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2018!

Voltamos! A demora em recomeçar 2018 veio em grande medida do acúmulo de novas tarefas das historiadoras do blog. Vejam vocês:

Ana Flavia Magalhães Pinto é a mais nova professora do Departamento de História da Universidade de Brasília. Assume as novas atividades profissionais na coordenação do GT Emancipações e Pós-abolição da ANPUH e da organização do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, previsto para 15-18 de maio deste ano, na FGV.

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Giovana Xavier é a nova colunista do NEXO Jornal e mantém o seu Preta Dotora, agora no face, mas continua conversando com a gente.

Keila Grinberg,  neste semestre, é titular da Andrés Bello Chair in Latin American Cultures and Civilizations da NYU. Em entrevista  no site da cátedra, ela explica as suas atividades por lá durante o semestre, entre elas, a organização  do simpósio “Slave Pasts in the Present: Narrating Slavery though the Arts, Tecnology, and Tourism”, onde Hebe, Martha e Mônica Lima irão participar.

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Mônica Lima é uma das organizadoras  do Primeiro Encontro da Associação Brasileira de Estudos Africanos – ABE África, que irá se realizar entre 11 e 13 de abril desse ano no Instituto de História da UFRJ (prédio do IFCS/UFRJ).  Estão confirmadas as presenças de Kabengele Munanga e Petronilha Gonçalves, entre outros pesquisadores da área.  Kabengele Munanga é professor titular de Antropologia da USP e Professor Titular Senior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É congolês, naturalizado brasileiro, autor de diversos livros sobre educação antirracista e ensino de História da África e cultura afro-brasileira. Petronilha Gonçalves é professora titular em Ensino-Aprendizagem em Relações Étnico-Raciais e Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos. Foi relatora do projeto das diretrizes para o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira no Conselho Nacional de Educação.

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As veteranas do Blog, Hebe e Martha, que assinam este post de reabertura, também estão recomeçando. Hebe iniciou suas atividades como Professora Titular Livre da UFJF e Martha assumiu como professora visitante do Mestrado Profissional em Ensino de história da UNIRIO. Paralelo aos recomeços, estão à frente, com Mônica Lima e toda a equipe do Blog, da coordenação de conteúdo para a curadoria científica do Centro de Interpretação do Cais do Valongo. Vamos dar notícias por aqui dos desdobramentos desse trabalho.

Diante do acúmulo de atividades, o Blog este ano será basicamente lugar de informação e divulgação sobre os andamentos dos novos projetos e dos eventos em que estão sendo discutidos. Além disso, nos comprometemos todas com, pelo menos, um texto por semestre, sobre questões de fundo das nossas conversas (história pública e escravidão, democracia, racismo, cultura negra, feminismos, entre muitos outros temas). Aos seguidores do Blog, prometemos, podemos diminuir o ritmo, mas vamos caprichar na qualidade.

Por fim, neste mês de março, convidamos todos a se engajarem na campanha 21 dias de ativismo contra o racismo, que se encontra na sua segunda edição. Militantes antirracistas das mais diversas origens, professores, artistas, escritores, intelectuais de diferentes campos se reuniram desde dezembro de 2017 para organizar essa verdadeira maratona tendo a luta contra racismo como eixo definidor. A programação é intensa, muito variada e são estimuladas as iniciativas locais que se incorporam à campanha. Confiram a página no Facebook!

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Boas Festas!

Queridos amig@s do Conversa de Historiadoras.  Desejando boas festas, fechamos o blog de 2017 e entramos em recesso.  A princípio, voltaremos – como boas brasileiras – depois do carnaval. Passamos o dia de ontem trocando mensagens que, aproveitando o espírito natalino, compartilhamos com os amigos do blog.

GIOVANA XAVIER: Juntas somos mais fortes! Mulheres incríveis, indispensáveis ao mundo, e para mim essenciais como referência e fonte de inspiração. Nesse 2017 foi muito bom estar com vocês em conversas de historiadoras sobre raça, gênero, feminismos, escravidão, pós-abolição e tantas outras pautas. Lindo presságio me dar conta de que, após um dia sem celular, enquanto me divido entre o forno, a cerva no grau e a lista mirim para Papai Noel, dedicamos tempo para contemplar e compartilhar em registros sensíveis o arco-íris que tomou conta da cidade caótica, porém também maravilhosa. Amo vocês! Feliz Pretas Festas! Obrigada a todo mundo pela caminhada de mãos dadas. Pode vir 2018!

 

KEILA GRINBERG: Aqui nesse blog nós adoramos falar. Por whatsapp, por email, de viva voz, nós conversamos e conversamos. Ao contrário do que talvez possa parecer a quem nos lê, concordamos um pouco e discordamos muito –  só que discordamos acaloradamente nos detalhes e concordamos apaixonadamente no essencial. O ano que começa nos exigirá força e alegria para proteger a liberdade das boas conversas, aquelas bem relaxadas, em que ninguém tem medo de dizer o que pensa, todos falam, todos escutam e ninguém ganha no berro. Que em 2018 continuemos, todos, concordando no essencial: que o diálogo vença o grito.

