A “Velha Corrupção” (carta aberta aos jovens sobre as eleições)

Amigos, a uma semana do segundo turno da eleição presidencial, nosso post não poderia ser outro do que a carta aberta do nosso grande amigo Sidney Chalhoub, que já vem circulando na internet. Assim ela fica incorporada à biblioteca do BLOG. Chalhoub estará na UFF nos dias 27 e 28 de outubro, para participar do seminário “Escravidão e Cultura Afro-Brasileira: Temas e Problemas em torno da obra de Robert Slenes”.  No seminário, Robert Slenes, pioneiro na criacão do campo da história social da escravidão no Brasil,  será homenageado por seus muitos ex-orientandos e alunos.  Ele começou sua carreira na UFF, onde foi orientador de mestrado de Chalhoub e também de Martha.  Um evento absolutamentre imperdível.

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A “Velha Corrupção” (carta aberta aos jovens sobre as eleições)

Sidney Chalhoub – historiador, professor da Unicamp

A violência do debate eleitoral no momento causa perplexidade aos jovens de idade semelhante aos que tenho em casa, que talvez acompanhem pela primeira vez, “ligados” de verdade, uma campanha eleitoral dessa importância para o país. Especialmente em São Paulo, a grande imprensa produziu um verdadeiro clima de guerra civil midiática em torno desta eleição, desinforma o quanto pode, confunde e manipula. São anos a fio de fogo cerrado contra o governo, em matérias jornalísticas cujos autores assumem o ar arrogante de ilibados defensores da ética e do interesse público.

A insistência no tema da corrupção, como se o atual governo tivesse inventado semelhante mostrengo, é uma combinação ácida de ignorância e hipocrisia. Vamos primeiramente à ignorância histórica, na qual a grande imprensa chafurda com grande desenvoltura. A corrupção está, por assim dizer, no código genético do Estado brasileiro. Nas primeiras décadas após a Independência, período de formação do Estado nacional, a fonte principal da corrupção foi o tráfico ilegal de africanos escravizados. Ao negociar o reconhecimento de nossa Independência no exterior, o Brasil contou com o apoio da Inglaterra em troca do compromisso de não continuar a capturar e escravizar africanos por meio do tráfico negreiro. Em respeito aos acordos internacionais firmados pelo país, o parlamento brasileiro aprovou uma lei de proibição do tráfico africano em 7 de novembro de 1831. Todavia, os africanos continuaram a chegar. Entre 1831 e o início da década de 1850, quando o tráfico realmente acabou por força da aplicação de uma nova lei, 750 mil africanos foram introduzidos no Brasil por contrabando e escravizados à revelia das leis do país.

O tráfico negreiro ilegal coincidiu com o desenvolvimento da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista. Em meados do século XIX, era comum que cerca de 80% dos trabalhadores das fazendas de café dessa região fossem africanos ilegalmente escravizados. Para dizer as coisas com clareza: a riqueza dos barões do café e a prosperidade das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo foram construídas por meio da escravização em massa de africanos sequestrados em seu continente de origem e trazidos para o Brasil ilegalmente. O negócio contou com a prática de corrupção em todas as escalas do governo do país e envolveu amplos setores da sociedade, desde os empresários envolvidos no tráfico, outros empenhados em manter a clandestinidade das operações, até os intermediários e fazendeiros que adquiriam os escravizados.

Basta de informação, oferecida aqui apenas para contrabalançar a ignorância histórica de boa parte da mídia nativa. Em especial quanto aos jornalões do Estado de São Paulo, eles deviam enrubescer de vergonha cada vez que insinuassem a virtude própria para enfatizar a corrupção alheia. Um deles, àquela época chamado A Província de São Paulo, foi fiel defensor dos proprietários de gente criminosamente escravizada. Quanto a este assunto, desde a sua fundação, em 1875, foi conivente com a Velha Corrupção. Sim, “Velha Corrupção”, para marcar bem o tamanho histórico do problema que os jornalões cismam de atribuir ao atual governo, apenas no intuito de desinformar e tentar influir no resultado das eleições.

