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12 Anos de Escravidão _ um debate entre historiadores

Semana agitada, post atrasado. Hebe retornou terça passada (3/6) ao Rio, enquanto Martha prepara o fim do semestre letivo na UFF, que deve acabar antes do início da Copa do Mundo. Mas a conversa da semana já estava marcada pelos alunos de história da UFF, um debate na quarta (4/6), no auditório do ICHF, com mais três colegas do Departamento de História, pesquisadores da história social da escravidão no Brasil ou nas Américas,  após uma exibição do premiado filme 12 anos de Escravidão, de Steve McQueen. A discussão foi quente.

O debate começou com a fala de Larissa Viana, professora da área de História da América, especializada na história da escravidão e do abolicionismo nos Estados Unidos. Em dez minutos esclarecedores, Larissa traçou o contexto do livro que deu origem ao filme, o relato de Salomon Northup, publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1853, no contexto de relatos de ex-escravos levados a público com o apoio do movimento abolicionista, e que se tornaram grandes sucessos, formatando um gênero literário. O quanto expectativas do movimento abolicionista do Norte e seu público interferiram no texto e na narrativa original de Salomon Northup é uma das questões clássicas específicas a este tipo de literatura. Porém, enquanto a maioria das narrativas de ex-escravos relatam histórias de cativos que escaparam do sul para a liberdade no Canadá ou no Norte do país, Northup narrava uma história diferente, e bem menos registrada – a da escravização de cidadãos negros livres do Norte, vendidos ilegalmente como escravos no Sul do país.

Em seguida, Verônica Secreto, também professora da área de história da América, abordou livro, filme e historiografia, revisitando as  possibilidades de autonomia dos escravos nas sociedades escravistas e mapeando as licenças narrativas do filme em relação ao livro que lhe deu origem.  Este último assunto  tem sido  recorrente entre os historiadores  que discutiram o filme também nos Estados Unidos. Lá, em geral, o roteiro de John Ridley e a abordagem de Steve McQueen  têm saído  bem no teste. Mesmo as polêmicas são percebidas como positivas. Com a consultoria de Henry Louis Gates Jr, o filme sublinha, por exemplo, a importância do cristianismo para a justificativa da escravidão tanto para o “bom” quanto para o “mal” senhor, o que é correto historicamente e tem ressonância política específica para o espectador do século XXI. Os críticos não deixaram de assinalar, porém, que, ao fazê-lo, o filme opta também por uma abordagem assumidamente estereotipada dos personagens senhoriais. Especialmente o primeiro senhor tem no livro uma narrativa muito mais compreensiva do próprio Solomon.

Talvez a maior polêmica causada pelo filme entre historiadores diga respeito ao papel secundário da comunidade escrava no filme, que, porém, como salientou Veronica, não deixa de estar nele representada – especialmente na reconstituição cenográfica das cabanas, das atividades cotidianas e dos cantos de trabalho, bem como na importância da família para os cativos. O filme teve locação em três plantations da Lousiana, hoje abertas à visitação, uma delas bem próxima ao lugar real onde se deu a experiência de escravização de Northup.

Hebe falou em seguida. Considerou que o maior mérito do filme era antes que a fidelidade histórica ao livro ou às pesquisas sobre à época, o caráter épico da narrativa, que fazia de Solomon Northup um personagem negro universal, com o qual os espectadores se identificavam. Com esse recurso, o filme atualizou uma analogia clássica – a da plantation com o campo de concentração nazista e a da escravidão com o holocausto, evocando a abundante filmografia hollywoodiana sobre o tema. Nas palavras do diretor, Steve McQueen, “o livro nos encantou: a dimensão épica, o detalhamento, a aventura, o horror, a humanidade. Lia-se como um roteiro de cinema, pronto para ser filmado. Eu não podia acreditar que nunca ouvira falar nele. Pareceu-me tão importante quanto O diário de Anne Frank, só que publicado quase cem anos antes.”

Para Hebe, é a escravidão como questão moral, como crime contra a humanidade, em última instância, a questão central do filme. E apesar disso, ou por causa disso, ele toca em questões historiográficas importantes, pouco frequentadas até recentemente, e que estão sendo formuladas ou reformuladas, nos Estados Unidos e também no Brasil. Especialmente, a da extensão da prática da escravização ilegal no século XIX e a da generalização do argumento racial como justificativa para a escravidão – característica que se torna essencial à escravidão atlântica exatamente no período. É quando a instituição aparentemente entrava em crise do ponto de vista moral, com o advento do abolicionismo, que o racismo se tornou seu principal alicerce.

