Arquivo do autor:Papo Coletivo

Sobre Papo Coletivo

Além da parceria Hebe e Martha, muitos outros textos coletivos podem surgir das nossas conversas, escritos a 4, 6, 8, 10 ou 12 mãos. A caneca sobre os livros simbolizará este papo coletivo. As autoras assinarão o post.

Boas Festas!

Queridos amig@s do Conversa de Historiadoras.  Desejando boas festas, fechamos o blog de 2017 e entramos em recesso.  A princípio, voltaremos – como boas brasileiras – depois do carnaval. Passamos o dia de ontem trocando mensagens que, aproveitando o espírito natalino, compartilhamos com os amigos do blog.

GIOVANA XAVIER: Juntas somos mais fortes! Mulheres incríveis, indispensáveis ao mundo, e para mim essenciais como referência e fonte de inspiração. Nesse 2017 foi muito bom estar com vocês em conversas de historiadoras sobre raça, gênero, feminismos, escravidão, pós-abolição e tantas outras pautas. Lindo presságio me dar conta de que, após um dia sem celular, enquanto me divido entre o forno, a cerva no grau e a lista mirim para Papai Noel, dedicamos tempo para contemplar e compartilhar em registros sensíveis o arco-íris que tomou conta da cidade caótica, porém também maravilhosa. Amo vocês! Feliz Pretas Festas! Obrigada a todo mundo pela caminhada de mãos dadas. Pode vir 2018!

 

KEILA GRINBERG: Aqui nesse blog nós adoramos falar. Por whatsapp, por email, de viva voz, nós conversamos e conversamos. Ao contrário do que talvez possa parecer a quem nos lê, concordamos um pouco e discordamos muito –  só que discordamos acaloradamente nos detalhes e concordamos apaixonadamente no essencial. O ano que começa nos exigirá força e alegria para proteger a liberdade das boas conversas, aquelas bem relaxadas, em que ninguém tem medo de dizer o que pensa, todos falam, todos escutam e ninguém ganha no berro. Que em 2018 continuemos, todos, concordando no essencial: que o diálogo vença o grito.

MÔNICA LIMA: Não seja tão leviano/Respeita minha Aruanda/Tem quase cinco mil anos/ De existência minha banda (Alabê de Jerusalém)

E lá se vai 2017. Dirão alguns – prenhes de razão, como o Jorge Maravilha do Chico Buarque – “já vai tarde”. A onda conservadora e racista que cresce, impudica e violenta; a perda acelerada de direitos tão duramente conquistados; o estreitamento dos espaços para a Arte e a Cultura; a política deliberada de desmantelamento das universidades estaduais no Rio de Janeiro – que ainda assim, resistem -; tudo isso e uma lista interminável de coisas ruins que chegaram e se anunciaram nesse ano. Querer que essa marca do tempo que passa seja superada é uma forma de dizer que se acredita que há uma mudança possível, para o bem, e que caminhar decidido em direção a ela, começando um novo ano, dá um gás na alma e no corpo cansados.// No verso do Alabê de Jerusalém que abre esse trecho do post, está contida uma ideia que me fortalece nesses tempos de desânimo, olhando o mundo e minha família ampliada: nossos ancestrais foram obrigados a fazer a travessia nos porões dos navios e sofreram muito, mas têm cinco mil anos de história de criação de belezas e conhecimento, resistência e afirmação. Estou com elas e eles nessa e em muitas horas. Temos uma longa história, que estudo por ofício, prazer e compromisso. E por isso, celebro e luto.// Nesse ano teve a Mwana – Infância e Relações Raciais no Brasil e na África, uma exposição linda no Espaço Jessie Jane Vieira de Souza da UFRJ, que gerou muitas atividades. Com os erês, as crianças, celebramos a vida e as lutas contra o racismo, e as infindas alegrias de brincar. Poucas coisas podem fortalecer mais a nossa vontade de seguir em frente do que a responsabilidade frente aos pequenos seres humanos que merecem um mundo muito, mas muito melhor do que esse que vivemos hoje. E nessa história, perceber que brincadeira é coisa séria, assim como contação de história, roda de capoeira, ou dançar e cantar ao som do dvd Nana e Nilo– personagens infantis negros de desenho animado brasileiro. Na roda, na gira. Tudo isso foi 2017 também.// Portanto, estamos prontas para 2018.

HEBE MATTOS/MARTHA ABREU/ANA FLÁVIA MAGALHÃES PINTO// 2017 passou rápido e pesado. A crise entre capitalismo e democracia se aprofundou no mundo todo, proliferaram fundamentalismos de todos os tipos e o impensável foi se transformando em rotina. Por outro lado, a imprevisibilidade da história nunca foi tão esperada. Continuamos a acreditar nos efeitos positivos da democratização e ampliação dos atores políticos, no Brasil e no mundo. 2018 pode surpreender!

Recebam nossos votos de boas festas e de muita saúde, paz, afetos e democracia no novo ano.

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Como me tornei historiadora… divulgando a imperdível entrevista de Giovana Xavier ao NEXO JORNAL!

O blog hoje divulga a entrevista de Giovana Xavier, ao NEXO JORNAL, que começa indagando: Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

GIOVANA XAVIER

Esta é uma pergunta difícil de responder porque ela é resultado de muitas histórias. Fui criada por uma família de mulheres negras que acreditaram e colocaram em prática o poder da educação como instrumento de liberdade e ascensão social. Minha mãe, Sonia Regina (ancestral) foi a primeira da família a cursar a universidade. Isso revela uma característica típica de famílias negras: o investimento na formação de um indivíduo (geralmente o mais novo) como projeto de liberdade e transformação coletivo. Essa marca, sempre presente nas histórias que hoje escuto meus estudantes pretos contarem, é um saber que temos aprimorado como comunidade negra e que evidencia os limites da meritocracia como conceito que dê conta de explicar as oportunidades desiguais que recebemos a depender de quem somos em termos raciais, de gênero, de classe, sexualidade. Então posso dizer que o fato de ter sido socializada em um matriarcado que acreditou que eu poderia ser quem eu quisesse, estimulando-me a ler, escrever, aprender outros idiomas, motivou-me a transgredir, indo além do destino esperado para as meninas negras do Brasil: o trabalho doméstico, ramo em que inclusive trabalhei por um tempo, quando fui arrumadeira de pousada na Ilha Grande na adolescência. Meu primeiro trabalho foi aos 11 anos, entregando panfletos “Vendo Ouro” na ponte do subúrbio do Méier, no Rio de Janeiro, onde fui criada. Até hoje tenho pavor de receber esses papéis, por saber das violências e perversidades que rodeiam a juventude que desde cedo tem de se virar, encarando a rua como local de trabalho. Essas experiências de inserção no mercado informal somadas à oportunidade de ter estudado em uma escola branca de classe média me geraram um ponto de vista denso sobre como estar em dois mundos e, do interior deles, criar o meu próprio. Acho que esta tem sido minha busca pelo “caminho de casa”, para usar a expressão marcante da escritora ganense Yaa Gyasi. Na linha “força, foco e fé”, pergunto-me diariamente: como, na condição de mulheres negras, podemos e devemos reivindicar a intelectualidade, construindo um universo para chamar de nosso, dentro e fora da academia? A história, enquanto matéria dedicada à interpretação de processos sociais e à construção de identidades individuais e coletivas, oferece ferramentas para responder à minha pergunta. Entretanto, estamos falando ao mesmo tempo de uma disciplina que contradiz minha própria motivação se considerarmos que ela foi criada a partir de uma lógica branca, masculina e eurocêntrica. As ferramentas da história e da academia como um todo precisam ser empretecidas na forma de uma ciência para o negro, conforme sinalizado pelo sociólogo Eduardo Oliveira e Oliveira e pela historiadora Beatriz Nascimento nos anos 1980. Entendendo-me como continuidade, essa é minha missão, definida por meus ancestrais. É isso que me motiva a seguir fazendo ciência, diariamente.

