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Uma viagem no tempo

Track 14189 (0:23)/ clique para ouvir a gravação (Audio 14)

No tempo de cativeiro/  In the days of captivity

Aturava muito desaforo/  I endured many an insult

Levantava de manhã cedo /I got up early in the morning

Com cara limpa levo o couro, ai / The leather whip beat me for no reason

 

Agora quero ver o cidadão/ Now I want to see the citizen

Que grita no alto do morro/ Who shouts at me from the hilltop

Vai-se Cristo, seu moço/ God bless you, master

Seu negro agora tá forro/ Your Negro is now a freedman

 

 

Cangoma Calling. Spirits and Rhythms of Freedom in Brazilian Jongo Slavery Songs,  2013, é um Hybrid Book, com som e texto em pdf disponíveis gratuitamente na web, em torno das gravações de jongos e outras formas musicais feitas pelo historiador estadunidense Stanley Stein e sua esposa Barbara Stein, na década de 1940, com ex-escravizados do Vale do Paraíba Fluminense. O Hybrid Book foi organizado por Pedro Meira Monteiro e Michael Stone, da Universidade de Princeton, onde ainda atua Slanley Stein,  a partir do CD Livro Memória do Jongo, organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco, publicado em 2007 no Brasil (Folha Seca, Cecult/Petrobras Cultural) e hoje esgotado.

A história das gravações de Stein, por si só, já é motivo de sobra para um olhar atento sobre as duas obras. No final da década de 1990, o então jovem e sempre entusiasmado historiador Gustavo Pacheco, começava a se perguntar onde estariam as gravações realizadas por Stein na década de 1940, quando o autor realizava sua pesquisa para o clássico livro Vassouras, um município brasileiro do café, 1850-1900, publicado nos Estados Unidos por Harvard, em 1958, e Princeton, em 1985, e no Brasil pela Brasiliense e a Nova Fronteira, em 1961 e 1990.

De uma curiosa e atenta pergunta, Gustavo conseguiu entrar em contato com Stein, em setembro de 1999, depois de valiosa ajuda de Rebecca Stein e Jeremy Adelman. Nesse encontro, soube que as gravações haviam sido feitas com fio de arame (wire records), mas Stein ainda não as tinha localizado. Tempos depois, em 2002, acompanhando o crescimento do jongo entre os pesquisadores e os próprios jongueiros, Gustavo entraria de novo em contato com Stein, mostrando a importância da recuperação das gravações. Ele não desistia. Em 2003, para sua alegria, Gustavo recebeu de Stein a encomenda em “uma latinha redonda de metal, contendo um carretel com um arame fino como um fio de cabelo”. Agora era buscar apoio e recursos para a digitalização das gravações, sem se ter a garantia de que fosse possível ouvir alguma coisa depois de tanto tempo. Nesse momento a entrada do Cecult da Unicamp e de Silvia Lara foram fundamentais. As gravações ainda voltariam aos Estados Unidos para serem trabalhadas por uma firma especializada. E tudo deu certo.

Hoje, depois de quase setenta anos da época que foram feitas, podemos ouvir mais de meia hora de sons gravados, com 60 pontos de jongo, 5 fragmentos de batuques, oito cantigas acompanhadas por acordeão (calangos, certamente), uma folia de Reis, cinco batucadas de samba e um samba cantado. Nas palavras de Gustavo, “as gravações de Stanley J. Stein saíam do gabinete para entrar para a história”.

Participamos com o texto Jongo: registro de uma história, do livro organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco para trazer a público as gravações. Para nós, foi uma feliz coincidência que dois projetos sobre a memória do Jongo tivessem sido aprovados pelo edital sobre Patrimônio Imaterial Petrobras 2005: o projeto de publicação do livro/CD Memória do Jongo de Silvia e Gustavo e o nosso projeto de trabalhar a memória do jongo entre o campesinato negro do Rio de Janeiro, que resultou no arquivo Petrobras Cultural Memória e Música Negra e no filme Jongos, Calangos e Folias. A feliz coincidência se tornou grande emoção quando ouvimos as gravações de Stein e descobrimos que também ele registrara jongos, calangos e folias, falando diretamente com camponeses negros que haviam vivido a experiência da abolição no Vale do Paraíba. A força dos versos e a versatilidade musical que tanto nos impressionaram durante a pesquisa de 2007, já estavam lá, cantadas por contemporâneos dos pais e avós de nossos entrevistados

A riqueza dos pontos e versos registrados por Stein pode ser acompanhada a partir da página 133 do PDF do Hybrid Book. Para ouvir qualquer um deles, basta clicar em “sound files/field recordings (in mp3 format) by Stanley Stein and Barbara Stein”, a partir da numeração dos “tracks” das gravações, informada ao lado da transcrição.

