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Sobre Papo Coletivo

Além da parceria Hebe e Martha, muitos outros textos coletivos podem surgir das nossas conversas, escritos a 4, 6, 8, 10 ou 12 mãos. A caneca sobre os livros simbolizará este papo coletivo. As autoras assinarão o post.

Dossiê: Estátuas!!!!!

Há duas semanas, desde que a imagem da derrubada da estátua do traficante de escravos Edward Colston correu mundo, o assunto passou a ser intensamente discutido no Brasil. Tema caro a todas nós, o Conversa de Historiadoras preparou um dossiê no qual cada uma discute a força do passado na sociedade brasileira. Circulamos os textos em separado, e aqui apresentamos todos reunidos.

 

O que documenta um monumento?

Hebe Mattos

A imagem da derrubada da estátua do traficante de escravos Edward Colston, no domingo, 7 de junho, em Bristol, na Inglaterra, no próprio dia circulou por todo o mundo. A repercussão do fato rendeu dois artigos na imprensa brasileira que eu tomo como ponto de partida para este texto.

O primeiro, publicado em 12 junho no site da BBC News Brasil, continuou a circular no twiter da empresa jornalística com a hashtag #MaisLidas, com uma foto da estátua do contrabandista de escravos africanos Joaquim Pereira Marinho protegendo duas crianças brancas em frente ao hospital Santa Izabel, no Largo de Nazaré, em Salvador, com a manchete: “Quem foi Joaquim Pereira Marinho, o traficante de escravos que virou estátua na capital mais negra do Brasil”.

Antes de ver a chamada do artigo no twitter, na quarta feira, dia 18 de junho, eu havia participado da banca de defesa da tese de doutorado em história de Silvana Andrade dos Santos, na UFF. A pesquisa segue a trajetória de consagração de dois outros renomados comendadores contrabandistas de escravizados da sociedade baiana e de um negociante estadunidense que se tornou cônsul daquele país em Salvador, após deixar de negociar com o frete de navios fabricados na Filadélfia para o tráfico ilegal. Ainda em plena vigência do contrabando, os três se tornaram acionistas fundadores daquela que se tornaria a maior fábrica de tecidos do Império brasileiro, na Imperial cidade de Valença, no Sul da Bahia, voltada para a produção de algodão para sacaria de fazendas escravistas e roupas de cativos. A memória pública da fábrica, desde finais do século XIX, faz questão de enfatizar que a empresa nunca teria utilizado trabalho de escravizados, o que absolutamente não é verdade. Alguns dos acionistas foram, inclusive, proprietários de fazendas voltadas para os desembarques clandestinos de cativos na região em que a fábrica foi instalada, o que pode ter influenciado a decisão de instalação do empreendimento. O trabalho estará em breve disponível online no repositório de teses do PPGH/UFF.

Hipóteses relacionando os capitais liberados pelo fim do tráfico com o desenvolvimento da indústria no Brasil oitocentista são antigas, mas o detalhamento do entrelaçamento das atividades ilícitas dos acionistas com estratégias de consagração social e diversificação de “investimentos” me impressionaram. Ainda impactada pela leitura da tese, compartilhei o twitt da BBC-Brasil com o comentário:

“Manchete e foto são um soco no estômago. Para refletir sobre o força do passado na sociedade brasileira”.

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O segundo texto, dos historiadores Paulo Pachá e Thiago Krause, na Revista Época, do dia 19 de junho, contesta diversas manifestações na imprensa que criticaram o movimento pela retirada de estátuas que homenageiam antigos ditadores, traficantes escravistas ou colonialistas genocidas, entendido (o ativismo anti-estátuas) como ameaça ao patrimônio histórico, fundada no anacronismo. O texto é excelente e vale a leitura. Desenvolve um argumento fundamental e frequentemente ignorado: estátuas falam mais do tempo em que foram construídas do que dos personagens que celebram. O artigo destaca, ainda, a existência de moralidades em disputa na própria época em que as figuras controversas foram homenageadas.

Por que a estátua de Joaquim Pereira Marinho protegendo duas crianças brancas na capital mais negra do Brasil é um soco no estômago?

Porque foi construída no século XIX, pela instituição de caridade em que o personagem atuava, exatamente para ajudar a esquecer ou apagar o fato, amplamente conhecido, de que o homenageado havia enriquecido contrabandeando crianças negras escravizadas. Cada navio do tráfico ilegal transportou para o Brasil algumas centenas de jovens escravizados africanos, em sua maioria com menos de 12 anos de idade, desembarcados em praias de propriedade de fazendeiros traficantes, como os acionistas da fábrica de Valença, com alarmantes índices de mortalidade.  A associação entre contrabando de escravizados e filantropia no século XIX está diretamente ligada à tentativa de apagamento de um passado pessoal desonroso, nos termos da época, como bem destaca Ana Lucia Araújo na reportagem da BBC.

Joaquim Pereira Marinho não esteve sozinho. O apagamento da memória da intensa participação ou cumplicidade dos construtores da estabilidade do estado imperial com o contrabando de cativos africanos ocupa lugar privilegiado na fabricação do racismo institucional brasileiro. Nas palavras de Joaquim Nabuco, ao escrever a biografia do pai, Nabuco de Araújo, “pode-se dizer mesmo que pareceu sempre mais fácil [para gerações sucessivas de estadistas] abolir a escravidão de um golpe do que fazer cumprir retrospectivamente a lei de 7 de novembro” (de 1831 que tornou ilegal o tráfico de escravizados no Brasil), o que fazia até mesmo liberais anti-tráfico, como Nabuco de Araújo, cúmplices do contrabando que, em alguma medida, combateram.

Somos herdeiros de um estado contrabandista de crianças africanas que ergueu muitas estátuas para apagar este fato. Nascidas desse solo institucional, é absolutamente revoltante, mas não de todo surpreendente, que nossas instituições continuem ignorando o assassinato contumaz de crianças negras por suas forças policiais, com ampla cumplicidade dos “cidadãos de bem” da vez.

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crédito da foto.

Sobre destruição e reconstrução

Mônica Lima

“Pode não parecer, mas eu tenho uma história

Uma casa com alicerces profundos, paredes flexíveis.

No quintal uma mina d’água na sombra de um jequitibá.”

trecho de “História”, poema de Ana Cruz, publicado em SEMOG, Ele(org). Amor e outras revoluções, Grupo Negrícia. Rio de Janeiro: Pallas, 2019

Tenho acompanhado apaixonadamente as matérias jornalísticas e os debates sobre a derrubada e intervenção nas estátuas que homenageiam personagens cuja trajetória esteve ligada ao tráfico escravista, à própria escravidão, ao colonialismo e à diversas expressões de racismo. Leio e mal posso controlar meu entusiasmo, tornam-se um sopro de energia no meio da onda nefasta que me é trazida pelo assassinato sistemático de negros, o extermínio consentido de povos indígenas, as mortes da pandemia e a vida política do nosso país – cujas notícias vinham desnutrindo cotidianamente minha força vital.

Como historiadora e cidadã, reconheço que não é simples a discussão, e que há que se escutar e pesar bem os argumentos que assinalam o significado de um monumento para o entendimento da história, o valor de um patrimônio e a impossibilidade de estarmos destruindo e reconstruindo permanentemente nossas cidades e logradouros para que sejam erguidas estátuas, praças e prédios com outros personagens e referências. No entanto, nenhuma dessas ponderações até agora me convenceu que os movimentos e ações levadas a cabo por manifestantes em diferentes partes do mundo estejam equivocados. Muito pelo contrário, a articulação que esses movimentos recentes trazem com a campanha internacional #vidasnegrasimportam os tornaram não apenas oportunos como situados ao lado da justiça e da defesa de causas fundamentais para o momento em que estamos.

Vale lembrar outra história, que algumas vezes têm estado presente nesse debate. Em 2015, estudantes e ativistas sul-africanos iniciaram uma campanha para a retirada da estátua em homenagem a Cecil Rhodes na Universidade do Cabo, na África do Sul. Esta campanha teve como um de seus líderes um estudante bolsista de origem popular da universidade, que se chamava Chumani Maxwele, e que protagonizou uma ação de inequívoco desprezo pelo monumento atirando fezes na estátua. O caráter desse gesto causou espécie a muitos, e deu partida tanto a uma discussão sobre o “respeito ao patrimônio” como sobre o que deveria ser a conduta “mais adequada” de uma manifestação política. Outras lideranças estudantis surgiram, e o movimento cresceu, alcançou outras universidades fora da África do Sul, ganhou espaço na imprensa internacional e nas redes sociais e… Rhodes caiu. Porém, para além da vitória dos ativistas, o movimento #RodhesMustFall abriu espaço para um debate – que já existia, mas se fortaleceu – sobre o ensino de história da África do Sul e as diferentes perspectivas presentes nesse mesmo processo, considerando que estudantes africâneres também haviam engrossando a campanha, por questionarem a presença de uma visão favorável ao colonialismo inglês.

A história ocorrida na África do Sul nos permite pensar um pouco mais sobre o quanto ainda temos que avançar, no nosso país, no ensino da história e cultura africana e afro-brasileira e no conhecimento e reconhecimento de espaços e monumentos que nos remetem a nossa ancestralidade, a nossa luta, e aos personagens que as protagonizaram. Os monumentos que homenageiam os que se dedicaram a oprimir, a destruir e desvalorizar nosso passado presente negro africano podem e devem ser deslocados ou ressignificados, quando sua presença nos causar dor e ofender nossa autoestima. E por isso é importante debater sobre eles, problematizá-los. Mas, é importante também pensarmos em como produzirmos outros monumentos e ocupar a cidade com outras histórias.

Numa discussão com o grupo de representantes do conselho consultivo do Museu de História Africana e Afro-brasileira – projeto hoje silenciado – junto com a historiadora Martha Abreu, iniciamos um importante e rico debate sobre as formas de representar a história da escravidão, marcada pela violência e sofrimento, mas também pela criação, resistência e enfrentamento por parte das pessoas postas em situação de cativeiro. Foi apenas um começo, mas já nos anunciou as grandes possibilidades que esse caminho abria. Como romper com os estereótipos sustentados por imagens e textos que historicamente subalternizavam os escravizados? Como trazer questões contemporâneas, urgentes, como o debate sobre reparação e associá-lo a essa história, sem reduzir toda a explicação da força do racismo na nossa sociedade à escravidão? Como exibir, apresentar visualmente e materialmente esse passado presente – trago o termo remetendo conscientemente ao projeto que o consagrou – de forma a valorizar nossa história e a luta da população africana e negra? Certamente, não tenho respostas imediatas, mas a certeza que ampliar essa discussão e ouvir – e considerar – as pessoas e comunidades mais diretamente envolvidas nos efeitos desse passado sensível é a melhor maneira de dar conta dessas questões.

Valorizar essa história, com seus alicerces profundos e paredes flexíveis (como lembra o lindo poema de Ana Cruz, que recomendam que leiam todo), terá o poder de reconstruir e ressignificar o nosso patrimônio, a cidade e o país.

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Pela desmonumentalização do racismo em escala global

Ana Flávia Magalhães Pinto

Em 1926, quando Monteiro Lobato lançou o romance de ficção científica Choque das Raças, depois rebatizado de O Presidente Negro, o Brasil se aproximava da marca de 40 anos da abolição, enquanto os EUA tinham acabado de contabilizar seis décadas desde que se oficializou nacionalmente a emancipação, em 19 de junho de 1865, o Juneteeth.

Nos EUA, as leis Jim Crow, que tornavam legal a segregação racial, pavimentavam por lá também uma “falsa abolição”e encorajavam linchamentos e massacres coletivos contra a população negra, sabotando o sucesso de black towns e bairros negros. Enquanto isso, por aqui, reverberavam projeções de homens de ciência, letras e Estado que apostavam na eliminação da visualidade da presença negra por força do aumento do “elemento branco” via imigração, mestiçagem e outros expedientes. Violências ausentes ou suavizadas nos livros escolares de ambos os países por muito tempo.

Optei por trazer o romance de Lobato, não só porque ali podemos acompanhar um registro do consenso acerca do “não lugar” da população negra no Brasil e nos EUA, mas também porque o romance, o autor e as questões que o mobilizaram a escrever nos permitem refletir sobre o processos de monumentalização do racismo no passado, no presente e no futuro. Não por acaso, uma vez que a obra de Lobato entrou em domínio público no ano passado, estamos assistindo a uma série de tentativas de protegê-lo, tal como às estátuas de Borba Gato e do conde Pereira Marinho, de qualquer atitude de “vandalismo” promovida por “iconoclastas antirracistas” – acusações que circulam em mais bocas que a de um jornalista convicto da sua objetividade.

A ação do romance de 25 capítulos se passa no ano do lançamento da obra, mas seus personagens centrais Ayrton Lobo e Miss Jane, filha do professor Benson, estão às voltas com fatos ocorridos em 2228. Benson era descendente de um mineralogista norte-americano que havia se fixado em São Paulo no século XIX, casando-se com a filha de um fazendeiro, por certo escravista. Benson havia inventado uma máquina do tempo e escondia o feito num castelo habitado por “criados mudos”. Curiosamente o evento histórico que mais chamou a atenção de Miss Jane foi a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, 363 anos após o fim da escravidão.