Para a íntegra da entrevista: https://www.nexojornal.com.br/profissoes/2017/10/16/Como-me-tornei-historiadora-e-a-vida-entre-livros-arquivos-e-salas-de-aula

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Arquivado em ações afirmativas, antiracismo, historiografia

Hebe Mattos: novas histórias (#lacre)

Bela nova caminhada amiga

Martha Abreu

Dia 8 de outubro foi dia de seu aniversário e de comemorações pela sua entrada na Universidade Federal de Juiz de Fora, como professora titular.  Novos desafios e conquistas esperam minha grande parceira.  Seu brilho acadêmico, coragem intelectual, poder de argumentação e  sensibilidade de análise para as mais diferentes situações, em breve, irão contagiar muita gente.

Conheci Hebe quando éramos muito jovens e entrávamos no mestrado em 1981! Os sonhos eram vários e os projetos para mudarmos o mundo – e se possível a historiografia – bastante fortes também. Logo passei a admirar aquela jovem brilhante, que lia muito mais rápido do que eu e que tinha sacadas impressionantes. Além de tudo, conseguia conciliar a maternidade com a produção acadêmica. Hebe mostrou a todos que era possível ser mulher, mãe, intelectual e professora reconhecida. Tudo ao mesmo tempo!

Por essa época fizemos alguns trabalhos juntos e estudamos para um concurso que nenhuma das duas foi bem sucedida. Nada poderia prever a qualidade e a força de uma parceria que aconteceria algum tempo depois. Em meio a constantes conversas pelos corredores da UFF, depois que me tornei professora da UFF, em 1991, o jongo de São José da Serra e os debates em torno da  Lei 10.639 iriam nos unir de vez através de nossos interesses sobre escravidão/abolição e cultura negra.

No momento quero agradecer por todas as nossas parcerias e cumplicidades. E, mais ainda, desejar muitas alegrias, afetos e realizações nesse novo momento de sua vida. Mesmo com diferentes endereços institucionais, estaremos juntas, sempre. Bela nova caminhada amiga!

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Hebe Mattos, Martha Abreu e Robert Slenes com Marilda de Souza, liderança do Quilombo do Bracuí. Angra dos Reis, 2005.

Tudo novo, de novo

Mônica Lima

Conheci Hebe Mattos logo depois que ela defendeu sua linda tese de doutorado, que se transformou no livro Das Cores do Silêncio, leitura necessária pra’ se entender o Brasil do século XIX e de hoje. Para os estudos sobre a escravidão, nem precisa dizer, é um clássico. Desse momento em diante passei a acompanhar sua produção acadêmica, incluindo os lançamentos dos filmes do projeto Passado Presentes e diversas outras atividades. Sempre me encantava e me surpreendia seu entusiasmo em cada novo projeto – e sempre havia novidades! No diálogo com as áfricas das minhas pesquisas, encontrava pontes de contato e referências nos seus trabalhos.

No doutorado na UFF foi minha orientadora e me lembro bem que saía das reuniões com ela levando ideias novas sobre o que estava escrevendo e uma sensação muito boa de que tudo aquilo iria dar certo. Para um pós-graduando há poucas coisas tão fundamentais como a produção dessa autoconfiança. No decorrer da minha vida profissional após o doutorado, tivemos a chance de fazer outras coisas juntas. E todas as vezes essas situações de trabalho vinham trazendo um mundo de possibilidades novas para olhar e pensar o que eu estava fazendo com minhas aulas e minhas pesquisas de História. Fora isso, sua atitude militante como historiadora me enche de coragem pra fazer o mesmo na luta contra o racismo e pelos espaços negros na universidade.

Mas, o assunto aqui não sou eu. É ela.

Hebe Mattos, depois de uma vida – ou várias – na Universidade Federal Fluminense, vai para outra universidade, em outra cidade, outro estado. Tudo novo, de novo. Estou celebrando por ela e por todos os estudantes e colegas que irão tê-la como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. Celebro também por que já imagino que ela vai continuar criando projetos, inventando coisas novas e iluminando vários caminhos a partir desse novo lugar. O que ela está trazendo com o tema passados sensíveis é um novo campo dos estudos sobre a história de africanos e seus descendentes e sobre o Brasil. Que venha, Hebe. Parabéns muitas vezes, e que a ousadia e o brilhantismo de sua trajetória como historiadora sigam nos inspirando.

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Felizardos os alunos da UFJF

Keila Grinberg

Quando defendi minha tese de doutorado, a primeira orientada pela Hebe (há controvérsias, mas desse título não abro mão!), escrevi que era fácil reconhecer seu dedo em várias partes do texto e na própria forma de conceber a questão que o motivou. Hebe me presenteou com a trajetória de Antonio Pereira Rebouças, dividindo comigo um tema de estudo que seria e ainda é seu.

Este não seria o primeiro presente da Hebe para mim. Anos antes, ela havia dividido comigo a pesquisa sobre as ações de liberdade no Arquivo Nacional – que eu só “descobri” porque ela havia me dito onde estavam. E agora, passados tantos anos, ao achar que estava definindo um tema novo, lá estavam as questões sobre as quais ela já me havia chamado a atenção. Seu dedo continua lá.

Ainda hoje não dou um passo acadêmico — dizendo melhor, acho que não dou um passo — sem me consultar com a minha para-sempre-orientadora. Tive a maior sorte de ter a Hebe como professora na graduação e na pós-graduação da UFF. Felizardos os alunos da UFJF!

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Caminhos abertos!

Ana Flavia Magalhães Pinto

Uma historiadora da escravidão no Brasil compromissada em dialogar com as questões e as pessoas do tempo presente. Essa foi a imagem que formulei a respeito de Hebe Mattos desde as primeiras leituras que fiz de seus textos lá pelo ano de 1998. Ainda estudante de jornalismo, minha expectativa era permanecer atenta à produção daquela professora e trabalhar para que um dia ela figurasse no meu caderninho de fontes que me permitiriam falar com propriedade sobre experiências da população negra e o problema do racismo na sociedade brasileira, argumentar sobre a legitimidade das ações afirmativas, etc.

Acontece que a influência do pensamento e da postura de Hebe Mattos acabou sendo decisiva para que a produção historiográfica se tornasse bem mais que um instrumento acessório do meu fazer jornalístico. Virei historiadora porque pessoas como ela despertaram em mim o fascínio pelo ofício! Foi lendo Hebe, aliás, que me dei conta da importância de se investigar os caminhos da liberdade da gente negra antes e depois da abolição. É, portanto, com muita alegria e gratidão que celebro sua vida e sua coragem para alterar rotas, modelos e práticas da pesquisa acadêmica, evidenciando a relevância do nosso trabalho na construção de uma sociedade de fato democrática!

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É o poder!

