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Porque hoje é 13 de Maio … por Hebe Mattos, Ana Flavia Magalhães Pinto, Keila Grinberg, Martha Abreu, Giovana Xavier e Mônica Lima.

Hebe Mattos

Em tempos de vitória eleitoral da extrema direita, celebramos mais um treze de maio no Conversa de Historiadoras. 131 anos daquele 13 de maio de 1888, a tardia data em que o Brasil, ultimo nas Américas, aboliu legalmente a escravidão e reconheceu formalmente plenos direitos civis a todos os brasileiros.

Desde muito jovem pesquisadora do período, sempre formei entre aqueles que destacam o caráter radical da transformação então realizada. O abolicionismo foi o primeiro movimento social de massas da história do país e, como reconheceu no calor da hora o historiador Capistrano de Abreu, os últimos escravizados foram os protagonistas do “timing” final do processo – ao abandonaram em massas as fazendas mais rentáveis da economia escravista.

Nos últimos anos, entretanto, a pesquisa em história social da escravidão – esforço no qual me incluo – começou a levantar o véu não apenas do volume estonteante do contrabando de cativos africanos ao arrepio da lei brasileira desde 1831, mas também da prática da escravização ilegal de livres “de cor” e indígenas em situação de fragilidade social e sem proteção de um poderoso de plantão, com a cumplicidade de praticamente toda a “boa” sociedade da época. Tema, aliás, central para os abolicionistas radicais do período, sobretudo negros, até muito recentemente considerado como exagero retórico por grande parte dos pesquisadores. As novas abordagens colocam em relevo, do ponto de vista daqueles que o sofreram, como o racismo e o desrespeito cotidiano com os mais elementares direitos civis têm raízes profundas na história do país como estado constitucional e nunca estiveram restritos à existência legal da instituição da escravidão. Violência cotidiana que sempre foi a outra face da moeda da invisibilização social da grande maioria de afrodescendentes livres em situação de respeitabilidade social.

Neste sentido, ainda que a abolição da escravidão como instituição legal e considerada legítima mantenha-se, sem dúvida, como a mais profunda transformação da história brasileira, o racismo estrutural e as cumplicidades que engendra, bem como a irrelevância prática dos direitos civis para enormes parcelas da população, são uma linha de continuidade que se manteve praticamente inalterada – e quase naturalizada – até, pelo menos, a constituição de 1988.

Os números e as práticas que as pesquisas revelam são perturbadores. O silêncio sobre elas, ou a quase naturalização delas – sem identificação de fato com aquele que sofre a violência – na maior parte das artes, literatura e historiografia brasileiras, mais ainda.

É desalentador constatar que todo o esforço da luta antirracista dos últimos 30 anos, de denúncia, produção de estatísticas e formulação de medidas de ação afirmativa, tenham desembocado na emergência de uma extrema direita capaz de fazer a defesa pública do genocídio negro como política de segurança – e com ela se eleger em diversos níveis do sistema representativo brasileiro.

Por outro lado, tornar visível o horror que sempre nos constituiu talvez seja uma consequência inevitável da radicalização da democracia brasileira. Nas democracias, vence quem tem mais votos, mas são preservados os direitos constitucionais das minorias eventuais. É este princípio que disputamos a cada dia que acordamos no Brasil de hoje. Se conseguirmos preservá-lo, a encarnação do horror como discurso público talvez seja um pré-requisito inevitável para que a tão esperada segunda abolição possa um dia se produzir.

Ana Flávia Magalhães Pinto

“Como se os ancestrais fossem filhos dos meus sinais / Sigo o chamado altivo / Sobrevivo aos temporais”. Inseridos numa melodia que produz a sensação de movimentos contínuos de idas e vindas, esses versos são parte da trilha sonora do filme A Última Abolição, composta por Tiganá Santana, musicista e recém-doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. O documentário, dirigido por Alice Gomes, com entrevistas de Luciana Barreto e supervisão artística de Jeferson De, reúne intelectuais atuantes na academia e em outros espaços sociais, apresentando uma leitura densa e acessível sobre as lutas contra a escravidão e em defesa da liberdade e da cidadania. Em conjunto, a narrativa também problematiza, de diferentes perspectivas, os desdobramentos dessas disputas no pós-abolição.

Trata-se do produto de uma coletividade ainda mais ampla que compartilha na atualidade o entendimento de que a História é feita da ação de múltiplos sujeitos e que, portanto, não faz o menor sentido reduzir todo o processo que levou à assinatura da Lei Áurea, em 13 de Maio de 1888, a uma pessoa. Até porque a Abolição não inaugurou a experiência da liberdade negra no Brasil. Sendo assim, a princesa Isabel não poderia ser apresentada como aquela que “garantiu a liberdade aos negros”.

Num esforço de diálogo, com foco na institucionalidade, uma possibilidade talvez fosse o reconhecimento de que os três séculos de uma escravidão que absorveu o maior quantitativo de africanos escravizados nas Américas produziram uma sociedade que, de tão racializada e racista, naturalizou o costume de violentar também a vida de homens e mulheres negras que, por caminhos diversos, viviam como livres ou libertos. O fim legal do escravismo, portanto, iluminaria a centralidade do “preconceito de cor” ou do “ódio de raça” na organização da sociabilidade brasileira.

Mas isso parece estar, definitivamente, longe das preocupações que explicam o fato de, passados 131 anos da abolição no Brasil e a despeito de toda a produção historiográfica desenvolvida ao longo de décadas, o trio formado pelo deputado príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, o deputado (filho de presidente) Eduardo Bolsonaro e o deputado delegado Waldir terem requerido a realização de sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem à Princesa Isabel, no próximo 14 de maio.

