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Conversa de Historiadoras, Diversidade e o 13 de Maio de 2020

Neste 13 de maio de 2020, a conversa das historiadoras do Blog foi muito além do nosso público habitual. A plataforma Celina, de O Globo, sobre Mulheres e Diversidade, nos convidou, através de Giovana Xavier, para publicar nossos textos.  No próprio dia 13 de maio saiu o de Giovana, Carolina Maria de Jesus intérprete do Brasil. 

Na sexta feira, dia 15 de maio, o de Hebe Mattos, O 13 de maio é um dia de luta! e O 13 de maio de 2020: a tal da felicidade guerreira em meio ao caos de Ana Flávia Magalhães Pinto com Mariléa Almeida.

No sábado, dia 16 de maio, Afinal, o que de fato fez a Princesa Isabel no 13 de maio? ,de Keila Grinberg.

No domingo, 17 de maio, A História viva de nossos mortos no 13 de maio, de Mônica Lima.

E nesta segunda, O Protagonismo negro nos 13 de maio, de Martha Abreu com Carolina Dantas.

São nossas conversas atingindo públicos maiores. Registramos aqui o papo completo, em mais um dossiê 13 de maio.

Vida longa às conversas do Blog!

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Protagonismo negro nos 13 de maio!

Martha Abreu e Carolina  Dantas

Os historiadores têm mostrado, já há algum tempo, o quanto o 13 de maio de 1888 dependeu principalmente das lutas dos movimentos abolicionistas, das ações da população negra e das fugas em massa dos últimos escravizados. A abolição foi fruto de um movimento social vitorioso que celebrava a igualdade de todos perante a lei. Sem dúvida, a conquista ficou incompleta e a igualdade é até hoje uma bandeira de luta de todos os brasileiros que percebem o racismo como uma das maiores tragédias de nosso país.

Mas os movimentos sociais negros nunca abriram mão das expectativas geradas em maio de 1888 e fizeram do dia 13, a longo dos séculos XX e XXI, uma oportunidade para rememorar as conquistas, denunciar a liberdade incompleta, criar novas pautas de luta e fortalecer a autoestima da população negra com encontros políticos festivos. Professores, escritores, músicos e festeiros negros continuaram protagonizando a luta pela igualdade nas comemorações de maio em vários lugares do Brasil, como têm deixado evidente a produção recente de historiadores sobre o pós-abolição.

Em 1909, por exemplo, vinte e um anos depois da data da abolição, foram intensas as comemorações no Rio de Janeiro, pois também se festejava a entrada na Câmara dos Deputados do primeiro político que assumia, em público e com orgulho, ser negro: Manoel da Motta Monteiro Lopes.  Nas festividades programadas, ficaria evidente que o passado em comum, marcado por memórias do cativeiro e pela campanha abolicionista na década de 1880, era sistematicamente acionado nas ações políticas do presente pela igualdade e cidadania plena.

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Manoel da Motta Monteiro Lopes

Entre as inúmeras atividades, destacou-se a romaria ao túmulo de José do Patrocínio no Cemitério do Caju.  Diante de um dos maiores heróis negros da abolição, o deputado eleito Monteiro Lopes jurou defender sua “[…] raça fraca e oprimida diante dos insubmissos que ainda não compreenderam que a lei do 13 de maio de 1888 firmou a igualdade dos brasileiros”.

Bem próximo, o músico negro Eduardo das Neves apresentava-se, no bairro do Méier, no subúrbio, onde executou suas modinhas ao violão.  O irreverente crioulo Dudu, como gostava de ser chamado, declamou a poesia “Lucia, a escrava”, de Castro Alves, poeta que combateu a escravidão.   Com tintas muito fortes, a poesia mostrava um dos aspectos mais dramáticos da escravidão, a venda de uma mulher escravizada.  Ao mesmo tempo, tudo indica que também para as comemorações de maio de 1909, Eduardo das Neves teria gravado, pela internacional Odeon, o que considero ter sido o hino popular da abolição da escravidão, “A Canoa Virada”.

A canção registrava musicalmente as conquistas e as alegrias de 1888, lembradas ao menos vinte anos depois! As palavras e expressões utilizadas eram fortes e desconcertantes: havia chegado “a ocasião da negrada bumbar”; “o preto já é livre, já que não tem senhor”.  A canção refere-se ao 13 de maio, “o dia da liberdade”, como um grande momento, de reais mudanças e de sonhos pela igualdade. A escravidão parece estar representada por uma frágil embarcação, uma canoa, que, literalmente, havia virado.

“A Canoa Virada” circulou pelo Brasil todo, como tenho encontrado notícias em diversos registros de folcloristas e cantadores, ao longo do século XX!!

IMG_7272Eduardo das Neves.

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Carolina Maria de Jesus: intérprete do Brasil

 

Começou ontem o ciclo de debates da FLUP, Festa Literária das Periferias Urbanas, que, sob a impecável curadoria de Julio Ludenir, este ano homenageia Carolina Maria de Jesus e o aniversário de sessenta anos de seu brilhante livro Quarto de despejo: diário de uma favelada. Com uma programação virtual inovadora, além das discussões abertas ao público, o evento conta com o curso de formação “Uma revolução chamada Carolina”, ministrado por quarenta ilustres professoras. Entre elas: Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Lisboa, Eliana Alves Cruz, Mirian Santos, que compartilharão seus conhecimentos com 210 jovens escritoras, selecionadas através de cartas de próprio punho remetidas a Carolina. Tal ideia, por sinal belíssima, foi eternizada pela mestra em Educação  Hildália Fernandes em 2014, quando na obra Onde estaes felicidade? , lançando mão da escrita criativa, enviou sua missiva à autora.  

