Arquivo do autor:Hebe e Martha

Sobre Hebe e Martha

Hebe Mattos e Martha Abreu criaram o blog conversa de historiadoras em março de 2014. Durante dois anos, o blog teve todos os seus textos assinados por ambas, em co-autoria. Em 2016, o blog se expande, incorporando novas colaborações e artigos individuais, mas os textos em co-autoria das duas historiadoras continuam presentes.

Passados Presentes na Semana da Consciência Negra

A festa de inauguração da terceira exposição do projeto Passados Presentes aconteceu no último domingo, 14 de novembro, no Quilombo do Bracuí. A celebração foi memorável. Reuniu mais de 400 pessoas, organizada com brilho pela comunidade quilombola, que luta há mais de cem anos pelo território coletivo ocupado por seu antepassados, desde antes de o receberem oficialmente, em 1878, em doação no testamento de José de Souza Breves, que ali desenvolvia atividades negreiras na primeira metade do século 19.

As fazendas negreiras se desenvolveram no litoral das principais áreas escravistas do Império do Brasil, sobretudo depois da primeira proibição formal do comércio negreiro no então jovem país independente, em 1831. Elas substituíram as antigas áreas oficiais voltadas para este tipo de atividade, como o complexo do Valongo, no Rio de Janeiro.

Clique na figura abaixo para ouvir a narrativa dos griôs do Quilombo do Bracuí, sobre o funcionamento da antiga fazenda.

Captura de Tela 2015-11-20 às 19.36.45

Os griôs do Quilombo do Bracuí são guardiões da memória dos horrores cometidos contra os recém chegados e da sua recuperação para serem enviados serra acima, para as áreas cafeicultoras do Vale do Paraíba,

A tradição oral guardou até mesmo o naufrágio criminoso em águas próximas à fazenda, do Brigue negreiro Camargo, perseguido pela marinha brasileira após a segunda lei de extinção do tráfico atlântico, em 1850.

Confira a narrativa de Manoel Moraes, clicando na imagem abaixo.

Captura de Tela 2015-11-20 às 19.38.53

O naufrágio deixou documentos históricos na auditoria da marinha e no ministério da justiça brasileiros. O memorial do Quilombo do Bracuí homenageia os africanos sobreviventes resgatados pelas autoridades. Na imagem abaixo, vemos a griô quilombola Marilda de Souza contar esta história para estudantes que participaram da festa de inauguração.

bracui14-11-marilda e camargo

São, porém, os jovens do quilombo que transformam a tradição oral em bandeira de luta por novos e melhores tempos, simbolizados na imagem da Santa Rita Black, do artista Lee27.

bracui14-11-painel-presente

A Exposição Memorial do Quilombo do Bracuí conta a história de como funcionavam as antigas fazendas negreiras do litoral sul fluminense e de como elas se tornaram improdutivas após o fim do tráfico atlântico de escravos para o Brasil. De fato, os trabalhadores africanos ali residentes eram testemunhas de um crime contra as leis do Brasil, que apenas após 1850 passou a ser efetivamente reprimido pelas autoridades imperiais. O proprietário da antiga fazenda do Bracuí, José de Souza Breves, os deixou com o usofruto das terras após o encerramento das atividades negreiras. Em seu testamento, eles foram depois alforriados e transformados em herdeiros do território ocupado. A tradição oral de seus descendentes, no século 21, tornou-se testemunho, não de um crime contra as leis do Império do Brasil, mas de um crime contra a humanidade.

expo bracui 1

A roda expositiva conta também a história da luta da comunidade pela terra coletiva ao longo do século 20. Na década de 1970, a construção da Rio Santos lhes tirou, não sem luta, toda a terra que ocupavam da estrada até o mar. Ainda hoje, o território comunitário continua ameaçado apesar da certificação da Fundação Palmares como comunidade quilombola. Três da placas do projeto Passados Presentes foram arrancadas poucas horas após terem sido colocadas. Tais locais de memória continuam sinalizados no roteiro do aplicativo e, felizmente, encontram-se fora da área que vem sendo negociada com o INCRA para demarcação definitiva. Esperamos que isso aconteça o mais rápido possível. Enquanto não acontece, a sinalização do projeto Passados Presentes atualiza a memória do território histórico ocupado pela comunidade e a fortalece para a futura titulação de acordo com a Constituição de 1988.