Se esses compõem tão somente uma parcela ensimesmada a querer se afirmar como ocupantes exclusivos do centro da vida pública do tempo presente, o futuro está aí para podermos dimensionar melhor. Por ora, tal como aconteceu em 1888, é fácil perceber que esses indivíduos não são os únicos a ter o que dizer e defender. Sob o mote “Não veio das mãos de Isabel! Nossa liberdade é conquistada todos os dias!”, outros parlamentares, intelectuais ativistas e acadêmicos negros e brancos também agendaram para a manhã de terça-feira, às 10h30 o Ato em Memória da Luta do Povo Negro pela sua Liberdade, no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

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Como vemos, este não é o primeiro mês de maio em que, desde 1888, as diferenças, as desigualdades e as expectativas sobre os sentidos da liberdade negra poderão ser vistas e analisadas pela sociedade brasileira. O pós-abolição, aliás, tem sido um tempo de enfrentar demandas. E por falar em demandas, já que comecei este texto com os versos que encerram o filme que tem nos ajudado a ampliar os debates sobre as idas e vindas dos caminhos da liberdade no Brasil, termino com um convite para seguirmos a reflexão a partir da música com a qual o mesmo documentário se inicia e que fala de também de continuidades e enfrentamentos de dores, violências e tentativas de apagamento:

És Maçalê…

com a bravura que há de ter um Maçalê…

quando firmas, no chão, mais que pés de negro.

Segues na quilha da dor,

mas não hás de fenecer…

nem um sonho a menos;

velarás por um canto que hás de ser…

Maçalê… és Maçalê…

porque fazes do olhar um olhar por merecer;

uma guerra de flor… uma flor de guerreiro…

Serás mão do teu senhor,

és teu próprio massapê…

Vês?! És Maçalê,

e não farás envelhecer, Maçalê,

o que o teu nome diz:

Ogunhê!

#paremdenosmatar #vidasnegrasimportam

Keila Grinberg

80 tiros.

Segundo o presidente, o Exército não matou ninguém.

80 tiros.

“O racismo é uma coisa rara no Brasil”, declarou o presidente.

Na verdade foram mais de 200 tiros.

Não tem 13 de maio nenhum

Não tem 13 de maio nenhum que dê conta de tamanha tragédia.

Acontece que acabar com o sentido do 13 de maio é justamente o que querem os que dizem que não há racismo no país, que massacre é fatalidade e que o problema das universidades é ter crescido demais.

Ninguém mais tem tempo a perder com eufemismos neste país. O mínimo a fazer é chamar as coisas pelo nome que têm: os bons tempos do Império não tinham nada de bons, ninguém conseguiu a liberdade de graça e os antigos senhores só não receberam indenização graças à mobilização do abolicionismo negro e popular. E o Exército matou alguém, sim. Matou um homem negro, um cidadão brasileiro que cometeu o crime de passear no domingo com sua família. Não foi incidente. Foi execução.

Também convém lembrar de tudo o mais que essa gente quer esquecer: 13 de maio é dia de reforçar que ninguém abre mão do que conquistou. O ensino superior público e  gratuito é direito de todos, principalmente daqueles que, historicamente, não tiveram acesso a ele. (O problema da universidade não é ter crescido demais, é não ter crescido o suficiente). Para cada Marielle assassinada, quatro novas são eleitas. A abolição da escravidão – incompleta, imperfeita, tardia – é também irreversível.

Martha Abreu

“Canoa Virada”

Não foram poucos os que lutaram pelo 13 de maio!! E também não foram poucos os que lutaram para que essa data não fosse esquecida, especialmente como caminho de afirmação da população negra e de luta pelo reconhecimento do direito de todos os brasileiros à liberdade, à igualdade e à cidadania plena.  Ao longo do século XX, as manifestações pelo 13 de maio nunca deixaram de acontecer e os exemplos são inúmeros :  nos jongos, nos encontros de associações de trabalhadores, nas festas  cívicas, religiosas e recreativas, e mesmo nos enredos das escolas de samba.

Hoje, faço aqui uma homenagem ao músico negro, Eduardo das Neves, que fez questão de gravar na nascente indústria fonográfica o que foi considerado, ainda em 1888, o hino popular da Abolição.   Como conseguiu convencer o empresário e emplacar essa gravação, até hoje não tenho ideia, mas, certamente, o músico conhecia bem o poder dessa nova tecnologia  em produzir registros duradouros sobre vozes e canções de evidente sentido político e transgressor.  Provavelmente, Dudu tenha gravado “A Canoa Virada”,  em 1909, quando também se comemorava, nas festividades do 13 de maio daquele ano, a entrada do político negro Monteiro Lopes na Câmara de Deputados Federal.

Registro aqui alguns versos do lundu a  “Canoa Virada”, uma evidente alegoria sobre o fim da escravidão:

A canoa virô
Deixá-la virá
De boca para baixo
Cacunda pro ar
Chegou ocasião da negrada bumbar

Depois de vilas e cidades
Andei pelos arrabaldes,
Não há quem não desejasse,
O dia da liberdade

 

Giovana Xavier

Carolina, Firmina e Conceição: intérpretes da liberdade

131 anos depois de assinada a Lei Áurea, a pergunta “o que aconteceu com a população negra no pós-abolição?” permanece atual. Muitas são as respostas possíveis. No 14 de maio de 1888, centenas de milhares de pessoas tornadas livres e milhões de outras nascidas livres ou libertas antes da lei seguiram suas vidas como trabalhadores. Para quem quiser conhecer mais sobre o assunto, a leitura do livro A vida dos escravos no Rio de Janeiro, de Mary Karasch é parada obrigatória. Na obra, a historiadora norte-americana apresenta uma lista de profissões desempenhadas pela população escravizada. Embora pouco se comente, barbeiros, mergulhadores, costureiras, parteiras, modistas, ourives foram ocupações, em muitos casos, hegemonizadas por africanos e descendentes na corte imperial.

