Arquivo da categoria: história e memória

Viva o Carnaval!

Nos últimos 50 anos, o Brasil que não está no retrato tornou-se objeto de estudo de historiadorxs profissionais. A história vista de baixo, a história das mulheres e das relações de gênero, a história social da escravidão, a história indígena, a história da memória (e dos esquecimentos), incluindo o estudo da ditadura civil militar e dos crimes então cometidos pelo estado brasileiro, são temáticas que mereceram inúmeros artigos, livros, debates, teses e dissertações, desenvolvidos nas últimas décadas nas universidades brasileiras, com reconhecimento acadêmico internacional. A partir das leis 10639 e 11645, com a parceria, pressão e incentivo dos movimentos sociais, começamos a ultrapassar os muros da universidade. Este blog é um pouco filho deste momento.

As novas pesquisas históricas estão hoje também nas escolas de samba. O uso de trechos de documentos de arquivos, como os jornais escritos por intelectuais negros no século XIX, transformados em alegoria no desfile de 2018 da Paraíso do Tuiuti  e a petição de Esperança Garcia contra os maus tratos e torturas que sofria de seu “senhor”, no vitorioso desfile da Mangueira deste 2019,  evidenciam a presença, cada vez mais importante, dos jovens profissionais de história, muitas vezes ligados às comunidades, no mundo do carnaval. Neste ano, o segundo carro da Mangueira,  genocídio indígena,  desenvolvido a partir do monumento aos bandeirantes de São Paulo, construiu uma alegoria simplesmente fenomenal para a violência constitutiva de nossa memória nacional, mais um resultado dessa nova imaginação histórica, metodologicamente sofisticada e  comprometida com a diversidade.

Em 2016, um dos textos campeões de visualizações do blog, de autoria de Martha Abreu, comentou a cegueira dos comentaristas da TV Globo em abordar a riqueza, o embasamento e a complexidade, em termos históricos e culturais, das narrativas dos enredos das escolas de samba.

Este ano não foi exceção. Apesar do deslumbramento com o desfile da Mangueira, os comentaristas insistiam em afirmar que o carnavalesco Leandro Vieira trazia um ponto de vista sobre a história do Brasil que colocava luz em possibilidades e personagens sobre os quais quase nada se sabia. A força das narrativas canônicas da história brasileira, ainda institucionalizadas na maioria dos museus e monumentos, fez Fátima Bernardes comentar que o carnavalesco havia lido dezenas de teses e dissertações para fazer o enredo, mas que provavelmente não encontrou quase nada sobre os temas tratados. Os comentários conseguiram relativizar o carro “ditadura assassina”, transformar a denúncia do genocídio indígena cometido pelos bandeirantes em “questão de ponto de vista” e não explicar ao público quem foram Dandara, Luiza Mahin, os caboclos de julho ou o Dragão do Mar de Aracati.

Ainda assim, o vitorioso enredo de Leandro Vieira tornou evidente o que, até então, apenas alguns reconheciam: as escolas de samba como lugar privilegiado de produção de pensamento crítico sobre a história do Brasil, local de produção de história pública no sentido mais sofisticado e abrangente do termo. Reconhecimento que começou a se estabelecer desde o carnaval do ano passado, com o histórico desfile da Paraíso do Tuiuti, em que comemoramos 130 anos da Lei Áurea e 30 anos da Constituição da 1988.

Neste ano, a Mangueira realizou na avenida, com o brilho de um irretocável desfile carnavalesco, o que muitos professores de história vem fazendo em seus cursos,  com alcance bem menor, é verdade: contar a história de baixo para cima e aclamar com orgulho personagens heróicos da história do Brasil, com Dandaras, Cariris, Malês, Dragões do Mar, Luizas Mahins, Esperanças Garcias e Marielles.

Como em anos anteriores, não foi só a Mangueira!  Várias escolas mostraram outros personagens, como os moradores de rua da Império Serrano,  os orixás e a negritude da Portela na homenagem a Clara Nunes, o bode eleito da Tuiuti (grande Jack Vasconcelos!), o Xangô do Salgueiro, o Cristo negro da Estácio  e até mesmo a ala final da Vila Isabel  (a mesma  Vila que cantou a princesa!), com os escravizados em festa depois da abolição logo atrás de um carro que trazia a faixa “Marielle presente” (uma faixa apresentada pela família da vereadora e pela própria atriz que interpretava a princesa abolicionista!).

Talvez o mais impressionante tenham sido os personagens do navio negreiro da Unidos da Tijuca, representando “o pão que o diabo amassou”?    Soubemos que alguns sambistas do carro se negaram a entrar. Era muita dramatização de dor e sofrimento negros num dia de carnaval.  Mas estava lá, o navio para ninguém esquecer (aliás, vale um estudo mais profundo sobre as representações dos navios negreiros nos desfiles).

Sabemos hoje que os carnavais sempre foram momentos de discussão e reflexão coletivas em vários momentos da história do país. Em 1888, por exemplo, no ano da Abolição, o historiador Eric Brasil registrou a invasão de fantasias de diabinhos por todos os cantos da cidade, “infernizando” os adeptos do carnaval elegante.  Os últimos carnavais, sem dúvida, têm contado diversas histórias do Brasil, mas principalmente têm contado outras histórias da escravidão, da liberdade, da negritude e do racismo.  E não só os carnavalescos são os responsáveis: compositores, mestres de bateria, puxadores, passistas, mestres salas, coreógrafos, figurinistas, todos se envolvem na produção de uma outra narrativa pública e coletiva da história.

É uma nova geração, formada em tempo de liberdade e de instituições públicas de ensino, que, em diálogo com renovadas pautas de combate ao racismo e a toda forma de discriminação, está fazendo toda a diferença!!!

Como disse Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira, “nosso carnaval teve um compromisso social”. “É a história de nossa raça, os verdadeiros desbravadores da história do Brasil. É a vitória do povo preto”

Salve Mangueira!!! Lavou a alma de milhões de brasileiros e das historiadoras do Blog.