mapa_bracui_ap (2)

O racismo é o mais terrível legado da sociedade escravista para a experiência nacional brasileira. Nessa semana da consciência negra, o conversa de historiadoras vem mais uma vez celebrar a riqueza e a especificidade do legado cultural da última geração de africanos no Rio de Janeiro. Trazidos à força ao país a menos de 150 anos, seus descendentes hoje compõem a maior parte das comunidades remanescentes de quilombo e dos grupos detentores do patrimônio cultural brasileiro de matriz africana oficialmente reconhecido.

“O Gente presta atenção na história que eu vou contar//Deitei minha cabeça na cabeceira do rio mas o pé está lá no mar” (Ponto de jongo sobre a extensão das terras do Quilombo do Bracuí – Marilda de Souza)

Assista o teaser atualizado do projeto Passados Presentes.

 

Bracui14-11-mesa de aberturabracui14-11-Arodacombobemarildabracui14-11-marilda e escolabracui14-11-afesta2IMG_roda_publicobracui14-11-QRIMG_varalIMG_jongo_marildaIMG_jongobracui14 -11-tiomanenarodabracui14-11-afestacombob

1 comentário

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública, remanescente de quilombo, Uncategorized

Luiz Gama, o Prêmio APERJ de Monografias e o Quilombo do Bracuí

Na última terça-feira, 3 de novembro, 133 anos depois da sua morte, Luiz Gama (1830-1882) foi finalmente reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em cerimônia inédita. O menino escravizado ilegalmente pelo próprio pai, que se tornou poeta e escritor, também atuou ativamente como rábula, como eram chamados, no século 19, os que exerciam a advocacia sem terem feito a faculdade de direito. Perante a lei do Império do Brasil, Gama especializou-se em libertar homens e mulheres que, como ele, puderam provar que estavam ilegalmente escravizados. De fato, desde a proibição do tráfico negreiro com a África, todos os cativos que entraram no Brasil o fizeram ilegalmente, ainda que a justiça insistisse em ignorar o fato. Gama ajudou a libertar mais de 500 escravos nos tribunais, mas sua militância teve repercussão política muito maior e abriu caminhos para o movimento abolicionista.

No mesmo dia 3 de novembro, foi revelada a identidade de um outro Luiz Gama, que assinou, como pseudônimo, o manuscrito vencedor do Prêmio Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro de monografias, “O complexo Breves: a força da escravidão no vale do café (Rio de Janeiro, c. 1850 – c. 1888)”. Parabenizamos aqui Thiago Campos Pessoa, professor de história e pesquisador no LABHOI/UFF, que terá o livro brevemente publicado.tiago

O texto foi originalmente tese de doutorado, orientada por Hebe, e dá a ver, de forma inédita, a ligação litoral / vale no complexo cafeeiro escravista do Vale do Paraíba. Sem as propriedades voltadas para o desembarque e quarentena dos “pretos novos” ilegais, o principal produto de exportação do Império do Brasil não teria se desenvolvido. Luiz Gama foi pioneiro em revelar isso, mesmo que ainda hoje sua mensagem esteja em grande parte silenciada nas narrativas da história do Brasil oitocentista.Captura de Tela 2015-11-04 às 17.46.16

Uma dessas fazendas do litoral, em que chegavam, em cada navio, centenas de crianças de 8 a 12 anos, ilegalmente escravizadas, deu origem ao atual Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, que recebe um dos roteiros turísticos e abriga a terceira exposição memorial do projeto Passados Presentes. A narrativa expositiva conta a história e luta dos quilombolas, que nos inspirou a criar este Blog,

expo bracui 4e também a história do naufrágio do Brigue Camargo nas praias da antiga Fazenda, com mais de 500 africanos de Moçambique, registrada nos arquivos e incorporada na tradição oral da comunidade. expo bracui 2

Convidamos todos para a festa de inauguração, no próximo dia 14 de novembro! Para boa leitura do convite e do texto do folder, cliquem nas imagens para ampliar

Captura de Tela 2015-11-04 às 18.17.56

Salve Luiz Gama!

