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Um mundo em uma foto*

O Conversa de Historiadoras desta semana tem a honra de publicar um depoimento de Ana Célia da Silva sobre uma foto histórica.  Ana Célia, Professora Doutora Aposentada da UNEB e militante do Movimento Negro é referência na área de educação antirracista, tendo publicado numerosos trabalhos e atuado de uma forma  fundamental na construção da Lei 10.639, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira.  Neste texto, Ana Célia retorna a 1981 através de uma foto, quando, com outros militantes, buscava ampliar as dimensões da luta do movimento negro no Brasil.

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Foto de Juca Martins/Olhar Imagem. “Manifestação durante a reunião da SBPC, Salvador, BA, 1981”. Arquivo Edgard Leurenroth/Unicamp. A foto foi publicada pela primeira vez no jornal Voz da Unidade, em 1981. Em 2018, foi capa dos dois volumes de Cultura Negra, Novos Desafios Para os Historiadores, organizado por M. Abreu, G. Xavier, E. Brasil e L. Monteiro. Foi a historiadora Martha Abreu que fez chegá-la às mãos de João J. Reis e daí até Ana Célia

Uma foto: o Movimento Negro Unificado-BA e a Reunião da SBPC em 1981 em Salvador

Ana Célia da Silva

Professora Doutora Aposentada da UNEB

Militante do Movimento Negro 

Fui levada por Albérico Paiva, professor e militante da Pastoral Afro, a uma reunião do MNU, quando ainda era o Grupo Nêgo, em maio de 1978. As reuniões aconteciam na Praça Municipal de Salvador, no “Cemitério de Sucupira”, como apelidamos o jardim suspenso construído pela prefeitura no local onde se erguiam os prédios da Biblioteca Central do Estado e o Diário Oficial, destruídos por um incêndio.

Nessa primeira reunião do Grupo Nêgo, os militantes discutiram a participação em uma série de palestras que a prefeitura de Salvador iria promover durante a semana que antecedia o 13 de maio. Uma das palestrantes era uma militante do Rio de Janeiro, Lélia Gonzales. Participamos do seminário proposto pelo prefeito em exercício, Edivaldo Brito, que é negro, e aprofundamos relações com Lélia, que se tornaria uma espécie de madrinha do Movimento Negro Unificado na Bahia, fundado em 7 de junho de 1978. A fundação do MNU nacional aconteceria pouco tempo depois, em 18 de junho, em São Paulo. Para o ato enviamos como nossos representantes o dançarino Kal Santos e sua esposa, que hoje vivem na Itália. Levavam na bagagem uma carta na qual o Grupo Nêgo reconhecia e se integrava ao Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial – MNUCDR –, nome original do MNU.

Tudo isso aconteceu ainda durante a ditadura. Lembro-me que após o primeiro congresso do MNU em Salvador, realizado em 1980, os agentes do DOPS nos perseguiram pelos vários locais onde havíamos obtido licença para realizar o evento, a exemplo da Associação dos Funcionários Públicos, na rua Carlos Gomes. Finalmente, nos dirigimos ao  Goethe Institut (Instituto Brasil-Alemanha), território estrangeiro, localizado no corredor da Vitória, que nos acolheu.

No MNU-BA conheci os primeiros militantes e fundadores, Gilberto Leal e Leibe Carteado, geólogos, Astor, engenheiro civil, Edson Tosta Passarinho, um dos fundadores do Adé Dudu, primeiro Grupo de Trabalho para homossexuais negros do MNU, Luiz Alberto, operário da Petrobrás, que foi conduzido por nós por três mandatos consecutivos a Deputado Federal, Cao Santos, operário, Jane, psicóloga, Leninha, professora, Maria, Lino de Almeida e Manoel Almeida, sociólogos autodidatas, e muitos outros que vieram logo depois, inclusive Luiza Bairros, Wilson Santos, Adriana, Mary, a primeira mulher do movimento negro a usar os cabelos crespos naturais. Era manequim, como chamávamos na época as modelos, e muitos outros e outras cujos nomes não me ocorrem mais. (Desculpem, mas também não lembro os sobrenomes de alguns).

Três anos após a sua fundação, e um ano após seu primeiro congresso, o MNU realizou uma manifestação, dentro do campus da Universidade Federal da Bahia-UFBA, em Ondina, onde estava sendo realizada a Reunião Anual da SBPC, no período de 8 a 15 de julho de 1981.

Não lembro se o MNU tinha algum trabalho inscrito na Reunião, mas a questão racial não estava sendo discutida, especificamente, em nenhuma mesa ou grupo de trabalho. Então resolvemos levar esse debate nas diversas mesas e grupos dos quais participávamos como plateia. Nos intervalos, nos reunimos e decidimos organizar uma manifestação. Wilson Santos, um dos fundadores do primeiro grupo de homossexuais do MNU, o Adé Dudu, lembrou-me que houve um encontro de entidades negras presentes à Reunião da SBPC. Foi nessa reunião que decidimos realizar a passeata.  Convergimos para um local central do campus e, portando cartazes feitos de cartolina, iniciamos uma marcha gritando palavras de ordem. Tomados de surpresa, os participantes da SBPC nos olhavam entre curiosos e assustados. Participantes negros e pardos de outros estados começaram a aderir à marcha, seguidos por alguns brancos.