Jonis Freire, professor de História do Brasil, pontuou diversos trechos do filme em que, apesar da ênfase da narrativa na extrema violência da plantation, a agência escrava se fazia presente, de forma bastante semelhante ao que tem sido extensamente documentado pela historiografia sobre a experiência escrava no Brasil. Destacou, por exemplo, as fronteiras fluidas entre trabalhadores escravos e livres na cena em que Solomon negocia com Armsby, trabalhador branco em situação análoga à escravidão (empregado na colheita de algodão junto com os trabalhadores negros escravizados), a entrega de uma carta sua aos amigos de Nova York. Traído por Armsby, Solomon consegue convencer o proprietário da plantation que era Armsby, e não ele, quem estava mentindo, ainda que por um preço alto ao rasgar a carta que tentava escrever.

Solomon, nascido livre e alfabetizado, não compartilha, a princípio, os códigos das comunidades cativas nas quais se vê inserido. Muitas vezes funciona como elo e mediador entre elas e os senhores.  Reduzido à escravidão pelas circunstâncias, entretanto, aproxima-se cada vez mais dos companheiros de infortúnio. Embora rápida, é especialmente emocionante a cena do funeral de um escravo, em que  canta junto com os outros cativos o legendário Roll Jordan Roll.

Martha finalizou as intervenções, quando formulou a principal questão do debate que se seguiu. Como trabalhar o filme em sala de aula do ponto de visto da delicada questão das relações raciais no Brasil? Martha está entre os historiadores que sentiram falta de uma maior ênfase na força da comunidade escrava e no protagonismo negro na narrativa do filme. Como articular o filme com o ensino da história da escravidão, quando a presença desses elementos não é evidente? Tendo em vista a ênfase da narrativa na subserviência e na extrema violência a que os cativos estavam submetidos, qual o efeito do filme sobre a autoestima e a autoimagem de adolescentes e jovens negros? Seria semelhante à (danosa e unilateral) super exposição de imagens de Debret de negros escravizados torturados nos livros didáticos? Mesmo que professores não escolham discutir o filme em sala com adolescentes e jovens,  o filme fatalmente terá chegado a eles, tendo em vista seu enorme sucesso de público, de forma que esta é uma questão importante a ser pensada e encaminhada.

A pergunta gerou múltiplas discussões e dividiu a plateia. As autoras desse blog ficaram em campos opostos, mas complementares. Hebe considerou que o filme foi produzido por um cineasta negro, um roteirista negro, com atores negros – e ganhou os maiores prêmios da indústria do cinema, inclusive o Oscar de melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante e que isto o tornava qualitativamente diferente de uma imagem de Debret, do ponto de vista das relações raciais e da auto-estima de jovens e adolescentes negros brasileiros. Reiterou novamente que Solomon Northup está construído no filme como um personagem universal. O olhar do filme sobre a escravidão não é um olhar estrangeiro, mas um olhar que coloca o espectador, qualquer espectador, na experiência do escravizado.

Para Martha, uma audiência jovem e pouco informada pode muito facilmente projetar, nos personagens do filme, situações de racismo vividas ainda hoje, por alunos negros e brancos. Para ela, a informação sobre a ficha técnica do filme, basicamente negra, do diretor ao atores, não é algo que se possa presumir que todos os estudantes que viram o filme tenham acesso, e que deveria ser ressaltada pelo professor. Também o caráter secundário, no filme, das instituições de solidariedade escrava, especialmente o cristianismo negro, e da rica tradição cultural da comunidade cativa demandam uma ação sensível e delicada do professor em sala de aula, para que estes aspectos possam se tornar visíveis nas entrelinhas da narrativa.   As intervenções dos debatedores sugeriram algumas das possibilidades dessa abordagem.

De todo modo, a própria realização do debate sugere que o sucesso estrondoso de 12 Anos de Escravidão pode ser uma ferramenta eficaz para falar do trauma que efetivamente a escravidão representa na vida brasileira. Trauma que está na base do racismo ainda vigente na nossa sociedade e que começa, finalmente, a ser enfrentado, pelas políticas de reparação e ações afirmativas recentemente implantadas em nosso país.

Aqui, o debate, no youtube! Parabéns e agradecimentos especiais a Nubia Aguilar.

familia northupglobo de ourolupitaroll jordam roll?imagem 12 anos

 

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Uma aula de história pública

Na sequência de visitas com turmas de fim de semestre, Martha esteve, este fim de semana, no Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis. O quilombo tem  uma bela história de lutas e uma incrível tradição oral, que inclui a memória da chegada ilegal de africanos para o trabalho forçado nas fazendas de café do Vale do Paraíba. Pode ser visitado mediante contato com Luciana Adriano. Quem nos acompanha aqui no blog, sabe do golpe que sofreram recentemente.  Sua sede, em construção, ruiu em pleno carnaval, ao mesmo tempo que que sua saga de lutas era lembrada e homenageada pelo belo desfile da Império Serrano. Mas eles estão mais uma vez de pé.