Muitos conhecem essa história por conta das citações feitas quando da eleição de Barack Obama em 2008. Mas eu gostaria de chamar atenção para elementos menos destacados.

No sétimo capítulo, intitulado “Futuro e Presente”, Ayrton e o professor Benson entram num gabinete do castelo em que Miss Jane observa o porvir através de um globo de cristal. Ao se dar conta da presença deles, ela comenta: “Papai, estou no fim da tragédia, do crepúsculo da raça. Dudley ganhou uma estátua.” A identidade de Dudley só começa a nos ser revelada no capítulo 20 “Convenção Branca”. Diante da vitória de Jim Roy nas eleições de 2228, a liderança negra de pele já esbranquiçada e cabelos crespos, uma convenção de homens brancos seria realizada a fim de encontrar uma saída para a “tragédia”. John Dudley é apresentado como “o pai da côr numero 8 e autor de 72 invenções”. Ele seria responsável pela descoberta dos raios ômega, que não só alisariam definitivamente os cabelos crespos de todos as pessoas negras, completando o processo de embranquecimento físico, como funcionaria como uma ação genocída, uma vez que, secretamente, promovia a esterilização de quem fizesse uso.

A posse do presidente negro não acontece, como parte do plano. E, tendo sido responsável por promover a resolução final para uma “dor de cabeça histórica” enfrentada por longos séculos, decênios mais tarde Dudley seria homenageado por meio de edificação de um busto seu, um “monumento de gratidão erigido pelo sócio branco em homenagem ao sócio negro”. Ou seja, homenageava-se o causador branco da extinção do negro.

Além da projeção da eliminação negra nos EUA, o romance de Lobato não reconhece qualquer ação política negra no Brasil ainda no século XX e depois. A julgar pelos comentários dos personagens locais, as decisões já haviam sido bem encaminhadas nos termos que por aqui teria funcionado melhor: contornando o equívoco da mestiçagem, a porção do Brasil temperado se juntaria com a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, passando a ser habitada só por brancos e se mantendo próspera; enquanto o restante do território seguiria “sofrendo o erro e suas consequências”.

Sintoma do fracasso das leituras e projeções de Lobato e outros como João Batista de Lacerda, a pensadora negra Lelia Gonzales, em 1988, expôs sua perspectiva de leitura das experiências da gente negra neste lado de cá, por meio do conceito de “Amefricanidade”. Afora repertórios culturais e ancestrais comuns, Lelia encorajava análises das ações históricas negras em perspectiva transnacional, de modo a até mesmo romper a fronteira da América Latina e incorporar o vivido por nossa gente negra nos EUA, ainda visto por muitos como a expressão oposta da formação racial brasileira.

O desafio proposto por Lelia Gonzales está sendo reafirmado nas últimas semanas, como também deu a ver a escritora haitiana Edwidge Danticat, em seu artigo “So brutal a death”, publicado no jornal The New Yorker, em que ela demonstra como as reações ao brutal assassinato de George Floyd são ressonâncias de longas lutas contra o racismo antinegro em escala global. Algo que até mesmo fez com que funcionários africanos de alto nível das Nações Unidas tenham apresentado um manifesto na última semana e que uma tentativa de reposicionar a agenda da Década Internacional de Afrodescendentes esteja em curso.

O que estamos assistindo e realizando mais uma vez são expressões de sujeitos históricos negros múltiplos, que têm trajetórias de longa duração, mas que não cabem em matrizes narrativas que pressupõem a nossa inexistência, eliminação ou, quando muito, uma absoluta subalternidade. Matrizes narrativas que até permitem o esboço de comoção perante as evitáveis mortes de homens, mulheres e crianças negros, mas priorizam a defendesa do valor cívico e civilizatório atribuído a estátuas, escritores e práticas de sociabilidade que autorizaram a negação da nossa humanidade e cidadania, legitimaram linchamentos e genocídios. Essas matrizes narrativas em que a liberdade negra só faz sentido como causadora de uma “dor de cabeça histórica”, como registrado no romance de Lobato.

É importante dizer que tal dinâmica também sequestra nossa capacidade, como dissidentes, de reconhecer e nos apropriar profunda e seriamente das lutas negras. Tenho batido na tecla da necessidade de se pensar a liberdade, porque compartilho do entendimento de que fazer isso, numa sociedade estruturalmente racista, é caminho de acesso dados empíricos que deixem cada vez mais evidente a centralidade do racismo e as formas como ele opera em múltiplas direções. Precisamos ir além do que nos foi autorizado a pensar. Para fazer frente ao consenso acerca da irrelevância histórica da gente negra e de seus questionamentos, precisamos radicalizar nossas agendas de disputa das múltiplas narrativas sobre nós.

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crédito da foto.

Os deuses gregos e o Valongo: um caso exemplar de estátuas fora do lugar

Martha Abreu

Quem visita o Cais do Valongo hoje, local de chegada de aproximadamente 1 milhão de africanos escravizados,  tem dificuldades para imaginar quantas transformações aquele espaço já passou para esconder  um dos maiores crimes contra a humanidade, como tão bem demonstrou José Pessoa.  Da antiga praça do mercado, onde se localizava o Cais da imperatriz, projetada  por importantes engenheiros e arquitetos da Corte para mostrar a civilização do Império do Brasil,  só restou mesmo, e não sei bem os motivos, o obelisco, outrora um chafariz (um dos muitos destinados ao abastecimento da cidade).  A coluna de granito, bem visível, ficava ao centro de um tanque regular, não mais existente, e ainda sustenta uma esfera armilar e três setas de bronze, símbolo das armas da cidade.

Mas como o assunto são as estátuas, vou me ater ao sumiço de quatro estátuas de deuses gregos (ou romanos?) que lá tinham sido colocados em 1843 para receber (e impressionar?) a princesa napolitana Teresa Cristina, futura esposa de D. Pedro II e imperatriz do Brasil. Quem teria tirado as estátuas dos deuses gregos?  Foram arrancadas, destruídas ou foram para algum museu? Alguém protestou ou fez algum movimento para que permanecessem no local?

Ironias a parte, ficamos sabendo que as estátuas atravessaram o século 19 e dali só foram retiradas em função das obras de reforma do porto, empreendidas pelo então prefeito Pereira Passos, no início do século 20.  Não satisfeito de enterrar mais uma vez o passado africano, Pereira Passos enterrava também o passado imperial com a construção do porto moderno (e republicano) e com a retirada das estátuas do Cais.

Mas se o visitante seguir pelo Circuito da Herança Africana, idealizado quase 100 anos depois pela prefeitura de Eduardo Paes, encontrará as estátuas dos deuses gregos!!!  Elas estão muito bem conservadas e imponentes no Jardim Suspenso do Valongo, um jardim elevado alguns metros da rua, construído por Pereira Passos (simbolicamente associado aos jardins da babilônia), em 1906, quando da abertura da velha rua do Valongo (hoje Camerino). A ideia do arquiteto Luis Rei era um jardim para deleite e passeio em lugar aprazível, bem de acordo com a política municipal de embelezamento – e branqueamento – da cidade de acordo com o gosto europeu. Mas logo ali?

Pouco se sabe da origem ou autoria das estátuas de mármore que representam os deuses Minerva, Marte, Ceres e Mercúrio.  Mas, muito diferente dos marcos da presença africana na região, como o Cemitério dos Pretos Novos (IPN) e a Pedra do Sal, foram muito bem cuidadas e protegidas –  não tenho dúvidas.  Junto com o Jardim, as estátuas receberam proteção do IPHAN através do tombamento realizado em 1938. Na década de 1990 teriam saído dali para um apurado trabalho de restauração. Em 2014, quando das reformas do “porto maravilha” e do próprio Jardim Suspenso por Eduardo Paes, as estátuas teriam retornado ao Jardim por decisão do prefeito, pelo que pude apurar (não consegui descobrir ao certo se as que ali se encontram são as originais, ou não, posto que foram feitas cópias para garantir total proteção). Era o “porto maravilha”.

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Foto Guilherme Hoffmann. Projeto Passados Presentes.

Com certeza, é bom saber que estátuas da primeira metade do século 19, peças decorativas de um cais para receber uma princesa europeia, tenham sido tão consideradas e valorizadas.  A municipalidade pagou por elas, são obras artísticas e patrimônios tombados. Perfeito! O que não é nada perfeito é só elas terem recebido tratamento e destaque especial, quando vemos que o patrimônio afro-brasileiro na região só com enorme mobilização dos movimentos sociais mantém presença e visibilidade.

A pergunta que não pode calar é: Qual o sentido de visitarmos o Jardim Suspenso hoje e seus deuses gregos, se não sabemos o que suas estátuas realmente significaram quando foram colocadas no Cais e depois transferidas para o Jardim? Preciso confessar que não defendo a remoção das estátuas para algum museu, muito menos que sejam derrubadas ou destruídas, até porque todos os deuses merecem respeito. Esses, por sinal, não têm responsabilidade alguma com a história do tráfico, muito menos com as políticas racistas e de branqueamento da primeira república. MAS ELAS NÃO PODEM FICAR ALI SOZINHAS, registrando só um lado da história – esse é o ponto!!!!!

Ao longo do século XIX, essas estátuas ajudaram a esquecer o local de entrada de africanos escravizados. Ao longo do século XX pousaram com “olhar de paisagem”, certamente sem entenderem nada, no coração da Pequena África, onde os descendentes de africanos escravizados construíram um Brasil negro e antirracista com seus orixás, sambas, carnavais, associações dançantes, religiosas e de trabalhadores. Sua presença ali, sozinhas, indicam a vitória de uma única memória, passado e história. Basta. É hora de mudança no sentido de construção de uma história pública que registre a presença negra no espaço urbano.

Mas ainda cabe uma pergunta: o que fazer com as estátuas agora?  Já ouvi ótimas e criativas respostas de alunos e visitantes (como por exemplo, pintá-las de preto, cobri-las com um pano preto). Vale talvez uma ampla discussão e consulta com a população e movimentos sociais da Pequena África, mas meu voto será para deixá-las ali mesmo como testemunhas do racismo na decoração do espaço urbano. Por outro lado, todos os deuses podem ajudar na reconstrução do passado e no fim do silenciamento da história dos afro-brasileiros.

Podemos começar com a sugestão de mudança do nome do próprio Jardim Suspenso para Mirante da Pequena África, proposta que eu e Monica Lima desenvolvemos no Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (MUCHAB), já que dali se avistam a Praça dos Estivadores, a Rua Barão de São Felix, o morro da Providência, a Central do Brasil, os morros das primeiras Escolas de Samba e a velha Praça Onze, locais de memória da história negra na cidade do Rio de Janeiro.  Outra possibilidade é invadirmos o velho espaço de Pereira Passos com estátuas de deuses africanos e personalidades negras que protagonizaram a história da região e do Brasil, como Tia Ciata, que, aliás, já está ali, a Rainha Mandinga, Mãe Aninha, Monteiro Lopes, Mano Eloi, Pixinguinha e muitos outros. Só desta forma os deuses gregos, ou melhor, as estátuas dos deuses gregos, podem permanecer na Pequena África.

Foto Alexandre Macieira - Riotur

Foto Alexandre Macieira, Riotur.

Isto não é uma estátua  

Keila Grinberg

Algo está muito errado em uma sociedade cuja polícia protege suas estátuas e ataca seus cidadãos. Ainda mais quando a polícia ataca os descendentes daqueles a quem a pessoa representada pela estátua escravizava.

Desde que a derrubada de estátuas de traficantes e escravocratas passou a integrar os protestos anti-racistas contra a violência policial na Inglaterra e nos Estados Unidos, a polícia de São Paulo vem protegendo a estátua de Manuel de Borba Gato (1649-1718), símbolo do bando que escravizava, estuprava e assassinava indígenas e negros.

O mais interessante é que, no contexto dos atuais protestos, nem a estátua de Borba Gato nem qualquer outra foi de fato ameaçada no Brasil. O que houve aqui foi um civilizado abaixo-assinado, demandando das autoridades a remoção da escultura. Mas só a possibilidade de que algo pudesse acontecer ao monumento gerou uma reação de tal monta que só pode ter sido causada pelo medo branco à simples ideia de uma onda negra entre nós.

Onda negra, medo branco é o título do livro de Celia Azevedo (Paz e Terra, 1987), cujo tema é o medo dos escravocratas brasileiros de que houvesse no Brasil uma rebelião de escravizados como a que houve na colônia francesa de Saint Domingue em 1791 e levou à independência do Haiti. Ao longo do século XIX, o pavor sentido pela elite brasileira foi usado como justificativa para a repressão desmedida contra qualquer ação de resistência da população escravizada. No pós-abolição, ele foi traduzido em políticas públicas excludentes e em violência racial.

Em geral, há dois argumentos usados por aqueles que defendem a  manutenção das estátuas nos espaços públicos. Uma é o seu valor como obra de arte. Convém lembrar, nesses casos, que  a prática de intervir em objetos, mesmo aqueles de indiscutível valor artístico, faz parte da própria dinâmica de constituição dos espaços públicos. Um exemplo: quem visita o Jardim Botânico do Rio de Janeiro tem a oportunidade de apreciar o portal da Real Academia de Belas Artes, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny. Até 1908, o portal ficava no edifício da escola, próximo à praça Tiradentes, no centro da cidade. Com a demolição do prédio, ele foi removido e integrado à belíssima Aléia das Palmeiras, projetada no século anterior. Ficou lindo — mas totalmente descontextualizado de sua função original.

