Sobre as ruínas do Sahy

Ninguém esquece um elefante. Nossa querida amiga e colega, a saudosa Ana Lugão Rios, assim intitulou um de seus textos abordando a demografia e a memória do tráfico ilegal de escravos no litoral fluminense na primeira metade do século XIX.  Estávamos então surpresas com a descoberta de uma muito viva tradição oral sobre a chegada ilegal de africanos escravizados na região, durante o desenvolvimento do projeto de história oral Jongos, Calangos e Folias, em 2007. No artigo, Ana revisitava a demografia do tráfico ilegal, centenas de milhares de pessoas chegadas em cerca de 20 anos no Rio de Janeiro, numa estreita faixa de terra entre o mar e a montanha.

Mas apesar da força da tradição oral, até muito recentemente, só a memória local parecia querer lembrar do acontecido, sem que historiadores ou outros formadores de opinião se interessassem em parar para ouvir o que os moradores da região tinham a dizer. É impressionante o silêncio na historiografia e na memória oficial sobre o tema por todo o século XX. Já na primeira metade do século XIX, apesar da atividade negreira envolver enormes estruturas e milhares de pessoas, os que a ela se dedicavam intencionalmente não deixaram registros escritos. Quase todas as fontes históricas mencionando a atividade são produtos das tentativas de repressão, realizadas logo após a aprovação da primeira lei de abolição do tráfico em 1831 e, principalmente, ao longo da primeira metade da década de 1850, após a lei que finalmente “pegou”. Elas nos dão notícias de 500, 800 e até mil pessoas em um só desembarque.

As ruínas na praia do Sahy, em Mangaratiba, bem em frente à Restinga da Marambaia, são um testemunho eloquente da envergadura desse silêncio e do tamanho daquilo que se tentou esconder. Formadas por extensas paredes de pedra protegidas por densa vegetação, há muito tempo elas estão ali para serem vistas por quem tem olhos para ver, sem que historiadores ou documentos oficiais consigam precisar do que se trata. O que vemos hoje é uma enorme área murada com laterais de cerca de 100 metros, com indícios de um cais, um cemitério e possivelmente de um pequeno canal em seu interior. Tudo isso ligado a uma segundo complexo retangular ou quadrado, menor, com laterais de cerca de 30 metros. Para olhos leigos, as ruínas passam a impressão de uma pequena vila fortificada, bem perto do mar.

Para quem tem ouvidos para ouvir, talvez o mistério não seja tão grande. Segundo os moradores da região, trata-se de um mercado e armazem de escravos, ligados à área de “engorda” de africanos recém chegados na restinga da Marambaia. Um informante se referiu explicitamente a um “cemitério de pretos novos” em um dos limites externos das ruínas e há registros da existência de um calabouço, relatado pela primeira tentativa de trabalho arqueológico na área. Os moradores contam ainda, com graça, antigas lendas que percorrem quase todo sítio com forte memória ligada à escravidão atlântica, como por exemplo a história de um conjunto de escravos que teriam se atirado para a morte da Pedra da Conquista, “após um banquete com coisas roubadas de seus senhores”. O relato evoca fortemente a narrativa de Rocha Pitta, no século XVIII, sobre a possível morte de Zumbi dos Palmares, atirando-se com seus seguidores de um penhasco, que durante anos prevaleceu como verdade histórica e foi registrada nos primeiros livros didáticos brasileiros do século XIX. Cercada de tão forte tradição oral, a área das ruínas do Sahy tem hoje extenso uso religioso, como local para rituais e oferendas de cultos afro-brasileiros.

A arqueóloga e historiadora Camilla Agostini, com autorização do IPHAN e apoio da Fundação Mario Peixoto da Prefeitura de Mangaratiba, do CNPq e da FAPERJ, está começando a pesquisar o sítio arqueológico, em um projeto baseado no LABHOI-UFF, do qual participamos como co-proponentes junto ao CNPq e à FAPERJ.