Organizaram uma super chegada para a turma. Todos os cartazes, banners e posters da antiga sede foram para a casa de Marilda de Souza, uma das lideranças locais, onde a turma foi recebida com uma feijoada divina e ficou hospedada. Luciana, Angelica e Fabiane, três lideranças quilombolas, que atuam no campo da educação,  levaram  todos para uma visita à cachoeira, onde contaram a história da luta recente do quilombo, os projetos de educação na escola, o trabalho com jovens jongueiros e sua atuação no pontão da cultura do jongo e do caxambu.

Depois disso, a turma percorreu todo o quilombo, subindo a rua principal em uma visita guiada, em que, sempre que pertinente, os guias paravam para explicar alguma coisa….

Depois do lanche, novamente na casa de Marilda, ela começou a contar histórias mais antigas e muitos “causos” da tradição oral, com as histórias  dos escravizados na região. Quem já assistiu os nossos filmes sobre a memória negra no Sul Fluminense, sabe do poder narrativo dela. Mas, ao vivo, é ainda mais interessante, pois sempre acrescenta novas histórias e envolve seus ouvintes com seu carisma. Destaque para a narrativa sobre a doação da antiga fazenda aos libertos, no testamento do antigo proprietário, José Breves, e a não implementação do direito. Foi uma super-aula de história pública.  Para fechar o dia, o grupo de jongo da comunidade do Bracuí fez uma belíssima apresentação e convidou todos os alunos para a roda.

Conhecemos o quilombo há quase 10 anos. É sempre impressionante e valioso voltar lá para revermos as pessoas que entrevistamos, renovarmos as parcerias e percebermos  o quanto a organização da comunidade cresceu. Hoje, três jovens lideranças concluíram o curso universitário (Luciana, Angélica e Vinícius) e outras mais se preparam  para isso. Em meio a inúmeras dificuldades,  continuam, como seus antepassados, construindo caminhos para legitimar suas terras e para dar visibilidade a sua história no município de Angra dos Reis. A  pesquisa com comunidades quilombolas e jongueiras, há muito descobrimos, nunca termina…

Quem quiser organizar visita semelhante, basta entrar em contato com a Luciana, pelo facebook do Quilombo, ou pelo celular, que disponibilizamos abaixo. Roteiro semelhante pode ser feito em outros quilombos e grupos de jongo do Rio de Janeiro. A partir deste mês de junho, iniciamos no LABHOI/UFF, em associação como o NUMEM, da UNIRIO, coordenado por Keila Grinberg, e apoio do Edital Petrobras Cultural, um projeto de história pública sobre o tema, com o título Passados Presentes: Patrimônio Imaterial e Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos no Rio de Janeiro.

Mas não é preciso esperar o projeto, para tomar iniciativas como a de Martha e sua turma de graduação em história. O Quilombo São José da Serra, em Valença, dispensa maiores apresentações, está no facebook e  já conta com antena de Internet. O Creasf (Centro de Referência do Jongo de Pinheiral), dirigido por três professoras, foi pioneiro em iniciativas de história pública, unindo história e memória da região com narrativa dos próprios jongueiros. O grupo Sementes da Africa, de Barra do Piraí, dirigido Por Eva Lucia, marca presença no filme Jongos, Calangos e Folias, e também agenda visitas. O mesmo vale para a Associação jongueira de Cachoeira de Arrozal. Isso para ficarmos apenas nos grupos documentados na Caixa de DVDs Passados Presentes, que pode servir de referência para o Professor organizar a visita.

Segue abaixo os contatos dos grupos, a maioria disponível no guia do vale do café.

Quilombo do Bracuí, Angra dos Reis

24-999021264

Quilombo São José, Valença

24-24571130; 24-24571358

Grupo de Jongo Sementes da Africa, Barra do Piraí

24-24431397; 24-92532591

Creasf _ Centro de Referência do Jongo de Pinheiral

creasfjongopineiral@ig.com.br

24-33563559; 24-92217212

Associação jongueira de Cachoeira de Arrozal

24-33331367; 24-92342743

legendas da fotos: Conversa com Marilda; Conversa com Luciana, Angélica e Fabiana; Chegada do Bracuí.

Fotos de Laura Mineiro e Núbia Aguilar.

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Memória e Cidadania no Complexo do Valongo

Levar uma turma de alunos de graduação para visitar locais de memória do trafico atlântico e da escravidão é sempre uma ótima oportunidade para discutirmos como a história está sendo contada em lugares públicos e memoriais. A abertura da visitação do cais do Valongo, há dois anos, faz parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana,  organizado pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, para também dinamizar em termos culturais o projeto de reforma urbana da área portuária.

Sem entrarmos nas  discussões e polêmicas sobre a  reforma do Porto, vale destacar a importância da iniciativa e a divulgação do circuito, em grande parte resultado da renovada presença das demandas dos movimentos sociais, e do movimento negro em especial, na cena pública brasileira. Organizado pela Prefeitura, ele percorre um conjunto de locais marcantes para a memória da cultura afro-brasileira e inclui o Cais do Valongo, os Jardins do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito e o Instituto Pretos Novos.

