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Sobre Hebe Mattos

Hebe Mattos é Professora Titular Livre na Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenadora do LABHOI/Áfricas na mesma universidade, em rede com o Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI/UFF). É autora, entre outros livros, de Ao Sul da História (1987, 2009); Das Cores do Silêncio (1995, 1998, 2013) e Memórias do Cativeiro (com Ana Lugão Rios), 2005.

Ainda eleições e protagonismo negro…

Uma peça publicitária da campanha presidencial do PSDB acaba de divulgar um jingle com muitos jovens brancos, cantando versos de funk, num cenário que mostra a favela ao fundo. É inacreditável ainda circularem iniciativas que silenciam o protagonismo negro na transformação e ação política moderna, como quer dar a entender a propaganda. Descuido racista dos marqueteiros ou dissimulada intenção de atrair a nova classe média das favelas e periferias – explorando o déficit de autoestima produzido pelo racismo, a estratégia precisa ser denunciada. É lamentável e inaceitável. Além de tudo, contraria todo o esforço materializado na lei 10.639 que, no campo educacional, procura afirmar a presença negra na história do Brasil, em qualquer partido político, e combater o racismo através da valorização da cultura e identidades negras.

Para um forte e belíssimo exemplo de como o protagonismo negro pode ser valorizado e divulgado em outros termos, apresentamos hoje o catálogo de uma exposição itinerante, já anunciada há algumas semanas atrás, Para não perder a memória, D. Zica 100 anos do Centro Cultural Cartola – Museu do Samba Carioca. O catálago da exposição dá uma boa ideia do que podemos conhecer sobre a história dos sambistas, homens e mulheres negras que reinventaram a historia cultural da cidade do Rio de Janeiro a partir de seus morros e periferias. Conta com textos de especialistas, Nei Lopes, Felipe Ferreira, Nilcemar Rocha, Luciano Nascimento, Desiree Reis e Martha Abreu, além excelentes atividades pedagógicas sobre o patrimônio cultural do samba. Vale conferir na biblioteca do blog.

Foi também refletindo sobre apagamento/resgate do protagonismo negro que Hebe produziu um texto sobre o atual momento eleitoral. Reproduzimos aqui o primeiro parágrafo e os convidamos a ler o texto na íntegra também na biblioteca do blog.

“Durante o segundo semestre de 2013, em função da minha pesquisa sobre o engenheiro abolicionista André Rebouças, eu lia diariamente exemplares das edições mensais de um periódico publicado em Nova York, por um jornalista brasileiro, do qual André foi ativo colaborador. O Novo Mundo registrava notícias dos Estados Unidos para o Brasil durante a década que se seguiu à guerra de secessão americana. No antigo sul escravista derrotado, o período conhecido como “Reconstrução Radical” (1865-1877) foi pioneiro em reconhecer direitos civis e políticos aos ex-escravos tornados livres com a vitória da União. Muitos se alfabetizaram, participaram politicamente em seus locais de moradia, votando e sendo eleitos, junto aos políticos republicanos radicais oriundos do Norte do país. As conquistas sociais realizadas neste curto espaço de tempo são impressionantes e preenchem as melhores páginas da historiografia social e política sobre o pós-emancipação nos Estados Unidos. No entanto, o movimento fracassou, graças principalmente à eficácia de um discurso de fundo aristocrático, construído a partir da manipulação seletiva de uma série de casos pontuais de corrupção, segundo o qual toda a ação política dos libertos e o idealismo republicano eram uma simples fachada para a ação criminosa de um grupo de aventureiros corruptos que enganavam ex-escravos desinformados. Esta leitura foi depois potencializada pela memória, associou-se ao chamado “racismo científico” do final do século XIX, e progressivamente foi corroendo as conquistas dos libertos, ainda pouco sedimentadas, resultando em leis de segregação racial em todo o Sul a partir dos anos 1890, que durariam até a segunda metade do século XX.  Através das páginas de O Novo Mundo, acompanhei o dia a dia da tragédia que se anunciava e as semelhanças com o que eu ouvia no Brasil do século XXI muitas vezes me preocuparam. A divulgação seletiva e sincronizada com o segundo turno das eleições de depoimentos relacionados ao escândalo de corrupção na Petrobras me fez duvidar de onde e em que século me encontro agora….” (continuar lendo)

Boas leituras.

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Repare Bem…

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais … Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. … Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. (Machado de Assis, Pai contra a Mãe, 1906).

 

Repare bem é o título do bonito documentário da atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros sobre Denise Crispim, viúva do jovem guerrilheiro brasileiro Eduardo Leite, o Bacury, morto pela última ditadura brasileira, depois de 109 dias de tortura. O documentário foi uma iniciativa do projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia e Reparação do Ministério da Justiça do Brasil. O título e o filme são um bom mote para colocarmos a questão que queremos discutir neste artigo, as iniciativas  e demandas de reparação de males cometidos no passado – e as disputas que suscitam. Afinal escrevemos em pleno aniversário do golpe civil-militar de 1964, de triste memória.

Também esta semana, repare bem, foi aprovada pela câmara dos deputados, por expressiva maioria, lei que determina, por dez anos, uma cota de 20% de vagas para pretos e pardos no funcionalismo público. É o racismo como legado da escravidão que está na base da justificativa da nova lei.  É possível reparar o passado?