Sobre ontem, que momento! Na atual vibe a vida é uma live, durante duas horas milhares de pessoas acompanharam animadas o painel digital “Uma revolução em instantes”, onde se deu o diálogo entre a escritora Conceição Evaristo e a professora Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina. A “noite de gala”, expressão escolhida pela jornalista e mediadora Flavia Oliveira para definir o acontecimento, foi marcada por antídotos aos “perigos da história única”. Aplicados através das narrativas das duas educadoras que, emocionadas, conversaram com o público sobre as muitas versões de Carolina. Mulher. Mãe. Escritora. Migrante. Favelada.

Mantendo a tradição, as mineiras refletiram sobre temas centrais no pensamento feminista negro – cuidado, educação, maternagem, sororidade – sob seus pontos de vista específicos. Oportunidade ainda raríssima, se lembrarmos que apesar de muitos avanços, o pensamento de Carolina Maria de Jesus e da maioria das intelectuais negras brasileiras permanece desconhecido para a maioria do público. Hoje, 13 de maio, quando completam-se 132 anos da assinatura da Lei Áurea, em uma pandemia global que afeta drasticamente a população negra mundial, é oportuno perguntar: por que a história e a obra de Carolina Maria de Jesus permanecem desconhecidas fora dos circuitos acadêmicos e ativistas? O que nos ensina o fato de que um dos últimos registros fotográficos da escritora é como catadora de papel na rodoviária de São Paulo nos anos 1970?

Há muitos anos dedicando-me às dores e delícias da escrita acadêmica da história de intelectuais negras, para responder  essas questões, em vez de silêncio ou apagamento, penso em desvalorização. Palavra chave que nos instrumentaliza para analisar a inadequação e falta de tato das elites e ciências hegemônicas para lidar com a autenticidade, o talento e a criatividade das classes trabalhadoras. Ou, na expressão de Conceição Evaristo, para compreender a “linguagem culta-oculta” de Carolina. A mesma gramática reinventada por milhões de mulheres que nutrem a tradição intelectual negra chefiando sozinhas lares. Educando crianças, cultuando diários, preenchendo cadernos de receitas e, claro, pagando boletos. Quando a fome de comida é saciada no papel de pão recheado com palavras, uma tarefa se coloca para as novas gerações: aprender a diferenciar – cientificamente – jeitinho de inventividade:

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade”.

Carolina Maria de Jesus – Intérprete do Brasil.

Por que não?

Carolina Maria de Jesus - 13 maio 2020 escritora

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13 de Maio 2020

Mais um 13 de maio. O Conversa de Historiadoras vai registrar as celebrações do dia para não quebrar a tradição. Começamos indicando a Jornada em Defesa do Direito à História da Gente Negra, a partir das 9 horas, no instagram @historiadorxsNegrxs. Acompanhem!!!!

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UMA DUPLA DE HISTORIADORAS EM GEORGETOWN UNIVERSITY

Chegamos domingo de uma viagem aos EUA que para Hebe deveria se concluir apenas no dia 28 de março e para Martha no dia 11 de abril.  Foi interrompida em função da expansão da pandemia do COVID-19. Fazemos aqui um relato dessa experiência.

Viajamos como convidadas do Departamento de História da Georgetown University, uma universidade católica em Washington DC, para uma série de atividades como Distingished Visiting Scholars, um novo programa da reitoria da instituição para trazer até 4 visitantes de várias áreas por ano, no primeiro semestre de implementação.

Hebe chegou primeiro, em 15 de fevereiro, em Nova York, para realizar pesquisas nos arquivos da Columbia University e uma palestra no Brazil Program da Universidade de Harvard, em Cambridge, para onde se deslocou de NY de avião até o aeroporto de Boston.  Para ela, foi uma experiência fascinante consultar as anotações de Frank Tannembaum para a redação de Slave and Citizen (1947) para o paper que espera apresentar em setembro no colóquio da AHILA em Paris. Em Cambridge, além da estimulante discussão no Brazil Seminar com Sidney Chalhoub, foi carinhosamente recebida em um jantar na casa de Henry Louis Gates e Marial Iglesias, onde assistiu depois o debate que marcaria a virada das primárias do Partido Democrata americano. Outra experiência memorável. Após uma semana em NY, foi de trem para Washington, onde a esperava o nosso anfitrião na Georgetown University, Bryan McCann, e instalou-se na simpática townhouse onde ficaríamos hospedadas.

3600 P St NW, Townhouse em Georgetown.

Os primeiros 15 dias da viagem correram na maior tranquilidade: metro, trem, aviões dentro do país, eventos em auditórios cheios, etc.  O maior assunto em todas as rodas que frequentou foram justamente as primárias do Partido Democrata. Ninguém falava muito do Corona Virus, apesar das notícias internacionais assustadoras e do ainda mais assustador descompasso de informações em relação ao número de casos nos EUA, fruto da atitude negacionista da atual administração do governo federal americano. A partir de final de fevereiro, porém, quando Martha chegou logo depois do Carnaval, instituições e empresas começaram elas próprias a tomar a iniciativa para prevenção da pandemia.

Apesar dos sustos, apreensões e cuidados, os poucos dias que passamos em Georgetown foram de muito aprendizado. Logo de início, tivemos uma reunião com Paul Gardullo do National Museum of African American History and Culture (NMAAHC), reforçando nossos propósitos comuns de organização de uma exposição transnacional sobre a escravidão atlântica no Brasil e de retomada do projeto de arqueologia aquática do Brig americano Camargo, no Bracuí.  Projeto antigo, a recuperação do Camargo poderá dar continuidade à pesquisa da história do tráfico africano e da memória da escravidão no Quilombo do Bracuí, fortalecendo a comunidade e sua luta pela terra.