Tenho uma foto desse momento, que está perdida. Para minha grata surpresa, o historiador João José Reis me enviou outra foto daquele tempo, que é esta aqui apresentada. O fotógrafo é o talentoso Juca Martins, e quiçá seu arquivo guarda outras fotos, feitas sob outros ângulos, do mesmo evento. A foto se encontra publicada nas capas da obra, em dois volumes, intitulada Cultura Negra, festas carnavais e patrimônio negros (FAPERJ/EDUFF, 2018). Foi a historiadora Martha Abreu, uma das organizadoras desse livro, que fez chegá-la às mãos de João. Vamos à foto.

Entre outros temas registrados nos cartazes carregados pelos manifestantes naquele dia, no maior deles, à direita, pode-se ler, completando as palavras cortadas: “Memorial Zumbi. Parque histórico cultural. Por uma cultura de libertação”.  Outro dizia: “Por uma ciência a serviço dos trabalhadores e das etnias oprimidas”; outro ainda denunciava a folclorização da cultura negra; um terceiro denunciava a violência contra o negro, velho e persistente problema. Pelo menos dois cartazes demandavam uma releitura de nossa história: aquele que exigia “Uma revisão da história do Brasil”, outro que bradava “Pelo ensino da história e cultura negra”. E a figura de Zumbi se entrelaçava a esta reivindicação, tendo-se tornado patrono das lutas dos negros e negras brasileiras. Já então o movimento negro levantava a bandeira da introdução de nossa história e nossa cultura nos currículos escolares do Brasil, o que só viria a se concretizar pela Lei 10.639/03, portanto em 2003, 22 anos depois daquela passeata!

E agora, passo a descrever personagens retratados naquele histórico momento das lutas negras, pessoas que não devem ser esquecidas:

Lino de Almeida (1958-2006) sobressai na foto, usando uma camisa preta com letras brancas, onde se lê “ZUMBI: 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.” E embaixo, “Movimento Negro Unificado”.  Ele então portava dreads bem curtos, que estavam começando a crescer e chegariam até a cintura. Piscava nervosamente, me olhava e sorria. Sociólogo autodidata, foi um dos fundadores do MNU-BA, e antes disso do Núcleo Cultural Afro Brasileiro.  Lino foi um dos militantes mais proeminente do MNU-BA. Tinha relações com o movimento negro americano. Era radialista e atuou no cenário audiovisual, realizou o documentário “A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhi”, ganhador do prêmio Petrobrás Cultural. Introduziu vários textos de Malcom X e Marcus Garvey como leituras nos cursos de formação de quadros do MNU. No ano de 1986 participou do III Congresso Internacional da Tradição dos Orixás e Cultura, em Nova York, juntamente com Mãe Stella, o Ilê Aiyê, eu e várias pessoas da religião do Candomblé. Fez contato com os Panteras Negras e um deles, Stokely Carmichel (1941-1998), ele trouxe a Salvador.

Hamilton Bernardes Cardoso (1953-1999) aparece no lado esquerdo da foto, segurando cópias do manifesto que produzimos para distribuição. Nascido em Catanduva, SP, jornalista, militante do PT e muito reconhecido na sociedade. Foi casado com Dulce Pereira, militante também do PT e do MNU-SP. Tiveram dois filhos. Desfeito o casamento, soubemos que ele estava doente. Teve um fim trágico, suicidando-se por afogamento, no rio Tietê, em São Paulo. O MNU-BA prestou-lhe uma bela homenagem colocando uma coroa de flores no dique do Tororó, em Salvador.

Ismael Ivo está ao lado de Lino na foto, de calça branca curta, sem camisa. Ele iria brilhar como dançarino e coreógrafo nos palcos brasileiros e internacionais. Foi aliás na Bahia, dois anos após aquela passeata, que conheceu o coreógrafo afro-americano Alvin Ailey  – fundador do American Dance Theater  –, alavancando sua carreira internacional. Ismael viveu durante algum tempo em Salvador, onde frequentava as reuniões do MNU. Se apresentava junto com os demais dançarinos do grupo de teatro do MNU, formado por, além dele, Nadir Nóbrega, Tição, Kal Santos, entre outros.

Luiza Bairros (1953-2016). Do lado esquerdo da foto, logo atrás de uma garotinha, está Luiza, olhando para o lado. Ela se tornaria uma das mais importantes militantes e intelectuais negras brasileiros, tendo sido inclusive ministra da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial-SEPIR, com status de ministério, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, depois de ter ocupado cargo equivalente na Bahia, sob o governo de Jacques Wagner. Fundou, juntamente com outras militantes, o Grupo de Trabalho das mulheres do MNU. Dividiu a militância com uma carreira acadêmica que a levou a fazer um Mestrado em Sociologia na UFBA e a cursar o Doutorado na Michigan State University (EUA), também em Sociologia. Não chegou a concluir seu Doutorado, pois a militância falou mais alto. Foi companheira durante muitos anos do militante Jônatas Conceição da Silva, do GT de Educação do MNU.

Ana Celia. Eu mesma, logo atrás de Luiza, usava na ocasião uma calça preta e uma camisa branca com o retrato de Lélia Gonzales. Fundei, juntamente com Jônatas Conceição, Gildália Anjos, Carlos Menezes, entre outras, o Grupo de Trabalho de Educação Robson Silveira da Luz. A esse GT juntaram-se depois Lindinalva Barbosa, professora de Letras e Egbome do Terreiro do Cobre, Landê Anawale, Tata, poeta e escritor, e muitos outros.