Os verbetes sobre o complexo do Valongo, no Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil, organizado pelo LABHOI-UFF, permitem uma primeira aproximação com a importância do percurso.  É possível percorrê-lo com apoio de guias, ou mesmo individualmente. Há placas indicadoras e explicativas em cada um dos locais de memória.  Destacamos, especialmente, as visitas guiadas organizadas pelo Cemitério dos Pretos Novos (25167089), sob coordenação do historiador Claudio Honorato.

O Cais do Valongo foi o principal porto de entrada de escravizados africanos, em um Rio de Janeiro que era a maior cidade escravista do Atlântico, na primeira metade do século XIX. É, portanto, extremamente significativa a iniciativa de recuperação e reconstrução da Herança Africana no seu entorno, ainda mais diante do silêncio que sobre ele recaiu desde que foi encoberto, ainda no século XIX, para dar lugar ao Cais da Imperatriz e às reformas de Pereira Passos.  Voltaremos a ele neste blog ao longo das próximas semanas.

Mas, após uma visita de Martha com uma turma de alunos ao circuito, o que primeiro chamou nossa atenção foi o que ainda está pouco valorizado e esquecido. Há ainda muito mais para ser lembrado, visitado e divulgado.  Por exemplo, em contraste com a centralidade do cais do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos está mantido, em grande parte, pelos esforços dos proprietários da casa da Rua Pedro Ernesto, 36, Gamboa, Merced e Petroccio. Na Pedra do Sal, já há uma rápida referência ao local de nascimento do samba e, desde dia 23 de maio, uma placa reconhecendo o Quilombo da Pedra do Sal como patrimônio cultural carioca, mas haveria muito mais histórias para contar.  Nos Jardins do Valongo, muito bem restaurados, não há qualquer referência à memória negra, apenas às obras do então Prefeito Pereira Passos, em 1906.

Há muitas outras marcas sobre a vivência de africanos escravizados e seus descendentes na região. Circuitos criativos, como os que Claudio Honorato tem feito, em torno do complexo do Valongo, podem recriar a memória de vivências da velha “Pequena África”, como a denominou Heitor dos Prazeres em princípios do século XX. Dos Jardins do Valongo, por exemplo, é possível avistar o Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores; a Rua Barão de São Felix, local de muitos cortiços e do mais famoso deles  – O Cabeça de Porco – espaço de encontro de libertos e imigrantes pobres, que deixariam profundas marcas culturais na história da cidade e que foi destruído por Barata Ribeiro, no início da República. Na Barão de São Felix também se localizava o destacado candomblé de João Alabá, frequentado pelas baianas da Praça Onze e por sambistas como João da Baiana.

Na Pedra do Sal, na base do Morro da Conceição e Largo da Prainha ainda era possível encontrar sedes de cordões e ranchos, casas de zungus, rodas de capoeira e associações e sindicatos de trabalhadores do porto, na sua grande maioria formada por afrodescendentes. Sem muito esforço, podemos usar a imaginação para pensar nas andanças de Elói Antero Dias, o Mano Elói, fundador da Império Serrano, nas primeiras décadas do século XX, visitando blocos carnavalescos, participando de candomblés e das politizadas reuniões da “Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café”, depois de um longo dia de trabalho de estivador no porto.

Para o bom conhecedor da região, mesmo que a população negra, aparentemente, já não seja mais majoritária, sabemos que muito desse passado ainda está presente nas casas de cômodo, que teimam em permanecer,  nas sedes de antigos sindicatos de estivadores, que perdem importância, e até mesmo na sede do Afoxé Filhos de Gandhi, que, situado bem ao  lado do restaurado Jardim do Valongo, segue sem telhado e praticamente destruído.

Contar a História desses locais em visitas ou nas nossas salas de aula  parece ser uma das melhores formas para esse passado não ser esquecido…. Ainda voltaremos a essas visitas em outras conversas. Por enquanto, vale destacar como foi emocionante para todos nós, no momento da visita à Pedra do Sal, a leitura do depoimento recolhido por Roberto Moura, na década de 1980, de Carmem Teixeira da Conceição, mais conhecida como Tia Carmem.  Iniciativa inspirada nos roteiros históricos desenvolvidos pelo projeto Santa Afro Catarina, as frases de Tia Carmem bem que mereciam uma bela placa em uma das paredes das antigas construções que cercam a Pedra do Sal:

Tinha na Pedra do Sal, lá na Saúde, ali que era uma casa de baianos e africanos, quando chegavam da África ou da Bahia. Da casa deles se via o navio, aí já tinha o sinal de que vinha chegando gente de lá. (…) Era uma bandeira branca, sinal de Oxalá, avisando que vinha chegando gente. A casa era no morro, era de um africano, ela chamava Tia Dada e ele Tio Ossum, eles davam agasalho, davam tudo até a pessoa se aprumar. (…) Tinha primeira classe, era gente graúda, a baianada veio de qualquer maneira, a gente veio com a nossa roupa de pobre, e cada um juntou sua trouxa: “vamos embora para o Rio porque lá no Rio a gente vai ganhar dinheiro, lá vai ser um lugar muito bom (…)

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foto3.1 (1)Foto 1: Encontro da turma com o grupo liderado pelo historiador Claudio Honorato na Pedra do Sal.