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Evelyn Bastos, rainha de bateria da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com um documento de época: a petição de Esperança Garcia 05/03/2019 (Daniel Ramalho/VEJA.com)

 

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Domingo, 13 de Maio, 130 anos depois…

O blog celebra o 13 de maio com uma conversa entre suas veteranas…

Hebe Mattos

2018!

130 anos das fugas em massa de escravizados que surpreenderam abolicionistas e “emperrados” e mudaram o rumo previsto para a abolição no Brasil. Cerca de 750 mil pessoas, apenas 5% da população do país, ainda estava “legalmente” sob a condição de escravidão ou regime de trabalho forçado em princípios de 1888. Estes trabalhadores escravizados se concentravam, porém, em fazendas cafeeiras que eram o baluarte da economia agro-exportadora do país. O chefe do Conselho de Ministros, Marquês de Cotegipe, assumira o governo em 1885 com o compromisso de parar a pressão do movimento abolicionista. A proposta do gabinete liberal anterior de liberar os cativos sexagenários sem indenização (quase todos africanos com as idades aumentadas na matrícula para esconder sua origem no contrabando de escravos) fora rejeitada quase que por unanimidade. A lei afinal aprovada, conhecida como Saraiva-Cotegipe, libertava os sexagenários mediante indenização em tempo de serviço e adiava a abolição final para mais quase uma década, após indenizações pecuniárias aos proprietários. Paralelamente, novas medidas legais endureciam as punições para os que apoiassem as crescentes fugas de cativos.

Para além das previsões dos mais radicais abolicionistas, porém, as fugas em massa se generalizaram a partir de janeiro de 1888.   A surpreendente iniciativa dos últimos cativos fez deles, ao final, os principais agentes a definir o “timing” do processo. Alforrias em massa foi a resposta possível à desobediência civil que poderia inviabilizar a colheita daquele ano. Sobretudo nas mais prósperas fazendas cafeeiras de São Paulo. A mudança de posição dos até então empedernidos escravistas paulistas redefiniu o jogo de forças no “andar de cima”.

Em 10 março, o gabinete antiabolicionista liderado pelo Marquês de Cotegipe foi substituído por outro, sob liderança do também conservador João Alfredo, convertido à abolição imediata e sem indenização como solução para a crise. Em maio, quase que por unanimidade,  a lei estava aprovada pelo mesmo congresso escravagista que antes legitimara as ações de perseguição aos abolicionistas que apoiavam as fugas dos escravizados. Ela confirmava a liberdade de fato, que as deserções coletivas tinham estabelecido.  Em 13 de maio, em um domingo, dia do aniversário do bisavô, Dom João VI, a Princesa Isabel assinava a Lei Áurea. A impressionante multidão presente na missa campal comemorativa de 17 de maio ficou registrada para a posteridade em fotografia pioneira. Os batuques comemorativos dos últimos libertos foram ouvidos por mais de duas semanas depois da assinatura da  lei.

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Infelizmente, as esperanças de que as reformas se aprofundariam, com alguma forma de compensação aos recém libertos, no regime monárquico ou em um novo, republicano, duraram pouco. Em pouco mais de um ano, a monarquia foi derrubada por um golpe militar com amplo apoio dos antigos fazendeiros escravistas, chamados “republicanos do 14 de maio”.  No novo contexto político, que se manteve por quase dois anos sem uma nova constituição, as discussões sobre reparação aos libertos caíram no esquecimento. Para se livrar das pressões por indenização aos proprietários, Rui Barbosa, ministro da fazenda, queimou a documentação da matrícula dos últimos escravizados, que embasava a política de indenizações do período imperial. A nova constituição republicana, finalmente aprovada, em 1891, ainda que consagrando a liberdade, negava o direito de voto aos analfabetos, maioria da população, sem fazer da educação pública um dever do estado, enquanto o silêncio racial do texto legal fazia do estigma da escravidão uma marca comum a todos os que traziam na pele a memória da origem africana.

Em 1988, cem anos depois, o movimento negro ainda precisava denunciar nas ruas a abolição incompleta. As lutas pela redemocratização daquela década trariam, porém, mudanças  significativas para a questão. Os artigos 215 e 216 da constituição aprovada no mesmo ano reconheceram, pela primeira vez, a pluralidade étnica e cultural do país. A participação dos movimentos negros na constituinte foi fundamental para a aprovação do artigo 68 das Disposições Transitórias do texto constitucional, assegurando direitos territoriais às comunidades remanescentes de quilombo.

Naquele ano, muito jovem, apresentei emocionada os resultados de minhas primeiras entrevistas com camponeses negros sobre a memória do pós-emancipação no Brasil, em diversos seminários celebrando o centenário da abolição, onde encontrei pela primeira vez o professor Thomas Holt, da Universidade de Chicago. Ele estava no Brasil convidado a compartilhar conosco suas pesquisas pioneiras sobre o pós emancipação na Jamaica e nos Estados Unidos, em perspectiva comparada.  Será uma grande emoção reencontrá-lo na próxima semana, no segundo seminário Histórias do Pós-abolição do Mundo Atlântico, organizado pelo GTEP (GT/ Anpuh _ Emancipações e Pós-Abolição) na Fundação Getúlio Vargas, desta vez acompanhada de expressiva maioria de pesquisadorxs e historiadorxs negrxs, formadxs nos últimos 30 anos.

O Brasil tem ritmos e tempos de mudança lentos e peculiares. Há dois anos os “emperrados” estão no poder e tentam conter, desacelerar ou reverter a vontade de inclusão social que deu sentido à constituição de 1988. Resta-nos defendê-la e apostar na profundidade do processo democrático vivido nas últimas décadas.

Como em 1888, a imprevisibilidade pode estar do nosso lado.

Martha Abreu

1988, um ano para não esquecer!

Embora tenhamos muito para pensar e discutir nesses 130 anos da abolição, hoje quero  escrever sobre o centenário da abolição, há 30 anos. 1988 foi um ano marcante e inesquecível para quem o viveu, negros e brancos, militantes e acadêmicos,  historiadores e sambistas.  Posso dizer que nada ficou como antes na história das escravidão/abolição e nas discussões sobre as relações raciais no Brasil.