Gilberto Leal. Atrás de mim, aquele rapaz alto de boina branca é Gilberto Leal. Ele foi um dos primeiros fundadores do Grupo Nêgo, precursor do MNU-BA. Tinha muita preocupação com o branqueamento das mulheres que vinham para a entidade. Lembro que quando eu cheguei, com os cabelos em transição, ele me sugeriu que retirasse o alisado e os deixasse crespos, que iria assim ficar ainda mais bonita. Gilberto passou a ser o arquivo ambulante do MNU. Nos reuníamos atrás da biblioteca Central, nos Barris, e aguardávamos a chegada de Gilberto, que sempre trazia uma bolsa grande cheia de artigos, panfletos, manifestos e mosquitos para distribuição nas noites das Terças-feiras da Benção, no Pelourinho. Se fosse preso não sei como explicaria a posse desse material. Gilberto esteve à frente da fundação do Conselho de Entidades Negras –  CONEN, do qual é um dos dirigentes.

Jônatas Conceição (1952-2009). Atrás de Gilberto, meu irmão, Jônatas Conceição, doutor em Literatura, poeta e radialista, de quem vemos apenas sua larga testa. Na época era recém-chegado de São Paulo, onde cursava o Mestrado em Literatura na UNICAMP, mas que veio a concluir na UFBA. Realizou diversas atividades no MNU, tanto no GT de Educação quanto em outras frentes, porque tínhamos dupla militância, a específica nos GT e a geral, que consistia na luta contra o racismo, em cursos de formação de quadros, participação em coordenações municipal, estadual e federal, passeatas, e junto a outras entidades. Como parte do GT de Educação, Jônatas orientou nossa participação na Escola Aberta do Calabar, no Maledebalê, no Ilê Aiyê, do qual era um dos diretores. Coordenou com Gildália Anjos cursos de alfabetização com mais de quarenta salas em bairros de Salvador. Um deles tinha o nome de Paulo Freire, ficava na igreja da Capelinha de Deus Menino, contava comigo e Luiza Bairros, e tinha ainda o Projeto Banca, desenvolvido por Gilda Nascimento na Escola Mãe Hilda, do Ilê Aiyê.

Muitas crianças participaram da passeata, pois era habitual o MNU trazer nossas crianças para os atos públicos. Infelizmente não consigo identificá-las. Algumas eram filhas e sobrinhas de militantes, e são hoje militantes negras nas diversas entidades existentes em Salvador. Eu espero que a divulgação desta foto faça com que elas se reconheçam e se apresentem.

Devo finalmente mencionar mais uma pessoa que participou daquela marcha, mas que não aparece na foto. Trata-se de Anilson, militante do PT dentro do MNU. Participava da luta antirracista, mas não lembro de ele ter participado de algum GT. Eu tenho uma foto de Anilson comigo na passeata. Ele está com o braço para cima, segurando um cartaz. Anilson teve uma morte súbita, saía de uma reunião do PT, foi acometido de  infarto fulminante, caiu na rua, morreu. Não consigo lembrar como foi seu funeral. Minha mente apaga memórias traumáticas.

E ficam assim registradas as lembranças, que esta foto me suscitou, de um momento histórico do Movimento Negro na Bahia. Um momento em que negras e negros bateram com força na porta da Ciência, gritando alto e bom som: nós também queremos entrar.

*Este texto contou com a colaboração do historiador João José Reis nas informações sobre os personagens e para a revisão final.

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Protagonismo negro nos 13 de maio!

Martha Abreu e Carolina  Dantas

Os historiadores têm mostrado, já há algum tempo, o quanto o 13 de maio de 1888 dependeu principalmente das lutas dos movimentos abolicionistas, das ações da população negra e das fugas em massa dos últimos escravizados. A abolição foi fruto de um movimento social vitorioso que celebrava a igualdade de todos perante a lei. Sem dúvida, a conquista ficou incompleta e a igualdade é até hoje uma bandeira de luta de todos os brasileiros que percebem o racismo como uma das maiores tragédias de nosso país.

Mas os movimentos sociais negros nunca abriram mão das expectativas geradas em maio de 1888 e fizeram do dia 13, a longo dos séculos XX e XXI, uma oportunidade para rememorar as conquistas, denunciar a liberdade incompleta, criar novas pautas de luta e fortalecer a autoestima da população negra com encontros políticos festivos. Professores, escritores, músicos e festeiros negros continuaram protagonizando a luta pela igualdade nas comemorações de maio em vários lugares do Brasil, como têm deixado evidente a produção recente de historiadores sobre o pós-abolição.

Em 1909, por exemplo, vinte e um anos depois da data da abolição, foram intensas as comemorações no Rio de Janeiro, pois também se festejava a entrada na Câmara dos Deputados do primeiro político que assumia, em público e com orgulho, ser negro: Manoel da Motta Monteiro Lopes.  Nas festividades programadas, ficaria evidente que o passado em comum, marcado por memórias do cativeiro e pela campanha abolicionista na década de 1880, era sistematicamente acionado nas ações políticas do presente pela igualdade e cidadania plena.