Como já estamos há um tempo envolvidas  em projetos expositivos de museus e locais de memória, aproveitamos para rever a impactante narrativa  histórica do museu, do passado para o presente, do andar de baixo para o nível superior, que destaca sempre o protagonismo da população negra a despeito das cenas de dor (mais dor e violência que submissão e inferiorização).

No domingo, visitamos outro impactante museu que fazia parte de nossos planos para ampliar os horizontes expositivos sobre histórias de dor: o Museu do Holocausto.

A visita, logo de início, nos fez experimentar a sensação do desconhecido e do perigo, ao entrarmos num elevador grande, cinza e assustador, já acompanhadas de um cartão identificado com algum personagem que viveu o holocausto. A sensação é de empatia e conexão com os que sofreram tanta violência. Judeus, ciganos, socialistas, comunistas, gays, deficientes físicos nos acompanham no circuito estreito e escuro, repleto de fotos, jornais, objetos e muitas histórias de vida – a grande alma do museu. Os sujeitos sociais, suas famílias, namorados, filhos e amigos emergem o tempo todo, em meio à opressão. Uma das salas que nos chamou mais atenção foi exatamente a que trazia fotos de pessoas comuns, vivendo suas vidas em encontros, festas, restaurantes, antes dos imprevistos anos de 1930 (vide foto).

Já muito tínhamos ouvido sobre o Museu do Holocausto em Washington.  Talvez por isso, as salas que mais nos surpreenderam eram parte de uma exposição temporária sobre como os americanos lidaram com o nazismo e com os perseguidos pelo regime.  Sentiram empatia? Preocuparam-se? Entrariam na guerra por eles? Receberiam os refugiados? Baseadas em pesquisas de opinião da época, as respostas a essas perguntas nos desconcertaram muito, mostrando o quanto a maioria dos americanos estava mais preocupada em se manter fora da guerra. Os simpatizantes do nazismo nos EUA também não eram tão tímidos como imaginávamos e a exposição torna evidentes seus contatos com grupos de direita, como a Ku Klux Klan, que então perseguiam implacavelmente os negros. Em 1933, não foram poucos os linchamentos de homens negros nos EUA, ainda tolerados por grande parte da opinião pública apesar da intensa campanha de denúncias na imprensa negra. A narrativa da exposição sugere que, se não fosse o ataque japonês a Pearl Harbor, os EUA dificilmente teriam entrado na 2ª. Grande Guerra. No final, a ambiguidade e o imprevisível na história, bem como a força da solidariedade humana apesar da intolerância, são reintroduzidos na narrativa em apenas uma imagem: um dos fotógrafos do exército americano que primeiro chegou nos campos de concentração e documentou seus horrores em imagens históricas foi um afro-americano que servia em unidades segregadas. A segregação nas forças armadas dos Estados Unidos só seria abolida depois da guerra. O que ele teria pensado?  O quanto sua luta tomou outros rumos quando voltou aos EUA?

No final da primeira semana como afiliadas à Georgetown, os protocolos começaram a mudar rapidamente. Como primeiro sinal, os vidrinhos de álcool gel sumiram das farmácias, para um pouco depois passarem a habitar todos os espaços do campus em recipientes de uso coletivo.

Ainda assim, com muito álcool gel e cuidados, a vida seguia normalmente. A pesquisa que realizaríamos ficaria concentrada na Library of Congress, o imponente prédio bem atrás do Capitólio. E lá fomos nós, na terça feira, 10 de março, ajudadas por Victoria Broadus, que pesquisa os Vissungos coletados pelo folclorista Luiz Heitor (1905-1992) para sua tese de doutorado desenvolvida sob a orientação de Bryan McCann na Georgetown University.  O músico e pesquisador Luiz Heitor é pouco conhecido pelos historiadores não ligados à música, mas  (como Hebe aprendeu com Martha Abreu e Victoria Broadus) sua carreira de professor de folclore do Instituto Nacional de Música, de diretor da Revista Brasileira de Música, da programação erudita da Hora do Brasil, do DIP,  de responsável pele seção de música da Revista Cultura Política e representante do Brasil na Divisão de Música da União Pan Americana em Washington lhe dá muitas credenciais.

Além do mais, Luiz Heitor trabalhou articulado a Alan Lomax, o grande pesquisador e arquivista da Library of Congress sobre música folclórica americana. Foi Lomax quem primeiro gravou os chamados “pais do blues”, como Leadbelly, Jelly Roll Morton e Muddy Waters. Em síntese, no arquivo de Luiz Heitor no Congresso estão arquivados seus documentos e gravações de pesquisas no Ceará, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, além do material sobre a Divisão de Música da União Pan Americana, principalmente sobre o Brasil e Argentina. Claro que não conseguimos ver tudo, mas o pouco que conseguimos deu um gostinho de queremos voltar. Só para se ter uma ideia, Luiz Heitor fez uma entrevista em 1944 com Antônio Félix Veloso, conhecido como Aprígio do cemitério por conta do ofício de coveiro, um ex-escravizado de Minas Gerais. Conseguimos ouvi-la.  Várias vezes.  Para nossa emoção, ouvimos registros de uma experiência pessoal com os pais em um navio que traficava cativos (provavelmente no tráfico interno) e trechos de canções que Eduardo das Neves gravou na primeira década do século XX, como a que canta a Mãe Caterina de Pai João e a Canoa Virada, o hino do 13 de maio que ainda circulava em Minas em 1944!!!!

