: nem vilão, nem herói_Resposta a José Nêumanne, por Laura de Oliveira.

A historiadora Laura de Oliveira, Professora do Departamento e do curso de Pós-Graduação em História da UFBA, nos escreveu solicitando publicar uma resposta à crítica ao seu livro “Guerra Fria e Política Editorial”, publicada no blog do jornalista José Nêumanne, no Estadão. Em defesa do debate intelectual aberto e de alto nível, Laura de Oliveira hoje é a historiadora do blog.

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Gumercindo Dórea: nem vilão, nem herói/ Resposta a José Nêumanne por Laura de Oliveira (contato Laura.oliveira@ufba.br)

No dia 03 de setembro, José Nêumanne publicou em seu blog “Direto ao assunto”, vinculado ao jornal O Estado de S.Paulo, matéria intitulada “Herói tratado como um vilão”, em que faz crítica direta ao meu livro “Guerra Fria e Política Editorial” (Maringá, PR: EDUEM, 2015). Entre outros adjetivos, o jornalista o qualifica como “stalinista”, “grotesco” e “sofrível”, que por si só justificam meu direito de resposta.

O livro é resultado de pesquisa de doutoramento que desenvolvi durante quatro anos na Universidade Federal de Goiás (UFG), sob orientação da professora Dra. Fabiana de Souza Fredrigo, com período de estágio na Georgetown University, nos Estados Unidos, onde contei com supervisão do professor Dr. Bryan McCann. Ao longo do período, realizei pesquisas em arquivos nos dois países, entre os quais o Arquivo Municipal de Rio Claro (SP), o Arquivo Nacional (RJ), a Mudd Manuscript Library da Princeton University (EUA) e a National Archives and Records Administration, NARA II (EUA). As pesquisas possibilitaram acesso a abundante documentação acerca da história da Edições GRD, fundada pelo Sr. Gumercindo Rocha Dórea em 1956 e objeto da pesquisa.

O rigor na coleta das fontes, a qualidade da análise e os méritos do texto historiográfico produzido a partir delas vêm sendo reconhecidos pela comunidade intelectual brasileira: em 2014, fui finalista do Prêmio de Teses CAPES/MEC e laureada com menção honrosa. No ano seguinte, venci o Prêmio Manoel Salgado de Teses, promovido pela Associação Nacional de História (ANPUH), o mais importante prêmio concedido a teses em História no Brasil. Em seguida, a ANPUH encaminhou o manuscrito à editora da Universidade Estadual de Maringá, filiada à Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU) e identificada pela qualidade científica e técnica dos seus títulos.

A recepção a “Guerra Fria e Política Editorial” tem sido positiva.  Em 07 de novembro de 2015, o jornalista Claudio Leal publicou matéria (“Editor que revelou Rubem Fonseca combatia comunismo para os EUA”) no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, baseando-se em informações contidas no livro e em entrevista que fez comigo por e-mail. Em 2016, a historiadora Lucia Grimberg (UNIRIO) publicou resenha sobre o livro na Revista Brasileira de História, onde afirmou que “a historiadora Laura de Oliveira desenvolve uma reflexão relevante e atual sobre o campo das direitas políticas”.

A Edições GRD é reconhecida nos meios editorial e literário como a principal responsável pela instituição de um campo para a ficção científica no Brasil. Em seus mais de sessenta anos de atividade, ela foi responsável pela tradução pioneira de autores como Ray Bradbury, Robert Heinlein, Robert A. Lee, Ievgeny Zamiátin, Abram Tertz e outros, assim como pelo lançamento de nomes importantes da literatura nacional, como Rubem Fonseca, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Nélida Pinõn, etc. Sua importância para a cena cultural brasileira é, portanto, indiscutível.

É do mesmo modo inquestionável que a literatura de ficção científica constitui um gênero plural, em que se encaixam subgêneros como ficção especulativa e fantasia, mas também uma gama de temas, como catástrofe ambiental, parapsicologia, inteligência artificial, vidas extraterrenas, etc. O tema “totalitarismo” e sua abordagem frequentemente distópica constitui uma dessas veias, cujo pioneirismo é atribuído ao emblemático livro do russo Zamiátin, We ou Nous autres (traduzido pela GRD como “A muralha verde”, em 1963).

A Edições GRD é, entretanto, bem mais do que isso. Gumercindo Rocha Dórea, com quem a editora se confunde, é um personagem central e instigante da história política brasileira. Sua trajetória atravessa a rearticulação do movimento Integralista após o fim do Estado Novo, os antecedentes imediatos do golpe civil-militar de 1964 e a presença dos Estados Unidos no Brasil (para usar a expressão emblematizada por Moniz Bandeira). Nesse sentido, diferentemente do que fizeram – com muita competência – autores como Mary Elizabeth Ginway, decidi investigar a história da editora focalizando a política e atribuindo à ficção científica um papel acessório, ao contrário do que o texto de Nêumanne faz parecer.