Portanto, chega de hipocrisia, de usar dois pesos e duas medidas. No país independente, a corrupção surgiu junto com o Estado em formação, nele se incrustou e é uma tragédia que aí continue. Assim como continua a grassar na sociedade, como parece óbvio, presente às vezes nas falas dos próprios sujeitos que, ao mesmo tempo, vociferam contra os corruptos no Estado e se dedicam com afinco a viciar concorrências públicas, a bolar estratégias para sonegar impostos diversos, até para ingressar nos aeroportos do país com muambas variadas e outras baixezas do gênero.

Chega de hipocrisia. Onde estava a disposição de investigação da grande mídia quando o governo do PSDB, segundo se dizia, comprava os votos de parlamentares para aprovar a lei que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso? O chamado “mensalão do PSDB mineiro”, origem do outro do qual tanto se falou, por onde anda? As denúncias de irregularidades nas privatizações tucanas de empresas públicas –algumas vendidas a preço de banana- mereceram a devoção investigativa da grande imprensa? Trens? Metrô? Tudo anda assim tão dentro dos conformes em São Paulo, a nossa Tucanolândia?

A corrupção é tema complexo e difícil. Não há governante, no Brasil, que dê cabo disso numa penada. Muita coisa se pode e deve fazer para livrar o país da Velha Corrupção. Para começar, o governo precisa ter disposição para enfrentar o problema e tem de garantir a eficácia e a independência dos órgãos encarregados de investigar, processar e punir os responsáveis. O governo Dilma foi exemplar nesses quesitos. Por conseguinte, a hipocrisia de caluniá-lo por isto é especialmente danosa à democracia e ao atual processo eleitoral.

ESTÁ AUTORIZADA A REPRODUÇÃO EM BLOGS E SITES DE NOTÍCIA

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Ainda eleições e protagonismo negro…

Uma peça publicitária da campanha presidencial do PSDB acaba de divulgar um jingle com muitos jovens brancos, cantando versos de funk, num cenário que mostra a favela ao fundo. É inacreditável ainda circularem iniciativas que silenciam o protagonismo negro na transformação e ação política moderna, como quer dar a entender a propaganda. Descuido racista dos marqueteiros ou dissimulada intenção de atrair a nova classe média das favelas e periferias – explorando o déficit de autoestima produzido pelo racismo, a estratégia precisa ser denunciada. É lamentável e inaceitável. Além de tudo, contraria todo o esforço materializado na lei 10.639 que, no campo educacional, procura afirmar a presença negra na história do Brasil, em qualquer partido político, e combater o racismo através da valorização da cultura e identidades negras.

Para um forte e belíssimo exemplo de como o protagonismo negro pode ser valorizado e divulgado em outros termos, apresentamos hoje o catálogo de uma exposição itinerante, já anunciada há algumas semanas atrás, Para não perder a memória, D. Zica 100 anos do Centro Cultural Cartola – Museu do Samba Carioca. O catálago da exposição dá uma boa ideia do que podemos conhecer sobre a história dos sambistas, homens e mulheres negras que reinventaram a historia cultural da cidade do Rio de Janeiro a partir de seus morros e periferias. Conta com textos de especialistas, Nei Lopes, Felipe Ferreira, Nilcemar Rocha, Luciano Nascimento, Desiree Reis e Martha Abreu, além excelentes atividades pedagógicas sobre o patrimônio cultural do samba. Vale conferir na biblioteca do blog.

Foi também refletindo sobre apagamento/resgate do protagonismo negro que Hebe produziu um texto sobre o atual momento eleitoral. Reproduzimos aqui o primeiro parágrafo e os convidamos a ler o texto na íntegra também na biblioteca do blog.

