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Hebe Mattos: novas histórias (#lacre)

Bela nova caminhada amiga

Martha Abreu

Dia 8 de outubro foi dia de seu aniversário e de comemorações pela sua entrada na Universidade Federal de Juiz de Fora, como professora titular.  Novos desafios e conquistas esperam minha grande parceira.  Seu brilho acadêmico, coragem intelectual, poder de argumentação e  sensibilidade de análise para as mais diferentes situações, em breve, irão contagiar muita gente.

Conheci Hebe quando éramos muito jovens e entrávamos no mestrado em 1981! Os sonhos eram vários e os projetos para mudarmos o mundo – e se possível a historiografia – bastante fortes também. Logo passei a admirar aquela jovem brilhante, que lia muito mais rápido do que eu e que tinha sacadas impressionantes. Além de tudo, conseguia conciliar a maternidade com a produção acadêmica. Hebe mostrou a todos que era possível ser mulher, mãe, intelectual e professora reconhecida. Tudo ao mesmo tempo!

Por essa época fizemos alguns trabalhos juntos e estudamos para um concurso que nenhuma das duas foi bem sucedida. Nada poderia prever a qualidade e a força de uma parceria que aconteceria algum tempo depois. Em meio a constantes conversas pelos corredores da UFF, depois que me tornei professora da UFF, em 1991, o jongo de São José da Serra e os debates em torno da  Lei 10.639 iriam nos unir de vez através de nossos interesses sobre escravidão/abolição e cultura negra.

No momento quero agradecer por todas as nossas parcerias e cumplicidades. E, mais ainda, desejar muitas alegrias, afetos e realizações nesse novo momento de sua vida. Mesmo com diferentes endereços institucionais, estaremos juntas, sempre. Bela nova caminhada amiga!

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Hebe Mattos, Martha Abreu e Robert Slenes com Marilda de Souza, liderança do Quilombo do Bracuí. Angra dos Reis, 2005.

Tudo novo, de novo

Mônica Lima

Conheci Hebe Mattos logo depois que ela defendeu sua linda tese de doutorado, que se transformou no livro Das Cores do Silêncio, leitura necessária pra’ se entender o Brasil do século XIX e de hoje. Para os estudos sobre a escravidão, nem precisa dizer, é um clássico. Desse momento em diante passei a acompanhar sua produção acadêmica, incluindo os lançamentos dos filmes do projeto Passado Presentes e diversas outras atividades. Sempre me encantava e me surpreendia seu entusiasmo em cada novo projeto – e sempre havia novidades! No diálogo com as áfricas das minhas pesquisas, encontrava pontes de contato e referências nos seus trabalhos.

No doutorado na UFF foi minha orientadora e me lembro bem que saía das reuniões com ela levando ideias novas sobre o que estava escrevendo e uma sensação muito boa de que tudo aquilo iria dar certo. Para um pós-graduando há poucas coisas tão fundamentais como a produção dessa autoconfiança. No decorrer da minha vida profissional após o doutorado, tivemos a chance de fazer outras coisas juntas. E todas as vezes essas situações de trabalho vinham trazendo um mundo de possibilidades novas para olhar e pensar o que eu estava fazendo com minhas aulas e minhas pesquisas de História. Fora isso, sua atitude militante como historiadora me enche de coragem pra fazer o mesmo na luta contra o racismo e pelos espaços negros na universidade.

Mas, o assunto aqui não sou eu. É ela.

Hebe Mattos, depois de uma vida – ou várias – na Universidade Federal Fluminense, vai para outra universidade, em outra cidade, outro estado. Tudo novo, de novo. Estou celebrando por ela e por todos os estudantes e colegas que irão tê-la como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. Celebro também por que já imagino que ela vai continuar criando projetos, inventando coisas novas e iluminando vários caminhos a partir desse novo lugar. O que ela está trazendo com o tema passados sensíveis é um novo campo dos estudos sobre a história de africanos e seus descendentes e sobre o Brasil. Que venha, Hebe. Parabéns muitas vezes, e que a ousadia e o brilhantismo de sua trajetória como historiadora sigam nos inspirando.

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Felizardos os alunos da UFJF

Keila Grinberg

Quando defendi minha tese de doutorado, a primeira orientada pela Hebe (há controvérsias, mas desse título não abro mão!), escrevi que era fácil reconhecer seu dedo em várias partes do texto e na própria forma de conceber a questão que o motivou. Hebe me presenteou com a trajetória de Antonio Pereira Rebouças, dividindo comigo um tema de estudo que seria e ainda é seu.

Este não seria o primeiro presente da Hebe para mim. Anos antes, ela havia dividido comigo a pesquisa sobre as ações de liberdade no Arquivo Nacional – que eu só “descobri” porque ela havia me dito onde estavam. E agora, passados tantos anos, ao achar que estava definindo um tema novo, lá estavam as questões sobre as quais ela já me havia chamado a atenção. Seu dedo continua lá.

Ainda hoje não dou um passo acadêmico — dizendo melhor, acho que não dou um passo — sem me consultar com a minha para-sempre-orientadora. Tive a maior sorte de ter a Hebe como professora na graduação e na pós-graduação da UFF. Felizardos os alunos da UFJF!

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Caminhos abertos!

Ana Flavia Magalhães Pinto

Uma historiadora da escravidão no Brasil compromissada em dialogar com as questões e as pessoas do tempo presente. Essa foi a imagem que formulei a respeito de Hebe Mattos desde as primeiras leituras que fiz de seus textos lá pelo ano de 1998. Ainda estudante de jornalismo, minha expectativa era permanecer atenta à produção daquela professora e trabalhar para que um dia ela figurasse no meu caderninho de fontes que me permitiriam falar com propriedade sobre experiências da população negra e o problema do racismo na sociedade brasileira, argumentar sobre a legitimidade das ações afirmativas, etc.

Acontece que a influência do pensamento e da postura de Hebe Mattos acabou sendo decisiva para que a produção historiográfica se tornasse bem mais que um instrumento acessório do meu fazer jornalístico. Virei historiadora porque pessoas como ela despertaram em mim o fascínio pelo ofício! Foi lendo Hebe, aliás, que me dei conta da importância de se investigar os caminhos da liberdade da gente negra antes e depois da abolição. É, portanto, com muita alegria e gratidão que celebro sua vida e sua coragem para alterar rotas, modelos e práticas da pesquisa acadêmica, evidenciando a relevância do nosso trabalho na construção de uma sociedade de fato democrática!

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É o poder!

Giovana Xavier

Para celebra-la em palavras lembrei-me do Programa Mulher e Ciência criado pelo CNPq em 2005. A iniciativa, que conta com uma rica base de dados, comprova que ainda que as desigualdades de gênero definam a distribuição de recursos e conhecimentos no Brasil, numericamente mulheres e homens estão em paridade como pesquisadores. Ao mesmo tempo, esse avanço não apaga o difícil desafio de ser mulher e fazer ciência em um país patriarcal e conservador como o nosso. E toda vez que vejo, leio, ouço Hebe Mattos repasso essa história e ponho-me a pensar: como nos anos 1980 uma mulher jovem, mãe, de baixa estatura ousou se aventurar pelos falocêntricos caminhos da história agrária, constituindo-se como referência com o eternamente bombástico Das cores do silêncio? Com o tempo, primeiro na condição de leitora, depois de aluna, hoje de amiga e parceira de trabalho, fui aprendendo a ver que a coragem é um traço, diga-se de passagem sempre ressignificado por Hebe, que após experiências diversificadas de ensino e pesquisa em diferentes partes do globo terrestre, se joga no desafio de voltar no tempo olhando para frente. Ela, que chegou à UFF como docente aos 25 anos, é a mais nova Professora Titular Livre de História do Brasil na Universidade Federal de Juiz de Fora. Aos 59 anos, conquistou a vaga ao estilo lacre de ser, ou seja, trazendo para o centro da discussão as relações entre história, memória da escravidão e o compromisso que nós historiadoras (es) devemos assumir com as transformações através do conhecimento científico que produzimos. Hebe querida, parabéns! Que você siga olhando o passado e mirando o futuro tal qual o pássaro do Adinkra Sankofa.

Conversa brinda com Ana Maria

 

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Do Congo ao Valongo

Hoje o quilombo vem dizer
A favela vem dizer
A rua vem dizer
Que é nós! Por nós!

