Saia da Mesa

Existe um ditado alemão que diz: ‘Se há dez pessoas numa mesa, um nazista chega e se senta, e nenhuma pessoa se levanta, então existem onze nazistas numa mesa”. Não se pode tolerar o intolerável. Saia da Mesa. (Ynaê Lopes dos Santos)

Durante vários anos, fui professora de História Judaica em uma escola judaica do Rio, a mesma onde estudei minha vida toda. Dei aulas para todas as séries. Todo ano eu ensinava sobre o nazismo; todo ano recebíamos visitas de sobreviventes, acendíamos velas no Yom Hashoá (Dia do Holocausto), repetíamos que atrocidades como aquelas nunca mais poderiam ser repetidas, nunca mais.

Estas aulas eram difíceis. Durante todo este tempo, meu maior desafio não era exatamente explicar o antissemitismo de alguns, mas a indiferença da maioria. Meus alunos não entendiam por que, ao presenciar a escalada da violência que se seguiu à eleição de Hitler, a sociedade alemã não se organizou para conter a disseminação do ódio e da violência. Eu tentava explicar mas no fundo, no fundo, também não entendia.

Agora entendi.

O candidato do PSL não é Hitler. Mas seu discurso de ódio às minorias é perigosamente semelhante ao do ditador eleito pelo voto na Alemanha dos anos 1930. Também naquela época, o seu discurso tinha como alvo a corrupção. E, também naquela época, muitos caíram na falácia de que, para lutar contra a corrupção, é preciso apoiar o extremismo.

Vejo horrorizada as manifestações de apoio — ou de isenção, o que neste caso dá no mesmo — de alguns judeus ao candidato da extrema direita. Não acredito que todos sejam racistas e homofóbicos como o discurso daquele que, fosse a eleição hoje, seria o novo presidente do Brasil. Mas são indiferentes à violência que acham que não os atinge. Indiferentes como aqueles que testemunharam a escalada de ódio aos judeus na Europa e não fizeram nada. Os violentos só atacam se os indiferentes permitirem. Estaremos permitindo?

Os judeus não são alvo preferencial da atual campanha de ódio disseminada pelos seguidores do candidato da extrema direita. Mas seria interessante perguntar a eles o que sabem sobre o Holocausto. Não será surpresa se muitos forem negacionistas. Basta ver a onda de suásticas que proliferam por aí após o primeiro turno das eleições presidenciais. Um dia na UERJ. Outro na igreja de São Pedro da Serra. Na porta do apartamento de uma amiga. Na carne de uma moça. A História mostra que onde há extremismo, há antissemitismo. Queremos mesmo estas companhias?

Às vésperas do dia do professor, só consigo pensar que falhamos. Serviram para alguma coisa as aulas de História Judaica? Transmitimos valores judaicos? Onde deveria haver empatia, há indiferença. No lugar da memória, esquecimento. Para uma tradição fundada no estudo e na memória dos nossos antepassados, estamos mal, bem mal.

Keila Grinberg.

 

4 Comentários

Arquivado em #Democracia

4 Respostas para “Saia da Mesa

  1. Matthias Röhrig Assunção

    Excelente texto, Keila!

  2. Leandro Pimenta da Silva

    Excelente texto, pena que tivemos tantos, cúmplices isentos, nestas eleições, espero que estes não continuem nesta posição, temos muito o que lutar para que esse governo que pende para o fascismo não vigore sobre a democracia, aos que esperam 2022, cuidado, se não lutarmos agora poderá não haver 2022.

  3. Humberto P.C de Oliveira

    Um Alemão certa vez me perguntou o porque de na bandeira do Brasil esta escrita a frase Ordem e Progresso, se são as coisas que mais faltam em nosso país?

  4. Cris

    Olá professora Keila.

    Cheguei ao seu texto ao pesquisar sobre o ditado alemão e me angustiei com a sua angústia passada e imagino sua dor hoje.

    Neste momento, agora que não se pode argumentar que era o “jeitão” dele, que ele é “um homem simples”, “fala da boca pra fora” e ainda restam tantas pessoas apoiando, defendendo, queria apenas que alguém me respondesse porque ainda não fazemos nada.

    É claro que temos a questão da pandemia, que escancarou o que esse maldito é mas, é o congresso? Eles poderiam entrar pra história por fazerem algo certo. Alguns poderiam até usar a ação neste caso e fazerem uso eleitoral da luta contra esse monstro. Mas nem isso!

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