Em entrevista que realizei com o Sr. Gumercindo Dórea em sua casa, em São Paulo, em 2009, tomei conhecimento do convênio que ele estabeleceu, entre as décadas de 1950 e 1960, com uma agência de Estado norte-americana chamada United States Information Agency (USIA). A informação a mim confiada já havia constado em matéria jornalística assinada por Oswaldo Camargo no Jornal da Tarde, publicação de O Estado de S.Paulo, em 1986. A pesquisa documental confirmou não apenas o convênio da GRD com a USIA, mas o modo como o programa (Book Development Program) financiou mais de sessenta editoras brasileiras ao longo de vinte anos (1953-1973). No caso específico da GRD, o patrocínio fomentou dezenas de títulos de história, sociologia e ciência política cuja tônica fundamental era o anticomunismo.

Nêumanne menciona a trajetória de Gumercindo como integralista, assim como as relações entre a GRD e a Livraria Clássica Brasileira (LCB), de Plínio Salgado (que também foi financiada pela USIA para a produção da coleção “Estrela do Ocidente”), objetos do capítulo 1 do livro. No entanto, não menciona o conteúdo dos capítulos 2 e 3, que se referem, respectivamente, ao comprovado envolvimento de Gumercindo Dórea no golpe civil-militar de 1964 e às suas relações com a chamada Guerra Fria cultural travada pelo governo norte-americano.

O capítulo 2 demonstra as relações entre a GRD e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), instituição carioca detentora de vínculos com o governo e com empresas norte-americanas, responsável pelas principais articulações políticas que presidiram o golpe em 1964.  O instituto possuía um núcleo específico para a produção e a circulação de livros anticomunistas, onde a editora GRD cumpriu papel central, conforme já indicaram historiadores como René Armand Dreifuss, Laurence Hallewell e Martina Spohr Gonçalves.

No capítulo 3, baseio-me em farta documentação para descrever o funcionamento do programa da USIA, demonstrando como a publicação de livros sem identificação do financiamento pelo Departamento de Estado constituiu-se como estratégia de propaganda largamente utilizada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Entre 1964 e 1967, a divulgação dessas práticas pela imprensa norte-americana gerou alarde naquele país, com jornalistas e parlamentares (da oposição, republicana, e da situação, democrata) bradando contra a propaganda ideológica subterrânea empregada pelo presidente Lyndon Johnson – algo que havia começado durante o governo Eisenhower e que se manteria, pelo menos, até o governo Nixon. A imprensa norte-americana chegou a dizer que eles estavam se comparando ao “ardil do inimigo soviético”. Ironicamente, a capa do meu livro, que Nêumanne qualifica como “grotesca”, foi extraída do caderno Book Week, do The Washington Post de 05 de fevereiro de 1967, que produziu uma das matérias em questão. Uma leitura atenta do livro não deixaria escapar essa informação.

book_weekCapa do caderno “Book Week”, do The Washington Post, reproduzida em “Guerra Fria e Política Editorial”. National Archives and Records Administration (NARA). USIA Records.

A celeuma instaurada nos Estados Unidos demonstra que aquele país, como o Brasil, é eivado de contradições. De um lado, a história da sua política externa, particularmente aquela dirigida à América Latina, remonta ao apoio a regimes ditatoriais, bem como à utilização de práticas escusas de propaganda para influenciar o jogo político. Esse fato já foi amplamente anunciado, inclusive, por historiadores norte-americanos da importância de Thomas Skidmore e James Green. De outro lado, a democracia continua sendo inegociável para considerável parte do povo norte-americano, que não hesita em questionar as contradições de seu governo quando explicitado o uso do argumento democrático para fins outros que não assegurar a soberania e a emancipação de todos os povos. Não por acaso, naquele país, meu trabalho também tem obtido reconhecimento no ambiente acadêmico dos chamados “brasilianistas”.

Com efeito, o capítulo 4 do livro dedica-se ao universo da ficção científica, subsidiando a tese de que o anticomunismo se constituiu na veia central do programa editorial da GRD, assumindo contornos específicos na linguagem da literatura distópica. A análise rigorosa de romances como “A muralha verde” (Zamiátin), “Balada de Estrelas” (Altov e Juravleva), “Começa o julgamento” (Abram Tertz), “A 7ª. Questão” (Robert A. Lee) e outros, assim como dos seus paratextos editoriais (orelhas, prefácios e posfácios escritos por Dórea), não deixa dúvidas a esse respeito. A realidade soviética era afirmada pelo editor como uma ameaça que rondava o Brasil, o que convocava os leitores brasileiros à reação política encarnada naquilo que as direitas brasileiras convencionaram chamar de “Revolução de 1964”.