 

Com esse estribilho, em alto bom som, Mano Teko celebrou, cantando, o aniversário do Filhos de Gandhi no Rio de Janeiro, na noite de 12 de agosto passado na Praça dos Estivadores, zona portuária da cidade. E estiveram ali Agbara Dudu, Banda Òrúnmilá, As Três Marias, Grupo Dandalua e Maracatu Baque Mulher, entre outros grupos e artistas, marcaram presença na praça – antigo Largo do Depósito – festejando a existência e história deste afoxé, com discursos e canções que exaltavam a importância da consciência e resistência da cultura negra local.  Lá também se apresentou o Afóxé Filhas de Gandhi – cabeças iluminadas e autônomas, como se qualificam – trazendo sua dança, música e uma fala afirmativa e poderosa que entusiasmou a assistência de uma forma única.

 

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Na ocasião festiva, em diversos momentos se destacou o reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio cultural da humanidade. O Cais, como símbolo da chegada de africanos e africanas escravizados nessa cidade, no país e no continente americano, hoje atravessa os discursos e se coloca não apenas como porta de entrada das muitas áfricas que aqui chegaram, mas também como referência de um caminho afirmativo para a nossa história e identidade. Uma vez cientes das dores e injustiças, trazendo-as vivas na memória, se pode celebrar a beleza e força vital de nossos ancestrais, em honra dos quais se dá prosseguimento à luta e se faz a festa.

Com toda a razão, o fato do Cais do Valongo ter sido alçado à patrimônio cultural que os humanos compartilham veio a favorecer um incremento de atividades em que grupos negros da cidade ocupam com diversas expressões de sua arte, as praças e espaços públicos da região portuária. E tem que ser assim, deve ser assim. São essas pessoas que trazem uma história que deve ser especialmente visibilizada, afirmada, e valorizada naquele entorno. As pedras pisadas do local de desembarque que, assim como o Cemitério de Pretos Novos, tanto medo e dor testemunharam, se apresentam dessa maneira dando um sentido ao reconhecimento coerente com as justificativas de sua proposição. Evidentemente isso não é de hoje. Trata-se de um sítio histórico de memória sensível, símbolo material do desembarque de milhões de africanos escravizados nas Américas, mas é também um espaço que relembra o poder de resistência e de criação de nossos antepassados. Foi ao redor do Cais onde se constituíram espaços – como o Quilombo da Pedra do Sal – e se criaram expressões da herança viva dessa ancestralidade, em religiosidades, sonoridades, movimentos. Proteger esse patrimônio significa também resguardar as muitas expressões culturais de matriz africana que ali existem há muito tempo e cujas histórias ultrapassam os limites da região, da cidade e mesmo do nosso país.

 

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Cerimônia da lavagem simbólica do Cais do Valongo (2014). Foto de João Maurício Bragança.

 

Na mesma reunião da UNESCO em que se deu o reconhecimento do Cais do Valongo, se conferiu o mesmo título a Mbanza Congo, cujo centro histórico passou a figurar na lista de patrimônios culturais da humanidade. Esta cidade, capital do antigo reino do Congo, foi denominada pelos portugueses como São Salvador e, sobretudo a partir da conversão da realeza local ao Catolicismo, ainda no século XV, se estabeleceu uma relação estreita entre os seus governantes e o Estado português.  A justificativa da candidatura toma por base os achados arqueológicos que sinalizam a presença de vestígios do antigo palácio do manicongo – título do soberano local – e do primeiro templo católico construído em África ao sul do Saara, em 1491,  conhecido como Kulumbibi. Destaca também a árvore sagrada denominada Yala Nkuwu, o Lumbu (Tribunal Consuetudinário) de MBanza Congo e assinala a importância da influência cultural que a sociedade do Congo exerceu nas Américas por meio da diáspora africana.

 

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Vista da cidade M’banza-Kongo, capital do reino do Congo. Fonte: Description of Africa, de Olfert Dapper (ca 1635-1689), gravura, 1686.

 

Muitos súditos do reino do Congo e habitantes de áreas próximas foram escravizados e transportados pelas rotas atlânticas até as Américas, e em especial para o Brasil, onde, em sua maioria, deram entrada pelo porto do Rio de Janeiro. Alguns ficaram na cidade, outros foram levados para o interior do atual estado do Rio e outros tantos conduzidos para Minas Gerais. As heranças africanas trazidas desta região da África para o Brasil se evidenciam sob muitas formas, e se podem observar especialmente em manifestações culturais como a Congada. Marina de Mello e Souza sinaliza a existência de referências à festa da Congada no Brasil desde o século XVII – como se pode ler em seu livro Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa da Coroação de Rei Congo – e Martha Abreu, em diversos estudos sobre essa e outras festas afro-brasileiras, releva sua importância como espaço criado pela população negra para expressar suas religiosidades, identidades, alegrias e também sua luta e resistência.

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Congada em Piedade do Rio Grande – MG. Foto de Livia Monteiro.

 

De um lado e de outro do oceano, esses dois espaços que se conectavam com as rotas transatlânticas da travessia dos tumbeiros não tiveram tanto contato direto pois, quando o desembarque de cativos foi transferido pelo Marquês de Lavradio para a enseada do Valongo, em fins do século XVIII, Mbanza Congo não era mais a sede de uma região tão importante para o infame comércio. Ainda assim, muitas africanas e africanos que se identificavam como congo foram levados a cruzar o oceano como cativos, embarcados em portos da baía de Cabinda e do Loango, até meados do século dezenove. Na região do Valongo muitos destes chegaram e foram postos a venda em seus armazéns. Alguns circularam pelas ruas, trabalharam, criaram laços, e uns poucos conseguiram a liberdade. Recentemente, já no século vinte e um, migrantes da região que outrora fazia parte do antigo Reino do Congo e arredores, chegaram e povoam a região do Cais do Valongo sob outras formas. Surgem assim na área aqueles que trazem áfricas contemporâneas, que circulam e imprimem com sua presença outras modalidades de expressão da diáspora. E tudo isso acontece trazendo como novas e antigas bases as marcas visuais de identidade, o som dos tambores, a roda, a gira, o batidão e a poesia.

 

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25º Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha

Neste mês, completam-se 25 anos da realização do I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana. Entre os dias 19 e 25 de julho de 1992, mais de trezentas participantes de 32 países compartilharam experiências e formularam direcionamentos para agendas comuns. Os debates foram feitos tanto por quem esteve ali como representante de alguma organização ou coletivo quanto pelas participações independentes, sendo a presença das afro-brasileiras bastante ressaltada.

Como observado por Ochy Curiel − intelectual-ativista do movimento antirracista e lésbico-feminista da América Latina e do Caribe, no artigo “La Red de Mujeres Afrolatinoamericanas y Afrocaribeñas: un intento de acción política transnacional atacado por la institucionalización” −, naquele momento, a experiência nos movimentos sociais era algo bastante recente para muitas, faltando ainda estrutura e maturidade organizativa para que fosse possível, logo de cara, atuar a partir daquela escala ampliada. Mesmo assim, havia um desejo de impulsionar um espaço político transnacional que resultou na criação da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas (REDLAC); e a instituição do 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha.

De lá para cá, esforços têm sido feitos para manter a REDLAC em pé, embora as condições efetivas para a realização dos objetivos estejam bem aquém do necessário. Isso, no entanto, não quer dizer que as questões colocadas a partir dali tenham se perdido. O que temos visto é a construção de caminhos diversos e distintos para mobilizar mulheres negras, fruto da influência das chamadas pioneiras e da apropriação da agenda por outras protagonistas. Além do que possível verificar no atual site da Rede, há um empenho de se aprofundar a perspectiva transnacional que pode ser medida pela crescente popularização do 25 de julho pelo continente.

Para ficarmos no que tem acontecido no Brasil, e sem a pretensão de dar conta de tudo o que está sendo feito, o primeiro exemplo a se destacar é o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, o Latinidades, que chega à sua décima edição com tema “Horizontes de liberdade: afro-futurismo nas asas da Sankofa”. A despeito dos reveses agravados pelo golpe, no sentido de enfraquecer as ações voltadas ao combate do racismo e do sexismo num país de maioria negra, as organizadoras desta edição convidam a uma reflexão coletiva da máxima relevância, sobretudo neste momento de aguda crise democrática: “como a arte e os saberes de mulheres negras, assim como nossas lutas históricas e contemporâneas por direitos e por liberdade, incidem no presente? Como podem nos orientar a pensar e a criar o futuro? O conceito de Sankofa, dos povos Akan, nos ensina que tudo aquilo que foi perdido, esquecido, renunciado ou roubado no passado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou recuperado no presente”. O Festival acontecerá novamente em Brasília, no Museu da República, na Semana da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, entre os dias 27 de 30 de julho. Confira a programação completa no site e também pela página do Latinidades no Facebook.