Estivemos no sítio na última quarta feira, quando registramos um primeiro relatório audiovisual das hipóteses de Camilla sobre os antigos usos da área. A beleza das ruínas e a envergadura do trabalho que a arqueóloga começa a desenvolver podem ser acompanhados no pequeno trecho de filme abaixo. No dia seguinte, seguimos viagem para o Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, local onde ouvimos pela primeira vez a forte tradição oral sobre o tráfico ilegal. Nessa segunda parte da viagem, nosso objetivo era apresentar um projeto de exposição permamente, voltada para o turismo de memória, para a qual contamos com o  apoio do último Edital Petrobras Cultural de Patrimônio Imaterial. Em breve daremos mais notícias sobre esse projeto

A visita às ruínas do Sahy não nos evocou apenas a tradição oral com a qual temos convivido desde 2007, mas também a necessária releitura dos nossos dados de pesquisa sobre a primeira metade do século XIX. Hebe, por exemplo, juntamente com Keila Grinberg, há muito vem trabalhando com alguns escritos do jurista autodidata Antônio Rebouças, por diversas vezes deputado na assembléia legislativa brasileira pela província da Bahia nas décadas que se seguiram à independência política. A renovação do conhecimento sobre o funcionamento do tráfico ilegal abriu novas perspectivas para a interpretacão de alguns de seus escritos. Homem pardo, nos termos de época, ele era ativo combatente pela extinção do tráfico negreiro. Em face da aprovação no Senado de uma proposição para revogar a lei de abolição do tráfico de 1831, em 1837, defendeu na Câmara, naquele mesmo ano, a revogação paralela de uma outra lei, de 1830, que proibia a entrada de africanos livres no país. Segundo ele, respeitáveis chefes de família estariam envolvidos nos desembarques e nas compras dos africanos contrabandeados, o que comprovava serem os trabalhadores africanos desejáveis e impossível a repressão à sua entrada no país. Em vista disso, defendia a continuidade do comércio com a África, sob a fiscalização das autoridades brasileiras, como já acontecia nas Antilhas francesas, e a incorporação dos recém-chegados desde 1828 [data dos primeiros acordos com a Inglaterra] com o estatuto de africanos livres. Sintetizando seu pensamento, podemos afirmar que ele considerava urgente conter a crescente tragédia humanitária que se configurava com o aumento da mortalidade dos cativos sob o égide da ilegalidade, o que, em suas palavras, resultava por vezes na “perda de carregações inteiras”, ao mesmo tempo em que se mostrava contrário a adoção de políticas de branqueamento da população livre. Não teve sucesso em revogar a lei que proibia a imigração de africanos livres, de 1830, mas talvez por temor de que sua proposição fosse aprovada, a revogação da lei de extinção do tráfico de 1831 também não foi confirmada na Câmara. Continuou em vigor e a ser escandalosamente descumprida, transformando as lindas praias da Costa Verde em um espetáculo de horror, até meados da década de 1850.

Hoje, quase ninguém se lembra das proposições de Antônio Rebouças, apesar dele ter publicado em livro todos os seus principais discursos parlamentares. Os sentidos de sua defesa da revogação da lei de 1830, juntamente com a lei de extinção do tráfico de 1831, simplesmente perderam-se com o apagamemto da memória dos efeitos cotidianos de mais de 20 anos de tráfico ilegal.  Em pleno século XXI, do Cais do Valongo ao Sahy, passando pelas memórias dos quilombolas do Bracuí, as iniciativas de memorialização do tema significam uma inflexão importante na forma como até recentemente foi construída a narrativa nacional brasileira.  Ainda que tarde, o Brasil como nação começa a falar sobre nosso esquecido holocausto particular e a tentar reparar as feridas por ele deixadas em nossa sociedade.

Camilla está em trabalho de campo na região, com uma equipe de voluntários de altíssimo nível, formada por Fernanda Codevilla / Pós-doutoranda em Arqueologia pela UFMG; Jimena Cruz / Mestre em Arqueologia pela UFMG; Thiago Campos Pessoa / Doutorando em História pela UFF; Pedro Gil Mendonça / Graduando em Arqueologia pela PUC/GO; Suzana Correa Barbosa / Jornalista, Graduanda e Mestranda em História pela UFF; Iran Maia / Graduando em História pela UFF; Alana Verani/ Graduanda em História pela UFF; e Renata Anunciação da Silva Borges / Graduanda em História CEDERJ. O trabalho de campo conta ainda com a consultoria de Ximena Villagran / Geoarqueóloga, Pós-doutoranda Universitat Tubingen e com o apoio de Raquel Terto / Graduanda em História pela UFF, enviando documentos de arquivos via internet.  O trabalho de campo conta com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente / Prefeitura de Mangaratiba; da Fundação Mário Peixoto; da Associação dos Pescadores Maricultores Lazer do Sahy e da Associação de Moradores do Sahy. É o segundo trabalho de campo no sítio sob a coordenação de Camilla. O projeto contou, em sua primeira fase,  com o a colaboração especial de Mirian Bondim (da Fundação Mario Peixoto).  A todos, muito obrigada!