Foto 2: Dos Jardins do Valongo, vista da Barão de São Felix, da Central do Brasil e, no primeiro plano, da Praça dos Estivadores, antigo Largo do Depósito (local de lojas de traficantes de escravos, no inicio do século XIX, e local de encontro dos estivadores, no final do século XIX e início do XX, na União dos Operários Estivadores).

Foto 3: Do Jardim do Valongo, vista do Morro da Providência, chamado de Morro da Favela no início do século XX, e a rua Barão de São Felix, logo em frente.

Fotos Rachel Terto e Luisy Andrade

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Kumbukumbu: África, memória e patrimônio

Significado da palavra kumbukumbu:

“KUMBUKUMBU é uma palavra swahili que significa memória ou recordação. Como a história é considerada o estudo do passado, historiadores recolhem fatos do passado de diferentes fontes. Todas as coleções e documentações dos acontecimentos passados reunidas formam um MUSEU, que basicamente significa KUMBUKUMBU. As exposições dos museus são usadas para mostrar as memórias e as coleções de acontecimentos passados. KUMBUKUMBU evoca a dimensão do passado que nos aponta um caminho para o futuro.”    Gatera Mudahizi Maurice, Tanzânia

Quem está antenado com as novidades na nossa área de interesse já sabe do que se trata o post de hoje, a nova exposição sobre a coleção de África do Museu Nacional, que será inaugurada no próximo dia 14 de maio, às 16 horas. Graças ao trabalho minucioso e apaixonado da historiadora Mariza Soares, Kumbukumbu traz a público um pequeno tesouro que ficou muitos anos escondido. E de quebra uma visão panorâmica sobre as relações entre o Brasil e a África, da chegada da Corte Portuguesa por essas bandas em princípios do século XIX até a primeira metade do século XX.

A exposição está organizada em seis conjuntos  e nove vitrines a partir de uma seleção de temas que emergem dos objetos reunidos na coleção. Segundo a curadora da exposição, “são ao todo 150 objetos trazidos de diferentes partes do continente africano entre 1810 e 1940, acrescidos de objetos que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil, entre 1880 e 1950”.

Os objetos adquiridos no passado e sua releitura hoje, na nova exposição, são registros não só da diversidade de culturas e da história africana, mas nos contam também um pouco da história do Museu Nacional e de seu olhar de pesquisa para o continente e os povos africanos.

Objetos de povos considerados “exóticos”, como instrumentos religiosos e cotidianos dos povos nômades da floresta equatorial, pejorativamente conhecidos como “pigmeus”,  foram compradas pelo Museu Nacional ainda no século XIX.  O grande destaque é uma enorme escultura feita de presa de elefante.

A violência colonial produziu objetos africanos para museus do mundo todo, o Museu Nacional, principal instituição científica do Brasil, não foi exceção. Armas usadas pelos povos do sul da África, foram compradas ou recebidas em doação pelo Museu durante as guerras coloniais no rio Zambeze (1880-1902). Uma bela coleção de objetos dos povos ovibumdu, do planalto central de Angola, com destaque para uma coleção de bastões Tchokwe, foi doada ao Museu por uma missionária brasileira  que ali residiu entre 1935-1938, período que marca a consolidação do poder colonial português no interior do país, com a implantação do estatuto do indigenato.

A coleção registra, ainda, um tempo anterior.  Marcado pela violência do tráfico atlântico de escravos e por relações diplomáticas entre reis escravistas europeus e africanos.

Segundo Mariza Soares: “Em 1810, o rei Adandozan do Daomé enviou uma embaixada ao Brasil com a missão de negociar melhores condições para o comércio de escravos. Na ocasião os embaixadores trouxeram várias cartas e presentes para D. João, então regente de Portugal. Os presentes formam um importante conjunto que nos dá a medida das relações diplomáticas entre os dois reinos escravistas. O conjunto é composto por um trono, uma bandeira de guerra e outros objetos menores.”

Por fim, como não podia deixar de ser, temos objetos relativos às últimas gerações de africanos e seus descendentes diretos no Brasil  –  milhões de africanos chegados através da diáspora forçada produzida pelo tráfico atlântico de escravos sobretudo no Rio de Janeiro e na Bahia. Ao falar dos africanos e de seus descendentes no Brasil, a exposição nos conta também, mais uma vez, a história intelectual da instituição, em três tempos: o final do século XIX – com objetos apreendidos pela polícia do Rio de Janeiro em casas de candomblé (chamadas “casas de dar fortuna”) na década de 1880, “requisitadas pelo Museu para estudo”;  a década de 1940 – com “objetos comprados pela então diretora do Museu, Heloisa Alberto Torres, de tradicionais casas de Candomblé da Bahia”; e o tempo atual – com resultados das pesquisas arqueológicas recentes do Museu Nacional, com destaque para as coleções de cachimbos de barro.

