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Os deuses gregos e o Valongo: um caso exemplar de estátuas fora do lugar

Quem visita o Cais do Valongo hoje, local de chegada de aproximadamente 1 milhão de africanos escravizados,  tem dificuldades para imaginar quantas transformações aquele espaço já passou para esconder  um dos maiores crimes contra a humanidade, como tão bem demonstrou José Pessoa.  Da antiga praça do mercado, onde se localizava o Cais da imperatriz, projetada  por importantes engenheiros e arquitetos da Corte para mostrar a civilização do Império do Brasil,  só restou mesmo, e não sei bem os motivos, o obelisco, outrora um chafariz (um dos muitos destinados ao abastecimento da cidade).  A coluna de granito, bem visível, ficava ao centro de um tanque regular, não mais existente, e ainda sustenta uma esfera armilar e três setas de bronze, símbolo das armas da cidade.

Mas como o assunto são as estátuas, vou me ater ao sumiço de quatro estátuas de deuses gregos (ou romanos?) que lá tinham sido colocados em 1843 para receber (e impressionar?) a princesa napolitana Teresa Cristina, futura esposa de D. Pedro II e imperatriz do Brasil. Quem teria tirado as estátuas dos deuses gregos?  Foram arrancadas, destruídas ou foram para algum museu? Alguém protestou ou fez algum movimento para que permanecessem no local?

Ironias a parte, ficamos sabendo que as estátuas atravessaram o século 19 e dali só foram retiradas em função das obras de reforma do porto, empreendidas pelo então prefeito Pereira Passos, no início do século 20.  Não satisfeito de enterrar mais uma vez o passado africano, Pereira Passos enterrava também o passado imperial com a construção do porto moderno (e republicano) e com a retirada das estátuas do Cais.

Mas se o visitante seguir pelo Circuito da Herança Africana, idealizado quase 100 anos depois pela prefeitura de Eduardo Paes, encontrará as estátuas dos deuses gregos!!!  Elas estão muito bem conservadas e imponentes no Jardim Suspenso do Valongo, um jardim elevado alguns metros da rua, construído por Pereira Passos (simbolicamente associado aos jardins da babilônia), em 1906, quando da abertura da velha rua do Valongo (hoje Camerino). A ideia do arquiteto Luis Rei era um jardim para deleite e passeio em lugar aprazível, bem de acordo com a política municipal de embelezamento – e branqueamento – da cidade de acordo com o gosto europeu. Mas logo ali?

Pouco se sabe da origem ou autoria das estátuas de mármore que representam os deuses Minerva, Marte, Ceres e Mercúrio.  Mas, muito diferente dos marcos da presença africana na região, como o Cemitério dos Pretos Novos (IPN) e a Pedra do Sal, foram muito bem cuidadas e protegidas –  não tenho dúvidas.  Junto com o Jardim, as estátuas receberam proteção do IPHAN através do tombamento realizado em 1938. Na década de 1990 teriam saído dali para um apurado trabalho de restauração. Em 2014, quando das reformas do “porto maravilha” e do próprio Jardim Suspenso por Eduardo Paes, as estátuas teriam retornado ao Jardim por decisão do prefeito, pelo que pude apurar (não consegui descobrir ao certo se as que ali se encontram são as originais, ou não, posto que foram feitas cópias para garantir total proteção). Era o “porto maravilha”.

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Foto Guilherme Hoffmann. Projeto Passados Presentes.

Com certeza, é bom saber que estátuas da primeira metade do século 19, peças decorativas de um cais para receber uma princesa europeia, tenham sido tão consideradas e valorizadas.  A municipalidade pagou por elas, são obras artísticas e patrimônios tombados. Perfeito! O que não é nada perfeito é só elas terem recebido tratamento e destaque especial, quando vemos que o patrimônio afro-brasileiro na região só com enorme mobilização dos movimentos sociais mantém presença e visibilidade.

A pergunta que não pode calar é: Qual o sentido de visitarmos o Jardim Suspenso hoje e seus deuses gregos, se não sabemos o que suas estátuas realmente significaram quando foram colocadas no Cais e depois transferidas para o Jardim? Preciso confessar que não defendo a remoção das estátuas para algum museu, muito menos que sejam derrubadas ou destruídas, até porque todos os deuses merecem respeito. Esses, por sinal, não têm responsabilidade alguma com a história do tráfico, muito menos com as políticas racistas e de branqueamento da primeira república. MAS ELAS NÃO PODEM FICAR ALI SOZINHAS, registrando só um lado da história – esse é o ponto!!!!!

Ao longo do século XIX, essas estátuas ajudaram a esquecer o local de entrada de africanos escravizados. Ao longo do século XX pousaram com “olhar de paisagem”, certamente sem entenderem nada, no coração da Pequena África, onde os descendentes de africanos escravizados construíram um Brasil negro e antirracista com seus orixás, sambas, carnavais, associações dançantes, religiosas e de trabalhadores. Sua presença ali, sozinhas, indica a vitória de uma única memória, passado e história. Basta. É hora de mudança no sentido de construção de uma história pública que registre a presença negra no espaço urbano.

Mas ainda cabe uma pergunta: o que fazer com as estátuas agora?  Já ouvi ótimas e criativas respostas de alunos e visitantes (como por exemplo, pintá-las de preto, cobri-las com um pano preto). Vale talvez uma ampla discussão e consulta com a população e movimentos sociais da Pequena África, mas meu voto será para deixá-las ali mesmo como testemunhas do racismo na decoração do espaço urbano. Por outro lado, todos os deuses podem ajudar na reconstrução do passado e no fim do silenciamento da história dos afro-brasileiros.

Podemos começar com a sugestão de mudança do nome do próprio Jardim Suspenso para Mirante da Pequena África, proposta que eu e Monica Lima desenvolvemos no Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (MUCHAB), já que dali se avistam a Praça dos Estivadores, a Rua Barão de São Felix, o morro da Providência, a Central do Brasil, os morros das primeiras Escolas de Samba e a velha Praça Onze, locais de memória da história negra na cidade do Rio de Janeiro.  Outra possibilidade é invadirmos o velho espaço de Pereira Passos com estátuas de deuses africanos e personalidades negras que protagonizaram a história da região e do Brasil, como Tia Ciata, que, aliás, já está ali, a Rainha Mandinga, Mãe Aninha, Monteiro Lopes, Mano Eloi, Pixinguinha e muitos outros. Só desta forma os deuses gregos, ou melhor, as estátuas dos deuses gregos, podem permanecer na Pequena África.

Foto Alexandre Macieira - Riotur

Foto Alexandre Macieira, Riotur.

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Pela desmonumentalização do racismo em escala global

Em 1926, quando Monteiro Lobato lançou o romance de ficção científica Choque das Raças, depois rebatizado de O Presidente Negro, o Brasil se aproximava da marca de 40 anos da abolição, enquanto os EUA tinham acabado de contabilizar seis décadas desde que se oficializou nacionalmente a emancipação, em 19 de junho de 1865, o Juneteeth.

Nos EUA, as leis Jim Crow, que tornavam legal a segregação racial, pavimentavam por lá também uma “falsa abolição”e encorajavam linchamentos e massacres coletivos contra a população negra, sabotando o sucesso de black towns e bairros negros. Enquanto isso, por aqui, reverberavam projeções de homens de ciência, letras e Estado que apostavam na eliminação da visualidade da presença negra por força do aumento do “elemento branco” via imigração, mestiçagem e outros expedientes. Violências ausentes ou suavizadas nos livros escolares de ambos os países por muito tempo.

Optei por trazer o romance de Lobato, não só porque ali podemos acompanhar um registro do consenso acerca do “não lugar” da população negra no Brasil e nos EUA, mas também porque o romance, o autor e as questões que o mobilizaram a escrever nos permitem refletir sobre o processos de monumentalização do racismo no passado, no presente e no futuro. Não por acaso, uma vez que a obra de Lobato entrou em domínio público no ano passado, estamos assistindo a uma série de tentativas de protegê-lo, tal como às estátuas de Borba Gato e do conde Pereira Marinho, de qualquer atitude de “vandalismo” promovida por “iconoclastas antirracistas” – acusações que circulam em mais bocas que a de um jornalista convicto da sua objetividade.

A ação do romance de 25 capítulos se passa no ano do lançamento da obra, mas seus personagens centrais Ayrton Lobo e Miss Jane, filha do professor Benson, estão às voltas com fatos ocorridos em 2228. Benson era descendente de um mineralogista norte-americano que havia se fixado em São Paulo no século XIX, casando-se com a filha de um fazendeiro, por certo escravista. Benson havia inventado uma máquina do tempo e escondia o feito num castelo habitado por “criados mudos”. Curiosamente o evento histórico que mais chamou a atenção de Miss Jane foi a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, 363 anos após o fim da escravidão.

