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A cegueira da TV Globo

Na terça feira gorda de carnaval, pela manhã, terminei de assistir ao desfile da Imperatriz e da Mangueira e continuei com a mesma sensação desagradável da véspera.  A cobertura da TV Globo havia se superado em termos de mediocridade – e desde domingo.  Entrei no facebook e encontrei alguns textos de historiadores que ajudavam a pensar. Paulo Cavalcante foi categórico: “A cobertura da Globo é um atentado contra a cultura brasileira”. Era isso mesmo. Rapidamente coloquei minha raiva no papel e postei no face um texto, denunciando a cegueira da TV Globo.

Não tenho muitos elementos para entender por que os desfiles desse ano foram tão especiais, mas foram.  Vi muita coisa maravilhosa acontecendo nas escolas. Lá estavam ícones religiosos e musicais da cultura afro-brasileira, como os Exus e as pombas giras, divindades africanas, maracatus, sambas de roda, folias de reis e do divino; as inovações de jovens negros diretores da bateria e da harmonia, muitos deles filhos e netos dos fundadores, alas e passistas com lindas coreografias, contando, com muita beleza e orgulho, a história da população negra e brasileira. Até mesmo o Marquês de Sapucaí ficou amigo da Ciata, e logo na Beija Flor! Quem diria!  Aliás, o samba da Beija Flor é imbatível.

Lamentavelmente, a cobertura da Globo não conseguiu ver nada disso, o que revela um impressionante descaso com a cultura popular e com a história da população negra no Rio de Janeiro.  Nenhum comentário  relacionado às comunidades, seus problemas (como UPPs e  intolerância religiosa), suas vitórias, seus  fundadores, lideranças, sambistas, alas e histórias.  As escolas de samba, nas transmissões da TV Globo, não parecem pertencer ao Rio de Janeiro.

E logo nesse ano que estamos comemorando os 100 anos do samba no Rio de Janeiro, ao menos o que foi registrado por Donga e gravado em 1916 pela Odeon. A Globo não tem a mínima ideia das várias iniciativas que estão sendo feitas pelas próprias escolas de samba para registrarem suas memórias, como na Vila Isabel e no Salgueiro, e construírem um acervo que valorize seus projetos educacionais e culturais. A Mangueira reúne hoje o maior centro de documentação sobre o samba, o Centro Cultural Cartola,  e  o Museu do Samba. Vale a visita.

Vida longa às escolas samba!  Elas são uma das mais antigas instituições brasileiras e fazem parte de um dos nossos maiores patrimônios culturais, reconhecidos, pelo IPHAN, em 2007, no Livro de Registro das Formas de Expressão, em nome das matrizes do samba carioca: samba de partido alto, samba enredo e samba de terreiro. Para se saber mais sobre a história desse patrimônio, é fácil o acesso ao dossiê que embasou o reconhecimento oficial.

Apesar da raiva e tristeza, não dá para desanimar. Hoje conhecemos muito mais do que a Globo consegue visualizar.  Jovens pesquisadores de diferentes áreas desenvolvem importantes trabalhos sobre a história das escolas de samba.  Se ainda precisam encontrar maior campo de atuação e visibilidade, a universidade já tem feito muito por isso.  De uma forma complementar, professores de história, como Eric Brasil, também começam a entender que o carnaval não termina na quarta feira de cinzas, com a programação da Globo.  Em seu post no facebook,  recomenda o trabalho em sala com o enredo do Salgueiro, a Opera do Malandro, pois cabe muito bem como recurso à implementação da lei 10639/03. É uma ótima estratégia de combate à intolerância em relação às religiões afro-brasileiras nas escolas.

No dia que publiquei o texto no face, registrei minhas saudades dos tempos em que  Haroldo Costa e  Leci Brandão conseguiam imprimir outros sentidos aos  lamentáveis  comentários da Globo. Hoje posso anunciar com alegria que a TV Brasil cobriu os desfiles das campeãs, com comentários super qualificados, liderados por Nilcemar Nogueira  (neta de D. Zica e Cartola, coordenadora do Centro Cultural Cartola e doutora em Psicologia Social pela UERJ) e Luiz Antonio Simas  (professor de história e autor de vários trabalhos sobre a história do samba).  Além disso, acompanhamos  entrevistas de qualidade com sambistas  e o emocionante momento do “esquenta das escolas”. Novos tempos… espero!

Obs: A TV Globo não televisionou o desfile das campeãs. Inacreditável!

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Arquivado em cultura negra, história pública, historiografia