Logo em seguida a esta visita, várias universidades começaram a suspender as aulas presenciais. Georgetown esperou o “spring break” (recesso de aulas por uma semana), mas tomou a decisão de fazer todas as aulas do semestre por meio virtual antes do fim do recesso, na quarta feira, 11 de março. Na quinta, 12, o chefe do departamento de história  Bryan McCann (que nos havia convidado) informou que nossa palestra principal (que aconteceria em um auditório maior no final de março) seria antecipada e filmada em studio na terça 17, para ser colocada no site da Universidade  – e sugeriu antecipar nossas passagens de volta para o dia 18, quarta feira, com o que concordamos. Sugeriu ainda que visitássemos o National Museum of Native American naquele dia, pois a tendência era que todos fechassem a partir da semana seguinte.

Um dia antes de fecharem todos os museus da cidade, a visita ao Museu sobre os índios americanos talvez tenha sido a melhor surpresa entre os museus que tínhamos planejado visitar. Além do belíssimo e imponente prédio, por dentro e por fora, descobrimos com satisfação que se tratava de um museu de história.  Começando pelo alto do 4º. Andar, fomos apresentadas aos índios americanos hoje (Who we are?). A narrativa começa do presente. Os índios existem, são muito diversos e nunca desistiram (“we never gave up’), como está escrito em um dos grandes posters. Com muitas fotos, filmes e músicas, o museu nos faz acompanhar a longa luta dos índios americanos – e não só do atual Estados Unidos. Ainda assim, é a luta dos índios daquele país para legitimar suas identidades e territórios hoje, depois de muitas traições e tratados, o eixo histórico da narrativa. No final do trajeto, saímos convencidas que precisamos mais do que nunca de um museu da história do índio no Brasil.  Como insiste tanto Hebe hoje, por que não aproximar a história indígena da afro-brasileira? Eles compartilharam, desde o início, a história da expansão da instituição da escravidão e dos processos de racialização no mundo atlântico.  Para nossa alegria, na lojinha do museu, localizamos dois livros sobre essa história partilhada de afroamericanos e seus descendentes com comunidades indígenas. Em um deles ficamos sabendo que o astro da música negra americana, Jimi Hendrix, se orgulhava de ser neto de uma índia.

Na sexta, acordamos decididas a preparar nossa palestra que seria gravada na terça seguinte. Logo depois do almoço, porém, a direção da universidade suspendeu todas as atividades presenciais, mesmo dos funcionários administrativos, e a gravação foi cancelada.  Library of Congress, Smithsonian, CEPAL, FMI, Banco Mundial suspenderam qualquer atividade presencial por tempo indeterminado neste mesmo dia.  A empresa de publicidade onde trabalha o filho de Hebe em NY colocou todos os funcionários, não apenas nos EUA, para trabalhar remotamente nesta mesma data.  Pedimos para mudar novamente nossas passagens, antecipando para sábado 14, e chegamos no domingo, dia 15, ao Rio. Martha voou o último voo da American Airlines para o Brasil. No dia seguinte, a companhia aérea suspendeu quase todos os seus voos internacionais. Nada disso foi iniciativa do atual governo dos EUA, mas de instituições e empresas. Segundo a OMS, é o protocolo correto para evitar o colapso dos sistemas de saúde e tem que ser feito rápido. Estamos fazendo nossos 7 dias de quarentena em casa com trabalho remoto, torcendo para não termos tido contato com o vírus.  E, sem dúvida, foi um alívio estar de volta, em casa, mesmo que com o risco de enfrentarmos um problema maior no Brasil.

Não poderíamos encerrar nosso relato, sem descrevermos algumas situações engraçadas, ou melhor, de risos nervosos.  Em pleno avanço dos cuidados com a expansão do Corona Virus, álcool gel para todo lado, nos movimentamos na universidade entre os prédios da biblioteca, do departamento, do suporte técnico (o laptop da Hebe foi invadido…) e do refeitório, o que fazer quando surgiam na nossa frente aquelas portas duplas pesadas americanas, quem abriria? Tenta com o pé? Empurra com o corpo e com o bumbum (pull ou push?) Usa a luva?  Cada hora uma abre? Os risos eram inevitáveis. Depois descobrimos que havia um botão para cadeirantes que podiam acionar a abertura automática das portas. Bem, aí era possível usar o cotovelo.  Mas nem sempre funcionava…

E depois de lavarmos as mãos super bem lavadas nos banheiros, seguindo os protocolos da OMS, como sair deles sem infectar de novo as mãos em outras portas duplas e pesadas…. tudo de novo (maldito frio que exige tantas portas!!).  Única solução: dividir o pouco de álcool gel que tínhamos (doação da irmã de Hebe que mora em Washington e tinha bom estoque em casa) e seguir torcendo para nada acontecer.

As situações mais difíceis mesmo eram as surpreendentes escadas. E como há escadas nas colinas de Georgetown.  Não podíamos colocar as mãos nos corrimões!!!! E já não temos tanta agilidade.  Medo de cair ou infectar as mãos? Muitas dúvidas e desafios. A foto de Martha no inicio de uma escada tirada por Hebe já lá em cima, é uma boa mostra do dilema de duas historiadoras em Georgetown. Mais uma vez agradecemos Bryan McCann e o Departamento de História de Georgetown pelo convite e pela hospitalidade. Outras oportunidades virão, temos certeza!