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O outro argumento contra a intervenção nas estátuas diz respeito ao seu suposto valor histórico. Remover uma estátua seria como apagar a História, argumentam alguns. Aqui é hora de lembrar que as estátuas são monumentos erigidos com a intenção explícita de homenagear pessoas ou acontecimentos do passado. Elas não são o passado.

A estátua que você vê na rua nunca é só uma estátua. No caso de esculturas que homenageiam pessoas, elas sempre remetem pelo menos a três tempos: ao tempo em que o homenageado viveu; ao tempo que o objeto foi elaborado; ao tempo presente, quando ele é cotidianamente ressignificado por aqueles que o vêem.

Quando uma estátua deixa de ser uma estátua e passa a ser objeto de disputas? Talvez todas sejam. Outro exemplo: bem no centro do calçadão da praia Vermelha, que eu frequentava quase diariamente antes do início da pandemia, jaz a escultura em bronze que representa o compositor polonês Frederic Chopin (1810-1849), de Augusto Zamoysky.  O monumento, inaugurado em 1944, foi transferido seis anos depois para a praça Floriano, de onde retornou em 1959. Pois outro dia descobri que o monumento foi um presente da Associação dos Poloneses do Rio de Janeiro em desagravo à destruição de uma estátua de Chopin em Varsóvia, quando a cidade foi invadida pelos nazistas. Símbolo do nacionalismo romântico polonês, a imagem do compositor já havia sido atacada pelos russos no século XIX, que proibiram suas músicas e até destruíram seu piano. O presente da comunidade polonesa à cidade do Rio de Janeiro não deixa de ser um protesto e uma afirmação da independência polonesa. Hoje em dia nós, frequentadores do local, sequer notamos a escultura.

Por que ninguém ataca a escultura de Chopin aqui no Rio? Por que tanto pavor é  suscitado pela mera discussão sobre o destino dos monumentos que representam assassinos, escravizadores, traficantes? Porque é este o passado que nós precisamos, aqui no Brasil, confrontar. Porque este é o passado do nosso desconforto, aquele que ainda não passou.

Ao invés de lidar com os nossos traumas, nós reforçamos os mitos da ausência de conflito em nossa história: fomos os únicos a proclamar a independência sem guerra; nossa escravidão foi abolida sem sangue, no Parlamento; nossa ditadura militar começou a ser finda com uma lei que anistiava resistentes e torturadores. Enquanto negamos os conflitos, convivemos com o racismo, com a violência, com a sombra do autoritarismo.

Confrontar o passado exige que reconheçamos seus horrores. Para começar, podemos deixar de homenagear ditadores e escravistas em nomes de ruas, praças, escolas. Talvez assim consigamos ver o dia em que a polícia vai deixar de proteger as estátuas e se dedicar a seus cidadãos.

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crédito da foto.

Estátuas, inadequações e o poder das “alternativas”

Giovana Xavier

Uma garotinha passava com a mãe diante da estátua de um europeu que havia dominado um leão feroz com as próprias mãos. A garotinha parou, olhou-a intrigada e perguntou: “Mamãe tem uma coisa errada com essa estátua. Todo mundo sabe que um homem não consegue ser mais forte que um leão”. “Mas querida”, respondeu a mãe, “não se esqueça de que quem fez a estátua foi o homem”.

(Karl Mannheim, Ideologia e Utopia Apud Patricia Hill Collins, Pensamento Feminista Negro, 2019, p. 402).

Ando em uma fase de muitas mudanças internas, que também têm repercutido nas minhas identidades e projetos profissionais. Dei-me conta disso em março de 2020, quando profundamente angustiada, com mais perguntas do que respostas, decidi pausar o ativismo intelectual nas redes sociais. Esse período coincidiu com a chegada da pandemia racial global COVID 19 ao Rio de Janeiro, culminando em políticas emergenciais de isolamento social. Ressignificado como recolhimento, o estar em casa, focada inteiramente na família, no trabalho doméstico e na produção acadêmica individual tem me suscitado reflexões densas sobre rupturas e conquistas oriundas de concepções sobre ativismo, ciência e política.

Dentro desse contexto de revolução pessoal, acontecimentos do último mês e suas repercussões em meios acadêmicos, ativistas e midiáticos levaram-me a pensar sobre a “inadequação” entre a formação recebida como historiadora social e os projetos acadêmicos de ativismo científico que conduzo na UFRJ. Resumidos aqui em dois: O Grupo Intelectuais Negras e o Programa de Educação Tutorial Conexões de Saberes Diversidade. Assim, a ideia do texto é comentar algumas das referidas reflexões dentro do contexto de ebulição política nacional e internacional em que se inserem. Para isso, fundamento-me nos debates de Patricia Hill Collins sobre a importância de intelectuais negras construírem “epistemologias alternativas” no meio científico:

Percebi que minha formação como cientista social era inadequada para a tarefa de estudar o conhecimento subjugado do ponto de vista das mulheres negras. Isso porque os grupos subordinados perceberam há muito tempo que é necessário recorrer a formas alternativa para criar autodefinições e autoavaliações independentes, rearticulando-as por meio de nossos próprios especialistas. Como outros grupos subordinados, as afro-americanas não apenas desenvolveram um ponto de vista específico das mulheres negras, mas usaram formas alternativas de produzir e validar o conhecimento para isso.

O assassinato de George Floyd, as manifestações e os atos políticos de derrubada de estátuas de um traficante de escravizados na Inglaterra e de um general confederado nos EUA tiveram grande repercussão no Brasil. Com uma série de autoavaliações sobre o valor e o lugar do trabalho intelectual de mulheres negras, recusei a chuva de convites da mídia e de organizações sociais para debater a temática. Estes nãos foram importantes para observar à distância as situações, pensando – na pausa – sobre meus incômodos diante da divisão entre contrários e favoráveis a ir às ruas protestar, a derrubar ou não estátuas. Penso que a construção do debate público focado na polarização dificulta, especialmente, que os “grupos subalternizados” dialoguem sobre “formas alternativas de produzir e validar conhecimentos” para avançarmos em nossas pautas.

Como professora, uma das coisas mais potentes que observo em sala de aula é quando estudantes tomam posse da autoria, da criação. Um processo que demanda o estudo, a observação e a criatividade que ser contrário ou favorável não suscita. Lembro-me, por exemplo, das dificuldades nas orientações de pós-graduação quando chega o momento da escrita de monografias e dissertações. Em geral, estudantes sentem-se “paralisadas”, “perdidas”, “desesperadas”, para usar alguns dos adjetivos que me chegam em relatos de dor e sofrimento característicos dos processos de se tornar autora. Estes sentimentos relacionam-se ao pressuposto de objetificação feminina negra e também à naturalização das divisões e polaridades como única possibilidade de definir posições e lugares de fala. Saindo do meio universitário, já repararam que no geral quando perguntamos, qual é a sua proposta? poucas pessoas apresentam “alternativas”.

Aqui entramos em um segundo nível do raciocínio. Uma vez que as “propostas alternativas” são reduzidas quem as apresenta passa a ser tratado como problema, o que no espaço acadêmico significa desqualificação da produção, preterimento de recursos de financiamento e da participação em espaços decisórios, entre outras situações que também foram enfrentadas por Azoilda Loretto da Trindade (10/12/1957-13/09/2015), Beatriz Nascimento (17/07/1942-28/01/1995), Lélia Gonzalez (01/02/1935-10/07/1994), entre muitas outras. Considero que é tempo de mudar a direção de nossos holofotes, diaogando mais sobre alternativas ao racismo, que está bastante longe de ser superado, do que confinando-nos à posição de rebate-lo. Por experiência própria, a energia gasta em debates entre contrários e favoráveis é tão intensa que, dificilmente, depois conseguem-se criar “alternativas”. Assim, ciente do impacto de meu trabalho intelectual entre universitárixs negrxs, chamo a atenção para o investimento pessoal necessário à formação individual. Isso demanda autoconhecimento e coragem para girar a chave interna do denunciante ao criador de projetos políticos “alternativos”, verdadeiramente centrados nos conhecimentos das classes trabalhadoras.

No Brasil, o Feminismo Negro Radical é nossa principal “alternativa” hoje. Ele é teorizado e praticado por intelectuais negras como Lúcia Xavier, Mônica Cunha e as sessenta e cinco ativistas assim como eu apoiadas como “líderes” pelo Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras Marielle Franco do Fundo Baobá para Equidade Racial . Ativistas que ao definirem de formas plurais o sujeito político mulher negra oferecem projetos inovadores para construção de “alternativas” em áreas como comunicação, educação, direitos humanos, finanças, política institucional, saúde. Dito tudo isso, entro na terceira e última parte do texto, relacionada a contextualizações históricas que considero importantes para as lutas do tempo presente.

A primeira relaciona-se à absurda revogação da portaria normativa nº 13 de 2016 que dispõe sobre a indução de ações afirmativas na pós-graduação das universidades federais. Assim como a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas instituições de ensino foi uma conquista sobremaneira ligada ao trabalho de professores da educação básica e ativistas dos movimentos sociais negros (majoritariamente mulheres negras), a implantação das ações afirmativas em programas de pós só deve-se muito ao intenso ativismo intelectual da comunidade estudantil. Em diferentes universidades brasileiras, de forma independente e através da Associação Nacional de Pós-Graduandos, mestrandos e doutorandos participaram de comissões e colegiados universitários, integraram grupos de trabalho, realizaram pesquisas, produziram documentos, mapeamentos, Importantíssimos para a criação do Grupo de Trabalho Inclusão Social na Pós-Graduação da Capes, muitos desses estudantes dos “grupos subalternizados” sofreram retaliações de setores acadêmicos conservadores. Retaliações estas que culminaram em evasão, problemas de saúde mental, perda das já escassas oportunidades de auxílios e bolsas de fomento à pesquisa.

Fiquei pensando muito nessas histórias não contadas, quando no decorrer da semana, acompanhei colegas que, em diversas ocasiões, mostraram-se reticentes e contrários às cotas raciais (“no Brasil o problema é social”) e às políticas de identificação por raça de pesquisadores na plataforma Lattes do CNPq, compartilhando notas de repúdio. Arrematadas por discursos inflamados sobre a inadmissibilidade do racismo estrutural no Brasil. Como mostra Nilma Lino Gomes, o acesso à educação é uma luta histórica da população negra. E para assegurarmos a manutenção das conquistas assim como ampliá-las também é necessário refletir sobre o sistema de poder e privilégios que fundamenta a ciência brasileira e o que verdadeiramente precisa ser derrubado. Nesse sentido, indispensável conferir a pesquisa As negras e os negros nas bolsas de formação e de pesquisa do CNPq. Para 2015, de acordo com os dados levantados pelo CNPq, observa-se que a distribuição das bolsas de produtividade científica (PQ- voltadas a professores) deu-se da seguinte forma no grupo feminino: 75,5% para mulheres brancas; 6,2% para mulheres pardas e 0,8% para mulheres pretas. Este panorama relaciona-se ao início do texto sobre “inadequação” entre formação recebida e projetos acadêmicos realizados.

A segunda contextualização diz respeito à importância de aprender com as memórias traumáticas de dor, sofrimento e desigualdades nas quais a história do Brasil alicerça-se. Um dos antídotos está em “alternativas” que temos condições de fazer de imediato. Entre elas, visibilizar histórias silenciadas, tão presentes em nosso dia a dia. Aqui em terras cariocas, temos Tim Maia (28/09/1942-15/03/1998), um dos maiores músicos brasileiros, ocupando o centro da Praça Afonso Pena na Tijuca. Mercedes Batista (20/05/1921-19/08/2014), primeira bailarina negra na história do Theatro Municipal (salvo engano única), recebendo-nos majestosamente no Largo da Prainha, zona portuária. No Complexo de Favelas da Maré, temos a Escola de Desenvolvimento Infantil nomeada Azoilda Loretto da Trindade, após incessantes lutas e articulações de professoras negras como Angela Ramos, Janete Santos Ribeiro e Marta Muniz Bento. Eu que tive a honra de conhecer e ter Zó (Azoilda) como uma grande mentora fico esperançosa e feliz de saber que sua história e legado fazem-se presentes na vida de crianças negras da favela, que são o presente-futuro do Brasil.

Despeço-me inspirada por estas pessoas monumentais, ligadas à nossa ancestralidade e a projetos de vida “alternativos”, que são os que verdadeiramente importam.

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crédito da foto.

 

 

 

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Arquivado em antiracismo, história e memória

“A congada é algo grande, é ancestral, é resistência”

O Conversa de Historiadoras desta semana apresenta três textos sobre as especiais Festas que, através das redes sociais, conectaram o espaço, o tempo e os congadeiros em Piedade do Rio Grande, Minas Gerais, no final de maio. Os textos são fruto de uma forte parceria entre duas historiadoras e um historiador – sendo esse também congadeiro. E as fotos são do Paulo Henrique da Silva Ribeiro, também historiador e atual secretário de Cultura de Piedade. Vida longa às festas negras!