A experiência é imperdível. Absolutamente fantástico para trabalhar em sala de aula. #fica a dica.

http://www.laabst.net/laabst3/

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Conversando com Eric Foner

Eric Foner é um dos mais importantes historiadores dos Estados Unidos. Sua releitura sobre a abolição e o pós-abolição no mundo atlântico influenciou  uma geração de novos historiadores nos Estados Unidos e no Brasil. Sua obra principal sobre o período após a guerra civil nos Estados Unidos, conhecido como Reconstrução (1865-1977), escrita durante os anos 80, revolucionou as abordagens sobre o período e não apenas no mundo acadêmico. Até a obra de Foner, a experiência política da Reconstrução ainda era vista como uma evidencia do despreparo dos libertos para a vida politica, e a escravidão muitas vezes considerada uma questão secundária para entender a guerra. Sua obra colocou a escravidão e os ex-escravos, respectivamente, como motivação e atores centrais de todo o processo, trazendo novamente à luz a primeira grande experiência dos libertos na luta por direitos políticos e civis, conforme pioneiramente propusera o historiador negro W.E.B. Du Bois, em 1935 .

Em mais de 400 páginas, “Reconstruction: America’s Unfinished Revolution” (1988) fez emergir um período pós guerra civil de crescente democratização e extraordinária riqueza política, cujo fim representara uma tragédia sem precedentes para a vida americana. A progressiva retirada dos direitos civis e políticos dos novos cidadãos, algumas décadas após os terem adquirido e exercido amplamente, culminaria com a institucionalização da segregação racial nos estados do Sul do país. De fato, sua pesquisa representou o golpe de morte em uma interpretação inacreditavelmente racista e elitista das disputas políticas do período – que havia transformado os integrantes da Ku Klux Klan em heróis, em luta contra o que era percebido como desmandos e corrupção de políticos negros ou oriundos do Norte apoiados no voto dos libertos. Até a vitória do movimento pelos direitos civis nos anos 60, essa leitura esteve fortemente presente nos livros didáticos e  no cinema – como nos célebres “The Birth of a Nation” (O Nascimento de uma Nação, 1915) e “Gone With the Wind” (E o Vento Levou, 1939), e ainda nos anos 80, resistia a desaparecer do senso comum.

Desde então, as pesquisas históricas sobre o período da Reconstrução se multiplicaram. Foner também se revelou incansável como historiador público sobre o tema. Foi curador de exposições, escreveu livros didáticos e refletiu, em livros e artigos, sobre o ofício do historiador em relação às questões políticas do presente e à memória pública (vale a pena conferir, especialmente, Who Owns History, 2002).

Foner acaba de publicar uma biografia de Lyncoln (The Fiery Tryal. Abrahan Lyncoln and American Slavery) – que ganhou o prêmio Pulitzer, e está terminando um livro sobre a Nova York pré-guerra civil. Ele nos recebeu em seu escritório na Columbia University na sexta feira, 28 de março, para uma entrevista combinada com Hebe, para ser publicada como texto no dossiê sobre Pós-Abolição no Mundo Atlântico da Revista Brasileira de História, previsto para 2015. O encontro terminou parcialmente registrado em video pelo ipad de Martha, que havia chegado na cidade naquele dia, para participar de um evento organizado pelo Center for Brazilian Studies e o Center for the Study of Ethnicity and Race da Columbia.

Disponibilizamos aqui os primeiros 5 minutos de seu depoimento, em que Foner aborda as primeiras influências na sua formação como historiador.  Os destaques ficam para o radicalismo de esquerda na Nova York dos anos 50, a que chama “the old left”,  do qual participaram seu pai e tio, ambos historiadores (Jack e Philip Foner), e para o movimento pelos direitos civis dos anos 60. Um breve diálogo do historiador com sua memória e as lutas políticas de seu próprio tempo. Vale a pena conferir. Em inglês, sem legendas, por enquanto.