MÔNICA LIMA: Não seja tão leviano/Respeita minha Aruanda/Tem quase cinco mil anos/ De existência minha banda (Alabê de Jerusalém)

E lá se vai 2017. Dirão alguns – prenhes de razão, como o Jorge Maravilha do Chico Buarque – “já vai tarde”. A onda conservadora e racista que cresce, impudica e violenta; a perda acelerada de direitos tão duramente conquistados; o estreitamento dos espaços para a Arte e a Cultura; a política deliberada de desmantelamento das universidades estaduais no Rio de Janeiro – que ainda assim, resistem -; tudo isso e uma lista interminável de coisas ruins que chegaram e se anunciaram nesse ano. Querer que essa marca do tempo que passa seja superada é uma forma de dizer que se acredita que há uma mudança possível, para o bem, e que caminhar decidido em direção a ela, começando um novo ano, dá um gás na alma e no corpo cansados.// No verso do Alabê de Jerusalém que abre esse trecho do post, está contida uma ideia que me fortalece nesses tempos de desânimo, olhando o mundo e minha família ampliada: nossos ancestrais foram obrigados a fazer a travessia nos porões dos navios e sofreram muito, mas têm cinco mil anos de história de criação de belezas e conhecimento, resistência e afirmação. Estou com elas e eles nessa e em muitas horas. Temos uma longa história, que estudo por ofício, prazer e compromisso. E por isso, celebro e luto.// Nesse ano teve a Mwana – Infância e Relações Raciais no Brasil e na África, uma exposição linda no Espaço Jessie Jane Vieira de Souza da UFRJ, que gerou muitas atividades. Com os erês, as crianças, celebramos a vida e as lutas contra o racismo, e as infindas alegrias de brincar. Poucas coisas podem fortalecer mais a nossa vontade de seguir em frente do que a responsabilidade frente aos pequenos seres humanos que merecem um mundo muito, mas muito melhor do que esse que vivemos hoje. E nessa história, perceber que brincadeira é coisa séria, assim como contação de história, roda de capoeira, ou dançar e cantar ao som do dvd Nana e Nilo– personagens infantis negros de desenho animado brasileiro. Na roda, na gira. Tudo isso foi 2017 também.// Portanto, estamos prontas para 2018.

HEBE MATTOS/MARTHA ABREU/ANA FLÁVIA MAGALHÃES PINTO// 2017 passou rápido e pesado. A crise entre capitalismo e democracia se aprofundou no mundo todo, proliferaram fundamentalismos de todos os tipos e o impensável foi se transformando em rotina. Por outro lado, a imprevisibilidade da história nunca foi tão esperada. Continuamos a acreditar nos efeitos positivos da democratização e ampliação dos atores políticos, no Brasil e no mundo. 2018 pode surpreender!

Recebam nossos votos de boas festas e de muita saúde, paz, afetos e democracia no novo ano.

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Escravidão é estrutura (ainda sobre Vazante)

Todo bom filme que ousa abordar temas sensíveis causa polêmica. Vazante é um bom filme. Não fosse, ninguém perderia tempo com ele. É justamente por ser um bom filme sobre o patriarcalismo escravista brasileiro, nossa tragédia de origem, que ele incomoda. E provoca a também boa polêmica, aquela que é boa justamente por alimentar visões diferentes, contrastantes, divergentes. (Temos que defender as divergências com unhas e dentes; é terrível o tempo das certezas que nos espreita).

Assisti a Vazante como se o encosto da poltrona tivesse espinhos. A cada tentativa de me ajeitar, um incômodo, uma mudada de posição. É assim também que leio as críticas e reações a respeito. A cada incômodo, uma tentativa de me ajeitar, uma mudada de posição. Acontece que, cá entre nós, é impossível se ajeitar com um tema espinhoso como é o da escravidão, e esta talvez seja a melhor novidade da recepção de Vazante: nos dias de hoje, ninguém tem como virar as costas para o passado escravista e dizer que ele não nos diz respeito. Cresci num mundo de descendentes de imigrantes que, por terem aqui chegado no século XX, achavam que a escravidão era coisa do passado dos outros, não tinha nada a ver com a gente. Mas como bem disse a escritora Ana Maria Gonçalves em recente debate sobre o filme, não podemos ignorar como a história da escravidão afeta hoje a vida dos negros no Brasil (estou citando de cabeça; quem quiser checar a fala e acompanhar o debate, que também contou com o cineasta Joel Zito de Araújo e com a própria diretora Daniela Thomas, clique aqui).  E todos nós que vivemos nesta sociedade racista lidamos, embora muito desigualmente, com as marcas da escravidão.