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Porque hoje é 13 de Maio … por Hebe Mattos, Ana Flavia Magalhães Pinto, Keila Grinberg, Martha Abreu, Giovana Xavier e Mônica Lima.

Hebe Mattos

Em tempos de vitória eleitoral da extrema direita, celebramos mais um treze de maio no Conversa de Historiadoras. 131 anos daquele 13 de maio de 1888, a tardia data em que o Brasil, ultimo nas Américas, aboliu legalmente a escravidão e reconheceu formalmente plenos direitos civis a todos os brasileiros.

Desde muito jovem pesquisadora do período, sempre formei entre aqueles que destacam o caráter radical da transformação então realizada. O abolicionismo foi o primeiro movimento social de massas da história do país e, como reconheceu no calor da hora o historiador Capistrano de Abreu, os últimos escravizados foram os protagonistas do “timing” final do processo – ao abandonaram em massas as fazendas mais rentáveis da economia escravista.

Nos últimos anos, entretanto, a pesquisa em história social da escravidão – esforço no qual me incluo – começou a levantar o véu não apenas do volume estonteante do contrabando de cativos africanos ao arrepio da lei brasileira desde 1831, mas também da prática da escravização ilegal de livres “de cor” e indígenas em situação de fragilidade social e sem proteção de um poderoso de plantão, com a cumplicidade de praticamente toda a “boa” sociedade da época. Tema, aliás, central para os abolicionistas radicais do período, sobretudo negros, até muito recentemente considerado como exagero retórico por grande parte dos pesquisadores. As novas abordagens colocam em relevo, do ponto de vista daqueles que o sofreram, como o racismo e o desrespeito cotidiano com os mais elementares direitos civis têm raízes profundas na história do país como estado constitucional e nunca estiveram restritos à existência legal da instituição da escravidão. Violência cotidiana que sempre foi a outra face da moeda da invisibilização social da grande maioria de afrodescendentes livres em situação de respeitabilidade social.

Neste sentido, ainda que a abolição da escravidão como instituição legal e considerada legítima mantenha-se, sem dúvida, como a mais profunda transformação da história brasileira, o racismo estrutural e as cumplicidades que engendra, bem como a irrelevância prática dos direitos civis para enormes parcelas da população, são uma linha de continuidade que se manteve praticamente inalterada – e quase naturalizada – até, pelo menos, a constituição de 1988.

Os números e as práticas que as pesquisas revelam são perturbadores. O silêncio sobre elas, ou a quase naturalização delas – sem identificação de fato com aquele que sofre a violência – na maior parte das artes, literatura e historiografia brasileiras, mais ainda.

É desalentador constatar que todo o esforço da luta antirracista dos últimos 30 anos, de denúncia, produção de estatísticas e formulação de medidas de ação afirmativa, tenham desembocado na emergência de uma extrema direita capaz de fazer a defesa pública do genocídio negro como política de segurança – e com ela se eleger em diversos níveis do sistema representativo brasileiro.

Por outro lado, tornar visível o horror que sempre nos constituiu talvez seja uma consequência inevitável da radicalização da democracia brasileira. Nas democracias, vence quem tem mais votos, mas são preservados os direitos constitucionais das minorias eventuais. É este princípio que disputamos a cada dia que acordamos no Brasil de hoje. Se conseguirmos preservá-lo, a encarnação do horror como discurso público talvez seja um pré-requisito inevitável para que a tão esperada segunda abolição possa um dia se produzir.

Ana Flávia Magalhães Pinto

“Como se os ancestrais fossem filhos dos meus sinais / Sigo o chamado altivo / Sobrevivo aos temporais”. Inseridos numa melodia que produz a sensação de movimentos contínuos de idas e vindas, esses versos são parte da trilha sonora do filme A Última Abolição, composta por Tiganá Santana, musicista e recém-doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. O documentário, dirigido por Alice Gomes, com entrevistas de Luciana Barreto e supervisão artística de Jeferson De, reúne intelectuais atuantes na academia e em outros espaços sociais, apresentando uma leitura densa e acessível sobre as lutas contra a escravidão e em defesa da liberdade e da cidadania. Em conjunto, a narrativa também problematiza, de diferentes perspectivas, os desdobramentos dessas disputas no pós-abolição.

Trata-se do produto de uma coletividade ainda mais ampla que compartilha na atualidade o entendimento de que a História é feita da ação de múltiplos sujeitos e que, portanto, não faz o menor sentido reduzir todo o processo que levou à assinatura da Lei Áurea, em 13 de Maio de 1888, a uma pessoa. Até porque a Abolição não inaugurou a experiência da liberdade negra no Brasil. Sendo assim, a princesa Isabel não poderia ser apresentada como aquela que “garantiu a liberdade aos negros”.

Num esforço de diálogo, com foco na institucionalidade, uma possibilidade talvez fosse o reconhecimento de que os três séculos de uma escravidão que absorveu o maior quantitativo de africanos escravizados nas Américas produziram uma sociedade que, de tão racializada e racista, naturalizou o costume de violentar também a vida de homens e mulheres negras que, por caminhos diversos, viviam como livres ou libertos. O fim legal do escravismo, portanto, iluminaria a centralidade do “preconceito de cor” ou do “ódio de raça” na organização da sociabilidade brasileira.

Mas isso parece estar, definitivamente, longe das preocupações que explicam o fato de, passados 131 anos da abolição no Brasil e a despeito de toda a produção historiográfica desenvolvida ao longo de décadas, o trio formado pelo deputado príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, o deputado (filho de presidente) Eduardo Bolsonaro e o deputado delegado Waldir terem requerido a realização de sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem à Princesa Isabel, no próximo 14 de maio.