Como exemplo da impossibilidade de uma “ciência neutra”, essa pluralidade de atividades profissionais exercida por pessoas de cor durante todo o período escravocrata (e que se manteve no pós-abolição) foi ignorada pelas Ciências Sociais das primeiras décadas do século XX. Exemplo disso é a expressão icônica usada por Florestan Fernandes para se referir a mulheres, homens, crianças negras depois do 13 de maio: “largados à própria sorte”.

A ideia legitimada por Florestan e seus colegas da Escola Sociológica Paulista durante a execução do projeto Unesco justificam muitas histórias únicas. Histórias contadas pela supremacia branca e que nos impedem de enxergar mulheres como Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance da história do Brasil (Úrsula, 1859), Carolina Maria de Jesus, escritora do célebre Quarto de despejo: diário de uma favelada (livro de 1960 traduzido para diversas línguas, com tiragem estendida de três para trinta mil exemplares) e, mais recentemente, Conceição Evaristo, ganhadora do Prêmio Jabuti com a linda obra Olhos d´água, como intelectuais negras.

A pergunta que fica é: por que em um país de 54,4% de pessoas negras soa absurdo pensar esse trio de mulheres como intérpretes do Brasil tal qual Caio Prado Junior, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Hollanda? Há quem torça o nariz para as dimensões passado-presente da nossa história. Tremendo besteirol, também conhecido como “mais do mesmo”.

Em 13 de maio de 2019, sou mais Carolina: “Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”. #DeixaEuDançar #LiberdadeDJRennandaPenha

 

Mônica Lima

Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será, um grande mal.”

Esta frase é do conto A Escrava, da escritora e professora negra maranhense Maria Firmina dos Reis, que foi publicado em 1887 na Revista Maranhense nº3. Ela já havia escrito antes um romance abolicionista (Úrsula), publicado em 1859. E, em 1888, compôs um hino à abolição: Hino da Libertação dos Escravos, com letra e música de sua autoria, que tem nos seus primeiros versos “Salve! Salve o Sol que raiou hoje, difundindo a Liberdade!”

Que tanto sabemos da luta, da militância de mulheres negras de diferentes regiões do Brasil pela abolição? Das resistências em suas mais diversas expressões, das fugas, dos enfrentamentos, da busca pela liberdade, protagonizadas por elas?  Certamente, ainda muito pouco.

“Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”

Em nove de janeiro passado completaram-se dezesseis anos da promulgação da lei 10639, que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e das lutas dos negros no Brasil. Com seus dispositivos ainda em vigor, tendo sido ampliada em 2008, com a inclusão da história indígena, mantem-se em sua integridade na lei de diretrizes e bases da Educação Nacional. Muito foi feito, e está sendo feito, para passar da intenção ao gesto, e implementar essa medida. Mas, muito mais falta fazer, e são cada vez mais difíceis os enfrentamentos. Sem deixar de reconhecer tudo que construímos, nosso passos adiante nessa luta pela real liberdade terão que se haver com as tentativas atuais de silenciamentos e negacionismos diversos, que tentam apagar ou reduzir o papel fundamental de negras e negros no processo abolicionista.

Nessa batalha pela nossa História, sugiro escolhermos nossas armas e estratégias. E entre elas, está iluminar as trajetórias pessoais dessas mulheres negras que fizeram parte da luta contra a escravidão: as que escapavam pelas quebradas da região do Cais do Valongo (fala, Catarina Cassange!), as que usavam de seu trabalho e seu saber para obter a alforria e defendiam essa liberdade como sagrada (fala, Teodora!), as abolicionistas militantes como Maria Firmina e tantas e tantas outras. Conhecê-las, e encontrarmos nelas parentesco e inspiração, torna-se um caminho para não perdermos o (p)rumo, além de desvelarmos as inverdades dos que querem invisibilizar suas histórias. O ensino de História pode – e já há quem o faça, seguramente, mas que sejamos mais – trazer as presenças vivas dessas pessoas, como matéria e material de estudo, para nosso arsenal de combate. Com elas, e perto delas, seremos mais fortes. E mais fiéis ao que nos move.

Por mais trezes de maio, feitos de muitas histórias negras.

A história de Catarina Cassange está no livro

FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio, SOARES, Carlos Eugênio, MOREIRA, Carlos Eduardo. Cidades Negras: africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista do século XIX. São Paulo: Alameda, 2006.

A história de Teodora Dias da Cunha está no artigo

“Teodora Dias da Cunha: construindo um lugar para si no mundo da escrita e da escravidão”, de Cristina Wissembach, publicado no livro FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio e XAVIER, Giovana. Mulheres Negras no Brasil Escravista e do Pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.

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Liberdade de expressão, a Rede Globo, e a Escrava Isaura … por Paula Halperin com apresentação de Keila Grinberg

Na mesma semana em que mais de 10.000 intelectuais de todo o mundo expressam sua preocupação com os cortes anunciados pelo governo federal na área de Ciências Humanas, o Conversa de Historiadoras recebe duas importantes contribuições de historiadores de universidades norte-americanas sobre a liberdade de expressão no país. No último sábado, Sidney Chalhoub, Professor Titular de História do Brasil da Harvard University, reforça as conexões entre liberdade acadêmica e liberdade de expressão. No texto a seguir, a historiadora Paula Halperin, Professora Associada da The State University of New York, lembra as conexões históricas entre liberdade de imprensa e liberdade de expressão no Brasil. Que não haja dúvidas: universidades sem ciências humanas são universidades sem pensamento crítico. Não há ameaça maior à liberdade de expressão. (KEILA GRINBERG)

Liberdade de expressão, a Rede Globo, e a Escrava Isaura

Paula Halperin

No dia 26 de abril passado, o Senado realizou uma sessão solene em homenagem aos 54 anos da criação da TV Globo, inaugurada em 1965. Transmitida naquela mesma noite pelo Jornal Nacional, a comemoração foi conduzida por Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, contando com a presença do vice-presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho (filho de Roberto, fundador da emissora), outros executivos do Grupo, parlamentares e do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli.