É, no mínimo, simplória a interpretação de que Gumercindo Dórea seja um vilão na história do Brasil, tampouco vassalo dos Estados Unidos. Ele foi um ator importante, que ocupou diversos espaços associados às elites políticas brasileiras ao longo do século XX. Se, em sua atuação, envolveu-se em estratégias pouco democráticas, como a da propaganda subterrânea norte-americana, essa é a questão central que o livro tematiza e problematiza. Gumercindo Dórea não é tampouco herói, e o livro lhe faz justiça quando reconstrói sua trajetória com honestidade intelectual e baseado nos procedimentos mais caros à prática historiográfica: análise rigorosa das fontes, interpretação e narrativa acurada.

Engana-se quem pensa que a Guerra Fria cultural não tenha existido, ou que seus estratagemas tenham ficado no passado. No momento político atual, depois que a Câmara e o Senado norte-americanos aprovaram leis de criação de uma agência de propaganda nos moldes da USIA (Strategic Communications Acts de 2008 e 2009), dez anos depois de ela ter sido extinta pelo presidente Bill Clinton, o debate sobre o tema faz-se mais do que necessário. Nesse sentido, na contramão do argumento, sublinho que José Nêumanne acaba por fazer propaganda de “Guerra Fria e Política Editorial”, embora, em nenhum momento, lhe tenha feito justiça.

 

 

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Do Congo ao Valongo

Hoje o quilombo vem dizer
A favela vem dizer
A rua vem dizer
Que é nós! Por nós!

 

Com esse estribilho, em alto bom som, Mano Teko celebrou, cantando, o aniversário do Filhos de Gandhi no Rio de Janeiro, na noite de 12 de agosto passado na Praça dos Estivadores, zona portuária da cidade. E estiveram ali Agbara Dudu, Banda Òrúnmilá, As Três Marias, Grupo Dandalua e Maracatu Baque Mulher, entre outros grupos e artistas, marcaram presença na praça – antigo Largo do Depósito – festejando a existência e história deste afoxé, com discursos e canções que exaltavam a importância da consciência e resistência da cultura negra local.  Lá também se apresentou o Afóxé Filhas de Gandhi – cabeças iluminadas e autônomas, como se qualificam – trazendo sua dança, música e uma fala afirmativa e poderosa que entusiasmou a assistência de uma forma única.

 

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Na ocasião festiva, em diversos momentos se destacou o reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio cultural da humanidade. O Cais, como símbolo da chegada de africanos e africanas escravizados nessa cidade, no país e no continente americano, hoje atravessa os discursos e se coloca não apenas como porta de entrada das muitas áfricas que aqui chegaram, mas também como referência de um caminho afirmativo para a nossa história e identidade. Uma vez cientes das dores e injustiças, trazendo-as vivas na memória, se pode celebrar a beleza e força vital de nossos ancestrais, em honra dos quais se dá prosseguimento à luta e se faz a festa.

Com toda a razão, o fato do Cais do Valongo ter sido alçado à patrimônio cultural que os humanos compartilham veio a favorecer um incremento de atividades em que grupos negros da cidade ocupam com diversas expressões de sua arte, as praças e espaços públicos da região portuária. E tem que ser assim, deve ser assim. São essas pessoas que trazem uma história que deve ser especialmente visibilizada, afirmada, e valorizada naquele entorno. As pedras pisadas do local de desembarque que, assim como o Cemitério de Pretos Novos, tanto medo e dor testemunharam, se apresentam dessa maneira dando um sentido ao reconhecimento coerente com as justificativas de sua proposição. Evidentemente isso não é de hoje. Trata-se de um sítio histórico de memória sensível, símbolo material do desembarque de milhões de africanos escravizados nas Américas, mas é também um espaço que relembra o poder de resistência e de criação de nossos antepassados. Foi ao redor do Cais onde se constituíram espaços – como o Quilombo da Pedra do Sal – e se criaram expressões da herança viva dessa ancestralidade, em religiosidades, sonoridades, movimentos. Proteger esse patrimônio significa também resguardar as muitas expressões culturais de matriz africana que ali existem há muito tempo e cujas histórias ultrapassam os limites da região, da cidade e mesmo do nosso país.

 

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Cerimônia da lavagem simbólica do Cais do Valongo (2014). Foto de João Maurício Bragança.

 

Na mesma reunião da UNESCO em que se deu o reconhecimento do Cais do Valongo, se conferiu o mesmo título a Mbanza Congo, cujo centro histórico passou a figurar na lista de patrimônios culturais da humanidade. Esta cidade, capital do antigo reino do Congo, foi denominada pelos portugueses como São Salvador e, sobretudo a partir da conversão da realeza local ao Catolicismo, ainda no século XV, se estabeleceu uma relação estreita entre os seus governantes e o Estado português.  A justificativa da candidatura toma por base os achados arqueológicos que sinalizam a presença de vestígios do antigo palácio do manicongo – título do soberano local – e do primeiro templo católico construído em África ao sul do Saara, em 1491,  conhecido como Kulumbibi. Destaca também a árvore sagrada denominada Yala Nkuwu, o Lumbu (Tribunal Consuetudinário) de MBanza Congo e assinala a importância da influência cultural que a sociedade do Congo exerceu nas Américas por meio da diáspora africana.