 

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Roda dos Saberes e o Inventário UFF_UNESCO

Acabamos de chegar de uma viagem de trabalho às ruínas de um local de desembarque ilegal de africanos na praia do Saí, em Mangaratiba, e ao Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, lugares de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados no Rio de Janeiro.

Domingo passado, a final da copa não permitiu que a nossa conversa de fim de semana para o blog ocorresse como de costume, mas esta semana a conversa rendeu ao longo de nosso encontro com a equipe de arqueologia em trabalho de campo nas ruínas do Saí, bem como na reunião sobre um novo projeto envolvendo os lugares de memória do patrimônio imaterial da diáspora africana no Rio de Janeiro, no Quilombo do Bracuí. O papo do próximo fim de semana já rolou. Aguardem o post de domingo.

Antes disso, o Inventário LABHOI-UNESCO sobre a memória dos africanos escravizados no Brasil, e na cidade do Rio, em especial, é o tema de palestra de Martha, na Roda dos Saberes do Cais do Valongo, que antecede a já tradicional Roda de Capoeira, no terceiro sábado de cada mês. Fazemos este post de meio de semana para divulgar o evento.

#ficaadica.

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Futebol e racismo

Como divulgado em vários jornais e redes sociais, muitos torcedores abusaram de xingamentos racistas para criticar a terrível falta de Zúñiga em Neymar, mostrando que o futebol no Brasil também está impregnado desse tipo de atitude, tão marcante em diversos campos de futebol pelo mundo, como o caso de Daniel Alves há pouco tempo foi exemplo. Sem dúvida, não somos tão diferentes dos europeus nesses assuntos. Especialmente no Brasil e na América Latina, futebol e racismo possuem uma longa e intrincada história, fruto da  internacionalização e popularização do esporte, ao longo do século XX.

Em  princípios do século XX, o futebol no Brasil, como quase todos os esportes, era uma atividade de elite, de afirmação social de determinados grupos brancos e intelectualizados, que se representavam como os mais saudáveis, finos e educados — os melhores da cidade. No caso do Rio de Janeiro, o futebol era mais um local de reprodução das hierarquias socais e raciais, de comprovação da supremacia branca no pós-abolição, como já é mais ou menos conhecido.

Sobre o tema, vale acompanhar o livro pioneiro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicado pela primeira vez em 1947. Naquele momento, Mário Filho, reconhecido fundador do jornalismo esportivo no Brasil, sentiu necessidade de escrever um livro sobre o “penoso e longo” caminho de participação e valorização do negro no futebol, processo que denominou de “democratização do futebol brasileiro”  na segunda edição do livro, em 1964.

O autor denuncia o quanto era branco o futebol dos primeiros  tempos, até a década de 1920, pelo menos.  “Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção”… . Nos jogos dos clubes chics, como o Fluminense, o Botafogo e o Flamengo, branco pobre, pretos e mestiços, poderiam até estar presentes, mas como torcedores, na geral. “Cada um no seu lugar”. “O Futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. Onde se podia encontrar melhor demonstração de que tudo era como deveria ser? O branco superior ao preto. Os ídolos do futebol todos brancos. Quando muito, morenos”… Mesmo nos clubes das fábricas, como na Bangu, haveria um esforço, registra Mario Filho, para se colocar mais brancos que “pretos”, ao menos em jogos da Zona Sul.