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Manoel da Motta Monteiro Lopes

Entre as inúmeras atividades, destacou-se a romaria ao túmulo de José do Patrocínio no Cemitério do Caju.  Diante de um dos maiores heróis negros da abolição, o deputado eleito Monteiro Lopes jurou defender sua “[…] raça fraca e oprimida diante dos insubmissos que ainda não compreenderam que a lei do 13 de maio de 1888 firmou a igualdade dos brasileiros”.

Bem próximo, o músico negro Eduardo das Neves apresentava-se, no bairro do Méier, no subúrbio, onde executou suas modinhas ao violão.  O irreverente crioulo Dudu, como gostava de ser chamado, declamou a poesia “Lucia, a escrava”, de Castro Alves, poeta que combateu a escravidão.   Com tintas muito fortes, a poesia mostrava um dos aspectos mais dramáticos da escravidão, a venda de uma mulher escravizada.  Ao mesmo tempo, tudo indica que também para as comemorações de maio de 1909, Eduardo das Neves teria gravado, pela internacional Odeon, o que considero ter sido o hino popular da abolição da escravidão, “A Canoa Virada”.

A canção registrava musicalmente as conquistas e as alegrias de 1888, lembradas ao menos vinte anos depois! As palavras e expressões utilizadas eram fortes e desconcertantes: havia chegado “a ocasião da negrada bumbar”; “o preto já é livre, já que não tem senhor”.  A canção refere-se ao 13 de maio, “o dia da liberdade”, como um grande momento, de reais mudanças e de sonhos pela igualdade. A escravidão parece estar representada por uma frágil embarcação, uma canoa, que, literalmente, havia virado.

“A Canoa Virada” circulou pelo Brasil todo, como tenho encontrado notícias em diversos registros de folcloristas e cantadores, ao longo do século XX!!

IMG_7272Eduardo das Neves.

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13 de Maio 2020

Mais um 13 de maio. O Conversa de Historiadoras vai registrar as celebrações do dia para não quebrar a tradição. Começamos indicando a Jornada em Defesa do Direito à História da Gente Negra, a partir das 9 horas, no instagram @historiadorxsNegrxs. Acompanhem!!!!

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NOTA DE REPÚDIO

PUBLICAMOS A SEGUIR NOTA DE REPÚDIO à Resolução nº 11 de 20 de março de 2020 do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Em plena crise mundial da pandemia do Corona Vírus, não podemos deixar passar em branco um ataque dessa monta aos direitos constitucionais dos quilombolas de Alcântara.

O Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara (STTR), o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (SINTRAF), a Associação do Território Quilombola de Alcântara (ATEQUILA), o Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara e o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (MABE) e as instituições abaixo subscritas, cientes da Resolução nº 11 de 20 de março de 2020 do Gabinete de Segurança Institucional a Presidência da República publicada no Diário Oficial da União em 27.03.2020 vem a publico repudiar veementemente o teor da referida Resolução que buscar estabelecer ao arrepio de leis nacionais e internacionais as diretrizes para a expulsão das comunidades quilombolas de Alcântara de seus territórios.
Consideramos a medida arbitrária e totalmente ilegal, uma vez que afronta diversos dispositivos legais de proteção dos direitos das comunidades remanescentes de quilombo, bem como, tratados e convenções internacionais referidos aos direitos destas comunidades.
Por fim, não admitimos quaisquer possibilidades de deslocamentos reafirmamos nossa irrestrita e ampla defesa às comunidades quilombolas de Alcântara no direito de permanecer no seu território tradicional na sua inteireza e plenitude. Acionaremos todos os meios e medidas possíveis para resguardá-las.
Atenciosamente.
Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara (STTR).
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (SINTRAF).
Associação do Território Quilombola de Alcântara (ATEQUILA).
Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara e o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (MABE)

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A polêmica dos calendários entre a história e a matemática

Uma polêmica tão divertida quanto inusitada tomou conta das redes sociais de historiadores na virada de 2019 para 2020. Estava ou não se encerrando uma década?

A polêmica é inusitada porque, a rigor, todo ano se conclui uma década. Uma década sem qualquer outro adjetivo é apenas um período de 10 anos. Imagino que serão eletrizantes os balanços da década que vai finalizar em 2022, iniciada no polêmico ano de 2013.

A polêmica é divertida porque tem origem em uma discussão sobre o calendário gregoriano que rege a contagem de tempo na chamada era cristã. Há muitas outros calendários e formas de contar o tempo em outras culturas e povos, mas nesse calendário, organizado em unidades de cem anos tendo por referência simbólica o nascimento de Cristo, o século “I”  D.C. começa no ano 1 e termina no ano 100, como não poderia deixar de ser.

Todo professor de história ensina a seus alunos que o século XIX começou no ano 1801 e terminou em 1900, o século XX em 1901 e terminou no ano 2000 e o século XXI começou no ano de 2001. Assim, a “segunda década do século XXI”, iniciada em 2011, só terminará no fim deste ano de 2020.  Estarão livres as comemorações e os balanços, ainda que 2011 tenha sido um ano sem graça.