 

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Vista da cidade M’banza-Kongo, capital do reino do Congo. Fonte: Description of Africa, de Olfert Dapper (ca 1635-1689), gravura, 1686.

 

Muitos súditos do reino do Congo e habitantes de áreas próximas foram escravizados e transportados pelas rotas atlânticas até as Américas, e em especial para o Brasil, onde, em sua maioria, deram entrada pelo porto do Rio de Janeiro. Alguns ficaram na cidade, outros foram levados para o interior do atual estado do Rio e outros tantos conduzidos para Minas Gerais. As heranças africanas trazidas desta região da África para o Brasil se evidenciam sob muitas formas, e se podem observar especialmente em manifestações culturais como a Congada. Marina de Mello e Souza sinaliza a existência de referências à festa da Congada no Brasil desde o século XVII – como se pode ler em seu livro Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa da Coroação de Rei Congo – e Martha Abreu, em diversos estudos sobre essa e outras festas afro-brasileiras, releva sua importância como espaço criado pela população negra para expressar suas religiosidades, identidades, alegrias e também sua luta e resistência.

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Congada em Piedade do Rio Grande – MG. Foto de Livia Monteiro.

 

De um lado e de outro do oceano, esses dois espaços que se conectavam com as rotas transatlânticas da travessia dos tumbeiros não tiveram tanto contato direto pois, quando o desembarque de cativos foi transferido pelo Marquês de Lavradio para a enseada do Valongo, em fins do século XVIII, Mbanza Congo não era mais a sede de uma região tão importante para o infame comércio. Ainda assim, muitas africanas e africanos que se identificavam como congo foram levados a cruzar o oceano como cativos, embarcados em portos da baía de Cabinda e do Loango, até meados do século dezenove. Na região do Valongo muitos destes chegaram e foram postos a venda em seus armazéns. Alguns circularam pelas ruas, trabalharam, criaram laços, e uns poucos conseguiram a liberdade. Recentemente, já no século vinte e um, migrantes da região que outrora fazia parte do antigo Reino do Congo e arredores, chegaram e povoam a região do Cais do Valongo sob outras formas. Surgem assim na área aqueles que trazem áfricas contemporâneas, que circulam e imprimem com sua presença outras modalidades de expressão da diáspora. E tudo isso acontece trazendo como novas e antigas bases as marcas visuais de identidade, o som dos tambores, a roda, a gira, o batidão e a poesia.

 

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Sobre esperança e democracia

O texto a seguir foi encaminhado à Folha de São Paulo (Opinião: Tendências e Debates), no dia seguinte à condenação de Lula pelo incrível caso do “triplex” (13/7). Foi publicado, com alguns cortes de citações e com uma foto escolhida pelos editores, que lhe acrescentava sentidos, em 01/08. Um dia significativo: véspera da autorização ou recusa, pela Câmara dos Deputados, do pedido do MP para processar Michel Temer criminalmente e dia de mais um adiamento do julgamento do pedido de habeas corpus de Rafael Braga. Decidi republicá-lo aqui no blog, em versão ampliada, para registrar, com os devidos créditos, as citações de alguns textos e entrevistas que o inspiraram. Para fins de arquivamento e com uma tênue esperança de estar errada quanto aos resultados da votação de hoje no Congresso. #ForaTemer #DiretasJá

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Sem esperança, não há democracia

Em uma recente roda de conversa em que participei em São Paulo no Centro Ruth Cardoso, com Marcelo Ridente e Renato Janine Ribeiro, em comemoração aos 60 anos da Fulbright, Marcelo nos fez todos constatar que, pela primeira vez, desde o final dos anos 1970, olhávamos com pessimismo para o futuro do Brasil. Tentei me consolar da triste realidade refletindo sobre o caráter internacional da crise que vivemos, mas logo lembrei que o pessimismo à brasileira estava fundado em algo mais do que o sentido reacionário, stricto sensu, dos eventos sociais que estão na base da onda conservadora que assola o mundo.

O avanço reacionário no Brasil tem um travo mais amargo. Ele vem junto com a nostalgia de um ordenamento estamental de sociedade, inscrito sobretudo no desrespeito à soberania popular. Um desrespeito naturalizado na velha formulação de que o povo não sabe votar, o que torna possível aprovar, sem qualquer constrangimento, um programa de reformas, em muitos aspectos inconstitucional e contrário a direitos humanos fundamentais dos quais o Brasil é signatário, inequivocamente derrotado nas urnas.

O avanço reacionário no Brasil está inscrito também, e principalmente, na dificuldade do nosso judiciário, quase todo recrutado nas classes médias e altas tradicionais, em julgar de forma imparcial os integrantes do grupo racial e social a que pertence a maioria dos seus membros, o que resulta em “uma certa dificuldade de prender os iguais” nas palavras do Ministro Barroso do Supremo Tribunal Federal.