Muitos conhecem essa história por conta das citações feitas quando da eleição de Barack Obama em 2008. Mas eu gostaria de chamar atenção para elementos menos destacados.

No sétimo capítulo, intitulado “Futuro e Presente”, Ayrton e o professor Benson entram num gabinete do castelo em que Miss Jane observa o porvir através de um globo de cristal. Ao se dar conta da presença deles, ela comenta: “Papai, estou no fim da tragédia, do crepúsculo da raça. Dudley ganhou uma estátua.” A identidade de Dudley só começa a nos ser revelada no capítulo 20 “Convenção Branca”. Diante da vitória de Jim Roy nas eleições de 2228, a liderança negra de pele já esbranquiçada e cabelos crespos, uma convenção de homens brancos seria realizada a fim de encontrar uma saída para a “tragédia”. John Dudley é apresentado como “o pai da côr numero 8 e autor de 72 invenções”. Ele seria responsável pela descoberta dos raios ômega, que não só alisariam definitivamente os cabelos crespos de todos as pessoas negras, completando o processo de embranquecimento físico, como funcionaria como uma ação genocída, uma vez que, secretamente, promovia a esterilização de quem fizesse uso.

A posse do presidente negro não acontece, como parte do plano. E, tendo sido responsável por promover a resolução final para uma “dor de cabeça histórica” enfrentada por longos séculos, decênios mais tarde Dudley seria homenageado por meio de edificação de um busto seu, um “monumento de gratidão erigido pelo sócio branco em homenagem ao sócio negro”. Ou seja, homenageava-se o causador branco da extinção do negro.

Além da projeção da eliminação negra nos EUA, o romance de Lobato não reconhece qualquer ação política negra no Brasil ainda no século XX e depois. A julgar pelos comentários dos personagens locais, as decisões já haviam sido bem encaminhadas nos termos que por aqui teria funcionado melhor: contornando o equívoco da mestiçagem, a porção do Brasil temperado se juntaria com a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, passando a ser habitada só por brancos e se mantendo próspera; enquanto o restante do território seguiria “sofrendo o erro e suas consequências”.

Sintoma do fracasso das leituras e projeções de Lobato e outros como João Batista de Lacerda, a pensadora negra Lelia Gonzales, em 1988, expôs sua perspectiva de leitura das experiências da gente negra neste lado de cá, por meio do conceito de “Amefricanidade”. Afora repertórios culturais e ancestrais comuns, Lelia encorajava análises das ações históricas negras em perspectiva transnacional, de modo a até mesmo romper a fronteira da América Latina e incorporar o vivido por nossa gente negra nos EUA, ainda visto por muitos como a expressão oposta da formação racial brasileira.

O desafio proposto por Lelia Gonzales está sendo reafirmado nas últimas semanas, como também deu a ver a escritora haitiana Edwidge Danticat, em seu artigo “So brutal a death”, publicado no jornal The New Yorker, em que ela demonstra como as reações ao brutal assassinato de George Floyd são ressonâncias de longas lutas contra o racismo antinegro em escala global. Algo que até mesmo fez com que funcionários africanos de alto nível das Nações Unidas tenham apresentado um manifesto na última semana e que uma tentativa de reposicionar a agenda da Década Internacional de Afrodescendentes esteja em curso.

O que estamos assistindo e realizando mais uma vez são expressões de sujeitos históricos negros múltiplos, que têm trajetórias de longa duração, mas que não cabem em matrizes narrativas que pressupõem a nossa inexistência, eliminação ou, quando muito, uma absoluta subalternidade. Matrizes narrativas que até permitem o esboço de comoção perante as evitáveis mortes de homens, mulheres e crianças negros, mas priorizam a defendesa do valor cívico e civilizatório atribuído a estátuas, escritores e práticas de sociabilidade que autorizaram a negação da nossa humanidade e cidadania, legitimaram linchamentos e genocídios. Essas matrizes narrativas em que a liberdade negra só faz sentido como causadora de uma “dor de cabeça histórica”, como registrado no romance de Lobato.

É importante dizer que tal dinâmica também sequestra nossa capacidade, como dissidentes, de reconhecer e nos apropriar profunda e seriamente das lutas negras. Tenho batido na tecla da necessidade de se pensar a liberdade, porque compartilho do entendimento de que fazer isso, numa sociedade estruturalmente racista, é caminho de acesso dados empíricos que deixem cada vez mais evidente a centralidade do racismo e as formas como ele opera em múltiplas direções. Precisamos ir além do que nos foi autorizado a pensar. Para fazer frente ao consenso acerca da irrelevância histórica da gente negra e de seus questionamentos, precisamos radicalizar nossas agendas de disputa das múltiplas narrativas sobre nós.

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Sobre destruição e reconstrução

“Pode não parecer, mas eu tenho uma história

Uma casa com alicerces profundos, paredes flexíveis.

No quintal uma mina d’água na sombra de um jequitibá.”

trecho de “História”, poema de Ana Cruz, publicado em SEMOG, Ele(org). Amor e outras revoluções, Grupo Negrícia. Rio de Janeiro: Pallas, 2019

Tenho acompanhado apaixonadamente as matérias jornalísticas e os debates sobre a derrubada e intervenção nas estátuas que homenageiam personagens cuja trajetória esteve ligada ao tráfico escravista, à própria escravidão, ao colonialismo e à diversas expressões de racismo. Leio e mal posso controlar meu entusiasmo, tornam-se um sopro de energia no meio da onda nefasta que me é trazida pelo assassinato sistemático de negros, o extermínio consentido de povos indígenas, as mortes da pandemia e a vida política do nosso país – cujas notícias vinham desnutrindo cotidianamente minha força vital.

Como historiadora e cidadã, reconheço que não é simples a discussão, e que há que se escutar e pesar bem os argumentos que assinalam o significado de um monumento para o entendimento da história, o valor de um patrimônio e a impossibilidade de estarmos destruindo e reconstruindo permanentemente nossas cidades e logradouros para que sejam erguidas estátuas, praças e prédios com outros personagens e referências. No entanto, nenhuma dessas ponderações até agora me convenceu que os movimentos e ações levadas a cabo por manifestantes em diferentes partes do mundo estejam equivocados. Muito pelo contrário, a articulação que esses movimentos recentes trazem com a campanha internacional #vidasnegrasimportam os tornaram não apenas oportunos como situados ao lado da justiça e da defesa de causas fundamentais para o momento em que estamos.

Vale lembrar outra história, que algumas vezes tem estado presente nesse debate. Em 2015, estudantes e ativistas sul-africanos iniciaram uma campanha para a retirada da estátua em homenagem a Cecil Rhodes na Universidade do Cabo, na África do Sul. Esta campanha teve como um de seus líderes um estudante bolsista de origem popular da universidade, que se chamava Chumani Maxwele, e que protagonizou uma ação de inequívoco desprezo pelo monumento atirando fezes na estátua. O caráter desse gesto causou espécie a muitos, e deu partida tanto a uma discussão sobre o “respeito ao patrimônio” como sobre o que deveria ser a conduta “mais adequada” de uma manifestação política. Outras lideranças estudantis surgiram, e o movimento cresceu, alcançou outras universidades fora da África do Sul, ganhou espaço na imprensa internacional e nas redes sociais e… Rhodes caiu. Porém, para além da vitória dos ativistas, o movimento #RodhesMustFall abriu espaço para um debate – que já existia, mas se fortaleceu – sobre o ensino de história da África do Sul e as diferentes perspectivas presentes nesse mesmo processo, considerando que estudantes africâneres também haviam engrossando a campanha, por questionarem a presença de uma visão favorável ao colonialismo inglês.

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A história ocorrida na África do Sul nos permite pensar um pouco mais sobre o quanto ainda temos que avançar, no Brasil, no ensino da história e cultura africana e afro-brasileira e no conhecimento e reconhecimento de espaços e monumentos que nos remetem a nossa ancestralidade, a nossa luta, e aos personagens que as protagonizaram. Os monumentos que homenageiam os que se dedicaram a oprimir, a destruir e desvalorizar nosso passado presente negro africano podem e devem ser deslocados ou ressignificados, quando sua presença nos causar dor e ofender nossa autoestima. E por isso é importante debater sobre eles, problematizá-los. Mas, é importante também pensarmos em como produzirmos outros monumentos e ocupar a cidade com outras histórias.