 

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O Novo Caso do Bracuí

(martha abreu e hebe mattos / 14 de março de 2014)

Para todos os amantes da cultura negra tradicional do Rio de Janeiro, foi emocionante o desfile do Império Serrano neste carnaval de 2014. E não só por ser o Império uma escola de samba muito importante para o Carnaval, para a história e fundação do samba carioca e para o povo de Madureira.  O Império homenageava “Angra com os Reis”, mas não a Angra dos poderosos e colunáveis da Ilha de Caras.  Ao lado de suas belezas naturais também presentes, desfilou na Avenida uma  Angra pouco visível  e nada valorizada, embora exuberante para quem quer ver  a cultura popular.  Era a Angra dos Reis Negros, com seus palhaços e reis magos da folia; era a Angra dos africanos escravizados, que, com suas mãos, cortavam a cana para alimentar o tráfico negreiro e batiam o tambor para não esquecer o passado. Era a Angra do jongo, patrimônio cultural do Brasil; era a Angra do Quilombo do Bracuí, guardião da memória dos que não sobreviveram à travessia da Calunga, era a Angra dos Pretos Velhos.  Era também uma Angra que encontrava pontos em comum com Madureira e homenageava jongueiros irmãos do morro da Serrinha, onde foi fundado o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano. Foi mesmo arrepiante ver em destaque no carro do Quilombo, com um enorme Preto Velho ao centro, Tia Maria do jongo da Serrinha, comandando a festa  e as homenagens.

Poucos sabem que pelo porto clandestino do Bracuí, em Angra dos Reis, no século XIX, entraram ilegalmente alguns milhares de africanos transformados em escravos no Vale do Paraíba  para o trabalho nas fazendas de café, então principal produto da pauta de exportação do Brasil.  O último desembarque ali, de mais de 500 negros de Moçambique, em 1853, foi alvo da repressão do estado imperial e ficou conhecido na imprensa como “O caso do Bracuí”.  Ao todo, pelo menos 750.000 africanos embarcaram para serem escravizados ilegalmente no Brasil entre 1831 (data da primeira lei brasileira de proibição do tráfico atlântico de escravos) e 1850 (data da segunda lei que finalmente “pegou”).  O local de chegada era também um local de horrores. Ali, os que não sobreviviam à terrível travessia do Atlântico  ganhavam, sem maiores ritos, sua última morada, enquanto os que logravam se recuperar aprendiam rudimentos da língua portuguesa e a trabalhar e agir como “escravos”.

Muitos dos que sobreviveram não subiram a serra e ficaram em Angra e no Bracuí,  no trabalho forçado de recepção dos novos africanos recém-chegados. Seus descendentes herdaram a terra abandonada após o fim do tráfico negreiro e resistiram por todo o século XX a inúmeras tentativas de expulsão.  Ainda hoje, apesar do seu reconhecimento oficial como remanescentes de quilombo, não receberam a titulação das terras.  E disso depende a sobrevivência do grupo e de sua poderosa tradição oral.  Grandes jongueiros, os negros do Bracuí não esqueceram  nem a cultura herdada  nem as tragédias testemunhadas por seus antepassados.  É a memória do nosso holocausto particular, nas belas praias de Angra, que os negros do Bracuí  inconfortavelmente nos trazem. “É filho quilombola, é negro guerreiro de Bracuí”. Assim o samba do Império homenageava a sua saga de lutas. Bela homenagem dos dois Eduardos que assinaram o enredo, o carnavalesco Eduardo Gonçalves e o historiador Eduardo Nunes.

Mas os negros do Bracuí não estavam na Sapucaí. Nem a prefeitura de Angra nem a Escola de Samba ofereceram condições para que o grupo, famoso por seu jongo, participasse do desfile. O povo do Bracuí não foi convidado para a festa e não desfilou.  A cobertura da imprensa também não registrou a homenagem. Apesar das informações enviadas pelo carnavalesco, os comentários sobre o Bracuí real, e até mesmo sobre o jongo da Serrinha, foram breves e superficiais. Para a maior parte dos formadores de opinião em atuação no carnaval, o jongo e os jongueiros só são reverenciados como vaga herança do passado.

Mas eles estão bem vivos, fazem parte do presente, e trazem na cultura e tradição oral a memória da tragédia e da riqueza herdada dos mais de 20 anos de contrabando de africanos escravizados no litoral fluminense. No mesmo fim de semana que um filme como “12 anos de escravidão” ganhava o Oscar nos Estados Unidos, os herdeiros vivos dos africanos escravizados ilegalmente no Brasil eram mais uma vez invisibilizados, em plena Sapucaí, apesar das homenagens aos seus antepassados.  Eles assistiram decepcionados, de casa, o desfile. No dia seguinte, a sede do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, erguida num duro trabalho de mutirão e não concluída, por falta de apoio técnico de agencias do Iphan e da Prefeitura de Angra dos Reis, caiu.  A luta do povo guerreiro do Bracuí, tão cantada na Avenida, parece não ter fim.

foto enviada por Eduardo Nunes, “O reencontro na roda de jongo – O Quilombo da História em Santa Rita do Bracuí e o Quilombo do Samba no morro da Serrinha”

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