Latinidades

Na cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, acontecerá, pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo. Iniciada no contexto de preparação para a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, de 2015, esta manifestação também marcará a celebração dos dez anos da incorporação do nosso 25 de julho no calendário oficial do estado do Rio de Janeiro, por meio da Lei n. 5.071/07 – algo que em nível federal só foi conquistado em 2014, via Lei n. 12.987. Ação convocada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras – RJ, a marcha está marcada para o domingo 30 de julho, com concentração no Posto 4 da Praia de Copacabana, às 9h.

Marcha RJ

Em Salvador, num esforço de ampliação do alcance do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e de construção de uma agenda comum de intervenção, o Odara − Instituto da Mulher Negra deu início, em 2013, ao Julho das Pretas. A quinta edição traz o tema Pela Vida das Mulheres Negras, “destacando a necessidade de mais ações coletivas e políticas públicas que visem ao enfrentamento da violência recorrente e sistemática contra mulheres e meninas negras”. Neste ano, além de promover uma feira para empreendedoras negras, está garantida a realização de uma conferência com a intelectual-ativista afro-estadunidense Angela Davis no auditório da Reitoria da UFBA, que veio ao Brasil para dar um curso sobre Feminismo Negro Decolonial, em Cachoeira-BA.

Julho das Pretas BA

Também em São Paulo, por força do grupo da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em articulação com a Aparelha Luzia, teve início neste último sábado o Julho das Pretas, um “ciclo de eventos para a construção da Marcha do #25deJulho”. A noite contou com a intervenção de mais vinte mulheres, que agitaram o espaço que já se tornou conhecido como um território de afirmação negra na cidade de São Paulo. No ano passado, a Marcha reuniu de duas mil mulheres negras no centro da cidade de São Paulo. E a agitação vista no primeiro dia do mês diz que este ano também será marcante.

Julho das Pretas SP

Esses e outros eventos têm apontado para uma dinâmica bastante interessante que articula ativismo, produção de pensamento de e sobre mulheres negras e formulação de políticas públicas. Longe de se tornar possível graças a uma relação bem resolvida com a academia e os organismos de Estado, as ações iniciadas a partir do movimento social de mulheres negras, interessadas num diálogo transnacional, têm criado possibilidades de ampliar e fortalecer o entendimento das mulheres negras a respeito dos significados de suas trajetórias e experiências, algo que certamente cria outras possibilidade de se fazer e contar histórias.

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“Não vamos mais caber!”

Com essa frase, David Alfredo e Luis Araújo, dois jovens negros, marcaram o estribilho do texto que leram na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, no Museu do Amanhã, situado na zona portuária do Rio de Janeiro. O documento, escrito por eles, foi nomeado como Manifesto Baobá e apresentado no dia 24 de junho de 2017, antecedido pelas danças e cantos do Jongo da Serrinha, no espaço de entrada do museu. Esse foi um dia de festa na Praça Mauá, em frente da qual fica o museu, que foi ocupada antes, nesse mesmo dia, pelo Afoxé Filhos de Gandhi homenageando Mãe Beata e o Jongo da Serrinha lembrando nossas raízes africanas e saudando São João, entre outras presenças e lembranças.

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Jongo da Serrinha em frente ao Museu do Amanhã, na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, em 24 de junho de 2017

O Manifesto reivindica territórios a serem conquistados e ocupados pela juventude negra, e lembra o reduzido espaço que lhe foi destinado, o não-lugar que lhe coube historicamente. Declara: “Estamos transbordando os limites, rompendo as barreiras, fissurando os muros…” Traz a memória da dor “em cada gota de suor que cai da pele negra cansada de esforço de pesar uma tonelada e valer muito menos no mercado. ” E afirma que “No pranto de cada mãe, que enterra um filho, no som de cada tiro que leva a vida, no afiar de cada faca que desce o morro, no choro de cada criança que nasce, é possível escutar: Não vamos mais caber!

Não mesmo.

Em recente visita de trabalho realizada à Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, no Campus dos Malês, em São Francisco do Conde – Bahia, meus olhos se encantaram com a vida pulsante nas salas de aula, corredores e espaços comuns daquela instituição acadêmica. Criada no primeiro governo Lula, assinalando desde seu início uma identidade singular e marcadamente plural, tendo como política universitária o estímulo e apoio à presença de estudantes africanos dos países de língua oficial portuguesa. Uma experiência única e fundamental para o Brasil, que deveria ser cada vez melhor compreendida e estudada – e certamente apoiada, garantida em sua continuidade e expansão. Em que outro lugar do país se pode encontrar uma maioria absoluta de estudantes negras e negros e escutar os muitos sotaques do Português falado em África e línguas crioulas do continente, somadas aos falares brasileiros com diversos acentos, sobretudo, do Nordeste? E no dia da África, em 25 de maio, realizarem uma festa trazendo a junção de muitas sonoridades e movimentos, dos diferentes instrumentos, das cores de roupas e adornos, e os músicos de RAP das áfricas e brasis que, nas suas idas e vindas, (re)encontraram seus ritmos e poesias?

 

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Festa do dia da África, celebrada por estudantes africanos e brasileiros com muita música e dança, na UNILAB – Campus dos Malês, São Francisco do Conde – BA, em 25 de maio de 2017

Novas realidades vem surgindo. Atravessam os muros, enriquecem e iluminam o cenário enrijecido e obscuro de espaços tradicionalmente brancos e elitistas. Surpreendem às vezes, jovens negras e negros, por sua força, altivez e autonomia. Há quem os esperasse agradecidos – como, e por quê? Certamente sabem que aquilo e quem lhes sustenta não está lhes esperando do lado de dentro. Mas, muitos reconhecem que há aliados, e que houve desbravadores, pioneiros. Nada disso se fez e se faz sem histórias que vêm de longe. Mas, o que de novo há é que nos últimos anos a onda negra cresceu e vem vindo, lavando com sua força, como uma bênção, as praias antes restritas do saber e do (re)conhecimento. Como disse o Manifesto: vem ocupando os espaços, desconhecendo os limites que lhe foram impostos. Ainda bem.

Assenhorear-se de novos territórios pode significar também estabelecer regras e cuidados com nossa história e memória, pressionando e dialogando no sentido de fazer respeitar o que nossos ancestrais viveram e a forma como queremos que tudo isso seja lembrado. Nesse sentido, um dos resultados é o evento que se realizará no próximo dia 1º de julho e faz parte do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da  Fazenda Santa Eufrásia, inaugurando novas conversas sobre o turismo de memória no Vale do Café, no estado do Rio de Janeiro.

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Tudo indica que essas conquistas podem fazer dos brasileiros cidadãos melhores, e assim nos fortalecermos em tempos tão difíceis e desesperançados, para lutarmos por nossos direitos: os que conquistamos e os que ainda queremos obter.

Que não caibamos nesse restrito espaço de vergonha pública que querem nos confinar.

Obrigada, David Alfredo e Luis Araújo. Viva o Manifesto Baobá!

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Dossiê Conversa de Historiadoras Negras – Cotas na Unicamp Já!

Na próxima terça-feira, dia 30 de maio de 2017, o Conselho Universitário da Unicamp decidirá a respeito da adoção das cotas raciais no sistema de ingresso dos seus cursos de graduação. A mobilização está intensa e animada. Já nesta segunda-feira, 29, será realizado um Festival/Ato pelas Cotas, que contará com a participação de ativistas, artistas e demais membros da comunidade acadêmica.

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O Blog Conversa de Historiadoras se soma à essa onda contra o racismo e, portanto, em defesa da democracia, apresentando hoje um papo coletivo preto, o Dossiê Conversa de Historiadoras Negras − Cotas na Unicamp Já!, escrito por quatro mulheres que estiveram e/ou estão na Unicamp como discentes e docentes: Ana Flávia Magalhães Pinto, Giovana Xavier, Lucilene Reginaldo e Taina Aparecida Silva Santos.

 

“Enxugando gelo”: as cotas em debate na Universidade Estadual de Campinas

Lucilene Reginaldo, Professora do Departamento de História – Unicamp

Na próxima semana, no dia 30 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp irá discutir e votar uma proposta de mudança na sua política de ação afirmativa para o ingresso nos cursos de graduação. Desde 2004, a universidade adota um modelo de bonificação com acréscimo de pontos na nota do vestibular aos estudantes oriundos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Entre as críticas recebidas pelo programa, destaca-se o impacto diminuto da política no tocante ao ingresso de negros (pretos e pardos) e indígenas. A insistência e ressonância destas críticas na comunidade acadêmica – e penso que tão somente elas – foram responsáveis por algumas mudanças significativas no sistema de bonificação que, entre outras consequências, conseguiu elevar o número de estudantes negros ingressantes através do concurso vestibular. Os números, entretanto, continuam abaixo da representação demográfica da população negra no estado de São Paulo e não impactam de maneira semelhante todos os cursos.