Festivais, marchas, protestos e seminários aconteceram em todos os lugares do Brasil. As universidades não ficaram de fora.  Lembro bem de um desses seminários, na reitoria da UFF, onde foram discutidas, com muita exaltação,  as novíssimas pesquisas de historiadores que, criticando a então dominante visão do “escravo coisa”, destacavam o protagonismo negro na luta pela abolição. Como seria possível valorizar essa perspectiva, sem perdermos de vista a violência da escravidão e os limitadíssimos efeitos da Lei Áurea? Aquele debate foi fundamental em minha formação!!

Ao longo de 1988, e desde 1987, também lembro bem da presença dos movimentos negros (e indígenas) nas discussões da Constituinte brasileira, que seria aclamada no final daquele mesmo ano.  Ali seriam aprovadas importantes medidas para o combate ao racismo e reconhecimento da importância da população afrodescendente, tanto no reconhecimento dos direitos quilombolas, quanto na afirmação de um Brasil diverso em termos culturais e populacionais. E isso não era pouca coisa naquele momento.

Mas faço mesmo questão de registrar os desfiles das Escolas de Samba. A discussão do centenário seria levada para a Avenida pela Estação Primeira de Mangueira, com o enredo  “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?, e pela Unidos de Vila Isabel, “Kizomba, a festa da raça”, encerrando de vez (assim espero) a ideia de que as escolas de samba eram locais para o “povo” esquecer seus problemas.  Maior patrimônio construído pelos descendentes de escravizados no Rio de Janeiro, essas Escolas de Samba colocaram diretamente o dedo nas feridas da escravidão e da abolição.

Nos versos da Mangueira,  cantava-se uma  “liberdade que ninguém viu”, uma “senzala que se transformou em favela”, sem que se tivesse reconhecido “que o negro  também construiu as riquezas do nosso Brasil”. Zumbi foi aclamado em toda a Avenida, mas especialmente pelo arrepiante verso da Vila Isabel que trazia o personagem como protagonista da luta contra a escravidão, contra o racismo e contra o “apartheid”:  “Valeu Zumbi! O grito forte dos Palmares, que correu terras, céus e mares, influenciando a abolição…”

30 anos depois, um filme sobre o desfile da Vila Isabel nos leva de volta àquele ano inesquecível.  Mas agora, com fortíssima emoção, na voz e na memória dos participantes da escola do Morro dos Macacos.  Em ano inesquecível, um filme imperdível realizado por um grupo de jovens carnavalescos, historiadores, cineastas e antropólogos, que tem feito a diferença na atividade dos departamentos culturais das escolas de samba através do trabalho de consolidação de suas histórias e memórias.

Como relata a sinopse do documentário, “Kizomba – 30 anos de um grito negro na Sapucaí” é uma celebração do primeiro título da Unidos de Vila Isabel no grupo especial das escolas de samba. O desfile antológico que marcou não só a história da agremiação, mas como toda a história do carnaval carioca é lembrado por apaixonados componentes dos mais diversos segmentos. O mito da Kizomba continua presente na memória e nos corações daqueles que participaram do carnaval de 1988. “Quem viu, viu. Quem não viu não vai ver mais”.

Veja o teaser do documentário clicando na imagem a seguir.

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A direção é de Nathalia Sarro (historiadora formada pela UFF, maior orgulho!!). A direção de fotografia, de Nathália Rodrigues. Câmaras e montagem de  Nathália Rodrigues  e Nathalia Sarro. Assistentes de produção,  Beatriz Barcelos, Danilo Garcia, Vitor Hugo Santos. Roteiro, Nathalia Sarro e Fatima Rodrigues. Diretor cultural, Vinícius Natal. Pesquisa, acervo e realilzação,  Vila Cultura. Duração – 72mim

Mônica Lima

Se não fosse o Preto Velho

“O Preto Velho é um negro feiticeiro, se não fosse o Preto Velho, não acabava o cativeiro.”

A assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 trouxe festa no dia seguinte e após, e a memória dessa celebração foi reiterada em canções e poemas negros. No entanto, a continuidade e o aprofundamento das desigualdades no Brasil, acompanhados de uma leitura oficial da abolição da escravidão como uma dádiva da princesa fizeram com que, especialmente a partir da segunda metade do século vinte, se rejeitasse a data como ocasião de celebração entre os setores mais engajados na luta contra o racismo no Brasil. Hoje, o entendimento da abolição como resultante da luta de muitos negros e negras, juntamente à militância de abolicionistas brancos, confere outro lugar para esse dia histórico.

Porém, para além da discussão sobre as ocasiões a se celebrar, há que se destacar outros lados da comemoração do treze de maio. No vasto campo das religiosidades de matriz africana, em algumas vertentes, este é o dia de saudar os Pretos Velhos. Em muitas letras de cantigas das giras, eles seriam os responsáveis pela abolição, pois sua força no sagrado foi determinante para que se alcançasse a desejada liberdade. As diversas imagens que circulam nas redes no dia de hoje nos fazem lembrar que essa data também remete às profundezas de nossa ancestralidade.

Seriam eles, para muitos, a razão da cura e da esperança, como foi lindamente representado pela comissão de frente da escola de samba Paraíso do Tuiuti no seu arrebatador desfile no Carnaval do Rio de Janeiro desse ano. Os pretos-velhos, curvados, sem a agilidade e a força da juventude, seriam aqueles capazes de trazer conforto frente à dor e à desesperança, e assim gerar a recuperação e a redenção. No treze de maio, por essas e outras razões, são lembrados e louvados.

Nos estudos sobre as sociedades africanas e suas culturas muitas vezes encontramos referências à importância do papel dos mais velhos e sobre como sua sabedoria e ciência não somente iluminam a tomada de decisões dos mais novos como dão suporte ao que pode trazer a mudança. O peso da ancestralidade não é paralisante nem conduz a um passado perdido no tempo. Todo ao contrário. Os antigos dão o alicerce para a construção de novas moradas, e a direção segura para rotas de mudança.

Nesse treze de maio em que se celebram os 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, fica um desejo – e uma esperança – de que os desafios do presente nos façam lembrar da profundidade do nosso passado. Que a força da nossa ancestralidade, da nossa história, nos permita derrotar o mal e abrir novos caminhos.