O fascínio da música africana sempre se fez presente nas imaginações dos estudiosos de todos os tempos. Instrumentos musicais tradicionais, ainda hoje presentes nas modernas culturas africanas, abrem a exposição na vitrine África, passado e presente. Uma sala em que “os objetos falam do passado e de como essa passado marca profundamente a história dos países africanos atuais”.

Poucos sabiam dessas inestimáveis peças sobre a África no Museu Nacional, muito menos  do papel do Museu, e de seus dirigentes, na construção desse acervo.

Imperdivel! Parabéns Mariza! #ficaadica
bandeira Adandozan

bandeira de Adedozan, rei do Daomé.

conjunto Celenia (1)convite web (kumbukumbu)sanza com cabaça

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Um festival de filmes

O Festival do filme de pesquisa sobre memória e história da escravidão moderna (cultura, diáspora, cidadania) teve início em 2008 em Paris, por iniciativa de centros de pesquisa da França, do Canadá e do Brasil. Trata-se de uma mostra itinerante, que ganhou este ano uma página na web, com uma chamada permanente por novos filmes e um arquivo com a sinopse de todos os vídeos já apresentados. Os filmes estão disponíveis em DVD na videoteca do LABHOI/UFF e muitos estão disponibilizados integralmente na internet, podendo ser acessados a partir do próprio site. Convidamos os leitores a explorar este interessante acervo.

Para começar, vale conferir o curta de Nilma Accioli, Ibiri, tua boca fala por nós, que em 16 minutos nos apresenta seis irmãs, descendentes de escravos, que guardam a memória de como foram violentamente expulsas das terras em que haviam nascido e crescido, no município de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro. Desenvolvido enquanto Nilma fazia seu curso de pós-graduação lato-sensu em história do Rio de Janeiro na UFF, o filme emocionou a platéia da edição de Paris 2009,  ganhando o prêmio de público, instituído para esssa edição específica.  A convite dos organizadores, Nilma viajou a Paris para recebê-lo.

Em uma semana em que tradições religiosas diferentes celebram passagem, ressureição e renascimento, vale também conferir o filme da antropóloga canadense Francine Saillant, em parceria com a Ialorixá Torodi de Ogum, do terreiro Ala Koro Wo de São João do Meriti, Rio de Janeiro. O Navio Negreiro registra uma poderosa encenação feita pela Mãe de Santo, com filhos de Santo e crianças que frequentavam os cursos de cidadania realizados no terreiro, sobre a travessia do Atlântico de seus antepassados.

Para os amantes do jongo, dois filmes do antropólogo Pedro Simmonard estão na lista. Salve Jongo! sobre Mestre Darcy da Serrinha, e o documentário de 2010 sobre o Jongo de Pinheiral, Eu venho de Longe,  estão disponíveis na íntegra na web. Além, é claro, de todos os filmes da nossa caixa de DVDs Passados Presentes.

Há muito mais no site, com personagens e narrativas quase sempre surpreendentes e emocionantes. O Brasil é, sem sombra de dúvida, o país com maior número de vídeos no festival, em sua maioria disponíveis online. Mas há também inúmeros filmes em francês ou inglês, sobre lugares absolutamente fascinantes, como Haiti, Benin, Moçambique e Irã,  algumas vezes integralmente disponíveis na internet, infelizmente sem legendas para o português na maior parte dos casos. Golden Scars, da antropóloga canadense Alexandrine Boudreaul-Furnier, sobre dois jovens rappers cubanos, é falado em espanhol e está na íntegra disponível no site.

#ficaadica

 

Captura de Tela 2014-04-20 às 20.34.10

Captura de Tela 2014-04-20 às 20.28.29

imagem 1:  Projeção do Filme Os Escravos de Ontem. Democracia e Etnicidade no Benin. Imagem 2: Debate após projecão do filme Passados Presentes: Memória Negra no Sul Fluminense, com a presença de Fatinha e Gracinha (Jongo de Pinheiral) e Romão e Marilda (Quilombo do Bracuí)

Quarto Festival do Filme de Pesquisa no Rio de Janeiro, CINEMA 2, Centro Cultural Banco do Brasil, 25 de abril de 2012.Para mais imagens das várias edições do festival, confira a Galeria de Imagens do Site.