A defesa da liberdade de imprensa e a qualidade e o didatismo da teledramaturgia da emissora foram os temas principais da comemoração. O Senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP;  autor do pedido para a realização do evento), expressou que, em um momento como o atual em que a liberdade de imprensa está sob ameaça, “a TV Globo é um baluarte na defesa da liberdade constitucional ao longo da história (…) [o evento ] é para homenagear a Rede Globo e seu papel de integração nacional, mas é também para a defesa desse valor fundamental presente na nossa Constituição”.

Hoje, qualquer manifestação publica de defesa à liberdade de imprensa não é só fundamental como urgente. O evento, contudo, esconde um conjunto de falácias históricas. Homologar a necessidade de uma esfera publica democrática e igualitária com uma emissora de televisão que forma parte do conglomerado midiático mais importante do país seria cômico, se não fosse trágico. Assegurar que a Globo tem sido garantia de democracia e um baluarte na defesa da liberdade constitucional é, no mínimo, uma distorção dos fatos históricos, já que é de domínio publico que o Grupo Globo apoiou abertamente o golpe de 64, cresceu e se fortaleceu com a ditadura militar e frequentemente se associou à campanhas e políticos abertamente conservadores e golpistas.

Pressionado pelos eventos de junho de 2013, quando manifestantes nas ruas acusaram a emissora de ter sido aliada da ditadura militar, o Grupo publicou um pedido de desculpas no jornal O Globo em 1 de setembro daquele ano. “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, foi o editorial que pretendeu reparar esse erro ao reconhecer publicamente o apoio. Dito reconhecimento, porém, faz referência só ao golpe, parcialmente justificado no artigo ao mencionar o radicalismo de Goulart e as antinomias da Guerra Fria. Se destaca, assim mesmo, a cumplicidade e o apoio dos outros jornais ao golpe, e sobretudo, uma suposta adesão massiva do povo brasileiro a ele. Nada se menciona sobre o comportamento da emissora e de todo o Grupo nos anos subsequentes, nem que a sua evidente modernização tecnológica, possível graças ao investimento do governo federal daqueles anos, foi o que permitiu à emissora se estender por todo o território nacional (cumprindo o projeto de integração tão almejado pelos militares) e reinar hegemônica durante décadas.

Esse reinado se estabeleceu assentado na qualidade do jornalismo e em uma teledramaturgia dinâmica, leve e moderna. Como a historiografia sobre o tema tem destacado, a “migração” de escritorxs, dramaturgxs e profissionais do cinema à emissora nos anos 60, em muito influenciou na construção de uma linguagem e uma estética inovadoras, principalmente na ficção narrativa, que ainda hoje enfatiza o realismo sobre o melodrama. Ciente desse fenômeno, o ministro Toffoli (recentemente envolvido em dois casos de imposição de censura a dois veículos da imprensa e participante da mencionada solenidade) homenageou em seu pronunciamento a qualidade da teledramaturgia brasileira que encontra nas novelas da emissora sua expressão mais verdadeira.

Segundo Toffoli, se não fossem as novelas da TV Globo, a população brasileira estaria assistindo a “enlatados da dramaturgia de uma outra nação, de outro país”, em obvia referencia à “dependência” de outras emissoras latino-americanas que, à diferença da Rede Globo, importam grande parte de sua programação dos Estados Unidos. A Globo, pelo contrário, exporta as suas novelas a vários países desde a década de 70, mostrando a cultura e as características dos brasileiros mundo afora, na ponderação do ministro. Considerando a novela Escrava Isaura (1976), ele se perguntou, “quem não se lembra de tanta coisa que aprendeu e conheceu da história do Brasil através da dramaturgia da Rede Globo?”.

A menção à novela Escrava Isaura não poderia ser mais propícia hoje, quando o racismo estrutural da sociedade brasileira se reproduz aberta e desavergonhadamente nas ruas, nas universidades e nas mídias. A ficção global da década de 70 procurou nas adaptações da literatura nacional esse “ser brasileiro” mencionado pelo ministro. Escrava Isaura, adaptação do romance homônimo de Bernardo Guimaraes (1875), personificou as  violências e injustiças da escravidão na figura de uma mulher branca, jovem, culta e submissa. Simplificando as razões históricas da escravidão no Brasil, omitindo o colonialismo, minimizando o caráter distintivo do racismo no país, a novela ensinou uma versão daquela historia aos brasileiros e brasileiras que a assistiam naquele ano de 1976 e na reprise no ano seguinte.

No final feliz e romântico da novela, Isaura ganha carta de alforria do seu amado, o fazendeiro abolicionista Álvaro, casando-se com ele e não sem antes liberar os escravos da fazenda onde vão morar, transformando as escravas e escravos em empregadas domesticas e peões rurais. No seu ultimo capitulo, a Escrava Isaura mostra os personagens negros dançando de alegria pela liberdade outorgada por Álvaro, para logo servir -na casa grande onde outrora eram escravos e escravas – os salgadinhos, bebidas e doces da festa de casamento dos seus novos patrões.