Se esses compõem tão somente uma parcela ensimesmada a querer se afirmar como ocupantes exclusivos do centro da vida pública do tempo presente, o futuro está aí para podermos dimensionar melhor. Por ora, tal como aconteceu em 1888, é fácil perceber que esses indivíduos não são os únicos a ter o que dizer e defender. Sob o mote “Não veio das mãos de Isabel! Nossa liberdade é conquistada todos os dias!”, outros parlamentares, intelectuais ativistas e acadêmicos negros e brancos também agendaram para a manhã de terça-feira, às 10h30 o Ato em Memória da Luta do Povo Negro pela sua Liberdade, no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

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Como vemos, este não é o primeiro mês de maio em que, desde 1888, as diferenças, as desigualdades e as expectativas sobre os sentidos da liberdade negra poderão ser vistas e analisadas pela sociedade brasileira. O pós-abolição, aliás, tem sido um tempo de enfrentar demandas. E por falar em demandas, já que comecei este texto com os versos que encerram o filme que tem nos ajudado a ampliar os debates sobre as idas e vindas dos caminhos da liberdade no Brasil, termino com um convite para seguirmos a reflexão a partir da música com a qual o mesmo documentário se inicia e que fala de também de continuidades e enfrentamentos de dores, violências e tentativas de apagamento:

És Maçalê…

com a bravura que há de ter um Maçalê…

quando firmas, no chão, mais que pés de negro.

Segues na quilha da dor,

mas não hás de fenecer…

nem um sonho a menos;

velarás por um canto que hás de ser…

Maçalê… és Maçalê…

porque fazes do olhar um olhar por merecer;

uma guerra de flor… uma flor de guerreiro…

Serás mão do teu senhor,

és teu próprio massapê…

Vês?! És Maçalê,

e não farás envelhecer, Maçalê,

o que o teu nome diz:

Ogunhê!

#paremdenosmatar #vidasnegrasimportam

Keila Grinberg

80 tiros.

Segundo o presidente, o Exército não matou ninguém.

80 tiros.

“O racismo é uma coisa rara no Brasil”, declarou o presidente.

Na verdade foram mais de 200 tiros.

Não tem 13 de maio nenhum

Não tem 13 de maio nenhum que dê conta de tamanha tragédia.

Acontece que acabar com o sentido do 13 de maio é justamente o que querem os que dizem que não há racismo no país, que massacre é fatalidade e que o problema das universidades é ter crescido demais.

Ninguém mais tem tempo a perder com eufemismos neste país. O mínimo a fazer é chamar as coisas pelo nome que têm: os bons tempos do Império não tinham nada de bons, ninguém conseguiu a liberdade de graça e os antigos senhores só não receberam indenização graças à mobilização do abolicionismo negro e popular. E o Exército matou alguém, sim. Matou um homem negro, um cidadão brasileiro que cometeu o crime de passear no domingo com sua família. Não foi incidente. Foi execução.

Também convém lembrar de tudo o mais que essa gente quer esquecer: 13 de maio é dia de reforçar que ninguém abre mão do que conquistou. O ensino superior público e  gratuito é direito de todos, principalmente daqueles que, historicamente, não tiveram acesso a ele. (O problema da universidade não é ter crescido demais, é não ter crescido o suficiente). Para cada Marielle assassinada, quatro novas são eleitas. A abolição da escravidão – incompleta, imperfeita, tardia – é também irreversível.

Martha Abreu

“Canoa Virada”

Não foram poucos os que lutaram pelo 13 de maio!! E também não foram poucos os que lutaram para que essa data não fosse esquecida, especialmente como caminho de afirmação da população negra e de luta pelo reconhecimento do direito de todos os brasileiros à liberdade, à igualdade e à cidadania plena.  Ao longo do século XX, as manifestações pelo 13 de maio nunca deixaram de acontecer e os exemplos são inúmeros :  nos jongos, nos encontros de associações de trabalhadores, nas festas  cívicas, religiosas e recreativas, e mesmo nos enredos das escolas de samba.

Hoje, faço aqui uma homenagem ao músico negro, Eduardo das Neves, que fez questão de gravar na nascente indústria fonográfica o que foi considerado, ainda em 1888, o hino popular da Abolição.   Como conseguiu convencer o empresário e emplacar essa gravação, até hoje não tenho ideia, mas, certamente, o músico conhecia bem o poder dessa nova tecnologia  em produzir registros duradouros sobre vozes e canções de evidente sentido político e transgressor.  Provavelmente, Dudu tenha gravado “A Canoa Virada”,  em 1909, quando também se comemorava, nas festividades do 13 de maio daquele ano, a entrada do político negro Monteiro Lopes na Câmara de Deputados Federal.

Registro aqui alguns versos do lundu a  “Canoa Virada”, uma evidente alegoria sobre o fim da escravidão:

A canoa virô
Deixá-la virá
De boca para baixo
Cacunda pro ar
Chegou ocasião da negrada bumbar

Depois de vilas e cidades
Andei pelos arrabaldes,
Não há quem não desejasse,
O dia da liberdade

 

Giovana Xavier

Carolina, Firmina e Conceição: intérpretes da liberdade

131 anos depois de assinada a Lei Áurea, a pergunta “o que aconteceu com a população negra no pós-abolição?” permanece atual. Muitas são as respostas possíveis. No 14 de maio de 1888, centenas de milhares de pessoas tornadas livres e milhões de outras nascidas livres ou libertas antes da lei seguiram suas vidas como trabalhadores. Para quem quiser conhecer mais sobre o assunto, a leitura do livro A vida dos escravos no Rio de Janeiro, de Mary Karasch é parada obrigatória. Na obra, a historiadora norte-americana apresenta uma lista de profissões desempenhadas pela população escravizada. Embora pouco se comente, barbeiros, mergulhadores, costureiras, parteiras, modistas, ourives foram ocupações, em muitos casos, hegemonizadas por africanos e descendentes na corte imperial.