OS SONS DE MAIO: FESTAS DE CONGADAS, PANDEMIA E RESISTÊNCIAS NEGRAS EM MINAS GERAIS

Simone de Assis

Francival Araújo de Sousa

Lívia Monteiro

 

Para quem acompanha, organiza e gosta das festas negras no Brasil, o calendário é concorrido. De janeiro a janeiro, praticamente em todos os meses e por todos os cantos do país, os festejos tomam as ruas das cidades. Devocionais, tradicionais, patrimonializados, disputados e tão diversos que conceitualizá-los foi, por muito tempo, sinônimo de imprecisão. Se, no passado, os batuques foram perseguidos e criminalizados, atualmente, muitas festas negras tornaram-se patrimônios imateriais embora ainda lutem por reconhecimento e valorização.

Em Minas Gerais, as Congadas, Congados ou Reinados coroam os reis e rainhas negros desde o período colonial. Com raízes africanas, especialmente de origem bantu, tornaram-se elos de rememoração no presente das lembranças, dores e resistências da diáspora dos povos escravizados para o Brasil. Intensas e dinâmicas, as festas do Congo – como também são conhecidas – acontecem em praticamente todo estado de Minas e, em função da pandemia do covid-19, muitas celebrações foram canceladas.

Porém, o batido da caixa congadeira-moçambiqueira, com as fitas coloridas e a leveza que impera nos ternos de Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande, campos das vertentes do estado de Minas Gerais, fez a cidade despertar para as alegrias que as festas proporcionam, mesmo com o distanciamento social imposto. O alvorecer no último sábado do mês de maio foi de esperança para quem estava em suas casas, em confinamento há quase três meses. A surpresa proporcionada produziu choro, vídeos nas redes sociais, mensagens de whatsapp e emoções que nenhum texto/imagem/vídeo é capaz de dar conta. Os congadeiros-moçambiqueiros produziram encontros e afirmaram que os sentidos dos afetos estão na possibilidade de mantê-los em nossas memórias e nas lembranças que queremos manter vivas.

Foi pensando nesses encontros, que decidimos escrever coletivamente esse texto. Nossos relatos – apresentados individualmente – tentam narrar as experiências vividas, os olhares distintos e as percepções causadas pela festa da Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande, em plena pandemia do covid-19, a partir dos nossos lugares de fala, como Djamila Ribeiro nos ensina. Reunimos virtualmente nossos esforços para fazer dessa escrita um espaço de diálogo regado a muita emoção. Escrevemos o que vivemos e sentimos.

Tradição congadeira-moçambiqueira: Festa de Maio de 2020 – Piedade do Rio Grande

Simone de Assis é mulher preta, graduada e mestranda em História pela Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ.

#FicaEmCasaSePuder, essa é a hashtag que circula no Brasil e no mundo nos últimos meses, desde o grande boom da pandemia do novo coronavírus, covid-19. Ok! As cidades de Minas Gerais, assim como outras, estão tentando cumprir os procedimentos de isolamento social e seguir os parâmetros da Organização Mundial da Saúde, em meio à experiência de muitas crises (sanitárias, econômicas, políticas, sociais, emocionais etc.) que a circunstância, atípica, tem gerado.

Março, abril, maio, há três meses vivemos em quarentena. Sobreviver, essa é a meta. Por isso o cuidado com as práticas de resguardo à saúde. Um respiro profundo. Maio. Estávamos no mês de maio. Tempo que evoca memórias do povo negro. Memórias de abolicionistas como Maria Firmina dos Reis, André Rebouças e muitos outro(a)s que influenciaram para que o marco legal da abolição, 13 de maio de 1888, acontecesse. No cenário cultural e religioso mineiro, ligado às memórias do atlântico negro, maio também evoca os batuques das Congadas. É tempo de festejar. Seria tempo de festejar. Com a pandemia, que sublinha o fosso social do pós-abolição, não há o que festejar. Outro respiro profundo e uma pergunta latente: se o sobreviver aniquila o próprio viver do povo preto, do que adianta ser?

Questionamento visceral. Foi necessário cautela, conectar a força, a sabedoria e a estratégia ancestral dos congadeiros de outrora para encontrar caminhos e repostas. Dessa forma, aquietar as inquietações do tempo presente e, assim, deixar viva a Festa de maio da Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande/MG no ano de 2020. Além do coronavírus, a insegurança e o estranhamento com a presença do novo padre da paróquia, Jorge Wilson. “Abriria, ele, as portas da Igreja?” “Compreenderia a missa afro realizada anualmente no contexto da Festa?” “Seria parceiro da tradição cultural e religiosa?”

Ao completar 92 anos de tradição, a Festa de maio não poderia ficar no esquecimento. Nem na dúvida do que representa perante os espaços reivindicados e conquistados em disputas territoriais anteriores. Foi com o ímpeto dos anciãos, também de maneira responsiva, que os congadeiros-moçambiqueiros se reinventaram para cumprir os ritos do Rosário de 2020. Entre conversas e negociações, o primeiro passo foi conseguir agendar a Missa Afro Moçambiqueira para a noite de sábado, 30 de maio, no santuário da cidade. Uma missa com a presença reduzida dos integrantes do terno e que seria transmitida ao vivo pela página do Facebook, Paróquia Nossa Senhora da Piedade – Pascom –  e rádio Alto Rio Grande FM.

Apesar da missa agendada, a cidade  estava triste, pois o festejo da Congada-Moçambique também se dá nas vias públicas, ao som dos tambores e guizos que percorrem as praças, bairros e ruas de toda Piedade/MG. Como eu estava em São João del-Rei/MG, acompanhava atônita às postagens do Facebook do grupo, de amigos pertencentes ao terno, professora(e)s e conhecido(a)s que se conectavam à Festa. Era notório: um lamento pairava no ar. O afeto, que tentava amenizar a situação, se fazia visível nos detalhes alimentados pelas redes sociais, como a postagem de fotografias, vídeos, músicas e memórias das comemorações vivenciadas no passado. Eram pequenas formas de se preencher o vazio.

Sexta-feira, 29 de maio, 23:49h, recebo a informação sigilosa, via WhatsApp, de que congadeiros, em pequeno número de integrantes, fariam uma alvorada às 5h na manhã do dia seguinte. O ato seria registrado por uma live transmitida pela página das redes sociais da paróquia. Vibrei de alegria! A parceria com o novo padre estava totalmente firmada e tudo seria arquivado para evidenciar que os cuidados como utilização de máscaras e distanciamento entre os participantes seriam cumpridos. Mais ainda, a filmagem ao vivo garantiria que a Festa chegasse a todos os cantos do mundo e aplacasse o coração daqueles que não poderiam estar no evento. Para muitos, é o ápice do ano. Por outro lado, o coração gelou de medo pela responsabilidade que os congadeiros escolheram assumir com a alvorada-manifestação no momento pandêmico. Mas entendi que a resistência cidadã de uma tradição de 92 anos não poderia falhar. Ademais, diante da realidade brasileira que a cada dia registra inúmeros casos de racismo, fascismo e apoia a necropolítica, entendi que a alvorada era a resposta da luta antirracista e a afirmação da existência dos congadeiros.

Acordei de madrugada, no momento da alvorada, para acompanhar pelo celular a surpresa e o acontecimento que a Congada faria para a cidade em tempo real. Assim como eu, sei que muitas pessoas da minha rede de amizades gostariam de estar lá, com toda adrenalina que a Festa é e representa. Mas não sendo possível, a tecnologia e mídia nos conectariam no espaço-tempo. Vi e ouvi, por meio da live , Piedade amanhecer ao som dos toques das caixas da Congada. Caminharam com a bandeira e santas (Nossa Senhora do Rosário e das Mercês) até a Igreja. Na porta entoaram o ponto: “seu padre abre a porta, que eu também quero entrar.” O padre lá estava, abriu as portas e os recebeu. Decoração e estamparia afro compunham o altar. Nos bancos da igreja, fotografias e chapéus dos congadeiros ausentes personificavam todos no recinto. Nas pilastras, fotos e banners de pessoas que foram importantes para a história da Festa, como reis, rainhas, princesas e toda corte Conga. Chorei nessa hora e me peguei pensando o quão difícil deve ter sido a deliberação da guarda, com mais de cem participantes, decidir apenas entre umas 15 pessoas para compor e realizar o ato da resistência congadeira-moçambiqueira. Na fé, amor e esperança, os ausentes faziam-se presentes, mas também por seus celulares e computadores que acompanhavam através da live e interagiam no espaço dos chats e comentários. Eu, espectadora devota da Festa, também estive lá através da tela do meu celular.

O ato não foi isolado. Manifestações congadeiras aconteceram em diferentes regiões de Minas Gerais, por todo mês de maio e foram registradas pelas mídias digitais dos respectivos grupos. Acompanhamos algumas delas:  Moçambique e Catopé Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, da cidade de São João del-Rei/MG  se reuniu no dia 13 de maio; o Congo Camisa Verde, de Ituiutaba/MG realizou sua alvorada no dia 17 de maio e abriu a live do III Seminário da Congada – NEPERE, NEABI Pontal, UFU. Em Cambuquira/MG, lideranças dos ternos Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e da Irmandade Nossa Senhora do Rosário se reuniram na tarde do dia 31 de maio. Num mês em que representantes do governo vigente exaltam símbolos da supremacia branca e tecem críticas ao movimento negro, os batuques das Congadas fizeram ecoar a resistência negra por toda Minas Gerais. #VidasNegrasImportam #ACongadaResiste #NossosPassosVêmDeLonge.

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Alvorada Congadeira – Piedade do Rio Grande/MG. Maio de 2020.

Foto: Paulo Henrique da Silva Ribeiro

Breve relato de um Congadeiro e Moçambiqueiro de Nossa Senhora do Rosário/Mercês de Piedade do Rio Grande-MG sobre o ano de 2020

Francival Araújo de Sousa, homem preto. Graduando em História na Universidade Federal de São João del rei (UFSJ).  

Falar sobre Congados nos leva a pensar sobre memórias que vêm desde a escravidão colonial. Para mim é algo muito gratificante e importante, mas ao mesmo tempo, difícil. Separar o Francival estudante de História do Francival congadeiro e moçambiqueiro, é algo complicado. Nesse ano de 2020, isso se tornou nítido para mim.

Vejo a movimentação da Congada e me deparei, em especial esse ano, com o poder e a comoção que ela consegue tirar de toda população. Em particular dos indivíduos ligados ao movimento. São estas pessoas que vivem à mercê de um racismo velado e institucionalizado que só têm aquele momento de “protagonismo”. Não digo que ser protagonista seja importante, mas sim ser agente, de fato, de suas histórias. O espaço da festa é aquele em que os congadeiros podem simplesmente tirar suas armaduras e chorar. Uso aqui a palavra chorar pelo fato de negros e negras serem obrigados a demonstrar no dia-a-dia dessa sociedade que são fortes. Este choro é na realidade libertação. Lágrimas de dor, angústia e tristeza, mas simultaneamente lágrimas de alegria, leveza e esperança de que dias melhores virão.

Os piedenses que guardam na memória a alegria da Festa de maio, este ano se depararam com a pandemia, inibindo a festa para controle da proliferação da covid-19. Na lembrança de todos congadeiros e matriarcas antigas, nenhum tem recordação de uma ausência da Festa de maio. Uma festa tão longínqua, quase centenária, que nem uma guerra mundial conseguiu parar. Mas este ano não houve as excursões de entes queridos, que retornam à sua saudosa terra justamente para buscar um elo ancestral e cultural.

Ao som do primeiro foguete na madrugada de sexta é que a ficha cai e também é que a festa “acontece”. Este ano, portanto, foi diferente: sem ensaios aos domingos, sem a busca da lenha para a saudosa fogueira, sem tantas outras tradições importantes. O mês de maio de 2020 doeu. É difícil assimilar todo o caos, e mais complicado entender que não haveria a nossa união, nossa força, os nossos sorrisos na grande comemoração.

O som da caixa no sábado pela manhã trouxe toda a imensidão de sentimentos, no lugar em que dói e dá arrepios ao se escutar o repique. No coração e nos pensamentos tenho lembranças boas e outras nem tanto. Nós, dançarinos, sempre pensamos nas pessoas que no passado sofreram para manter essa tradição viva, cruzando o preconceito, a negação e a demonização de nossa religiosidade.

Este ano tivemos medo e preocupação com a vinda de um novo pároco, até porque é recente a nossa entrada na igreja. Mas resistimos! Dom José Eudes nos abençoou e parabenizou por tudo.  Padre Jorge demonstrou que pretende ajudar ainda mais a nossa festa, além de ter exposto falas importantes com a temática racial em suas celebrações.

Quando fazemos nosso cortejo, é hora de cantar e de expor todos os sentimentos que nos alegram e afligem. Este ano, senti um canto calado devido à proteção contra a covid-19. Com isto, veio em minha mente a imagem da escrava Anastácia. Como se fosse para calar a nossa voz. Lembrei também de um relato surpreendente, de um amigo da minha família, sobre a importância da festa como um ato de existência e sobrevivência dos negros e negras de Piedade do Rio Grande. Independentemente do que aconteça, a homenagem sempre deve acontecer. Esse é o único momento em que se une o religioso e o político no município, e nós pretos e pretas, podemos demonstrar tudo aquilo que nos afeta.

O ocorrido de 2020 foi algo atípico, mas surpreendentemente, nós reafirmamos a nossa existência, em meio a todo transtorno que a pandemia vem causando em nosso país, principalmente na comunidade negra. Ver e sentir tudo isso expõe toda a dimensão da Festa de maio de forma direta e, em particular, para todos os que vivem o Congado e o Moçambique. O “estar vivo” significa isso, por mais que tentem nos calar.  A congada é algo grande, é ancestral, é resistência.