_Convite_Bracuí

 

1 comentário

Arquivado em história e memória, história pública, politicas de reparação

Livros imperdíveis!

A diva do teatro brasileiro, Ruth de Souza, ganhou uma biografia que faz diferença, escrita por Júlio Cláudio Silva, professor da Universidade Estadual do Amazonas e historiador apaixonado pela profissão: Uma estrela negra no teatro brasileiro. Relacões raciais e de gênero nas memórias de Ruth de Souza (1945-1952).

Captura de Tela 2015-10-16 às 13.24.56

No livro, o autor nos apresenta a trajetória de Ruth de Souza, uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, suas memórias e possibilidades de ascensão num dos mais difíceis campos profissionais para mulheres negras. O lançamento do livro no Rio foi uma festa de estrelas negras, para não ser esquecida na cidade. Clique na imagem acima para acompanhar a reportagem de Fernando Reski sobre o lançamento.

Felisberta, matriarca de quilombolas gaúchos do século 21, também inspirou um livro que ajuda a mudar o lugar das mulheres negras na historiografia brasileira, em um texto que nos oferece também um profundo mergulho sobre as complexas relações entre historia e memória: Felisberta e sua gente. Consciencia história e racializacão em uma família negra no pós-emancipacão rio-grandense, de Rodrigo de Azevedo Weimer. O livro de Rodrigo nos brinda com a história de Felizberta Severina Marques, a partir da memória de seus filhos e netos, que fizeram questão de não esquecer suas conquistas numa sociedade que oferecia poucas possibilidades para mulheres libertas no pós-abolição. Ele irá discutir e lançar o trabalho em encotro do CULTNA, na sala 508 do Bloco P do Campus do Gragoatá na UFF, no próximo dia 22 de outubro, às 15 horas.

felisberta e sua gente (1)

Ambos os textos são frutos de teses de doutorado, orientadas por Hebe e defendidas na UFF, com total apoio de Martha. Felisberta e sua gente ganhou o Prêmio PRONEX Culturas Políticas e Usos do Passado de teses e dissertações. Os livros de Julio e Rodrigo tratam da experiência de duas mulheres negras, que, cada uma a seu modo, marcaram a vida de todos que as conheceram e acompanharam suas vitórias. Transformados em livros, os dois trabalhos também são ótimos exemplos de como a pesquisa histórica recente dialoga profundamente com as lutas atuais de combate ao racismo e ao sexismo, ainda tão presentes na sociedade brasileira.

Para concluir o post, registramos também o lançamento do livro de Matthias Assunção, professor da Universidade de Essex, na Inglaterra, nosso colega e parceiro de muitos trabalhos e projetos. Finalmente a premiada tese de Matthias, defendida na Alemanhã no final dos anos 1980, com o título De Caboclos a Bem-te-vis. Formação do campesinato numa sociedade escravista: Maranhão 1800-1850,  vem a público em português.

De cablocos a bem - te -vis (2)

O trabalho é um clássico para as discussões sobre campesinato e escravidão no Brasil e também uma obra essencial para compreender a Balaiada, verdadeira guerra civil ocorrida no Maranhão, na primeira metade do século 19, que deixou intensas marcas na memória local. Num intenso diálogo entre o local, o regional, o nacional e o atlântico, o livro de Matthias nos faz entender como caboclos, escravos e libertos africanos ou seus descendentes tornaram-se protagonistas da grande rebelião.

Captura de Tela 2015-10-16 às 14.40.40

 

1 comentário

Arquivado em história e memória, historiografia

Notícias da inauguracão no Quilombo São José

Foi com muita emoção que inauguramos a exposição memorial Passados Presentes no Quilombo São José. Como os que acompanham regularmente o Blog já sabem, é o segundo memorial/exposição do Projeto Passados Presentes com objetivo de promover ações de pesquisa e divulgação da história e do patrimônio imaterial relacionado ao legado do tráfico de africanos escravizados no estado do Rio de Janeiro, que coordenamos em colaboração com a historiadora Keila Grinberg, da UNIRIO. O primeiro memorial foi inaugurado em julho na cidade de Pinheiral e o terceiro terá sua abertura oficial em 14 de novembro próximo, no Quilombo do Bracui. Ao lado do memorial, faz parte do projeto a criação do aplicativo para celulares que indica os lugares de memória do tráfico, da escravidão e do pós-abolição, abertos à visitação pública, assim como do patrimônio cultural construído pelos descendentes da última geração de africanos escravizados no Rio de Janeiro.

