Arquivo do autor:Monica Lima

Sobre Monica Lima

Professora de História da África da UFRJ, pesquisa ensino de história da África e histórias de africanos no Brasil em conexão com seu continente de origem. Coordena o LEÁFRICA - Laboratório de Estudos Africanos da UFRJ.

Pela desobediência

As recentes notícias da aprovação, na assembleia legislativa do estado de Alagoas, de uma lei que impede os professores de dar opinião em sala de aula e exige uma postura de “neutralidade” política causaram indignação e medo. Matérias jornalísticas do dia de hoje (02/05/2016) informam que o governador de Alagoas não promulgou a tal lei, perdendo o prazo estabelecido; mas, não há garantias que não seja obrigado a fazê-lo. Projetos com esse mesmo conteúdo tramitam em diversos legislativos estaduais e municipais no nosso país e defendem que qualquer trabalho pedagógico que tenha como objetivo estimular um pensamento crítico deve ser evitado. O que pretendem é retirar do professor a tarefa de educar, ficando apenas com a função de instruir. Foi apresentado no Congresso Nacional no ano passado o projeto de lei 867/2015 que propõe a alterar a lei de diretrizes e bases da educação nacional nesse mesmo sentido, e há interesses em que seja votado.

Tais propostas são defendidas por movimentos que se intitulam escola sem partido e escola livre e que, na verdade, estão distantes de corresponder ao que dizem essas denominações. Estão comprometidos com silenciar, nas escolas e universidades, as discussões sobre temas como diversidade de gênero, liberdade de credo religioso e combate ao racismo. Avançam em sua retórica fundamentalista e politicamente posicionada no campo do retrocesso e da intolerância, contrários às conquistas no campo de direitos humanos que se alcançaram nos últimos anos. Não são em nada imparciais e nem tampouco sem partido, e menos ainda defensores de escolhas livres.

Como diz a letra da canção: há perigo na esquina…

O que está em jogo é a liberdade de ensinar, e sem liberdade não há conhecimento, não há aprendizagem. Não há nada mais ultrapassado que preconizar uma educação que se reduza à instrução, entendida vulgarmente como “passar matéria”. Nenhum lugar do mundo onde se pense seriamente sobre os caminhos da inteligência humana no processo ensino-aprendizagem reconheceria a neutralidade como possível na ciência, na arte ou na técnica.  E, para culminar, esses movimentos estimulam o ódio aos professores, acusando-os de manipular, impor ideias e influenciar negativamente condutas e posturas contrárias ao que pregam aquilo que consideram como valores familiares. Incitam denúncias e ações judiciais contra professores que, segundo eles, doutrinariam os estudantes.

Há poucos dias, num dos espaços virtuais de apoio a esses projetos retrógrados, deu-se a exibição de uma retórica de desrespeito, tendo como foco os livros didáticos que trazem conteúdos de história da África e cultura afro-brasileira. Alegam – os seguidores da escola sem partido e similares – que essas leituras estariam fazendo uma doutrinação religiosa ao apresentar divindades e aspectos positivos das religiões de matriz africana no Brasil aos estudantes. Um argumento que traz tamanha demonstração de ignorância e estreiteza de pensamento poderia gerar apenas um olhar de menosprezo se fosse outra a conjuntura no Brasil. Nesse momento, devemos mais que sempre estar atentos e cientes da importância de tomarmos uma atitude.

Candomblé e umbanda em livros didáticos/2016 do MEC para o ensino fundamental
Alunos de escolas públicas e privadas, inclusive confessionais, que estudarem com os livros didáticos/2016 do MEC para crianças de 6 a 10 anos, serão doutrinados sistematicamente no Candomblé e na Umbanda.

As religiosidades de matriz africana têm uma longa e dolorosa história de perseguição no nosso país. Houve um tempo em que foram proibidas por lei, seus sacerdotes presos, suas casas sagradas destruídas. Esse tipo de ação não se extinguiu com a legislação que veio a institucionalizar os direitos de cidadania aos seguidores de diferentes religiões e a condenar, com base em princípios republicanos e constitucionais, a intolerância – seja em atos ou em discursos. Infelizmente, ainda se têm notícias de atentados contra casas religiosas de matriz afro-brasileira e o desrespeito aos seus féis é uma constante em diversos espaços.

perseguicao_religiosa1

http://www.tudosobrexanxere.com.br/index.php/desc_noticias/centro_de_umbanda_e_incendiado_suspeita_que_seja_criminoso

Tendo suas origens nos corações e mentes negros durante o tráfico de escravizados, a fé trouxe a força necessária para a sobrevivência dessas pessoas e, ao mesmo tempo, contribuiu humanizar aquele mundo violento e desigual. Na experiência religiosa, criaram solidariedades, laços familiares, e imprimiram um sentido às suas vidas, relacionando-se muitas vezes estreitamente com o catolicismo e diversas vertentes cristãs. Casas religiosas de matriz africana agregaram gente de outros mundos e de todos tons de pele, não discriminaram – nem fizeram proselitismo. Seus deuses e espíritos fazem parte da cultura brasileira hoje, estão na nossa identidade, e a tornam mais bela e plural. Podem conviver tranquila e pacificamente com outros credos, já se demonstrou.