A proposta a ser votada nos próximos dias tem como principal subsídio o relatório do grupo de trabalho – reivindicado e instituído com a responsabilidade de organizar três audiências públicas no segundo semestre de 2016 – formado por representantes das organizações que pautaram o tema das cotas na paralisação estudantil (Frente Pró-Cotas e Núcleo de Consciência Negra), professores e funcionários.  Em síntese, e à luz de amplo debate sobre o papel da universidade pública no combate ao racismo e às desigualdades sociais, bem como de uma avaliação minuciosa das experiências de implementação de cotas, o que se propõe para Unicamp é uma política de reserva de vagas (cotas) informada por critérios sociais e raciais.

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Primeira Audiência – Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil, 13.10.2016. Fonte: Jornal da Unicamp 

Desde fevereiro, o relatório e proposta inicial do GT têm sido amplamente discutidos em diferentes espaços da Unicamp, tendo encontrado em alguns momentos resistências mais ou menos sistemáticas. Levada pelo movimento e pela força da condição e das circunstâncias – se assim posso dizer – como membro do GT que elaborou o relatório, tenho participado de vários debates com diferentes grupos e em várias unidades, atravessando inclusive a “confortável e previsível” fronteira das ciências humanas, conversando com professores, alunos e funcionários da área de saúde, das engenharias, das ciências exatas. Embora em muitos momentos tenha me sentido teletransportada para os acalorados debates ocorridos entre 2002 e 2006 – o que obviamente nos remete ao franco atraso e à resistência da Universidade de Campinas, em particular, e das universidades paulistas em geral, em relação às políticas de ação afirmativa baseadas no princípio das cotas – o debate atual tem algo de contemporâneo. Assim, mesmo a reprodução dos velhos argumentos, quando repostos no momento político atual, redimensiona e atualiza as antigas resistências.

Confesso, com certa hesitação, a recorrência de certos argumentos pôs à prova minha considerável paciência e capacidade de argumentação! “Ninguém sabe quem é negro no Brasil”. “As cotas colocarão em perigo os centros de excelências”. “As cotas enxugam gelo! Precisamos melhorar o ensino básico”. Diante destes argumentos a apresentação de dados que demonstram as desigualdades raciais no tocante à renda, educação, saúde e segurança, amplamente divulgados e debatidos há décadas, os estudos e avaliações que atestam o desempenho positivo dos cotistas e os resultados acadêmicos da diversidade, bem como as limitações das políticas universalistas no combate às desigualdades raciais, nem sempre foi bem sucedida.

Sem muita precisão metodológica, arrisco identificar uma face coletiva neste conjunto de argumentos. Nas entrelinhas da argumentação de impossibilidade de uma política de acesso ao ensino superior que defina metas e priorize os grupos que estão sub-representados ou ausentes na universidade pública se revela a defesa da manutenção de privilégios que não são jamais questionados na sua natureza histórica. Desse modo, a defesa do centro de excelência tem por suposto a universalidade de uma elite científica e intelectual. Diante das reticências deste grupo, cujo desconhecimento – proposital ou contingente – do histórico de implantação das cotas no Brasil frequentemente remetia a discussão à estaca zero, os versos de BNegão foram evocados como consolo: “Sigo na batida, a frequência desse pensamento não pode ser captada com perfeição por um receptor enferrujado pelos padrões do dia-a-dia/Enxugando o gelo, sua realidade segura por um fiapo de cabelo”.

É certo que o debate sobre as cotas extrapola os muros dos centros de excelência – o que não é nenhuma novidade – mas, de certa forma, singularmente se recoloca no contexto político atual. Políticas de ampliação da cidadania, o que quer dizer, direitos políticos, acesso aos bens materiais e de prestígio são inadmissíveis para a pequena parcela de privilegiados da sociedade brasileira. Desde a minha “área de conforto”, ou seja, olhando para o passado, não tenho dúvidas de que a interpretação é pertinente. Mas o que realmente me preocupa neste momento são as consequências desta pertinência para o futuro da nossa fragilizada democracia.

Cotas Já − Para que uma reunião de estudantes negros/as não seja convite para piada sobre quilombo?

Ana Flávia Magalhães Pinto, pós-doutoranda e doutora em História pela Unicamp

Considerada a segunda melhor universidade da América Latina, pelo QS University Rankings, a Unicamp se orgulha de ser uma referência na pesquisa acadêmica no Brasil e manter “a liderança entre as universidades brasileiras no que diz respeito a patentes e ao número de artigos per capita publicados anualmente em revistas indexadas na base de dados ISI/WOS”. Vendo através dessas lentes, mesmo que a instituição não esteja entre as cem melhores do mundo, estaríamos legitimados a falar tranquilamente sobre qualidade e excelência. Todavia, é o atraso da Unicamp que a torna digna de atenção no atual cenário. Um atraso perante a democracia, que também poderia ser visto por meio de números, mas que é facilmente percebido nas salas de aula e nos espaços abertos da universidade.

A presença de estudantes negros (pretos e pardos) nos cursos de graduação segue sendo empiricamente tímida, a despeito do que dizem as estatísticas divulgadas nos resultados de vestibular e dados de matrícula. Diante desse fato, a dificuldade e a demora da Unicamp, como instituição, em reconhecer o maior impacto das políticas de cotas em relação a outras políticas de ação afirmativa voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociorraciais, como o PAAIS, a colocam em situação de atraso e nos obriga a seguir fazendo um debate recuado em relação ao que se encontra bastante avançado em outras universidades brasileiras.

Sindicato de Empregadas Domésticas Campinas

Sindicato das Empregadas Domésticas de Campinas em apoio à implementação das cotas na Unicamp. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

A despeito de toda a disputa discursiva, ideológica, política etc. que se vivenciou desde pelo menos o início dos anos 2000, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de 26 de abril de 2012, projetou a discussão para um outro nível. Ou seja, quando a suprema corte julgou improcedente a ação movida pelo partido Democratas (DEM), em 2009, contra o programa de ingresso de estudantes negros da UnB, reconheceu a constitucionalidade das políticas de cotas raciais nas universidades, e as considerou como medidas necessárias para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil; uma etapa decisiva foi cumprida, tendo como desdobramento imediato a promulgação da Lei n. 12.711, de 29 de agosto 2012, e a posterior Lei n. 12.990, de 9 de junho de 2014, que versa sobre a reserva de vagas em concursos públicos.

A lei federal, por certo, não rege o funcionamento de universidades estaduais, como a Unicamp, o que faz com que as coisas tenham aqui uma trajetória particular. E, por falar em particularidades e generalidades, às vésperas da votação pelo Conselho Universitário da proposta de incorporação das cotas raciais na política de acesso à graduação, me peguei pensando sobre episódios corriqueiros que ajudam a entender como o atraso desta universidade pôde ser não apenas tolerado, mas também tomado como marca de prestígio. As cenas não se limitam a registros de dor, mas mesmo as demonstrações de afeto e solidariedade estabelecidas por nós, pessoas negras, estão infelizmente conectadas a violências, porque funcionam como mecanismo de defesa e reação a hostilidades.

Logo que ingressei na Unicamp para cursar o doutorado, em 2009, achava um barato ser cumprimentada por funcionários/as negros/as que reconheciam com facilidade a novidade da minha presença nas áreas públicas da universidade e me lançavam um sorriso suave e uma faísca no olhar ao passar por mim, gestos de uma cumplicidade silenciosa. O mais divertido era saber que isso acontecia com outros/as poucos/as colegas também negros/as. Da mesma forma, era motivo de festa cada vez que se sabia de um/a estudante negro/a aprovado/a no processo de seleção de qualquer programa de pós-graduação. O costume da exclusão fazia com que as doses homeopáticas de inclusão fossem sentidas como porções cheias.

Essa sensação agradável, porém, logo tinha seu encanto roubado ao fatalmente se adquirir o hábito de ficar apreensiva/o já antes de entrar nas bibliotecas sabendo que, a qualquer momento, mais um/a estudante branco/a poderia te abordar pedindo para que você procurasse algum livro ou prestasse algum serviço pra ele/a. Ou ainda quando um/a colega de curso se mostrava surpreso/a por você dominar mais do que o conteúdo das disciplinas, sobretudo por não entender como isso se casava com sua profunda erudição sobre os “Pagodes Anos 90”, antes de isso se tornar moda entre a galera “cult-bacaninha”. E o que dizer quando um professor, ao avistar um grupo de estudantes negros reunidos em volta de uma mesa pública do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, se aproximou e perguntou com ar de empolgação: “Isso aqui é um quilombo?”.