Giovana Xavier

Para celebra-la em palavras lembrei-me do Programa Mulher e Ciência criado pelo CNPq em 2005. A iniciativa, que conta com uma rica base de dados, comprova que ainda que as desigualdades de gênero definam a distribuição de recursos e conhecimentos no Brasil, numericamente mulheres e homens estão em paridade como pesquisadores. Ao mesmo tempo, esse avanço não apaga o difícil desafio de ser mulher e fazer ciência em um país patriarcal e conservador como o nosso. E toda vez que vejo, leio, ouço Hebe Mattos repasso essa história e ponho-me a pensar: como nos anos 1980 uma mulher jovem, mãe, de baixa estatura ousou se aventurar pelos falocêntricos caminhos da história agrária, constituindo-se como referência com o eternamente bombástico Das cores do silêncio? Com o tempo, primeiro na condição de leitora, depois de aluna, hoje de amiga e parceira de trabalho, fui aprendendo a ver que a coragem é um traço, diga-se de passagem sempre ressignificado por Hebe, que após experiências diversificadas de ensino e pesquisa em diferentes partes do globo terrestre, se joga no desafio de voltar no tempo olhando para frente. Ela, que chegou à UFF como docente aos 25 anos, é a mais nova Professora Titular Livre de História do Brasil na Universidade Federal de Juiz de Fora. Aos 59 anos, conquistou a vaga ao estilo lacre de ser, ou seja, trazendo para o centro da discussão as relações entre história, memória da escravidão e o compromisso que nós historiadoras (es) devemos assumir com as transformações através do conhecimento científico que produzimos. Hebe querida, parabéns! Que você siga olhando o passado e mirando o futuro tal qual o pássaro do Adinkra Sankofa.

Conversa brinda com Ana Maria

 

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Gumercindo Dórea: nem vilão, nem herói_Resposta a José Nêumanne, por Laura de Oliveira.

A historiadora Laura de Oliveira, Professora do Departamento e do curso de Pós-Graduação em História da UFBA, nos escreveu solicitando publicar uma resposta à crítica ao seu livro “Guerra Fria e Política Editorial”, publicada no blog do jornalista José Nêumanne, no Estadão. Em defesa do debate intelectual aberto e de alto nível, Laura de Oliveira hoje é a historiadora do blog.

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Gumercindo Dórea: nem vilão, nem herói/ Resposta a José Nêumanne por Laura de Oliveira (contato Laura.oliveira@ufba.br)

No dia 03 de setembro, José Nêumanne publicou em seu blog “Direto ao assunto”, vinculado ao jornal O Estado de S.Paulo, matéria intitulada “Herói tratado como um vilão”, em que faz crítica direta ao meu livro “Guerra Fria e Política Editorial” (Maringá, PR: EDUEM, 2015). Entre outros adjetivos, o jornalista o qualifica como “stalinista”, “grotesco” e “sofrível”, que por si só justificam meu direito de resposta.

O livro é resultado de pesquisa de doutoramento que desenvolvi durante quatro anos na Universidade Federal de Goiás (UFG), sob orientação da professora Dra. Fabiana de Souza Fredrigo, com período de estágio na Georgetown University, nos Estados Unidos, onde contei com supervisão do professor Dr. Bryan McCann. Ao longo do período, realizei pesquisas em arquivos nos dois países, entre os quais o Arquivo Municipal de Rio Claro (SP), o Arquivo Nacional (RJ), a Mudd Manuscript Library da Princeton University (EUA) e a National Archives and Records Administration, NARA II (EUA). As pesquisas possibilitaram acesso a abundante documentação acerca da história da Edições GRD, fundada pelo Sr. Gumercindo Rocha Dórea em 1956 e objeto da pesquisa.

O rigor na coleta das fontes, a qualidade da análise e os méritos do texto historiográfico produzido a partir delas vêm sendo reconhecidos pela comunidade intelectual brasileira: em 2014, fui finalista do Prêmio de Teses CAPES/MEC e laureada com menção honrosa. No ano seguinte, venci o Prêmio Manoel Salgado de Teses, promovido pela Associação Nacional de História (ANPUH), o mais importante prêmio concedido a teses em História no Brasil. Em seguida, a ANPUH encaminhou o manuscrito à editora da Universidade Estadual de Maringá, filiada à Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU) e identificada pela qualidade científica e técnica dos seus títulos.

A recepção a “Guerra Fria e Política Editorial” tem sido positiva.  Em 07 de novembro de 2015, o jornalista Claudio Leal publicou matéria (“Editor que revelou Rubem Fonseca combatia comunismo para os EUA”) no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, baseando-se em informações contidas no livro e em entrevista que fez comigo por e-mail. Em 2016, a historiadora Lucia Grimberg (UNIRIO) publicou resenha sobre o livro na Revista Brasileira de História, onde afirmou que “a historiadora Laura de Oliveira desenvolve uma reflexão relevante e atual sobre o campo das direitas políticas”.

A Edições GRD é reconhecida nos meios editorial e literário como a principal responsável pela instituição de um campo para a ficção científica no Brasil. Em seus mais de sessenta anos de atividade, ela foi responsável pela tradução pioneira de autores como Ray Bradbury, Robert Heinlein, Robert A. Lee, Ievgeny Zamiátin, Abram Tertz e outros, assim como pelo lançamento de nomes importantes da literatura nacional, como Rubem Fonseca, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Nélida Pinõn, etc. Sua importância para a cena cultural brasileira é, portanto, indiscutível.

É do mesmo modo inquestionável que a literatura de ficção científica constitui um gênero plural, em que se encaixam subgêneros como ficção especulativa e fantasia, mas também uma gama de temas, como catástrofe ambiental, parapsicologia, inteligência artificial, vidas extraterrenas, etc. O tema “totalitarismo” e sua abordagem frequentemente distópica constitui uma dessas veias, cujo pioneirismo é atribuído ao emblemático livro do russo Zamiátin, We ou Nous autres (traduzido pela GRD como “A muralha verde”, em 1963).

A Edições GRD é, entretanto, bem mais do que isso. Gumercindo Rocha Dórea, com quem a editora se confunde, é um personagem central e instigante da história política brasileira. Sua trajetória atravessa a rearticulação do movimento Integralista após o fim do Estado Novo, os antecedentes imediatos do golpe civil-militar de 1964 e a presença dos Estados Unidos no Brasil (para usar a expressão emblematizada por Moniz Bandeira). Nesse sentido, diferentemente do que fizeram – com muita competência – autores como Mary Elizabeth Ginway, decidi investigar a história da editora focalizando a política e atribuindo à ficção científica um papel acessório, ao contrário do que o texto de Nêumanne faz parecer.

Em entrevista que realizei com o Sr. Gumercindo Dórea em sua casa, em São Paulo, em 2009, tomei conhecimento do convênio que ele estabeleceu, entre as décadas de 1950 e 1960, com uma agência de Estado norte-americana chamada United States Information Agency (USIA). A informação a mim confiada já havia constado em matéria jornalística assinada por Oswaldo Camargo no Jornal da Tarde, publicação de O Estado de S.Paulo, em 1986. A pesquisa documental confirmou não apenas o convênio da GRD com a USIA, mas o modo como o programa (Book Development Program) financiou mais de sessenta editoras brasileiras ao longo de vinte anos (1953-1973). No caso específico da GRD, o patrocínio fomentou dezenas de títulos de história, sociologia e ciência política cuja tônica fundamental era o anticomunismo.

