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“Pássaro Preto”, por Giovana Xavier e Monica Lima

Mataram um estudante! Podia ser seu filho.

Essa frase, escrita em faixas e cartazes, gritada pela multidão que acompanhou o enterro de Edson Luís de Lima Souto nas ruas da cidade do Rio de Janeiro em março de 1968, sempre esteve em minha memória sobre a ditadura militar – construída não pela vivência, mas pela leitura e estudos sobre esse período da história brasileira. Nas últimas semanas ela voltou, ressignificada, a partir da notícia do assassinato de Diego Vieira Machado, encontrado morto no campus da Ilha do Fundão da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com fortes sinais de violência.

O que têm em comum essas duas histórias? Aparentemente nada, além de serem ambos paraenses, filhos de famílias pobres, terem vindo ao Rio de Janeiro para estudar, e serem negros. Circunstâncias diametralmente distintas e contextos pessoais de morte muito diversos. No entanto, a frase segue ressoando. Podia ser meu filho. Meu irmão. Meu aluno.

Sim, poderia ser meu aluno. Um daqueles que desafiam, instigam e trazem, na atitude e nas ideias, provocações – que devem estar presentes na vida universitária. Um aluno que se propõe, na vida acadêmica e pessoal, transgredir e enfrentar. Artista, lutador, poeta – dizem os relatos daqueles que o conheceram de perto. E segundo consta, aberta e assumidamente homossexual. Nas fotos, vejo e imagino: jovem, negro, forte e belo. Um estudante que não se conformava com o preconceito, que não se curvava aos ditames do chamado “bom comportamento”. Como tantos, ou talvez como poucos.

Essas teriam sido, conforme os indícios trazidos pelo ataque que sofreu, as razões de seu assassinato.  Seriam sinais de um crime de ódio, motivado por homofobia agregada ao racismo, movido pela intolerância – por sua atitude, por sua presença, por tudo que fazia e representava. Diego trazia no corpo as marcas de toda a iniquidade de seus assassinos, como evidências da ânsia sempre assustadora que o preconceito tem em torturar e eliminar “o outro”. Os agentes dessa morte pareciam desejar mostrar, por toda crueldade de sua ação, seu poder de destruição.

Infelizmente não se trata de um caso isolado, já se sabe. Em outros espaços, e em outras universidades brasileiras, tragédias assim ocorrem com frequência apavorante. E, no dia a dia no nosso país, a feiura rasgada do racismo e da intolerância à diversidade na orientação sexual, injuriam, ferem e matam. Calar não é uma opção. Ficar com o sofrimento circunscrito ao interior de si ou às rodas de amigos e redes sociais não consegue dar mais conta do tamanho dessa dor. E ela se amplia com outras dores que se vêm a somar, e junto com a história de Diego, na mesma semana vem Joselita de Souza, trazendo na sua morte as marcas da violência de sua tristeza inconsolável. Os cento e onze tiros no carro onde estava seu filho Betinho e seus amigos atingiram, dias depois, o coração de Joselita. Outra história, tão diferente, tão parecida. E o mesmo final.

Podia ser meu filho.

A cada vez que ouço a frase “o estudante da UFRJ que morreu”, corrijo-a. A retificação não tem a ver com a dicotomia entre certo e errado, mas com o compromisso que devemos assumir na luta por respeito e igualdade a quem vive e à memória de nossos mortos. Diego Vieira Machado não morreu. Ele foi brutalmente assassinado, espancado e encontrado sem calça e sem documentos – conforme relatos. Embora já tenha tempo que aprendemos que violências não se medem, a tragédia da qual ele foi vítima no dia 02/07/2016 é um caso extremo, que não pode ser pensado isoladamente. Ele é parte da história de violências vivenciadas cotidianamente por estudantes negros.

Tais violências são observáveis nas precárias condições das residências estudantis, em atrasos e cortes de bolsas, no escasso número de bandejões, nos empecilhos para obtenção de passes livres, nos currículos acadêmicos, marcados pela negação do direito de acessar o pensamento e o conhecimento científico produzido por autoras e autores negros, nos relatos de situações de humilhação e constrangimento em salas de aula. Tudo isso insere-se no racismo estrutural, que faz com que desigualdades construídas socialmente sejam naturalizadas e normatizadas como problemas inerentes a grupos específicos, hierarquicamente chamados de “outro”.

Se considerarmos que o Brasil é o lugar do mundo que mais mata por homofobia, tiraremos a nossa venda dos olhos. Sem ela, conseguiremos enxergar como eu um país de maioria de população negra, no qual a cada 23 minutos um jovem preto é assassinado, faz todo sentido a frase “Podia ser meu filho ou filha”.

Em memória de Diego Vieira Machado, estudante negro cotista que atravessou o Brasil em busca do sonho de ingressar em uma universidade pública para estudar e foi assassinado no principal campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seguiremos mais vivas trabalhando para o “inesperado”.

Sou pássaro preto
estendo as minhas asas
coloco fogo na dor
espalho as cinzas pelo meu corpo
forjo uma pele nova a cada momento
jogo as cinzas ao vento
e voo
águia negra
a ressuscitar diante de qualquer tempestade
mais forte
mais célebre
mais viva
espere o inesperado…

(Espere o inesperado, de Cristiane Sobral)

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Não dialogamos com Governo golpista, patriarcal e ilegítimo

Confira o Tumblr Historiadores Pela Democracia para ter acesso às resoluções do encontro Historiadores Pela Democracia, realizado na UNB no dia 7 de junho, e ao registro audiovisual do encontro de historiadores com a Presidenta Dilma Rousseff, no mesmo dia, no Palácio da Alvorada.

No Alvorada, encontraram-se com a Presidenta alguns dos principais historiadores brasileiros. Entre eles, especialistas em todas as áreas da disciplina, com ênfase na história do Brasil e da América Latina, na história do tempo presente e, não por acaso, na história da escravidão no Brasil e das heranças e traumas que nos foram legados por este passado. São muitos os historiadores que vão buscar a raiz da crise atual na nossa formação colonial e escravocrata, que fez da lógica do privilégio base da cultura política brasileira. Tânia Bessone, da UERJ, representou a diretoria da Associação Nacional de História e James Green, da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, também estava entre os presentes.

Dilma Rousseff abriu o encontro com uma fala em defesa da democracia de cerca de meia hora realmente memorável. O encontro no Alvorada foi ao ar ao vivo e foi registrado também pela Mídia Ninja. Durante as falas dos historiadores, foi entregue a Presidenta a serigrafia em tela “#Democracia” . Depois da cerimônia, Dilma confraternizou com todo o grupo e conversou longamente com James Green sobre o livro que ele lançará em breve, uma biografia de Herbert Daniel, pioneiro da luta LGBT no Brasil, que foi amigo pessoal da Presidenta.

Como desdobramento do encontro, convidamos todos para o Debate sobre o movimento “Escola sem Partido” e o direito à diversidade cultural,  que vai se realizar no dia 17 de Junho de 2016, às 15:30, no Auditório da Fundação Casa de Rui Barbosa, como  atividade da mobilização nacional do grupo Historiadores Pela Democracia: por um Brasil com direitos, prevista para os dias 16 e 17 de junho.

Publicamos, a seguir, a Carta de Renúncia ao Conselho Nacional de Direitos da Mulher apresentada por importantes organizações de mulheres e Conselheiras de notório saber. Elas nos representam.

Não dialogamos com Governo golpista, patriarcal e ilegítimo

Nós, representantes da Articulação de Mulheres Brasileiras/AMB, Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras/AMNB, da Marcha Mundial das Mulheres/MMM, da Rede Mulher e Mídia/RMM; da Rede Economia e Feminismo/REF e as Conselheiras de Notório Conhecimento das questões de Gênero, Maria Betânia de Melo Ávila, Matilde Ribeiro, integrantes do CNDM – Conselho Nacional dos Direitos da Mulher vimos anunciar nossa RENÚNCIA ao mandato de Conselheira, pelos motivos abaixo expressados.