Os ecos da resistência

Lívia Monteiro, mulher branca, doutora em História pela UFF, professora no curso de História da Universidade Federal de Alfenas

Voltei a ouvir o eco. O som da caixa tocada na manhã gelada do último sábado do mês de maio de 2020 ecoou o que meu coração queria ouvir. O som naquele silêncio imposto pela pandemia fez expurgar todos os sentidos dolorosos e difíceis que estamos vivendo. O medo, o distanciamento, o isolamento e as incertezas que a maior crise sanitária, política, econômica e social nos coloca ficaram em suspenso enquanto ouvíamos o som dos instrumentos festivos e as músicas cantadas pelas vozes congadeiras que, mesmo com as máscaras, nos embalaram nas memórias dos territórios negros mineiros ocupados há mais de trezentos anos.

Enquanto a cerração fria, na madrugada com geada e temperatura de 5º, cortava a cidade, outros sentidos da festa foram sendo demarcados. Ao buscar as imagens de Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Rosário na igrejinha do Rosário para levá-las ao encontro da imagem de São Benedito, que já estava na matriz, o mito fundante que estrutura uma das narrativas congadeiras-moçambiqueiras em Piedade se refundou. A água benta jogada na porta da igreja pelo pároco também fez lembrar um dos rituais mais antigos da festa e os elementos simbólicos, tão importantes para toda a performance, estiveram presentes. A fogueira não foi acesa online, mas os fogos, que iluminaram a cidade após a missa, demarcaram no céu que a chama da vida continuava acesa.

A força do barulho dos guizos moçambiqueiros entrando na igreja matriz e o batido da caixa nos colocaram em presença e a festa aconteceu na intensidade que deveria ter. Renovadora e triste, a missa Afro, transmitida ao vivo pelo facebook e rádio local, gerou um misto de sentimentos. E, mais uma vez, os protagonistas da festa nos mostraram os caminhos de reinvenção das dores e lutas, em meio a tantas incertezas que o momento presente nos apresenta.

Os chapéus coloridos colocados sobre os bancos da igreja balançaram durante toda a missa e a presença congadeira-moçambiqueira também se fez presente neles. Ver as crianças batendo com as manguaras no chão, para marcar que aquele território também lhes pertence e encarando, com toda seriedade necessária, as câmeras de celulares que os filmava, promoveu mais que esperança, mas a concretude de que o amanhã vai seguir.

Quando a transmissão terminou e os moçambiqueiros não estavam mais online, houve a queima de fogos na porta da igreja, com os capitães cantando “se a morte não me matar, tamborim, se a terra não me comer, tamborim, ai ai ai, tamborim, para o ano eu voltarei, tamborim”. Algo indescritível. Todos os elementos da festa estiveram presentes. Fogo, água, círculos, encruzilhadas, o mito da santa, músicas, passos e as memórias da escravidão e da liberdade, cantadas e reatualizadas no tempo presente.

O controle da festa, do tempo festivo e das narrativas que vão de encontro ao fazer lembrar, mesmo que em apenas um dia, demonstraram que a relação dos congadeiros-moçambiqueiros com o espaço público e sagrado, de tomar as ruas da cidade por 92 anos consecutivos, se manteve presente em 2020.

Ao utilizar as conexões e usos tecnológicos para aproximar, os congadeiros-moçambiqueiros escolheram o que seria visto/divulgado e o que seria secreto/ guardado. O que mais foi mostrado foram as resistências em meio às dores e sofrimentos, pela ausência física de muitos que não estiveram ali, mas que se conectaram via rádio e internet para acompanhar os festejos.

As marcas do passado permanecem, a pandemia escancara ainda mais as desigualdades sociais e raciais, com o racismo brasileiro sendo ainda mais noticiado. Mas, as formas de resistir ganharam novos contornos e a festa aconteceu. Com choros, tristezas, surpresas, emoções, redes sociais, instantâneos e conectados. Nas ausências, nos silêncios e nos distanciamentos, outros sentidos foram produzidos pelos congadeiros-moçambiqueiros.

No mesmo fim de semana da festa em Piedade, os primeiros protestos antirracistas e antifascistas tomaram as ruas dos Estados Unidos, após a morte violenta de George Floyd. Conectados às pautas internacionais, os moçambiqueiros encerraram a Missa Afro cantando músicas entoadas pelos movimentos negros e cantores(as) negras, como o samba enredo da Tuiuti de 2018, questionando “meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” 

Como pesquisadora branca da festa há quase dez anos, tive que lidar com o medo do contágio – além de distribuir máscara e álcool em gel – para viver a experiência que transcende esse texto. Em maio de 2018, o Brasil vivia uma greve de caminhoneiros que não impediu a festa de acontecer. Em maio de 2020, uma pandemia também não impediu que a festa ocorresse. A força do Rosário não tem tese/texto/filme/ciência que explique. É apenas sentir a força da resistência, das lembranças e das importantes lutas antirracistas do tempo presente.

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Arquivado em antiracismo, cultura negra

Um mundo em uma foto*

O Conversa de Historiadoras desta semana tem a honra de publicar um depoimento de Ana Célia da Silva sobre uma foto histórica.  Ana Célia, Professora Doutora Aposentada da UNEB e militante do Movimento Negro é referência na área de educação antirracista, tendo publicado numerosos trabalhos e atuado de uma forma  fundamental na construção da Lei 10.639, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira.  Neste texto, Ana Célia retorna a 1981 através de uma foto, quando, com outros militantes, buscava ampliar as dimensões da luta do movimento negro no Brasil.

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Foto de Juca Martins/Olhar Imagem. “Manifestação durante a reunião da SBPC, Salvador, BA, 1981”. Arquivo Edgard Leurenroth/Unicamp. A foto foi publicada pela primeira vez no jornal Voz da Unidade, em 1981. Em 2018, foi capa dos dois volumes de Cultura Negra, Novos Desafios Para os Historiadores, organizado por M. Abreu, G. Xavier, E. Brasil e L. Monteiro. Foi a historiadora Martha Abreu que fez chegá-la às mãos de João J. Reis e daí até Ana Célia

Uma foto: o Movimento Negro Unificado-BA e a Reunião da SBPC em 1981 em Salvador

Ana Célia da Silva

Professora Doutora Aposentada da UNEB

Militante do Movimento Negro 

Fui levada por Albérico Paiva, professor e militante da Pastoral Afro, a uma reunião do MNU, quando ainda era o Grupo Nêgo, em maio de 1978. As reuniões aconteciam na Praça Municipal de Salvador, no “Cemitério de Sucupira”, como apelidamos o jardim suspenso construído pela prefeitura no local onde se erguiam os prédios da Biblioteca Central do Estado e o Diário Oficial, destruídos por um incêndio.

Nessa primeira reunião do Grupo Nêgo, os militantes discutiram a participação em uma série de palestras que a prefeitura de Salvador iria promover durante a semana que antecedia o 13 de maio. Uma das palestrantes era uma militante do Rio de Janeiro, Lélia Gonzales. Participamos do seminário proposto pelo prefeito em exercício, Edivaldo Brito, que é negro, e aprofundamos relações com Lélia, que se tornaria uma espécie de madrinha do Movimento Negro Unificado na Bahia, fundado em 7 de junho de 1978. A fundação do MNU nacional aconteceria pouco tempo depois, em 18 de junho, em São Paulo. Para o ato enviamos como nossos representantes o dançarino Kal Santos e sua esposa, que hoje vivem na Itália. Levavam na bagagem uma carta na qual o Grupo Nêgo reconhecia e se integrava ao Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial – MNUCDR –, nome original do MNU.

Tudo isso aconteceu ainda durante a ditadura. Lembro-me que após o primeiro congresso do MNU em Salvador, realizado em 1980, os agentes do DOPS nos perseguiram pelos vários locais onde havíamos obtido licença para realizar o evento, a exemplo da Associação dos Funcionários Públicos, na rua Carlos Gomes. Finalmente, nos dirigimos ao  Goethe Institut (Instituto Brasil-Alemanha), território estrangeiro, localizado no corredor da Vitória, que nos acolheu.

No MNU-BA conheci os primeiros militantes e fundadores, Gilberto Leal e Leibe Carteado, geólogos, Astor, engenheiro civil, Edson Tosta Passarinho, um dos fundadores do Adé Dudu, primeiro Grupo de Trabalho para homossexuais negros do MNU, Luiz Alberto, operário da Petrobrás, que foi conduzido por nós por três mandatos consecutivos a Deputado Federal, Cao Santos, operário, Jane, psicóloga, Leninha, professora, Maria, Lino de Almeida e Manoel Almeida, sociólogos autodidatas, e muitos outros que vieram logo depois, inclusive Luiza Bairros, Wilson Santos, Adriana, Mary, a primeira mulher do movimento negro a usar os cabelos crespos naturais. Era manequim, como chamávamos na época as modelos, e muitos outros e outras cujos nomes não me ocorrem mais. (Desculpem, mas também não lembro os sobrenomes de alguns).

Três anos após a sua fundação, e um ano após seu primeiro congresso, o MNU realizou uma manifestação, dentro do campus da Universidade Federal da Bahia-UFBA, em Ondina, onde estava sendo realizada a Reunião Anual da SBPC, no período de 8 a 15 de julho de 1981.

Não lembro se o MNU tinha algum trabalho inscrito na Reunião, mas a questão racial não estava sendo discutida, especificamente, em nenhuma mesa ou grupo de trabalho. Então resolvemos levar esse debate nas diversas mesas e grupos dos quais participávamos como plateia. Nos intervalos, nos reunimos e decidimos organizar uma manifestação. Wilson Santos, um dos fundadores do primeiro grupo de homossexuais do MNU, o Adé Dudu, lembrou-me que houve um encontro de entidades negras presentes à Reunião da SBPC. Foi nessa reunião que decidimos realizar a passeata.  Convergimos para um local central do campus e, portando cartazes feitos de cartolina, iniciamos uma marcha gritando palavras de ordem. Tomados de surpresa, os participantes da SBPC nos olhavam entre curiosos e assustados. Participantes negros e pardos de outros estados começaram a aderir à marcha, seguidos por alguns brancos.

Tenho uma foto desse momento, que está perdida. Para minha grata surpresa, o historiador João José Reis me enviou outra foto daquele tempo, que é esta aqui apresentada. O fotógrafo é o talentoso Juca Martins, e quiçá seu arquivo guarda outras fotos, feitas sob outros ângulos, do mesmo evento. A foto se encontra publicada nas capas da obra, em dois volumes, intitulada Cultura Negra, festas carnavais e patrimônio negros (FAPERJ/EDUFF, 2018). Foi a historiadora Martha Abreu, uma das organizadoras desse livro, que fez chegá-la às mãos de João. Vamos à foto.

Entre outros temas registrados nos cartazes carregados pelos manifestantes naquele dia, no maior deles, à direita, pode-se ler, completando as palavras cortadas: “Memorial Zumbi. Parque histórico cultural. Por uma cultura de libertação”.  Outro dizia: “Por uma ciência a serviço dos trabalhadores e das etnias oprimidas”; outro ainda denunciava a folclorização da cultura negra; um terceiro denunciava a violência contra o negro, velho e persistente problema. Pelo menos dois cartazes demandavam uma releitura de nossa história: aquele que exigia “Uma revisão da história do Brasil”, outro que bradava “Pelo ensino da história e cultura negra”. E a figura de Zumbi se entrelaçava a esta reivindicação, tendo-se tornado patrono das lutas dos negros e negras brasileiras. Já então o movimento negro levantava a bandeira da introdução de nossa história e nossa cultura nos currículos escolares do Brasil, o que só viria a se concretizar pela Lei 10.639/03, portanto em 2003, 22 anos depois daquela passeata!

E agora, passo a descrever personagens retratados naquele histórico momento das lutas negras, pessoas que não devem ser esquecidas:

Lino de Almeida (1958-2006) sobressai na foto, usando uma camisa preta com letras brancas, onde se lê “ZUMBI: 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.” E embaixo, “Movimento Negro Unificado”.  Ele então portava dreads bem curtos, que estavam começando a crescer e chegariam até a cintura. Piscava nervosamente, me olhava e sorria. Sociólogo autodidata, foi um dos fundadores do MNU-BA, e antes disso do Núcleo Cultural Afro Brasileiro.  Lino foi um dos militantes mais proeminente do MNU-BA. Tinha relações com o movimento negro americano. Era radialista e atuou no cenário audiovisual, realizou o documentário “A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhi”, ganhador do prêmio Petrobrás Cultural. Introduziu vários textos de Malcom X e Marcus Garvey como leituras nos cursos de formação de quadros do MNU. No ano de 1986 participou do III Congresso Internacional da Tradição dos Orixás e Cultura, em Nova York, juntamente com Mãe Stella, o Ilê Aiyê, eu e várias pessoas da religião do Candomblé. Fez contato com os Panteras Negras e um deles, Stokely Carmichel (1941-1998), ele trouxe a Salvador.