Nêumanne menciona a trajetória de Gumercindo como integralista, assim como as relações entre a GRD e a Livraria Clássica Brasileira (LCB), de Plínio Salgado (que também foi financiada pela USIA para a produção da coleção “Estrela do Ocidente”), objetos do capítulo 1 do livro. No entanto, não menciona o conteúdo dos capítulos 2 e 3, que se referem, respectivamente, ao comprovado envolvimento de Gumercindo Dórea no golpe civil-militar de 1964 e às suas relações com a chamada Guerra Fria cultural travada pelo governo norte-americano.

O capítulo 2 demonstra as relações entre a GRD e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), instituição carioca detentora de vínculos com o governo e com empresas norte-americanas, responsável pelas principais articulações políticas que presidiram o golpe em 1964.  O instituto possuía um núcleo específico para a produção e a circulação de livros anticomunistas, onde a editora GRD cumpriu papel central, conforme já indicaram historiadores como René Armand Dreifuss, Laurence Hallewell e Martina Spohr Gonçalves.

No capítulo 3, baseio-me em farta documentação para descrever o funcionamento do programa da USIA, demonstrando como a publicação de livros sem identificação do financiamento pelo Departamento de Estado constituiu-se como estratégia de propaganda largamente utilizada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Entre 1964 e 1967, a divulgação dessas práticas pela imprensa norte-americana gerou alarde naquele país, com jornalistas e parlamentares (da oposição, republicana, e da situação, democrata) bradando contra a propaganda ideológica subterrânea empregada pelo presidente Lyndon Johnson – algo que havia começado durante o governo Eisenhower e que se manteria, pelo menos, até o governo Nixon. A imprensa norte-americana chegou a dizer que eles estavam se comparando ao “ardil do inimigo soviético”. Ironicamente, a capa do meu livro, que Nêumanne qualifica como “grotesca”, foi extraída do caderno Book Week, do The Washington Post de 05 de fevereiro de 1967, que produziu uma das matérias em questão. Uma leitura atenta do livro não deixaria escapar essa informação.

book_weekCapa do caderno “Book Week”, do The Washington Post, reproduzida em “Guerra Fria e Política Editorial”. National Archives and Records Administration (NARA). USIA Records.

A celeuma instaurada nos Estados Unidos demonstra que aquele país, como o Brasil, é eivado de contradições. De um lado, a história da sua política externa, particularmente aquela dirigida à América Latina, remonta ao apoio a regimes ditatoriais, bem como à utilização de práticas escusas de propaganda para influenciar o jogo político. Esse fato já foi amplamente anunciado, inclusive, por historiadores norte-americanos da importância de Thomas Skidmore e James Green. De outro lado, a democracia continua sendo inegociável para considerável parte do povo norte-americano, que não hesita em questionar as contradições de seu governo quando explicitado o uso do argumento democrático para fins outros que não assegurar a soberania e a emancipação de todos os povos. Não por acaso, naquele país, meu trabalho também tem obtido reconhecimento no ambiente acadêmico dos chamados “brasilianistas”.

Com efeito, o capítulo 4 do livro dedica-se ao universo da ficção científica, subsidiando a tese de que o anticomunismo se constituiu na veia central do programa editorial da GRD, assumindo contornos específicos na linguagem da literatura distópica. A análise rigorosa de romances como “A muralha verde” (Zamiátin), “Balada de Estrelas” (Altov e Juravleva), “Começa o julgamento” (Abram Tertz), “A 7ª. Questão” (Robert A. Lee) e outros, assim como dos seus paratextos editoriais (orelhas, prefácios e posfácios escritos por Dórea), não deixa dúvidas a esse respeito. A realidade soviética era afirmada pelo editor como uma ameaça que rondava o Brasil, o que convocava os leitores brasileiros à reação política encarnada naquilo que as direitas brasileiras convencionaram chamar de “Revolução de 1964”.

É, no mínimo, simplória a interpretação de que Gumercindo Dórea seja um vilão na história do Brasil, tampouco vassalo dos Estados Unidos. Ele foi um ator importante, que ocupou diversos espaços associados às elites políticas brasileiras ao longo do século XX. Se, em sua atuação, envolveu-se em estratégias pouco democráticas, como a da propaganda subterrânea norte-americana, essa é a questão central que o livro tematiza e problematiza. Gumercindo Dórea não é tampouco herói, e o livro lhe faz justiça quando reconstrói sua trajetória com honestidade intelectual e baseado nos procedimentos mais caros à prática historiográfica: análise rigorosa das fontes, interpretação e narrativa acurada.

Engana-se quem pensa que a Guerra Fria cultural não tenha existido, ou que seus estratagemas tenham ficado no passado. No momento político atual, depois que a Câmara e o Senado norte-americanos aprovaram leis de criação de uma agência de propaganda nos moldes da USIA (Strategic Communications Acts de 2008 e 2009), dez anos depois de ela ter sido extinta pelo presidente Bill Clinton, o debate sobre o tema faz-se mais do que necessário. Nesse sentido, na contramão do argumento, sublinho que José Nêumanne acaba por fazer propaganda de “Guerra Fria e Política Editorial”, embora, em nenhum momento, lhe tenha feito justiça.

 

 

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João José Reis: DISCURSO EM AGRADECIMENTO AO PRÊMIO MACHADO DE ASSIS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 20 de JULHO de 2017

Sou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Prêmio Machado de Assis. Sendo um historiador da escravidão (embora não apenas) permitam-me imaginar a concessão do prêmio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem àqueles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravidão — penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, muito especialmente, Machado de Assis, que dá seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, além de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravidão, no que acompanho um de seus mais destacados intérpretes, Sidney Chalhoub, também historiador da escravidão.

Outro historiador, o acadêmico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: “A escravidão foi o processo mais importante e profundo de nossa história.” Não podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de suas vítimas; e o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.  Ela deixou marcas indeléveis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de várias espécies – as desigualdades sociais e raciais, o racismo sistêmico, o racismo episódico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (já chamado “racismo virtual”), hoje o principal veiculo de pregação de todos os ódios, inclusive do ódio racial.

O Brasil precisará de esforço hercúleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informação, mais educação e ações afirmativas, umas entrelaçadas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas últimas décadas. Entre elas, destacaria três: as cotas educacionais, o ensino da história afro-brasileira e a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.

As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades públicas já resultaram em mudança na cor dessas instituições, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prestígio – Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas estão dando certo.

A introdução, no ensino fundamental e médio, de disciplina voltada para a história e a cultura afro-brasileiras, com ênfase na história da África, prometia uma equiparação a conteúdos sobre a história da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a África voltou a ser emparedada naquela acepção, denunciada por Cruz e Souza, de “África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, África dos suplícios e das maldições eternas”, enfim, a África que predomina na grande mídia, refém de uma “história única”, na expressão certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Torço pelo retorno da África às escolas.

Uma história de outras vozes está representada na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tráfico luso-brasileiro de cativos. Essa instituição acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas Áfricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa mensal de 530 reais. Pois a comunidade da UNILAB esteve ameaçada recentemente com o corte desse minúsculo item do orçamento nacional. Urge defender a UNILAB!

Políticas de inclusão racial, além do esforço para educar e informar todos os brasileiros sobre a imensa contribuição dos africanos e seus descendentes para a formação histórica e cultural do país, são, entre outras, medidas necessárias – não sei se suficientes – no combate ao legado nefasto da escravidão. Prefiro acreditar que seja produto da ignorância, e não desfaçatez, gestos de delinquência simbólica como batizar um restaurante chique de Senzala. Desejo, desejamos um país onde não seja preciso uma jovem negra empunhar, numa recente manifestação de rua, cartaz que dizia: “A casa-grande surta quando a senzala aprende a ler.”