Nossas instituições jurídicas, ainda que funcionando livremente, não foram capazes de impedir o golpe parlamentar de 2016, perpetrado por congressistas quase todos acusados, com provas, da prática do crime de corrupção passiva. Representantes das mais diferentes instâncias do judiciário brasileiro podem condenar, sem provas concretas e a penas exorbitantes, jovens negros portadores de pinho sol que ousam sair às ruas em manifestações políticas ou ex-operários que ousaram ser Presidente da República e tirar o Brasil do mapa da fome, mas mantém livre e exercendo mandato parlamentar, com base em noções aristocráticas de reputação e honra, senadores de famílias de elite com flagrante de corrupção passiva e obstrução da justiça denunciados pelo Ministério Público.

#LIbertemRafaelBraga

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Golpes parlamentares podem derrubar presidentes de forma ilegítima, a justiça pode legalmente produzir injustiças, mas nada é mais grave do que a perda de confiança nas instituições democráticas que estas ações desencadeiam. Alguém ainda espera que o congresso vá autorizar a investigação das gravíssimas denúncias contra Michel temer? Sem esperança, não há democracia.

Desde sua primeira eleição, em 2002, tem havido comparações entre o papel histórico de Luís Inácio Lula da Silva no Brasil com o de Abraham Lincoln, nos Estados Unidos. Pode-se dizer, no mínimo, que a emergência política de ambos foi consequência das chamadas revoluções de mercado, ocorridas nos dois países nas décadas que precederam seus governos, na primeira metade do século XIX nos Estados Unidos e na segunda metade do século XX no Brasil. Lincoln e Lula buscaram aprofundar o que percebiam como efeitos positivos da generalização da economia de mercado, mas também democratizar os seus efeitos.  Lincoln nunca foi um abolicionista radical, nem Lula um socialista, como sempre registraram seus críticos à esquerda. Mas as sociedades estamentais que eles desafiaram não os puderam perdoar. Como a velha elite estamental sulista derrotada, os golpistas brasileiros estão à procura de seu John Wilkes Booth. O medo às vezes mata a esperança. Sérgio Moro se apresenta para o papel, trocando a pistola pela toga.

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João José Reis: DISCURSO EM AGRADECIMENTO AO PRÊMIO MACHADO DE ASSIS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 20 de JULHO de 2017

Sou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Prêmio Machado de Assis. Sendo um historiador da escravidão (embora não apenas) permitam-me imaginar a concessão do prêmio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem àqueles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravidão — penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, muito especialmente, Machado de Assis, que dá seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, além de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravidão, no que acompanho um de seus mais destacados intérpretes, Sidney Chalhoub, também historiador da escravidão.

Outro historiador, o acadêmico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: “A escravidão foi o processo mais importante e profundo de nossa história.” Não podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de suas vítimas; e o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.  Ela deixou marcas indeléveis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de várias espécies – as desigualdades sociais e raciais, o racismo sistêmico, o racismo episódico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (já chamado “racismo virtual”), hoje o principal veiculo de pregação de todos os ódios, inclusive do ódio racial.

O Brasil precisará de esforço hercúleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informação, mais educação e ações afirmativas, umas entrelaçadas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas últimas décadas. Entre elas, destacaria três: as cotas educacionais, o ensino da história afro-brasileira e a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.

As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades públicas já resultaram em mudança na cor dessas instituições, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prestígio – Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas estão dando certo.

A introdução, no ensino fundamental e médio, de disciplina voltada para a história e a cultura afro-brasileiras, com ênfase na história da África, prometia uma equiparação a conteúdos sobre a história da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a África voltou a ser emparedada naquela acepção, denunciada por Cruz e Souza, de “África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, África dos suplícios e das maldições eternas”, enfim, a África que predomina na grande mídia, refém de uma “história única”, na expressão certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Torço pelo retorno da África às escolas.

Uma história de outras vozes está representada na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tráfico luso-brasileiro de cativos. Essa instituição acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas Áfricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa mensal de 530 reais. Pois a comunidade da UNILAB esteve ameaçada recentemente com o corte desse minúsculo item do orçamento nacional. Urge defender a UNILAB!

Políticas de inclusão racial, além do esforço para educar e informar todos os brasileiros sobre a imensa contribuição dos africanos e seus descendentes para a formação histórica e cultural do país, são, entre outras, medidas necessárias – não sei se suficientes – no combate ao legado nefasto da escravidão. Prefiro acreditar que seja produto da ignorância, e não desfaçatez, gestos de delinquência simbólica como batizar um restaurante chique de Senzala. Desejo, desejamos um país onde não seja preciso uma jovem negra empunhar, numa recente manifestação de rua, cartaz que dizia: “A casa-grande surta quando a senzala aprende a ler.”