caminhada_pela_liberdade_religiosa

http://www.midiagospel.com.br/brasil/caminhada-defesa-liberdade-religiosa-leva-milhares-copacabana

E, da mesma forma, há cristãos de diferentes vertentes que assumem uma postura crítica e defendem o direito de todos escolherem seu caminho religioso e também condenam igrejas que mercantilizam a fé: https://www.facebook.com/Crist%C3%A3o-Protestante-486307198057073/?fref=ts

Sabendo da importância de se educar para combater a intolerância e o racismo, como deixar de trazer os elementos das religiosidades afro-brasileiras para a sala de aula, na fundamental discussão sobre as diferentes matrizes que formam o universo (tão diverso) cultural brasileiro?  Como não incluir as lendas e contos da rica tradição oral africana e afro-brasileira nas leituras e histórias contadas para crianças, jovens e adultos que se educam nas escolas do nosso país? Como esquecer os orixás, inquices e voduns, o povo da rua, os espíritos da floresta – entidades que significam tanto para seus fiéis e povoam nosso imaginário, sejamos nós ou não de outros credos, ou de nenhum?  Se isso acontecesse, se deixássemos de ler e ouvir essas histórias, seria uma perda, um esvaziamento e um ato de desprezo com relação a uma parte fundamental de nossa própria identidade. Uma violência, afinal.

Além disso, desde 10 de janeiro de 2003 existe uma legislação que tornou obrigatório o ensino de História da África e cultura afro-brasileira em todos os estabelecimentos de ensino públicos e privados do nosso país. Essa lei foi ampliada em 2008, incluindo a história indígena, dos povos originários de nosso território. É uma questão de cidadania.

Na primeira pessoa, falo aos meus colegas professores: coloquem nas mãos dos alunos as lendas de Exu, da Pomba-Gira, que venham histórias com Xangô, Iemanjá e as sagradas folhas da Jurema, e que estas se atravessem com as histórias das festas da Congada e do Divino Espírito Santo, as romarias de Nossa Senhora Aparecida, os relatos dos médiuns, as tradições judaicas e as narrativas bíblicas – que linda a história de Moisés, que tirou seu povo da opressão…. Que venham todos e muitos mais. Certamente não para doutrinar (precisa dizer?), mas para mostrar que o mundo pode ser mais bonito quando é plural e diverso. Afinal, todos têm direito às suas religiões, e conhecê-las em sua (nossa) riqueza cultural é direito nosso. A intolerância mata – especialmente a inteligência.

Como dizem os estudantes de Alagoas: desobedeçam.

https://www.facebook.com/professordesobedecaa/

DESOBEDEÇAM

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Eu quero passar com a minha dor

Recentemente, tivemos a boa notícia de que a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade foi aceita pela UNESCO. Para receber o título e ser incluída na lista, ainda falta a avaliação do sítio arqueológico pelos técnicos especializados e o parecer final do Comitê; mas, um passo importante foi dado nessa direção. Caso se tenha um resultado positivo, esse será o primeiro local a ser reconhecido como patrimônio da humanidade no Brasil tendo como núcleo central da sua justificativa a história da escravização de africanos e da população negra. Outros sítios que fazem parte da lista de patrimônio mundial no nosso país guardam profundas relações com essa história, como por exemplo o conjunto arquitetônico do Pelourinho em Salvador e a cidade histórica de Ouro Preto, mas ela não aparece com destaque nas suas apresentações. O Cais do Valongo tem a candidatura defendida a partir de seu reconhecimento como lugar de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados e da resistência cultural e política da população negra a uma longa história de violência e exclusão. Situado no Rio de Janeiro, o cais é o testemunho material do local de desembarque do maior número de africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Em nenhuma outra parte do mundo chegaram tantos cativos trazidos da África.

Não são apenas as pedras pisadas no local de desembarque de tanta gente trazida à força do lado de lá do oceano, durante o mais longo processo de migração forçada da história da humanidade. É o Cais do Valongo e seu entorno. Estamos falando também do cemitério dos pretos novos, do quilombo da Pedra do Sal, das esquinas e ruas por onde circularam João Alabá e Prata Preta, da fundação do Ile Ase Opo Afonja no Rio de Janeiro, do sindicato dos trabalhadores portuários, e de tantos outros personagens, movimentos e fatos históricos que fazem da região parte fundamental da Pequena África na cidade – como nomeou Heitor dos Prazeres. E aos vestígios e construções se agrega a tradição viva – tal como a chamava o grande historiador africano Amadou Hampaté-Bâ – que dá sentido e mantém acesa a chama que arde nas rodas de samba e de capoeira, nos tambores e afoxés.