Não reconhecemos o governo provisório por considera-lo ilegítimo, resultado de uma coalizão de forças políticas que chega ao poder por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, levando ao afastamento temporário da Presidenta Dilma, eleita pelo voto popular, configurando um ataque à institucionalidade democrática;

Desde que assumiu o poder, este governo interino e ilegítimo vem cumprindo um programa ultraliberal, que requenta boa parte do programa eleitoral da coalizão derrotada nas últimas eleições presidenciais, e promove, de maneira ilegítima, mudanças ministeriais que representam uma brutal desestruturação de políticas públicas voltadas para a garantia de direitos, sinalizando o aprofundamento de retrocessos nas políticas de educação, seguridade social, de promoção da igualdade racial e nas políticas públicas para as mulheres, começando pelo desmonte da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres;

O governo interino e ilegítimo colocou no primeiro escalão do poder executivo, somente ministros homens e brancos, de partidos da coalizão golpista, muitos dos quais envolvidos em esquemas de corrupção e com posições marcadamente contrárias ao avanço dos direitos humanos e do desenvolvimento do País, assim como, a ameaça ao Estado Democrático de Direito. E para completar, não só acabou com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, como transferiu para o Ministério da Justiça as atribuições da Secretaria de Políticas para as Mulheres e nomeou para a pasta uma pessoa com postura contrária aos direitos sexuais e reprodutivos, agenda historicamente defendida pelas feministas.

Soma-se a tantos descalabros deste governo golpista, a tentativa de criminalização dos movimentos sociais e a utilização do aparato repressivo do estado, para reprimir qualquer manifestação organizada, quando o intuito é o de resistir e desmascarar a farsa do impeachment sem crime de responsabilidade, praticando repressão violenta contra as manifestações populares rememorando os tempos da ditadura militar.

Não reconhecemos este Governo e, portanto, com ele não dialogaremos. Acreditamos que a participação nos conselhos de controle social tem como objetivo primordial democratizar o Estado e avançar na garantia de direitos. Em um governo instituído pelo desrespeito à Constituição e ao voto popular e, portanto, à institucionalidade democrática, não existe possibilidade de diálogo.

Não renunciaremos à luta em defesa da Democracia. Permaneceremos nas ruas contra o golpe do impeachment, defendendo a continuidade do mandato da Presidenta Dilma Roussef e com ela retornaremos após derrotarmos o golpismo, comprometidas com um programa de avanço na implementação dos direitos das mulheres.

Estaremos nas ruas, contra a direita, pelos direitos. Golpistas, não passarão! Fora Temer!

Brasília, 06 de junho de 2016.

Conselheiras:
Schuma Schumaher – Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
Josanira Rosa Santos da Luz – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB
Lourdes Andrade Simões -*Marcha Mundial das Mulheres – MMM*
Maria Betânia de Melo Ávila – Notório Conhecimento das questões de Gênero
Matilde Ribeiro – Notório Conhecimento das questões de Gênero
Rachel Moreno – Rede Mulher e Mídia – RMM
Sarah Luiza de Souza Moreira – Rede Economia e Feminismo -REF

Também nos dias 16 e 17 de junho, o Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras (GIN-UFRJ), coordenado por Giovana Xavier, historiadora do blog, promove o I Seminário Intelectuais Negras e escritas de si, um espaço ativista acadêmico que objetiva conferir visibilidade ao protagonismo de mulheres negras na história do Brasil. A programação, comprometida com o enfrentamento ao racismo, ao machismo e à transfobia, é composta por uma mesa solene, uma para apresentação do trabalho do grupo e três rodas de saberes, estruturadas a partir de três eixos: racialização do cuidado, movimentos sociais e protagonismo acadêmico. Para maiores informações visitem a página do evento no Facebook:

Seminário Intelectuais Negras - flyer com logo  11.06.16

Screen Shot 2016-06-12 at 9.17.30 PM

Debate sobre o movimento “Escola sem Partido” e o direito à diversidade cultural
17 de Junho de 2016. 15:30 – Auditório
Fundação Casa de Rui Barbosa
Rua São Clemente, 134, Botafogo

O encontro é promovido pelo grupo Historiadores pela democracia, pela Anpuh Brasil, por professores e pesquisadores das seguintes instituições: Fundação Casa de Rui Barbosa, Casa de Oswaldo Cruz, UFRJ, UFRRJ, UFF, Unirio, PUC-Rio, UERJ, CPDOC, Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC), MAST, SBPC.

Ivana Stolze Lima (FCRB) (mediação)
Hebe Mattos (UFF)
Henrique Estrada (PUC-Rio)
Fernando Penna (UFF)
Monica Lima (UFRJ)
Ildeu de Castro Moreira (UFRJ e SBPC)
Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ)
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Arquivado em antiracismo, cultura negra, história e memória, historiografia

Fogo no Canavial! Dossiê 13 de Maio

Uma Data Para Refletir e Celebrar/ por Hebe Mattos

O blog conversa de historiadoras não poderia deixar o 13 de maio passar em branco. Desde que combinamos a atual sequência de artigos, programamos, para este domingo, um dossiê com pequenos textos de todas nós refletindo sobre a data. No contexto político atual, porém, refletir sobre este 13 de maio em que se comemora 128 anos da abolição legal da escravidão no Brasil ganhou um significado ainda mais especial.

O título do dossiê vem de um post da historiadora Wlamyra Albuquerque em sua página no facebook, que eu peço licença para citar:

7 homens brancos perfilados no poder. É 13 de maio. Uma multidão rodeava José do Patrocínio. Era 13 de maio de 1888. No ar, o cheiro de canaviais queimados no Recôncavo baiano por ex-escravos apontava o alvo, os senhores brancos poderosos. Ontem, eram só 80 mil com o brilho nos olhos e sangue rebelde nas ruas. A juventude nos lidera. Em 1888, uma multidão gritava que a abolição foi conquista negra. Patrocínio alertava: a bandeira da liberdade está sempre em risco. Hoje é o treze de maio de luta. A bandeira da liberdade segue carregada pela juventude negra, pobre, feminina, LGBT e guerreira. Se a luta é antiga, a batalha é pra hoje: treze de maio de 2016. Fogo nos canaviais!

O post de Wlamyra está compartilhado no grupo Historiadores Pela Democracia. Criado por iniciativa do blog como forma de resistência ao atentado à democracia que estamos vivendo, já conta com mais de mil participantes. Também eu registrei a importância da desobediência civil dos libertos para que o 13 de maio de 1888 acontecesse e me emocionei com uma imagem compartilhada nas redes sociais.

Desobediência civil

Arte: Moisés Patrício

Mas 13 de maio de 2016 não foi apenas um dia de resistência democrática. Foi um dia de tristeza para todos os brasileiros e, em especial, para os descendentes dos últimos libertos do Brasil, a geração dos 13 de maio. Alguns de seus netos ainda vivos, como Manoel Seabra do Quilombo São José, viram o novo governo interino e ilegítimo interromper com uma canetada a política de titulação de terras quilombolas pelo INCRA. Impossível não evocar uma outra simbologia também fortemente ligada à data da abolição, sua incompletude.

“O 13 de maio marca o fim formal da escravidão no Brasil. Processo cujo desfecho é similar ao que vivemos hoje: rebote conservador depois de maré reformista”, escreveu Ângela Alonso, em outro post.

O 13 de Maio terá sempre múltiplos significados, por isso é uma data tão rica para pensarmos o presente. Dia da maior reforma social e política do Brasil, a aprovação da chamada Lei Áurea tornou ilegal uma instituição infame que estruturou por três séculos a história da colonização portuguesa na América e a construção do primeiro estado nacional brasileiro. O dia 13 de Maio deixou de ser feriado no Brasil, mas se tornou o Dia dos Pretos Velhos nas tradições religiosas afro-brasileiras. Dia de festa, dia de luta contra o racismo, dia de reflexão, dia de celebração.