Apesar disso, pelo menos desde o oitocentos, a partir do ano 10 de cada século, as décadas do calendário passaram a ser referidas, sobretudo por historiadores, pela dezena que comanda a sequencia dos anos: décadas de dez, vinte, trinta, e assim por diante.  São recortes de uma beleza poética ou matemática, como preferirem, que passaram a ser privilegiados em textos históricos, jornalísticos ou literários.

Processo semelhante aconteceu até mesmo com os séculos, entendidos apenas como períodos de cem anos. O século XIX, já vimos, começou em 1801 e terminou em 1900, mas os especialistas adoram falar nos “oitocentos”, que abarcam os cem anos que começaram no último ano do século XVIII (1800) e terminaram em 1899.

A força comunicativa  das décadas comandadas pela dezena de abertura acompanha nossas referências à contagem do tempo há muito tempo. As décadas de “noventa” emprestam uma beleza solitária aos anos que fecham cada século  (1800, 1900, …), seguidos de um novo ano 1 – que abre uma nova contagem do tempo, por vezes um novo milênio, como nos anos 1000/1001 e 2000/2001.  Na última passagem de milênio, o mundo celebrou, com razão, duas vezes: o começo do último e solteiro ano de fim de século (2000) e, em seguida, o começo do novo milênio do mesmo calendário (2001).

Escrevo este post para lembrar que o conversa de historiadoras está meio devagar quase parando, mas continua no ar com todos os textos até agora publicados e muita coisa mais em sua biblioteca. Disto isto, arquivo por aqui meu texto de balanço da década de 10 deste século 21 no Brasil, publicado na Folha de São Paulo em primeiro de janeiro do novo ano.

E desejo a todos nós melhores ventos e final feliz nesses novos anos 20!

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O nazismo é de extrema direita (por Keila Grinberg e Monica Grin)

Em visita ao Yad Vashem, museu e memorial em homenagem às vítimas do Holocausto em Jerusalém, nossos governantes insistiram na tese delirante e absurda de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Ela é falsa. O nazismo foi um movimento de extrema-direita surgido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Seu líder, Adolf Hitler, chegou ao poder em 1933 com um discurso eugenista de oposição ao liberalismo e às esquerdas. Uma de suas peças de propaganda era justamente o combate ao comunismo.  “Converter o comunista é a tarefa do movimento nacional-socialista (nazista)”, escreveu em Minha Luta, em 1925. Mais adiante, no mesmo livro, ele reafirma: “o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”.

O ditador não estava brincando. Iniciou seu governo cassando os mandatos dos deputados do Partido Comunista da Alemanha. Em março de 1933, o partido foi proibido. Seus líderes foram presos, torturados e confinados em campos de concentração. E isto foi apenas o começo: acreditando serem racialmente superiores, os nazistas empreenderam extermínio sistemático dos judeus, a quem consideravam racialmente inferiores. Tratamento especialmente cruel era dirigido aos judeus de esquerda, “opositores do regime”. A estrela amarela, marca de distinção e humilhação que todos os judeus deviam portar bordada às suas roupas era, no caso destes, amarela e vermelha.

Que o Partido Nazista é de extrema direita é consenso entre historiadores e especialistas no mundo inteiro. Quem duvida pode consultar os sites do Museu do Holocausto dos Estados Unidos, do Memorial do Holocausto em Berlim ou do próprio Yad Vashem. Ou, como fez esta semana o presidente do Brasil, caminhar por suas galerias. Ao que parece, ele perdeu a oportunidade de aprender quem foram as vítimas do nazismo: além dos judeus, os nazistas encarceraram, torturaram, escravizaram e mataram ciganos, eslavos, homossexuais, socialistas e comunistas, entre tantos outros. A negação deste fato é um desrespeito flagrante à memória daqueles que sofreram e morreram no Holocausto. É triste que o governo israelense, quem sabe esquecido da importância do sionismo de esquerda para a criação do Estado de Israel, nada tenha declarado a respeito. E é vergonhoso que as instituições judaicas brasileiras não tenham reagido a tamanho impropério.

Ou o governo brasileiro duvida das informações veiculadas por órgãos israelenses, norte-americanos e alemães, ou perversamente deturpa o passado. Ao final de sua visita, o presidente sintomaticamente declarou que “aquele que esquece o passado está condenado a não ter futuro”. A frase se aplica a ele mesmo – e nisso não podia ter mais razão. Bolsonaro quis mostrar erudição, mas a citação está errada. A referência correta é “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo”. A frase vale para todos. Está na hora de lembrar o passado. E de respeitar a História. 

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Triângulos do Holocausto, 1936 (wikipedia)

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A força da história (por Sidney Chalhoub)

            Seria melhor escrever crônica, mas hoje não é possível. Faz dias que abro jornais e revistas e aparece uma saraivada de notícias e artigos de opinião a respeito do que o governo eleito do país pretende fazer na área de Educação. Tramita um projeto de lei no parlamento para instituir a censura em sala de aula, fala-se em fundir o ministério da Educação com outro, em cobrar mensalidades nas universidades públicas, em vouchers etc. Bastante cacofonia, mas não seria razoável descartar de início todos os pontos que aparecem para discussão. Todavia, há alguns esclarecimentos a fazer no que tange à produção do conhecimento histórico e a difusão dele nas instituições de ensino, nos livros, em revistas especializadas, em meios diversos de divulgação. Apesar das aparências (a julgar pelo que se lê e escuta), a produção de conhecimento histórico e o ensino dele não são a casa da mãe Joana. De modo que vou explicar duas ou três cousas básicas, para colocar a conversa em lugar devido.