Numa discussão com o grupo de representantes do conselho consultivo do Museu de História Africana e Afro-brasileira – projeto hoje silenciado – junto com a historiadora Martha Abreu, iniciamos um importante e rico debate sobre as formas de representar a história da escravidão, marcada pela violência e sofrimento, mas também pela criação, resistência e enfrentamento por parte das pessoas postas em situação de cativeiro. Foi apenas um começo, mas já nos anunciou as grandes possibilidades que esse caminho abria. Como romper com os estereótipos sustentados por imagens e textos que historicamente subalternizavam os escravizados? Como trazer questões contemporâneas, urgentes, como o debate sobre reparação e associá-lo a essa história, sem reduzir toda a explicação da força do racismo na nossa sociedade à escravidão? Como exibir, apresentar visualmente e materialmente esse passado presente – trago o termo remetendo conscientemente ao projeto que o consagrou – de forma a valorizar nossa história e a luta da população africana e negra? Certamente, não tenho respostas imediatas, mas a certeza que ampliar essa discussão e ouvir – e considerar – as pessoas e comunidades mais diretamente envolvidas nos efeitos desse passado sensível é a melhor maneira de dar conta dessas questões.

Valorizar essa história, com seus alicerces profundos e paredes flexíveis (como lembra o lindo poema de Ana Cruz, que recomendam que leiam todo), terá o poder de reconstruir e ressignificar o nosso patrimônio, nas nossas cidades e no nosso país.

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O que documenta um monumento?

A imagem da derrubada da estátua do traficante de escravos Edward Colston, no domingo, 7 de junho, em Bristol, na Inglaterra, no próprio dia circulou por todo o mundo. A repercussão do fato rendeu dois artigos na imprensa brasileira que eu tomo como ponto de partida para este texto.

O primeiro, publicado em 12 junho no site da BBC News Brasil, continuou a circular no twiter da empresa jornalística com a hashtag #MaisLidas, com uma foto da estátua do contrabandista de escravos africanos Joaquim Pereira Marinho protegendo duas crianças brancas em frente ao hospital Santa Izabel, no Largo de Nazaré, em Salvador, com a manchete: “Quem foi Joaquim Pereira Marinho, o traficante de escravos que virou estátua na capital mais negra do Brasil”.

Antes de ver a chamada do artigo no twitter, na quarta feira, dia 18 de junho, eu havia participado da banca de defesa da tese de doutorado em história de Silvana Andrade dos Santos, na UFF. A pesquisa segue a trajetória de consagração de dois outros renomados comendadores contrabandistas de escravizados da sociedade baiana e de um negociante estadunidense que se tornou cônsul daquele país em Salvador, após deixar de negociar com o frete de navios fabricados na Filadélfia para o tráfico ilegal. Ainda em plena vigência do contrabando, os três se tornaram acionistas fundadores daquela que se tornaria a maior fábrica de tecidos do Império brasileiro, na Imperial cidade de Valença, no Sul da Bahia, voltada para a produção de algodão para sacaria de fazendas escravistas e roupas de cativos. A memória pública da fábrica, desde finais do século XIX, faz questão de enfatizar que a empresa nunca teria utilizado trabalho de escravizados, o que absolutamente não é verdade. Alguns dos acionistas foram, inclusive, proprietários de fazendas voltadas para os desembarques clandestinos de cativos na região em que a fábrica foi instalada, o que pode ter influenciado a decisão de instalação do empreendimento. O trabalho estará em breve disponível online no repositório de teses do PPGH/UFF.

Hipóteses relacionando os capitais liberados pelo fim do tráfico com o desenvolvimento da indústria no Brasil oitocentista são antigas, mas o detalhamento do entrelaçamento das atividades ilícitas dos acionistas com estratégias de consagração social e diversificação de “investimentos” me impressionaram. Ainda impactada pela leitura da tese, compartilhei o twitt da BBC-Brasil com o comentário:

“Manchete e foto são um soco no estômago. Para refletir sobre o força do passado na sociedade brasileira”.

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O segundo texto, dos historiadores Paulo Pachá e Thiago Krause, na Revista Época, do dia 19 de junho, contesta diversas manifestações na imprensa que criticaram o movimento pela retirada de estátuas que homenageiam antigos ditadores, traficantes escravistas ou colonialistas genocidas, entendido (o ativismo anti-estátuas) como ameaça ao patrimônio histórico, fundada no anacronismo. O texto é excelente e vale a leitura. Desenvolve um argumento fundamental e frequentemente ignorado: estátuas falam mais do tempo em que foram construídas do que dos personagens que celebram. O artigo destaca, ainda, a existência de moralidades em disputa na própria época em que as figuras controversas foram homenageadas.

Por que a estátua de Joaquim Pereira Marinho protegendo duas crianças brancas na capital mais negra do Brasil é um soco no estômago?

Porque foi construída no século XIX, pela instituição de caridade em que o personagem atuava, exatamente para ajudar a esquecer ou apagar o fato, amplamente conhecido, de que o homenageado havia enriquecido contrabandeando crianças negras escravizadas. Cada navio do tráfico ilegal transportou para o Brasil algumas centenas de jovens escravizados africanos, em sua maioria com menos de 12 anos de idade, desembarcados em praias de propriedade de fazendeiros traficantes, como os acionistas da fábrica de Valença, com alarmantes índices de mortalidade.  A associação entre contrabando de escravizados e filantropia no século XIX está diretamente ligada à tentativa de apagamento de um passado pessoal desonroso, nos termos da época, como bem destaca Ana Lucia Araújo na reportagem da BBC.

Joaquim Pereira Marinho não esteve sozinho. O apagamento da memória da intensa participação ou cumplicidade dos construtores da estabilidade do estado imperial com o contrabando de cativos africanos ocupa lugar privilegiado na fabricação do racismo institucional brasileiro. Nas palavras de Joaquim Nabuco, ao escrever a biografia do pai, Nabuco de Araújo, “pode-se dizer mesmo que pareceu sempre mais fácil [para gerações sucessivas de estadistas] abolir a escravidão de um golpe do que fazer cumprir retrospectivamente a lei de 7 de novembro” (de 1831 que tornou ilegal o tráfico de escravizados no Brasil), o que fazia até mesmo liberais anti-tráfico, como Nabuco de Araújo, cúmplices do contrabando que, em alguma medida, combateram.

Somos herdeiros de um estado contrabandista de crianças africanas que ergueu muitas estátuas para apagar este fato. Nascidas desse solo institucional, é absolutamente revoltante, mas não de todo surpreendente, que nossas instituições continuem ignorando o assassinato contumaz de crianças negras por suas forças policiais, com ampla cumplicidade dos “cidadãos de bem” da vez.

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“A congada é algo grande, é ancestral, é resistência”

O Conversa de Historiadoras desta semana apresenta três textos sobre as especiais Festas que, através das redes sociais, conectaram o espaço, o tempo e os congadeiros em Piedade do Rio Grande, Minas Gerais, no final de maio. Os textos são fruto de uma forte parceria entre duas historiadoras e um historiador – sendo esse também congadeiro. E as fotos são do Paulo Henrique da Silva Ribeiro, também historiador e atual secretário de Cultura de Piedade. Vida longa às festas negras!

OS SONS DE MAIO: FESTAS DE CONGADAS, PANDEMIA E RESISTÊNCIAS NEGRAS EM MINAS GERAIS

Simone de Assis

Francival Araújo de Sousa

Lívia Monteiro

 

Para quem acompanha, organiza e gosta das festas negras no Brasil, o calendário é concorrido. De janeiro a janeiro, praticamente em todos os meses e por todos os cantos do país, os festejos tomam as ruas das cidades. Devocionais, tradicionais, patrimonializados, disputados e tão diversos que conceitualizá-los foi, por muito tempo, sinônimo de imprecisão. Se, no passado, os batuques foram perseguidos e criminalizados, atualmente, muitas festas negras tornaram-se patrimônios imateriais embora ainda lutem por reconhecimento e valorização.

Em Minas Gerais, as Congadas, Congados ou Reinados coroam os reis e rainhas negros desde o período colonial. Com raízes africanas, especialmente de origem bantu, tornaram-se elos de rememoração no presente das lembranças, dores e resistências da diáspora dos povos escravizados para o Brasil. Intensas e dinâmicas, as festas do Congo – como também são conhecidas – acontecem em praticamente todo estado de Minas e, em função da pandemia do covid-19, muitas celebrações foram canceladas.

Porém, o batido da caixa congadeira-moçambiqueira, com as fitas coloridas e a leveza que impera nos ternos de Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande, campos das vertentes do estado de Minas Gerais, fez a cidade despertar para as alegrias que as festas proporcionam, mesmo com o distanciamento social imposto. O alvorecer no último sábado do mês de maio foi de esperança para quem estava em suas casas, em confinamento há quase três meses. A surpresa proporcionada produziu choro, vídeos nas redes sociais, mensagens de whatsapp e emoções que nenhum texto/imagem/vídeo é capaz de dar conta. Os congadeiros-moçambiqueiros produziram encontros e afirmaram que os sentidos dos afetos estão na possibilidade de mantê-los em nossas memórias e nas lembranças que queremos manter vivas.