Um grupo de colegas historiadores foram conosco em caravana conferir a festa no Quilombo São José, visitando no caminho o memorial do Parque das Ruínas da cidade de Pinheiral. Uma boa sugestão de roteiro de visitação.IMG_4133IMG_4171

Muitos já foram com o app passados presentes instalado. IMG_4247IMG_4248

Como indicado no roteiro, ao chegarmos ao Quilombo São José, visitamos primeiramente o Terreiro  do Jongo e, em especial, o  emocionante Museu da Casa Quilombola. IMG_4233IMG_4177IMG_4179

Na sequência do roteiro sugerido, nos dirigimos para a sede, onde foi servida a feijoada que antecedeu a solenidade de inauguração da exposição memorial. A inauguração de ontem contou com a participação de muitos jongueiros, alunos da graduação e da pós-graduação, assim como de muitos professores de História e moradores da região.blogsaojose1IMG_4217
IMG_4174

Compartilhamos com vocês, algumas fotos da festa e a alegria e emoção das nossas falas (Hebe Mattos, Martha Abreu, Keila Grinberg) durante a inauguração na roda expositiva do projeto.IMG_4225IMG_4228IMG_4224IMG_4192

.

4 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública

Memorial Passados Presentes no Quilombo São José

No próximo sábado, 19 de setembro, convidamos todos os amigos do Blog a celebrarem conosco no Quilombo São José, com feijoada e roda de jongo, a inauguração da exposição permanente e do memorial Passados Presentes. Contrataremos um ônibus para os que quiserem aderir à festa, saindo do Rio de Janeiro na parte da manhã e retornando no final da tarde. No caminho, o ônibus visitará o memorial do projeto na cidade de Pinheiral. O grupo de jongo de Pinheiral, os quilombolas do Bracuí e outros jongueiros do Pontão do Jongo e do Caxambu estarão presentes à festa. Para reservar seu lugar ou ter mais informações, basta entrar em contato através do e-mail contatopassadospresentes@gmail.com, até a próxima quarta feira, 16 de setembro.

Como os que acompanham regularmente o Blog já sabem, no Quilombo São José, localizado no município de Valença, no Rio de Janeiro, encontra-se um dos roteiros pilotos do projeto de turismo de memória Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil. O memorial do Quilombo São José conta a saga de Tertuliano e Miquelina e de Pedro e Militana, antepassados dos atuais moradores, desde a África até o Brasil. Narra também a luta de seus descendentes pelo território quilombola ocupado ainda no século 19 e a força da tradição cultural do Jongo, que tem origem na África Central.

A exposição permanente e os pontos de memória ali sinalizados foram identificados pelos moradores mais antigos do local, em diálogo com a equipe do projeto e com a pesquisa sobre a história e a memória do grupo, desenvolvida por Hebe há mais de 20 anos. São os moradores, porém, que contam a história local a partir do que ouviram de seus pais e avós.

Em 30 de abril de 2015, os quilombolas tomaram oficialmente posse do território onde viveram seus antepassados e onde continuam a celebrar a herança cultural deles recebida. O jongo do Quilombo São José é um dos mais tradicionais do estado do Rio de Janeiro e a festa de maio ali realizada é hoje referência para todo o país. A sinalização do local para o turismo de memória permite aos visitantes ouvir diversos pontos de jongo e ter acesso às narrativas dos quilombolas mais antigos. Através de visitas guiadas, é possível também realizar percursos mais longos, de grande interesse histórico e ecológico, que incluem o centenário pé de jequitibá, a cachoeira saudada nos pontos de jongo e as ruínas do engenho velho.