A novela enaltece a luta pela liberdade de Isaura e a coragem dessa e de outras mulheres brancas da história, que acham a escravidão hedionda e retrógrada. Isaura foi a heroína indiscutida da narrativa, amada no Brasil e no exterior, enquanto a experiente atriz Léa Garcia, que personificou a escrava-vilã Rosa, recebeu ameaças de telespectadorxs nas ruas. Sua personagem acaba se suicidando na novela; mesquinha, Rosa não suporta ver Isaura feliz, a própria liberdade não é suficiente. A narrativa menos pomposa, os diálogos mais ousados e realistas, a reconstrução de época e a bela fotografia nos exteriores convergeu com noções de harmonia racial e social que, aspirando ser ideologia oficial, circulavam no imaginário de uma época cheia de contradições e resistências.

Indubitavelmente, a educação sentimental de milhões de brasileiras e brasileiros (incluindo a de quem escreve e com certeza, a do próprio ministro Toffoli), cresceu, de forma peculiar, assistindo à teledramaturgia da Rede Globo. Com contradições, tensões e muitas simplificações, as narrativas históricas e sociais que as novelas projetaram e ainda projetam, não têm sido um reflexo das origens e trajetória conservadora da emissora, mas se relacionam de forma complexa e multifacetada com essa historia e a própria história do Brasil.   Em um momento como o atual, onde o saber acadêmico, o trabalho intelectual, a crítica, a militância politica das minorias e a liberdade de imprensa e expressão estão em risco, cabe a nós, historiadorxs, reconstruir essas narrativas, sem falácias nem meias verdades.

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O nazismo é de extrema direita (por Keila Grinberg e Monica Grin)

Em visita ao Yad Vashem, museu e memorial em homenagem às vítimas do Holocausto em Jerusalém, nossos governantes insistiram na tese delirante e absurda de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Ela é falsa. O nazismo foi um movimento de extrema-direita surgido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Seu líder, Adolf Hitler, chegou ao poder em 1933 com um discurso eugenista de oposição ao liberalismo e às esquerdas. Uma de suas peças de propaganda era justamente o combate ao comunismo.  “Converter o comunista é a tarefa do movimento nacional-socialista (nazista)”, escreveu em Minha Luta, em 1925. Mais adiante, no mesmo livro, ele reafirma: “o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”.

O ditador não estava brincando. Iniciou seu governo cassando os mandatos dos deputados do Partido Comunista da Alemanha. Em março de 1933, o partido foi proibido. Seus líderes foram presos, torturados e confinados em campos de concentração. E isto foi apenas o começo: acreditando serem racialmente superiores, os nazistas empreenderam extermínio sistemático dos judeus, a quem consideravam racialmente inferiores. Tratamento especialmente cruel era dirigido aos judeus de esquerda, “opositores do regime”. A estrela amarela, marca de distinção e humilhação que todos os judeus deviam portar bordada às suas roupas era, no caso destes, amarela e vermelha.

Que o Partido Nazista é de extrema direita é consenso entre historiadores e especialistas no mundo inteiro. Quem duvida pode consultar os sites do Museu do Holocausto dos Estados Unidos, do Memorial do Holocausto em Berlim ou do próprio Yad Vashem. Ou, como fez esta semana o presidente do Brasil, caminhar por suas galerias. Ao que parece, ele perdeu a oportunidade de aprender quem foram as vítimas do nazismo: além dos judeus, os nazistas encarceraram, torturaram, escravizaram e mataram ciganos, eslavos, homossexuais, socialistas e comunistas, entre tantos outros. A negação deste fato é um desrespeito flagrante à memória daqueles que sofreram e morreram no Holocausto. É triste que o governo israelense, quem sabe esquecido da importância do sionismo de esquerda para a criação do Estado de Israel, nada tenha declarado a respeito. E é vergonhoso que as instituições judaicas brasileiras não tenham reagido a tamanho impropério.

Ou o governo brasileiro duvida das informações veiculadas por órgãos israelenses, norte-americanos e alemães, ou perversamente deturpa o passado. Ao final de sua visita, o presidente sintomaticamente declarou que “aquele que esquece o passado está condenado a não ter futuro”. A frase se aplica a ele mesmo – e nisso não podia ter mais razão. Bolsonaro quis mostrar erudição, mas a citação está errada. A referência correta é “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo”. A frase vale para todos. Está na hora de lembrar o passado. E de respeitar a História. 

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Triângulos do Holocausto, 1936 (wikipedia)

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Viva o Carnaval!

Nos últimos 50 anos, o Brasil que não está no retrato tornou-se objeto de estudo de historiadorxs profissionais. A história vista de baixo, a história das mulheres e das relações de gênero, a história social da escravidão, a história indígena, a história da memória (e dos esquecimentos), incluindo o estudo da ditadura civil militar e dos crimes então cometidos pelo estado brasileiro, são temáticas que mereceram inúmeros artigos, livros, debates, teses e dissertações, desenvolvidos nas últimas décadas nas universidades brasileiras, com reconhecimento acadêmico internacional. A partir das leis 10639 e 11645, com a parceria, pressão e incentivo dos movimentos sociais, começamos a ultrapassar os muros da universidade. Este blog é um pouco filho deste momento.

As novas pesquisas históricas estão hoje também nas escolas de samba. O uso de trechos de documentos de arquivos, como os jornais escritos por intelectuais negros no século XIX, transformados em alegoria no desfile de 2018 da Paraíso do Tuiuti  e a petição de Esperança Garcia contra os maus tratos e torturas que sofria de seu “senhor”, no vitorioso desfile da Mangueira deste 2019,  evidenciam a presença, cada vez mais importante, dos jovens profissionais de história, muitas vezes ligados às comunidades, no mundo do carnaval. Neste ano, o segundo carro da Mangueira,  genocídio indígena,  desenvolvido a partir do monumento aos bandeirantes de São Paulo, construiu uma alegoria simplesmente fenomenal para a violência constitutiva de nossa memória nacional, mais um resultado dessa nova imaginação histórica, metodologicamente sofisticada e  comprometida com a diversidade.