Invocar a escravidão passou à ordem do dia. Com uma maioria de detentos negros (cerca de 60%) amontoados em espaço exíguo, nossas prisões são comparadas a senzalas onde não é servida a boa comida do restaurante Senzala. Comparação talvez injusta, porque a vida de seus escravos valia mais para o senhor do que parece valer a vida dos presos para os governos e a sociedade que, conivente, se cala. Preso não conta como cidadão, ele é preto, ou, se branco, é também preto de tão pobre – já acusou Caetano Veloso. A precariedade da cidadania, filha da desigualdade social e racial, tem sido vinculada ao passado escravista com insistência. Ainda na semana passada, Milton Hatoum escreveu em sua coluna de O Globo: “Quase quatro séculos de escravidão, e mais de um século de uma democracia manca, interrompida por várias ditaduras, só poderiam gerar uma sociedade extremamente desigual.”

Há, no entanto, outra dimensão inquietante nessa ordem de questões, que é quando, em vez de alegoria, a escravidão se insinua como dado de realidade efetiva ou em construção.

Como no passado, o ciclo começa com o tráfico – de trabalhadoras e trabalhadores sexuais, domésticos, industriais ou rurais. Imigrantes legais e ilegais são com frequência resgatados de porões insalubres nas grandes cidades, onde trabalham, moram e morrem. Na zona rural chovem denúncias de pessoas submetidas a trabalho (forçado, exaustivo, degradante) análogo à escravidão, matéria que hoje mobiliza pesquisadores e membros da Justiça do Trabalho numa discussão que já ganhou foro internacional.

A recentíssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Luís Alexandre farias, “as mudanças criam condições legais e permitem que a legislação banalize aquelas condições que identificamos como trabalho análogo ao escravo”. E a respeito do princípio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maurício Ferreira Brito, que encabeça a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravidão voluntária: “A depender do que se negocie”, ele alertou, “você pode legalizar práticas do trabalho escravo.” Seria uma graça que este procurador fosse tão ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licença agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. Não me convencem as ressalvas da lei: se isso não é trabalho degradante, o que mais será?

Sobre a reforma trabalhista, aceitem um exercício de imaginação pessimista. Não resisto a comparar o “trabalho intermitente” ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo à rua para alugar ele próprio sua força de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locatário. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprirá fazê-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poderá, como autônomo intermitente servir em vários estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascerá, assim, o professor ao ganho.

Some-se a recente Lei da Terceirização e alcançamos o quadro quase completo de precarização radical do trabalho. A terceirização agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na segurança ou na limpeza, poderão doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e fazê-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascerá, então, o professor de aluguel.

Por felicidade, já passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedicação exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um professor pesquisador. À minha universidade e aos órgãos de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agradeço ter podido escrever a obra historiográfica agora premiada. Dela já falou, com generosidade, o professor José Murilo de Carvalho.

Queria apenas acrescentar que meus livros, artigos, capítulos em coletâneas etc, foram e continuam a ser escritos com paixão pelos temas de que tratam, sem o selo de garantia da objetividade perfeita exigida pelo positivista. Busquei, sim, a compreensão weberiana. No entanto, não permito que minhas inclinações ideológicas e minha utopias pautem as interpretações que faço dos processos, episódios e personagens sobre os quais escrevo. História panfletária, nem pensar! Me curvo às evidências que brotam dos arquivos, e elas não cessam de surpreender com um universo muito mais complexo do que caberia numa explanação fácil e porventura maniqueísta, que divida o mundo entre o herói e o bandido.

Meus livros são povoados de escravos que fogem de toda parte para toda parte, criam quilombos nas periferias da Cidade da Bahia ou nos mangues de Barra do Rio de Contas, se levantam em nome de Alá e de Ogum, mas nesses escritos também se encontram escravos que negociam com seus senhores um cativeiro menos opressivo. Escravos que querem e senhores que permitem a acumulação de bens e a compra da alforria. A maioria de meus personagens têm nomes, subjetividade, não são peças passivas da máquina escravista. Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, João Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina, homens e mulheres à frente das revoltas escravas baianas. O alufá Rufino José Maria, liberto malê que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatlântico de gente. Domingos Sodré, adivinho e curandeiro nagô que fornecia beberagens a escravos para amansar seus senhores, mas era ele próprio senhor de escravos. Manoel Joaquim Ricardo, dono de dezenas de escravos, liberto haussá que prosperou a ponto de ser contado entre os homens que formavam os 10% mais ricos de Salvador. E alguns outros mais…

Contudo, termino com um aviso aos navegantes: a ascensão social aconteceu para poucos escravos desembarcados ou nascidos no Brasil. A maioria morreu escravizada. No balanço final, fico com Joaquim Nabuco, que escreveu:

Não importa que tantos dos seus filhos espúrios tenham exercido sobre irmãos o mesmo jugo, e se tenham associado como cúmplices aos destinos da instituição homicida, a escravidão na América é sempre o crime da raça branca, elemento predominante da civilização nacional…

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Dossiê Conversa de Historiadoras Negras – Cotas na Unicamp Já!

Na próxima terça-feira, dia 30 de maio de 2017, o Conselho Universitário da Unicamp decidirá a respeito da adoção das cotas raciais no sistema de ingresso dos seus cursos de graduação. A mobilização está intensa e animada. Já nesta segunda-feira, 29, será realizado um Festival/Ato pelas Cotas, que contará com a participação de ativistas, artistas e demais membros da comunidade acadêmica.

Cotas 1

O Blog Conversa de Historiadoras se soma à essa onda contra o racismo e, portanto, em defesa da democracia, apresentando hoje um papo coletivo preto, o Dossiê Conversa de Historiadoras Negras − Cotas na Unicamp Já!, escrito por quatro mulheres que estiveram e/ou estão na Unicamp como discentes e docentes: Ana Flávia Magalhães Pinto, Giovana Xavier, Lucilene Reginaldo e Taina Aparecida Silva Santos.

 

“Enxugando gelo”: as cotas em debate na Universidade Estadual de Campinas

Lucilene Reginaldo, Professora do Departamento de História – Unicamp

Na próxima semana, no dia 30 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp irá discutir e votar uma proposta de mudança na sua política de ação afirmativa para o ingresso nos cursos de graduação. Desde 2004, a universidade adota um modelo de bonificação com acréscimo de pontos na nota do vestibular aos estudantes oriundos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Entre as críticas recebidas pelo programa, destaca-se o impacto diminuto da política no tocante ao ingresso de negros (pretos e pardos) e indígenas. A insistência e ressonância destas críticas na comunidade acadêmica – e penso que tão somente elas – foram responsáveis por algumas mudanças significativas no sistema de bonificação que, entre outras consequências, conseguiu elevar o número de estudantes negros ingressantes através do concurso vestibular. Os números, entretanto, continuam abaixo da representação demográfica da população negra no estado de São Paulo e não impactam de maneira semelhante todos os cursos.