 

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A Estranha Derrota?

Inaugurando minhas atividades docente na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), fui convidada a ministrar uma disciplina de ementa aberta para a turma dos calouros, alunos que acabaram de entrar na Universidade. Inspirada no texto clássico de Marc Bloch, Apologia da História ou O Ofício do Historiador,  eu a intitulei “História Para Que?”.

Para que serve a história? Esta é a pergunta que abre o texto, escrito em um campo de concentração, inacabado por conta da execução do autor pelos nazistas em 1944. Foi o primeiro texto que li com a minha orientadora, Maria Yedda Linhares, ainda na iniciação científica. Tenho hoje a idade que ela tinha quando eu a conheci. Não tive dúvidas que era o texto que eu devia revisitar para construir a nova disciplina.

Pouco antes de Apologia da História, Marc Bloch escreveu A Estranha Derrota, misto de testemunho e exercício de história imediata sobre a capitulação francesa aos nazistas, onde o grande medievalista conjugava uma narrativa pessoal sobre os acontecimentos recentes, dos quais participara como oficial do exército francês, com reflexões sobre a história e seus condicionamentos de longa duração. A releitura do texto é, para mim, sempre instigante.  O texto de Bloch me faz refletir sobre história e testemunho, sobre lugar de fala e produção do conhecimento, sobre agência e identidades na produção dos sujeitos históricos, individuais e coletivos. Uma pequena joia do ofício do historiador, sobre o qual teorizaria no texto posterior, inacabado.

Bloch morreu num dos momentos mais trágicos de reversão de expectativas democráticas da história ocidental.  Um trauma coletivo de tal envergadura que os textos europeus de reflexão sobre o tempo e a história do período continuam imensamente atuais. O dele, inclusive.

Na primeira aula com os novos alunos, junto ao primeiro capítulo do livro de Bloch, assistimos também à icônica “Ted Talk” de Chimamanda Adichie, sobre o perigo da história única. Minha intenção era ir um pouco além da história europeia, mas, sobretudo, na linha pessoal dos textos finais de Marc Bloch, em que escreveu como um historiador e soldado francês, refletir, como brasileira, sobre a história do Brasil, enquanto estado nacional.

De um certo ponto de vista, do qual compartilho, a história do Brasil, até 1988, pode ser sintetizada na contínua produção de um outro, colonizado, ao qual se negava o direito à história e à cidadania. Para explicar de forma simples a afirmação, cito um exemplo.

Nas primeiras décadas que se seguiram à independência do Brasil, aconteceram diversas revoltas federalistas no país, todas derrotadas pela monarquia centralizada no Rio de Janeiro. Após a rendição, os líderes revoltosos com origem nas classes senhoriais foram quase sempre tratados como prisioneiros de guerra ou prisioneiros políticos e, muitos deles, depois, anistiados. Líderes de revoltas de extração popular, entretanto, pretos, pardos e caboclos, nos termos da época, foram muitas mais vezes condenados à morte , frequentemente sendo processados por crimes previstos no código criminal do império, o que basicamente desqualificava o caráter político de seus movimentos. Na Bahia, em 1837, Francisco Sabino, médico que liderara uma revolução liberal, descrito como mulato, foi condenado por incitar “insurreição de escravos”.

A  República seguiria a tradição imperial, apesar da abolição da escravidão. A Constituição de 1988 foi o primeiro texto constitucional brasileiro a tentar quebrar esta premissa, ao reconhecer o voto do analfabeto e a pluralidade racial e cultural do país. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva foi  um dos protagonistas e é o principal ícone desta vontade política de incorporação.

A vontade de inclusão da república de 1988, sob ataque desde o golpe parlamentar de 2016, foi amplificada com o acesso à internet a partir dos anos 2000.  A rede mundial de computadores representou, em todo o mundo, uma enorme democratização do acesso à comunicação e também da capacidade de produzir e difundir informações e conteúdos. Este processo trouxe, por outro lado, como efeito paralelo indesejado, uma espécie de democratização perversa, onde os mais mesquinhos sentimentos se sentiram liberados para serem publicamente compartilhados e, ao encontrar seus iguais, sentirem-se legitimados. Este segundo movimento facilitou, sobretudo nos últimos anos, a ressurgência de fundamentalismos, de fascismos e de movimentos francamente reacionários, em todo mundo.

A história é a ciência que indaga sobre os seres humanos no tempo, como ensina Marc Bloch. Ela trata de mudança. Ela se faz no presente e os acontecimento passados sempre podem ser revisitados. O passado nunca se repete, ainda que o presente esteja sempre informado pelo passado e processos de longa duração permaneçam condicionando movimentos e possibilidades.

O que me encanta nos dois últimos textos de Bloch é o otimismo que, apesar de tudo, os informa. Em uma situação extrema, eles fazem apologia da história e do ofício do historiador. Como historiador, Bloch tinha certeza do  futuro fracasso de qualquer projeto que pretenda controlar os sentidos da história, como era o caso do nazismo que combatia e que viria a assassiná-lo.

Faço esta digressão para falar do tempo presente. E, claro, de Brasil. Ontem, quando comecei a assistir a missa em celebração ao aniversário de Dona Mariza e de solidariedade ao ex-presidente Lula em São Bernardo pela Rede TVT, pela internet, o altar a céu aberto, cercado de povo, me lembrou a fotografia da missa campal em celebração à abolição da escravidão no Brasil, em 17 de maio de 1888.

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Em pouco tempo, as mesmas imagens que eu estava assistindo na internet (produzidas pela TVT) estavam no G1 e no UOL, e foram vistas por todo o país e em todo mundo, em tempo real. Lula controlava o enredo televisionado da sua própria prisão. O que me parecia totalmente inesperado e novamente me evocou o caráter surpreendente, para os contemporâneos, dos acontecimentos que precederam o desfecho político da abolição, sobretudo a desobediência civil que permitiu as fugas em massa dos últimos cativos.

Não tenho qualquer veleidade de prever o que virá nos próximos dias. Seja o que for, a capacidade política de ex-presidente Lula de controlar a narrativa dos eventos de ontem impregnou de sentidos políticos a sua “rendição”.