 

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Uma viagem no tempo

Track 14189 (0:23)/ clique para ouvir a gravação (Audio 14)

No tempo de cativeiro/  In the days of captivity

Aturava muito desaforo/  I endured many an insult

Levantava de manhã cedo /I got up early in the morning

Com cara limpa levo o couro, ai / The leather whip beat me for no reason

 

Agora quero ver o cidadão/ Now I want to see the citizen

Que grita no alto do morro/ Who shouts at me from the hilltop

Vai-se Cristo, seu moço/ God bless you, master

Seu negro agora tá forro/ Your Negro is now a freedman

 

 

Cangoma Calling. Spirits and Rhythms of Freedom in Brazilian Jongo Slavery Songs,  2013, é um Hybrid Book, com som e texto em pdf disponíveis gratuitamente na web, em torno das gravações de jongos e outras formas musicais feitas pelo historiador estadunidense Stanley Stein e sua esposa Barbara Stein, na década de 1940, com ex-escravizados do Vale do Paraíba Fluminense. O Hybrid Book foi organizado por Pedro Meira Monteiro e Michael Stone, da Universidade de Princeton, onde ainda atua Slanley Stein,  a partir do CD Livro Memória do Jongo, organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco, publicado em 2007 no Brasil (Folha Seca, Cecult/Petrobras Cultural) e hoje esgotado.

A história das gravações de Stein, por si só, já é motivo de sobra para um olhar atento sobre as duas obras. No final da década de 1990, o então jovem e sempre entusiasmado historiador Gustavo Pacheco, começava a se perguntar onde estariam as gravações realizadas por Stein na década de 1940, quando o autor realizava sua pesquisa para o clássico livro Vassouras, um município brasileiro do café, 1850-1900, publicado nos Estados Unidos por Harvard, em 1958, e Princeton, em 1985, e no Brasil pela Brasiliense e a Nova Fronteira, em 1961 e 1990.

De uma curiosa e atenta pergunta, Gustavo conseguiu entrar em contato com Stein, em setembro de 1999, depois de valiosa ajuda de Rebecca Stein e Jeremy Adelman. Nesse encontro, soube que as gravações haviam sido feitas com fio de arame (wire records), mas Stein ainda não as tinha localizado. Tempos depois, em 2002, acompanhando o crescimento do jongo entre os pesquisadores e os próprios jongueiros, Gustavo entraria de novo em contato com Stein, mostrando a importância da recuperação das gravações. Ele não desistia. Em 2003, para sua alegria, Gustavo recebeu de Stein a encomenda em “uma latinha redonda de metal, contendo um carretel com um arame fino como um fio de cabelo”. Agora era buscar apoio e recursos para a digitalização das gravações, sem se ter a garantia de que fosse possível ouvir alguma coisa depois de tanto tempo. Nesse momento a entrada do Cecult da Unicamp e de Silvia Lara foram fundamentais. As gravações ainda voltariam aos Estados Unidos para serem trabalhadas por uma firma especializada. E tudo deu certo.

Hoje, depois de quase setenta anos da época que foram feitas, podemos ouvir mais de meia hora de sons gravados, com 60 pontos de jongo, 5 fragmentos de batuques, oito cantigas acompanhadas por acordeão (calangos, certamente), uma folia de Reis, cinco batucadas de samba e um samba cantado. Nas palavras de Gustavo, “as gravações de Stanley J. Stein saíam do gabinete para entrar para a história”.

Participamos com o texto Jongo: registro de uma história, do livro organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco para trazer a público as gravações. Para nós, foi uma feliz coincidência que dois projetos sobre a memória do Jongo tivessem sido aprovados pelo edital sobre Patrimônio Imaterial Petrobras 2005: o projeto de publicação do livro/CD Memória do Jongo de Silvia e Gustavo e o nosso projeto de trabalhar a memória do jongo entre o campesinato negro do Rio de Janeiro, que resultou no arquivo Petrobras Cultural Memória e Música Negra e no filme Jongos, Calangos e Folias. A feliz coincidência se tornou grande emoção quando ouvimos as gravações de Stein e descobrimos que também ele registrara jongos, calangos e folias, falando diretamente com camponeses negros que haviam vivido a experiência da abolição no Vale do Paraíba. A força dos versos e a versatilidade musical que tanto nos impressionaram durante a pesquisa de 2007, já estavam lá, cantadas por contemporâneos dos pais e avós de nossos entrevistados

A riqueza dos pontos e versos registrados por Stein pode ser acompanhada a partir da página 133 do PDF do Hybrid Book. Para ouvir qualquer um deles, basta clicar em “sound files/field recordings (in mp3 format) by Stanley Stein and Barbara Stein”, a partir da numeração dos “tracks” das gravações, informada ao lado da transcrição.