No entanto, aqui nesse texto eu venho trazer a dor e a violência como parte dessa história. E não se trata simplesmente de uma dor diluída numa história de um passado remoto, num tempo em que submeter o outro a uma situação de desumanização era natural. Quero recordar a dor que existia apesar do fato das pessoas de outra época acreditarem ter o direito de escravizar alguém. E lembrar, da parte dos que sofreram, o medo, a incompreensão e o espanto frente a uma realidade que mais parecia um pesadelo. Esse conjunto de sensações aos quais me reporto também definem, junto com a força da criação de tantas coisas belas, a atmosfera do Valongo. Tudo isso faz desse lugar onde tanto se celebra – com toda a razão – a presença africana e negra na cidade do Rio de Janeiro e no país, um sítio de memória sensível. Um lugar em que durantes anos desaguava um mar de gente depois de uma travessia em que não morrer poderia ser esperar sobreviver dolorosamente.

Mas, por que lembrar de tantas coisas ruins frente a uma notícia que é tão boa; afinal, podemos celebrar as heranças africanas com (re)conhecimento do mundo de que somos o país mais negro fora da África, e que mais do que isso, fazermos dessa história monumento e marco de nossa identidade?

Quero escrever sobre a dor e a violência por que é importante lembrar que o tráfico atlântico de africanos escravizados é um crime contra humanidade e o Brasil ainda não o reconheceu oficialmente como tal. Num crime, há vítimas. Nem de longe estou me referindo a sujeitos-objetos, transformados em mercadorias e submetidos sem reação. Não é essa qualidade de vítima. Estou dizendo dos que sofreram, e nos legaram essa memória. O ser vítima não significa perder a capacidade de agir, e mesmo de transformar.  Devo lembrar que assim como toda a beleza e poder da criação, a dor é parte da herança deixada por nossos antepassados africanos. Essa dor que atravessa a memória sensível dos descendentes faz do trauma da escravidão um processo cultural de base na formação de identidades no pós-abolição. Sem nenhum exagero, e com todo o drama, não há como encarar o Cais do Valongo e permitir que essa dimensão da história se dissolva no tempo. Até porque, como a tradição oral africana, ela está viva, e esbarramos com ela nas nossas ruas e quebradas hoje. O trauma coletivo não foi superado, ainda que em alguns casos se consiga aprender de alguma forma a lidar com ele.

Hoje o Cais do Valongo e a região que o cerca se tornaram roteiros frequentes de aulas de campo de muitos professores da Educação Básica, sobretudo os de História. Cursos de formação de professores que incluem a educação patrimonial entre seus temas fazem da visita à região portuária do Rio de Janeiro uma etapa necessária. Oficinas e roteiros guiados conduzem educadores, profissionais do turismo e interessados de diferentes origens a conhecer os logradouros de referência na área. Além de estudantes e educadores, turistas e moradores da cidade descobrem a região motivados por uma valorização da mesma pelas obras de reforma urbana e a presença de museus.

Acompanho algumas experiências no campo do ensino de História que transitam nos caminhos do Valongo, e me interessa entender como lidam com a história da dor e da violência. Como se pode fazer estratégias de aprendizagem a partir do contato com esses aspectos da experiência dos nossos antepassados contribuindo para desnaturalizar a violência da escravidão, pensada sob o ponto de vista de quem a sofria? Fico procurando perceber como os professores encontram meios de articular o conhecimento sobre as diferentes maneiras de se celebrar a vida, de se tecer solidariedades, de afirmar-se em suas práticas religiosas e artísticas, à enorme carga de sofrimento físico e psíquico daquelas pessoa e as suas marcas na história de seus descendentes.

Aprendo com os professores e estudantes e percebo que as dimensões não se opõem, se completam, e se tornam mais compreensíveis quando vistas em conjunto. O samba na Pedra do Sal se mostra por inteiro quando se situa historicamente a perseguição aos terreiros, a luta dos trabalhadores portuários e a dureza da repressão. A emoção sentida ao visitar o lugar onde os corpos dos africanos recém-chegados eram deixados à flor da terra , humaniza o conhecimento que se adquire. E permite ver com outros olhos a luta quilombola hoje.

Tudo isso, se não explica o que acontece em nossos dias, sem dúvida ajuda a exercitar a sensibilidade. E é fundamental não a perder de vista. Estamos num tempo em que as estatísticas de mortalidade de jovens negros e de violência contra mulheres, e em especial mulheres negras, soam como lugar-comum. O racismo segue vivo e presente, rasgando a pele da nossa realidade. Aproximar-nos dessas histórias como numa visita a um lugar de memória talvez nos lembre de nossa dimensão humana. Como na maioria dos processos traumáticos, o silêncio é cúmplice, e rompê-lo é um caminho para não deixar que o medo nos paralise.

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A Pequena África, coração da cidade negra do Rio de Janeiro no século XIX e início do século XX, onde se insere o Cais do Valongo, tornou-se cenário para um roteiro em forma de aplicativo que será lançado no próximo dia 2 de abril, dentro do projeto Passados Presentes 

Mais sobre o Cais do Valongo nesse blog:

https://conversadehistoriadoras.com/complexo-do-valongo/

https://conversadehistoriadoras.com/2014/05/25/memoria-e-cidadania-no-complexo-do-valongo/

https://conversadehistoriadoras.com/placa-quilombo-pedra-do-sal/

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