O nazismo é de extrema direita (por Keila Grinberg e Monica Grin)

Em visita ao Yad Vashem, museu e memorial em homenagem às vítimas do Holocausto em Jerusalém, nossos governantes insistiram na tese delirante e absurda de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Ela é falsa. O nazismo foi um movimento de extrema-direita surgido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Seu líder, Adolf Hitler, chegou ao poder em 1933 com um discurso eugenista de oposição ao liberalismo e às esquerdas. Uma de suas peças de propaganda era justamente o combate ao comunismo.  “Converter o comunista é a tarefa do movimento nacional-socialista (nazista)”, escreveu em Minha Luta, em 1925. Mais adiante, no mesmo livro, ele reafirma: “o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”.

O ditador não estava brincando. Iniciou seu governo cassando os mandatos dos deputados do Partido Comunista da Alemanha. Em março de 1933, o partido foi proibido. Seus líderes foram presos, torturados e confinados em campos de concentração. E isto foi apenas o começo: acreditando serem racialmente superiores, os nazistas empreenderam extermínio sistemático dos judeus, a quem consideravam racialmente inferiores. Tratamento especialmente cruel era dirigido aos judeus de esquerda, “opositores do regime”. A estrela amarela, marca de distinção e humilhação que todos os judeus deviam portar bordada às suas roupas era, no caso destes, amarela e vermelha.

Que o Partido Nazista é de extrema direita é consenso entre historiadores e especialistas no mundo inteiro. Quem duvida pode consultar os sites do Museu do Holocausto dos Estados Unidos, do Memorial do Holocausto em Berlim ou do próprio Yad Vashem. Ou, como fez esta semana o presidente do Brasil, caminhar por suas galerias. Ao que parece, ele perdeu a oportunidade de aprender quem foram as vítimas do nazismo: além dos judeus, os nazistas encarceraram, torturaram, escravizaram e mataram ciganos, eslavos, homossexuais, socialistas e comunistas, entre tantos outros. A negação deste fato é um desrespeito flagrante à memória daqueles que sofreram e morreram no Holocausto. É triste que o governo israelense, quem sabe esquecido da importância do sionismo de esquerda para a criação do Estado de Israel, nada tenha declarado a respeito. E é vergonhoso que as instituições judaicas brasileiras não tenham reagido a tamanho impropério.

Ou o governo brasileiro duvida das informações veiculadas por órgãos israelenses, norte-americanos e alemães, ou perversamente deturpa o passado. Ao final de sua visita, o presidente sintomaticamente declarou que “aquele que esquece o passado está condenado a não ter futuro”. A frase se aplica a ele mesmo – e nisso não podia ter mais razão. Bolsonaro quis mostrar erudição, mas a citação está errada. A referência correta é “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo”. A frase vale para todos. Está na hora de lembrar o passado. E de respeitar a História. 

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Triângulos do Holocausto, 1936 (wikipedia)

4 Comentários

Arquivado em antiracismo, democracia, história pública, negacionismo

4 Respostas para “O nazismo é de extrema direita (por Keila Grinberg e Monica Grin)

  1. Maria do Carmo S. Da Costa Mattos

    Muito bom e altamente esclarecedor!

  2. tomgil

    Bravo Keila e Monica! Muito bom. De fato, o que mais me impressiona é o silêncio das instituições judaicas brasileiras.

  3. Q

    “discurso eugenista de oposição ao liberalismo e às esquerdas”

    Equivocado, existem entrevistas com Hitler, com Hjalmar Schacht, mostrando claramente uma política de diminuição dos benefícios e seguridades ( ajuda de inverno etc. ) e a entrega da máquina pública à elite industrial e financeira que não trouxe nenhum lucro significativo, apenas a ajuda da burguesia alemã. A princípio Hitler usou a simbologia de esquerda para seduzir os sindicatos e os trabalhadores para o lado deles já que o partido nazista na época da ascensão de Hitler era trabalhista com tons de populismo de direita; que Hitler incrementou depois da Noite das Facas Longas. Até a metade dos anos 30, Hitler privatizou e re-privatizou boa parte das empresas estatais rentáveis, na época consideradas as maiores do mundo como a ferrovia alemã. Só durante a grande guerra por necessidade da economia de guerra, que os espólios eram divididos entre os militares e parte do povo, houve controle de preços e outras medidas que seriam consideradas antiliberais, mas todos os outros países seguiram a mesma rotina.

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