Os registros do atraso da Unicamp em prejuízo à promoção da democracia no Brasil que poderiam ser feitos por estudantes, funcionários/as concursados/as e terceirizados/as, e os/as poucos/as professores/as negros/as dariam para a edição de muitos volumes, repletos de informações suficientes para evidenciar a fragilidade da excelência da instituição. Isso, aliás, serviria muito bem para marcar a inquestionável legitimidade das políticas de cotas, defendidas hoje por mais gente além de nós negros, ainda minoria nesse espaço. Seja como for, o momento agora é para que posicionamentos sejam tomados. Diante da mobilização que rompe os limites da universidade, no dia 30, saberemos até que ponto a Unicamp gosta de avanço, liderança e bons conceitos.

A luta antirracista e o poder ser: afrontes e a construção de um novo projeto humanista

Taina Aparecida Silva Santos, graduanda em História pela Unicamp

Entre luzes e som, só encontro, meu corpo, a ti. Velho companheiro das ilusões de caçar a fera. Corpo de repente aprisionado pelo destino dos homens de fora. Corpo/mapa de um país longínquo que busca outras fronteiras, que limitam a conquista de mim. Quilombo mítico que me faça conteúdo da sombra das palavras. Contornos irrecuperáveis que minhas mãos tentam alcançar (Beatriz Nascimento, O conceito de quilombo e a resistência cultural negra [1977]. In: Alex Ratts. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo:Imprensa Oficial, 2006).

 Entre todos os processos que compõem a luta pela implementação das cotas raciais na Unicamp, um especial, tem me chamado muito a atenção, não pelo fato de eu fazer parte disto, mas, sim, pela sensação de sentir-me pertencente ou ligada a algo que muitos outros negros e negras com que partilho esses momentos andam percebendo também. Demarco a experiência desses corpos pretos, primeiramente, pela violência a que o racismo os submetem pelo simples fato de existirem. Essa reflexão é importante, pois, chegado o momento que a discussão tomou grandes proporções a ponto de tornar-se imprescindível que a comunidade como um todo, acadêmica ou não, tomasse posições verbalizadas, silenciosas, favoráveis ou contrárias, acredito que, para aquelas e aqueles de pele escura, essa questão sacudiu nossas identidades pessoais e coletivas. Algo complexo que, ao refletir sobre, me vejo mais desvendando um caminho, um mapa, do qual ainda não sei as fronteiras e nem onde conseguirei alcançar, porém, a cada dia que passa, fica mais evidente que esse mapa são os nossos corpos, como nos lembra Beatriz Nascimento (Cf. Christen Smith. Lembrando Beatriz Nascimento: quilombos, memórias e imagens negras radicais. In: Sidney Chalhoub e Ana Flávia Magalhães Pinto (orgs.). Pensadores negros, pensadoras negras: séculos XIX e XX. Belo Horizonte: Fino Traço, 2016). Corpos que, no contexto em questão e até na experiência da formação de movimentos negros no Brasil e na diáspora, têm constituído um território negro.

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Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Desde que iniciei meus estudos na Unicamp, em 2014, eu participo de um grupo de negras e negros que se reúne uma vez por semana, durante o horário do almoço, em umas mesinhas que ficam na parte central da Universidade – PB. Ao me aproximar desses estudantes acabei conhecendo os outros poucos negros e negras – estudantes, funcionários e professores presentes nessa ilha branca da cidade de Campinas, que atuavam, circularam ou circulavam em torno do Núcleo de Consciência Negra, outros grupos que tiveram composição e atuação semelhante dentro ou fora da universidade. Conheci, também, pretos e pretas que não fizeram parte de nenhum grupo do tipo, porém, independentemente de cada de nós, 2016 presenciamos algo inédito na história da Unicamp: a universidade parou com a eclosão de uma greve estudantil, na qual a denúncia do racismo tomou proporções incríveis e as cotas raciais junto com a ampliação das políticas de permanência estudantil tornaram-se uma das pautas principais da mobilização.

Protagonizados pelos estudantes negros, os embates para convencer as pessoas de que a violência que aflige as nossas vidas importam foram duros e acirrados, em muitos momentos até dolorosos, pois, se pensarmos na presença negra na Unicamp, esses afrontamentos vêm de muito antes dessa greve. Entretanto, a politização em torno da discussão das cotas que se transformou numa “quizumba”, como diria Lélia Gonzalez, abriram os meus olhos para perceber os significantes dos nossos corpos como territorialidades multilocalizadas em determinados tempos nesse espaço, pois uma série de outros estudantes negros, para além daquele grupo que se reunia todas as sextas-feiras nas mesinhas do PB, ao meio dia, passou a tomar para si essa luta também, tensionando o cotidiano inquestionável a ponto instaurar um clima no qual se deu a entender que situações racistas não passariam mais em branco, nem em silêncio. É certo que nem eu, nem nenhum dos meus colegas invetou a roda da luta antirracista na Unicamp, que isso seja lembrado, em respeito àquelas e àqueles que vieram antes de nós. Porém, muitas conversas “não colam mais”, principalmente àquelas que tentam justificar uma naturalização da nossa ausência em espaços como uma universidade pública que é mantida com nosso dinheiro. Nossas vozes, se multiplicaram e estamos avançando no sentido de nos compreendermos enquanto sujeitos de direito inscritos em corpos que se constituem enquanto territórios políticos.

A mobilização encadeada pela discussão sobre o desprezo que a Unicamp – enquanto reflexo da realidade social, política e econômica brasileira, em especial, paulista – vem alimentando em relação às nossas vidas, logo, também, em relação às políticas de combate ao racismo, evidenciou uma territorialidade para além de um espaço físico, apontando para uma rede entre nossos corpos que conectou os negros e negras que ali estavam. Acabou, também, potencializando a compreensão de uma linguagem entre nós que ampliou a sensibilidade no que diz respeito àquilo que nos fere, o que, também intensificou a altura dos nossos gritos.

Esse processo tem sido curioso, pois a conexão entre nós está longe de se dar no âmbito de uma possível essência. Pelo contrário, esse território é constituído sobre muitas diferenças e contradições que fazem parte do ser. No entanto, todos esses movimentos têm nos mostrado que essas possibilidades causadas pela interrelação entre corpos negros e esse espaço tão hostil indicam a necessidade da reformulação de um novo pacto de humanidade, pois, se é sobre racismo que estamos falando, reconhecer a desumanização das populações negras e indígenas como um dos maiores massacres da nossa sociedade é essencial para compreender a dimensão de um problema que ainda perdura nas nossas vidas.

Sendo assim, não para concluir, mas sim, para passar a bola nesse momento de reflexão que essa luta, entre outras, nos inspira, compartilho as palavras de Abdias do Nascimento:

“Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça, na igualdade e no respeito a todos os seres humanos, na liberdade; uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racismo. Uma democracia autêntica, fundada pelos destituídos e os deserdados desse país, aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas caducas de instituições políticas, sociais e econômicas as quais serviram unicamente para procrastinar o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pode vir com a transformação radical das estruturas vigentes. Cabe mais uma vez insistir,: não nos interessa a proposta de uma adaptação aos moldes de sociedade capitalista e de classes. Essa não é a solução que devemos aceitar como se fora mandamento inelutável. Confiamos na idoneidade mental do negro, e acreditamos na reinvenção de nós mesmos e da nossa história. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fundado em sua experiência histórica, na utilização do conhecimento crítico e inventivo de suas instituições golpeadas pelo colonialismo e o racismo” (Abdias do Nascimento. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1980).

Corpos Pretos, conselhos brancos: racismo acadêmico e cotas raciais na Unicamp

Giovana Xavier, Professora de Ensino de História UFRJ e coordenadora do Grupo Intelectuais Negras

Recentemente, fui convidada a contribuir com um artigo para o terceiro número do jornal do Coletivo Nuvem Negra da PUC, uma organização incrível de universitários pretos que, dentre outras ações, deram vida à destemida campanha “Quantas Professores Negros a PUC-Rio tem?”, que traz como objetivo a realização de um censo racial da categoria docente na universidade em que estudam. Pois bem.