A intensidade dos trabalhos para finalizar o projeto Passados Presentes afetou a periodicidade do Blog. Até novembro, quando pretendemos fazer o lançamento dos roteiros históricos do Centro do Rio de Janeiro e a festa de inauguração do memorial do Quilombo do Bracuí, vamos aparecer por aqui sempre que tivermos uma notícia nova de mais uma etapa cumprida.

Adoraremos encontrar vocês no sábado no Quilombo São José!

blog sao jose 11blog sao jose 2blog sao jose 3blog sao jose4blog sao jose 7blog sao jose 6blog sao jose 8blog sao jose 12blog saonjose 9blog sao jose 10

3 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública, remanescente de quilombo

Manifesto em Defesa das Cotas Raciais na Pós-Graduação

Texto aprovado na Assembléia Geral do XXVIII Simpósio Nacional de História da Anpuh, em Florianópolis.

Em abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais, confirmando a legitimidade das políticas de ação afirmativa para acesso de estudantes negros/as nos cursos de graduação, implementadas em universidades públicas desde o início dos anos 2000.

Tal decisão reforçou o entendimento sobre a centralidade do racismo na conformação das desigualdades presentes na sociedade brasileira e fortaleceu o debate sobre a necessidade de políticas públicas de promoção da igualdade e combate à discriminação racial no país.

Esse cenário serviu, consequentemente, como estímulo para que programas de pós-graduação, institutos/departamentos e instituições de ensino superior assumissem o desafio de aprofundar o debate e a ação.

Não por acaso, já em 2013, começamos a assistir ao fortalecimento de projetos voltados à implementação de cotas raciais para negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de Mestrado e Doutorado em diferentes localidades brasileiras.

Afora experiências anteriores de natureza diversa em instituições como UNEB, UFPE, UEFS, UFAM e UFPA, tivemos recentemente os seguintes avanços:

  • Rio de Janeiro, fevereiro de 2013 – reserva de 20% das vagas da pós-graduação para negros/as no Programa de Antropologia Social do Museu Nacional / UFRJ;
  • Brasília, julho de 2013 – reserva de 20% das vagas da pós-graduação do Departamento de Sociologia da UnB.
  • Rio de Janeiro, novembro de 2014 – Lei Estadual n. 6.914/14 estabelece que 12% das vagas de pós-graduação das universidades públicas do estado sejam destinadas a negros/as e indígenas.
  • Campinas-SP, março de 2015 – IFCH / UNICAMP aprova cotas para negros/as, indígenas e pessoas com deficiência na pós-graduação.
  • São Paulo-SP, abril de 2015 – FFLCH / USP reserva de 20% das vagas da pós-graduação;
  • Goiás, abril de 2015 – UFG, cotas na pós-gradução strictu sensu para inclusão e permanência da população negra e indígena no corpo discente.
  • Rio de Janeiro, junho de 2015 – PPGHC / UFRJ estabelece cotas para negros no Mestrado e no Doutorado.

Segundo dados da PNAD 2013, dos 387,4 mil pós-graduandos/as brasileiros/as, os/s negros/as somam apenas 28,9%, ou 112 mil em números absolutos.

Atentos/as às questões centrais da atualidade nacional e nos posicionando como sujeitos comprometidos com o enfrentamento do racismo e a promoção da democracia no Brasil, nós, historiadores/as presentes no XXVIII Simpósio Nacional de História da Anpuh, realizado em Florianópolis-SC, entre 27 e 31 de julho de 2015:

  • Manifestamos o nosso apoio às iniciativas em curso voltadas ao acesso de estudantes negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação;
  • Defendemos que essas e outras medidas de ações afirmativas de combate às desigualdades raciais sejam implementadas em outras instituições de ensino, com ênfase para cotas para negros, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação em História;
  • Ressaltamos a urgência de que as políticas de acesso sejam acompanhadas de ações voltadas à garantia da permanência de estudantes negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação, especialmente que sejam asseguradas as quantidades necessárias de bolsas de estudo/pesquisa;
  • Defendemos a ampliação do debate sobre a implementação de cotas raciais para o preenchimento das vagas de concursos para a composição do corpo docente das universidades públicas e institutos federais de ensino.