Ao que parece, professores e professoras de história são alvos principais de iniciativas para combater uma suposta doutrinação nas escolas. Todo dia há alguma notícia sobre docente de história denunciado, perseguido, demitido, ameaçado, agredido verbalmente, ou pior. É possível que tenha havido um excesso ou outro, em especial devido à alta temperatura política dos últimos meses. Mas a exceção não faz a regra, nem o ataque em curso contra docentes de história precisa de episódios isolados para se justificar. Quais os motivos para tanto foco nos historiadores? Por que eles passaram a incomodar tanto a certos setores da sociedade brasileira e da classe política?

A resposta é complexa. Seria necessário situá-la no quadro mais amplo de explicações dos motivos pelos quais a extrema direita chegou ao poder no Brasil, neste preciso momento. Conheço meus pares. Nós, historiadores, e colegas cientistas sociais de diversas disciplinas, no Brasil e no mundo, nos debruçaremos sobre o tema nas próximas décadas e vamos dissecar o assunto até que a nuvem espessa da incompreensão se dissipe um pouco, ou bastante. O processo é lento, já começou e não tem hora para acabar. O tempo nervoso da política não tem nada a ver com a longa duração requerida na investigação, no diálogo acadêmico e na sistematização de resultados de pesquisa.

Por aí se chega a uma primeira resposta quanto aos ataques aos historiadores. Os historiadores brasileiros estão na berlinda porque o conhecimento que produzem hoje é autônomo, crítico, baseado em pesquisas empíricas lentas e sólidas, informado por debates conceituais densos. Além disso, em várias áreas da pesquisa histórica, têm o reconhecimento da comunidade acadêmica internacional. Desde o início da década de 1980, a formação de historiadores se profissionalizou no país de maneira admirável. Há hoje dezenas de cursos de mestrado e doutorado em história espalhados por todas as regiões. São programas de pós-graduação constantemente e rigorosamente avaliados pelos pares, em processos de acompanhamento institucionalizados pelo governo federal que nada deixam a dever (de fato, superam em muitos aspectos) a procedimentos similares existentes em outros países. Vários desses programas são de excelência, muitos deles de ótima qualidade. Via de regra, os professores e professoras de história das universidades brasileiras passaram por um processo de formação exigente, demorado, a demandar doses absurdas de vocação e determinação –quatro anos de graduação, dois ou três anos de mestrado, quatro a seis anos de doutorado. Dez a treze anos de formação, quando dá tudo certo, sem intempéries. Essa qualidade concentrada nas universidades, nas públicas em especial, mas não só nelas, se espraia pelo sistema inteiro, instaura a reflexão crítica sobre a história em toda parte. Isso incomoda demais.

É fácil entender o desconforto de tanta gente. As historiadoras e historiadores brasileiros passaram as últimas décadas a escarafunchar arquivos e rever inteiramente o que antes se sabia sobre a história da escravidão e do racismo no país. A violência da escravidão, a expansão da cafeicultura baseada na invasão de terras e no tráfico africano ilegal, o estudo das formas de resistência e de enfrentamento cotidiano por mulheres e homens escravizados –tudo isso se pesquisa e aprende, chega às salas de aula e até ajudou na justificativa para a adoção de políticas públicas de ação afirmativa. A historiografia brasileira participou intensamente de um movimento internacional de investigação das relações de gênero e seu impacto na reprodução de desigualdades em sociedades diversas, em qualquer tempo. Aprendemos a respeito dos modos de as mulheres lidarem com as violências e as formas diversas de subordinação, sabemos melhor aquilo que têm feito ao longo da história contra aqueles que pregam a violação delas, a amputação de suas potencialidades, a interdição de seus sonhos. Houve uma gama enorme de estudos sobre a ditadura brasileira de 1964-1985, baseados em fontes primárias que se tornaram disponíveis, produzidos em diálogo com a historiografia internacional a respeito das ditaduras latino-americanas no período da guerra fria. Os historiadores brasileiros sequer inventaram de chamar “ditadura” o que ocorreu no país naquele período, pois historiadores de outras partes do mundo já haviam adotado a bossa de chamar a cousa pelo nome que a cousa tem.

Nada disso, e muito mais, agrada a quem tem agora as rédeas do poder. Paciência. Outras eleições virão. Mas algo precisa ficar claro. Nenhum político, nenhum general, nenhum juiz, irá determinar como historiadores de ofício chamarão isso ou aquilo, ou como exercerão o seu ofício. Podemos ser calados, mas não vencidos. E estamos à disposição para ensinar, como sempre estivemos, a quem quiser aprender. As portas das universidades brasileiras estão abertas a quem se qualificar para ingressar nelas –há enem, vestibulares, concursos de ingresso para programas de pós-graduação. Depois muitos anos de formação, exames diante de bancas de mestrado, doutorado, tudo com os salamaleques da tradição acadêmica. Há centenas e centenas de livros e artigos científicos sobre os temas citados no parágrafo anterior, e sobre muitos mais. É longo, duro, mas fascinante. Podem crer.

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Sidney Chalhoub

Professor of History, Harvard University

Professor Titular Colaborador, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

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BRÁS CUBAS VOTOU EM BOLSONARO. E MACHADO DE ASSIS? – Sidney Chalhoub responde.