Treze de Maio também é dia de negro! / por Ana Flávia Magalhães Pinto

A Gazeta de Notícias, em 14 de maio de 1888, informava a seus leitores:

“Reuniram-se anteontem, a convite da Sociedade Cooperativa da Raça Negra, os delegados de diversas corporações de descendentes da mesma raça, a fim de deliberarem sobre os meios de agradecer àqueles que trabalharam para o acontecimento glorioso que, para honra de nossa pátria, completou-se sem a menor perturbação na ordem pública, e resolveram nomear uma comissão executiva dos festejos, que apresentará o programa destes, sendo um deles um Te-Deum na igreja da venerável irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito”.

Efetivamente, para além do que aconteceu no interior do Paço Imperial, não foram poucas as pessoas que se encheram de expectativa sobre o futuro nos dias que antecederam e sucederam o 13 de maio de 1888. Mais do que isso, na contramão de várias versões construídas ao longo do tempo, não foram poucas as mulheres e homens negros que estavam nas ruas ou que foram nelas lembrados como responsáveis pela chegada ao momento da assinatura da lei que extinguia formalmente a escravidão no Brasil. Entre lembrados e esquecidos atualmente, sobressaíam-se Luiz Gama, Ferreira de Menezes e José do Patrocínio, por exemplo.

Abolicionistas

Arte: Vitor Epifãnio, 2015.

Aspecto central da minha pesquisa de doutorado, o interesse por essa presença negra nas lutas abolicionistas, entretanto, me foi despertado por uma espécie de afirmação da ausência sugerida em falas de pessoas um pouco mais velhas como forte justificativa para a defesa do 20 de Novembro, visto como uma data mais legítima para simbolizar as lutas contra o racismo e a discriminação racial no país. A denúncia da “falsa abolição” – bastante documentada pelo Acervo Cultne − levava muita gente do final do século XX a dissociar aquele ato do governo imperial da ação política negra. Entre os vários registros em que esse discurso aparece, a contar do fim dos anos 1970, destacaria ainda as músicas produzidas por compositores e grupos afros. Martha Rosa Queiroz, na tese em que problematiza a dicotomia entre cultura e política no fazer das organizações negras pernambucanas entre 1979 e 1995, cita uma série de exemplos, entre os quais “Dia de Negro”, música de Zumbi Bahia, para o Bloco Quilombo Axé:

“Irmãos e irmãs assumam sua raça assumam sua cor/ Essa beleza negra Olorum quem criou/ Vem pro Quilombo Axé dançar em nagô/ Todos unidos num só pensamento/ Levando à origem desse carnaval/ Desse bloco colossal/ Pra denunciar o racismo/ Contra o apartheid brasileiro/ 13 de Maio não é dia de negro/ 13 de Maio não é dia de negro/ Quilombo axé, colofé, colofé, colofé, Olorum”.

Em face desse aparente choque de temporalidades, penso que fazer o papel de juiz/a das razões e estratégias adotadas por ativistas negros/as − que naquele momento intentavam promover o desmonte do mito da democracia racial e, ao mesmo tempo, reposicionar o lugar de africanos e seus descendentes na história nacional − não figura como a melhor opção para quem está interessado/a na compreensão das experiências negras numa perspectiva histórica. Sobretudo neste momento em que julgamentos ilegítimos de natureza comum conduzem o país mais uma vez a cenários trágicos.

Afinal, pelo menos ainda é consenso entre historiadores/as que a abolição, seguida de uma série de manobras que inviabilizaram um debate sério sobre a formulação de políticas de apoio ao trabalhador nacional, mantém-se como um tema que desperta interesse justamente por estar repleta de conflitos. Por outro lado, como sabiamente me disse Luiza Bairros, referência do movimento negro e de mulheres negras, numa dessas conversas que impulsionam uma vida inteira: Nós não tínhamos elementos para fazer uma outra leitura do 13 de Maio. A recuperação dessa outra história está nas mãos de vocês que estão chegando às universidades em maior quantidade e num outro cenário – tal como me recordo.

Por isso, neste 13 de Maio de 2016, marcado pela entrega da demarcação das terras dos remanescentes das comunidades quilombolas nas mãos do deputado José Mendonça Bezerra Filho (DEM-PE), agora ministro da Educação e Cultura; e pelo início do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN), na UFRJ, eu preferi alimentar minha aposta de que, em se tratando de história do Brasil, não dá para abrir mão de toda e qualquer experiência de resistência empreendida pelos vários segmentos populacionais subalternizados no Brasil. Sendo assim, não dá para deixar o dia passar em branco, sem dizer que “Treze de Maio também é dia de negro”! E para embalar essa celebração da memória de luta, nada melhor do que os versos de Seu Wilson Moreira e Nei Lopes, em seu “Jongueiro Cumba“: “O dia tanto treze quanto vinte / Avia que o negócio é o seguinte: / Um é feriado novo / O outro é de todo esse povo / Vamos os dois festejar”.

É uma questão política, como insiste o orador/ Por keila Grinberg

“A questão não é de sentimentalidade, é uma questão política, insiste o orador. Com finanças já arruinadas, com uma dívida publica que vai crescendo a passos agigantados, com as fontes de produção ameaçadas, é preciso que os representantes da Nação sejam mais cautelosos. Abra-se o relatório do Ministério da Fazenda, vejam-se os balanços do Tesouro, coteje-se a renda arrecadada nas alfândegas, visto que os nossos tributos consistem quase que exclusivamente em direitos de exportação e direitos de importação. Encontram-se aí lições eloqüentes.”

 O orador em questão é o deputado Andrade Figueira. O discurso foi proferido em 9 de maio de 1888. A cautela que ele recomendava? A iminente e imediata abolição da escravidão, grande problema para os lavradores de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Melhor ter cautela, argumentava ele, já que dois terços das rendas públicas destas províncias, as mais produtivas do país, eram baseadas no trabalho escravo. “Quer-se agora extinguir tudo isso: já pensou no resultado que este acontecimento acarretará para as rendas públicas?” Andrade Figueira votou contra a aprovação da lei que extinguia a escravidão. Defendia a indenização aos proprietários de escravos. E queria ainda que o governo os ajudasse, criando uma linha de crédito para se adaptarem aos novos tempos do pagamento de salários, não fazendo sofrer, assim, “a produção nacional e as rendas públicas em sua marcha ascendente. Mas querer destruir sem edificar é expor a pátria a um grande perigo!”, alertava Figueira. “É expor o crédito público, que está comprometido por somas importantes nas praças estrangeiras e por contratos solenes com companhias estrangeiras, a azares perigosos.”

Qualquer semelhança entre o nobre deputado e aqueles que hoje defendem retrocessos nas conquistas sociais em nome do equilíbrio nas contas públicas e da defesa dos interesses privados não é mera coincidência. Mas veio o 13 de Maio e a História reservou lugar de honra a Figueira: o esquecimento. Que o destino reservado a seus tataranetos políticos seja o mesmo. Afinal, dentre os membros da Câmara dos Deputados daquele célebre maio de 1888, de quem você já ouviu falar? Andrade Figueira ou Joaquim Nabuco?

Sexta-feira 13 (DE MAIO)/ por Giovana Xavier

São conhecidas as disputas pela memória oficial da abolição da escravatura no tempo presente, disputas estas simbolizadas pela contraposição entre o 13 de Maio, data de assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, e o 20 de Novembro de 1695, dia em que Zumbi, líder do quilombo dos Palmares foi morto lutando pela liberdade sua e dos palmarinos. Tal guerra de narrativas entre o 20 e o 13 iniciou-se em debates travados no âmbito do recém criado Movimento Negro Unificado no fim dos anos 1970, conforme pontuou Ana Flavia Magalhães Pinto em seu post. Particularmente, acho que o 13 de Maio é um dia que também deve ser reconhecido como parte das nossas lutas, afinal de contas a abolição foi feita à base de muita “raça” e ativismo de pessoas negras que recusaram até o fim a condição de escravizadas. Além disso, a despeito de todos os limites e imprecisões que a ideia de liberdade carrega em seu bojo, o 13 representa um marco. Daquela data em diante, as categorias senhor e escravo deixaram de existir do ponto de vista jurídico, embora na prática ainda hoje sejam reatualizadas através de processos de racialziação que naturalizam hierarquias socialmente construídas entre negros e brancos não somente no Brasil, mas em todas as sociedades pós-escravistas. Em meio a esta guerra de narrativas, foi muito significativo ter participado da mesa solene “Fortalecer para Permanecer: Uma permanência estudantil para muito além de moradia e alimentação” do I Encontro de Estudantes e Coletivos Negros Universitários, sediado na UFRJ, justamente no dia 13 de Maio de 2016. Falar com mais de 1.500 jovens negros, com tonalidades de pele, texturas de cabelos, sexualidades, gêneros e classes plurais, leva-nos a pensar que estas juventudes negras têm nos ensinado – na prática – a lutar por sentidos de liberdade que deem conta das nossas experiências como pretxs.