“Durante o segundo semestre de 2013, em função da minha pesquisa sobre o engenheiro abolicionista André Rebouças, eu lia diariamente exemplares das edições mensais de um periódico publicado em Nova York, por um jornalista brasileiro, do qual André foi ativo colaborador. O Novo Mundo registrava notícias dos Estados Unidos para o Brasil durante a década que se seguiu à guerra de secessão americana. No antigo sul escravista derrotado, o período conhecido como “Reconstrução Radical” (1865-1877) foi pioneiro em reconhecer direitos civis e políticos aos ex-escravos tornados livres com a vitória da União. Muitos se alfabetizaram, participaram politicamente em seus locais de moradia, votando e sendo eleitos, junto aos políticos republicanos radicais oriundos do Norte do país. As conquistas sociais realizadas neste curto espaço de tempo são impressionantes e preenchem as melhores páginas da historiografia social e política sobre o pós-emancipação nos Estados Unidos. No entanto, o movimento fracassou, graças principalmente à eficácia de um discurso de fundo aristocrático, construído a partir da manipulação seletiva de uma série de casos pontuais de corrupção, segundo o qual toda a ação política dos libertos e o idealismo republicano eram uma simples fachada para a ação criminosa de um grupo de aventureiros corruptos que enganavam ex-escravos desinformados. Esta leitura foi depois potencializada pela memória, associou-se ao chamado “racismo científico” do final do século XIX, e progressivamente foi corroendo as conquistas dos libertos, ainda pouco sedimentadas, resultando em leis de segregação racial em todo o Sul a partir dos anos 1890, que durariam até a segunda metade do século XX.  Através das páginas de O Novo Mundo, acompanhei o dia a dia da tragédia que se anunciava e as semelhanças com o que eu ouvia no Brasil do século XXI muitas vezes me preocuparam. A divulgação seletiva e sincronizada com o segundo turno das eleições de depoimentos relacionados ao escândalo de corrupção na Petrobras me fez duvidar de onde e em que século me encontro agora….” (continuar lendo)

Boas leituras.

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Muitas cartas para Aranha

Como indicou a chamada da primeira página de O Globo do último domingo  – “Punir racismo não adianta” – a polêmica sobre a punição ao Grêmio e a sua jovem torcedora, em função de atos de racismo contra o goleiro Aranha, do Santos, há um mês, continua na ordem do dia. Na mesma noite, quando nosso post já estava praticamente pronto, declarações homofóbicas de um candidato a presidência da república em cadeia nacional colocaram a criminalização da homofobia novamente na pauta da campanha presidencial.

Parecem temas diferentes, mas não são. O racismo é um crime de ódio, a mesma base para a criminalização da homofobia, que já vem sendo adotada por muitos juízes no Brasil. Mesmo que a homofobia não esteja ainda oficialmente criminalizada, como o racismo, é do mesmo Mal que se trata.

Para reforçar a associação, reproduzimos aqui um pequeno texto de Laura Castro, filha de Hebe, atriz e escritora, militante da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas, publicado em sua conta no facebook em reposta ao infeliz candidato.

Sou, acima de tudo, uma mãe de família. Tenho 3 filhos ainda pequenos. Como muitas mães, faço parte de um grupo de mães e pais na internet, onde trocamos impressões, apreensões e alegrias sobre nossos amados filhos. O grupo que participo tem ainda uma especificidade: é um grupo de pais e mães em famílias homoafetivas. Além de discutir o melhor momento para o desmame, discutimos também como proteger nossos filhos da terrível violência homofóbica como essa proferida em rede nacional por este inconsequente, Levy Fidelix. Discutimos como proteger as famílias, todas as famílias.

Ao contrário do que disse o candidato de maneira chula e mal educada e, mais uma vez, violenta, nós podemos sim ter filhos, e muitos. Os casais de mulheres têm com frequência 3 filhos como eu. Um casal de homens nossos companheiros acabam de ter gêmeos. As técnicas de reprodução assistida estão a nosso favor, além da adoção – todas formas legítimas e juridicamente reconhecidas de filiação.

Só no nosso grupo conta-se cerca de 400 famílias com filhos.

Nossa intenção agora é justamente nos organizar em forma de associação ABRAFH (associação brasileira de famílias homoafetivas) para agir política e juridicamente contra as ameaças às famílias como essa que propõe esse candidato. Ameaça às famílias e à dignidade humana. Ameaça aos nossos filhos de crescer em um mundo estúpido e intolerante, violento e criminoso.