A proposta a ser votada nos próximos dias tem como principal subsídio o relatório do grupo de trabalho – reivindicado e instituído com a responsabilidade de organizar três audiências públicas no segundo semestre de 2016 – formado por representantes das organizações que pautaram o tema das cotas na paralisação estudantil (Frente Pró-Cotas e Núcleo de Consciência Negra), professores e funcionários.  Em síntese, e à luz de amplo debate sobre o papel da universidade pública no combate ao racismo e às desigualdades sociais, bem como de uma avaliação minuciosa das experiências de implementação de cotas, o que se propõe para Unicamp é uma política de reserva de vagas (cotas) informada por critérios sociais e raciais.

Cotas - Audiências

Primeira Audiência – Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil, 13.10.2016. Fonte: Jornal da Unicamp 

Desde fevereiro, o relatório e proposta inicial do GT têm sido amplamente discutidos em diferentes espaços da Unicamp, tendo encontrado em alguns momentos resistências mais ou menos sistemáticas. Levada pelo movimento e pela força da condição e das circunstâncias – se assim posso dizer – como membro do GT que elaborou o relatório, tenho participado de vários debates com diferentes grupos e em várias unidades, atravessando inclusive a “confortável e previsível” fronteira das ciências humanas, conversando com professores, alunos e funcionários da área de saúde, das engenharias, das ciências exatas. Embora em muitos momentos tenha me sentido teletransportada para os acalorados debates ocorridos entre 2002 e 2006 – o que obviamente nos remete ao franco atraso e à resistência da Universidade de Campinas, em particular, e das universidades paulistas em geral, em relação às políticas de ação afirmativa baseadas no princípio das cotas – o debate atual tem algo de contemporâneo. Assim, mesmo a reprodução dos velhos argumentos, quando repostos no momento político atual, redimensiona e atualiza as antigas resistências.

Confesso, com certa hesitação, a recorrência de certos argumentos pôs à prova minha considerável paciência e capacidade de argumentação! “Ninguém sabe quem é negro no Brasil”. “As cotas colocarão em perigo os centros de excelências”. “As cotas enxugam gelo! Precisamos melhorar o ensino básico”. Diante destes argumentos a apresentação de dados que demonstram as desigualdades raciais no tocante à renda, educação, saúde e segurança, amplamente divulgados e debatidos há décadas, os estudos e avaliações que atestam o desempenho positivo dos cotistas e os resultados acadêmicos da diversidade, bem como as limitações das políticas universalistas no combate às desigualdades raciais, nem sempre foi bem sucedida.

Sem muita precisão metodológica, arrisco identificar uma face coletiva neste conjunto de argumentos. Nas entrelinhas da argumentação de impossibilidade de uma política de acesso ao ensino superior que defina metas e priorize os grupos que estão sub-representados ou ausentes na universidade pública se revela a defesa da manutenção de privilégios que não são jamais questionados na sua natureza histórica. Desse modo, a defesa do centro de excelência tem por suposto a universalidade de uma elite científica e intelectual. Diante das reticências deste grupo, cujo desconhecimento – proposital ou contingente – do histórico de implantação das cotas no Brasil frequentemente remetia a discussão à estaca zero, os versos de BNegão foram evocados como consolo: “Sigo na batida, a frequência desse pensamento não pode ser captada com perfeição por um receptor enferrujado pelos padrões do dia-a-dia/Enxugando o gelo, sua realidade segura por um fiapo de cabelo”.

É certo que o debate sobre as cotas extrapola os muros dos centros de excelência – o que não é nenhuma novidade – mas, de certa forma, singularmente se recoloca no contexto político atual. Políticas de ampliação da cidadania, o que quer dizer, direitos políticos, acesso aos bens materiais e de prestígio são inadmissíveis para a pequena parcela de privilegiados da sociedade brasileira. Desde a minha “área de conforto”, ou seja, olhando para o passado, não tenho dúvidas de que a interpretação é pertinente. Mas o que realmente me preocupa neste momento são as consequências desta pertinência para o futuro da nossa fragilizada democracia.

Cotas Já − Para que uma reunião de estudantes negros/as não seja convite para piada sobre quilombo?

Ana Flávia Magalhães Pinto, pós-doutoranda e doutora em História pela Unicamp

Considerada a segunda melhor universidade da América Latina, pelo QS University Rankings, a Unicamp se orgulha de ser uma referência na pesquisa acadêmica no Brasil e manter “a liderança entre as universidades brasileiras no que diz respeito a patentes e ao número de artigos per capita publicados anualmente em revistas indexadas na base de dados ISI/WOS”. Vendo através dessas lentes, mesmo que a instituição não esteja entre as cem melhores do mundo, estaríamos legitimados a falar tranquilamente sobre qualidade e excelência. Todavia, é o atraso da Unicamp que a torna digna de atenção no atual cenário. Um atraso perante a democracia, que também poderia ser visto por meio de números, mas que é facilmente percebido nas salas de aula e nos espaços abertos da universidade.

A presença de estudantes negros (pretos e pardos) nos cursos de graduação segue sendo empiricamente tímida, a despeito do que dizem as estatísticas divulgadas nos resultados de vestibular e dados de matrícula. Diante desse fato, a dificuldade e a demora da Unicamp, como instituição, em reconhecer o maior impacto das políticas de cotas em relação a outras políticas de ação afirmativa voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociorraciais, como o PAAIS, a colocam em situação de atraso e nos obriga a seguir fazendo um debate recuado em relação ao que se encontra bastante avançado em outras universidades brasileiras.

Sindicato de Empregadas Domésticas Campinas

Sindicato das Empregadas Domésticas de Campinas em apoio à implementação das cotas na Unicamp. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

A despeito de toda a disputa discursiva, ideológica, política etc. que se vivenciou desde pelo menos o início dos anos 2000, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de 26 de abril de 2012, projetou a discussão para um outro nível. Ou seja, quando a suprema corte julgou improcedente a ação movida pelo partido Democratas (DEM), em 2009, contra o programa de ingresso de estudantes negros da UnB, reconheceu a constitucionalidade das políticas de cotas raciais nas universidades, e as considerou como medidas necessárias para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil; uma etapa decisiva foi cumprida, tendo como desdobramento imediato a promulgação da Lei n. 12.711, de 29 de agosto 2012, e a posterior Lei n. 12.990, de 9 de junho de 2014, que versa sobre a reserva de vagas em concursos públicos.

A lei federal, por certo, não rege o funcionamento de universidades estaduais, como a Unicamp, o que faz com que as coisas tenham aqui uma trajetória particular. E, por falar em particularidades e generalidades, às vésperas da votação pelo Conselho Universitário da proposta de incorporação das cotas raciais na política de acesso à graduação, me peguei pensando sobre episódios corriqueiros que ajudam a entender como o atraso desta universidade pôde ser não apenas tolerado, mas também tomado como marca de prestígio. As cenas não se limitam a registros de dor, mas mesmo as demonstrações de afeto e solidariedade estabelecidas por nós, pessoas negras, estão infelizmente conectadas a violências, porque funcionam como mecanismo de defesa e reação a hostilidades.

Logo que ingressei na Unicamp para cursar o doutorado, em 2009, achava um barato ser cumprimentada por funcionários/as negros/as que reconheciam com facilidade a novidade da minha presença nas áreas públicas da universidade e me lançavam um sorriso suave e uma faísca no olhar ao passar por mim, gestos de uma cumplicidade silenciosa. O mais divertido era saber que isso acontecia com outros/as poucos/as colegas também negros/as. Da mesma forma, era motivo de festa cada vez que se sabia de um/a estudante negro/a aprovado/a no processo de seleção de qualquer programa de pós-graduação. O costume da exclusão fazia com que as doses homeopáticas de inclusão fossem sentidas como porções cheias.