EECUN- geral

Fonte: Página do EECUN no Facebook

Autônomo e organizado sob os princípios da auto-gestão, o EECUN possui uma estrutura que abarca dezenas de coletivos universitários negros espalhados por todo o Brasil, dentre eles, o respeitado Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus (UFRJ), conhecido por suas articulações entre academia e movimentos sociais como o Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto e também, não menos importante, pelo diálogo horizontal com o Sindicato das Trabalhadoras Terceirizadas da UFRJ, com que as e os integrantes do coletivo como Caroline Amanda Lopes Borges, Nayara Silva e Denilson Souza mantêm estreita relação, fazendo aflorar não apenas sentidos de ativismo que articulam classe, raça, gênero e geração, mas também distinguindo-se das estruturas clássicas dos movimentos estudantis (DCE e Centros Acadêmicos), com pouco espaço para diálogos com as classes trabalhadoras. Na sexta-feira 13 do EECUN, viajei para longe, lembrando-me da Missa da Abolição narrada por ninguém menos que Lima Barreto:

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.

Foto da Missa Campal

Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”. Antonio Luiz Ferreira, 1888”.

Enquanto pensava na narrativa de Lima Barreto, olhava para aquela plateia repleta de estudantes negros, ciosos por darem continuidade à escrita de suas próprias histórias. Saltou-me aos olhos uma delas, com seu casaco preto escrito em letras garrafais brancas “Mães de Maio”, uma referência ao movimento de mulheres que perderam seus filhos em razão da violência policial e da naturalização do genocídio da população negra em São Paulo. Como não pensar nos dizeres no agasalho em conjunto com a frase ostentada na legenda a uma das imperdíveis fotos do encontro?

13 de maio, dia nacional de luta contra o racismo.
Que esse 13 de maio seja lembrado como o dia de luta do EECUN – Encontros Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros.
Um dos grandes passos pra uma verdadeira abolição.

Agora mais do que nunca, precisamos ouvir e aprender com as Mães de Maio quando elas dizem “escrevemos na guerra”. Em tempo: Feliz 13 de Maio!

Mães de MaioFoto: Carta das Mães de Maio da Democracia Brasileira a Presidente Dilma Vana Roussef (à esq. a Presidenta Dilma Rousseff, à dir. Debora Silva Maria)

O 13 de maio e os olhos do mundo/ por Mônica Lima

De um lado e outro do Atlântico se celebrou a assinatura da lei de 13 de maio de 1888. A abolição da escravidão no Brasil foi festejada naquele ano durante vários dias na cidade de Lagos, na atual Nigéria, na África Ocidental. Solenidades com discursos de importantes personalidades, cerimônias religiosas e um grande baile marcaram o início das comemorações oficiais, seguidas por diversas celebrações com queima de fogos, uma sessão teatral, apresentações musicais, um desfile de carnaval e um baile à fantasia. Nas ruas, praças e igrejas de Lagos a população se reuniu para cantar e dançar a abolição da escravidão no Brasil. Diversos jornais locais como o Lagos Observer destacaram e saudaram a lei por meio de artigos e editoriais. Destacaram a importância do fim da escravidão para as populações da África, para a paz e boas relações com o nosso país. Essas e outras histórias que remetem ao significado da lei são narradas, a partir de pesquisa em periódicos lagosianos, na excelente tese de doutorado sobre a comunidade de brasileiros em Lagos recentemente defendida na USP pela historiadora Angela Fileno da Silva.

Não foram somente os africanos a saudar a abolição da escravidão no nosso país. Outros jornais de diferentes partes do mundo, especialmente na Inglaterra, noticiaram a medida e a celebraram, reconhecendo como um marco para um outro Brasil no cenário mundial. Hoje, cento e vinte e oito anos depois, são outros os destaques da imprensa internacional sobre o Brasil. Aparecemos como um país em que um grupo de políticos corruptos fez aprovar sem nenhuma base consistente, num visível e ardiloso golpe, o processo de impeachment contra uma presidenta eleita com 54 milhões de votos e que promovera políticas públicas progressistas e dirigidas à população mais carente – que, no nosso país é sobretudo negra.

A lei de 13 de maio de 1888 resultou da ação do movimento social abolicionista e da luta de escravizados e de libertos que, com atitudes e argumentos, pressionaram e criaram diversas situações de rebeldia, em ações coletivas e individuais. Fugas, formação de quilombos, rebeliões e campanhas públicas fizeram da abolição uma causa de muitos e um desejo da maioria. Juntamente à campanha internacional abolicionista, tornaram insustentável a continuidade do cativeiro no Brasil. As narrativas das experiências de africanos escravizados que conseguiram a liberdade, quando divulgada nos meios da época, causava comoção e contribuía para aprofundar o forte apelo da onda abolicionista.

 https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/c8/Biography_of_Mahommah_G._Baquaqua.jpg/220px-Biography_of_Mahommah_G._Baquaqua.jpgBiografia de Baquaqua, africano liberto que quando escravizado foi trazido ao Brasil

Hoje também estamos frente a sérias ameaças aos processos de reconhecimento dos direitos dos quilombolas, herdeiros diretos dessa história de luta pela liberdade. Uma das primeiras medidas do governo Temer alterou os trâmites para o reconhecimento dos direitos de propriedade aos territórios de quilombo – que incluem, em sua acepção mais completa, comunidades quilombolas urbanas como o Quilombo da Pedra do Sal, na zona portuária do Rio de Janeiro. Trata-se de direitos reconhecidos pela Constituição de 1988 –  ano do centenário do 13 de maio. Segundo avaliação de historiadores comprometidos com a causa quilombola, há perigo de um retrocesso.

Nesses tempos de ameaça às conquistas negras e populares devemos aprender com os quilombolas que a obtenção da real liberdade resulta de uma luta permanente, e ao mesmo tempo celebrar as conquistas de forma a não esquecer que vale a pena continuar lutando. #VaiTerLuta

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Festas de 13 de maio/ por Martha Abreu

Não sei bem os motivos, mas sempre achei que as festas tinham algo muito especial,  difícil de explicar  quando se é criança. Talvez porque as festas fossem lugares onde todos estavam alegres – ou pareciam alegres (pois  eram inevitáveis conflitos); locais de encontro, música e riso. Na minha família e na minha escola, as festas exigiam nossa presença, com o que tínhamos de melhor e de mais bonito. E ainda planejávamos o futuro: as festas do ano que vem sempre seriam melhores! Eu chegava a perceber também que as festas davam o maior trabalho…e não era pequeno o esforço de organizar as comidas, bebidas, musicas, danças e, talvez o mais difícil, a escolha dos convidados. Quem iria? Quem seria barrado? As festas exigiam certa arte política e muitas costuras entre as várias identidades. Quem entrava e quem ficava de fora…

Minha formação, e provavelmente, a de todos nós passou pelas festas. Nos tornamos cariocas, baianos, gaúchos, brasileiros,  sambistas, pagodeiros  ou jongueiros ali, vivendo os aniversários, casamentos, carnavais, viradas de ano, festas juninas, festas de santo …tantas festas. Dizia minha saudosa amiga Ana Lugão que, brincando o carnaval, cumpríamos nosso dever cívico de tornar nossas filhas brasileiras e cariocas.