Em 2016, um dos textos campeões de visualizações do blog, de autoria de Martha Abreu, comentou a cegueira dos comentaristas da TV Globo em abordar a riqueza, o embasamento e a complexidade, em termos históricos e culturais, das narrativas dos enredos das escolas de samba.

Este ano não foi exceção. Apesar do deslumbramento com o desfile da Mangueira, os comentaristas insistiam em afirmar que o carnavalesco Leandro Vieira trazia um ponto de vista sobre a história do Brasil que colocava luz em possibilidades e personagens sobre os quais quase nada se sabia. A força das narrativas canônicas da história brasileira, ainda institucionalizadas na maioria dos museus e monumentos, fez Fátima Bernardes comentar que o carnavalesco havia lido dezenas de teses e dissertações para fazer o enredo, mas que provavelmente não encontrou quase nada sobre os temas tratados. Os comentários conseguiram relativizar o carro “ditadura assassina”, transformar a denúncia do genocídio indígena cometido pelos bandeirantes em “questão de ponto de vista” e não explicar ao público quem foram Dandara, Luiza Mahin, os caboclos de julho ou o Dragão do Mar de Aracati.

Ainda assim, o vitorioso enredo de Leandro Vieira tornou evidente o que, até então, apenas alguns reconheciam: as escolas de samba como lugar privilegiado de produção de pensamento crítico sobre a história do Brasil, local de produção de história pública no sentido mais sofisticado e abrangente do termo. Reconhecimento que começou a se estabelecer desde o carnaval do ano passado, com o histórico desfile da Paraíso do Tuiuti, em que comemoramos 130 anos da Lei Áurea e 30 anos da Constituição da 1988.

Neste ano, a Mangueira realizou na avenida, com o brilho de um irretocável desfile carnavalesco, o que muitos professores de história vem fazendo em seus cursos,  com alcance bem menor, é verdade: contar a história de baixo para cima e aclamar com orgulho personagens heróicos da história do Brasil, com Dandaras, Cariris, Malês, Dragões do Mar, Luizas Mahins, Esperanças Garcias e Marielles.

Como em anos anteriores, não foi só a Mangueira!  Várias escolas mostraram outros personagens, como os moradores de rua da Império Serrano,  os orixás e a negritude da Portela na homenagem a Clara Nunes, o bode eleito da Tuiuti (grande Jack Vasconcelos!), o Xangô do Salgueiro, o Cristo negro da Estácio  e até mesmo a ala final da Vila Isabel  (a mesma  Vila que cantou a princesa!), com os escravizados em festa depois da abolição logo atrás de um carro que trazia a faixa “Marielle presente” (uma faixa apresentada pela família da vereadora e pela própria atriz que interpretava a princesa abolicionista!).

Talvez o mais impressionante tenham sido os personagens do navio negreiro da Unidos da Tijuca, representando “o pão que o diabo amassou”?    Soubemos que alguns sambistas do carro se negaram a entrar. Era muita dramatização de dor e sofrimento negros num dia de carnaval.  Mas estava lá, o navio para ninguém esquecer (aliás, vale um estudo mais profundo sobre as representações dos navios negreiros nos desfiles).

Sabemos hoje que os carnavais sempre foram momentos de discussão e reflexão coletivas em vários momentos da história do país. Em 1888, por exemplo, no ano da Abolição, o historiador Eric Brasil registrou a invasão de fantasias de diabinhos por todos os cantos da cidade, “infernizando” os adeptos do carnaval elegante.  Os últimos carnavais, sem dúvida, têm contado diversas histórias do Brasil, mas principalmente têm contado outras histórias da escravidão, da liberdade, da negritude e do racismo.  E não só os carnavalescos são os responsáveis: compositores, mestres de bateria, puxadores, passistas, mestres salas, coreógrafos, figurinistas, todos se envolvem na produção de uma outra narrativa pública e coletiva da história.

É uma nova geração, formada em tempo de liberdade e de instituições públicas de ensino, que, em diálogo com renovadas pautas de combate ao racismo e a toda forma de discriminação, está fazendo toda a diferença!!!

Como disse Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira, “nosso carnaval teve um compromisso social”. “É a história de nossa raça, os verdadeiros desbravadores da história do Brasil. É a vitória do povo preto”

Salve Mangueira!!! Lavou a alma de milhões de brasileiros e das historiadoras do Blog.

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Evelyn Bastos, rainha de bateria da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com um documento de época: a petição de Esperança Garcia 05/03/2019 (Daniel Ramalho/VEJA.com)

 

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2018!

Voltamos! A demora em recomeçar 2018 veio em grande medida do acúmulo de novas tarefas das historiadoras do blog. Vejam vocês:

Ana Flavia Magalhães Pinto é a mais nova professora do Departamento de História da Universidade de Brasília. Assume as novas atividades profissionais na coordenação do GT Emancipações e Pós-abolição da ANPUH e da organização do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, previsto para 15-18 de maio deste ano, na FGV.

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Giovana Xavier é a nova colunista do NEXO Jornal e mantém o seu Preta Dotora, agora no face, mas continua conversando com a gente.

Keila Grinberg,  neste semestre, é titular da Andrés Bello Chair in Latin American Cultures and Civilizations da NYU. Em entrevista  no site da cátedra, ela explica as suas atividades por lá durante o semestre, entre elas, a organização  do simpósio “Slave Pasts in the Present: Narrating Slavery though the Arts, Tecnology, and Tourism”, onde Hebe, Martha e Mônica Lima irão participar.