Como nos ensinou Marc Bloch, a história nunca se repete. E como sugeriu o inspirado discurso de Lula, por mais longo que seja, o inverno não pode impedir a primavera.

30226219_1665253480178349_1081419481768525824_oFoto Francisco Proner Ramos

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Hebe Mattos: novas histórias (#lacre)

Bela nova caminhada amiga

Martha Abreu

Dia 8 de outubro foi dia de seu aniversário e de comemorações pela sua entrada na Universidade Federal de Juiz de Fora, como professora titular.  Novos desafios e conquistas esperam minha grande parceira.  Seu brilho acadêmico, coragem intelectual, poder de argumentação e  sensibilidade de análise para as mais diferentes situações, em breve, irão contagiar muita gente.

Conheci Hebe quando éramos muito jovens e entrávamos no mestrado em 1981! Os sonhos eram vários e os projetos para mudarmos o mundo – e se possível a historiografia – bastante fortes também. Logo passei a admirar aquela jovem brilhante, que lia muito mais rápido do que eu e que tinha sacadas impressionantes. Além de tudo, conseguia conciliar a maternidade com a produção acadêmica. Hebe mostrou a todos que era possível ser mulher, mãe, intelectual e professora reconhecida. Tudo ao mesmo tempo!

Por essa época fizemos alguns trabalhos juntos e estudamos para um concurso que nenhuma das duas foi bem sucedida. Nada poderia prever a qualidade e a força de uma parceria que aconteceria algum tempo depois. Em meio a constantes conversas pelos corredores da UFF, depois que me tornei professora da UFF, em 1991, o jongo de São José da Serra e os debates em torno da  Lei 10.639 iriam nos unir de vez através de nossos interesses sobre escravidão/abolição e cultura negra.

No momento quero agradecer por todas as nossas parcerias e cumplicidades. E, mais ainda, desejar muitas alegrias, afetos e realizações nesse novo momento de sua vida. Mesmo com diferentes endereços institucionais, estaremos juntas, sempre. Bela nova caminhada amiga!

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Hebe Mattos, Martha Abreu e Robert Slenes com Marilda de Souza, liderança do Quilombo do Bracuí. Angra dos Reis, 2005.

Tudo novo, de novo

Mônica Lima

Conheci Hebe Mattos logo depois que ela defendeu sua linda tese de doutorado, que se transformou no livro Das Cores do Silêncio, leitura necessária pra’ se entender o Brasil do século XIX e de hoje. Para os estudos sobre a escravidão, nem precisa dizer, é um clássico. Desse momento em diante passei a acompanhar sua produção acadêmica, incluindo os lançamentos dos filmes do projeto Passado Presentes e diversas outras atividades. Sempre me encantava e me surpreendia seu entusiasmo em cada novo projeto – e sempre havia novidades! No diálogo com as áfricas das minhas pesquisas, encontrava pontes de contato e referências nos seus trabalhos.

No doutorado na UFF foi minha orientadora e me lembro bem que saía das reuniões com ela levando ideias novas sobre o que estava escrevendo e uma sensação muito boa de que tudo aquilo iria dar certo. Para um pós-graduando há poucas coisas tão fundamentais como a produção dessa autoconfiança. No decorrer da minha vida profissional após o doutorado, tivemos a chance de fazer outras coisas juntas. E todas as vezes essas situações de trabalho vinham trazendo um mundo de possibilidades novas para olhar e pensar o que eu estava fazendo com minhas aulas e minhas pesquisas de História. Fora isso, sua atitude militante como historiadora me enche de coragem pra fazer o mesmo na luta contra o racismo e pelos espaços negros na universidade.

Mas, o assunto aqui não sou eu. É ela.

Hebe Mattos, depois de uma vida – ou várias – na Universidade Federal Fluminense, vai para outra universidade, em outra cidade, outro estado. Tudo novo, de novo. Estou celebrando por ela e por todos os estudantes e colegas que irão tê-la como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. Celebro também por que já imagino que ela vai continuar criando projetos, inventando coisas novas e iluminando vários caminhos a partir desse novo lugar. O que ela está trazendo com o tema passados sensíveis é um novo campo dos estudos sobre a história de africanos e seus descendentes e sobre o Brasil. Que venha, Hebe. Parabéns muitas vezes, e que a ousadia e o brilhantismo de sua trajetória como historiadora sigam nos inspirando.

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Felizardos os alunos da UFJF

Keila Grinberg

Quando defendi minha tese de doutorado, a primeira orientada pela Hebe (há controvérsias, mas desse título não abro mão!), escrevi que era fácil reconhecer seu dedo em várias partes do texto e na própria forma de conceber a questão que o motivou. Hebe me presenteou com a trajetória de Antonio Pereira Rebouças, dividindo comigo um tema de estudo que seria e ainda é seu.

Este não seria o primeiro presente da Hebe para mim. Anos antes, ela havia dividido comigo a pesquisa sobre as ações de liberdade no Arquivo Nacional – que eu só “descobri” porque ela havia me dito onde estavam. E agora, passados tantos anos, ao achar que estava definindo um tema novo, lá estavam as questões sobre as quais ela já me havia chamado a atenção. Seu dedo continua lá.

Ainda hoje não dou um passo acadêmico — dizendo melhor, acho que não dou um passo — sem me consultar com a minha para-sempre-orientadora. Tive a maior sorte de ter a Hebe como professora na graduação e na pós-graduação da UFF. Felizardos os alunos da UFJF!

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Caminhos abertos!

Ana Flavia Magalhães Pinto

Uma historiadora da escravidão no Brasil compromissada em dialogar com as questões e as pessoas do tempo presente. Essa foi a imagem que formulei a respeito de Hebe Mattos desde as primeiras leituras que fiz de seus textos lá pelo ano de 1998. Ainda estudante de jornalismo, minha expectativa era permanecer atenta à produção daquela professora e trabalhar para que um dia ela figurasse no meu caderninho de fontes que me permitiriam falar com propriedade sobre experiências da população negra e o problema do racismo na sociedade brasileira, argumentar sobre a legitimidade das ações afirmativas, etc.