O grupo de estudantes, nos quais se destacam jovens lideranças como Lucas de Deus e Yasmin Thainá, solicitou-me dedicar algumas linhas ao legado das Intelectuais Negras nas universidades brasileiras, dentre as quais podemos e devemos sempre lembrar de Azoilda Loretto da Trindade, Beatriz Nascimento, Lelia Gonzales, Luiza Bairros para ficarmos com algumas. Para mim, professora universitária que faz questão de explicitar sua raça e titulação através da identidade Preta ‘Dotora’, o convite do Coletivo despertou, além do orgulho e da importância de apoiar as novas gerações, a reflexão do quanto as conquistas alcançadas até aqui são irreversíveis.

Marcha Antirracista (29)

Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Pensar nessa irreversibilidade, expressa na hashtag #nenhumdireitoamenos, significa também refletir o quanto nossas conquistas têm sido construídas às custas de muitas violências às quais nossos corpos pretos estão submetidos, dentro e fora do espaço acadêmico. Como a conversa aqui é in-academia e pautada por historiadoras Pretas, rememoro algumas das minhas histórias como estudante de doutorado na Unicamp, sempre na esperança de que as palavras lançadas nos fortaleçam e inspirem para a construção de projetos políticos que nos representem.

A primeira delas − um trauma com o qual tive de lidar por muitos anos − refere-se à hostilidade de meus colegas de turma de doutorado quando apresentei meu projeto de pesquisa na linha de História Social da Cultura (Cecult). À ocasião, a investigação focava-se na temática dos concursos de beleza negra em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Até hoje fico a me perguntar: qual seria o problema: a beleza ou o negra? Muitas são as respostas, mas nenhuma delas nos exime de algo com o qual temos de lidar como corpos pretos no mundo acadêmico branco: o preço de ser identificada e interpretada como a exceção do seu grupo racial. Ser exceção na Unicamp fez com que eu passasse quatro horas sujeita a “conselhos” bem intencionados sobre como “escrever melhor”, “procurar temas de pesquisas mais adequados”, “programas de pós-graduação que combinassem mais comigo”. O mais cool de tudo isso é que prestei bastante atenção em todas as dicas. Menos de um ano depois da conclusão do doutorado estava eu concursada e empregada como Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Namastê!

A segunda história, também passada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, refere-se a uma situação em sala de aula. Ao realizar uma disciplina obrigatória, o professor, que dentro das contradições que só as elites brancas têm o direito de experimentar, não era muito chegado a lecionar, dividiu o programa de seu curso em seminários, que ficaram sob a nossa responsabilidade. Ao longo de um semestre, cada grupo de pós-graduandos escolhia seu tema, preparava um seminário e apresentava à turma. Um dos grupos, composto por pessoas brancas, em sua maioria com sobrenomes dominados pelas consoantes (o que é autoexplicativo das muitas facetas do privilégio) apresentou-nos a biografia de Primo Levi. Lembro-me que o grupo levou a turma às lágrimas, dadas as tragédias e violências ignóbeis do Nazismo alemão. Recordo também que havia na sala, algumas exceções da pele preta, além de mim. Ufa!

Lá pelas tantas, interrompi o grupo e pontuei o quanto como historiadores deveríamos discutir qual grupo tem o direito de ter sua história interpretada a partir da categoria “holocausto”. Seria oportuno debatermos os diferentes status entre “holocausto” do povo judeu e “genocídio” da população negra. Torta de climão servida, o professor, figura rara nas suas próprias aulas, lembrou-me educadamente que existiam muitos poucos negros nas universidades, por isso as pesquisas sobre escravidão, tráfico e desumanização eram tão escassas. A colega ao meu lado, ostentando suas consoantes, olhou-me de cima a baixo, com a certeza escravocrata de que cada um tem seu lugar e lançou: “se não está satisfeita, faça você mesma pesquisas sobre sua história e sua gente”.

***

Se de boas intenções o inferno está cheio, fica a pergunta: o que seria dos corpos pretos sem os conselhos brancos?

Quando olho para trás e vejo onde chegamos hoje, enche-me de orgulho estar de fora e de dentro de uma Unicamp na qual os lugares da mesa estão sendo bagunçados. A votação, no próximo 30 de maio no Conselho Universitário da Unicamp, sobre a proposta de mudança da política de ações afirmativas para ingresso na graduação, me faz cantar:

Eles querem que alguém / Que vem de onde nóis vem / Seja mais humilde, baixa a cabeça / Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda.

 Não esqueceremos! Afinal, aprendemos com Mãe Beatá de Iemonjá, transformada ontem em estrela, que quantas vezes voltarmos à terra retornaremos Negros.

Mãe Beata

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SEGUNDO DOSSIÊ 13 DE MAIO

HEBE MATTOS, MARTHA ABREU, MONICA LIMA,  KEILA GRINBERG, GIOVANA XAVIER, ANA FLAVIA MAGALHÃES PINTO.

Sobre o 13 de maio (ou eles passarão)

Hebe Mattos

Em treze de maio de 1888, o primeiro e mais importante movimento social da história do Brasil celebrou sua maior vitória, a abolição legal da escravidão no país. A lei reconheceu formalmente a liberdade de cerca de 750 mil pessoas (em sua maioria ilegalmente escravizada desde 1831, quando foi aprovada a primeira lei de abolição do tráfico de cativos africanos) sem qualquer indenização a seus supostos proprietários.

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Foi uma revolução de veludo onde os últimos escravizados foram os grandes protagonistas. Desde 1885, um governo conservador formado por senhores escravistas reprimia violentamente o movimento abolicionista e as fugas de escravizados. Parecia não haver alternativa a não ser seguir o lento cronograma de indenização gradual dos senhores previsto em lei de 1885. Mas as fugas em massa se acentuaram em finais de 1887 e transformaram ruas, cidades e campos do país em território livre. A lei sancionou um fato consumado.

O que veio depois ficou muito aquém da esperança de abolicionistas e libertos nos dias de festas que se seguiram. A memória da abolição em poucos anos passou a ser celebrada de uma perspectiva senhorial, com sinhazinhas, mães pretas e uma princesa que “doava” a liberdade aos cativos.

Apenas após a constituição de 1988, exatos cem anos depois, o Estado nacional brasileiro começou a encarar e instituição da escravidão como um passado sensível. Afinal, as sociedades pós-escravistas se formaram alicerçadas em um crime contra a humanidade. O texto constitucional reconheceu, pela primeira vez, que o país era formado por populações racializadas, que conviviam, no dia a dia de todos, negros e brancos, com a atualização do estigma, do preconceito, da dor e da injustiça, abrindo a possibilidade de tentar reparar os danos do passado, atualizados no presente.

É a esperança que se renova com o movimento #fazendasemracismo que os grupos detentores do patrimônio imaterial negro do Rio de Janeiro e o ministério público federal estão encaminhando para repensar o turismo histórico nas antigas regiões cafeeiras do Vale do Paraíba. A história do sofrimento, das lutas e da cultura da última geração de africanos, sequestrados e escravizados ilegalmente no Brasil, precisa ser celebrada e conhecida de todos. Para que os seus descendentes tenham suas histórias e memórias reconhecidas, para que todos os que são vítimas do racismo possam ter sua dignidade restaurada, para que possamos todos os brasileiros olhar para o nosso passado de injustiça e buscar sua superação.

Neste 13 de maio, recordamos também o dia seguinte da posse do atual governo ilegítimo e a instauração do que chamei, inspirada no filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, de República dos Cupins.  No filme, o velho edifício na praia da Boa Viagem em Recife, onde se passa a história como uma metáfora para a República de 1988 no Brasil, é finalmente condenado à destruição por uma infestação de cupins criminosamente provocada.

Desde o golpe parlamentar do ano passado, o ataque aos direitos previstos na constituição de 1988 tem sido diuturno. Na atual reforma trabalhista, há mesmo quem tente tornar realidade o velho chiste de que de tão reacionários vão propor revogar a Lei Áurea. Neste 13 de maio de 2017, proponho nos inspirarmos na revolução de veludo iniciada pelos escravizados em 1887, para alimentar a esperança de que chegaremos a 2018, e à comemoração dos 130 anos da abolição, tendo restaurado o espírito cidadão da constituição de 1988 e o estado democrático de direito.

Ainda as festas do 13 de maio

Martha Abreu

Escrevo essas linhas, pensando na festa que deve estar acontecendo no Quilombo São José da Serra, nessa linda noite estrelada de 13 de maio, dia dos Pretos Velhos e do fim da escravidão no Brasil.

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Deve estar perto da hora da entrada do jongo de São José, impactante como sempre.  E já deve estar dando para ouvir  o ponto que, ao som de tambores, estremeceu o Vale do Paraíba naquele ano de 1888: “Tava dormindo angoma me chamou, Levanta povo que o cativeiro acabou”.