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Mônica Lima é uma das organizadoras  do Primeiro Encontro da Associação Brasileira de Estudos Africanos – ABE África, que irá se realizar entre 11 e 13 de abril desse ano no Instituto de História da UFRJ (prédio do IFCS/UFRJ).  Estão confirmadas as presenças de Kabengele Munanga e Petronilha Gonçalves, entre outros pesquisadores da área.  Kabengele Munanga é professor titular de Antropologia da USP e Professor Titular Senior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É congolês, naturalizado brasileiro, autor de diversos livros sobre educação antirracista e ensino de História da África e cultura afro-brasileira. Petronilha Gonçalves é professora titular em Ensino-Aprendizagem em Relações Étnico-Raciais e Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos. Foi relatora do projeto das diretrizes para o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira no Conselho Nacional de Educação.

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As veteranas do Blog, Hebe e Martha, que assinam este post de reabertura, também estão recomeçando. Hebe iniciou suas atividades como Professora Titular Livre da UFJF e Martha assumiu como professora visitante do Mestrado Profissional em Ensino de história da UNIRIO. Paralelo aos recomeços, estão à frente, com Mônica Lima e toda a equipe do Blog, da coordenação de conteúdo para a curadoria científica do Centro de Interpretação do Cais do Valongo. Vamos dar notícias por aqui dos desdobramentos desse trabalho.

Diante do acúmulo de atividades, o Blog este ano será basicamente lugar de informação e divulgação sobre os andamentos dos novos projetos e dos eventos em que estão sendo discutidos. Além disso, nos comprometemos todas com, pelo menos, um texto por semestre, sobre questões de fundo das nossas conversas (história pública e escravidão, democracia, racismo, cultura negra, feminismos, entre muitos outros temas). Aos seguidores do Blog, prometemos, podemos diminuir o ritmo, mas vamos caprichar na qualidade.

Por fim, neste mês de março, convidamos todos a se engajarem na campanha 21 dias de ativismo contra o racismo, que se encontra na sua segunda edição. Militantes antirracistas das mais diversas origens, professores, artistas, escritores, intelectuais de diferentes campos se reuniram desde dezembro de 2017 para organizar essa verdadeira maratona tendo a luta contra racismo como eixo definidor. A programação é intensa, muito variada e são estimuladas as iniciativas locais que se incorporam à campanha. Confiram a página no Facebook!

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Boas Festas!

Queridos amig@s do Conversa de Historiadoras.  Desejando boas festas, fechamos o blog de 2017 e entramos em recesso.  A princípio, voltaremos – como boas brasileiras – depois do carnaval. Passamos o dia de ontem trocando mensagens que, aproveitando o espírito natalino, compartilhamos com os amigos do blog.

GIOVANA XAVIER: Juntas somos mais fortes! Mulheres incríveis, indispensáveis ao mundo, e para mim essenciais como referência e fonte de inspiração. Nesse 2017 foi muito bom estar com vocês em conversas de historiadoras sobre raça, gênero, feminismos, escravidão, pós-abolição e tantas outras pautas. Lindo presságio me dar conta de que, após um dia sem celular, enquanto me divido entre o forno, a cerva no grau e a lista mirim para Papai Noel, dedicamos tempo para contemplar e compartilhar em registros sensíveis o arco-íris que tomou conta da cidade caótica, porém também maravilhosa. Amo vocês! Feliz Pretas Festas! Obrigada a todo mundo pela caminhada de mãos dadas. Pode vir 2018!

 

KEILA GRINBERG: Aqui nesse blog nós adoramos falar. Por whatsapp, por email, de viva voz, nós conversamos e conversamos. Ao contrário do que talvez possa parecer a quem nos lê, concordamos um pouco e discordamos muito –  só que discordamos acaloradamente nos detalhes e concordamos apaixonadamente no essencial. O ano que começa nos exigirá força e alegria para proteger a liberdade das boas conversas, aquelas bem relaxadas, em que ninguém tem medo de dizer o que pensa, todos falam, todos escutam e ninguém ganha no berro. Que em 2018 continuemos, todos, concordando no essencial: que o diálogo vença o grito.

MÔNICA LIMA: Não seja tão leviano/Respeita minha Aruanda/Tem quase cinco mil anos/ De existência minha banda (Alabê de Jerusalém)

E lá se vai 2017. Dirão alguns – prenhes de razão, como o Jorge Maravilha do Chico Buarque – “já vai tarde”. A onda conservadora e racista que cresce, impudica e violenta; a perda acelerada de direitos tão duramente conquistados; o estreitamento dos espaços para a Arte e a Cultura; a política deliberada de desmantelamento das universidades estaduais no Rio de Janeiro – que ainda assim, resistem -; tudo isso e uma lista interminável de coisas ruins que chegaram e se anunciaram nesse ano. Querer que essa marca do tempo que passa seja superada é uma forma de dizer que se acredita que há uma mudança possível, para o bem, e que caminhar decidido em direção a ela, começando um novo ano, dá um gás na alma e no corpo cansados.// No verso do Alabê de Jerusalém que abre esse trecho do post, está contida uma ideia que me fortalece nesses tempos de desânimo, olhando o mundo e minha família ampliada: nossos ancestrais foram obrigados a fazer a travessia nos porões dos navios e sofreram muito, mas têm cinco mil anos de história de criação de belezas e conhecimento, resistência e afirmação. Estou com elas e eles nessa e em muitas horas. Temos uma longa história, que estudo por ofício, prazer e compromisso. E por isso, celebro e luto.// Nesse ano teve a Mwana – Infância e Relações Raciais no Brasil e na África, uma exposição linda no Espaço Jessie Jane Vieira de Souza da UFRJ, que gerou muitas atividades. Com os erês, as crianças, celebramos a vida e as lutas contra o racismo, e as infindas alegrias de brincar. Poucas coisas podem fortalecer mais a nossa vontade de seguir em frente do que a responsabilidade frente aos pequenos seres humanos que merecem um mundo muito, mas muito melhor do que esse que vivemos hoje. E nessa história, perceber que brincadeira é coisa séria, assim como contação de história, roda de capoeira, ou dançar e cantar ao som do dvd Nana e Nilo– personagens infantis negros de desenho animado brasileiro. Na roda, na gira. Tudo isso foi 2017 também.// Portanto, estamos prontas para 2018.