Acontece que a influência do pensamento e da postura de Hebe Mattos acabou sendo decisiva para que a produção historiográfica se tornasse bem mais que um instrumento acessório do meu fazer jornalístico. Virei historiadora porque pessoas como ela despertaram em mim o fascínio pelo ofício! Foi lendo Hebe, aliás, que me dei conta da importância de se investigar os caminhos da liberdade da gente negra antes e depois da abolição. É, portanto, com muita alegria e gratidão que celebro sua vida e sua coragem para alterar rotas, modelos e práticas da pesquisa acadêmica, evidenciando a relevância do nosso trabalho na construção de uma sociedade de fato democrática!

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É o poder!

Giovana Xavier

Para celebra-la em palavras lembrei-me do Programa Mulher e Ciência criado pelo CNPq em 2005. A iniciativa, que conta com uma rica base de dados, comprova que ainda que as desigualdades de gênero definam a distribuição de recursos e conhecimentos no Brasil, numericamente mulheres e homens estão em paridade como pesquisadores. Ao mesmo tempo, esse avanço não apaga o difícil desafio de ser mulher e fazer ciência em um país patriarcal e conservador como o nosso. E toda vez que vejo, leio, ouço Hebe Mattos repasso essa história e ponho-me a pensar: como nos anos 1980 uma mulher jovem, mãe, de baixa estatura ousou se aventurar pelos falocêntricos caminhos da história agrária, constituindo-se como referência com o eternamente bombástico Das cores do silêncio? Com o tempo, primeiro na condição de leitora, depois de aluna, hoje de amiga e parceira de trabalho, fui aprendendo a ver que a coragem é um traço, diga-se de passagem sempre ressignificado por Hebe, que após experiências diversificadas de ensino e pesquisa em diferentes partes do globo terrestre, se joga no desafio de voltar no tempo olhando para frente. Ela, que chegou à UFF como docente aos 25 anos, é a mais nova Professora Titular Livre de História do Brasil na Universidade Federal de Juiz de Fora. Aos 59 anos, conquistou a vaga ao estilo lacre de ser, ou seja, trazendo para o centro da discussão as relações entre história, memória da escravidão e o compromisso que nós historiadoras (es) devemos assumir com as transformações através do conhecimento científico que produzimos. Hebe querida, parabéns! Que você siga olhando o passado e mirando o futuro tal qual o pássaro do Adinkra Sankofa.

Conversa brinda com Ana Maria

 

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Do Congo ao Valongo

Hoje o quilombo vem dizer
A favela vem dizer
A rua vem dizer
Que é nós! Por nós!

 

Com esse estribilho, em alto bom som, Mano Teko celebrou, cantando, o aniversário do Filhos de Gandhi no Rio de Janeiro, na noite de 12 de agosto passado na Praça dos Estivadores, zona portuária da cidade. E estiveram ali Agbara Dudu, Banda Òrúnmilá, As Três Marias, Grupo Dandalua e Maracatu Baque Mulher, entre outros grupos e artistas, marcaram presença na praça – antigo Largo do Depósito – festejando a existência e história deste afoxé, com discursos e canções que exaltavam a importância da consciência e resistência da cultura negra local.  Lá também se apresentou o Afóxé Filhas de Gandhi – cabeças iluminadas e autônomas, como se qualificam – trazendo sua dança, música e uma fala afirmativa e poderosa que entusiasmou a assistência de uma forma única.

 

FilhosdeGandhi

 

Na ocasião festiva, em diversos momentos se destacou o reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio cultural da humanidade. O Cais, como símbolo da chegada de africanos e africanas escravizados nessa cidade, no país e no continente americano, hoje atravessa os discursos e se coloca não apenas como porta de entrada das muitas áfricas que aqui chegaram, mas também como referência de um caminho afirmativo para a nossa história e identidade. Uma vez cientes das dores e injustiças, trazendo-as vivas na memória, se pode celebrar a beleza e força vital de nossos ancestrais, em honra dos quais se dá prosseguimento à luta e se faz a festa.

Com toda a razão, o fato do Cais do Valongo ter sido alçado à patrimônio cultural que os humanos compartilham veio a favorecer um incremento de atividades em que grupos negros da cidade ocupam com diversas expressões de sua arte, as praças e espaços públicos da região portuária. E tem que ser assim, deve ser assim. São essas pessoas que trazem uma história que deve ser especialmente visibilizada, afirmada, e valorizada naquele entorno. As pedras pisadas do local de desembarque que, assim como o Cemitério de Pretos Novos, tanto medo e dor testemunharam, se apresentam dessa maneira dando um sentido ao reconhecimento coerente com as justificativas de sua proposição. Evidentemente isso não é de hoje. Trata-se de um sítio histórico de memória sensível, símbolo material do desembarque de milhões de africanos escravizados nas Américas, mas é também um espaço que relembra o poder de resistência e de criação de nossos antepassados. Foi ao redor do Cais onde se constituíram espaços – como o Quilombo da Pedra do Sal – e se criaram expressões da herança viva dessa ancestralidade, em religiosidades, sonoridades, movimentos. Proteger esse patrimônio significa também resguardar as muitas expressões culturais de matriz africana que ali existem há muito tempo e cujas histórias ultrapassam os limites da região, da cidade e mesmo do nosso país.

 

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Cerimônia da lavagem simbólica do Cais do Valongo (2014). Foto de João Maurício Bragança.

 

Na mesma reunião da UNESCO em que se deu o reconhecimento do Cais do Valongo, se conferiu o mesmo título a Mbanza Congo, cujo centro histórico passou a figurar na lista de patrimônios culturais da humanidade. Esta cidade, capital do antigo reino do Congo, foi denominada pelos portugueses como São Salvador e, sobretudo a partir da conversão da realeza local ao Catolicismo, ainda no século XV, se estabeleceu uma relação estreita entre os seus governantes e o Estado português.  A justificativa da candidatura toma por base os achados arqueológicos que sinalizam a presença de vestígios do antigo palácio do manicongo – título do soberano local – e do primeiro templo católico construído em África ao sul do Saara, em 1491,  conhecido como Kulumbibi. Destaca também a árvore sagrada denominada Yala Nkuwu, o Lumbu (Tribunal Consuetudinário) de MBanza Congo e assinala a importância da influência cultural que a sociedade do Congo exerceu nas Américas por meio da diáspora africana.