Desculpa, mas não dá para nos ter bem longe. Eu vou ao mesmo restaurante que você, meus filhos frequentam as escolas, as praças, a sociedade. Infelizmente também não posso viver longe de seres como este quase inacreditável candidato. Por isso mesmo, a lei precisa estabelecer as regras do nosso convívio.

Hoje tramita um projeto para que casos de homofobia, na falta de uma lei específica, sejam julgados de acordo com a lei que nos protege contra o racismo – e vários juízes já entendem dessa forma. Me parece bastante pertinente. Seja como for, temos que achar os meios legais para que esse Sr. responda processo por incitar o ódio, por ofender e difamar. Para que responda pela violência que ele estimula e que gera números de mortes assustadores.

É pelos meus filhos, pelas famílias, que não posso ficar calada.

Convido a todos que são a favor das famílias a se juntarem a nós para movermos um processo contra o candidato para que ele responda por seu crime de discriminação, preconceito e ódio.”

Mas será que punir adianta contra preconceitos arraigados e largamente difundidos na sociedade?

Para fundamentar a posição de sua manchete, O Globo entrevistou o ex-jogador, negro e holandês, Bryan Roy, que hoje é técnico dos juniores do Ajax. Bryan denuncia a presença do racismo nos campos de futebol e nas sociedades em geral, mas defende o caminho do diálogo e da educação para a luta contra a discriminação: “Quando você pune, não avança… Podemos lutar contra o racismo e preconceito com educação”.  Posição bem próxima foi defendida por Pelé, quando recomendou que, em casos como o de Aranha, era melhor não reagir, pois a situação de discriminação e rejeição poderia se tornar mais grave e ainda mais constrangedora – para todos.  Será que educar significa ensinar a não reagir? 

As ideias desses jogadores ainda estão muito presentes também nas escolas de nosso país, conforme mostram pesquisas recentes. A opção de muitos professores e diretores, algumas vezes por falta de preparo, é não chamar atenção para as situações de racismo e discriminação. Em geral, reduzem seus efeitos, desvalorizam o sentimento de quem sofre o racismo, ou, ainda, minimizam o ocorrido com a conhecida frase “isso não passou de uma brincadeira”. Atitudes como a do goleiro Aranha rompem radicalmente com esta lógica.  E, por isso, mais do que punir, educam.

Racismo e injúria racial são crimes, simples assim. Aranha não fez mais que reivindicar direitos e o cumprimento da lei. E ao fazê-lo trouxe um novo sentido de autoestima e coragem a milhões de outros como ele.

Na defesa dessa perspectiva, concluímos o post com o texto “Uma carta para Aranha”, de Winnie Bueno, estudante de Direito da Universidade Federal de Pelotas e militante do Juntos! Negros e Negras, publicado no Blog de Juca Kfouri, em 19 de setembro.

Oi, Aranha. Tudo bem? Primeiramente queria te confessar que não te conhecia. Embora eu goste de futebol, vá ao estádio de vez em quando, acompanhe alguns programas esportivos, eu não sabia quem você era. Não sabia até o lamentável episódio envolvendo a torcida gremista, a torcedora do Grêmio que lhe chamou de macaco e todas as repercussões que houve. Desde então, tenho acompanhado mais atentamente você e sua luta, que sempre foi a minha, a luta pela eliminação do racismo. As declarações que você deu, após a violência da qual foi vítima, foram um alento à minha alma. Foram um tapa na cara do permanente mito da democracia racial brasileira. Um retumbante e contundente chega.

O posicionamento que você adotou, desde o primeiro momento, denunciando esta barbaridade, é um exemplo para toda a negritude brasileira. Você, diferente de tantos outros, não engoliu passivamente o racismo. Você se ergueu contra ele e mostrou que não devemos nos resignar, mesmo quando a sociedade, há tantos anos, vem nos dizendo o contrário.