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conversa de historiadoras

Os vermes que roeram as frias carnes do cadáver dele, Brás Cubas, delataram a um juiz de província qual será o voto do ilustre defunto autor no dia 28 de outubro próximo: Bolsonaro! O juiz, por seu turno, certo da importância dessa informação para influenciar eleitores indecisos a respeito do pleito que se aproxima, vazou a delação para a imprensa, como de costume. Nela se lê assim:

“Testemunha jurada aos Santos Evangelhos na forma da lei, prometeu dizer a verdade, principalmente a pós-verdade; declarou chamar-se Brás Cubas, memorialista supimpa, profissão vive de rendas, idade duzentos e um anos; perguntado sobre o pleito eleitoral de domingo próximo, disse que votaria em Jair Bolsonaro, sua alma gêmea; disse mais, que sabia por ouvir dizer que, ao falar de sua esposa, o dito candidato usa repetir o que ele, Brás, disse certa vez de sua amante, Virgília: “era o travesseiro do meu espírito…

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BRÁS CUBAS VOTA EM BOLSONARO. E MACHADO DE ASSIS? Sidney Chalhoub responde.

Os vermes que roeram as frias carnes do cadáver dele, Brás Cubas, delataram a um juiz de província qual será o voto do ilustre defunto autor no dia 28 de outubro próximo: Bolsonaro! O juiz ouviu o depoimento de Brás e, ato contínuo, certo da importância dessa informação para influenciar eleitores indecisos a respeito do pleito que se aproxima, vazou a transcrição para a imprensa, como de costume. Nela se lê assim:

“Testemunha jurada aos Santos Evangelhos na forma da lei, prometeu dizer a verdade, principalmente a pós-verdade; declarou chamar-se Brás Cubas, memorialista supimpa, profissão vive de rendas, idade duzentos e treze anos; perguntado sobre o pleito eleitoral de domingo próximo, disse que votaria em Jair Bolsonaro, sua alma gêmea; disse mais, que sabia por ouvir dizer que, ao falar de sua esposa, o dito candidato usa repetir o que ele, Brás, disse certa vez de sua amante, Virgília: “era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesada as cousas, não era outra a razão da existência de Virgília”; também sabe por ouvir dizer que o candidato citado pretende, no governo, colocar em prática a mesma política dele, Brás, em relação aos negros: “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, –algumas vezes gemendo, –mas obedecia sem dizer palavra”; se disser algo, responder-se-á, “Cala a boca, besta!”; perguntado sobre os direitos das empregadas domésticas, disse a testemunha que o programa do candidato em tela é idêntico ao que adotou enquanto viveu e depois, nos aposentos eternos: foram chamadas ao mundo para “queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia”; perguntado como achava que o candidato deveria lidar com ativistas que se  opuserem ao seu possível futuro governo, disse a testemunha, ruborizado, subindo o tom de voz, que precisam ser mandados ao calabouço, a prisão dos escravos, “donde eles [descerão] a escorrer sangue”; perguntado, por fim, qual o principal ponto de contato entre as filosofias de vida dele, testemunha, e a do candidato Bolsonaro, disse, comovido, que ambos se afeiçoam à “injustiça humana”, gostam de contemplá-la, “atenuá-la”, “explicá-la”, “ao sabor das  circunstâncias e lugares”; e mais não disse nem lhe foi perguntado, com o que o juiz de província mandou-me lavrar este auto, de cuja verdade dou fé (…)”.

Presente ao interrogatório, Machado de Assis permaneceu calado num canto da sala, fingindo que não estava ali. Os vermes o perceberam e lhe fizeram a pergunta fatal: “E o Senhor, Criador desta Criatura, votará em Bolsonaro?”. Machado de Assis gaguejou, não disse que sim, nem disse que não. Diante da insistência dos vermes, respondeu enigmático, a caminho da porta de saída: “É sabido desde a mais remota noute dos tempos que no dia 28 de outubro de 2018 Hércules realizará o seu DÉCIMO-TERCEIRO trabalho. Boas Noutes!”.

Sidney Chalhoub, 25/10/2018

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A Estranha Derrota?

Inaugurando minhas atividades docente na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), fui convidada a ministrar uma disciplina de ementa aberta para a turma dos calouros, alunos que acabaram de entrar na Universidade. Inspirada no texto clássico de Marc Bloch, Apologia da História ou O Ofício do Historiador,  eu a intitulei “História Para Que?”.

Para que serve a história? Esta é a pergunta que abre o texto, escrito em um campo de concentração, inacabado por conta da execução do autor pelos nazistas em 1944. Foi o primeiro texto que li com a minha orientadora, Maria Yedda Linhares, ainda na iniciação científica. Tenho hoje a idade que ela tinha quando eu a conheci. Não tive dúvidas que era o texto que eu devia revisitar para construir a nova disciplina.

Pouco antes de Apologia da História, Marc Bloch escreveu A Estranha Derrota, misto de testemunho e exercício de história imediata sobre a capitulação francesa aos nazistas, onde o grande medievalista conjugava uma narrativa pessoal sobre os acontecimentos recentes, dos quais participara como oficial do exército francês, com reflexões sobre a história e seus condicionamentos de longa duração. A releitura do texto é, para mim, sempre instigante.  O texto de Bloch me faz refletir sobre história e testemunho, sobre lugar de fala e produção do conhecimento, sobre agência e identidades na produção dos sujeitos históricos, individuais e coletivos. Uma pequena joia do ofício do historiador, sobre o qual teorizaria no texto posterior, inacabado.