Invocar a escravidão passou à ordem do dia. Com uma maioria de detentos negros (cerca de 60%) amontoados em espaço exíguo, nossas prisões são comparadas a senzalas onde não é servida a boa comida do restaurante Senzala. Comparação talvez injusta, porque a vida de seus escravos valia mais para o senhor do que parece valer a vida dos presos para os governos e a sociedade que, conivente, se cala. Preso não conta como cidadão, ele é preto, ou, se branco, é também preto de tão pobre – já acusou Caetano Veloso. A precariedade da cidadania, filha da desigualdade social e racial, tem sido vinculada ao passado escravista com insistência. Ainda na semana passada, Milton Hatoum escreveu em sua coluna de O Globo: “Quase quatro séculos de escravidão, e mais de um século de uma democracia manca, interrompida por várias ditaduras, só poderiam gerar uma sociedade extremamente desigual.”

Há, no entanto, outra dimensão inquietante nessa ordem de questões, que é quando, em vez de alegoria, a escravidão se insinua como dado de realidade efetiva ou em construção.

Como no passado, o ciclo começa com o tráfico – de trabalhadoras e trabalhadores sexuais, domésticos, industriais ou rurais. Imigrantes legais e ilegais são com frequência resgatados de porões insalubres nas grandes cidades, onde trabalham, moram e morrem. Na zona rural chovem denúncias de pessoas submetidas a trabalho (forçado, exaustivo, degradante) análogo à escravidão, matéria que hoje mobiliza pesquisadores e membros da Justiça do Trabalho numa discussão que já ganhou foro internacional.

A recentíssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Luís Alexandre farias, “as mudanças criam condições legais e permitem que a legislação banalize aquelas condições que identificamos como trabalho análogo ao escravo”. E a respeito do princípio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maurício Ferreira Brito, que encabeça a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravidão voluntária: “A depender do que se negocie”, ele alertou, “você pode legalizar práticas do trabalho escravo.” Seria uma graça que este procurador fosse tão ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licença agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. Não me convencem as ressalvas da lei: se isso não é trabalho degradante, o que mais será?

Sobre a reforma trabalhista, aceitem um exercício de imaginação pessimista. Não resisto a comparar o “trabalho intermitente” ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo à rua para alugar ele próprio sua força de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locatário. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprirá fazê-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poderá, como autônomo intermitente servir em vários estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascerá, assim, o professor ao ganho.

Some-se a recente Lei da Terceirização e alcançamos o quadro quase completo de precarização radical do trabalho. A terceirização agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na segurança ou na limpeza, poderão doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e fazê-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascerá, então, o professor de aluguel.

Por felicidade, já passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedicação exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um professor pesquisador. À minha universidade e aos órgãos de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agradeço ter podido escrever a obra historiográfica agora premiada. Dela já falou, com generosidade, o professor José Murilo de Carvalho.

Queria apenas acrescentar que meus livros, artigos, capítulos em coletâneas etc, foram e continuam a ser escritos com paixão pelos temas de que tratam, sem o selo de garantia da objetividade perfeita exigida pelo positivista. Busquei, sim, a compreensão weberiana. No entanto, não permito que minhas inclinações ideológicas e minha utopias pautem as interpretações que faço dos processos, episódios e personagens sobre os quais escrevo. História panfletária, nem pensar! Me curvo às evidências que brotam dos arquivos, e elas não cessam de surpreender com um universo muito mais complexo do que caberia numa explanação fácil e porventura maniqueísta, que divida o mundo entre o herói e o bandido.

Meus livros são povoados de escravos que fogem de toda parte para toda parte, criam quilombos nas periferias da Cidade da Bahia ou nos mangues de Barra do Rio de Contas, se levantam em nome de Alá e de Ogum, mas nesses escritos também se encontram escravos que negociam com seus senhores um cativeiro menos opressivo. Escravos que querem e senhores que permitem a acumulação de bens e a compra da alforria. A maioria de meus personagens têm nomes, subjetividade, não são peças passivas da máquina escravista. Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, João Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina, homens e mulheres à frente das revoltas escravas baianas. O alufá Rufino José Maria, liberto malê que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatlântico de gente. Domingos Sodré, adivinho e curandeiro nagô que fornecia beberagens a escravos para amansar seus senhores, mas era ele próprio senhor de escravos. Manoel Joaquim Ricardo, dono de dezenas de escravos, liberto haussá que prosperou a ponto de ser contado entre os homens que formavam os 10% mais ricos de Salvador. E alguns outros mais…

Contudo, termino com um aviso aos navegantes: a ascensão social aconteceu para poucos escravos desembarcados ou nascidos no Brasil. A maioria morreu escravizada. No balanço final, fico com Joaquim Nabuco, que escreveu:

Não importa que tantos dos seus filhos espúrios tenham exercido sobre irmãos o mesmo jugo, e se tenham associado como cúmplices aos destinos da instituição homicida, a escravidão na América é sempre o crime da raça branca, elemento predominante da civilização nacional…

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25º Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha

Neste mês, completam-se 25 anos da realização do I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana. Entre os dias 19 e 25 de julho de 1992, mais de trezentas participantes de 32 países compartilharam experiências e formularam direcionamentos para agendas comuns. Os debates foram feitos tanto por quem esteve ali como representante de alguma organização ou coletivo quanto pelas participações independentes, sendo a presença das afro-brasileiras bastante ressaltada.