Essa sensação agradável, porém, logo tinha seu encanto roubado ao fatalmente se adquirir o hábito de ficar apreensiva/o já antes de entrar nas bibliotecas sabendo que, a qualquer momento, mais um/a estudante branco/a poderia te abordar pedindo para que você procurasse algum livro ou prestasse algum serviço pra ele/a. Ou ainda quando um/a colega de curso se mostrava surpreso/a por você dominar mais do que o conteúdo das disciplinas, sobretudo por não entender como isso se casava com sua profunda erudição sobre os “Pagodes Anos 90”, antes de isso se tornar moda entre a galera “cult-bacaninha”. E o que dizer quando um professor, ao avistar um grupo de estudantes negros reunidos em volta de uma mesa pública do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, se aproximou e perguntou com ar de empolgação: “Isso aqui é um quilombo?”.

Os registros do atraso da Unicamp em prejuízo à promoção da democracia no Brasil que poderiam ser feitos por estudantes, funcionários/as concursados/as e terceirizados/as, e os/as poucos/as professores/as negros/as dariam para a edição de muitos volumes, repletos de informações suficientes para evidenciar a fragilidade da excelência da instituição. Isso, aliás, serviria muito bem para marcar a inquestionável legitimidade das políticas de cotas, defendidas hoje por mais gente além de nós negros, ainda minoria nesse espaço. Seja como for, o momento agora é para que posicionamentos sejam tomados. Diante da mobilização que rompe os limites da universidade, no dia 30, saberemos até que ponto a Unicamp gosta de avanço, liderança e bons conceitos.

A luta antirracista e o poder ser: afrontes e a construção de um novo projeto humanista

Taina Aparecida Silva Santos, graduanda em História pela Unicamp

Entre luzes e som, só encontro, meu corpo, a ti. Velho companheiro das ilusões de caçar a fera. Corpo de repente aprisionado pelo destino dos homens de fora. Corpo/mapa de um país longínquo que busca outras fronteiras, que limitam a conquista de mim. Quilombo mítico que me faça conteúdo da sombra das palavras. Contornos irrecuperáveis que minhas mãos tentam alcançar (Beatriz Nascimento, O conceito de quilombo e a resistência cultural negra [1977]. In: Alex Ratts. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo:Imprensa Oficial, 2006).

 Entre todos os processos que compõem a luta pela implementação das cotas raciais na Unicamp, um especial, tem me chamado muito a atenção, não pelo fato de eu fazer parte disto, mas, sim, pela sensação de sentir-me pertencente ou ligada a algo que muitos outros negros e negras com que partilho esses momentos andam percebendo também. Demarco a experiência desses corpos pretos, primeiramente, pela violência a que o racismo os submetem pelo simples fato de existirem. Essa reflexão é importante, pois, chegado o momento que a discussão tomou grandes proporções a ponto de tornar-se imprescindível que a comunidade como um todo, acadêmica ou não, tomasse posições verbalizadas, silenciosas, favoráveis ou contrárias, acredito que, para aquelas e aqueles de pele escura, essa questão sacudiu nossas identidades pessoais e coletivas. Algo complexo que, ao refletir sobre, me vejo mais desvendando um caminho, um mapa, do qual ainda não sei as fronteiras e nem onde conseguirei alcançar, porém, a cada dia que passa, fica mais evidente que esse mapa são os nossos corpos, como nos lembra Beatriz Nascimento (Cf. Christen Smith. Lembrando Beatriz Nascimento: quilombos, memórias e imagens negras radicais. In: Sidney Chalhoub e Ana Flávia Magalhães Pinto (orgs.). Pensadores negros, pensadoras negras: séculos XIX e XX. Belo Horizonte: Fino Traço, 2016). Corpos que, no contexto em questão e até na experiência da formação de movimentos negros no Brasil e na diáspora, têm constituído um território negro.

Marcha Antirracista (66)

Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Desde que iniciei meus estudos na Unicamp, em 2014, eu participo de um grupo de negras e negros que se reúne uma vez por semana, durante o horário do almoço, em umas mesinhas que ficam na parte central da Universidade – PB. Ao me aproximar desses estudantes acabei conhecendo os outros poucos negros e negras – estudantes, funcionários e professores presentes nessa ilha branca da cidade de Campinas, que atuavam, circularam ou circulavam em torno do Núcleo de Consciência Negra, outros grupos que tiveram composição e atuação semelhante dentro ou fora da universidade. Conheci, também, pretos e pretas que não fizeram parte de nenhum grupo do tipo, porém, independentemente de cada de nós, 2016 presenciamos algo inédito na história da Unicamp: a universidade parou com a eclosão de uma greve estudantil, na qual a denúncia do racismo tomou proporções incríveis e as cotas raciais junto com a ampliação das políticas de permanência estudantil tornaram-se uma das pautas principais da mobilização.

Protagonizados pelos estudantes negros, os embates para convencer as pessoas de que a violência que aflige as nossas vidas importam foram duros e acirrados, em muitos momentos até dolorosos, pois, se pensarmos na presença negra na Unicamp, esses afrontamentos vêm de muito antes dessa greve. Entretanto, a politização em torno da discussão das cotas que se transformou numa “quizumba”, como diria Lélia Gonzalez, abriram os meus olhos para perceber os significantes dos nossos corpos como territorialidades multilocalizadas em determinados tempos nesse espaço, pois uma série de outros estudantes negros, para além daquele grupo que se reunia todas as sextas-feiras nas mesinhas do PB, ao meio dia, passou a tomar para si essa luta também, tensionando o cotidiano inquestionável a ponto instaurar um clima no qual se deu a entender que situações racistas não passariam mais em branco, nem em silêncio. É certo que nem eu, nem nenhum dos meus colegas invetou a roda da luta antirracista na Unicamp, que isso seja lembrado, em respeito àquelas e àqueles que vieram antes de nós. Porém, muitas conversas “não colam mais”, principalmente àquelas que tentam justificar uma naturalização da nossa ausência em espaços como uma universidade pública que é mantida com nosso dinheiro. Nossas vozes, se multiplicaram e estamos avançando no sentido de nos compreendermos enquanto sujeitos de direito inscritos em corpos que se constituem enquanto territórios políticos.

A mobilização encadeada pela discussão sobre o desprezo que a Unicamp – enquanto reflexo da realidade social, política e econômica brasileira, em especial, paulista – vem alimentando em relação às nossas vidas, logo, também, em relação às políticas de combate ao racismo, evidenciou uma territorialidade para além de um espaço físico, apontando para uma rede entre nossos corpos que conectou os negros e negras que ali estavam. Acabou, também, potencializando a compreensão de uma linguagem entre nós que ampliou a sensibilidade no que diz respeito àquilo que nos fere, o que, também intensificou a altura dos nossos gritos.

Esse processo tem sido curioso, pois a conexão entre nós está longe de se dar no âmbito de uma possível essência. Pelo contrário, esse território é constituído sobre muitas diferenças e contradições que fazem parte do ser. No entanto, todos esses movimentos têm nos mostrado que essas possibilidades causadas pela interrelação entre corpos negros e esse espaço tão hostil indicam a necessidade da reformulação de um novo pacto de humanidade, pois, se é sobre racismo que estamos falando, reconhecer a desumanização das populações negras e indígenas como um dos maiores massacres da nossa sociedade é essencial para compreender a dimensão de um problema que ainda perdura nas nossas vidas.