Sabe Aranha, quando eu vi sua entrevista no Fantástico me lembrei dos meus tempos de escola. Lembrei de quando eu era uma criança e as professoras das séries iniciais sempre respondiam às minhas reclamações sobre o racismo, que era praticado contra mim, dizendo para eu deixar isso para lá. Que eu era superior aos coleguinhas e não deveria dar bola para isso. Os coleguinhas nunca eram repreendidos por debocharam do meu cabelo, por fazerem barulhos de símios quando eu passava, por perguntarem como eu conseguia ser tão preta. Nenhum coleguinha era reprendido por cantar músicas que me insultavam. Nenhum coleguinha era alertado sobre a minha suposta superioridade, que era utilizada pelas professoras para que eu não me revoltasse, para que eu voltasse quieta para minha cadeira. Afinal, tudo era brincadeira. Tudo era muito natural. E ser superior era sinônimo de aceitar todas essas dores calada.

Na minha família, sempre nos insurgimos contra o racismo. Foi na minha família que aprendi que se as professoras não faziam nada, eu é que deveria fazer. Mas, como eu era uma criança que ainda não tinha condições intelectuais de responder de forma mais racional a toda a violência racial que me cercava, adotei como estratégia ser turrona. Ser turrona incitou medo nas outras crianças, o medo fez com as agressões diminuíssem, a redução das agressões fizeram com que eu conseguisse ter uma vida escolar mais ou menos saudável. Desde muito cedo minha mãe carregava a mim e a minha irmã para as reuniões do movimento negro, nesses espaços aprendi a ter orgulho da identidade negra, da cultura afro, das minhas origens. O movimento negro e as coisas que vivíamos em casa forjaram em mim um permanente anseio por uma sociedade radicalmente diferente, livre de racismo, ausente de limitações impostas única e exclusivamente pela cor da pele.

Fiquei muito feliz também quando você se recusou o encontro com a torcedora que lhe insultou. Foi mais uma lição importante sobre como lidar com o racismo. Foi um importante aprendizado sobre o que significa perdoar. Perdoar não é igual a esquecer, perdoar não é igual a apagar os efeitos decorrentes da ação do agressor. Perdoar não significa estar disposto a apagar a dor. Porque doí, a gente sabe o quanto doí. Só nós negros sabemos o tamanho da dor que o preconceito racial acarreta na gente, uma dor que nunca passa. Uma dor que eu sinto com você, quando você é chamado de macaco, e uma dor que você sente com outro negro, quando ele é chamado de preto sujo, ou quando alguém atravessa a rua porque está na mesma calçada que a gente, ou quando alguém ri do nosso cabelo black power, ou nos olha com desprezo quando exibimos nossos turbantes. Por tudo isso Aranha, a sua negativa em abraçar a menina me encheu de alegria. Quando você se recusou ao papel que a mídia estava construindo para pôr uma pá de areia nessa história, você se recusou a abraçar a falácia da democracia racial. Você, mais uma vez, deu uma lição para a sociedade brasileira.

Hoje, dia 18 de setembro, foi o jogo posterior ao episódio de racismo do qual você foi vítima. Eu não esperava que nada de muito revolucionário fosse acontecer. Mas me enganei, você Aranha causou algo muito diferente, algo bastante revolucionário. Embora te cause dor, nos cause dor, você é um herói. As vaias que você recebeu hoje Aranha, são vaias que tentam silenciar a nossa luta. Mas você já provou que nem todas as vaias do mundo são capazes de nos calar. Essas vaias não têm força, nem grandeza para silenciar todos os negros e negras que lutam para que essas dores não sejam mais tão constantes. Não irão reduzir o exemplo que você está dando para milhões de jovens negros brasileiros, que também sonham com uma carreira no futebol e que, talvez, por exemplos menos dignos do que este que você está dando, pensam que para construir uma carreira tenhamos que aceitar o racismo nas quatro linhas e fora dela também. Não temos e não iremos mais aceitar. Vamos perder a paciência! Você pode ter sido vaiado pela torcida do Grêmio, mas queria que você soubesse que por mim, pela ancestralidade, pelas crianças negras que virão, por aquelas que já estão e por todos os lutadores e lutadoras anti-racista, você foi aplaudido de pé.