Foi pensando nesses encontros, que decidimos escrever coletivamente esse texto. Nossos relatos – apresentados individualmente – tentam narrar as experiências vividas, os olhares distintos e as percepções causadas pela festa da Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande, em plena pandemia do covid-19, a partir dos nossos lugares de fala, como Djamila Ribeiro nos ensina. Reunimos virtualmente nossos esforços para fazer dessa escrita um espaço de diálogo regado a muita emoção. Escrevemos o que vivemos e sentimos.

Tradição congadeira-moçambiqueira: Festa de Maio de 2020 – Piedade do Rio Grande

Simone de Assis é mulher preta, graduada e mestranda em História pela Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ.

#FicaEmCasaSePuder, essa é a hashtag que circula no Brasil e no mundo nos últimos meses, desde o grande boom da pandemia do novo coronavírus, covid-19. Ok! As cidades de Minas Gerais, assim como outras, estão tentando cumprir os procedimentos de isolamento social e seguir os parâmetros da Organização Mundial da Saúde, em meio à experiência de muitas crises (sanitárias, econômicas, políticas, sociais, emocionais etc.) que a circunstância, atípica, tem gerado.

Março, abril, maio, há três meses vivemos em quarentena. Sobreviver, essa é a meta. Por isso o cuidado com as práticas de resguardo à saúde. Um respiro profundo. Maio. Estávamos no mês de maio. Tempo que evoca memórias do povo negro. Memórias de abolicionistas como Maria Firmina dos Reis, André Rebouças e muitos outro(a)s que influenciaram para que o marco legal da abolição, 13 de maio de 1888, acontecesse. No cenário cultural e religioso mineiro, ligado às memórias do atlântico negro, maio também evoca os batuques das Congadas. É tempo de festejar. Seria tempo de festejar. Com a pandemia, que sublinha o fosso social do pós-abolição, não há o que festejar. Outro respiro profundo e uma pergunta latente: se o sobreviver aniquila o próprio viver do povo preto, do que adianta ser?

Questionamento visceral. Foi necessário cautela, conectar a força, a sabedoria e a estratégia ancestral dos congadeiros de outrora para encontrar caminhos e repostas. Dessa forma, aquietar as inquietações do tempo presente e, assim, deixar viva a Festa de maio da Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande/MG no ano de 2020. Além do coronavírus, a insegurança e o estranhamento com a presença do novo padre da paróquia, Jorge Wilson. “Abriria, ele, as portas da Igreja?” “Compreenderia a missa afro realizada anualmente no contexto da Festa?” “Seria parceiro da tradição cultural e religiosa?”

Ao completar 92 anos de tradição, a Festa de maio não poderia ficar no esquecimento. Nem na dúvida do que representa perante os espaços reivindicados e conquistados em disputas territoriais anteriores. Foi com o ímpeto dos anciãos, também de maneira responsiva, que os congadeiros-moçambiqueiros se reinventaram para cumprir os ritos do Rosário de 2020. Entre conversas e negociações, o primeiro passo foi conseguir agendar a Missa Afro Moçambiqueira para a noite de sábado, 30 de maio, no santuário da cidade. Uma missa com a presença reduzida dos integrantes do terno e que seria transmitida ao vivo pela página do Facebook, Paróquia Nossa Senhora da Piedade – Pascom –  e rádio Alto Rio Grande FM.

Apesar da missa agendada, a cidade  estava triste, pois o festejo da Congada-Moçambique também se dá nas vias públicas, ao som dos tambores e guizos que percorrem as praças, bairros e ruas de toda Piedade/MG. Como eu estava em São João del-Rei/MG, acompanhava atônita às postagens do Facebook do grupo, de amigos pertencentes ao terno, professora(e)s e conhecido(a)s que se conectavam à Festa. Era notório: um lamento pairava no ar. O afeto, que tentava amenizar a situação, se fazia visível nos detalhes alimentados pelas redes sociais, como a postagem de fotografias, vídeos, músicas e memórias das comemorações vivenciadas no passado. Eram pequenas formas de se preencher o vazio.

Sexta-feira, 29 de maio, 23:49h, recebo a informação sigilosa, via WhatsApp, de que congadeiros, em pequeno número de integrantes, fariam uma alvorada às 5h na manhã do dia seguinte. O ato seria registrado por uma live transmitida pela página das redes sociais da paróquia. Vibrei de alegria! A parceria com o novo padre estava totalmente firmada e tudo seria arquivado para evidenciar que os cuidados como utilização de máscaras e distanciamento entre os participantes seriam cumpridos. Mais ainda, a filmagem ao vivo garantiria que a Festa chegasse a todos os cantos do mundo e aplacasse o coração daqueles que não poderiam estar no evento. Para muitos, é o ápice do ano. Por outro lado, o coração gelou de medo pela responsabilidade que os congadeiros escolheram assumir com a alvorada-manifestação no momento pandêmico. Mas entendi que a resistência cidadã de uma tradição de 92 anos não poderia falhar. Ademais, diante da realidade brasileira que a cada dia registra inúmeros casos de racismo, fascismo e apoia a necropolítica, entendi que a alvorada era a resposta da luta antirracista e a afirmação da existência dos congadeiros.

Acordei de madrugada, no momento da alvorada, para acompanhar pelo celular a surpresa e o acontecimento que a Congada faria para a cidade em tempo real. Assim como eu, sei que muitas pessoas da minha rede de amizades gostariam de estar lá, com toda adrenalina que a Festa é e representa. Mas não sendo possível, a tecnologia e mídia nos conectariam no espaço-tempo. Vi e ouvi, por meio da live , Piedade amanhecer ao som dos toques das caixas da Congada. Caminharam com a bandeira e santas (Nossa Senhora do Rosário e das Mercês) até a Igreja. Na porta entoaram o ponto: “seu padre abre a porta, que eu também quero entrar.” O padre lá estava, abriu as portas e os recebeu. Decoração e estamparia afro compunham o altar. Nos bancos da igreja, fotografias e chapéus dos congadeiros ausentes personificavam todos no recinto. Nas pilastras, fotos e banners de pessoas que foram importantes para a história da Festa, como reis, rainhas, princesas e toda corte Conga. Chorei nessa hora e me peguei pensando o quão difícil deve ter sido a deliberação da guarda, com mais de cem participantes, decidir apenas entre umas 15 pessoas para compor e realizar o ato da resistência congadeira-moçambiqueira. Na fé, amor e esperança, os ausentes faziam-se presentes, mas também por seus celulares e computadores que acompanhavam através da live e interagiam no espaço dos chats e comentários. Eu, espectadora devota da Festa, também estive lá através da tela do meu celular.

O ato não foi isolado. Manifestações congadeiras aconteceram em diferentes regiões de Minas Gerais, por todo mês de maio e foram registradas pelas mídias digitais dos respectivos grupos. Acompanhamos algumas delas:  Moçambique e Catopé Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, da cidade de São João del-Rei/MG  se reuniu no dia 13 de maio; o Congo Camisa Verde, de Ituiutaba/MG realizou sua alvorada no dia 17 de maio e abriu a live do III Seminário da Congada – NEPERE, NEABI Pontal, UFU. Em Cambuquira/MG, lideranças dos ternos Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e da Irmandade Nossa Senhora do Rosário se reuniram na tarde do dia 31 de maio. Num mês em que representantes do governo vigente exaltam símbolos da supremacia branca e tecem críticas ao movimento negro, os batuques das Congadas fizeram ecoar a resistência negra por toda Minas Gerais. #VidasNegrasImportam #ACongadaResiste #NossosPassosVêmDeLonge.

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Alvorada Congadeira – Piedade do Rio Grande/MG. Maio de 2020.

Foto: Paulo Henrique da Silva Ribeiro

Breve relato de um Congadeiro e Moçambiqueiro de Nossa Senhora do Rosário/Mercês de Piedade do Rio Grande-MG sobre o ano de 2020

Francival Araújo de Sousa, homem preto. Graduando em História na Universidade Federal de São João del rei (UFSJ).  

Falar sobre Congados nos leva a pensar sobre memórias que vêm desde a escravidão colonial. Para mim é algo muito gratificante e importante, mas ao mesmo tempo, difícil. Separar o Francival estudante de História do Francival congadeiro e moçambiqueiro, é algo complicado. Nesse ano de 2020, isso se tornou nítido para mim.

Vejo a movimentação da Congada e me deparei, em especial esse ano, com o poder e a comoção que ela consegue tirar de toda população. Em particular dos indivíduos ligados ao movimento. São estas pessoas que vivem à mercê de um racismo velado e institucionalizado que só têm aquele momento de “protagonismo”. Não digo que ser protagonista seja importante, mas sim ser agente, de fato, de suas histórias. O espaço da festa é aquele em que os congadeiros podem simplesmente tirar suas armaduras e chorar. Uso aqui a palavra chorar pelo fato de negros e negras serem obrigados a demonstrar no dia-a-dia dessa sociedade que são fortes. Este choro é na realidade libertação. Lágrimas de dor, angústia e tristeza, mas simultaneamente lágrimas de alegria, leveza e esperança de que dias melhores virão.