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Daí que, em Vazante, a escravidão não é moldura, é estrutura (para quem não leu, estou aqui dialogando com Flavia Oliveira, “Escravidão é moldura”, O Globo, 07 de novembro de 2017). A escravidão e o racismo são tão centrais para a narrativa do filme como o são para a compreensão da história brasileira.  É a existência da escravidão que fundamenta as relações violentas, opressoras e traumáticas tratadas no filme. E que nos confronta com situações difíceis de digerir, como aquela que também a mim marcou, na qual um dos personagens, africano, líder dos demais, fala, angustiado, em uma língua que quase ninguém entende, nem mesmo o negro – possivelmente liberto, ali desempenhando a função de capataz – que, a mando do senhor, apontava uma arma para o rebelde. É com ele que o homem branco desabafa: “eu não sei o que esse negro está dizendo”. Seu interlocutor também não sabia. É a escravidão que torna compreensível esta cena terrível. Da mesma forma, é só à luz do nazismo que conseguimos encarar a situação dos kapos judeus, forçados a colaborar para sobreviver durante o Holocausto. Quando uma vítima aponta uma arma para outra, nenhuma das duas sobrevive.

É também a escravidão a chave de leitura da perversidade de uma sociedade que naturaliza o estupro das mulheres escravizadas por seus senhores, que convive com a relação entre uma moça ainda meio criança com o homem que antes havia casado com sua tia e que não tolera o amor entre um menino negro escravizado e uma menina branca, criada para ser sua futura sinhá.

Em Vazante, Daniela Thomas constrói uma narrativa sobre o passado fincada no presente. Têm razão os que dizem que a recepção do filme seria outra há dez, quinze anos atrás, e é maravilhoso que seja assim. Há tempos atrás o filme seria outro também. Precisamos tanto de filmes corajosos quanto de plateias barulhentas, indignadas, apaixonadas. Plateias de todas as cores, participadoras e provocadoras, não espectadoras. Que o bom barulho provocado por este filme ecoe no futuro: precisamos de filmes, discos e livros que, como bem escreveu neste blog Hebe Mattos, encarem de frente o “trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu”. 

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“A Redenção de Cam”, de Modesto Brocos, 1894. Acervo Museu Nacional de Belas Artes

É em nome dessa provocação que saí do cinema pensando que, se a narrativa de Vazante nos instiga a lidar imperiosamente com este passado, é na cena final que o filme, ao se distanciar da História, propõe outros olhares sobre sua superação. Ao subverter a clássica imagem da ama de leite negra amamentando a criança branca, Daniela Thomas inverte a cena principal do famoso quadro A Redenção de Cam (1894), no qual o pintor Modesto Brocos sugere que o embranquecimento, fruto da mestiçagem, seria a redenção da nação. Sem omitir a tragédia que a originou, não seria a imagem de uma mulher branca amamentando uma criança negra uma alegoria do empretecimento como possibilidade de redenção?

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Cores e lugares do Novembro Negro

“É minha força, é nossa energia
Que vem de longe pra nos fazer companhia”
Raça, Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976

 

E novembro chegou novamente! Para boa parte das pessoas com quem convivo, é chegada a hora de viver o Novembro Negro, o mês Nacional da Consciência Negra! Tempo de rememorar e celebrar a saga de Palmares e outras tantas lutas pela liberdade protagonizadas por descendentes de africanas/os escravizadas/os no Brasil. Há ainda quem associe outras cores a esses dias: o Novembro Azul, da mobilização pela prevenção do câncer de próstata; o Novembro Laranja, da campanha nacional de alerta ao zumbido no ouvido, sendo também laranja o 25, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Não podemos esquecer da possibilidade de acrescentar as cores do arco-íris ao 20, também reivindicado como Dia Internacional da Memória Transgênera.

Curiosamente, todas essas apropriações mantêm estreito diálogo com a saúde, o direito à vida, reivindicam o existir com dignidade. Com um pouco de sensibilidade, é fácil entender como o racismo, o machismo, a homofobia/transfobia adoecem quem é atingida/o e quem atinge também, prejudicando homens e mulheres, surdas/os, ouvintes, etc. E nisso comprometem até mesmo a nossa capacidade de enxergar as possíveis articulações entre as diferentes perspectivas de luta. Assim, logo de cara, a tendência é tomar essas práticas de apropriação do tempo como mero ensejo para rivalidades e disputas por visibilidade no presente.

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Imagem utilizada pela empresa Direito de Ouvir para ilustrar um informe sobre o Novembro Laranja

Mas, tentando ir além do conflito que afasta, façamos um exercício de aproximação. Vivemos num país de maioria negra, certo?! Certo! 54% da população, segundo dados do IBGE para 2014. Por que razão, então, nos limitamos a pensar apenas o Novembro Negro como negro? Por que o azul, o laranja ou o multicolorido não são prontamente entendidos como negros também? Por que esses outros falam da população em geral? Um instante! Somos a maioria da população e, mesmo assim, não podemos dar a medida do que é o “em geral”? Olha aí o alcance do racismo engolfando e indo além da linguagem.