 

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Vista da cidade M’banza-Kongo, capital do reino do Congo. Fonte: Description of Africa, de Olfert Dapper (ca 1635-1689), gravura, 1686.

 

Muitos súditos do reino do Congo e habitantes de áreas próximas foram escravizados e transportados pelas rotas atlânticas até as Américas, e em especial para o Brasil, onde, em sua maioria, deram entrada pelo porto do Rio de Janeiro. Alguns ficaram na cidade, outros foram levados para o interior do atual estado do Rio e outros tantos conduzidos para Minas Gerais. As heranças africanas trazidas desta região da África para o Brasil se evidenciam sob muitas formas, e se podem observar especialmente em manifestações culturais como a Congada. Marina de Mello e Souza sinaliza a existência de referências à festa da Congada no Brasil desde o século XVII – como se pode ler em seu livro Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa da Coroação de Rei Congo – e Martha Abreu, em diversos estudos sobre essa e outras festas afro-brasileiras, releva sua importância como espaço criado pela população negra para expressar suas religiosidades, identidades, alegrias e também sua luta e resistência.

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Congada em Piedade do Rio Grande – MG. Foto de Livia Monteiro.

 

De um lado e de outro do oceano, esses dois espaços que se conectavam com as rotas transatlânticas da travessia dos tumbeiros não tiveram tanto contato direto pois, quando o desembarque de cativos foi transferido pelo Marquês de Lavradio para a enseada do Valongo, em fins do século XVIII, Mbanza Congo não era mais a sede de uma região tão importante para o infame comércio. Ainda assim, muitas africanas e africanos que se identificavam como congo foram levados a cruzar o oceano como cativos, embarcados em portos da baía de Cabinda e do Loango, até meados do século dezenove. Na região do Valongo muitos destes chegaram e foram postos a venda em seus armazéns. Alguns circularam pelas ruas, trabalharam, criaram laços, e uns poucos conseguiram a liberdade. Recentemente, já no século vinte e um, migrantes da região que outrora fazia parte do antigo Reino do Congo e arredores, chegaram e povoam a região do Cais do Valongo sob outras formas. Surgem assim na área aqueles que trazem áfricas contemporâneas, que circulam e imprimem com sua presença outras modalidades de expressão da diáspora. E tudo isso acontece trazendo como novas e antigas bases as marcas visuais de identidade, o som dos tambores, a roda, a gira, o batidão e a poesia.

 

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25º Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha

Neste mês, completam-se 25 anos da realização do I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana. Entre os dias 19 e 25 de julho de 1992, mais de trezentas participantes de 32 países compartilharam experiências e formularam direcionamentos para agendas comuns. Os debates foram feitos tanto por quem esteve ali como representante de alguma organização ou coletivo quanto pelas participações independentes, sendo a presença das afro-brasileiras bastante ressaltada.

Como observado por Ochy Curiel − intelectual-ativista do movimento antirracista e lésbico-feminista da América Latina e do Caribe, no artigo “La Red de Mujeres Afrolatinoamericanas y Afrocaribeñas: un intento de acción política transnacional atacado por la institucionalización” −, naquele momento, a experiência nos movimentos sociais era algo bastante recente para muitas, faltando ainda estrutura e maturidade organizativa para que fosse possível, logo de cara, atuar a partir daquela escala ampliada. Mesmo assim, havia um desejo de impulsionar um espaço político transnacional que resultou na criação da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas (REDLAC); e a instituição do 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha.

De lá para cá, esforços têm sido feitos para manter a REDLAC em pé, embora as condições efetivas para a realização dos objetivos estejam bem aquém do necessário. Isso, no entanto, não quer dizer que as questões colocadas a partir dali tenham se perdido. O que temos visto é a construção de caminhos diversos e distintos para mobilizar mulheres negras, fruto da influência das chamadas pioneiras e da apropriação da agenda por outras protagonistas. Além do que possível verificar no atual site da Rede, há um empenho de se aprofundar a perspectiva transnacional que pode ser medida pela crescente popularização do 25 de julho pelo continente.

Para ficarmos no que tem acontecido no Brasil, e sem a pretensão de dar conta de tudo o que está sendo feito, o primeiro exemplo a se destacar é o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, o Latinidades, que chega à sua décima edição com tema “Horizontes de liberdade: afro-futurismo nas asas da Sankofa”. A despeito dos reveses agravados pelo golpe, no sentido de enfraquecer as ações voltadas ao combate do racismo e do sexismo num país de maioria negra, as organizadoras desta edição convidam a uma reflexão coletiva da máxima relevância, sobretudo neste momento de aguda crise democrática: “como a arte e os saberes de mulheres negras, assim como nossas lutas históricas e contemporâneas por direitos e por liberdade, incidem no presente? Como podem nos orientar a pensar e a criar o futuro? O conceito de Sankofa, dos povos Akan, nos ensina que tudo aquilo que foi perdido, esquecido, renunciado ou roubado no passado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou recuperado no presente”. O Festival acontecerá novamente em Brasília, no Museu da República, na Semana da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, entre os dias 27 de 30 de julho. Confira a programação completa no site e também pela página do Latinidades no Facebook.

Latinidades

Na cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, acontecerá, pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo. Iniciada no contexto de preparação para a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, de 2015, esta manifestação também marcará a celebração dos dez anos da incorporação do nosso 25 de julho no calendário oficial do estado do Rio de Janeiro, por meio da Lei n. 5.071/07 – algo que em nível federal só foi conquistado em 2014, via Lei n. 12.987. Ação convocada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras – RJ, a marcha está marcada para o domingo 30 de julho, com concentração no Posto 4 da Praia de Copacabana, às 9h.

Marcha RJ

Em Salvador, num esforço de ampliação do alcance do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e de construção de uma agenda comum de intervenção, o Odara − Instituto da Mulher Negra deu início, em 2013, ao Julho das Pretas. A quinta edição traz o tema Pela Vida das Mulheres Negras, “destacando a necessidade de mais ações coletivas e políticas públicas que visem ao enfrentamento da violência recorrente e sistemática contra mulheres e meninas negras”. Neste ano, além de promover uma feira para empreendedoras negras, está garantida a realização de uma conferência com a intelectual-ativista afro-estadunidense Angela Davis no auditório da Reitoria da UFBA, que veio ao Brasil para dar um curso sobre Feminismo Negro Decolonial, em Cachoeira-BA.