Quando cresci, algo aconteceu e minhas memórias das festas começaram a não combinar com o que eu lia. Aprendi na faculdade de História, lendo importantes teóricos, que as festas eram válvulas de escape da realidade, ou lugares para a celebração de tradições conservadoras, em geral católicas. A religião também alienava.

Ainda bem que os tempos mudaram, junto com a historiografia e com os movimentos políticos (será vice-versa?).  Os movimentos pela redemocratização, a partir do final dos anos 1970,  iriam reconciliar minhas memórias infantis com as novas vivências das festas. A esquerda começou a levar mais a sério as festas, incorporando a alegria e a musica em seus comícios. Não foi mesmo por acaso que escrevi o Império do Divino, festas e cultura popular no Rio de Janeiro, no século XIX, nos primeiros anos da década de 1990. Muita coisa tinha mudado.  As festas não eram mais lugar para esquecer e fugir, mas para lembrar, lembrar de pessoas, de histórias  e de conquistas; lugar de renovar os encontros e as esperanças.  Tornei-me historiadora das festas.

Foi com enorme emoção que, pela primeira vez, assisti as festas  do 13 de maio do quilombo de São José da Serra, em 2003 ou 2004, a partir de convite de Hebe Mattos.  Ali estavam, e sempre estiveram, todas as possibilidades culturais, políticas e sociais das festas. O jongo marcava a identidade negra e as memórias de um cativeiro, que  não podia ser esquecido; a fogueira unia todos, velhos e jovens,  com os antepassados; os pretos velhos, abençoavam  os participantes  e renovavam as energias; as festas teciam solidariedades internas e externas na luta por um futuro melhor, a partir da identidade quilombola,  do direito à terra e das ações de reparação.  A feijoada trazia alegria ao corpo e à alma. Ali, passado, presente e futuro se encontravam.

Em 2005, o IPHAN considerou  o jongo  Patrimônio Cultural do Brasil a partir de uma demanda de São Jose da Serra e do Jongo da Serrinha, com o apoio de todos os grupos jongueiros do velho sudeste escravista.  Cultura e  Festa tornavam-se oficialmente patrimônio e direito,  bandeira de luta política para muitas conquistas.

Em pouco tempo, muitas outras festas trilharam esse caminho,  que já tinha sido aberto com samba de roda baiano. Tornaram-se Patrimônio Cultural Brasileiro maracatus,  cocos,  bois,  matrizes do samba carioca etc.

Em tempos tão difíceis que se avistam agora, só posso  esperar  vida longa para as festas!!!  Festas que mantenham as esperanças; festas que celebrem memórias de conquistas e direitos! Festas que, como as festas do 13 de maio de São José,  não podem ser esquecidas.

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O meu lugar: Feliz Dia das Mães!

“Parabéns por sua trajetória brilhante!” Foi ao som destas palavras que meu domingo de Dia das Mães iniciou-se. A fala de tia Lena guarda relação com meu passado-presente. A despeito das significativas conquistas das populações negras nos últimos anos, continuamos sendo exceção nos lugares de reconhecimento e prestígio. Isso gera a nossa convivência forçada com a ambígua imagem do “brilhantismo”. Se por um lado ser “brilhante” aponta para transgressões à realidade de pobreza e marginalização das famílias negras, quem reluz vê-se diariamente confrontada com o violento lugar da excepcionalidade.

Dependendo das lentes com as quais escolhemos encarar, os raios refletem a regra a qual, duramente, nos constituímos como exceção. O regramento da violência, da pobreza, da criminalização e da patologização da população negra no Brasil, que ainda é gritante como demonstram o Movimento das Mães de Maio (SP), protagonizado por mulheres como Debora Silva Maria, que ao lado de suas companheiras “escreve de dentro da guerra” e o  Movimento Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta, organizado por representantes de comunidades e movimentos sociais negros da capital e do interior da Bahia e que manifestam seu “compromisso com a vida” lutando contra o genocídio da população negra.

Mães de Maio

Foto: Carta das Mães de Maio da Democracia Brasileira a Presidente Dilma Vana Roussef (à esq. a Presidenta Dilma Rousseff, à dir. Debora Silva Maria)

Reaja ou será morta

Foto: Quilombo-Xis Ação Cultural Comunitária da Campanha Reaja ou Será Morta! Reaja ou Será Morto! 

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Como acadêmica negra, aprendo diariamente com meus estudantes, que é às custas do racismo institucional com suas violências naturalizadas (muitas das quais acompanhamos de perto com amigos e familiares), que nossas próprias trajetórias meritocráticas ganham forma. Articulando as datas comemorativas e apostando que as celebrações, para nós historiadoras, devem ser apropriadas como momentos para problematizações das desigualdades sociais, acho oportuno relacionar o Dia das Mães aos passados-presentes da escravidão e da liberdade e que constituem a história do Brasil.

Mãe preta

O Dia das Mães foi uma data que sempre me incomodou. Quando era criança, as festas na escola aconteciam sem a presença de minha mãe. Cresci ouvindo que ela não podia ir porque estava trabalhando. Penso que reside aí num desses becos de minha memória, uma das explicações do porquê ter me tornado uma historiadora das relações de gênero. Uma filha que em determinado momento da vida aprendeu a pensar que menos do que “não poder ir”, o dia e o horário das festas eram pensados para que minha mãe e outras trabalhadoras não estivessem lá, celebrando suas crias. Esse violento aprendizado da separação entre estudo e trabalho relaciona-se com desigualdades estruturadas de tal forma que nos fazem naturalizar – desde cedo – que existe o direito de estudar e o dever de trabalhar. Ainda hoje milhões de crianças são educadas assim. Ou seja, a partir da ideia de que devido ao fato de sermos negras e pobres, estudar significa aprender a ler, escrever e fazer contas. É por causa dos ecos desta visão racista relacionada ao passado da escravidão, à precariedade do trabalho no pós-abolição e ao ódio de classes (crescente nos últimos tempos) que na universidade ouvimos recorrentemente nossos estudantes de origem popular afirmarem “este lugar não é para mim”.

Em sociedades pós-escravistas, a ideia de que cada pessoa tem seu lugar permanece recriada de diversas formas. Basta observarmos os números do trabalho doméstico, de jovens negros assassinados por agentes do Estado e das 200.000 crianças e adultos (especialmente mulheres) que vivem em situação de escravidão. A convicção de que há lugares – de classe, raça, gênero, sexualidade – prontos e imexíveis, compartilhada descaradamente em debates parlamentares como o da redução da maioridade penal, do Escola sem Partido, da criminalização do aborto, dos estudos de gênero e do ensino de história da África e cultura afro-brasileira, para ficarmos apenas com alguns exemplos, fazem parte deste legado. Um legado que por seu turno confere sentido histórico à admissão do processo de impeachment contra a Presidenta Dilma Roussef (processo este até o presente momento anulado pelo presidente interino da Câmara, o deputado Waldir Maranhão).

A despeito das críticas ao governo, que não nos faltam, o que ocorre é que há um ódio generalizado frente às conquistas das classes pobres, que pela primeira vez em nossa história, ocupam (não sem barreiras e contradições) lugares antes exclusivos das classes altas. Se nos meus tempos senti saudade de muitas coleguinhas que foram embora da escola para trabalhar como empregadas domésticas, essa prática hoje, embora ainda aconteça, também diminuiu bastante graças a programas sociais como o Bolsa Família.

Tal política tem garantido o acesso a direitos essenciais como alimentação, educação e saúde. Infelizmente e não por acaso, pessoas (ditas) “de bem” não consideram em seus discursos de ódio contra pobres, negros, nordestinos, que a bolsa do governo, dividida em várias modalidades, que variam de R$35 e R$336 por mês (a depender da renda e do tamanho da família), contribui para combater a extrema pobreza no país. Isso relaciona-se com discussões sobre mulheres, maternidade e direitos. Relaciona-se com o compromisso de manter as crianças, onde eu creio que elas devem estar, na escola. Que bom que vivemos (ainda) em uma sociedade democrática, na qual temos os direitos de discutir a organização dos direitos e de escrever a história a partir de diferentes pontos de vista.