Como exemplo da impossibilidade de uma “ciência neutra”, essa pluralidade de atividades profissionais exercida por pessoas de cor durante todo o período escravocrata (e que se manteve no pós-abolição) foi ignorada pelas Ciências Sociais das primeiras décadas do século XX. Exemplo disso é a expressão icônica usada por Florestan Fernandes para se referir a mulheres, homens, crianças negras depois do 13 de maio: “largados à própria sorte”.

A ideia legitimada por Florestan e seus colegas da Escola Sociológica Paulista durante a execução do projeto Unesco justificam muitas histórias únicas. Histórias contadas pela supremacia branca e que nos impedem de enxergar mulheres como Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance da história do Brasil (Úrsula, 1859), Carolina Maria de Jesus, escritora do célebre Quarto de despejo: diário de uma favelada (livro de 1960 traduzido para diversas línguas, com tiragem estendida de três para trinta mil exemplares) e, mais recentemente, Conceição Evaristo, ganhadora do Prêmio Jabuti com a linda obra Olhos d´água, como intelectuais negras.

A pergunta que fica é: por que em um país de 54,4% de pessoas negras soa absurdo pensar esse trio de mulheres como intérpretes do Brasil tal qual Caio Prado Junior, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Hollanda? Há quem torça o nariz para as dimensões passado-presente da nossa história. Tremendo besteirol, também conhecido como “mais do mesmo”.

Em 13 de maio de 2019, sou mais Carolina: “Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”. #DeixaEuDançar #LiberdadeDJRennandaPenha

 

Mônica Lima

Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será, um grande mal.”

Esta frase é do conto A Escrava, da escritora e professora negra maranhense Maria Firmina dos Reis, que foi publicado em 1887 na Revista Maranhense nº3. Ela já havia escrito antes um romance abolicionista (Úrsula), publicado em 1859. E, em 1888, compôs um hino à abolição: Hino da Libertação dos Escravos, com letra e música de sua autoria, que tem nos seus primeiros versos “Salve! Salve o Sol que raiou hoje, difundindo a Liberdade!”

Que tanto sabemos da luta, da militância de mulheres negras de diferentes regiões do Brasil pela abolição? Das resistências em suas mais diversas expressões, das fugas, dos enfrentamentos, da busca pela liberdade, protagonizadas por elas?  Certamente, ainda muito pouco.

“Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”

Em nove de janeiro passado completaram-se dezesseis anos da promulgação da lei 10639, que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e das lutas dos negros no Brasil. Com seus dispositivos ainda em vigor, tendo sido ampliada em 2008, com a inclusão da história indígena, mantem-se em sua integridade na lei de diretrizes e bases da Educação Nacional. Muito foi feito, e está sendo feito, para passar da intenção ao gesto, e implementar essa medida. Mas, muito mais falta fazer, e são cada vez mais difíceis os enfrentamentos. Sem deixar de reconhecer tudo que construímos, nosso passos adiante nessa luta pela real liberdade terão que se haver com as tentativas atuais de silenciamentos e negacionismos diversos, que tentam apagar ou reduzir o papel fundamental de negras e negros no processo abolicionista.

Nessa batalha pela nossa História, sugiro escolhermos nossas armas e estratégias. E entre elas, está iluminar as trajetórias pessoais dessas mulheres negras que fizeram parte da luta contra a escravidão: as que escapavam pelas quebradas da região do Cais do Valongo (fala, Catarina Cassange!), as que usavam de seu trabalho e seu saber para obter a alforria e defendiam essa liberdade como sagrada (fala, Teodora!), as abolicionistas militantes como Maria Firmina e tantas e tantas outras. Conhecê-las, e encontrarmos nelas parentesco e inspiração, torna-se um caminho para não perdermos o (p)rumo, além de desvelarmos as inverdades dos que querem invisibilizar suas histórias. O ensino de História pode – e já há quem o faça, seguramente, mas que sejamos mais – trazer as presenças vivas dessas pessoas, como matéria e material de estudo, para nosso arsenal de combate. Com elas, e perto delas, seremos mais fortes. E mais fiéis ao que nos move.

Por mais trezes de maio, feitos de muitas histórias negras.

A história de Catarina Cassange está no livro

FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio, SOARES, Carlos Eugênio, MOREIRA, Carlos Eduardo. Cidades Negras: africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista do século XIX. São Paulo: Alameda, 2006.

A história de Teodora Dias da Cunha está no artigo

“Teodora Dias da Cunha: construindo um lugar para si no mundo da escrita e da escravidão”, de Cristina Wissembach, publicado no livro FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio e XAVIER, Giovana. Mulheres Negras no Brasil Escravista e do Pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.

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Cores e lugares do Novembro Negro

“É minha força, é nossa energia
Que vem de longe pra nos fazer companhia”
Raça, Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976

 

E novembro chegou novamente! Para boa parte das pessoas com quem convivo, é chegada a hora de viver o Novembro Negro, o mês Nacional da Consciência Negra! Tempo de rememorar e celebrar a saga de Palmares e outras tantas lutas pela liberdade protagonizadas por descendentes de africanas/os escravizadas/os no Brasil. Há ainda quem associe outras cores a esses dias: o Novembro Azul, da mobilização pela prevenção do câncer de próstata; o Novembro Laranja, da campanha nacional de alerta ao zumbido no ouvido, sendo também laranja o 25, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Não podemos esquecer da possibilidade de acrescentar as cores do arco-íris ao 20, também reivindicado como Dia Internacional da Memória Transgênera.