Saudações, daqui do sul do Brasil, do Rio Grande do Sul. Esse estado que tem um hino que fala de façanhas. As tuas façanhas Aranha, as façanhas de um homem negro, descendente de um povo que foi escravizado, de um povo que segundo esse mesmo hino foi escravizado porque não tinha virtudes, vão servir de exemplo para toda terra. Você que se nega redondamente ao silêncio que a sociedade racista quer lhe impor, quer impor à todos os negros e negras. As suas façanhas Aranha, assim como as façanhas dos nossos ancestrais, nos fazem livres, aguerrido e bravos.

Obrigada Aranha, obrigada por seus superpoderes. E nunca esqueça, com grandes poderes vem grandes responsabilidades. A sua é, por maior que seja a dor, continuar sendo uma voz permanente de denúncia e de luta contra o racismo. No futebol e fora dele.

Ergamos nossos punhos! Lutemos até o final contra o racismo! “

Com a polifonia deste post, o Blog tira folga semana que vem para cumprirmos nosso dever cívico eleitoral, votando pela reeleição de Dilma Roussef!

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A discussão sobre a História Pública se consolida no Brasil

Este blog é parte de uma discussão que tem crescido entre os historiadores, sobre a ampliação dos campos e espaços públicos de atuação do historiador profissional. Pedimos à nossa colega Juniele Rabêlo de Almeida, uma das organizadoras do “2º Simpósio Internacional de História Pública” , ocorrido na UFF entre 10 e 12 de setembro, para fazer aqui um balanço do evento. Com ela, a palavra: 

“Esta é a avaliação a que se chega após o “2º Simpósio Internacional de História Pública”. O evento, realizado pela Rede Brasileira de História Pública (RBHP) e pelo Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF), aconteceu na Universidade Federal Fluminense (UFF) entre os dias 10 e 12 de setembro. O Simpósio contou com cerca de 500 participantes considerando todas as modalidades de participação (conferências, mesas redondas com debatedores convidados, oficinas, apresentações orais em Grupos de Trabalhos, sessões de comunicação de Experiências em História Pública e lançamentos de livros).

O tema aglutinador escolhido “Perspectivas da História Pública no Brasil” propiciou o cruzamento de fronteiras entre diversas áreas de conhecimento e atuação, acadêmicas e não acadêmicas. Tal intercâmbio, empreendido entre pesquisadores e profissionais de várias áreas, contribuiu para o fortalecimento da sistemática de realizações bienais de simpósios de História Pública. O encontro teve um perfil nitidamente interinstitucional, interdisciplinar e transnacional.

Profissionais e estudantes de múltiplas áreas, como historiadores, comunicólogos, cientistas sociais, professores, blogueiros estabeleceram os debates sobre o tema do simpósio. A historiadora Linda Shopes (Columbia University e Goucher College/EUA), responsável pela concorrida palestra de abertura, destacou o “parentesco radical” entre a história oral e história pública.

Após a abertura, duas mesas redondas ocorreram diariamente, versando sobre a relação entre História Pública e: mídias, tempo presente, comunidades e culturas populares, plataformas digitais, narrativas públicas. Mais de uma centena de comunicações foi inscrita nos 15 Grupos de Trabalho (Educação, Culturas Populares, Comunidades, História Oral, Biografia, Literatura, Cinema, Documentário, Artes, Fotografia, Rádio, Plataformas Digitais, Patrimônio, Jornalismo, Turismo e Produção cultural e Ciências da Saúde), reunindo profissionais de variadas formações e regiões com o intuito de discutir o modo de operação dessa prática de produção e divulgação do conhecimento histórico. Oficinas que abordaram temas da história e as mídias, o cinema, o videogame, a oralidade, completaram a programação.