HEBE MATTOS/MARTHA ABREU/ANA FLÁVIA MAGALHÃES PINTO// 2017 passou rápido e pesado. A crise entre capitalismo e democracia se aprofundou no mundo todo, proliferaram fundamentalismos de todos os tipos e o impensável foi se transformando em rotina. Por outro lado, a imprevisibilidade da história nunca foi tão esperada. Continuamos a acreditar nos efeitos positivos da democratização e ampliação dos atores políticos, no Brasil e no mundo. 2018 pode surpreender!

Recebam nossos votos de boas festas e de muita saúde, paz, afetos e democracia no novo ano.

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Escravidão é estrutura (ainda sobre Vazante)

Todo bom filme que ousa abordar temas sensíveis causa polêmica. Vazante é um bom filme. Não fosse, ninguém perderia tempo com ele. É justamente por ser um bom filme sobre o patriarcalismo escravista brasileiro, nossa tragédia de origem, que ele incomoda. E provoca a também boa polêmica, aquela que é boa justamente por alimentar visões diferentes, contrastantes, divergentes. (Temos que defender as divergências com unhas e dentes; é terrível o tempo das certezas que nos espreita).

Assisti a Vazante como se o encosto da poltrona tivesse espinhos. A cada tentativa de me ajeitar, um incômodo, uma mudada de posição. É assim também que leio as críticas e reações a respeito. A cada incômodo, uma tentativa de me ajeitar, uma mudada de posição. Acontece que, cá entre nós, é impossível se ajeitar com um tema espinhoso como é o da escravidão, e esta talvez seja a melhor novidade da recepção de Vazante: nos dias de hoje, ninguém tem como virar as costas para o passado escravista e dizer que ele não nos diz respeito. Cresci num mundo de descendentes de imigrantes que, por terem aqui chegado no século XX, achavam que a escravidão era coisa do passado dos outros, não tinha nada a ver com a gente. Mas como bem disse a escritora Ana Maria Gonçalves em recente debate sobre o filme, não podemos ignorar como a história da escravidão afeta hoje a vida dos negros no Brasil (estou citando de cabeça; quem quiser checar a fala e acompanhar o debate, que também contou com o cineasta Joel Zito de Araújo e com a própria diretora Daniela Thomas, clique aqui).  E todos nós que vivemos nesta sociedade racista lidamos, embora muito desigualmente, com as marcas da escravidão.

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Daí que, em Vazante, a escravidão não é moldura, é estrutura (para quem não leu, estou aqui dialogando com Flavia Oliveira, “Escravidão é moldura”, O Globo, 07 de novembro de 2017). A escravidão e o racismo são tão centrais para a narrativa do filme como o são para a compreensão da história brasileira.  É a existência da escravidão que fundamenta as relações violentas, opressoras e traumáticas tratadas no filme. E que nos confronta com situações difíceis de digerir, como aquela que também a mim marcou, na qual um dos personagens, africano, líder dos demais, fala, angustiado, em uma língua que quase ninguém entende, nem mesmo o negro – possivelmente liberto, ali desempenhando a função de capataz – que, a mando do senhor, apontava uma arma para o rebelde. É com ele que o homem branco desabafa: “eu não sei o que esse negro está dizendo”. Seu interlocutor também não sabia. É a escravidão que torna compreensível esta cena terrível. Da mesma forma, é só à luz do nazismo que conseguimos encarar a situação dos kapos judeus, forçados a colaborar para sobreviver durante o Holocausto. Quando uma vítima aponta uma arma para outra, nenhuma das duas sobrevive.

É também a escravidão a chave de leitura da perversidade de uma sociedade que naturaliza o estupro das mulheres escravizadas por seus senhores, que convive com a relação entre uma moça ainda meio criança com o homem que antes havia casado com sua tia e que não tolera o amor entre um menino negro escravizado e uma menina branca, criada para ser sua futura sinhá.

Em Vazante, Daniela Thomas constrói uma narrativa sobre o passado fincada no presente. Têm razão os que dizem que a recepção do filme seria outra há dez, quinze anos atrás, e é maravilhoso que seja assim. Há tempos atrás o filme seria outro também. Precisamos tanto de filmes corajosos quanto de plateias barulhentas, indignadas, apaixonadas. Plateias de todas as cores, participadoras e provocadoras, não espectadoras. Que o bom barulho provocado por este filme ecoe no futuro: precisamos de filmes, discos e livros que, como bem escreveu neste blog Hebe Mattos, encarem de frente o “trauma da escravidão na sociedade brasileira e das identidades diferentemente racializadas que produziu”. 

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“A Redenção de Cam”, de Modesto Brocos, 1894. Acervo Museu Nacional de Belas Artes

É em nome dessa provocação que saí do cinema pensando que, se a narrativa de Vazante nos instiga a lidar imperiosamente com este passado, é na cena final que o filme, ao se distanciar da História, propõe outros olhares sobre sua superação. Ao subverter a clássica imagem da ama de leite negra amamentando a criança branca, Daniela Thomas inverte a cena principal do famoso quadro A Redenção de Cam (1894), no qual o pintor Modesto Brocos sugere que o embranquecimento, fruto da mestiçagem, seria a redenção da nação. Sem omitir a tragédia que a originou, não seria a imagem de uma mulher branca amamentando uma criança negra uma alegoria do empretecimento como possibilidade de redenção?

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