Os piedenses que guardam na memória a alegria da Festa de maio, este ano se depararam com a pandemia, inibindo a festa para controle da proliferação da covid-19. Na lembrança de todos congadeiros e matriarcas antigas, nenhum tem recordação de uma ausência da Festa de maio. Uma festa tão longínqua, quase centenária, que nem uma guerra mundial conseguiu parar. Mas este ano não houve as excursões de entes queridos, que retornam à sua saudosa terra justamente para buscar um elo ancestral e cultural.

Ao som do primeiro foguete na madrugada de sexta é que a ficha cai e também é que a festa “acontece”. Este ano, portanto, foi diferente: sem ensaios aos domingos, sem a busca da lenha para a saudosa fogueira, sem tantas outras tradições importantes. O mês de maio de 2020 doeu. É difícil assimilar todo o caos, e mais complicado entender que não haveria a nossa união, nossa força, os nossos sorrisos na grande comemoração.

O som da caixa no sábado pela manhã trouxe toda a imensidão de sentimentos, no lugar em que dói e dá arrepios ao se escutar o repique. No coração e nos pensamentos tenho lembranças boas e outras nem tanto. Nós, dançarinos, sempre pensamos nas pessoas que no passado sofreram para manter essa tradição viva, cruzando o preconceito, a negação e a demonização de nossa religiosidade.

Este ano tivemos medo e preocupação com a vinda de um novo pároco, até porque é recente a nossa entrada na igreja. Mas resistimos! Dom José Eudes nos abençoou e parabenizou por tudo.  Padre Jorge demonstrou que pretende ajudar ainda mais a nossa festa, além de ter exposto falas importantes com a temática racial em suas celebrações.

Quando fazemos nosso cortejo, é hora de cantar e de expor todos os sentimentos que nos alegram e afligem. Este ano, senti um canto calado devido à proteção contra a covid-19. Com isto, veio em minha mente a imagem da escrava Anastácia. Como se fosse para calar a nossa voz. Lembrei também de um relato surpreendente, de um amigo da minha família, sobre a importância da festa como um ato de existência e sobrevivência dos negros e negras de Piedade do Rio Grande. Independentemente do que aconteça, a homenagem sempre deve acontecer. Esse é o único momento em que se une o religioso e o político no município, e nós pretos e pretas, podemos demonstrar tudo aquilo que nos afeta.

O ocorrido de 2020 foi algo atípico, mas surpreendentemente, nós reafirmamos a nossa existência, em meio a todo transtorno que a pandemia vem causando em nosso país, principalmente na comunidade negra. Ver e sentir tudo isso expõe toda a dimensão da Festa de maio de forma direta e, em particular, para todos os que vivem o Congado e o Moçambique. O “estar vivo” significa isso, por mais que tentem nos calar.  A congada é algo grande, é ancestral, é resistência.

Os ecos da resistência

Lívia Monteiro, mulher branca, doutora em História pela UFF, professora no curso de História da Universidade Federal de Alfenas

Voltei a ouvir o eco. O som da caixa tocada na manhã gelada do último sábado do mês de maio de 2020 ecoou o que meu coração queria ouvir. O som naquele silêncio imposto pela pandemia fez expurgar todos os sentidos dolorosos e difíceis que estamos vivendo. O medo, o distanciamento, o isolamento e as incertezas que a maior crise sanitária, política, econômica e social nos coloca ficaram em suspenso enquanto ouvíamos o som dos instrumentos festivos e as músicas cantadas pelas vozes congadeiras que, mesmo com as máscaras, nos embalaram nas memórias dos territórios negros mineiros ocupados há mais de trezentos anos.

Enquanto a cerração fria, na madrugada com geada e temperatura de 5º, cortava a cidade, outros sentidos da festa foram sendo demarcados. Ao buscar as imagens de Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Rosário na igrejinha do Rosário para levá-las ao encontro da imagem de São Benedito, que já estava na matriz, o mito fundante que estrutura uma das narrativas congadeiras-moçambiqueiras em Piedade se refundou. A água benta jogada na porta da igreja pelo pároco também fez lembrar um dos rituais mais antigos da festa e os elementos simbólicos, tão importantes para toda a performance, estiveram presentes. A fogueira não foi acesa online, mas os fogos, que iluminaram a cidade após a missa, demarcaram no céu que a chama da vida continuava acesa.

A força do barulho dos guizos moçambiqueiros entrando na igreja matriz e o batido da caixa nos colocaram em presença e a festa aconteceu na intensidade que deveria ter. Renovadora e triste, a missa Afro, transmitida ao vivo pelo facebook e rádio local, gerou um misto de sentimentos. E, mais uma vez, os protagonistas da festa nos mostraram os caminhos de reinvenção das dores e lutas, em meio a tantas incertezas que o momento presente nos apresenta.

Os chapéus coloridos colocados sobre os bancos da igreja balançaram durante toda a missa e a presença congadeira-moçambiqueira também se fez presente neles. Ver as crianças batendo com as manguaras no chão, para marcar que aquele território também lhes pertence e encarando, com toda seriedade necessária, as câmeras de celulares que os filmava, promoveu mais que esperança, mas a concretude de que o amanhã vai seguir.

Quando a transmissão terminou e os moçambiqueiros não estavam mais online, houve a queima de fogos na porta da igreja, com os capitães cantando “se a morte não me matar, tamborim, se a terra não me comer, tamborim, ai ai ai, tamborim, para o ano eu voltarei, tamborim”. Algo indescritível. Todos os elementos da festa estiveram presentes. Fogo, água, círculos, encruzilhadas, o mito da santa, músicas, passos e as memórias da escravidão e da liberdade, cantadas e reatualizadas no tempo presente.

O controle da festa, do tempo festivo e das narrativas que vão de encontro ao fazer lembrar, mesmo que em apenas um dia, demonstraram que a relação dos congadeiros-moçambiqueiros com o espaço público e sagrado, de tomar as ruas da cidade por 92 anos consecutivos, se manteve presente em 2020.

Ao utilizar as conexões e usos tecnológicos para aproximar, os congadeiros-moçambiqueiros escolheram o que seria visto/divulgado e o que seria secreto/ guardado. O que mais foi mostrado foram as resistências em meio às dores e sofrimentos, pela ausência física de muitos que não estiveram ali, mas que se conectaram via rádio e internet para acompanhar os festejos.

As marcas do passado permanecem, a pandemia escancara ainda mais as desigualdades sociais e raciais, com o racismo brasileiro sendo ainda mais noticiado. Mas, as formas de resistir ganharam novos contornos e a festa aconteceu. Com choros, tristezas, surpresas, emoções, redes sociais, instantâneos e conectados. Nas ausências, nos silêncios e nos distanciamentos, outros sentidos foram produzidos pelos congadeiros-moçambiqueiros.

No mesmo fim de semana da festa em Piedade, os primeiros protestos antirracistas e antifascistas tomaram as ruas dos Estados Unidos, após a morte violenta de George Floyd. Conectados às pautas internacionais, os moçambiqueiros encerraram a Missa Afro cantando músicas entoadas pelos movimentos negros e cantores(as) negras, como o samba enredo da Tuiuti de 2018, questionando “meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” 

Como pesquisadora branca da festa há quase dez anos, tive que lidar com o medo do contágio – além de distribuir máscara e álcool em gel – para viver a experiência que transcende esse texto. Em maio de 2018, o Brasil vivia uma greve de caminhoneiros que não impediu a festa de acontecer. Em maio de 2020, uma pandemia também não impediu que a festa ocorresse. A força do Rosário não tem tese/texto/filme/ciência que explique. É apenas sentir a força da resistência, das lembranças e das importantes lutas antirracistas do tempo presente.

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Um mundo em uma foto*

O Conversa de Historiadoras desta semana tem a honra de publicar um depoimento de Ana Célia da Silva sobre uma foto histórica.  Ana Célia, Professora Doutora Aposentada da UNEB e militante do Movimento Negro é referência na área de educação antirracista, tendo publicado numerosos trabalhos e atuado de uma forma  fundamental na construção da Lei 10.639, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira.  Neste texto, Ana Célia retorna a 1981 através de uma foto, quando, com outros militantes, buscava ampliar as dimensões da luta do movimento negro no Brasil.