Bloch morreu num dos momentos mais trágicos de reversão de expectativas democráticas da história ocidental.  Um trauma coletivo de tal envergadura que os textos europeus de reflexão sobre o tempo e a história do período continuam imensamente atuais. O dele, inclusive.

Na primeira aula com os novos alunos, junto ao primeiro capítulo do livro de Bloch, assistimos também à icônica “Ted Talk” de Chimamanda Adichie, sobre o perigo da história única. Minha intenção era ir um pouco além da história europeia, mas, sobretudo, na linha pessoal dos textos finais de Marc Bloch, em que escreveu como um historiador e soldado francês, refletir, como brasileira, sobre a história do Brasil, enquanto estado nacional.

De um certo ponto de vista, do qual compartilho, a história do Brasil, até 1988, pode ser sintetizada na contínua produção de um outro, colonizado, ao qual se negava o direito à história e à cidadania. Para explicar de forma simples a afirmação, cito um exemplo.

Nas primeiras décadas que se seguiram à independência do Brasil, aconteceram diversas revoltas federalistas no país, todas derrotadas pela monarquia centralizada no Rio de Janeiro. Após a rendição, os líderes revoltosos com origem nas classes senhoriais foram quase sempre tratados como prisioneiros de guerra ou prisioneiros políticos e, muitos deles, depois, anistiados. Líderes de revoltas de extração popular, entretanto, pretos, pardos e caboclos, nos termos da época, foram muitas mais vezes condenados à morte , frequentemente sendo processados por crimes previstos no código criminal do império, o que basicamente desqualificava o caráter político de seus movimentos. Na Bahia, em 1837, Francisco Sabino, médico que liderara uma revolução liberal, descrito como mulato, foi condenado por incitar “insurreição de escravos”.

A  República seguiria a tradição imperial, apesar da abolição da escravidão. A Constituição de 1988 foi o primeiro texto constitucional brasileiro a tentar quebrar esta premissa, ao reconhecer o voto do analfabeto e a pluralidade racial e cultural do país. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva foi  um dos protagonistas e é o principal ícone desta vontade política de incorporação.

A vontade de inclusão da república de 1988, sob ataque desde o golpe parlamentar de 2016, foi amplificada com o acesso à internet a partir dos anos 2000.  A rede mundial de computadores representou, em todo o mundo, uma enorme democratização do acesso à comunicação e também da capacidade de produzir e difundir informações e conteúdos. Este processo trouxe, por outro lado, como efeito paralelo indesejado, uma espécie de democratização perversa, onde os mais mesquinhos sentimentos se sentiram liberados para serem publicamente compartilhados e, ao encontrar seus iguais, sentirem-se legitimados. Este segundo movimento facilitou, sobretudo nos últimos anos, a ressurgência de fundamentalismos, de fascismos e de movimentos francamente reacionários, em todo mundo.

A história é a ciência que indaga sobre os seres humanos no tempo, como ensina Marc Bloch. Ela trata de mudança. Ela se faz no presente e os acontecimento passados sempre podem ser revisitados. O passado nunca se repete, ainda que o presente esteja sempre informado pelo passado e processos de longa duração permaneçam condicionando movimentos e possibilidades.

O que me encanta nos dois últimos textos de Bloch é o otimismo que, apesar de tudo, os informa. Em uma situação extrema, eles fazem apologia da história e do ofício do historiador. Como historiador, Bloch tinha certeza do  futuro fracasso de qualquer projeto que pretenda controlar os sentidos da história, como era o caso do nazismo que combatia e que viria a assassiná-lo.

Faço esta digressão para falar do tempo presente. E, claro, de Brasil. Ontem, quando comecei a assistir a missa em celebração ao aniversário de Dona Mariza e de solidariedade ao ex-presidente Lula em São Bernardo pela Rede TVT, pela internet, o altar a céu aberto, cercado de povo, me lembrou a fotografia da missa campal em celebração à abolição da escravidão no Brasil, em 17 de maio de 1888.

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Em pouco tempo, as mesmas imagens que eu estava assistindo na internet (produzidas pela TVT) estavam no G1 e no UOL, e foram vistas por todo o país e em todo mundo, em tempo real. Lula controlava o enredo televisionado da sua própria prisão. O que me parecia totalmente inesperado e novamente me evocou o caráter surpreendente, para os contemporâneos, dos acontecimentos que precederam o desfecho político da abolição, sobretudo a desobediência civil que permitiu as fugas em massa dos últimos cativos.

Não tenho qualquer veleidade de prever o que virá nos próximos dias. Seja o que for, a capacidade política de ex-presidente Lula de controlar a narrativa dos eventos de ontem impregnou de sentidos políticos a sua “rendição”.

Como nos ensinou Marc Bloch, a história nunca se repete. E como sugeriu o inspirado discurso de Lula, por mais longo que seja, o inverno não pode impedir a primavera.

30226219_1665253480178349_1081419481768525824_oFoto Francisco Proner Ramos

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