E por falar em combate à história única, o documentário Severinasde Eliza Capai, destaca-se como uma poderosa leitura ligada aos sentidos empoderadores que a maternidade pode assumir. Através da produção, conhecemos trajetórias de mulheres como Elenilde Ribeiro, Luzia Alves Rocha e Norma Alves Duarte, sertanejas de Guaribas, no Piauí. Por meio do Bolsa Família, elas e suas famílias experimentam o direito à maternidade e à família libertando-se (processualmente) da miséria, da fome e do domínio masculino. Cada história é uma, mas as trajetórias também discutidas na pesquisa de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, convidam-nos a pensar em maternidades, regiões e experiências compartilhadas na diversidade uma vez que mais de 90% dos cartões BF estão em nome de mulheres-mães. Para quem se preocupa com o “bem de todos e a felicidade geral da nação”, vale olhar as recentes pesquisas que apontam que mais de 96% de estudantes de famílias beneficiadas pelo referido Programa Federal permanecem na escola.

Elenilde Ribeiro - 39 anos

Foto: Elenilde Ribeiro, 39 anos, beneficiária do Bolsa Família em Guaibas (Piauí).

Para muitas pessoas da tradicional família brasileira, que durante toda a vida estudaram e tornaram-se naturalmente “intelectuais”, tais dados podem ser considerados irrelevantes, vitimistas ou, no senso comum mais estapafúrdio, um estímulo à pobreza e à natalidade “descontrolada”. Por meu turno, acredito que a narrativa de indignação das elites contra o Bolsa Família liga-se também a disputas desiguais em torno dos sentidos e direitos circunscritos a ser mãe no Brasil. A libertação da miséria proporcionada pelo BF faz-nos pensar que conquistar tem a ver com lutas diárias – individuais e coletivas – de organizações, famílias e sujeitos comprometidos com transformações que somente um governo democrático, que dialoga com os movimentos sociais pode assegurar.

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Ao comentar sobre transformações, precisamos também falar mais da necessidade de seguirmos lutando pelo respeito às diferentes concepções e formas de construir e experimentar a “família”. É necessário que façamos isso a partir de pontos de vista nos quais gêneros e sexualidades plurais e dissidentes sejam reconhecidos e respeitados.

A assinatura, em 28/04/2016, pela Presidenta Dilma do decreto que reconhece o direito ao uso do nome social e da identidade de gênero por pessoas trans em órgãos públicos federais, assim como o reconhecimento da família homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal, em 2013, fazem parte deste movimento democrático. Mas nem tudo são flores… Não dá para esquecer que vivemos num dos países que mais mata mulheres e homens que transgridem identidades de gêneros e sexualidades normativas. Ontem, ao entrar em um táxi lembrei das pessoas dissidentes com quem convivo e diariamente aprendo. Mulheres e homens trans que têm o direito à maternidade negado. Mulheres lésbicas que pagam altos preços ao desafiarem as associações entre maternidade e heterossexualidade. Pensando nos sentidos em disputa, vale ressaltar o movimento crescente em escolas, que substituem o Dia das Mães (e dos Pais) pelo Dia da Família. Trata-se de mobilização importante, no entanto, há ainda muito o que ser feito para que a maternidade não seja resumida a um acontecimento biológico e para que a representatividade homoparental não seja pensada como uma ficção, ilustrada por personagens que aparecem de tempos em tempos em telenovelas.

Frente a tantas urgências, como não se chocar com a propaganda de rádio do Democratas, veiculada no último dia 07 de maio? Uma doutrinação para que as pessoas de bem lutem contra a “ideia que o gênero se constrói durante a vida e não quando os bebês nascem”. Afinal, segundo a locutora, o DEM defende a certeza de que “a família é um projeto de Deus”. Em um país que lidera as estatísticas de crimes de transfobia, continuaremos lutando para que falas como essa sejam punidas e contestadas nas escolas e universidades. Manteremos nosso trabalho intelectual a serviço da diversidade de famílias e deuses que nos constituem como sujeitos. Como defendeu Mônica Lima, estaremos juntas “Pela desobediência” às histórias únicas. Um desobedecer praticado de forma instigante pelo movimento de ocupação das escolas estaduais do Rio de Janeiro, protagonizado por jovens negros e pobres, estudantes do Ensino Médio, que têm construído em seus próprios termos a escola em que acreditam.

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Foto: Cartaz confeccionado pelxs estudantes do Colégio Estadual Visconde de Cairu no bairro do Méier. #ocupacairu, abr. 2016

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Neste mês de maio, como mãe, desejo um Feliz Dia das Mães especial para as 13,9 milhões de beneficiárias do Bolsa Família. Mulheres brasileiras responsáveis por cuidar de meninas como Mirele Alves da Rocha Lima. Uma jovem, que do auge de sua sabedoria de 18 anos, nos ensina, no mês de aniversário da abolição da escravatura, sobre as lutas pela liberdade :

“Eu vejo a realidade da minha mãe e não quero seguir pelo mesmo caminho. Eu quero estudar para ter um futuro, para ser independente, para não ficar dependendo de um homem”.

Bolsa-Família - mão de mulher

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O Oscar das ausências

Agora de noite, quando este post for ao ar, mais uma cerimônia do Oscar vai estar começando. Só que este ano resolvi não ligar a tevê e me juntar ao Spike Lee no protesto contra a brancura dos indicados (mas vou ficar torcendo para “O menino e o mundo”, do diretor Alê Abreu e trilha sonora de Emicida). Como entender a política das escolhas? E das premiações?

Há dois anos, estávamos comemorando a eleição de Doze Anos de Escravidão como o melhor filme e a estatueta recebida por Lupita Nyong’o como melhor atriz coadjuvante. Ano passado, Selma foi meio que menção honrosa. E agora, nada.

Obama tem razão: as indicações ao Oscar são parte de uma questão muito mais ampla, nada fácil de responder. Se nem a Cheryl Boone Isaacs, que é presidente da Academy of Awards e se disse desapontadíssima com os indicados, consegue encontrar uma explicação convincente para a falta de diversidade da disputa, imagina eu.

O produtor e jornalista americano Aurin Squire tem um argumento forte: em artigo publicado na New Republic em fevereiro de 2015,  a temática das relações raciais só é premiada no Oscar quando a história apresenta um importante e geralmente benevolente personagem branco. Foi assim com Histórias Cruzadas (2011), por exemplo. A Cor Purpura (1985) e Um Grito de Liberdade (1987) não ganharam nada. Nem Selma (2014). Isso sem falar em Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) do Spike Lee, um clássico instantâneo sobre as relações raciais na Nova Iorque dos anos 80, que perdeu para a comédia romântica Conduzindo Miss Daisy, uma história de amor entre uma excêntrica senhora judia branca e seu motorista negro. A Academia levou 25 anos para fazer a coisa certa e premiar o diretor pelo conjunto de sua obra. Nem Doze Anos de Escravidão (2013) escapou: seu herói branco é o abolicionista canadense Samuel Bass, ninguém menos que Brad Pitt.

Estou com Squire e arrisco uma pequena hipótese. Entre premiar um filme sobre escravidão como Doze Anos… e escolher atrizes, atores ou diretores negros, a primeira opção é a mais fácil. Afinal, a escravidão passou, e não há quem hoje em dia a defenda. Quanto mais violenta a cena, mais ela nos causa aversão, e em matéria de retratar violência Doze Anos foi imbatível. Já encarar a presença viva do racismo hoje e a desigualdade das indicações ao Oscar — e, de resto, toda a questão mais ampla lembrada por Obama — é bem mais complicado. Nada como um filme sobre o passado para redimir o presente.