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Foto de Juca Martins/Olhar Imagem. “Manifestação durante a reunião da SBPC, Salvador, BA, 1981”. Arquivo Edgard Leurenroth/Unicamp. A foto foi publicada pela primeira vez no jornal Voz da Unidade, em 1981. Em 2018, foi capa dos dois volumes de Cultura Negra, Novos Desafios Para os Historiadores, organizado por M. Abreu, G. Xavier, E. Brasil e L. Monteiro. Foi a historiadora Martha Abreu que fez chegá-la às mãos de João J. Reis e daí até Ana Célia

Uma foto: o Movimento Negro Unificado-BA e a Reunião da SBPC em 1981 em Salvador

Ana Célia da Silva

Professora Doutora Aposentada da UNEB

Militante do Movimento Negro 

Fui levada por Albérico Paiva, professor e militante da Pastoral Afro, a uma reunião do MNU, quando ainda era o Grupo Nêgo, em maio de 1978. As reuniões aconteciam na Praça Municipal de Salvador, no “Cemitério de Sucupira”, como apelidamos o jardim suspenso construído pela prefeitura no local onde se erguiam os prédios da Biblioteca Central do Estado e o Diário Oficial, destruídos por um incêndio.

Nessa primeira reunião do Grupo Nêgo, os militantes discutiram a participação em uma série de palestras que a prefeitura de Salvador iria promover durante a semana que antecedia o 13 de maio. Uma das palestrantes era uma militante do Rio de Janeiro, Lélia Gonzales. Participamos do seminário proposto pelo prefeito em exercício, Edivaldo Brito, que é negro, e aprofundamos relações com Lélia, que se tornaria uma espécie de madrinha do Movimento Negro Unificado na Bahia, fundado em 7 de junho de 1978. A fundação do MNU nacional aconteceria pouco tempo depois, em 18 de junho, em São Paulo. Para o ato enviamos como nossos representantes o dançarino Kal Santos e sua esposa, que hoje vivem na Itália. Levavam na bagagem uma carta na qual o Grupo Nêgo reconhecia e se integrava ao Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial – MNUCDR –, nome original do MNU.

Tudo isso aconteceu ainda durante a ditadura. Lembro-me que após o primeiro congresso do MNU em Salvador, realizado em 1980, os agentes do DOPS nos perseguiram pelos vários locais onde havíamos obtido licença para realizar o evento, a exemplo da Associação dos Funcionários Públicos, na rua Carlos Gomes. Finalmente, nos dirigimos ao  Goethe Institut (Instituto Brasil-Alemanha), território estrangeiro, localizado no corredor da Vitória, que nos acolheu.

No MNU-BA conheci os primeiros militantes e fundadores, Gilberto Leal e Leibe Carteado, geólogos, Astor, engenheiro civil, Edson Tosta Passarinho, um dos fundadores do Adé Dudu, primeiro Grupo de Trabalho para homossexuais negros do MNU, Luiz Alberto, operário da Petrobrás, que foi conduzido por nós por três mandatos consecutivos a Deputado Federal, Cao Santos, operário, Jane, psicóloga, Leninha, professora, Maria, Lino de Almeida e Manoel Almeida, sociólogos autodidatas, e muitos outros que vieram logo depois, inclusive Luiza Bairros, Wilson Santos, Adriana, Mary, a primeira mulher do movimento negro a usar os cabelos crespos naturais. Era manequim, como chamávamos na época as modelos, e muitos outros e outras cujos nomes não me ocorrem mais. (Desculpem, mas também não lembro os sobrenomes de alguns).

Três anos após a sua fundação, e um ano após seu primeiro congresso, o MNU realizou uma manifestação, dentro do campus da Universidade Federal da Bahia-UFBA, em Ondina, onde estava sendo realizada a Reunião Anual da SBPC, no período de 8 a 15 de julho de 1981.

Não lembro se o MNU tinha algum trabalho inscrito na Reunião, mas a questão racial não estava sendo discutida, especificamente, em nenhuma mesa ou grupo de trabalho. Então resolvemos levar esse debate nas diversas mesas e grupos dos quais participávamos como plateia. Nos intervalos, nos reunimos e decidimos organizar uma manifestação. Wilson Santos, um dos fundadores do primeiro grupo de homossexuais do MNU, o Adé Dudu, lembrou-me que houve um encontro de entidades negras presentes à Reunião da SBPC. Foi nessa reunião que decidimos realizar a passeata.  Convergimos para um local central do campus e, portando cartazes feitos de cartolina, iniciamos uma marcha gritando palavras de ordem. Tomados de surpresa, os participantes da SBPC nos olhavam entre curiosos e assustados. Participantes negros e pardos de outros estados começaram a aderir à marcha, seguidos por alguns brancos.

Tenho uma foto desse momento, que está perdida. Para minha grata surpresa, o historiador João José Reis me enviou outra foto daquele tempo, que é esta aqui apresentada. O fotógrafo é o talentoso Juca Martins, e quiçá seu arquivo guarda outras fotos, feitas sob outros ângulos, do mesmo evento. A foto se encontra publicada nas capas da obra, em dois volumes, intitulada Cultura Negra, festas carnavais e patrimônio negros (FAPERJ/EDUFF, 2018). Foi a historiadora Martha Abreu, uma das organizadoras desse livro, que fez chegá-la às mãos de João. Vamos à foto.

Entre outros temas registrados nos cartazes carregados pelos manifestantes naquele dia, no maior deles, à direita, pode-se ler, completando as palavras cortadas: “Memorial Zumbi. Parque histórico cultural. Por uma cultura de libertação”.  Outro dizia: “Por uma ciência a serviço dos trabalhadores e das etnias oprimidas”; outro ainda denunciava a folclorização da cultura negra; um terceiro denunciava a violência contra o negro, velho e persistente problema. Pelo menos dois cartazes demandavam uma releitura de nossa história: aquele que exigia “Uma revisão da história do Brasil”, outro que bradava “Pelo ensino da história e cultura negra”. E a figura de Zumbi se entrelaçava a esta reivindicação, tendo-se tornado patrono das lutas dos negros e negras brasileiras. Já então o movimento negro levantava a bandeira da introdução de nossa história e nossa cultura nos currículos escolares do Brasil, o que só viria a se concretizar pela Lei 10.639/03, portanto em 2003, 22 anos depois daquela passeata!

E agora, passo a descrever personagens retratados naquele histórico momento das lutas negras, pessoas que não devem ser esquecidas:

Lino de Almeida (1958-2006) sobressai na foto, usando uma camisa preta com letras brancas, onde se lê “ZUMBI: 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.” E embaixo, “Movimento Negro Unificado”.  Ele então portava dreads bem curtos, que estavam começando a crescer e chegariam até a cintura. Piscava nervosamente, me olhava e sorria. Sociólogo autodidata, foi um dos fundadores do MNU-BA, e antes disso do Núcleo Cultural Afro Brasileiro.  Lino foi um dos militantes mais proeminente do MNU-BA. Tinha relações com o movimento negro americano. Era radialista e atuou no cenário audiovisual, realizou o documentário “A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhi”, ganhador do prêmio Petrobrás Cultural. Introduziu vários textos de Malcom X e Marcus Garvey como leituras nos cursos de formação de quadros do MNU. No ano de 1986 participou do III Congresso Internacional da Tradição dos Orixás e Cultura, em Nova York, juntamente com Mãe Stella, o Ilê Aiyê, eu e várias pessoas da religião do Candomblé. Fez contato com os Panteras Negras e um deles, Stokely Carmichel (1941-1998), ele trouxe a Salvador.

Hamilton Bernardes Cardoso (1953-1999) aparece no lado esquerdo da foto, segurando cópias do manifesto que produzimos para distribuição. Nascido em Catanduva, SP, jornalista, militante do PT e muito reconhecido na sociedade. Foi casado com Dulce Pereira, militante também do PT e do MNU-SP. Tiveram dois filhos. Desfeito o casamento, soubemos que ele estava doente. Teve um fim trágico, suicidando-se por afogamento, no rio Tietê, em São Paulo. O MNU-BA prestou-lhe uma bela homenagem colocando uma coroa de flores no dique do Tororó, em Salvador.

Ismael Ivo está ao lado de Lino na foto, de calça branca curta, sem camisa. Ele iria brilhar como dançarino e coreógrafo nos palcos brasileiros e internacionais. Foi aliás na Bahia, dois anos após aquela passeata, que conheceu o coreógrafo afro-americano Alvin Ailey  – fundador do American Dance Theater  –, alavancando sua carreira internacional. Ismael viveu durante algum tempo em Salvador, onde frequentava as reuniões do MNU. Se apresentava junto com os demais dançarinos do grupo de teatro do MNU, formado por, além dele, Nadir Nóbrega, Tição, Kal Santos, entre outros.