Julho das Pretas BA

Também em São Paulo, por força do grupo da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em articulação com a Aparelha Luzia, teve início neste último sábado o Julho das Pretas, um “ciclo de eventos para a construção da Marcha do #25deJulho”. A noite contou com a intervenção de mais vinte mulheres, que agitaram o espaço que já se tornou conhecido como um território de afirmação negra na cidade de São Paulo. No ano passado, a Marcha reuniu de duas mil mulheres negras no centro da cidade de São Paulo. E a agitação vista no primeiro dia do mês diz que este ano também será marcante.

Julho das Pretas SP

Esses e outros eventos têm apontado para uma dinâmica bastante interessante que articula ativismo, produção de pensamento de e sobre mulheres negras e formulação de políticas públicas. Longe de se tornar possível graças a uma relação bem resolvida com a academia e os organismos de Estado, as ações iniciadas a partir do movimento social de mulheres negras, interessadas num diálogo transnacional, têm criado possibilidades de ampliar e fortalecer o entendimento das mulheres negras a respeito dos significados de suas trajetórias e experiências, algo que certamente cria outras possibilidade de se fazer e contar histórias.

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“Não vamos mais caber!”

Com essa frase, David Alfredo e Luis Araújo, dois jovens negros, marcaram o estribilho do texto que leram na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, no Museu do Amanhã, situado na zona portuária do Rio de Janeiro. O documento, escrito por eles, foi nomeado como Manifesto Baobá e apresentado no dia 24 de junho de 2017, antecedido pelas danças e cantos do Jongo da Serrinha, no espaço de entrada do museu. Esse foi um dia de festa na Praça Mauá, em frente da qual fica o museu, que foi ocupada antes, nesse mesmo dia, pelo Afoxé Filhos de Gandhi homenageando Mãe Beata e o Jongo da Serrinha lembrando nossas raízes africanas e saudando São João, entre outras presenças e lembranças.

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Jongo da Serrinha em frente ao Museu do Amanhã, na abertura do evento Vivências do Tempo: Matriz Africana, em 24 de junho de 2017

O Manifesto reivindica territórios a serem conquistados e ocupados pela juventude negra, e lembra o reduzido espaço que lhe foi destinado, o não-lugar que lhe coube historicamente. Declara: “Estamos transbordando os limites, rompendo as barreiras, fissurando os muros…” Traz a memória da dor “em cada gota de suor que cai da pele negra cansada de esforço de pesar uma tonelada e valer muito menos no mercado. ” E afirma que “No pranto de cada mãe, que enterra um filho, no som de cada tiro que leva a vida, no afiar de cada faca que desce o morro, no choro de cada criança que nasce, é possível escutar: Não vamos mais caber!

Não mesmo.

Em recente visita de trabalho realizada à Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, no Campus dos Malês, em São Francisco do Conde – Bahia, meus olhos se encantaram com a vida pulsante nas salas de aula, corredores e espaços comuns daquela instituição acadêmica. Criada no primeiro governo Lula, assinalando desde seu início uma identidade singular e marcadamente plural, tendo como política universitária o estímulo e apoio à presença de estudantes africanos dos países de língua oficial portuguesa. Uma experiência única e fundamental para o Brasil, que deveria ser cada vez melhor compreendida e estudada – e certamente apoiada, garantida em sua continuidade e expansão. Em que outro lugar do país se pode encontrar uma maioria absoluta de estudantes negras e negros e escutar os muitos sotaques do Português falado em África e línguas crioulas do continente, somadas aos falares brasileiros com diversos acentos, sobretudo, do Nordeste? E no dia da África, em 25 de maio, realizarem uma festa trazendo a junção de muitas sonoridades e movimentos, dos diferentes instrumentos, das cores de roupas e adornos, e os músicos de RAP das áfricas e brasis que, nas suas idas e vindas, (re)encontraram seus ritmos e poesias?

 

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Festa do dia da África, celebrada por estudantes africanos e brasileiros com muita música e dança, na UNILAB – Campus dos Malês, São Francisco do Conde – BA, em 25 de maio de 2017

Novas realidades vem surgindo. Atravessam os muros, enriquecem e iluminam o cenário enrijecido e obscuro de espaços tradicionalmente brancos e elitistas. Surpreendem às vezes, jovens negras e negros, por sua força, altivez e autonomia. Há quem os esperasse agradecidos – como, e por quê? Certamente sabem que aquilo e quem lhes sustenta não está lhes esperando do lado de dentro. Mas, muitos reconhecem que há aliados, e que houve desbravadores, pioneiros. Nada disso se fez e se faz sem histórias que vêm de longe. Mas, o que de novo há é que nos últimos anos a onda negra cresceu e vem vindo, lavando com sua força, como uma bênção, as praias antes restritas do saber e do (re)conhecimento. Como disse o Manifesto: vem ocupando os espaços, desconhecendo os limites que lhe foram impostos. Ainda bem.

Assenhorear-se de novos territórios pode significar também estabelecer regras e cuidados com nossa história e memória, pressionando e dialogando no sentido de fazer respeitar o que nossos ancestrais viveram e a forma como queremos que tudo isso seja lembrado. Nesse sentido, um dos resultados é o evento que se realizará no próximo dia 1º de julho e faz parte do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da  Fazenda Santa Eufrásia, inaugurando novas conversas sobre o turismo de memória no Vale do Café, no estado do Rio de Janeiro.

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Tudo indica que essas conquistas podem fazer dos brasileiros cidadãos melhores, e assim nos fortalecermos em tempos tão difíceis e desesperançados, para lutarmos por nossos direitos: os que conquistamos e os que ainda queremos obter.

Que não caibamos nesse restrito espaço de vergonha pública que querem nos confinar.

Obrigada, David Alfredo e Luis Araújo. Viva o Manifesto Baobá!

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