A experiência é imperdível. Absolutamente fantástico para trabalhar em sala de aula. #fica a dica.

http://www.laabst.net/laabst3/

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O Novo Caso do Bracuí

(martha abreu e hebe mattos / 14 de março de 2014)

Para todos os amantes da cultura negra tradicional do Rio de Janeiro, foi emocionante o desfile do Império Serrano neste carnaval de 2014. E não só por ser o Império uma escola de samba muito importante para o Carnaval, para a história e fundação do samba carioca e para o povo de Madureira.  O Império homenageava “Angra com os Reis”, mas não a Angra dos poderosos e colunáveis da Ilha de Caras.  Ao lado de suas belezas naturais também presentes, desfilou na Avenida uma  Angra pouco visível  e nada valorizada, embora exuberante para quem quer ver  a cultura popular.  Era a Angra dos Reis Negros, com seus palhaços e reis magos da folia; era a Angra dos africanos escravizados, que, com suas mãos, cortavam a cana para alimentar o tráfico negreiro e batiam o tambor para não esquecer o passado. Era a Angra do jongo, patrimônio cultural do Brasil; era a Angra do Quilombo do Bracuí, guardião da memória dos que não sobreviveram à travessia da Calunga, era a Angra dos Pretos Velhos.  Era também uma Angra que encontrava pontos em comum com Madureira e homenageava jongueiros irmãos do morro da Serrinha, onde foi fundado o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano. Foi mesmo arrepiante ver em destaque no carro do Quilombo, com um enorme Preto Velho ao centro, Tia Maria do jongo da Serrinha, comandando a festa  e as homenagens.

Poucos sabem que pelo porto clandestino do Bracuí, em Angra dos Reis, no século XIX, entraram ilegalmente alguns milhares de africanos transformados em escravos no Vale do Paraíba  para o trabalho nas fazendas de café, então principal produto da pauta de exportação do Brasil.  O último desembarque ali, de mais de 500 negros de Moçambique, em 1853, foi alvo da repressão do estado imperial e ficou conhecido na imprensa como “O caso do Bracuí”.  Ao todo, pelo menos 750.000 africanos embarcaram para serem escravizados ilegalmente no Brasil entre 1831 (data da primeira lei brasileira de proibição do tráfico atlântico de escravos) e 1850 (data da segunda lei que finalmente “pegou”).  O local de chegada era também um local de horrores. Ali, os que não sobreviviam à terrível travessia do Atlântico  ganhavam, sem maiores ritos, sua última morada, enquanto os que logravam se recuperar aprendiam rudimentos da língua portuguesa e a trabalhar e agir como “escravos”.

Muitos dos que sobreviveram não subiram a serra e ficaram em Angra e no Bracuí,  no trabalho forçado de recepção dos novos africanos recém-chegados. Seus descendentes herdaram a terra abandonada após o fim do tráfico negreiro e resistiram por todo o século XX a inúmeras tentativas de expulsão.  Ainda hoje, apesar do seu reconhecimento oficial como remanescentes de quilombo, não receberam a titulação das terras.  E disso depende a sobrevivência do grupo e de sua poderosa tradição oral.  Grandes jongueiros, os negros do Bracuí não esqueceram  nem a cultura herdada  nem as tragédias testemunhadas por seus antepassados.  É a memória do nosso holocausto particular, nas belas praias de Angra, que os negros do Bracuí  inconfortavelmente nos trazem. “É filho quilombola, é negro guerreiro de Bracuí”. Assim o samba do Império homenageava a sua saga de lutas. Bela homenagem dos dois Eduardos que assinaram o enredo, o carnavalesco Eduardo Gonçalves e o historiador Eduardo Nunes.

Mas os negros do Bracuí não estavam na Sapucaí. Nem a prefeitura de Angra nem a Escola de Samba ofereceram condições para que o grupo, famoso por seu jongo, participasse do desfile. O povo do Bracuí não foi convidado para a festa e não desfilou.  A cobertura da imprensa também não registrou a homenagem. Apesar das informações enviadas pelo carnavalesco, os comentários sobre o Bracuí real, e até mesmo sobre o jongo da Serrinha, foram breves e superficiais. Para a maior parte dos formadores de opinião em atuação no carnaval, o jongo e os jongueiros só são reverenciados como vaga herança do passado.

Mas eles estão bem vivos, fazem parte do presente, e trazem na cultura e tradição oral a memória da tragédia e da riqueza herdada dos mais de 20 anos de contrabando de africanos escravizados no litoral fluminense. No mesmo fim de semana que um filme como “12 anos de escravidão” ganhava o Oscar nos Estados Unidos, os herdeiros vivos dos africanos escravizados ilegalmente no Brasil eram mais uma vez invisibilizados, em plena Sapucaí, apesar das homenagens aos seus antepassados.  Eles assistiram decepcionados, de casa, o desfile. No dia seguinte, a sede do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, erguida num duro trabalho de mutirão e não concluída, por falta de apoio técnico de agencias do Iphan e da Prefeitura de Angra dos Reis, caiu.  A luta do povo guerreiro do Bracuí, tão cantada na Avenida, parece não ter fim.

foto enviada por Eduardo Nunes, “O reencontro na roda de jongo – O Quilombo da História em Santa Rita do Bracuí e o Quilombo do Samba no morro da Serrinha”

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