Luiza Bairros (1953-2016). Do lado esquerdo da foto, logo atrás de uma garotinha, está Luiza, olhando para o lado. Ela se tornaria uma das mais importantes militantes e intelectuais negras brasileiros, tendo sido inclusive ministra da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial-SEPIR, com status de ministério, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, depois de ter ocupado cargo equivalente na Bahia, sob o governo de Jacques Wagner. Fundou, juntamente com outras militantes, o Grupo de Trabalho das mulheres do MNU. Dividiu a militância com uma carreira acadêmica que a levou a fazer um Mestrado em Sociologia na UFBA e a cursar o Doutorado na Michigan State University (EUA), também em Sociologia. Não chegou a concluir seu Doutorado, pois a militância falou mais alto. Foi companheira durante muitos anos do militante Jônatas Conceição da Silva, do GT de Educação do MNU.

Ana Celia. Eu mesma, logo atrás de Luiza, usava na ocasião uma calça preta e uma camisa branca com o retrato de Lélia Gonzales. Fundei, juntamente com Jônatas Conceição, Gildália Anjos, Carlos Menezes, entre outras, o Grupo de Trabalho de Educação Robson Silveira da Luz. A esse GT juntaram-se depois Lindinalva Barbosa, professora de Letras e Egbome do Terreiro do Cobre, Landê Anawale, Tata, poeta e escritor, e muitos outros.

Gilberto Leal. Atrás de mim, aquele rapaz alto de boina branca é Gilberto Leal. Ele foi um dos primeiros fundadores do Grupo Nêgo, precursor do MNU-BA. Tinha muita preocupação com o branqueamento das mulheres que vinham para a entidade. Lembro que quando eu cheguei, com os cabelos em transição, ele me sugeriu que retirasse o alisado e os deixasse crespos, que iria assim ficar ainda mais bonita. Gilberto passou a ser o arquivo ambulante do MNU. Nos reuníamos atrás da biblioteca Central, nos Barris, e aguardávamos a chegada de Gilberto, que sempre trazia uma bolsa grande cheia de artigos, panfletos, manifestos e mosquitos para distribuição nas noites das Terças-feiras da Benção, no Pelourinho. Se fosse preso não sei como explicaria a posse desse material. Gilberto esteve à frente da fundação do Conselho de Entidades Negras –  CONEN, do qual é um dos dirigentes.

Jônatas Conceição (1952-2009). Atrás de Gilberto, meu irmão, Jônatas Conceição, doutor em Literatura, poeta e radialista, de quem vemos apenas sua larga testa. Na época era recém-chegado de São Paulo, onde cursava o Mestrado em Literatura na UNICAMP, mas que veio a concluir na UFBA. Realizou diversas atividades no MNU, tanto no GT de Educação quanto em outras frentes, porque tínhamos dupla militância, a específica nos GT e a geral, que consistia na luta contra o racismo, em cursos de formação de quadros, participação em coordenações municipal, estadual e federal, passeatas, e junto a outras entidades. Como parte do GT de Educação, Jônatas orientou nossa participação na Escola Aberta do Calabar, no Maledebalê, no Ilê Aiyê, do qual era um dos diretores. Coordenou com Gildália Anjos cursos de alfabetização com mais de quarenta salas em bairros de Salvador. Um deles tinha o nome de Paulo Freire, ficava na igreja da Capelinha de Deus Menino, contava comigo e Luiza Bairros, e tinha ainda o Projeto Banca, desenvolvido por Gilda Nascimento na Escola Mãe Hilda, do Ilê Aiyê.

Muitas crianças participaram da passeata, pois era habitual o MNU trazer nossas crianças para os atos públicos. Infelizmente não consigo identificá-las. Algumas eram filhas e sobrinhas de militantes, e são hoje militantes negras nas diversas entidades existentes em Salvador. Eu espero que a divulgação desta foto faça com que elas se reconheçam e se apresentem.

Devo finalmente mencionar mais uma pessoa que participou daquela marcha, mas que não aparece na foto. Trata-se de Anilson, militante do PT dentro do MNU. Participava da luta antirracista, mas não lembro de ele ter participado de algum GT. Eu tenho uma foto de Anilson comigo na passeata. Ele está com o braço para cima, segurando um cartaz. Anilson teve uma morte súbita, saía de uma reunião do PT, foi acometido de  infarto fulminante, caiu na rua, morreu. Não consigo lembrar como foi seu funeral. Minha mente apaga memórias traumáticas.

E ficam assim registradas as lembranças, que esta foto me suscitou, de um momento histórico do Movimento Negro na Bahia. Um momento em que negras e negros bateram com força na porta da Ciência, gritando alto e bom som: nós também queremos entrar.

*Este texto contou com a colaboração do historiador João José Reis nas informações sobre os personagens e para a revisão final.

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Carolina Maria de Jesus: intérprete do Brasil

 

Começou ontem o ciclo de debates da FLUP, Festa Literária das Periferias Urbanas, que, sob a impecável curadoria de Julio Ludenir, este ano homenageia Carolina Maria de Jesus e o aniversário de sessenta anos de seu brilhante livro Quarto de despejo: diário de uma favelada. Com uma programação virtual inovadora, além das discussões abertas ao público, o evento conta com o curso de formação “Uma revolução chamada Carolina”, ministrado por quarenta ilustres professoras. Entre elas: Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Lisboa, Eliana Alves Cruz, Mirian Santos, que compartilharão seus conhecimentos com 210 jovens escritoras, selecionadas através de cartas de próprio punho remetidas a Carolina. Tal ideia, por sinal belíssima, foi eternizada pela mestra em Educação  Hildália Fernandes em 2014, quando na obra Onde estaes felicidade? , lançando mão da escrita criativa, enviou sua missiva à autora.  

Sobre ontem, que momento! Na atual vibe a vida é uma live, durante duas horas milhares de pessoas acompanharam animadas o painel digital “Uma revolução em instantes”, onde se deu o diálogo entre a escritora Conceição Evaristo e a professora Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina. A “noite de gala”, expressão escolhida pela jornalista e mediadora Flavia Oliveira para definir o acontecimento, foi marcada por antídotos aos “perigos da história única”. Aplicados através das narrativas das duas educadoras que, emocionadas, conversaram com o público sobre as muitas versões de Carolina. Mulher. Mãe. Escritora. Migrante. Favelada.

Mantendo a tradição, as mineiras refletiram sobre temas centrais no pensamento feminista negro – cuidado, educação, maternagem, sororidade – sob seus pontos de vista específicos. Oportunidade ainda raríssima, se lembrarmos que apesar de muitos avanços, o pensamento de Carolina Maria de Jesus e da maioria das intelectuais negras brasileiras permanece desconhecido para a maioria do público. Hoje, 13 de maio, quando completam-se 132 anos da assinatura da Lei Áurea, em uma pandemia global que afeta drasticamente a população negra mundial, é oportuno perguntar: por que a história e a obra de Carolina Maria de Jesus permanecem desconhecidas fora dos circuitos acadêmicos e ativistas? O que nos ensina o fato de que um dos últimos registros fotográficos da escritora é como catadora de papel na rodoviária de São Paulo nos anos 1970?

Há muitos anos dedicando-me às dores e delícias da escrita acadêmica da história de intelectuais negras, para responder  essas questões, em vez de silêncio ou apagamento, penso em desvalorização. Palavra chave que nos instrumentaliza para analisar a inadequação e falta de tato das elites e ciências hegemônicas para lidar com a autenticidade, o talento e a criatividade das classes trabalhadoras. Ou, na expressão de Conceição Evaristo, para compreender a “linguagem culta-oculta” de Carolina. A mesma gramática reinventada por milhões de mulheres que nutrem a tradição intelectual negra chefiando sozinhas lares. Educando crianças, cultuando diários, preenchendo cadernos de receitas e, claro, pagando boletos. Quando a fome de comida é saciada no papel de pão recheado com palavras, uma tarefa se coloca para as novas gerações: aprender a diferenciar – cientificamente – jeitinho de inventividade:

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade”.

Carolina Maria de Jesus – Intérprete do Brasil.

Por que não?

Carolina Maria de Jesus - 13 maio 2020 escritora

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13 de Maio 2020

Mais um 13 de maio. O Conversa de Historiadoras vai registrar as celebrações do dia para não quebrar a tradição. Começamos indicando a Jornada em Defesa do Direito à História da Gente Negra, a partir das 9 horas, no instagram @historiadorxsNegrxs. Acompanhem!!!!

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NOTA DE REPÚDIO

PUBLICAMOS A SEGUIR NOTA DE REPÚDIO à Resolução nº 11 de 20 de março de 2020 do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Em plena crise mundial da pandemia do Corona Vírus, não podemos deixar passar em branco um ataque dessa monta aos direitos constitucionais dos quilombolas de Alcântara.

O Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara (STTR), o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (SINTRAF), a Associação do Território Quilombola de Alcântara (ATEQUILA), o Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara e o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (MABE) e as instituições abaixo subscritas, cientes da Resolução nº 11 de 20 de março de 2020 do Gabinete de Segurança Institucional a Presidência da República publicada no Diário Oficial da União em 27.03.2020 vem a publico repudiar veementemente o teor da referida Resolução que buscar estabelecer ao arrepio de leis nacionais e internacionais as diretrizes para a expulsão das comunidades quilombolas de Alcântara de seus territórios.
Consideramos a medida arbitrária e totalmente ilegal, uma vez que afronta diversos dispositivos legais de proteção dos direitos das comunidades remanescentes de quilombo, bem como, tratados e convenções internacionais referidos aos direitos destas comunidades.
Por fim, não admitimos quaisquer possibilidades de deslocamentos reafirmamos nossa irrestrita e ampla defesa às comunidades quilombolas de Alcântara no direito de permanecer no seu território tradicional na sua inteireza e plenitude. Acionaremos todos os meios e medidas possíveis para resguardá-las.
Atenciosamente.
Sindicato dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara (STTR).
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (SINTRAF).
Associação do Território Quilombola de Alcântara (ATEQUILA).
Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara e o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (MABE)

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O dia em que o imperador do Brasil perdeu a chance de conhecer o abolicionista Frederick Douglass

Este artigo é a versão em português de “The Emperor and the Abolitionist: A Brazilian Royal Visits the U.S.”, publicado na seção The Long View da Americas Quarterly em janeiro de 2020.

Dom Pedro II e Frederick Douglass. PHOTO12/UNIVERSAL IMAGES GROUP; CORBIS/GETTY

O dia era o 10 de maio de 1876, mais conhecido como aquele em que Ulysses Grant, então presidente dos Estados Unidos, e Dom Pedro II, o imperador do Brasil, inauguraram a exposição universal da Philadelphia, a propósito do centenário da independência norte-americana – e, ironicamente, da república que o monarca não queria ver em seu país.

A abertura da exposição foi o momento alto da visita do imperador aos Estados Unidos, que ficou conhecida no Brasil como a ocasião em que D. Pedro teria testado o telefone, última invenção de Graham Bell. Entusiasmado ao ver que a geringonça “de fato falava”, teria se comprometido a comprar o aparelho assim que a invenção fosse posta no mercado. A promessa foi cumprida.

A viagem de D. Pedro II foi extensamente documentada pelo jornal New York Herald, cujo correspondente, o repórter James J.O’Kelly, acompanhou o imperador desde a sua saída do Brasil. As matérias de O’Kelly foram em grande parte responsáveis pela imagem simpática e ilustrada do “monarca-cidadão”, que, no exterior, preferia assinar Pedro de Alcântara e se identificar como “apenas um cidadão brasileiro”.

Mas é evidente que o imperador brasileiro pretendia muito mais do que figurar como um simples cidadão interessado nas últimas novidades científicas. Naquela época, as Exposições Universais, verdadeiros espetáculos da modernidade, eram grandes feiras de negócios, organizadas para que os países participantes exibissem o que consideravam ser suas melhores contribuições nos campos da ciência, da indústria, das artes, da arquitetura, da tecnologia.

Com participação mais tímida nas exposições de Paris (1867) e de Viena (1873), na de Philadelphia o Império do Brasil, para potencializar a venda do café, sua principal commodity, queria ficar conhecido “as an agricultural region, possessing an extremely fertile soil, and to its inhabitants the occasion of appearing as peaceful, inteligent, and laborious people”. (The Empire of Brazil at the Universal Exhibition of 1876 in Philadelphia, 1876). D. Pedro ficou satisfeito com o que viu. Como escreveu em carta à filha Isabel, “Já corri quase toda a exposição. É imensa. Nós fazemos figura decente. (…) A nossa exposição agrícola faz lindíssima vista.” (11 de maio de 1876).

Vender café podia até ser fácil. Já apresentar um quadro positivo do maior regime escravista das Américas era mais difícil. As autoridades se esforçaram para descrever slavery as “imposed in Brazil by the force of circumnstances (…)”, that “will disappear in a few years more”, mas seria preciso muita imaginação para acreditar que “slaves are humanely treated”, working “moderately, and, usually during the day, resting at night, when they receive religious instruction or amuse themselves” (The Empire of Brazil… 1876).

Será que o simpático imperador teria conseguido convencer alguém na Philadelphia, pouco mais de dez anos após a abolição da escravidão nos Estados Unidos, que o Brasil era um país moderno, a escravidão não seria um empecilho para os negócios e que, “so unprepared to receive their freedom”, alguns dos recém-libertos “were employed as laborers on the estates of the nation”, where their “children are educated”? (The Empire of Brazil… 1876).

Abertura da Exposição da Philadelphia. 1876. Barberis from L’Illustrazione Italiana, No. 36/Getty

Difícil afirmar que sim. Afinal, como a propósito comentaria o jornal O Novo Mundo, então publicado em New York pelo brasileiro José Carlos Rodrigues, “É preciso ter bem na lembrança que essa nefanda escravidão não só impede a emigração para o Brasil como a importação de capitais para as indústrias agrícolas. Coloca o país em um estado fatal de suspeição tanto para o emigrante quanto para o capital. O emigrante pergunta: — Não me quererão tratar como escravo? O capital murmura: — Jamais irei para um país em que a terra só tem valor quando nela está amarrado um escravo”. (O Novo Mundo, agosto de 1876, edição 08071, p. 231).    

Mas, se a escravidão era, no linguajar da época, uma “nefanda instituição”, havia quem considerasse o Brasil à frente dos Estados Unidos quando o assunto eram as relações raciais.

Um dos convidados de honra à cerimônia de inauguração era Frederick Douglass, um dos maiores ícones do abolicionismo norte-americano. Após a abolição da escravidão, a questão de Douglass, ele próprio ex-escravo, era a luta contra o racismo nos Estados Unidos. No dia da cerimônia, ele quase teve sua entrada barrada na tribuna reservada aos convidados de honra, que incluía diplomatas e autoridades diversas, entre elas o imperador do Brasil. Um senador o reconheceu e o chamou para ocupar seu assento. Consta que a multidão, ao vê-lo, aplaudiu com veemência. Douglass mal havia se sentado quando se escutaram os primeiros acordes do hino brasileiro e mais aplausos. Era o imperador que subia ao mesmo palanque, de braços dados com a imperatriz Teresa Cristina.   

Teria o “monarca-cidadão” Pedro de Alcântara notado a presença de Douglass? Aos cinqüenta e oito anos, o homem alto de vasta cabeleira grisalha era facilmente reconhecido por onde passava. Mas o abolicionista não parece ter causado impressão especial no imperador. Ao menos não há qualquer referência a ele em seu diário, nos artigos de O’Kelly, nas cartas que enviou ao Brasil.

Uma pena. Embora tenha afirmado que “nenhum homem de cor é realmente livre num estado escravista”, Douglass, mais de uma vez, havia expressado admiração pelo Brasil, que lhe parecia um lugar onde, comparado aos Estados Unidos, não haveria “antipatia dos brancos de se misturar ou se associar aos negros”.

D. Pedro II parece não ter notado Douglass, mas não deixou de visitar Elizabeth Agassiz, viúva do naturalista suíço Louis Agassiz, zoólogo e professor de Harvard, falecido há pouco mais de dois anos. D. Pedro e Agassiz eram amigos de longa data.  Consta que ele teria sido o responsável por convencer D. Pedro a visitar aos Estados Unidos, cuja viagem seria “uma marcha triunfal de um extremo a outro do país”.

Agassiz também era um entusiasta do racismo científico, que via na miscigenação o principal fator da degeneração das raças humanas.  Assim como Douglass, o naturalista também tinha interesse todo especial pelo Brasil. Mas se, para o primeiro, no Brasil, “país que nós, com nosso orgulho, estigmatizamos como semibárbaro — não se trata as pessoas de cor, sejam livres ou escravos, da forma injusta, bárbara e escandalosa como tratamos”, para o segundo o Brasil seria o melhor exemplo da degeneração provocada pela miscigenação.

Para Agassiz, o Brasil era o perfeito contraponto dos Estados Unidos, aquilo que seu país de adoção jamais deveria se tornar. Para Douglass, o Brasil era um modelo a ser seguido.   

Talvez o 10 de maio de 1876 tenha sido mais propriamente o dia em que D. Pedro II perdeu a oportunidade de conhecer Frederick Douglass, e com ela a chance de fazer figura realmente decente na inauguração da Exposição Universal. Quanto a este, quase barrado na entrada da cerimônia, ignorado pelo imperador, quem sabe tenha percebido que, no fundo, o racismo brasileiro não era assim tão diferente do norte-americano.   

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