Sem gerar prejuízo a qualquer outro grupo, novembro, em suas múltiplas cores, muito bem poderia e deveria ser um momento de esforço concentrado para a defesa do respeito às pessoas de todos os sexos, identidade de gênero, orientação sexual, variedade de deficiências, etc., por partir justamente da experiência da população negra. Alterar as matrizes de pensamento de uma sociedade em que o “racismo por denegação”*, citando Lélia Gonzalez, gerou um dos quadros mais complexos de desigualdade racial do mundo passa por fazer com que as pessoas adquiram a habilidade de sentirem à vontade em ser medidas pela régua da existência da gente negra, sem que isso signifique limitação da sua humanidade. Romper com a violência naturalizada contra tanta gente, talvez faça até mesmo com que no futuro as experiências de pessoas surdas não gerem tanta estranheza ao aparecerem em concursos públicos, como aconteceu na prova de redação do Enem 2017.

Reconhecer a importância do Novembro Negro, em suas múltiplas cores associadas, é, portanto, romper com os vícios gerados pelo mito fundador das três raças que esteve e está a serviço do elogio à dominação do homem-branco-europeu-heterossexual-agente-da-colonização-e-da-civilização-vitoriosa, por muito tempo considerado como o sujeito universal por excelência.

Atravessando a fronteira nacional brasileira, vale lembrar que esse, aliás, tem também sido o esforço da Comisión Organizadora 8 de Noviembre, uma ampla frente de entidades afro-argentinas, em torno da afirmação do Dia Nacional dos/as Afro-Argentinos/as e da Cultura Afro, reconhecido oficialmente em 2013 por meio da Lei n. 26.852. A data foi construída a partir da memória de María Remedios del Valle, uma mulher negra que combateu no exército pela independência argentina no início do século XIX e se tornou posteriormente conhecida como a “Madre de la Patria”. Uma das várias pessoas negras que sobreviveram aos combates, María Remedios é uma personagem emblemática para se desmontar o mito do desaparecimento negro na Argentina ao longo do século XIX. Sua trajetória e a de outras personalidades e grupos têm sido, então, acionadas pelas organizações afro em suas atividades em vários momentos do ano, com o intuito de criar condições para que as violências cometidas contra a população afro não passem em branco.

8 de Novembro

A lei corresponde, portanto, ao encaminhamento de uma agenda política maior e está estreitamente associada a uma conquista anterior: a inclusão do quesito cor/raça no censo populacional de 2010, por meio do que tem se objetivado identificar não apenas os indivíduos fenotipicamente negros, mas também aqueles/as de origem afro. Além de buscar a visibilidade no agora, trata-se de uma ação interessada em fazer um contraponto à construção de que os argentinos de hoje são descendentes apenas de europeus e de povos originários com os quais o vínculo é cada vez mais distante.

Diferentemente do Brasil, os/as afro-argentinos/as estão longe de ser maioria populacional em seu país. Todavia, pensando nos relatos compartilhados, podemos dizer que o racismo e a discriminação não se fazem mais ou menos perversos a depender da quantidade de pessoas contra as quais são imprimidos. O grande problema segue sendo a violação do status de Ser Humano dessas mulheres e homens em ambas as sociedades, e outras tantas pelas Américas e o restante do mundo.

De tal sorte, embora os problemas associados ao subregistro não tenham sido superados nem mesmo aqui, as mobilizações de lá, ao avançarem, merecem nossa solidariedade, tal como precisamos em outros tempos para alcançar a legitimação do 20 de novembro e toda a agenda política vinculada a ele. Disso efetivamente depende a viabilidade de termos respeitados os muitos sentidos de liberdade nos próximos Novembros Negros que faremos.

Ley Afro

*GONZALEZ, Lélia. A categoria cultural da amefricanidade. Revista Tempo Brasileiro, n. 92-93, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1988, p. 69-82.

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Mwana

Mwana quer dizer criança no idioma Xona, falado em Moçambique, Zimbábue e Zâmbia. O Xona (grafado algumas vezes como Xhona) pertence ao tronco linguístico banto – origem de diversas línguas africanas que existem ao sul da linha do Equador no continente e que, pela história da travessia atlântica de cativos, marcaram fortemente o Português falado no Brasil. Nosso vínculo com o termo mwana situa-se, mais além do parentesco dos termos banto no vocabulário que usamos, na presença desse universo cultural de matriz africana nos formando como sociedade.

Porém, a Mwana a que me refiro é o nome de uma exposição de fotos, acompanhada por uma série de atividades, vinculada ao Espaço Memória Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza (Espaço JJ), projeto de extensão da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ. As atividades dessa curadoria Mwana: Infância e Relações Raciais no Brasil e na África estão programadas até o dia 29 de novembro desse ano, mas a exposição no Espaço JJ seguirá até 31 de março de 2018, com chances de mais atividades acontecerem no seu último mês.

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Cartaz de divulgação da programação. Arte e design de Fábio Marinho (UFRJ).