As festas do Quilombo de São José ganharam muita visibilidade nesses últimos 20 anos e fortaleceram não só a vitoriosa luta pela terra, como também a formação de centenas de jovens negros que cresceram ouvindo falar de suas histórias e duras vitórias.  No último sábado em Vassouras, ouvi de uma jovem professora negra o quanto estava emocionada por conhecer Toninho Canecão, líder do quilombo. Ela havia crescido com a importante referência dos quilombolas de São José na valorização da cultura negra e no combate ao racismo no Vale do café. Como o Quilombo de Manoel Congo no século XIX, o Quilombo de São José da Serra, no século XXI, é um marco para novas possibilidades de realização da igualdade e da justiça.

Ao lado de Toninho Canecão, e de outras lideranças dos movimentos negros, como Maria de Fátima Santos, de Pinheiral, assistimos  no sábado passado, dia 6 de maio,  a construção de uma dessas possibilidades com a assinatura do TAC (termo de ajuste de conduta) entre os representantes da Fazenda Santa Eufrásia, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O TAC propõe novas formas de visitação aos antigos casarões do café  e inicia o movimento #fazendasemracismo. Entre as estratégias, além de placas, vídeos e folders, que divulguem de forma completa e justa a história dos escravizados, as novas regras envolvem  compromissos com a  visibilidade de grupos culturais negros da região e com os locais de visitação construídos pelos seus próprios descendentes. Como destacou a professora Iolanda de Oliveira, da Faculdade de Educação da UFF, o TAC é um importante instrumento educativo de combate ao racismo em todo turismo de memória desenvolvido no velho Vale do Paraíba.

Felicidade guerreira *

                                                                                              Monica Lima

Nas experiências em salas de aula, no ensino de História, o que aconteceu com os cativos depois do 13 de maio de 1888 sempre se torna motivo de discussão. A imagem novelesca dos recém-libertos vagando pelas estradas, perdidos, abandonados, formando cortejos de retirantes, era e ainda é uma representação recorrente, forte. Com as referências de pesquisas recentes sobre o processo de emancipação e o pós-abolição tornou-se possível desconstruir essa visão e pensar em caminhos de muita luta e da criação de espaços de negociação conquistados, nos quais a permanência na terra também esteve presente. Certamente não foi nada simples, mas tampouco os escravizados estavam despreparados para enfrentar o mundo do trabalho e tudo o que o fim da escravidão significava.

E sim, não só no 13, mas no 14 de maio de 1888, como se sabe, houve festa, por que o fim da escravidão foi uma conquista e conquistas se festejam. A imagem da festa, menos presente na memória coletiva sobre o que veio a seguir da assinatura da lei, nos debates sobre a importância de recordar essa celebração foi equivocadamente associada a uma certa falta de consciência sobre o que haveria de vir. Afinal, isso é fato: não houve nenhuma política de inclusão da população negra que havia sido escravizada ou que descendia diretamente dos ex-cativos. Mas, em nada o festejar significava não compreender toda a dureza da situação – afinal, desde sempre, celebrar é ganhar força para viver e lutar.

Já nas comemorações dos cem anos da abolição em 1988, enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro celebraram a data e em quase todos se pode observar como temas das letras dos belos sambas uma crítica à apologia da assinatura da lei pela Princesa e a presença da desigualdade racial e social. A Imperatriz Leopoldinense cantou “Me mandou uma princesa, que fingiu me libertar”; a Estação Primeira de Mangueira veio com “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”; “O Rio é negro, e o negro luta pelo Rio, buscando a liberdade, enfrentando o desafio”, disse o Império Serrano; e a Unidos de Vila Isabel trouxe a luta de Palmares influenciando a abolição, e o grito: “Valeu, Zumbi! ”.

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O que aconteceu no pós-abolição com a população negra e a presença das marcas da escravidão na mentalidade brasileira nos ajuda a entender como se imagina o imediato pós-13 de maio de 1888. O que não se pode recuperar facilmente é a centelha de esperança que deve ter existido naquelas pessoas e a sensação de que aquilo havia sido uma conquista, e de que se poderia avançar mais nessa estrada de liberdade. Como historiadora me dou a liberdade de imaginar, com certas referências, esses sentimentos nas pessoas, nos batuques, nas quebradas das cidades naquele então. E fico pensando se, junto com o olhar crítico, não devemos, frente ao avanço do retrocesso hoje, lembrar que só a luta traz essa alegria. E que dessa matéria também somos feitos, e nos fortalecemos.

13 de Maio em Sala de Aula

Keila Grinberg

Passei o 13 de Maio em Piraí, conversando com os alunos do curso de licenciatura em História a distancia da UNIRIO sobre o projeto Passados Presentes e a memória da escravidão. Foi emocionante estar ali, bem no meio do Vale do Paraíba fluminense, discutindo o ensino de uma História que não tem medo do passado e nem da luta contra o racismo no presente. Muitos foram de lá direto para o Quilombo de São José festejar. Eu voltei para casa orgulhosa por fazer parte do corpo docente de uma universidade pública que mantém um curso de qualidade agregando alunos do interior do Estado do Rio de Janeiro, pensado para quem não tem condições de deslocar-se até a capital. Afinal, desde 1888 se sabe que, sem investir em educação universal e pública, não conseguiremos deixar para trás as marcas da escravidão na sociedade brasileira.

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13 de Maio, espelhos estilhaçados e a busca da pretessência

Giovana Xavier

Qual o lugar da Lei Áurea na história do Brasil? Dádiva? Conquista? Quais as narrativas ao seu redor? Estas, de certa forma, são perguntas que têm mobilizado os movimentos sociais negros ao longo do tempo. Nos anos 1930, o jornalista negro José Correia Leite, editor do Clarim d´Alvorada, conclamava os “homens de cor” a lutarem pela “segunda abolição”, dado o estado de precariedade em que se encontrava a população negra em São Paulo e em todo o país. Saltando no tempo, chegamos aos anos 1970, quando o poeta e jornalista Oliveira e Silveira, assinalava, no Rio Grande do Sul, o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra. Esta proposição consagrou a data da morte de Zumbi dos Palmares como contraponto ao 13 de maio de 1888, trazendo para o centro da discussão a importância de enquanto negros e negras narrarmos nossas próprias histórias.

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(Foto: Marcha Contra o Racismo/1988, de Januário Garcia).

Embora, em termos práticos e jurídicos, a Lei Áurea tenha se traduzido na construção de um sentido de liberdade extremamente precário para a população negra, o fato é que o dia seguinte à sua assinatura, significou o fim de um Brasil organizado a partir das categorias dicotômicas do senhor e do escravo. Menos do que desaparecer, tais categorias foram ressignificadas na sociedade livre, que aprimorou políticas de racialização baseadas no estabelecimento de hierarquias entre negros e brancos. Ainda assim, a abolição representou a vitória de séculos de lutas e mobilizações negras individuais e coletivas em busca da liberdade. Como disse Lima Barreto “era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez”. As palavras do autor, levado pelo pai ao Largo do Paço para festejar a abolição, em plena Sexta-Feira 13, “data áurea” em que o pequeno Lima completava 7 anos de meninice, mantêm-se vivas.

O monólogo Tragam-me a cabeça de Lima Barreto, estrelado pelo incrível ator Hilton Cobra, sob direção de Fernanda Júlia Onisajé do Núcleo de Teatro Brasileiro de Alagoinhas (NATA) e produção de Naira Silva Fernandes, criadora do Projeto Melanina Carioca, mostra o poder das palavras do escritor em desestabilizar o racismo e desarrumar a afirmação de que nada mudou.

Hilton Cobra - Tragam me a cabeçaO ator Hilton Cobra no monólogo “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”, no Teatro SESC Copacabana/RJ.

O “veneno do conhecimento”, injetado em gerações passadas e presentes de intelectuais negros como o próprio Cobra, diretor da Cia. dos Comuns, também chegou à FLIP 2017, no qual Lima será o grande homenageado. Estas contaminações reatualizam a importância de celebrarmos a abolição como uma conquista da população negra. Uma conquista dolorosa, que coexiste com muitas permanências, é bem verdade.

Em termos das permanências, devemos lembrar que a implementação das cotas raciais em universidades públicas, apresentadas como principal cartão de visitas das vitórias da luta antirracista no Brasil, coexistem com o aumento estrondoso da população carcerária, em sua maioria negra. “Para cada um graduado, 1.000 encarcerados”. Eis aí o perverso passado-presente que nos acompanha e com o qual temos de lidar diariamente, construindo nossas próprias respostas para problemas criados pela supremacia branca do Brasil.