Como observado por Ochy Curiel − intelectual-ativista do movimento antirracista e lésbico-feminista da América Latina e do Caribe, no artigo “La Red de Mujeres Afrolatinoamericanas y Afrocaribeñas: un intento de acción política transnacional atacado por la institucionalización” −, naquele momento, a experiência nos movimentos sociais era algo bastante recente para muitas, faltando ainda estrutura e maturidade organizativa para que fosse possível, logo de cara, atuar a partir daquela escala ampliada. Mesmo assim, havia um desejo de impulsionar um espaço político transnacional que resultou na criação da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas (REDLAC); e a instituição do 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha.

De lá para cá, esforços têm sido feitos para manter a REDLAC em pé, embora as condições efetivas para a realização dos objetivos estejam bem aquém do necessário. Isso, no entanto, não quer dizer que as questões colocadas a partir dali tenham se perdido. O que temos visto é a construção de caminhos diversos e distintos para mobilizar mulheres negras, fruto da influência das chamadas pioneiras e da apropriação da agenda por outras protagonistas. Além do que possível verificar no atual site da Rede, há um empenho de se aprofundar a perspectiva transnacional que pode ser medida pela crescente popularização do 25 de julho pelo continente.

Para ficarmos no que tem acontecido no Brasil, e sem a pretensão de dar conta de tudo o que está sendo feito, o primeiro exemplo a se destacar é o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, o Latinidades, que chega à sua décima edição com tema “Horizontes de liberdade: afro-futurismo nas asas da Sankofa”. A despeito dos reveses agravados pelo golpe, no sentido de enfraquecer as ações voltadas ao combate do racismo e do sexismo num país de maioria negra, as organizadoras desta edição convidam a uma reflexão coletiva da máxima relevância, sobretudo neste momento de aguda crise democrática: “como a arte e os saberes de mulheres negras, assim como nossas lutas históricas e contemporâneas por direitos e por liberdade, incidem no presente? Como podem nos orientar a pensar e a criar o futuro? O conceito de Sankofa, dos povos Akan, nos ensina que tudo aquilo que foi perdido, esquecido, renunciado ou roubado no passado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou recuperado no presente”. O Festival acontecerá novamente em Brasília, no Museu da República, na Semana da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, entre os dias 27 de 30 de julho. Confira a programação completa no site e também pela página do Latinidades no Facebook.

Latinidades

Na cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, acontecerá, pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo. Iniciada no contexto de preparação para a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, de 2015, esta manifestação também marcará a celebração dos dez anos da incorporação do nosso 25 de julho no calendário oficial do estado do Rio de Janeiro, por meio da Lei n. 5.071/07 – algo que em nível federal só foi conquistado em 2014, via Lei n. 12.987. Ação convocada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras – RJ, a marcha está marcada para o domingo 30 de julho, com concentração no Posto 4 da Praia de Copacabana, às 9h.

Marcha RJ

Em Salvador, num esforço de ampliação do alcance do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e de construção de uma agenda comum de intervenção, o Odara − Instituto da Mulher Negra deu início, em 2013, ao Julho das Pretas. A quinta edição traz o tema Pela Vida das Mulheres Negras, “destacando a necessidade de mais ações coletivas e políticas públicas que visem ao enfrentamento da violência recorrente e sistemática contra mulheres e meninas negras”. Neste ano, além de promover uma feira para empreendedoras negras, está garantida a realização de uma conferência com a intelectual-ativista afro-estadunidense Angela Davis no auditório da Reitoria da UFBA, que veio ao Brasil para dar um curso sobre Feminismo Negro Decolonial, em Cachoeira-BA.

Julho das Pretas BA

Também em São Paulo, por força do grupo da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em articulação com a Aparelha Luzia, teve início neste último sábado o Julho das Pretas, um “ciclo de eventos para a construção da Marcha do #25deJulho”. A noite contou com a intervenção de mais vinte mulheres, que agitaram o espaço que já se tornou conhecido como um território de afirmação negra na cidade de São Paulo. No ano passado, a Marcha reuniu de duas mil mulheres negras no centro da cidade de São Paulo. E a agitação vista no primeiro dia do mês diz que este ano também será marcante.

Julho das Pretas SP

Esses e outros eventos têm apontado para uma dinâmica bastante interessante que articula ativismo, produção de pensamento de e sobre mulheres negras e formulação de políticas públicas. Longe de se tornar possível graças a uma relação bem resolvida com a academia e os organismos de Estado, as ações iniciadas a partir do movimento social de mulheres negras, interessadas num diálogo transnacional, têm criado possibilidades de ampliar e fortalecer o entendimento das mulheres negras a respeito dos significados de suas trajetórias e experiências, algo que certamente cria outras possibilidade de se fazer e contar histórias.