Hamilton Bernardes Cardoso (1953-1999) aparece no lado esquerdo da foto, segurando cópias do manifesto que produzimos para distribuição. Nascido em Catanduva, SP, jornalista, militante do PT e muito reconhecido na sociedade. Foi casado com Dulce Pereira, militante também do PT e do MNU-SP. Tiveram dois filhos. Desfeito o casamento, soubemos que ele estava doente. Teve um fim trágico, suicidando-se por afogamento, no rio Tietê, em São Paulo. O MNU-BA prestou-lhe uma bela homenagem colocando uma coroa de flores no dique do Tororó, em Salvador.

Ismael Ivo está ao lado de Lino na foto, de calça branca curta, sem camisa. Ele iria brilhar como dançarino e coreógrafo nos palcos brasileiros e internacionais. Foi aliás na Bahia, dois anos após aquela passeata, que conheceu o coreógrafo afro-americano Alvin Ailey  – fundador do American Dance Theater  –, alavancando sua carreira internacional. Ismael viveu durante algum tempo em Salvador, onde frequentava as reuniões do MNU. Se apresentava junto com os demais dançarinos do grupo de teatro do MNU, formado por, além dele, Nadir Nóbrega, Tição, Kal Santos, entre outros.

Luiza Bairros (1953-2016). Do lado esquerdo da foto, logo atrás de uma garotinha, está Luiza, olhando para o lado. Ela se tornaria uma das mais importantes militantes e intelectuais negras brasileiros, tendo sido inclusive ministra da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial-SEPIR, com status de ministério, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, depois de ter ocupado cargo equivalente na Bahia, sob o governo de Jacques Wagner. Fundou, juntamente com outras militantes, o Grupo de Trabalho das mulheres do MNU. Dividiu a militância com uma carreira acadêmica que a levou a fazer um Mestrado em Sociologia na UFBA e a cursar o Doutorado na Michigan State University (EUA), também em Sociologia. Não chegou a concluir seu Doutorado, pois a militância falou mais alto. Foi companheira durante muitos anos do militante Jônatas Conceição da Silva, do GT de Educação do MNU.

Ana Celia. Eu mesma, logo atrás de Luiza, usava na ocasião uma calça preta e uma camisa branca com o retrato de Lélia Gonzales. Fundei, juntamente com Jônatas Conceição, Gildália Anjos, Carlos Menezes, entre outras, o Grupo de Trabalho de Educação Robson Silveira da Luz. A esse GT juntaram-se depois Lindinalva Barbosa, professora de Letras e Egbome do Terreiro do Cobre, Landê Anawale, Tata, poeta e escritor, e muitos outros.

Gilberto Leal. Atrás de mim, aquele rapaz alto de boina branca é Gilberto Leal. Ele foi um dos primeiros fundadores do Grupo Nêgo, precursor do MNU-BA. Tinha muita preocupação com o branqueamento das mulheres que vinham para a entidade. Lembro que quando eu cheguei, com os cabelos em transição, ele me sugeriu que retirasse o alisado e os deixasse crespos, que iria assim ficar ainda mais bonita. Gilberto passou a ser o arquivo ambulante do MNU. Nos reuníamos atrás da biblioteca Central, nos Barris, e aguardávamos a chegada de Gilberto, que sempre trazia uma bolsa grande cheia de artigos, panfletos, manifestos e mosquitos para distribuição nas noites das Terças-feiras da Benção, no Pelourinho. Se fosse preso não sei como explicaria a posse desse material. Gilberto esteve à frente da fundação do Conselho de Entidades Negras –  CONEN, do qual é um dos dirigentes.

Jônatas Conceição (1952-2009). Atrás de Gilberto, meu irmão, Jônatas Conceição, doutor em Literatura, poeta e radialista, de quem vemos apenas sua larga testa. Na época era recém-chegado de São Paulo, onde cursava o Mestrado em Literatura na UNICAMP, mas que veio a concluir na UFBA. Realizou diversas atividades no MNU, tanto no GT de Educação quanto em outras frentes, porque tínhamos dupla militância, a específica nos GT e a geral, que consistia na luta contra o racismo, em cursos de formação de quadros, participação em coordenações municipal, estadual e federal, passeatas, e junto a outras entidades. Como parte do GT de Educação, Jônatas orientou nossa participação na Escola Aberta do Calabar, no Maledebalê, no Ilê Aiyê, do qual era um dos diretores. Coordenou com Gildália Anjos cursos de alfabetização com mais de quarenta salas em bairros de Salvador. Um deles tinha o nome de Paulo Freire, ficava na igreja da Capelinha de Deus Menino, contava comigo e Luiza Bairros, e tinha ainda o Projeto Banca, desenvolvido por Gilda Nascimento na Escola Mãe Hilda, do Ilê Aiyê.

Muitas crianças participaram da passeata, pois era habitual o MNU trazer nossas crianças para os atos públicos. Infelizmente não consigo identificá-las. Algumas eram filhas e sobrinhas de militantes, e são hoje militantes negras nas diversas entidades existentes em Salvador. Eu espero que a divulgação desta foto faça com que elas se reconheçam e se apresentem.

Devo finalmente mencionar mais uma pessoa que participou daquela marcha, mas que não aparece na foto. Trata-se de Anilson, militante do PT dentro do MNU. Participava da luta antirracista, mas não lembro de ele ter participado de algum GT. Eu tenho uma foto de Anilson comigo na passeata. Ele está com o braço para cima, segurando um cartaz. Anilson teve uma morte súbita, saía de uma reunião do PT, foi acometido de  infarto fulminante, caiu na rua, morreu. Não consigo lembrar como foi seu funeral. Minha mente apaga memórias traumáticas.

E ficam assim registradas as lembranças, que esta foto me suscitou, de um momento histórico do Movimento Negro na Bahia. Um momento em que negras e negros bateram com força na porta da Ciência, gritando alto e bom som: nós também queremos entrar.

*Este texto contou com a colaboração do historiador João José Reis nas informações sobre os personagens e para a revisão final.

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Conversa de Historiadoras, Diversidade e o 13 de Maio de 2020

Neste 13 de maio de 2020, a conversa das historiadoras do Blog foi muito além do nosso público habitual. A plataforma Celina, de O Globo, sobre Mulheres e Diversidade, nos convidou, através de Giovana Xavier, para publicar nossos textos.  No próprio dia 13 de maio saiu o de Giovana, Carolina Maria de Jesus intérprete do Brasil. 

Na sexta feira, dia 15 de maio, o de Hebe Mattos, O 13 de maio é um dia de luta! e O 13 de maio de 2020: a tal da felicidade guerreira em meio ao caos de Ana Flávia Magalhães Pinto com Mariléa Almeida.

No sábado, dia 16 de maio, Afinal, o que de fato fez a Princesa Isabel no 13 de maio? ,de Keila Grinberg.

No domingo, 17 de maio, A História viva de nossos mortos no 13 de maio, de Mônica Lima.

E nesta segunda, O Protagonismo negro nos 13 de maio, de Martha Abreu com Carolina Dantas.

São nossas conversas atingindo públicos maiores. Registramos aqui o papo completo, em mais um dossiê 13 de maio.

Vida longa às conversas do Blog!

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13 de Maio 2020

Mais um 13 de maio. O Conversa de Historiadoras vai registrar as celebrações do dia para não quebrar a tradição. Começamos indicando a Jornada em Defesa do Direito à História da Gente Negra, a partir das 9 horas, no instagram @historiadorxsNegrxs. Acompanhem!!!!

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Passados Presentes e o Quilombo Bracuí na luta contra o coronavírus

Faça uma doação, receba um livro e #fiqueemcasa lendo!

Essa campanha é liderada pela estudante Tatiana Limoncic. Após saber das dificuldades do Quilombo do Bracuí para manter suas fontes de renda durante a pandemia do coronavirus, Tatiana procurou o projeto Passados Presentes com a ideia de fomentar auxílios para o quilombo através de doação de livros escritos por historiadores. Abaixo, o texto da campanha:

Nós queremos convidar você a participar da campanha para ajudar o quilombo do Bracuí na luta contra a crise do coronavirus. O quilombo do Bracuí fica no município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A comunidade luta há anos para garantir o território herdado por seus antepassados e para manter viva a tradição do Jongo do Sudeste, reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo IPHAN.

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Ajudar o quilombo do Bracuí num momento difícil como este é também uma forma de reconhecer a sua importância na salvaguarda da memória da escravidão, a maior tragédia da história do Brasil. Essa campanha também é nossa forma de homenagear o sr Manoel Moraes, liderança do quilombo do Bracuí cujo falecimento está completando um ano, e com ele todos os mestres que guardaram a sabedoria de seus antepassados.

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Agora é nossa vez de ajudar. Muitos moradores do quilombo perderam suas fontes de renda com a crise do coronavírus. Então nós tivemos a ideia de lançar esta campanha. Faça uma doação para o Quilombo do Bracuí. Qualquer valor será bem-vindo. Se você mora nos municípios do Rio ou Niterói, e fizer uma doação no valor de 100, 70, 50, 35 ou 20 reais, poderá receber de brinde, em sua casa, um livro doado por um dos historiadores participantes.(*)

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Para doar: Itaú

Conta corrente: 56955-9

Agência: 0678

Raísa Francisco de Almeida

CPF 136.809.397-36

Segue abaixo a lista de livros. São muitos! Para receber seu brinde, entre em contato com Tatiana no instagram @tatianalimoncic_ ou no email bracuicontraocoronavirus@gmail.com

Se você quiser conhecer saber mais, acesse a página do Quilombo do Bracuí no Facebook ou o site Passados Presentes

logo universidades federais

Tatiana agradece aos historiadores, quase todos professores de universidades federais, que doaram seus livros para a campanha. 

Alvaro Pereira do Nascimento

Adriana Barreto de Souza

Anita Correa Lima de Almeida

Fabiane Popinigis

Flavio Limoncic

Gladys Sabina Ribeiro

Hebe Mattos

Ivana Stolze Lima

Keila Grinberg

Marcelo de Souza Magalhães

Marcia Chuva

Mariana Muaze

Martha Abreu

Piedade Epstein Grinberg 

Regina Celestino 

Rebeca Gontijo 

Ynae Lopes dos Santos

Doações de 100 reais 

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Doações de 70 reais

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Doações de 50 reais 

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Doações de 35 reais

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Doações de 20 reais 

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(*) o envio será feito enquanto tivermos livros em estoque. Temos condições de enviar os livros para os moradores dos municípios do Rio de Janeiro e de Niterói. Entre em contato antes de fazer seu depósito. 

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Porque hoje é 13 de Maio … por Hebe Mattos, Ana Flavia Magalhães Pinto, Keila Grinberg, Martha Abreu, Giovana Xavier e Mônica Lima.

Hebe Mattos

Em tempos de vitória eleitoral da extrema direita, celebramos mais um treze de maio no Conversa de Historiadoras. 131 anos daquele 13 de maio de 1888, a tardia data em que o Brasil, ultimo nas Américas, aboliu legalmente a escravidão e reconheceu formalmente plenos direitos civis a todos os brasileiros.

Desde muito jovem pesquisadora do período, sempre formei entre aqueles que destacam o caráter radical da transformação então realizada. O abolicionismo foi o primeiro movimento social de massas da história do país e, como reconheceu no calor da hora o historiador Capistrano de Abreu, os últimos escravizados foram os protagonistas do “timing” final do processo – ao abandonaram em massas as fazendas mais rentáveis da economia escravista.

Nos últimos anos, entretanto, a pesquisa em história social da escravidão – esforço no qual me incluo – começou a levantar o véu não apenas do volume estonteante do contrabando de cativos africanos ao arrepio da lei brasileira desde 1831, mas também da prática da escravização ilegal de livres “de cor” e indígenas em situação de fragilidade social e sem proteção de um poderoso de plantão, com a cumplicidade de praticamente toda a “boa” sociedade da época. Tema, aliás, central para os abolicionistas radicais do período, sobretudo negros, até muito recentemente considerado como exagero retórico por grande parte dos pesquisadores. As novas abordagens colocam em relevo, do ponto de vista daqueles que o sofreram, como o racismo e o desrespeito cotidiano com os mais elementares direitos civis têm raízes profundas na história do país como estado constitucional e nunca estiveram restritos à existência legal da instituição da escravidão. Violência cotidiana que sempre foi a outra face da moeda da invisibilização social da grande maioria de afrodescendentes livres em situação de respeitabilidade social.

Neste sentido, ainda que a abolição da escravidão como instituição legal e considerada legítima mantenha-se, sem dúvida, como a mais profunda transformação da história brasileira, o racismo estrutural e as cumplicidades que engendra, bem como a irrelevância prática dos direitos civis para enormes parcelas da população, são uma linha de continuidade que se manteve praticamente inalterada – e quase naturalizada – até, pelo menos, a constituição de 1988.

Os números e as práticas que as pesquisas revelam são perturbadores. O silêncio sobre elas, ou a quase naturalização delas – sem identificação de fato com aquele que sofre a violência – na maior parte das artes, literatura e historiografia brasileiras, mais ainda.

É desalentador constatar que todo o esforço da luta antirracista dos últimos 30 anos, de denúncia, produção de estatísticas e formulação de medidas de ação afirmativa, tenham desembocado na emergência de uma extrema direita capaz de fazer a defesa pública do genocídio negro como política de segurança – e com ela se eleger em diversos níveis do sistema representativo brasileiro.