Ao longo década de 20 e 30, outros times dos subúrbios cariocas, como o Vasco, o São Cristovão, o Bangu, o América e o Vila, começariam a incorporar os negros e, com eles, a ganhar campeonatos, em paralelo ao processo de profissionalização do futebol. Apesar disso, Mario Filho relata diversos mecanismos excludentes que continuariam a atingir os jogadores negros, como a necessidade de provarem seus meios de sobrevivência e grau de escolarização para serem inscritos nos campeonatos, a preferência por jogadores brancos nos clubes e nas seleções que representavam o país, o constrangimento para adotarem mecanismos físicos de branqueamento –  um trato especial para os cabelos e pele, a  vergonha e a  negação da cor, ou a impossibilidade de frequentar as sedes sociais dos clubes.

A escrita da história do negro no futebol de Mário Filho, em 1947, revela muito sobre as formas de operação do racismo no Brasil do pós-abolição, como os mecanismos não explicitados de exclusão racial e as articulações preconceituosas entre condição social e  cor. Na bela “nota ao leitor” da primeira edição, Mário registra que não poderia ter escrito o livro sem o apoio da tradição oral, “muito mais rica, muito mais viva do que a escrita dos documentos oficiais…” Os documentos oficiais teriam mostrado ao autor que a “história verdadeira se escreve de outro jeito”…  Os livros, “as atas, as correspondências dos clubes não falam de negros… não tocam, nem de leve, em questões de raça”…

A primeira edição de 1947 teve prefácio de Gilberto Freyre, que valorizava a importância do papel do negro na formação da identidade nacional. Para o autor, o futebol inglês teria se tornado uma instituição brasileira, com evidentes traços originais e mestiços. E, de fato, o livro de Mário ajuda muito a entender a tessitura das relações entre brasilidade e futebol desde então. Algumas frases da apresentação da segunda edição, por exemplo, escritas por Mário Filho, expressam, como poucas, o que estamos vivendo hoje, especialmente depois da saída de Neymar da Copa: “No fundo o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele. O jogador representa-o, representa o clube, a sua cidade, o seu estado, a sua pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor…”

Na edição de 1964, entretanto, Mário Filho  procura mostrar que não pretendeu defender “uma visão otimista a respeito de uma integração racial” do negro no futebol, “sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto”, em suas palavras.  Lembra que a derrota do Brasil, no Maracanã, no final da copa de 1950, teria provocado um “recrudescimento do racismo”, já que “culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho”… “Os bodes expiatórios,  escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada”… Ainda na convocação para a Copa de 1958, na Suécia, a maior preocupação, salienta Mário Filho, era de embranquecer o escrete. Didi teria sido o único preto na estreia contra a Austria! Só aos poucos o time foi escurecendo com a entrada de Garrincha, Vavá, Djalma Santos, Zózimo e, finalmente, Pelé.

Segundo Edson Carneiro,  antropólogo, negro, que escreveu a orelha da segunda edição, apesar das  diversas “ofensivas segregacionistas” impostas aos jogadores negros, o “negro não se deu por vencido –  no campo e na pelada… Ao menos no futebol, afirma com ênfase, havia chegado “a vez do preto, tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé”. A reedição do livro em 1964 parecia evidenciar a  necessidade de afirmação  do talento dos jogadores negros, sinalizando o quanto combater o racismo ainda era o pano de fundo do livro, mesmo dois anos após o Brasil  ter se tornado bi-campeão do mundo (conquistas de 1958 e 1962), com uma seleção maravilhosamente multirracial.

Passados cinquenta anos, em plena copa contra o racismo, o problema ainda persiste nos insultos que se repetem nas redes sociais dos mais diversos países, na segregação econômica que impõe uma maioria branca nos estádios ou no racismo invisível que resulta em uma minoria negra de crianças escolhidas para entrar em campo com os jogadores, através de indicação dos países e campanhas comerciais.  Mas exatamente por isso, é importante valorizar a decisão de abrir cada jogo com o anúncio da campanha Say No To Racism (Diga Não Ao Racismo) lido pelos capitães de cada seleção, no caso de sexta feira última  por Thiago Silva e Mario Yepes, em suas línguas nativas.  Com certeza,  vale a pena o esforço de divulgar bem alto,  em todos os estádios e em todas as TVs desse país, que o racismo é crime e envolve todas as formas de preconceito, seja de gênero, cor ou de origem.

A democratização do futebol, nos termos sonhados por Mário Filho, ainda é uma boa bandeira para se lutar.