O tema central da Mwana, indicado no subtítulo, aparece nas trinta e duas fotos – belíssimos trabalhos generosamente cedidos por Lucas Landau e Stela Caputo – e em atividades com crianças (contação de histórias, oficina de arte, roda de capoeira e samba de roda), além da exibição de filmes com debates, mesas-redondas, oficinas de formação de educadores e apresentações artísticas, quase sempre às quartas-feiras – por isso carinhosamente chamadas de Quartas Pretinhas. Em todos esses momentos, a criança é o centro da discussão, com atenção especial aos temas sensíveis relacionados à expressão e sofrimento do racismo na infância e à problematização das formas de representação da criança negra.

Mwana tem uma dupla origem, como tantas coisas. Por um lado, nasce da pesquisa histórica para elaboração do dossiê de candidatura do Cais do Valongo a patrimônio da humanidade, do qual participei direta e intensamente. Ao lidar com as fontes relacionadas ao tráfico atlântico de africanos escravizados durante o período de funcionamento do cais, entre fins do século XVIII e 1831, constatei o expressivo número de crianças cativas nas embarcações que aportavam na cidade do Rio de Janeiro, num percentual que gira em torno de 30% do total de desembarcados.  Não se tratava de uma novidade: o crescimento do número de crianças na demografia do tráfico escravista no século XIX já fora assinalado em trabalhos de historiadores brasileiros e estrangeiros, como Manolo Florentino e Ben Lawrance, e mais recentemente, em trabalho de  Marcus Carvalho. Crianças escravizadas recém-chegadas do continente são identificadas em especial nos relatos de viajantes sobre o mercado do Valongo e também se fazem ver ao visitar-se a iconografia de época. Nos restos mortais encontrados no Cemitério de Pretos Novos estão igualmente presentes em grande número. Tudo isso que, a muitos, como a mim, comove profundamente, fortaleceu, na redação do dossiê de candidatura, a tese que apresentou o Cais do Valongo como sítio histórico de caráter sensível – entendimento totalmente aceito pelo Comitê da UNESCO.

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Por outro lado, Mwana também nasceu da luminosidade existente nas imagens produzidas por Lucas Landau, jovem e talentoso fotógrafo brasileiro que, ao voltar de sua viagem de trabalho na África do Sul no ano passado, trouxe na bagagem um acervo lindíssimo sobre crianças de Blikkiesdorp, na periferia da Cidade do Cabo, e de uma escola rural na província do Limpopo. E ele decidiu doar essas fotos para quem pudesse pretender usá-las para estudo, o que fez com que chegassem frente aos meus olhos e até as minhas mãos. Nas imagens que trouxe, a brincadeira, o riso e a disposição para a pose frente à máquina fotográfica me conquistaram de pronto. Não eram realidades maquiadas, em diversas fotos se percebe a dureza das circunstâncias – mas, as crianças estavam ali, afirmativamente, encarando a vida. Um enfoque fazendo a diferença dos lugares-comuns de miséria, doença e morte em que sempre situam as crianças negras africanas. Como ele mesmo relata, elas se colocaram para a foto, pautaram seus sorrisos e suas brincadeiras.

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Estudantes da Escola Primária St Patrick Mathibela, localizada em Namakgale, Limpopo, zona rural da África do Sul. Foto de Lucas Landau

E Mwana não ficou por aí. A força do olhar das crianças sul-africanas fez lembrar as nossas heranças, o legado intangível dessa energia vital que cruzara o Atlântico dolorosamente e tantas belezas criara por aqui. E, a partir desse fio de contas que entrelaça as histórias, entraram as belíssimas fotos de Stela Caputo, pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que tem como sujeitos de seus estudos as crianças de terreiro. As fotografias para ela são instrumentos dessa investigação que trilha há pelo menos uma década. Nas imagens de Stela, a doçura, a pureza e a firmeza do olhar das crianças nos diferentes espaços religiosos de matriz africana no Brasil desafiam o preconceito e o racismo religioso. O grupo de pesquisa Kékéré – que significa pequeno em iorubá – por ela coordenado, fez um vídeo comovente em que aparecem algumas das crianças presentes nas fotos.

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Dandara e as folhas. Foto de Stela Caputo

As crianças, visitantes especialmente importantes à Mwana, vem interagindo com as fotografias, escolhem as suas preferidas, enxergam (percebem) situações (“essa aqui está voando” – dizem sobre uma das imagens) e dialogam a partir do que observam na vitrine de objetos artísticos e afro-religiosos que faz parte da exposição, tecendo comentários e observações. Nas rodas de contação de histórias africanas e afro-brasileiras, conhecem personagens que trazem na pele a beleza da cor da noite, com as quais muitas se identificam. Mwana já teve a visita de crianças das duas unidades de Educação Básica da UFRJ: a Escola de Educação Infantil e o Colégio de Aplicação, e espera receber, em visitas guiadas agendadas, outras escolas. E não somente as crianças se encantam.

Por isso, conto uma das muitas histórias da Mwana. Na noite após a montagem, ao sair, encontro duas funcionárias da equipe de limpeza da universidade, duas mulheres negras, tirando fotos – selfies – na exposição. Uma delas, empunhando o celular ao lado de uma das imagens dos meninos africanos que nos trouxe Lucas Landau, sorria e dizia: “parecem meus sobrinhos.” A outra me vê passando e diz, mostrando as fotos das crianças de terreiro de Stela Caputo, falando em tom propositalmente baixo: “adoro isso, é minha religião também.”