Florianópolis-SC, 30 de julho de 2015

O encerramento da assembleia geral da Anpuh 2015, em Florinópolis, foi muito promissor. Apesar dos inúmeros desafios no campo do Ensino de História, como as ameaças de reforma nos conteúdos do Ensino Médio, as propostas do grupo Escola sem Partido, que atacam a liberdade de ensino do professor, e o avanço de manifestações de intolerância e discriminação nas escolas, a nova gestão, liderada por Maria Helena Capelato, comprometeu-se com uma atuação firme, no campo político e jurídico, frente a essas preocupantes pressões.

Para começar, depois de oportuna intervenção do Prof. Paulo Knauss, definiu-se que o próximo Simpósio terá como tema “Contra os Preconceitos: História e Democracia”. O objetivo é colocarmos no centro das atenções dos historiadores os movimentos de discriminação e preconceito que têm marcado a história recente no Brasil e no mundo. Em seguida, no momento das moções encaminhadas pela Anpuh, um grupo de historiadores, de todas as cores, conseguiu aprovar o forte e belíssimo manifesto de apoio às cotas raciais nos cursos de Pós-Graduação (vagas discentes e docentes), com o qual abrimos o blog. Nossa alegria foi muito grande!

Saímos também da Anpuh animadas com os rumos do GT Emancipações e Pós-Abolição. Os 3 Simpósios  organizados estiveram sempre cheios e a reunião geral foi muito produtiva. Combinamos centrar as energias numa rede de comunicações que funcione efetivamente e na organização de um novo seminário no Rio de Janeiro, em 2016. Os novos coordenadores gerais são Giovana Xavier, Beatriz Loner, Lourival dos Santos e Edinelia Maria Oliveira Souza. Seções regionais Norte: Julio Claudio Silva; Nordeste: Maria Emília Vasconcelos e Valéria Costa; Sudeste: Lucimar Felisberto (UFRJ) e Juliano Sobriño (Uninove); Sul: Rodrigo Weimer; Comissão de comunicação: Eric Brasil (UFF), Leticia Canelas (Unicamp). Comissão do evento 2016: Ana Flavia Pinto (Unicamp), Fernanda Souza (UFRGS), Flavio Gomes (UFRJ).

//EM TEMPO//  O PPG História Comparada, da UFRJ, aprovou recentemente a política de cotas raciais para ingresso no programa!

anpuh 2016Floripa 2015, uma ANPUH que vai ficar na história!

3 Comentários

Arquivado em ações afirmativas, antiracismo

Pinheiral, Cidade do Jongo

Etapa cumprida. No domingo 26 de julho, dia estadual do Jongo, foram inaugurados o primeiro roteiro, com sua sinalização, e a primeira das exposições memoriais do projeto Passsados Presentes, juntamente com o Parque das Ruínas da Fazenda São José do Pinheiro, na cidade de Pinheiral, Estado do Rio de Janeiro. Nossas orações à Santana e aos Pretos Velhos foram atendidas. Imagens e textos idealizados dentro de um computador materializaram-se nas placas de sinalização e nos grandes painéis da exposição. Ruinas cobertas de vegetação foram limpas e iluminadas pela Prefeitura da cidade para receber o Memorial, dando origem a um belo parque, onde pode ser visto, feito de pau a pique, madeira, história, memória e arte, o primeiro memorial Passados Presentes.

Como no jongo cantado por Mestre Cabiúna, que pode ser ouvido no audio da exposição, esse projeto “vem de longe, caminhando devagar”, em mais de vinte anos de pesquisa sobre a escravidão e o pós-abolição no Rio de Janeiro. Com textos e coordenação geral das historiadoras desse blog, juntamente com Keila Grinberg, a equipe do projeto se organiza a partir de um tripé de iniciativas: a pesquisa de campo, coordenada por Daniela Yabeta, com o apoio de Guilherme Hoffmann para o registro audiovisual, realizada ao longo de dois anos e inúmeras viagens, em estreito diálogo com a curadoria das três comunidades (Maria de Fátima Santos, Antônio Nascimento Fernandes e Marilda Souza); o desenvolvimento tecnológico para o banco de dados e o app de turismo de memória, em fase de implementacão, sob coordenação de Ruben Zonenschein; e a concepção artística e de design das exposições, sinalizações e app, sob direcão geral de André de Castro.