Curiosamente, todas essas apropriações mantêm estreito diálogo com a saúde, o direito à vida, reivindicam o existir com dignidade. Com um pouco de sensibilidade, é fácil entender como o racismo, o machismo, a homofobia/transfobia adoecem quem é atingida/o e quem atinge também, prejudicando homens e mulheres, surdas/os, ouvintes, etc. E nisso comprometem até mesmo a nossa capacidade de enxergar as possíveis articulações entre as diferentes perspectivas de luta. Assim, logo de cara, a tendência é tomar essas práticas de apropriação do tempo como mero ensejo para rivalidades e disputas por visibilidade no presente.

Zumbido

Imagem utilizada pela empresa Direito de Ouvir para ilustrar um informe sobre o Novembro Laranja

Mas, tentando ir além do conflito que afasta, façamos um exercício de aproximação. Vivemos num país de maioria negra, certo?! Certo! 54% da população, segundo dados do IBGE para 2014. Por que razão, então, nos limitamos a pensar apenas o Novembro Negro como negro? Por que o azul, o laranja ou o multicolorido não são prontamente entendidos como negros também? Por que esses outros falam da população em geral? Um instante! Somos a maioria da população e, mesmo assim, não podemos dar a medida do que é o “em geral”? Olha aí o alcance do racismo engolfando e indo além da linguagem.

Sem gerar prejuízo a qualquer outro grupo, novembro, em suas múltiplas cores, muito bem poderia e deveria ser um momento de esforço concentrado para a defesa do respeito às pessoas de todos os sexos, identidade de gênero, orientação sexual, variedade de deficiências, etc., por partir justamente da experiência da população negra. Alterar as matrizes de pensamento de uma sociedade em que o “racismo por denegação”*, citando Lélia Gonzalez, gerou um dos quadros mais complexos de desigualdade racial do mundo passa por fazer com que as pessoas adquiram a habilidade de sentirem à vontade em ser medidas pela régua da existência da gente negra, sem que isso signifique limitação da sua humanidade. Romper com a violência naturalizada contra tanta gente, talvez faça até mesmo com que no futuro as experiências de pessoas surdas não gerem tanta estranheza ao aparecerem em concursos públicos, como aconteceu na prova de redação do Enem 2017.

Reconhecer a importância do Novembro Negro, em suas múltiplas cores associadas, é, portanto, romper com os vícios gerados pelo mito fundador das três raças que esteve e está a serviço do elogio à dominação do homem-branco-europeu-heterossexual-agente-da-colonização-e-da-civilização-vitoriosa, por muito tempo considerado como o sujeito universal por excelência.

Atravessando a fronteira nacional brasileira, vale lembrar que esse, aliás, tem também sido o esforço da Comisión Organizadora 8 de Noviembre, uma ampla frente de entidades afro-argentinas, em torno da afirmação do Dia Nacional dos/as Afro-Argentinos/as e da Cultura Afro, reconhecido oficialmente em 2013 por meio da Lei n. 26.852. A data foi construída a partir da memória de María Remedios del Valle, uma mulher negra que combateu no exército pela independência argentina no início do século XIX e se tornou posteriormente conhecida como a “Madre de la Patria”. Uma das várias pessoas negras que sobreviveram aos combates, María Remedios é uma personagem emblemática para se desmontar o mito do desaparecimento negro na Argentina ao longo do século XIX. Sua trajetória e a de outras personalidades e grupos têm sido, então, acionadas pelas organizações afro em suas atividades em vários momentos do ano, com o intuito de criar condições para que as violências cometidas contra a população afro não passem em branco.

8 de Novembro

A lei corresponde, portanto, ao encaminhamento de uma agenda política maior e está estreitamente associada a uma conquista anterior: a inclusão do quesito cor/raça no censo populacional de 2010, por meio do que tem se objetivado identificar não apenas os indivíduos fenotipicamente negros, mas também aqueles/as de origem afro. Além de buscar a visibilidade no agora, trata-se de uma ação interessada em fazer um contraponto à construção de que os argentinos de hoje são descendentes apenas de europeus e de povos originários com os quais o vínculo é cada vez mais distante.

Diferentemente do Brasil, os/as afro-argentinos/as estão longe de ser maioria populacional em seu país. Todavia, pensando nos relatos compartilhados, podemos dizer que o racismo e a discriminação não se fazem mais ou menos perversos a depender da quantidade de pessoas contra as quais são imprimidos. O grande problema segue sendo a violação do status de Ser Humano dessas mulheres e homens em ambas as sociedades, e outras tantas pelas Américas e o restante do mundo.

De tal sorte, embora os problemas associados ao subregistro não tenham sido superados nem mesmo aqui, as mobilizações de lá, ao avançarem, merecem nossa solidariedade, tal como precisamos em outros tempos para alcançar a legitimação do 20 de novembro e toda a agenda política vinculada a ele. Disso efetivamente depende a viabilidade de termos respeitados os muitos sentidos de liberdade nos próximos Novembros Negros que faremos.

Ley Afro

*GONZALEZ, Lélia. A categoria cultural da amefricanidade. Revista Tempo Brasileiro, n. 92-93, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1988, p. 69-82.

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