A julgar pelos debates desenvolvidos pelos participantes, o evento cumpriu seu objetivo principal. Se o primeiro simpósio (USP, 2011) objetivava sensibilizar e mobilizar profissionais que se identificassem com a prática da História Pública, este segundo simpósio propôs refletir sobre o que se compreende ser a História Pública e avaliar as perspectivas de sua prática no Brasil. De fato, sobressaiu no momento inicial o entendimento da História Pública como a ampliação dos públicos para o conhecimento histórico, que se utiliza de outros meios para ser divulgado além da produção acadêmica; como revistas, televisão, cinema etc. Contudo, outro aspecto a ser destacado a partir dos debates do evento diz respeito à produção compartilhada do conhecimento histórico e as transformações sociais decorrentes (em especial, políticas públicas). A prática em História Pública considera passível de reflexão histórica trabalhos realizados por não-historiadores, como a atuação profissional de diversas áreas que abordam temas da história. Não se trata de hierarquizar os saberes/produções, mas reconhecer que um trabalho dialógico feito com responsabilidade no tratamento das fontes e na construção da narrativa histórica permite a problematização da história. Por essa perspectiva, valoriza-se o diálogo entre múltiplas áreas do conhecimento para a produção do saber histórico, reiterando-se a observação de Jill Liddington de que mais importante do que definir o que é a história pública, é compreender como se faz.

Refletir sobre a produção e a circulação do conhecimento histórico é um exercício antigo, especialmente entre historiadores. Mas, sua pertinência continua atual, sobretudo diante das novas tecnologias que tem modificado o tratamento das fontes de pesquisa, desde o seu arquivamento ao seu acesso, a própria pesquisa e, naturalmente, às formas de compartilhar o saber produzido. A Rede Brasileira de História Pública tem proposto olhares para essa reflexão, num esforço que tem encontrado interlocutores dispostos a qualificar e avançar nos debates. Sendo assim, foi estabelecido na Assembleia da RBPH os novos caminhos. O próximo Simpósio Internacional de História Pública ocorrerá em 2016 e será sediado na região nordeste, cuja coordenação inicial está a cargo da Universidade Federal do Ceará. Enquanto isso, ao longo de 2015, eventos pontuais nas cidades onde a RBHP está representada serão realizados para sensibilizar a comunidade acadêmica e os profissionais que trabalham com a História.”

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 Legenda das fotos:

Cartaz/ Abertura do simpósio internacional “Perspectivas da História Pública no Brasil”, composta por Ana Mauad, Juniele Rabêlo de Almeida, Ricardo Santhiago, Anita Lucchesi e Serge Noiret/Martha Abreu, Paulo Fontes, Lia Calabre, Hebe Mattos e Marta Rovai compuseram a mesa redonda História Pública, Comunidades e Culturas Populares/ Linda Shopes profere palestra de abertura, mediada por Ana Mauad/ Mesa de encerramento do Simpósio, composta por Benito Shimidt, Marieta Ferreira, Juniele Rabêlo de Almeida, Renata Schittino e Ricardo Santhiago

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Pós-Abolição no Mundo Atlântico

É o título do próximo dossiê da Revista Brasileira de História, da Associação Nacional de História (ANPUH).  O número contará com a transcrição em português da entrevista com Eric Foner, que realizamos em março de 2014 e divulgamos aqui no blog.

Reproduzimos abaixo a chamada de artigos. Até 31/1/2015.

O reconhecimento de escravos e libertos como sujeitos históricos acabou por influenciar os estudos sobre o destino dos escravizados e seus descendentes em antigas sociedades escravistas após a abolição legal da escravidão. No Brasil, se a década de 1980 representou um marco para historiografia da escravidão, podemos pensar que os anos 2000 foram decisivos para a historiografia sobre as formas, condições e concepções de liberdade no pós-abolição. A produção de livros, documentários, a realização de eventos nacionais e internacionais e a formação de grupos de pesquisa adjetivados pelos termos “pós-emancipação”  e  “pós-abolição”, de Norte a Sul do país, atestam a emergência de um destacado campo de investigação, comprometido em reconstituir trajetórias, processos e experiências de liberdade da população negra no Brasil e nas Américas após a proibição legal da escravidão.  Em vistas da amplitude do campo, surgem muitas questões. O que significa pensar o pós-abolição como problema histórico? Quais os significados e limites da revogação legal da escravidão nas antigas sociedades escravistas do Atlântico? É possível construir definições precisas sobre o que seria este pós-abolição? Quais os significados da abolição formal da escravidão? Pós-abolição e pós-emancipação são sinônimos ou representam formas distintas de enxergar e pesquisar as experiências de liberdade e os significados legais da abolição da escravidão? Quando começa e quando termina o pós-abolição? Qual o lugar das experiências de tornar-se livre e do abolicionismo do século XIX? Como a politização da memória da escravidão e o estudo do tempo presente contribuem para delimitação dos seus limites cronológicos? De que formas o trabalho com diversas concepções, fontes e metodologias do campo questionam a tese clássica de que os negros teriam ficados “abandonados à própria sorte”, trazendo para o centro da discussão debates relacionados aos direitos de cidadania, mundos do trabalho livre, racialização, racismo, mobilidade social, migrações, relações de gênero, gerações, acesso à terra, educação e movimentos sociais negros e indígenas em abordagens locais, transnacionais ou comparativas? Essas são algumas das indagações que convidamos autoras e autores a se debruçarem nos trabalhos que serão publicado na edição n. 69 no dossiê temático “Pós-abolição no Mundo Atlântico” da Revista Brasileira de História (junho de 2015)