Como bem nos ensinou Hannah Arendt, as situações de extrema opressão em geral se estabelecem em meio a enormes cumplicidades das sociedades e frequentemente colocam suas vítimas em situações que geram humilhação e vergonha. E esta é, talvez, a maior violência, retirar às vítimas o direito ao passado. Pois para se lidar com um passado de opressão,  é mais confortável falar de honra, orgulho e resistência heroica, e essas virtudes, apesar de existirem, raramente prevalecem integralmente em situações em que estão em jogo a vida e a experiência da dor.

Uma vez passada a situação opressiva, também aqueles que conviveram com o horror sem incomodarem-se com ele, muitas vezes querem esquecer que o fizeram. Calam ou reconstroem suas relações com o passado.

Passaram-se quase 25 anos da Constituição de 1988 para que o Brasil conseguisse falar dos crimes e das cumplicidades na ditatura civil militar com a amplitude que está fazendo agora. É importante que o faça. A explosão de livros sobre o tema dá bem a medida de como a agenda historiográfica se faz  em diálogo direto com a politização das disputas de sentido sobre o passado. As perguntas dos historiadores são sempre alimentadas pela memória. História e Memória não são antagônicas, são formas diferentes e legítimas de se lidar com o passado, para que se possam estabelecer novos consensos sociais sobre o que é intolerável – e o horror não mais se repita.

Não apenas a reflexão sobre o passado recente pode ajudar a conseguir este intento. A nosso ver, no cerne dos crimes do regime instaurado em 1964, estão duas heranças culturais da sociedade brasileira: o elitismo, que faz uma minoria acreditar que “o povo não sabe votar” e a conivência com a tortura, comum a sociedades que conheceram a escravidão como instituição legítima, como bem nos lembrou Machado de Assis. Ela era praticada em quase todas as casas do Brasil oitocentista, de forma corriqueira, contra corpos pretos e pardos.

Nos últimos 30 anos, a pesquisa histórica muito avançou na compreensão da sociedade escravista e sobre o papel essencial dos homens e mulheres escravizados no seu devir. Sabemos como a vida se reinventava a cada dia,  engendrando a cumplicidade dos livres (independentemente da cor) e a resistência dos escravizados (mesmo quando limitados pelo teatro da subserviência). Sabemos também o quanto essas situações eram intercambiantes, fazendo da alforria, um objetivo dos cativos, e do temor da reescravização, um fantasma para os livres de cor. A linguagem racial fazia de escravos e forros, pretos e pardos, e da maioria dos livres, homens e mulheres que se queriam sem cor – e sem memória.

Mas os movimentos negros, finalmente, parecem ter conseguido voz no espaço público para não nos deixar esquecer. No Brasil, a memória da escravidão também está na ordem do dia. Na verdade, políticas de reparação em relação à escravidão atlântica estão em pauta em todo mundo e exigem romper o silêncio sobre os milhares de mortos e desaparecidos antes, durante e depois da travessia do Atlântico e sobre a herança racializada do estigma da escravização.

Também nesse tema, a agenda historiográfica se produz em diálogo com a memória e a politização do passado. Que a polifonia seja bem vinda. Não por acaso, a violência, problemática clássica dos estudos da escravidão, volta à pauta, reexaminada sob novas luzes, abrindo-se a novos debates e interpretações. Neste 31 de março, de muitas vozes e muitas polêmicas, em que a câmara dos deputados acaba de aprovar mais uma lei de ação afirmativa para pretos e pardos, agora no serviço público, fazemos um brinde ao ofício do historiador e à democracia brasileira.

Viva!

tambore

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Da Cor Inexistente às Cores do Silêncio

Das Cores do Silêncio nasceu tese de doutorado, defendida em 10 de setembro de 1993, com o título A Cor Inexistente, que também dava nome ao quarto capítulo da tese e do livro. Problematizar a ausência de informação sobre a cor da população livre na documentação cartorária e judicial do Brasil oitocentista tinha se tornado a pedra de toque para a principal inovação empírica do trabalho e por isso lhe dava o título.

Inscrevi o manuscrito  da tese  na segunda edição do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa no mesmo ano, acho que já então com o título modificado.  Não me lembro mais quando decidi a mudança do título – se quando enviei o manuscrito para o concurso ou depois que tive a notícia do primeiro lugar e a certeza da publicação. De todo modo, é certo que devo a minha colega Martha Abreu, a observação de que a cor estava ausente das fontes, mas não deixava de existir e que o adjetivo inexistente do título poderia levar a uma leitura enviezada do texto, em relação à minha intenção interpretativa.  Era a existência das cores na sociedade do Brasil oitocentista, apesar da sua invisibilidade nas fontes, que eu queria enfatizar. Foi assim que cheguei ao Das Cores do Silêncio.” (Mattos, Hebe. “Posfacio” In: Das Cores do Silêncio, Editora da UNICAMP, 2014, p. 366)

Nossas conversas começaram há muito tempo nos corredores da UFF.  Serão a base para tentarmos ocupar este espaço semanalmente com dicas de livros e sites e, sempre que pertinente, com um artigo mais encorpado.  A dica da semana é um pouco óbvia, a nova edição do livro de Hebe, que teve lançamento esta semana na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.

Lançamento Das Cores do Silêncio

Lançamento Das Cores do Silêncio

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