Passados Presentes na Semana da Consciência Negra

A festa de inauguração da terceira exposição do projeto Passados Presentes aconteceu no último domingo, 14 de novembro, no Quilombo do Bracuí. A celebração foi memorável. Reuniu mais de 400 pessoas, organizada com brilho pela comunidade quilombola, que luta há mais de cem anos pelo território coletivo ocupado por seu antepassados, desde antes de o receberem oficialmente, em 1878, em doação no testamento de José de Souza Breves, que ali desenvolvia atividades negreiras na primeira metade do século 19.

As fazendas negreiras se desenvolveram no litoral das principais áreas escravistas do Império do Brasil, sobretudo depois da primeira proibição formal do comércio negreiro no então jovem país independente, em 1831. Elas substituíram as antigas áreas oficiais voltadas para este tipo de atividade, como o complexo do Valongo, no Rio de Janeiro.

Clique na figura abaixo para ouvir a narrativa dos griôs do Quilombo do Bracuí, sobre o funcionamento da antiga fazenda.

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Os griôs do Quilombo do Bracuí são guardiões da memória dos horrores cometidos contra os recém chegados e da sua recuperação para serem enviados serra acima, para as áreas cafeicultoras do Vale do Paraíba,

A tradição oral guardou até mesmo o naufrágio criminoso em águas próximas à fazenda, do Brigue negreiro Camargo, perseguido pela marinha brasileira após a segunda lei de extinção do tráfico atlântico, em 1850.

Confira a narrativa de Manoel Moraes, clicando na imagem abaixo.

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O naufrágio deixou documentos históricos na auditoria da marinha e no ministério da justiça brasileiros. O memorial do Quilombo do Bracuí homenageia os africanos sobreviventes resgatados pelas autoridades. Na imagem abaixo, vemos a griô quilombola Marilda de Souza contar esta história para estudantes que participaram da festa de inauguração.

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São, porém, os jovens do quilombo que transformam a tradição oral em bandeira de luta por novos e melhores tempos, simbolizados na imagem da Santa Rita Black, do artista Lee27.

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A Exposição Memorial do Quilombo do Bracuí conta a história de como funcionavam as antigas fazendas negreiras do litoral sul fluminense e de como elas se tornaram improdutivas após o fim do tráfico atlântico de escravos para o Brasil. De fato, os trabalhadores africanos ali residentes eram testemunhas de um crime contra as leis do Brasil, que apenas após 1850 passou a ser efetivamente reprimido pelas autoridades imperiais. O proprietário da antiga fazenda do Bracuí, José de Souza Breves, os deixou com o usofruto das terras após o encerramento das atividades negreiras. Em seu testamento, eles foram depois alforriados e transformados em herdeiros do território ocupado. A tradição oral de seus descendentes, no século 21, tornou-se testemunho, não de um crime contra as leis do Império do Brasil, mas de um crime contra a humanidade.

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A roda expositiva conta também a história da luta da comunidade pela terra coletiva ao longo do século 20. Na década de 1970, a construção da Rio Santos lhes tirou, não sem luta, toda a terra que ocupavam da estrada até o mar. Ainda hoje, o território comunitário continua ameaçado apesar da certificação da Fundação Palmares como comunidade quilombola. Três da placas do projeto Passados Presentes foram arrancadas poucas horas após terem sido colocadas. Tais locais de memória continuam sinalizados no roteiro do aplicativo e, felizmente, encontram-se fora da área que vem sendo negociada com o INCRA para demarcação definitiva. Esperamos que isso aconteça o mais rápido possível. Enquanto não acontece, a sinalização do projeto Passados Presentes atualiza a memória do território histórico ocupado pela comunidade e a fortalece para a futura titulação de acordo com a Constituição de 1988.

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O racismo é o mais terrível legado da sociedade escravista para a experiência nacional brasileira. Nessa semana da consciência negra, o conversa de historiadoras vem mais uma vez celebrar a riqueza e a especificidade do legado cultural da última geração de africanos no Rio de Janeiro. Trazidos à força ao país a menos de 150 anos, seus descendentes hoje compõem a maior parte das comunidades remanescentes de quilombo e dos grupos detentores do patrimônio cultural brasileiro de matriz africana oficialmente reconhecido.

“O Gente presta atenção na história que eu vou contar//Deitei minha cabeça na cabeceira do rio mas o pé está lá no mar” (Ponto de jongo sobre a extensão das terras do Quilombo do Bracuí – Marilda de Souza)

Assista o teaser atualizado do projeto Passados Presentes.

 

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