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Seleção brasileira, 1950, antes do jogo em que goleou a Suécia por 7X1.

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Seleção brasileira, campeã do mundo, 1958.

 

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História, Memória e… Copa do Mundo!

Dá gosto ver a diversidade étnica e racial de quase todos os times nesta copa do mundo. Diversas reportagens têm comentado que essa diversidade espelha, em grande parte, migrações recentes e uma nova realidade global, cada vez mais transnacional.  Talvez um poderoso antítodo contra os surtos xenófobos em reação ao processo, que têm ganhado visibilidade recentemente, principalmente na Europa, ainda que não apenas ali. Um site internacional chegou a fazer uma simulação de como seriam as seleções sem a participação dos imigrantes.

Segundo uma reportagem sobre o tema,  83 atletas que percorreram os estádios da Copa em sua primeira fase “não nasceram no país pelo qual vestem a camisa”, número que chega a 200 “se forem somados todos os que são filhos de imigrantes.”

A simulação realizada apresenta, porém, uma falha gritante, e bastante esclarecedora sobre a força que o racismo ainda guarda no mundo contemporâneo. Simplesmente nem todos os que são considerados imigrantes pelo levantamento se enquadram na categoria.  O caso mais notório é o de Raphael Varane e Loic Remy, citados como filhos de imigrantes da seleção francesa, cujos pais  “nasceram na Martinica”. Ora, a Martinica é um departamento da República Francesa e todos os nascidos nessa ilha do Caribe são cidadãos franceses de pleno direito desde, pelo menos, 1848. O engano é bastante elucidatvo das formas como xenofobia e racismo se mostram, muitas vezes, conectados.

A escravidão foi abolida pela Revolução Francesa em seus primeiros movimentos e depois restabelecida por Napoleão, para ser definitivamente abolida, pela Segunda República, em 1848. Desde então, ao mesmo tempo que todos os habitantes das antigas áreas de plantação francesas se tornavam cidadãos da França Republicana, o passado escravista das ilhas transformou-se em uma espécie de tema tabu na memória nacional, juntamente com a expansão colonial de final do século XIX e o difícil processo de descolonização no século XX.  Essas antigas histórias de trauma e conflito engendraram os personagens que renovaram o futebol francês nos últimos anos, com o surgimento da geração “black, blanc, beur” (negros, brancos, árabes), contribuindo para os debates em torno da necessidade de estabelecer uma nova narrativa nacional para o país. Atualmente, há importante mobilização, inclusive oficial, para inscrever ambos os movimentos na história e na memória do país. A polêmica, no primeiro jogo da França na Copa, em torno  da atitude do atacante Karim Benzena, que se recusou a cantar a Marselhesa como protesto contra a xenofobia, está diretamente relacionada aos atuais conflitos memoriais em torno da identidade nacional, conforme pode ser acompanhado em muito boa reportagem publicada no site da UOL, em 25/6/2014.

A história da diversidade étnica e racial dos times da copa conta em muitos casos histórias recentes de imigração em um mundo cada vez mais globalizado mas, em muitos outros, como no da seleção francesa, contam histórias bem mais antigas, relacionadas à conquista europeia  da América no século XVI, à diáspora forçada produzida pelo tráfico negreiro no Atlântico,  à expansão do colonialismo europeu nos séculos XIX e XX e às marcas que o racismo, gerado por estes movimentos, ainda deixa no mundo contemporâneo

A memória de tempos antigos inscritas na caráter multirracial das seleções latino americanas (aí incluído o Brasil) é ainda mais evidente.  Segundo o levantamento citado, as seleções da América Latina estão entre as que registram menor presença de imigrantes em seus times.  Apesar disso, já na abertura da Copa, o gesto do menino guarani-brasileiro, que mostrou um cartaz pedindo demarcação de suas terras, foi emblemático da diversidade cultural do continente. Também a força da presença da diáspora africana é visível na seleção de quase todos os países da região, muito além do time brasileiro, onde os negros, desde muito cedo, tornaram-se heróis do futebol.