As mobilizações protagonizadas por universitários negros para a implementação das cotas raciais na Unicamp e a recente implementação das ações afirmativas para negros, indígenas e portadores de necessidades especiais no Mestrado Profissional de História da UFRJ fazem parte deste repertório de respostas que “bagunçam os lugares da mesa”, na expressão certeira da estudante de História Taina Santos.

Ao mesmo tempo em que denunciamos as mazelas que o racismo nos impõe, faz parte do nosso processo de cura enquanto comunidade negra praticar a ação afirmativa de contar, celebrar e narrar nossas conquistas com amor e poesia. Praticando este exercício, registro emocionada a beleza da Ocupação Conceição Evaristo, uma exposição em homenagem à história e obra da autora mineira, que fica em exibição até 17 de junho no Espaço Itaú Cultural, em São Paulo.

Folder Ocupação Conceição Evaristo

Ao ser entrevistada pela filósofa e intelectual pública Djamila Ribeiro, a vencedora do Prêmio Jabuti com Olhos d’água, ensina-nos sobre o poder das narrativas negras: “nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”.

São estes estilhaços que transformam a solidão vivida por Conceição Evaristo, Lima Barreto, Hilton Cobra e tantos outros intelectuais negros que dedicam seu trabalho à construção de projetos coletivos para a comunidade negra, que fortalecem a “pretessência” de humanidade e liberdade que nos constitui como comunidade desde a travessia.

E sem perder o compromisso político de fazer lembrar que as Mulheres Negras somos as condutoras deste bonde, neste 13 de maio vai meu salve a Conceição Evaristo, mãe de Iná e a Marilda Moura, mãe de Ana Liz, que vem a ser mãe de Herman. Ana Liz é uma poetisa e decoradora presa injustamente desde 2015 aguardando julgamento por um crime que não cometeu. Recentemente, a jovem teve negado pela justiça brasileira o direito à prisão domiciliar para cuidar de seu menino. Aparentemente em posições extremas Conceição, Marilda, Ana Liz e todas Nós seguimos estilhaçando o racismo e o machismo que nos subalterniza.

Em busca de nossas próprias versões da história, deixemo-nos contaminar pela linda poesia do poeta e historiador Duan Kissonde. Afinal, não se espantem, pois, o Rio Grande do Sul é terra de “Pretessência”:

Preta a essência que busco

Batuco no lusco-fusco

Do meu próprio ser

Lapido, ancestralizo,

Estudo e questiono

Com muita paciência

Mas jamais abandono

A minha pretessência!

Estamos de pé

Ana Flávia Magalhães Pinto

Muitos são os motivos que me levam a nutrir uma sintonia especial com o mês de maio. Por força da simbologia atribuída a datas diferentes e próximas, este é um daqueles momentos do ano em que, quase que simultaneamente, sou chamada atenção para aspectos dos mais centrais da vida humana, pelo menos tal como a vejo. Dia do Trabalhador, Dia da Língua Portuguesa para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Dia das Mães e Dia da Abolição da Escravidão no Brasil/Dia Nacional da Denúncia contra o Racismo. Liberdade, família, afeto, direitos, cidadania, língua e identidade… Essas datas comemorativas, em particular, ganham importância por serem ocasiões para a avaliação dos resultados obtidos nas disputas de narrativas que têm sido travadas em torno do apagamento e/ou do reconhecimento de pessoas e grupos na história do Brasil, com destaque para as possibilidades de valorização e respeito do vivido por africanas/os e suas/seus descendentes neste país.

Foto da Missa Campal

Infelizmente, o obtido ontem pode não valer para hoje e menos ainda está garantido amanhã. Há dez anos, as Casas Bahia fizeram muita gente se emocionar diante da televisão com um comercial em que no mês da abolição uma mulher negra foi apresentada como a representação de aspectos dos mais bonitos da maternidade em sentido amplo. Ganhe um minuto do dia, assistindo novamente ao vídeo. Neste ano, porém, além de não dialogar com os debates sobre representatividade num país de maioria negra, o que a rede de varejo de móveis e eletrodomésticos nos oferece é a figura de Dona Hermínia, personagem de Paulo Gustavo, que diverte por seus arroubos de violência e descontrole no trato com os filhos e pessoas próximas. Tudo bem que nenhuma mãe ou mulher é obrigada a ser um anjo de candura, mas representações dessa natureza favorecem que tipo de entendimento sobre nós mulheres e que qualidade de relações entre outras mulheres numa sociedade desigual?

A propósito, outro ponto que tem mexido muito com a gente é a questão do trabalho. As reformas forçadas pelo governo que assumiu o poder após o golpe no ano passado têm mobilizado temores sobre “retornos do cativeiro” ou atualizações mais perversas da abolição que indiscutivelmente foi capenga, mesmo que não por falta de empenho e luta promovida por pessoas negras livres, libertas e escravizadas – é bom dizer. A despeito de como entendamos a conexão entre passado e presente, a dificuldade de assumir e enfrentar o modo como o racismo tem operado de modo decisivo na definição e na preservação de direitos e deveres no Brasil tem feito com que muitos setores da sociedade recorram às imagens da escravidão mais como alegoria do que como algo concreto. Talvez seja isso que esteja irritando muitos/as pensadores/as negros/as dos quatros cantos, uma vez que não é de agora que denunciam as continuidades da lógica escravista.

Usemos de franqueza, essa deformidade histórica está na raiz do porquê a agenda da luta contra o racismo (e pela liberdade do jovem negro Rafael Braga – cuja mãe, Adriana Braga, está hoje passando de coração apertado por ele ter sido injustamente condenado a 11 anos de prisão) não tenha se tornado uma prioridade inegociável para setores da esquerda hegemônica, nem tenha tido destaque nas manifestações da Greve Geral do 28 de abril e do 1º de Maio, exceto pelas intervenções de grupos negros, a exemplo da Frente Alternativa Preta em São Paulo (Assista ao vídeo). Há um problema, muita gente sabe e até admite, mas boa parte dessa muita gente ainda não sabe o que fazer, porque enfrentar significa assumir suas próprias inabilidades. A prisão arbitrária de Luciano Firmino, Ricardo Santos e Juraci Santos, por uma semana, não deixa dúvida do alcance da vulnerabilidade de que estamos falando.

Seja como for, certo é que maio marca muitos tempos de luta que se encontram no presente e projetam futuros. Outro dia desta semana, enquanto desfrutava da qualidade do Café Épico, estabelecimento localizado na Lapa carioca, de propriedade de um casal negro, me peguei pensando em como uma música de Nei Lopes e Wilson Moreira dá conta desse meu apego por este mês e tudo o que ele representa, a depender de como nos relacionamos com seus significados.  O Jongo do Irmão Café começa assim: “Auê, meu irmão café! / Auê, meu irmão café! / Mesmo usados, moídos, pilados, / vendidos, trocados, estamos de pé: / Olha nós aí, meu irmão café!”. Para ouvir o resto, é só dar mais um clique aqui.

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#FazendaSemRacismo

Sábado, dia 6 de maio de 2017. Na frente do velho  casarão da  Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, realizou-se a cerimônia pública de assinatura do TAC (Termo de Ajuste de Conduta)  entre os representantes da Fazenda, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro .

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Todos os que ali compareceram, comunidades quilombolas e jongueiras, comissão da igualdade racial da OAB, professores da região, da Universidade Federal Fluminense e da UNIRIO, entre outros, tinham muito o que celebrar!! Virava-se a página de um tipo de turismo que fere direitos da população negra, ao apresentar roteiros históricos de forma incompleta e injusta com os escravizados e seus descendentes,  construtores da riqueza e dos casarões dos vales outrora repletos de café.

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O TAC significa uma nova forma de se fazer a visitação nas antigas fazendas de café, incorporando e respeitando a história do povo negro, de forma que valorize sua resistência à opressão, e o patrimônio cultural construído por ele no Vale do Paraíba. A implementação do TAC pode abrir novas formas de visibilidade e sustentabilidade para as comunidades negras da região, e contribuir para a implantação de um turismo sem racismo.

Ainda iremos comentar com mais calma a conquista desse TAC, mas, por enquanto, é muito importante a sua divulgação como uma atitude educativa e de reparação. Ele precisa estar presente nos roteiros turísticos e nas escolas da região. Entre as muitas cláusulas, recomendo a leitura da de número 7 que determina a construção de duas placas em local visível. Ali estarão registrados marcos importantes da história dos escravizados e, como direito de memória, seus nomes e o de suas famílias.

Não deixem de ler e divulgar!! Vejam também as reportagens em vídeo e texto e no The Intercept.

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