Após intenso trabalho da equipe de design, foi com emoção que vimos os arquivos das placas e painéis serem enviados para impressão. Com os textos e as narrativas finalizados, o braço de arte e design do projeto comandou os trabalhos, para que a festa de domingo fosse possível. André passou a semana na cidade, com uma super equipe, parcialmente formada por artesãos jongueiros e quilombolas, para fazer a sinalização do roteiro e erguer a primeira exposição. Publicamos aqui sua fala de apresentação na inauguração do Memorial e fazemos, em seguida, uma pequena reportagem visual do resultado.

Boa noite, quero aproveitar essa oportunidade para agradecer e ressaltar a felicidade que é participar desse projeto. Vou tentar também explicar rapidamente a sua estrutura visual. Em termos visuais, Passados Presentes pode ser dividido em três pilares: a exposição, o design e a parte artística.  

Em termos d​o projeto expográfico, o conceito é ​a roda de Jongo, que preserva a memória e a história. Quero agradecer a colaboração de Jorge Estevão, Antônio de Padua Estevão, Sebastião Seabra e Carlos Alberto, do Quilombo São José, que junto com Walmir​ de Souza Francisco​, do Quilombo do Bracuí, ajudaram a definir e levantar a estrutura de pau-a-pique, bambu e cipó, base do Memorial. ​Agradeço também as equipes de montagem de André Salles e Carlos Alberto Ribeiro Andrade, que vieram do Rio de Janeiro para cuidar do acabamento e do caráter permanente da exposição. No Quilombo São José, agradeço também à D. Joana D’Arc, que bordou os títulos dos painéis expositivos. Agradeço ainda, especialmente, a Isabel Pacheco, produtora que esteve presente todo o tempo, e foi o braço direito dos trabalhos. E claro, a todos os participantes do Jongo de Pinheiral, por sua hospitalidade e suporte durante a semana de montagem.

Em termos de design, gostaria de agradecer a equipe que me ajudou a definir as placas, a sinalização, o design do app e das peças gráficas, especialmente a Julia Haiad, designer dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio 2016,​​ que trabalhou ilustrando o mapa e ​todo​ sistema de ícones ​e submarcas​ do projeto, além dos designers João Roma e Vitor Lifsitch, que trabalham com a gente.

Por fim, a parte artística, que permite a visualização do conceito da roda de jongo, possui uma linguagem visual mais pessoal. A base das serigrafias foram as fotos realizadas pelo Guilherme Hoffmann com os jongueiros de Pinheiral. O resultado, com uma linguagem menos figurativa e mais gestual, representa não só a individualidade dos jongueiros retratados, mas a energia e o movimento do jongo. Simboliza não só Pinheiral, mas também toda comunidade jongueira. Eu espero que vocês gostem.

Para compartilhar fotos, a hashtag do projeto é #passadospresentes. Obrigado!

foto_capa_blogfoto_montagem_blog11779855_10152971887023062_5505427659021381133_o11728809_10152971889698062_6696693525344202579_o11411956_886661514704220_2648254145479334549_o11802586_886940344676337_1968795905101257049_o (1)11696608_886940338009671_7377618826896213517_o11741174_886661518037553_2197751268587444907_o11728822_886661524704219_197104627674038554_o11751774_10152975405428062_6850022967868622094_n11216489_886657118037993_7486897385644119070_o11755108_886658248037880_2968268757584297969_n11741229_886940341343004_8150060746107409357_o11220907_886657391371299_3253892464804836264_n11753663_886657388037966_1031297324822883880_n11800155_886657384704633_5076214639099869046_n11802713_886658251371213_6669474184420612732_oFullSizeRender (4)54463662ce82bd424a53818bdd65e4b9 (1)FullSizeRender (2)

2 Comentários

Arquivado em cultura negra, história e memória, história pública