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“Não vamos mais caber!”

Com essa frase, David Alfredo e Luis Araújo, dois jovens negros, marcaram o estribilho do texto que leram na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, no Museu do Amanhã, situado na zona portuária do Rio de Janeiro. O documento, escrito por eles, foi nomeado como Manifesto Baobá e apresentado no dia 24 de junho de 2017, antecedido pelas danças e cantos do Jongo da Serrinha, no espaço de entrada do museu. Esse foi um dia de festa na Praça Mauá, em frente da qual fica o museu, que foi ocupada antes, nesse mesmo dia, pelo Afoxé Filhos de Gandhi homenageando Mãe Beata e o Jongo da Serrinha lembrando nossas raízes africanas e saudando São João, entre outras presenças e lembranças.

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Jongo da Serrinha em frente ao Museu do Amanhã, na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, em 24 de junho de 2017

O Manifesto reivindica territórios a serem conquistados e ocupados pela juventude negra, e lembra o reduzido espaço que lhe foi destinado, o não-lugar que lhe coube historicamente. Declara: “Estamos transbordando os limites, rompendo as barreiras, fissurando os muros…” Traz a memória da dor “em cada gota de suor que cai da pele negra cansada de esforço de pesar uma tonelada e valer muito menos no mercado. ” E afirma que “No pranto de cada mãe, que enterra um filho, no som de cada tiro que leva a vida, no afiar de cada faca que desce o morro, no choro de cada criança que nasce, é possível escutar: Não vamos mais caber!

Não mesmo.

Em recente visita de trabalho realizada à Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, no Campus dos Malês, em São Francisco do Conde – Bahia, meus olhos se encantaram com a vida pulsante nas salas de aula, corredores e espaços comuns daquela instituição acadêmica. Criada no primeiro governo Lula, assinalando desde seu início uma identidade singular e marcadamente plural, tendo como política universitária o estímulo e apoio à presença de estudantes africanos dos países de língua oficial portuguesa. Uma experiência única e fundamental para o Brasil, que deveria ser cada vez melhor compreendida e estudada – e certamente apoiada, garantida em sua continuidade e expansão. Em que outro lugar do país se pode encontrar uma maioria absoluta de estudantes negras e negros e escutar os muitos sotaques do Português falado em África e línguas crioulas do continente, somadas aos falares brasileiros com diversos acentos, sobretudo, do Nordeste? E no dia da África, em 25 de maio, realizarem uma festa trazendo a junção de muitas sonoridades e movimentos, dos diferentes instrumentos, das cores de roupas e adornos, e os músicos de RAP das áfricas e brasis que, nas suas idas e vindas, (re)encontraram seus ritmos e poesias?

 

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Festa do dia da África, celebrada por estudantes africanos e brasileiros com muita música e dança, na UNILAB – Campus dos Malês, São Francisco do Conde – BA, em 25 de maio de 2017

Novas realidades vem surgindo. Atravessam os muros, enriquecem e iluminam o cenário enrijecido e obscuro de espaços tradicionalmente brancos e elitistas. Surpreendem às vezes, jovens negras e negros, por sua força, altivez e autonomia. Há quem os esperasse agradecidos – como, e por quê? Certamente sabem que aquilo e quem lhes sustenta não está lhes esperando do lado de dentro. Mas, muitos reconhecem que há aliados, e que houve desbravadores, pioneiros. Nada disso se fez e se faz sem histórias que vêm de longe. Mas, o que de novo há é que nos últimos anos a onda negra cresceu e vem vindo, lavando com sua força, como uma bênção, as praias antes restritas do saber e do (re)conhecimento. Como disse o Manifesto: vem ocupando os espaços, desconhecendo os limites que lhe foram impostos. Ainda bem.

Assenhorear-se de novos territórios pode significar também estabelecer regras e cuidados com nossa história e memória, pressionando e dialogando no sentido de fazer respeitar o que nossos ancestrais viveram e a forma como queremos que tudo isso seja lembrado. Nesse sentido, um dos resultados é o evento que se realizará no próximo dia 1º de julho e faz parte do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da  Fazenda Santa Eufrásia, inaugurando novas conversas sobre o turismo de memória no Vale do Café, no estado do Rio de Janeiro.

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Tudo indica que essas conquistas podem fazer dos brasileiros cidadãos melhores, e assim nos fortalecermos em tempos tão difíceis e desesperançados, para lutarmos por nossos direitos: os que conquistamos e os que ainda queremos obter.

Que não caibamos nesse restrito espaço de vergonha pública que querem nos confinar.

Obrigada, David Alfredo e Luis Araújo. Viva o Manifesto Baobá!

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