As propostas de artigo devem ser enviadas até 31 de janeiro de 2015 para o endereço eletrônico rbh@anpuh.org, seguindo as orientações gerais e as normas de formatação disponíveis em: http://anpuh.org/conteudo/view?ID_CONTEUDO=58. Não é necessário realizar o envio de cópias impressas ou de mídias contendo os trabalhos.

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foto de José Medeiros/Acervo Instituto Moreira Salles.

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Passados Presentes

Passados Presentes é o nome do novo projeto que estamos desenvolvendo no LABHOI/UFF, em colaboração com Keila Grinberg, do NUMEM/UNIRIO, para inventariar lugares de memória do patrimônio imaterial da diáspora africana no Rio de Janeiro, com apoio do Edital Petrobras Cultural.

O trabalho inclui sinalizar e identificar lugares de memória no interior de alguns quilombos do Rio de Janeiro. Neste fim de semana, realizamos nossa primeira oficina com o Quilombo do Bracuí e conversamos sobre o projeto com Toninho, do Quilombo São José e Fatinha, do Centro de Referência do Jongo de Pinheiral.

Neste post, um relatório visual sobre o fim de semana, com fotos de Daniela Yabeta.

Foto 1: Varal – Exposição (Jongo de Pinheiral); Fotos 2 e 3: Hebe e Daniela (LABHOI) conversando com Fatinha (Jongo de Pinheiral) e Toninho (São José da Serra); Fotos 4 a 9: Oficina dirigida por Elaine (Pontão da Cultura-UFF),  casa da Marilda , Quilombo do Bracuí.

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O Samba Carioca e o legado da última geração de africanos escravizados do sudeste

Para os muito interessados na história social do samba no Rio de Janeiro, disponibilizamos hoje neste post e na biblioteca do Blog, novo texto de Martha Abreu, de título:

O samba carioca e o legado da última geração de africanos escravizados do sudeste.

Trata-se de um texto de 3 páginas, escrito como parte da exposição itinerante Para não perder a memória, D. Zica 100 anos do Centro Cultural Cartola – Museu do Samba Carioca.

A exposição sobre a importância do samba e da liderança das mulheres, especialmente D. Zica, na sua história, irá percorrer 8 escolas públicas em torno da Mangueira,   atingindo mais de 5 mil alunos. O catálago da exposição, que, em breve, divulgaremos, conta com textos de especialistas, imagens de mulheres poderosas, módulos da exposição e com atividades pedagógicas sobre o patrimônio cultural do samba.

O Centro Cultural Cartola, além da organização de eventos e exposições itinerantes, como a de D. Zica, reúne hoje o maior acervo sobre a história do samba carioca, com documentos textuais, livros, fotografias, indumentária, periódicos, monografias e depoimentos. Sob a coordenação de Nilcemar Nogueira, neta de Dona Zica,  o Centro Cultural Cartola foi responsável pela realização do dossiê que conferiu às Matrizes do samba do Rio de Janeiro, partido alto, samba de terreiro e samba enredo, o título de patrimônio cultural do Brasil .

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