* * *

Outra ausência do Oscar deste ano é a indicação do brasileiro Que horas ela volta? para o Oscar de melhor filme estrangeiro . Na época da escolha do filme como representante do Brasil, muita gente boa, como Stephanie Ribeiro e minha amiga de conversa Giovana Xavier, reclamou da cor da personagem da Jéssica, interpretada por Camila Márdila, filha da Val (Regina Casé), da ausência de personagens negros no filme e de qualquer discussão sobre o preconceito racial na relação entre patroas e empregadas domesticas. Concordo com muitos dos pontos por elas destacados. Na época, minha leitura foi um pouco diferente. O texto abaixo, publicado na Revista Ciência Hoje 331, circulou pouco, por isso o reproduzo aqui. Ele vai um pouquinho modificado, fruto da conversa entre as historiadoras deste blog. A versão original pode ser acessada aqui.

Ela não volta mais

A certa altura do filme Que horas ela volta?, Val (Regina Casé), a empregada que mora no serviço em São Paulo, ralha com sua filha Jéssica (Camila Márdila), recém-chegada do Nordeste, ao vê-la aceitar  o sorvete que seria do filho dos patrões, e diz mais ou menos assim: “Eles só oferecem alguma coisa que é deles porque sabem que a gente não aceita”. Em outra cena, como se estivesse continuando a anterior,  é Jéssica quem ralha com a mãe, afrontando: “Quem é que te ensinou essas regras? Elas estão escritas em algum livro?”. Ao que Val responde, com raiva: “Ninguém precisa ensinar; a gente já nasce sabendo as regras”.

Há muito o que dizer do filme de Anna Muylaert, que acaba de ser designado como o candidato do Brasil ao Oscar de 2016. Das mães que saem para trabalhar e daquelas que ficam em casa, criando os filhos dos outros, deixando seus próprios para trás. Do espanto meio incrédulo da patroa ao ouvir da filha da empregada que ela faria vestibular para a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (“Tá vendo, o país tá mudando mesmo”) ao desconforto igualmente incrédulo de Jéssica ao receber uma estapafúrdia proposta de casamento do patrão de sua mãe.

Tem razão a diretora quando argumenta tratar-se de um filme sobre afetos. É mesmo. A casa é o espaço do conforto e do afeto, e não seria diferente na casa de classe média alta do Morumbi, onde se passa a história. Só não creio que seja um afeto “de  aluguel”, como ela o denomina. O afeto de Val por Fabinho, de quem continua sendo babá, é real. O afeto dos patrões por Val também o é, e vice-versa. É esse afeto que, mesmo permeado pela hierarquia e pela desigualdade, permite a convivência entre eles por tantos anos. E é esse mesmo afeto que, no filme, é reinventado por mãe e filha. Pena que Fabinho e sua mãe escolham o caminho contrário. Se, ao fim da história, Val e Jéssica se reencontram em uma nova casa, Fabinho, ao ser reprovado no vestibular, ganha dos pais uma temporada na Austrália, bem longe. “Que lonjura”; Val é a única que reclama.

Mas é de afeto e muito mais que trata o filme. Na impossibilidade de explorar tudo, fico com as regras silenciosas, que compartilhamos todos os dias na intimidade de nossos lares. Se houvesse apenas um resquício da escravidão no Brasil de hoje – infelizmente, há muitos – ele estaria ali, na cozinha, no banheiro, no quartinho de empregada. O espaço doméstico recria a tragédia de 500 anos de história brasileira: a violência, o paternalismo, a hierarquia, o racismo, a dependência. A subserviência e a arrogância disfarçada de generosidade.

Com tudo isso, é um alento assistir à atitude descarada de Jéssica abertamente desrespeitando as regras que ela finge desconhecer. Mas bom mesmo é acompanhar a lenta transformação de Val, tão bem representada pelas bandejas com as quais lida. No aniversário da patroa, Val lhe dá de presente uma bandeja com xícaras e pires brancos e pretos, para serem usados misturados  – modernos.  A patroa rejeita tanta modernidade e prefere ficar com a bandeja quatrocentona de sua avó. Pouco tempo depois, limpando com força, Val sem querer quebra a bandeja da família. Lá se foi a tradição, e não teve cola que desse jeito de consertar. Sobrou a bandeja moderna, barata, onde preto e branco se misturam, que Val, com toda a propriedade, tomou para si.

Entre a tradição e a modernidade, nem é de se espantar que o filme tenha o final que tem. Ao deixar para trás a bandeja de prata que usava para servir café nas festas dos bacanas e ficar com a de plástico para ela, é Val quem opera a mudança fundamental do filme. Se era ela quem mandava dinheiro todo mês para permitir que Jéssica estudasse, é ela quem possibilita a libertação real da filha, e a impede de repetir a sua própria história. Ao deixar o emprego, Val libera Jéssica para criar o próprio filho. E também para estudar. E até para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

No filme, Jéssica será a única mulher que terá esta chance. Mas, para isso, Val, a empregada à moda antiga, não volta mais. Disso, todas as empregadas domésticas já sabem, mesmo as que ainda trabalham à moda antiga. O serviço doméstico não está em extinção, mas a empregada que mora na casa dos patrões está. Resta saber se as classes média e alta já entenderam isso.

Que horas ela volta? é um filme otimista sobre as transformações recentes da sociedade brasileira. Mas estará o país mudando mesmo? Para as jéssicas que hoje nem precisam sair de suas cidades para ingressar nas universidades, certamente. Para suas mães, que viajam de avião e têm celular, também. Mas as revoluções no espaço doméstico, quando ocorrem, são lentas. Basta lembrar que o mesmo público que aplaude a Regina Casé vocifera contra a PEC das domésticas, proposta de emenda constitucional que confere novos direitos às empregadas domésticas no Brasil. São os mesmos que designam banheiros diferenciados para babás em clubes de luxo da Zona Sul do Rio de Janeiro e que não abrem mão de uma boa folguista nos finais de semana. E que, certamente, consideram suas empregadas domésticas quase como se fossem da família. Afinal, são elas que cuidam dos seus filhos [clique aqui para ler um ótimo texto sobre o trabalho domestico e a racialização do cuidado].

Pena que uma coisa que emenda constitucional nenhuma pode fazer sozinha é mudar uma sociedade onde a hierarquia é tamanha que impede patrões e empregados domésticos de sentarem-se juntos à mesa para partilhar um mísero sorvete. O filme Doméstica, de Gabriel Mascaro, registra bem os limites dos afetos dessa relação. De novo, o problema é menos o trabalho doméstico em si – que existe em tantos países do mundo –, e mais o fosso social que ele representa. Para transpô-lo, filmes emotivos como o Que horas ela volta? ajudam, e muito.

Para a classe média ainda quase toda branca que reclama de suas empregadas e vai ao cinema, é uma oportunidade rara de exercitar a identificação com aquelas de quem acham que são diferentes. Menos cordialidade e mais empatia, talvez seja disso que precisemos para deixar a sociedade das patroas e de suas empregadas para trás.

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Manifesto em Defesa das Cotas Raciais na Pós-Graduação

Texto aprovado na Assembléia Geral do XXVIII Simpósio Nacional de História da Anpuh, em Florianópolis.

Em abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais, confirmando a legitimidade das políticas de ação afirmativa para acesso de estudantes negros/as nos cursos de graduação, implementadas em universidades públicas desde o início dos anos 2000.

Tal decisão reforçou o entendimento sobre a centralidade do racismo na conformação das desigualdades presentes na sociedade brasileira e fortaleceu o debate sobre a necessidade de políticas públicas de promoção da igualdade e combate à discriminação racial no país.

Esse cenário serviu, consequentemente, como estímulo para que programas de pós-graduação, institutos/departamentos e instituições de ensino superior assumissem o desafio de aprofundar o debate e a ação.

Não por acaso, já em 2013, começamos a assistir ao fortalecimento de projetos voltados à implementação de cotas raciais para negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de Mestrado e Doutorado em diferentes localidades brasileiras.