Estudantes, funcionários técnicos e professores, não só da UFRJ, circulam pelo Espaço JJ – de dimensões reduzidas, modestas, mas que adora receber. E a programação é diversificada. Já houve sessão de cinema com o documentário Menino 23, seguida por intenso debate. Na semana que vem, terá samba de roda e capoeira com crianças cegas e com baixa visão, trazidas por educadores do Instituto Benjamin Constant. E mais virá. Tudo isso, como bem mostra o cartaz, entrando na roda, na gira da Mwana.

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Passados sensíveis (sobre a polêmica em torno de Vazante, filme de Daniela Thomas)

Vazante, novo filme de Daniela Thomas, é obra de longa maturação. Há cerca de 15 anos organizei, com Mariza Soares e Sheila de Castro Faria, uma primeira consultoria de pesquisa histórica para o roteiro então em elaboração. Perdi o contato com a cineasta, ex-colega dos primeiros semestres de minha graduação em história na UFF, depois disso. Só fui reencontrá-la ao aceitar o convite para assistir o corte final, em 2016, pouco antes da estreia no festival de Berlim.

Difícil descrever o impacto que tive ao me deparar com as imagens do filme. O mundo claustrofóbico, violento e intimamente segregado da escravidão das Minas Gerais oitocentista parecia ter saído dos velhos manuscritos com os quais comumente trabalhávamos – inventários post-mortem, processos criminais, registros paroquiais, iconografia de época… e se transformado em cinema, sob o ponto de vista de Antônio, tropeiro/traficante de escravos, português de meia idade e de sua segunda esposa, a menina Beatriz, obrigada a casar com o viúvo de sua tia, 40 anos mais velho, antes de completar 12 anos de idade.

Antônio decide se servir sexualmente de Beatriz apenas depois da primeira menstruação. Com o dote recebido pelo casamento, a família da menina, que vivia em um sítio dentro da propriedade de Antônio, muda-se para a cidade do Serro. Beatriz, sua avó e Antônio tornam-se os únicos brancos na fazenda.  Vivem em meio de africanos recém-chegados do tráfico transatlântico, conduzidos a ferros para serem vendidos como escravos na região, que por vezes fugiam e se aquilombavam nas redondezas, de escravizados e libertos tropeiros, que vigiavam os recém-chegados e conduziam os comboios de mercadorias, e em meio à comunidade de senzala da fazenda – formada por cativos e libertos que administravam o dia a dia da propriedade na ausência do senhor.

A primeira metade do filme é contada sob a perspectiva de Antônio, como um Casa_ Grande_e_Senzala no qual o comércio de mercadorias e de cativos ocupa lugar central. Antônio é uma “ilha branca” cercada de corpos negros que, a maior parte do tempo, o obedecem. Por que?  É na branquitude de Antonio e no seu poder de trazer as mercadorias que chegam dos portos do novo país até aqueles sertões, do sal a trabalhadores africanos escravizados, que se encontram as chaves do seu poder. O filme coloca o espectador no ponto de vista do senhor/traficante de escravos, buscando uma quase empatia, o que provoca angústia e mal-estar.

Antônio não é sádico, mas se mostra funcionalmente cruel. Obriga sexualmente a africana Feliciana, mãe do jovem Virgílio, representada pela atriz Jai Baptista, em atuação soberba, em um estupro continuado e regular. Depende do casal Joana e Porfírio para administração da fazenda nas suas muitas ausências, incluindo os cuidados com sua sogra e a menina/esposa, proporcionando um poder específico e uma relativa autonomia para a comunidade de senzala – o que efetivamente acontecia nas fazendas escravistas dos sertões. O preço pago era a naturalização da tortura, dos ferros e dos açoites, administrados pelos próprios feitores negros, cativos ou libertos, como o personagem Jeremias, sobretudo para fazer dos africanos novos, trabalhadores escravos. Neste jogo de ambiguidades, os personagens negros são defendidos por atuações vigorosas, que fazem o espectador vislumbrar um mundo negro de hierarquias e tensões, mas também de solidariedades e segredos – que, como o branco Antônio, o espectador não conhece nem consegue alcançar. Talvez se o roteiro do filme avançasse um pouco mais neste mundo apenas sugerido, fosse menos doloroso como experiência, sobretudo para plateias negras. Por outro lado, se o fizesse, romperia com a opção de contar a fazenda escravista a partir do olhar branco, raiz do mal-estar que a narrativa provoca.

A partir de um determinado ponto da história, o foco narrativo se desloca de Antonio para a menina Beatriz, que com a avó enlouquecida desde a morte da filha, durante as longas viagens do tropeiro, cresce sob a proteção e os cuidados da comunidade de senzala. A ingenuidade do olhar de Beatriz, um olhar quase infantil, feminino e também subalterno, nos deixa ver um pouco mais do mundo negro que a envolve e nos permite acompanhar sua aproximação com Virgílio. Os dois jovens conseguem viver a paixão que os une antes de se consumar o casamento dela. O quarteto Antônio, Feliciana, Beatriz e Virgílio é o condutor do filme até o seu final trágico e alegórico:  a mestiçagem brasileira como filha da violência e do estupro, o genocídio negro como consequência e a possibilidade de empretecimento como redenção.