Sendo assim, não para concluir, mas sim, para passar a bola nesse momento de reflexão que essa luta, entre outras, nos inspira, compartilho as palavras de Abdias do Nascimento:

“Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça, na igualdade e no respeito a todos os seres humanos, na liberdade; uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racismo. Uma democracia autêntica, fundada pelos destituídos e os deserdados desse país, aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas caducas de instituições políticas, sociais e econômicas as quais serviram unicamente para procrastinar o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pode vir com a transformação radical das estruturas vigentes. Cabe mais uma vez insistir,: não nos interessa a proposta de uma adaptação aos moldes de sociedade capitalista e de classes. Essa não é a solução que devemos aceitar como se fora mandamento inelutável. Confiamos na idoneidade mental do negro, e acreditamos na reinvenção de nós mesmos e da nossa história. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fundado em sua experiência histórica, na utilização do conhecimento crítico e inventivo de suas instituições golpeadas pelo colonialismo e o racismo” (Abdias do Nascimento. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1980).

Corpos Pretos, conselhos brancos: racismo acadêmico e cotas raciais na Unicamp

Giovana Xavier, Professora de Ensino de História UFRJ e coordenadora do Grupo Intelectuais Negras

Recentemente, fui convidada a contribuir com um artigo para o terceiro número do jornal do Coletivo Nuvem Negra da PUC, uma organização incrível de universitários pretos que, dentre outras ações, deram vida à destemida campanha “Quantas Professores Negros a PUC-Rio tem?”, que traz como objetivo a realização de um censo racial da categoria docente na universidade em que estudam. Pois bem.

O grupo de estudantes, nos quais se destacam jovens lideranças como Lucas de Deus e Yasmin Thainá, solicitou-me dedicar algumas linhas ao legado das Intelectuais Negras nas universidades brasileiras, dentre as quais podemos e devemos sempre lembrar de Azoilda Loretto da Trindade, Beatriz Nascimento, Lelia Gonzales, Luiza Bairros para ficarmos com algumas. Para mim, professora universitária que faz questão de explicitar sua raça e titulação através da identidade Preta ‘Dotora’, o convite do Coletivo despertou, além do orgulho e da importância de apoiar as novas gerações, a reflexão do quanto as conquistas alcançadas até aqui são irreversíveis.

Marcha Antirracista (29)

Ato durante a Greve Unicamp, 2016. Fonte: Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Pensar nessa irreversibilidade, expressa na hashtag #nenhumdireitoamenos, significa também refletir o quanto nossas conquistas têm sido construídas às custas de muitas violências às quais nossos corpos pretos estão submetidos, dentro e fora do espaço acadêmico. Como a conversa aqui é in-academia e pautada por historiadoras Pretas, rememoro algumas das minhas histórias como estudante de doutorado na Unicamp, sempre na esperança de que as palavras lançadas nos fortaleçam e inspirem para a construção de projetos políticos que nos representem.

A primeira delas − um trauma com o qual tive de lidar por muitos anos − refere-se à hostilidade de meus colegas de turma de doutorado quando apresentei meu projeto de pesquisa na linha de História Social da Cultura (Cecult). À ocasião, a investigação focava-se na temática dos concursos de beleza negra em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Até hoje fico a me perguntar: qual seria o problema: a beleza ou o negra? Muitas são as respostas, mas nenhuma delas nos exime de algo com o qual temos de lidar como corpos pretos no mundo acadêmico branco: o preço de ser identificada e interpretada como a exceção do seu grupo racial. Ser exceção na Unicamp fez com que eu passasse quatro horas sujeita a “conselhos” bem intencionados sobre como “escrever melhor”, “procurar temas de pesquisas mais adequados”, “programas de pós-graduação que combinassem mais comigo”. O mais cool de tudo isso é que prestei bastante atenção em todas as dicas. Menos de um ano depois da conclusão do doutorado estava eu concursada e empregada como Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Namastê!

A segunda história, também passada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, refere-se a uma situação em sala de aula. Ao realizar uma disciplina obrigatória, o professor, que dentro das contradições que só as elites brancas têm o direito de experimentar, não era muito chegado a lecionar, dividiu o programa de seu curso em seminários, que ficaram sob a nossa responsabilidade. Ao longo de um semestre, cada grupo de pós-graduandos escolhia seu tema, preparava um seminário e apresentava à turma. Um dos grupos, composto por pessoas brancas, em sua maioria com sobrenomes dominados pelas consoantes (o que é autoexplicativo das muitas facetas do privilégio) apresentou-nos a biografia de Primo Levi. Lembro-me que o grupo levou a turma às lágrimas, dadas as tragédias e violências ignóbeis do Nazismo alemão. Recordo também que havia na sala, algumas exceções da pele preta, além de mim. Ufa!

Lá pelas tantas, interrompi o grupo e pontuei o quanto como historiadores deveríamos discutir qual grupo tem o direito de ter sua história interpretada a partir da categoria “holocausto”. Seria oportuno debatermos os diferentes status entre “holocausto” do povo judeu e “genocídio” da população negra. Torta de climão servida, o professor, figura rara nas suas próprias aulas, lembrou-me educadamente que existiam muitos poucos negros nas universidades, por isso as pesquisas sobre escravidão, tráfico e desumanização eram tão escassas. A colega ao meu lado, ostentando suas consoantes, olhou-me de cima a baixo, com a certeza escravocrata de que cada um tem seu lugar e lançou: “se não está satisfeita, faça você mesma pesquisas sobre sua história e sua gente”.

***

Se de boas intenções o inferno está cheio, fica a pergunta: o que seria dos corpos pretos sem os conselhos brancos?

Quando olho para trás e vejo onde chegamos hoje, enche-me de orgulho estar de fora e de dentro de uma Unicamp na qual os lugares da mesa estão sendo bagunçados. A votação, no próximo 30 de maio no Conselho Universitário da Unicamp, sobre a proposta de mudança da política de ações afirmativas para ingresso na graduação, me faz cantar:

Eles querem que alguém / Que vem de onde nóis vem / Seja mais humilde, baixa a cabeça / Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda.

 Não esqueceremos! Afinal, aprendemos com Mãe Beatá de Iemonjá, transformada ontem em estrela, que quantas vezes voltarmos à terra retornaremos Negros.

Mãe Beata

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#ForaTemer #DiretasJá

Nesta segunda feira, o Conversa de Historiadoras registra a sequência de áudios comprometedores do Presidente ilegítimo Michel Temer.  É uma forma de documentar, também aqui no blog, a dupla intenção do golpe de 2016, prestes a entrar em nova fase: “estancar a sangria” na classe política imposta pelas investigações de corrupção e implementar o programa derrotado nas urnas.  

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml

Temer fala sobre a atuação de Cunha no Impeachment

Liberado áudio de Temer e dono da JBS – completo 

Divulgamos, também, o roteiro da participação do ilegítimo no impeachment fraudulento, de acordo com a Presidente eleita Dilma Rousseff, em matéria do site Viomundo: 

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/relendo-dilma-depois-da-delacao-de-joesley-que-comprou-a-eleicao-de-eduardo-cunha.html

Por fim, convidamos todos a conferir, hoje a noite, o programa Espelho. Lázaro Ramos entrevista Giovana Xavier. Imperdível!

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E a ir às ruas conosco pedindo #DiretasJá.

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