Afora experiências anteriores de natureza diversa em instituições como UNEB, UFPE, UEFS, UFAM e UFPA, tivemos recentemente os seguintes avanços:

  • Rio de Janeiro, fevereiro de 2013 – reserva de 20% das vagas da pós-graduação para negros/as no Programa de Antropologia Social do Museu Nacional / UFRJ;
  • Brasília, julho de 2013 – reserva de 20% das vagas da pós-graduação do Departamento de Sociologia da UnB.
  • Rio de Janeiro, novembro de 2014 – Lei Estadual n. 6.914/14 estabelece que 12% das vagas de pós-graduação das universidades públicas do estado sejam destinadas a negros/as e indígenas.
  • Campinas-SP, março de 2015 – IFCH / UNICAMP aprova cotas para negros/as, indígenas e pessoas com deficiência na pós-graduação.
  • São Paulo-SP, abril de 2015 – FFLCH / USP reserva de 20% das vagas da pós-graduação;
  • Goiás, abril de 2015 – UFG, cotas na pós-gradução strictu sensu para inclusão e permanência da população negra e indígena no corpo discente.
  • Rio de Janeiro, junho de 2015 – PPGHC / UFRJ estabelece cotas para negros no Mestrado e no Doutorado.

Segundo dados da PNAD 2013, dos 387,4 mil pós-graduandos/as brasileiros/as, os/s negros/as somam apenas 28,9%, ou 112 mil em números absolutos.

Atentos/as às questões centrais da atualidade nacional e nos posicionando como sujeitos comprometidos com o enfrentamento do racismo e a promoção da democracia no Brasil, nós, historiadores/as presentes no XXVIII Simpósio Nacional de História da Anpuh, realizado em Florianópolis-SC, entre 27 e 31 de julho de 2015:

  • Manifestamos o nosso apoio às iniciativas em curso voltadas ao acesso de estudantes negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação;
  • Defendemos que essas e outras medidas de ações afirmativas de combate às desigualdades raciais sejam implementadas em outras instituições de ensino, com ênfase para cotas para negros, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação em História;
  • Ressaltamos a urgência de que as políticas de acesso sejam acompanhadas de ações voltadas à garantia da permanência de estudantes negros/as, indígenas e quilombolas nos cursos de pós-graduação, especialmente que sejam asseguradas as quantidades necessárias de bolsas de estudo/pesquisa;
  • Defendemos a ampliação do debate sobre a implementação de cotas raciais para o preenchimento das vagas de concursos para a composição do corpo docente das universidades públicas e institutos federais de ensino.

Florianópolis-SC, 30 de julho de 2015

O encerramento da assembleia geral da Anpuh 2015, em Florinópolis, foi muito promissor. Apesar dos inúmeros desafios no campo do Ensino de História, como as ameaças de reforma nos conteúdos do Ensino Médio, as propostas do grupo Escola sem Partido, que atacam a liberdade de ensino do professor, e o avanço de manifestações de intolerância e discriminação nas escolas, a nova gestão, liderada por Maria Helena Capelato, comprometeu-se com uma atuação firme, no campo político e jurídico, frente a essas preocupantes pressões.

Para começar, depois de oportuna intervenção do Prof. Paulo Knauss, definiu-se que o próximo Simpósio terá como tema “Contra os Preconceitos: História e Democracia”. O objetivo é colocarmos no centro das atenções dos historiadores os movimentos de discriminação e preconceito que têm marcado a história recente no Brasil e no mundo. Em seguida, no momento das moções encaminhadas pela Anpuh, um grupo de historiadores, de todas as cores, conseguiu aprovar o forte e belíssimo manifesto de apoio às cotas raciais nos cursos de Pós-Graduação (vagas discentes e docentes), com o qual abrimos o blog. Nossa alegria foi muito grande!

Saímos também da Anpuh animadas com os rumos do GT Emancipações e Pós-Abolição. Os 3 Simpósios  organizados estiveram sempre cheios e a reunião geral foi muito produtiva. Combinamos centrar as energias numa rede de comunicações que funcione efetivamente e na organização de um novo seminário no Rio de Janeiro, em 2016. Os novos coordenadores gerais são Giovana Xavier, Beatriz Loner, Lourival dos Santos e Edinelia Maria Oliveira Souza. Seções regionais Norte: Julio Claudio Silva; Nordeste: Maria Emília Vasconcelos e Valéria Costa; Sudeste: Lucimar Felisberto (UFRJ) e Juliano Sobriño (Uninove); Sul: Rodrigo Weimer; Comissão de comunicação: Eric Brasil (UFF), Leticia Canelas (Unicamp). Comissão do evento 2016: Ana Flavia Pinto (Unicamp), Fernanda Souza (UFRGS), Flavio Gomes (UFRJ).

//EM TEMPO//  O PPG História Comparada, da UFRJ, aprovou recentemente a política de cotas raciais para ingresso no programa!

anpuh 2016Floripa 2015, uma ANPUH que vai ficar na história!

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Racismo à brasileira e os Black Faces do Século XXI

Na semana do 13 de maio também acompanhamos um importante debate sobre o uso de máscaras “blackface” na peça A Mulher do Trem, que seria encenada no Instituto Itaú Cultural, São Paulo. Por pressões dos movimentos negros, a apresentação foi substituída por uma mesa de discussão Arte e Sociedade: a Representação do Negro, na noite do dia 12.  No debate, o diretor da companhia que encenava a peça, Fernando Neves, pediu desculpas por usar uma técnica que remete ao blackface, pois pinta de preto o rosto de um ator que interpreta um personagem negro. Neves teria sido muito aplaudido pela plateia, que lotava teatro do Itaú Cultural em sua declaração, “A peça não tem nada a ver com blackface. O circo não foi feito para ridicularizar, mas para divertir”

A discussão, que contou com importantes representantes da classe teatral paulista e de lideranças dos movimentos negros, transformou-se numa discussão mais ampla sobre o racismo no Brasil e as formas de representação do negro no teatro brasileiro.

Se o recurso utilizado podia ser considerado blackface, ou não, tornou-se o centro da polêmica,  que se estendeu pelas redes sociais e  mereceu longa discussão. Para os defensores, a máscara vinha da arte circence e era utilizada para criar tipos e parábolas em personagens negros ou brancos, mocinhas, vilões e galãs. Aliás, muitos defenderam que a função dos teatros e dos palcos é exatamente permitir, através do riso, uma ampla discussão da sociedade. A retirada do palco e a mudança de encenação de A Mulher do Trem, nessa perspectiva, parecia mais perto da censura contra a liberdade de expressão no teatro. Será?

Os blackfaces foram formas teatrais de pintura facial e corporal, usadas em geral por artistas brancos, para representar pessoas negras, ao longo do século XIX e início do XX. Nessas representações exageravam-se e ridicularizam-se os estereótipos da população negra através de personagens alegres, infantis e risonhos, como Jim Crow, Sambo e Dandie, em espetáculos muito populares nos Estados Unidos, conhecidos como ‘minstrel shows’. Se no Brasil esses espetáculos não eram tão recorrentes, algumas pesquisas têm demonstrado que sua presença não era nada incomum. A presença de artistas negros nos palcos brasileiros sempre foi muito pequena e uma barreira difícil de ultrapassar. Para isso, vale lembrar os esforços de João Cândido Ferreira, mais conhecido como Chocolat, para a fundação de uma companhia negra de revistas nos anos 1920, e o de Abdias do Nascimento para o funcionamento do TEN (Teatro Experimental do Negro), na década de 1950.

Uma das mais profundas críticas da encenação de A Mulher do Trem com seus tipos blackface foi de Ana Maria Gonçalves, autora do premiado livro Defeito de Cor. Assinamos em baixo de seus argumentos. Ana Maria chega no âmago da polêmica quando demonstra a origem racista desses espetáculos circences: enquanto artistas brancos são representados por tipos (a ingênua, o galã, a megera), o negro é o único que representa a si mesmo! “Ou seja, exagera-se e ri-se do galã, da ingênua, da megera, e…. do Negro?”.   Vale a pena a leitura da íntegra do texto.

Não imaginar que os circos e os teatros podem ser locais de expressão do racismo é não conhecer a história do teatro no Brasil e dos blackfaces nos EUA. Blackface no Brasil em 2015 é de dar arrepio na alma.

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