Em tempos de “Django Unchained” explodindo a plantation, Vazante escancara o absurdo de imaginar a escravidão como mito fundador de uma nacionalidade brasileira racialmente “democrática”, como ainda faz a leitura canônica de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. É um filme sobre patriarcalismo e racismo, que constrói sua narrativa do ponto de vista da sinhazinha branca “vendida” como esposa aos 12 anos. Apesar ou por causa disso, tem sido quase insuportável para as primeiras plateias negras que o assistiram. Crítica de Juliano Gomes, na revista CINETICA, fala da angústia que o filme suscita e o acusa indignado de reforçar imagens coloniais ao se limitar à velha “impotência da superconsciência branca”. Têm razões desse ponto de vista, Vazante não descoloniza o olhar, pelo menos como leitura imediata.

A crítica de Juliano é, porém, dilacerada, desenvolvida a partir de uma dupla possibilidade de recepção da obra. Muito do que escrevi aqui me foi suscitado por ela. Ao assumir como título “A nova fita branca”, que suponho referir-se ao filme “A Fita Branca“, de Michael Haneke,  que sugere, como raízes do Mal que possibilitou a ascensão do nazismo, as relações familiares da Alemanha de início do século XX, me ofereceu a chave de leitura que busquei desenvolver neste texto: o racismo íntimo como Mal que está na raiz da brasilidade. Os comentários sobre a catarse coletiva durante a discussão do filme no festival de Brasília têm esquecido de se referir sobre o silêncio branco na sala de debates.

Vazante mobiliza passados sensíveis. Quebra com a ética do silêncio sobre nossas identidades racializadas e nos faz brancos ou negros quando o assistimos. Foi desenvolvido em co-produção com Portugal, em um momento em que setores da sociedade portuguesa tentam romper o silêncio racial para combater o mito do bom colonialismo, como a recente série de reportagens do jornal O Público, sobre o tema, ilustra. Com imediata reação de intelectuais conservadores brancos, brasileiros e portugueses.  É um filme que fala sobre racismo e patriarcalismo de um ponto de vista eticamente crítico, mas sociologicamente compreensivo. Vem produzindo reações vigorosas das sensibilidades e plateias negras felizmente presentes e ativas no século 21. Entre o ressurgimento do conservadorismo branco e as demandas de protagonismo dos movimentos negros, os debates e silêncios na recepção da obra são parte integrante da potência do filme.

Vazante desnuda o racismo e o papel fundamental do tráfico de escravizados no colonialismo português e no Estado brasileiro que o sucedeu. No filme, os cativos da África foram interpretados por novos imigrantes africanos, cada vez mais presentes no Brasil de hoje, e os integrantes da comunidade de senzala por moradores dos quilombos das cercanias das locações, sem dúvida remanescentes dos cativos que interpretam e do continuum de comunidades de senzala, camponeses negros livres e quilombolas históricos que, então, formavam o mundo negro das Minas Gerais.

Vazante  é uma experiência estética deslumbrante que provoca mal-estar. Um mal-estar a ser enfrentado. Precisamos falar do trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu. Dos passados de violência em cada família, negras ou brancas. Da violência das mestiçagens que nos constituíram e se reinventaram nas imigrações europeias que se seguiram. De racismo e privilégio. De dor e ressentimentos.

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Do Congo ao Valongo

Hoje o quilombo vem dizer
A favela vem dizer
A rua vem dizer
Que é nós! Por nós!

 

Com esse estribilho, em alto bom som, Mano Teko celebrou, cantando, o aniversário do Filhos de Gandhi no Rio de Janeiro, na noite de 12 de agosto passado na Praça dos Estivadores, zona portuária da cidade. E estiveram ali Agbara Dudu, Banda Òrúnmilá, As Três Marias, Grupo Dandalua e Maracatu Baque Mulher, entre outros grupos e artistas, marcaram presença na praça – antigo Largo do Depósito – festejando a existência e história deste afoxé, com discursos e canções que exaltavam a importância da consciência e resistência da cultura negra local.  Lá também se apresentou o Afóxé Filhas de Gandhi – cabeças iluminadas e autônomas, como se qualificam – trazendo sua dança, música e uma fala afirmativa e poderosa que entusiasmou a assistência de uma forma única.

 

FilhosdeGandhi

 

Na ocasião festiva, em diversos momentos se destacou o reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio cultural da humanidade. O Cais, como símbolo da chegada de africanos e africanas escravizados nessa cidade, no país e no continente americano, hoje atravessa os discursos e se coloca não apenas como porta de entrada das muitas áfricas que aqui chegaram, mas também como referência de um caminho afirmativo para a nossa história e identidade. Uma vez cientes das dores e injustiças, trazendo-as vivas na memória, se pode celebrar a beleza e força vital de nossos ancestrais, em honra dos quais se dá prosseguimento à luta e se faz a festa.