Por outro lado, tornar visível o horror que sempre nos constituiu talvez seja uma consequência inevitável da radicalização da democracia brasileira. Nas democracias, vence quem tem mais votos, mas são preservados os direitos constitucionais das minorias eventuais. É este princípio que disputamos a cada dia que acordamos no Brasil de hoje. Se conseguirmos preservá-lo, a encarnação do horror como discurso público talvez seja um pré-requisito inevitável para que a tão esperada segunda abolição possa um dia se produzir.

Ana Flávia Magalhães Pinto

“Como se os ancestrais fossem filhos dos meus sinais / Sigo o chamado altivo / Sobrevivo aos temporais”. Inseridos numa melodia que produz a sensação de movimentos contínuos de idas e vindas, esses versos são parte da trilha sonora do filme A Última Abolição, composta por Tiganá Santana, musicista e recém-doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. O documentário, dirigido por Alice Gomes, com entrevistas de Luciana Barreto e supervisão artística de Jeferson De, reúne intelectuais atuantes na academia e em outros espaços sociais, apresentando uma leitura densa e acessível sobre as lutas contra a escravidão e em defesa da liberdade e da cidadania. Em conjunto, a narrativa também problematiza, de diferentes perspectivas, os desdobramentos dessas disputas no pós-abolição.

Trata-se do produto de uma coletividade ainda mais ampla que compartilha na atualidade o entendimento de que a História é feita da ação de múltiplos sujeitos e que, portanto, não faz o menor sentido reduzir todo o processo que levou à assinatura da Lei Áurea, em 13 de Maio de 1888, a uma pessoa. Até porque a Abolição não inaugurou a experiência da liberdade negra no Brasil. Sendo assim, a princesa Isabel não poderia ser apresentada como aquela que “garantiu a liberdade aos negros”.

Num esforço de diálogo, com foco na institucionalidade, uma possibilidade talvez fosse o reconhecimento de que os três séculos de uma escravidão que absorveu o maior quantitativo de africanos escravizados nas Américas produziram uma sociedade que, de tão racializada e racista, naturalizou o costume de violentar também a vida de homens e mulheres negras que, por caminhos diversos, viviam como livres ou libertos. O fim legal do escravismo, portanto, iluminaria a centralidade do “preconceito de cor” ou do “ódio de raça” na organização da sociabilidade brasileira.

Mas isso parece estar, definitivamente, longe das preocupações que explicam o fato de, passados 131 anos da abolição no Brasil e a despeito de toda a produção historiográfica desenvolvida ao longo de décadas, o trio formado pelo deputado príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, o deputado (filho de presidente) Eduardo Bolsonaro e o deputado delegado Waldir terem requerido a realização de sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem à Princesa Isabel, no próximo 14 de maio.

Se esses compõem tão somente uma parcela ensimesmada a querer se afirmar como ocupantes exclusivos do centro da vida pública do tempo presente, o futuro está aí para podermos dimensionar melhor. Por ora, tal como aconteceu em 1888, é fácil perceber que esses indivíduos não são os únicos a ter o que dizer e defender. Sob o mote “Não veio das mãos de Isabel! Nossa liberdade é conquistada todos os dias!”, outros parlamentares, intelectuais ativistas e acadêmicos negros e brancos também agendaram para a manhã de terça-feira, às 10h30 o Ato em Memória da Luta do Povo Negro pela sua Liberdade, no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

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Como vemos, este não é o primeiro mês de maio em que, desde 1888, as diferenças, as desigualdades e as expectativas sobre os sentidos da liberdade negra poderão ser vistas e analisadas pela sociedade brasileira. O pós-abolição, aliás, tem sido um tempo de enfrentar demandas. E por falar em demandas, já que comecei este texto com os versos que encerram o filme que tem nos ajudado a ampliar os debates sobre as idas e vindas dos caminhos da liberdade no Brasil, termino com um convite para seguirmos a reflexão a partir da música com a qual o mesmo documentário se inicia e que fala de também de continuidades e enfrentamentos de dores, violências e tentativas de apagamento:

És Maçalê…

com a bravura que há de ter um Maçalê…

quando firmas, no chão, mais que pés de negro.

Segues na quilha da dor,

mas não hás de fenecer…

nem um sonho a menos;

velarás por um canto que hás de ser…

Maçalê… és Maçalê…

porque fazes do olhar um olhar por merecer;

uma guerra de flor… uma flor de guerreiro…

Serás mão do teu senhor,

és teu próprio massapê…

Vês?! És Maçalê,

e não farás envelhecer, Maçalê,

o que o teu nome diz:

Ogunhê!

#paremdenosmatar #vidasnegrasimportam

Keila Grinberg

80 tiros.

Segundo o presidente, o Exército não matou ninguém.

80 tiros.

“O racismo é uma coisa rara no Brasil”, declarou o presidente.

Na verdade foram mais de 200 tiros.

Não tem 13 de maio nenhum

Não tem 13 de maio nenhum que dê conta de tamanha tragédia.

Acontece que acabar com o sentido do 13 de maio é justamente o que querem os que dizem que não há racismo no país, que massacre é fatalidade e que o problema das universidades é ter crescido demais.

Ninguém mais tem tempo a perder com eufemismos neste país. O mínimo a fazer é chamar as coisas pelo nome que têm: os bons tempos do Império não tinham nada de bons, ninguém conseguiu a liberdade de graça e os antigos senhores só não receberam indenização graças à mobilização do abolicionismo negro e popular. E o Exército matou alguém, sim. Matou um homem negro, um cidadão brasileiro que cometeu o crime de passear no domingo com sua família. Não foi incidente. Foi execução.

Também convém lembrar de tudo o mais que essa gente quer esquecer: 13 de maio é dia de reforçar que ninguém abre mão do que conquistou. O ensino superior público e  gratuito é direito de todos, principalmente daqueles que, historicamente, não tiveram acesso a ele. (O problema da universidade não é ter crescido demais, é não ter crescido o suficiente). Para cada Marielle assassinada, quatro novas são eleitas. A abolição da escravidão – incompleta, imperfeita, tardia – é também irreversível.

Martha Abreu

“Canoa Virada”

Não foram poucos os que lutaram pelo 13 de maio!! E também não foram poucos os que lutaram para que essa data não fosse esquecida, especialmente como caminho de afirmação da população negra e de luta pelo reconhecimento do direito de todos os brasileiros à liberdade, à igualdade e à cidadania plena.  Ao longo do século XX, as manifestações pelo 13 de maio nunca deixaram de acontecer e os exemplos são inúmeros :  nos jongos, nos encontros de associações de trabalhadores, nas festas  cívicas, religiosas e recreativas, e mesmo nos enredos das escolas de samba.

Hoje, faço aqui uma homenagem ao músico negro, Eduardo das Neves, que fez questão de gravar na nascente indústria fonográfica o que foi considerado, ainda em 1888, o hino popular da Abolição.   Como conseguiu convencer o empresário e emplacar essa gravação, até hoje não tenho ideia, mas, certamente, o músico conhecia bem o poder dessa nova tecnologia  em produzir registros duradouros sobre vozes e canções de evidente sentido político e transgressor.  Provavelmente, Dudu tenha gravado “A Canoa Virada”,  em 1909, quando também se comemorava, nas festividades do 13 de maio daquele ano, a entrada do político negro Monteiro Lopes na Câmara de Deputados Federal.

Registro aqui alguns versos do lundu a  “Canoa Virada”, uma evidente alegoria sobre o fim da escravidão:

A canoa virô
Deixá-la virá
De boca para baixo
Cacunda pro ar
Chegou ocasião da negrada bumbar

Depois de vilas e cidades
Andei pelos arrabaldes,
Não há quem não desejasse,
O dia da liberdade

 

Giovana Xavier

Carolina, Firmina e Conceição: intérpretes da liberdade

131 anos depois de assinada a Lei Áurea, a pergunta “o que aconteceu com a população negra no pós-abolição?” permanece atual. Muitas são as respostas possíveis. No 14 de maio de 1888, centenas de milhares de pessoas tornadas livres e milhões de outras nascidas livres ou libertas antes da lei seguiram suas vidas como trabalhadores. Para quem quiser conhecer mais sobre o assunto, a leitura do livro A vida dos escravos no Rio de Janeiro, de Mary Karasch é parada obrigatória. Na obra, a historiadora norte-americana apresenta uma lista de profissões desempenhadas pela população escravizada. Embora pouco se comente, barbeiros, mergulhadores, costureiras, parteiras, modistas, ourives foram ocupações, em muitos casos, hegemonizadas por africanos e descendentes na corte imperial.

Como exemplo da impossibilidade de uma “ciência neutra”, essa pluralidade de atividades profissionais exercida por pessoas de cor durante todo o período escravocrata (e que se manteve no pós-abolição) foi ignorada pelas Ciências Sociais das primeiras décadas do século XX. Exemplo disso é a expressão icônica usada por Florestan Fernandes para se referir a mulheres, homens, crianças negras depois do 13 de maio: “largados à própria sorte”.

A ideia legitimada por Florestan e seus colegas da Escola Sociológica Paulista durante a execução do projeto Unesco justificam muitas histórias únicas. Histórias contadas pela supremacia branca e que nos impedem de enxergar mulheres como Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance da história do Brasil (Úrsula, 1859), Carolina Maria de Jesus, escritora do célebre Quarto de despejo: diário de uma favelada (livro de 1960 traduzido para diversas línguas, com tiragem estendida de três para trinta mil exemplares) e, mais recentemente, Conceição Evaristo, ganhadora do Prêmio Jabuti com a linda obra Olhos d´água, como intelectuais negras.

A pergunta que fica é: por que em um país de 54,4% de pessoas negras soa absurdo pensar esse trio de mulheres como intérpretes do Brasil tal qual Caio Prado Junior, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Hollanda? Há quem torça o nariz para as dimensões passado-presente da nossa história. Tremendo besteirol, também conhecido como “mais do mesmo”.

Em 13 de maio de 2019, sou mais Carolina: “Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”. #DeixaEuDançar #LiberdadeDJRennandaPenha

 

Mônica Lima

Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será, um grande mal.”

Esta frase é do conto A Escrava, da escritora e professora negra maranhense Maria Firmina dos Reis, que foi publicado em 1887 na Revista Maranhense nº3. Ela já havia escrito antes um romance abolicionista (Úrsula), publicado em 1859. E, em 1888, compôs um hino à abolição: Hino da Libertação dos Escravos, com letra e música de sua autoria, que tem nos seus primeiros versos “Salve! Salve o Sol que raiou hoje, difundindo a Liberdade!”

Que tanto sabemos da luta, da militância de mulheres negras de diferentes regiões do Brasil pela abolição? Das resistências em suas mais diversas expressões, das fugas, dos enfrentamentos, da busca pela liberdade, protagonizadas por elas?  Certamente, ainda muito pouco.

“Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”

Em nove de janeiro passado completaram-se dezesseis anos da promulgação da lei 10639, que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e das lutas dos negros no Brasil. Com seus dispositivos ainda em vigor, tendo sido ampliada em 2008, com a inclusão da história indígena, mantem-se em sua integridade na lei de diretrizes e bases da Educação Nacional. Muito foi feito, e está sendo feito, para passar da intenção ao gesto, e implementar essa medida. Mas, muito mais falta fazer, e são cada vez mais difíceis os enfrentamentos. Sem deixar de reconhecer tudo que construímos, nosso passos adiante nessa luta pela real liberdade terão que se haver com as tentativas atuais de silenciamentos e negacionismos diversos, que tentam apagar ou reduzir o papel fundamental de negras e negros no processo abolicionista.

Nessa batalha pela nossa História, sugiro escolhermos nossas armas e estratégias. E entre elas, está iluminar as trajetórias pessoais dessas mulheres negras que fizeram parte da luta contra a escravidão: as que escapavam pelas quebradas da região do Cais do Valongo (fala, Catarina Cassange!), as que usavam de seu trabalho e seu saber para obter a alforria e defendiam essa liberdade como sagrada (fala, Teodora!), as abolicionistas militantes como Maria Firmina e tantas e tantas outras. Conhecê-las, e encontrarmos nelas parentesco e inspiração, torna-se um caminho para não perdermos o (p)rumo, além de desvelarmos as inverdades dos que querem invisibilizar suas histórias. O ensino de História pode – e já há quem o faça, seguramente, mas que sejamos mais – trazer as presenças vivas dessas pessoas, como matéria e material de estudo, para nosso arsenal de combate. Com elas, e perto delas, seremos mais fortes. E mais fiéis ao que nos move.

Por mais trezes de maio, feitos de muitas histórias negras.

A história de Catarina Cassange está no livro

FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio, SOARES, Carlos Eugênio, MOREIRA, Carlos Eduardo. Cidades Negras: africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista do século XIX. São Paulo: Alameda, 2006.

A história de Teodora Dias da Cunha está no artigo

“Teodora Dias da Cunha: construindo um lugar para si no mundo da escrita e da escravidão”, de Cristina Wissembach, publicado no livro FARIAS, Juliana, GOMES, Flávio e XAVIER, Giovana. Mulheres Negras no Brasil Escravista e do Pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.

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Liberdade de expressão, a Rede Globo, e a Escrava Isaura … por Paula Halperin com apresentação de Keila Grinberg

Na mesma semana em que mais de 10.000 intelectuais de todo o mundo expressam sua preocupação com os cortes anunciados pelo governo federal na área de Ciências Humanas, o Conversa de Historiadoras recebe duas importantes contribuições de historiadores de universidades norte-americanas sobre a liberdade de expressão no país. No último sábado, Sidney Chalhoub, Professor Titular de História do Brasil da Harvard University, reforça as conexões entre liberdade acadêmica e liberdade de expressão. No texto a seguir, a historiadora Paula Halperin, Professora Associada da The State University of New York, lembra as conexões históricas entre liberdade de imprensa e liberdade de expressão no Brasil. Que não haja dúvidas: universidades sem ciências humanas são universidades sem pensamento crítico. Não há ameaça maior à liberdade de expressão. (KEILA GRINBERG)

Liberdade de expressão, a Rede Globo, e a Escrava Isaura

Paula Halperin

No dia 26 de abril passado, o Senado realizou uma sessão solene em homenagem aos 54 anos da criação da TV Globo, inaugurada em 1965. Transmitida naquela mesma noite pelo Jornal Nacional, a comemoração foi conduzida por Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, contando com a presença do vice-presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho (filho de Roberto, fundador da emissora), outros executivos do Grupo, parlamentares e do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli.

A defesa da liberdade de imprensa e a qualidade e o didatismo da teledramaturgia da emissora foram os temas principais da comemoração. O Senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP;  autor do pedido para a realização do evento), expressou que, em um momento como o atual em que a liberdade de imprensa está sob ameaça, “a TV Globo é um baluarte na defesa da liberdade constitucional ao longo da história (…) [o evento ] é para homenagear a Rede Globo e seu papel de integração nacional, mas é também para a defesa desse valor fundamental presente na nossa Constituição”.

Hoje, qualquer manifestação publica de defesa à liberdade de imprensa não é só fundamental como urgente. O evento, contudo, esconde um conjunto de falácias históricas. Homologar a necessidade de uma esfera publica democrática e igualitária com uma emissora de televisão que forma parte do conglomerado midiático mais importante do país seria cômico, se não fosse trágico. Assegurar que a Globo tem sido garantia de democracia e um baluarte na defesa da liberdade constitucional é, no mínimo, uma distorção dos fatos históricos, já que é de domínio publico que o Grupo Globo apoiou abertamente o golpe de 64, cresceu e se fortaleceu com a ditadura militar e frequentemente se associou à campanhas e políticos abertamente conservadores e golpistas.

Pressionado pelos eventos de junho de 2013, quando manifestantes nas ruas acusaram a emissora de ter sido aliada da ditadura militar, o Grupo publicou um pedido de desculpas no jornal O Globo em 1 de setembro daquele ano. “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, foi o editorial que pretendeu reparar esse erro ao reconhecer publicamente o apoio. Dito reconhecimento, porém, faz referência só ao golpe, parcialmente justificado no artigo ao mencionar o radicalismo de Goulart e as antinomias da Guerra Fria. Se destaca, assim mesmo, a cumplicidade e o apoio dos outros jornais ao golpe, e sobretudo, uma suposta adesão massiva do povo brasileiro a ele. Nada se menciona sobre o comportamento da emissora e de todo o Grupo nos anos subsequentes, nem que a sua evidente modernização tecnológica, possível graças ao investimento do governo federal daqueles anos, foi o que permitiu à emissora se estender por todo o território nacional (cumprindo o projeto de integração tão almejado pelos militares) e reinar hegemônica durante décadas.

Esse reinado se estabeleceu assentado na qualidade do jornalismo e em uma teledramaturgia dinâmica, leve e moderna. Como a historiografia sobre o tema tem destacado, a “migração” de escritorxs, dramaturgxs e profissionais do cinema à emissora nos anos 60, em muito influenciou na construção de uma linguagem e uma estética inovadoras, principalmente na ficção narrativa, que ainda hoje enfatiza o realismo sobre o melodrama. Ciente desse fenômeno, o ministro Toffoli (recentemente envolvido em dois casos de imposição de censura a dois veículos da imprensa e participante da mencionada solenidade) homenageou em seu pronunciamento a qualidade da teledramaturgia brasileira que encontra nas novelas da emissora sua expressão mais verdadeira.

Segundo Toffoli, se não fossem as novelas da TV Globo, a população brasileira estaria assistindo a “enlatados da dramaturgia de uma outra nação, de outro país”, em obvia referencia à “dependência” de outras emissoras latino-americanas que, à diferença da Rede Globo, importam grande parte de sua programação dos Estados Unidos. A Globo, pelo contrário, exporta as suas novelas a vários países desde a década de 70, mostrando a cultura e as características dos brasileiros mundo afora, na ponderação do ministro. Considerando a novela Escrava Isaura (1976), ele se perguntou, “quem não se lembra de tanta coisa que aprendeu e conheceu da história do Brasil através da dramaturgia da Rede Globo?”.

A menção à novela Escrava Isaura não poderia ser mais propícia hoje, quando o racismo estrutural da sociedade brasileira se reproduz aberta e desavergonhadamente nas ruas, nas universidades e nas mídias. A ficção global da década de 70 procurou nas adaptações da literatura nacional esse “ser brasileiro” mencionado pelo ministro. Escrava Isaura, adaptação do romance homônimo de Bernardo Guimaraes (1875), personificou as  violências e injustiças da escravidão na figura de uma mulher branca, jovem, culta e submissa. Simplificando as razões históricas da escravidão no Brasil, omitindo o colonialismo, minimizando o caráter distintivo do racismo no país, a novela ensinou uma versão daquela historia aos brasileiros e brasileiras que a assistiam naquele ano de 1976 e na reprise no ano seguinte.

No final feliz e romântico da novela, Isaura ganha carta de alforria do seu amado, o fazendeiro abolicionista Álvaro, casando-se com ele e não sem antes liberar os escravos da fazenda onde vão morar, transformando as escravas e escravos em empregadas domesticas e peões rurais. No seu ultimo capitulo, a Escrava Isaura mostra os personagens negros dançando de alegria pela liberdade outorgada por Álvaro, para logo servir -na casa grande onde outrora eram escravos e escravas – os salgadinhos, bebidas e doces da festa de casamento dos seus novos patrões.

A novela enaltece a luta pela liberdade de Isaura e a coragem dessa e de outras mulheres brancas da história, que acham a escravidão hedionda e retrógrada. Isaura foi a heroína indiscutida da narrativa, amada no Brasil e no exterior, enquanto a experiente atriz Léa Garcia, que personificou a escrava-vilã Rosa, recebeu ameaças de telespectadorxs nas ruas. Sua personagem acaba se suicidando na novela; mesquinha, Rosa não suporta ver Isaura feliz, a própria liberdade não é suficiente. A narrativa menos pomposa, os diálogos mais ousados e realistas, a reconstrução de época e a bela fotografia nos exteriores convergeu com noções de harmonia racial e social que, aspirando ser ideologia oficial, circulavam no imaginário de uma época cheia de contradições e resistências.

Indubitavelmente, a educação sentimental de milhões de brasileiras e brasileiros (incluindo a de quem escreve e com certeza, a do próprio ministro Toffoli), cresceu, de forma peculiar, assistindo à teledramaturgia da Rede Globo. Com contradições, tensões e muitas simplificações, as narrativas históricas e sociais que as novelas projetaram e ainda projetam, não têm sido um reflexo das origens e trajetória conservadora da emissora, mas se relacionam de forma complexa e multifacetada com essa historia e a própria história do Brasil.   Em um momento como o atual, onde o saber acadêmico, o trabalho intelectual, a crítica, a militância politica das minorias e a liberdade de imprensa e expressão estão em risco, cabe a nós, historiadorxs, reconstruir essas narrativas, sem falácias nem meias verdades.

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LIBERDADE DE EXPRESSÃO, LIBERDADE ACADÊMICA … por Sidney Chalhoub

Reina a balbúrdia nas universidades da Bruzundanga. Ou ao menos é o que pensam sobre elas algumas autoridades governamentais. É preciso respeitar a liberdade de expressão. A bronca é livre, assim como a desinformação e a ignorância. Quase toda a pesquisa científica feita no país acontece em universidades particulares. O presidente e seus comandados podem ordenar o fim da sociologia, da filosofia, da astrologia e do que mais houver que lhes der na veneta. Pesquisas mostram que cigarro não faz mal à saúde. O aquecimento global é engodo marxista (Gramsci) para frear o desenvolvimento do capitalismo. O evolucionismo é uma hipótese tão plausível quanto Adão, Eva, o paraíso e a maçã. Nunca houve ditadura na América Latina. Na Bruzundanga, nem ditabranda. A Terra é plana.

Ó vida, ó céus, ó azar! Explicar tudo cansa, mas vamos lá, começando pelo começo (sic). Liberdade de expressão e liberdade acadêmica são conceitos diferentes. A segunda depende da primeira, mas é cousa doutro naipe. A liberdade de expressão se exerce no espaço público de forma ampla. É o direito de deitar falação sobre aquilo que se sabe ou não, que se ama ou odeia, sobre aquilo do qual pouco se lhe dá, que se deseja, que dá paúra, e assim por diante. Direito robusto, coqueluche do nosso tempo, defendido com galhardia por todos, mais eficazmente ainda por grandes empresas que exploram certos serviços tecnológicos globais. Algumas democracias do mundo impõem restrições a esse direito nosso de cada dia, para evitar que se berre em alto e bom som o desejo de exterminar outra raça, ou fiéis doutra religião, ou gente de orientação sexual diferente da nossa, etc. Mas a exceção não faz a regra. O que mais vale em democracias é o direito de cada um dizer o que lhe vem à cachola.

Liberdade acadêmica é o conjunto de condições institucionais que garantem a pesquisadores, professores e estudantes a produção de conhecimento com autonomia e independência –quer dizer, livre da ingerência do Estado e de outros grupos de interesse existentes na sociedade. É um ideal, um objetivo em permanente construção, um direito que se defende no dia a dia das instituições de ensino e pesquisa. A liberdade acadêmica diz respeito a enunciados de conhecimento, à prerrogativa de exprimir livremente o resultado de pesquisas científicas submetidas a critérios de demonstração e prova aceitos pelas comunidades de pesquisadores de cada disciplina, sujeitas à crítica dos pares, aos erros, às correções e acréscimos que estão no centro desse tipo de atividade. Há um mundo de regras e exigências que precisam ser satisfeitas para que se chegue a dizer algo cientificamente relevante. Não se chega lá sem a formação adequada obtida em cursos de graduação, mestrado, doutorado. Sem lidar com as questões feitas por bancas de titulação e de concurso; sem enfrentar o crivo de pareceristas de periódicos especializados, de editoras.

Como se vê, liberdade de expressão e liberdade acadêmica são cousas muito diversas. As universidades são espaços que, por sua natureza, acolhem e abraçam a livre expressão de ideias. A liberdade de expressão é valor crucial da vida universitária. Todavia, o exercício de tal direito nas universidades não cria prerrogativas que são decorrentes apenas da liberdade acadêmica. Achar que a Terra é plana não ajudará ninguém a se tornar bacharel em geografia. Não há biólogo que derive do criacionismo hipóteses a serem testadas nos laboratórios universitários. Ninguém será aprovado num concurso público a uma cadeira na área de história negando o fato de haverem ocorrido ditaduras militares na América Latina durante a chamada Guerra Fria. E assim por diante. A liberdade de expressão, por si só, não senta nos bancos universitários. O valor central nesses espaços é o conhecimento produzido em ambiente de liberdade acadêmica.

Os extremismos de direita, mundo afora, ignoram a diferença básica entre liberdade de expressão e liberdade acadêmica. Por malícia ou desconhecimento, o governo da Bruzundanga parece pensar que pode ditar o que se ensinará nas escolas e universidades do país. Não pode. Não passarão. Instituições de ensino e pesquisa são lugares de conhecimento e formação –exigem tempo, paciência, determinação, obedecem a regras e protocolos rigorosos. As universidades públicas brasileiras pertencem à sociedade. Foram construídas em décadas de trabalho por cientistas, professores, estudantes e funcionários. Expandiram-se nos últimos anos. Existem em maior número, estão maiores e melhores. Na medida do possível, tornaram-se mais inclusivas, trouxeram a sociedade para dentro delas. Tem muito a melhorar, como tem de ser, como é da natureza delas. Serão defendidas pela sociedade brasileira. E contarão com ampla e irrestrita solidariedade da comunidade acadêmica internacional.

Sidney Chalhoub

Professor of History, Harvard University

Professor Titular Colaborador, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

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#DitaduraNuncaMais

55557267_10205677916183655_7468210411276337152_nSobre o tema, recomendamos a leitura do texto do historiador Daniel Aarão Reis, na Ilustríssima de hoje, o artigo do The Intercept Brasil sobre o número de presos nos primeiros dias do Golpe de 1964,  o depoimento de Paulo Coelho no Washington Post e a reportagem do El Pais sobre documento da CIA  sobre ”Decisão do presidente brasileiro, Ernesto Geisel, de continuar com as execuções sumárias de subversivos perigosos, sob certas condições”. Recomendamos também a reportagem de Carlos Madeiro para o UOL sobre a repressão da ditadura aos movimentos negros antiracistas e, ainda, a a reportagem da Midia Ninja sobre os dados da Comissão Nacional da Verdade sobre o holocausto Indígena nos anos de chumbo.

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