Com toda a razão, o fato do Cais do Valongo ter sido alçado à patrimônio cultural que os humanos compartilham veio a favorecer um incremento de atividades em que grupos negros da cidade ocupam com diversas expressões de sua arte, as praças e espaços públicos da região portuária. E tem que ser assim, deve ser assim. São essas pessoas que trazem uma história que deve ser especialmente visibilizada, afirmada, e valorizada naquele entorno. As pedras pisadas do local de desembarque que, assim como o Cemitério de Pretos Novos, tanto medo e dor testemunharam, se apresentam dessa maneira dando um sentido ao reconhecimento coerente com as justificativas de sua proposição. Evidentemente isso não é de hoje. Trata-se de um sítio histórico de memória sensível, símbolo material do desembarque de milhões de africanos escravizados nas Américas, mas é também um espaço que relembra o poder de resistência e de criação de nossos antepassados. Foi ao redor do Cais onde se constituíram espaços – como o Quilombo da Pedra do Sal – e se criaram expressões da herança viva dessa ancestralidade, em religiosidades, sonoridades, movimentos. Proteger esse patrimônio significa também resguardar as muitas expressões culturais de matriz africana que ali existem há muito tempo e cujas histórias ultrapassam os limites da região, da cidade e mesmo do nosso país.

 

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Cerimônia da lavagem simbólica do Cais do Valongo (2014). Foto de João Maurício Bragança.

 

Na mesma reunião da UNESCO em que se deu o reconhecimento do Cais do Valongo, se conferiu o mesmo título a Mbanza Congo, cujo centro histórico passou a figurar na lista de patrimônios culturais da humanidade. Esta cidade, capital do antigo reino do Congo, foi denominada pelos portugueses como São Salvador e, sobretudo a partir da conversão da realeza local ao Catolicismo, ainda no século XV, se estabeleceu uma relação estreita entre os seus governantes e o Estado português.  A justificativa da candidatura toma por base os achados arqueológicos que sinalizam a presença de vestígios do antigo palácio do manicongo – título do soberano local – e do primeiro templo católico construído em África ao sul do Saara, em 1491,  conhecido como Kulumbibi. Destaca também a árvore sagrada denominada Yala Nkuwu, o Lumbu (Tribunal Consuetudinário) de MBanza Congo e assinala a importância da influência cultural que a sociedade do Congo exerceu nas Américas por meio da diáspora africana.

 

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Vista da cidade M’banza-Kongo, capital do reino do Congo. Fonte: Description of Africa, de Olfert Dapper (ca 1635-1689), gravura, 1686.

 

Muitos súditos do reino do Congo e habitantes de áreas próximas foram escravizados e transportados pelas rotas atlânticas até as Américas, e em especial para o Brasil, onde, em sua maioria, deram entrada pelo porto do Rio de Janeiro. Alguns ficaram na cidade, outros foram levados para o interior do atual estado do Rio e outros tantos conduzidos para Minas Gerais. As heranças africanas trazidas desta região da África para o Brasil se evidenciam sob muitas formas, e se podem observar especialmente em manifestações culturais como a Congada. Marina de Mello e Souza sinaliza a existência de referências à festa da Congada no Brasil desde o século XVII – como se pode ler em seu livro Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa da Coroação de Rei Congo – e Martha Abreu, em diversos estudos sobre essa e outras festas afro-brasileiras, releva sua importância como espaço criado pela população negra para expressar suas religiosidades, identidades, alegrias e também sua luta e resistência.

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Congada em Piedade do Rio Grande – MG. Foto de Livia Monteiro.

 

De um lado e de outro do oceano, esses dois espaços que se conectavam com as rotas transatlânticas da travessia dos tumbeiros não tiveram tanto contato direto pois, quando o desembarque de cativos foi transferido pelo Marquês de Lavradio para a enseada do Valongo, em fins do século XVIII, Mbanza Congo não era mais a sede de uma região tão importante para o infame comércio. Ainda assim, muitas africanas e africanos que se identificavam como congo foram levados a cruzar o oceano como cativos, embarcados em portos da baía de Cabinda e do Loango, até meados do século dezenove. Na região do Valongo muitos destes chegaram e foram postos a venda em seus armazéns. Alguns circularam pelas ruas, trabalharam, criaram laços, e uns poucos conseguiram a liberdade. Recentemente, já no século vinte e um, migrantes da região que outrora fazia parte do antigo Reino do Congo e arredores, chegaram e povoam a região do Cais do Valongo sob outras formas. Surgem assim na área aqueles que trazem áfricas contemporâneas, que circulam e imprimem com sua presença outras modalidades de expressão da diáspora. E tudo isso acontece trazendo como novas e antigas bases as marcas visuais de identidade, o som dos tambores, a roda, a gira, o batidão e a poesia.

 

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