Apesar disso, ainda é chocante o contraste entre a diversidade étnica e racial dos times em campo com a metáfora do branqueamento como ideal nas sociedades do subcontinente, claramente expressa na desconfortável brancura das animadas torcidas que invadiram os estádios brasileiros.  Se a pujança da copa no Brasil e a alegria das torcidas latino-americanas expressam o crescimento econômico recente do continente, com significativa expansão de suas classes médias, o contraste visual que ainda permanece, entre jogadores e torcidas, revela o muito que ainda falta ser feito em termos de superação do racismo e da desigualdade em “Nuestra América”.

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Nos pênaltis, Brasil vence o Chile e avança às quartas; veja fotos


Com show de James Rodríguez, Colômbia vence Uruguai e encara o Brasil nas quartas

 

 

 

 

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O Instituto dos Pretos Novos e os Objetos da Escravidão

A riqueza histórica, cultural e arqueológica do complexo do Valongo continua a dar o tom de nossas conversas, nesse período de muitos turistas no Rio. O Instituto dos Pretos Novos – um dos mais importantes lugares de memória que compõe o conjunto histórico da região portuária - e sua programação cultural – são o tema da nossa conversa no post da semana. Divulgamos aqui a programação do espaço, na próxima quarta, 25 de junho, com a participação da arqueóloga Camilla Agostini e o lançamento do livro Objetos da Escravidão – abordagens sobre a cultura material da escravidão e seu legado.  O livro traz uma rica discussão entre historiadores e antropólogos. Tudo a ver com o local.

Os africanos recém-chegados no Valongo (os chamados pretos novos), quando não conseguiam resistir aos sofrimentos da viagem, tinham como destino final uma vala comum onde seus corpos eram depositados e incinerados. Os vestígios arqueológicos do Cemitério dos Pretos Novos foram descobertos nos anos 90 por Merced e Petroccio, durante uma obra de reforma em sua casa na Rua Pedro Ernesto. Durante alguns anos lutaram praticamente sozinhos pelo reconhecimento da importância histórica e arqueológica da descoberta, e criaram no local o Memorial dos Pretos Novos. As pesquisas arqueológicas desenvolvidas no local comprovaram a predominância, entre os escravizados recém chegados no Valongo, de mulheres e homens muito jovens, em sua maioria oriundos da África Central, das regiões de língua bantu.

Hoje amplamente reconhecido por sua importância histórica e arqueológica, o Instituto se organiza como local de memória, mas também como Centro Cultural. Organiza visitas guiadas pela região com o historiador Claudio Honorato, autor de um dos principais trabalhos sobre o mercado de escravos do Valongo, e mantém uma agenda cultural diferenciada e criativa. Dia 25 tem palestra, exposição, música, gastronomia. Um dia inteiro de atividades culturais.

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pretos novos

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junho 22, 2014 · 16:19

Sob as pedras do Cais: Tragédia e Milagre

Nem só de futebol vive o Rio. A palestra de Hebe, no próximo sábado, na roda dos saberes do Projeto O Porto Importa, revisitará a complementariedade entre os pontos de vista de Martha e Hebe, no debate na UFF sobre o filme 12 anos de escravidão, apresentada no último post. E também alguns dos temas abordados no texto Memória e Cidadania no Complexo do Valongo.

O Cais do Valongo, onde chegavam os sobreviventes da travessia forçada do Atlântico para serem escravizados no Brasil, e o cemitério dos Pretos Novos, onde os que morriam na chegada conheciam sua última morada,  locais alternativos para a palestra (em caso de sol ou chuva) memorializam a tragédia da escravidão atlântica – que não pode ser esquecida. Mas estes lugares de memória celebram igualmente o milagre da emergência da cultura negra no Atlântico, e no Rio em especial, que tem, na região portuária, um lugar de referência e, na roda de capoeira do Valongo, um momento de celebraçao mais que especial. Sob as pedras do cais estão presentes também a memória da antiga “Pequena África” no início do século XX, do nascimento do samba, das mais antigas casas religiosas de matriz africana da cidade. A roda de capoeira do Valongo celebra a cada terceiro sábado do mês esta rica herança cultural. Quem quiser saber mais, é só aparecer por lá.

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junho 15, 2014 · 19:09

12 Anos de Escravidão _ um debate entre historiadores

Semana agitada, post atrasado. Hebe retornou terça passada (3/6) ao Rio, enquanto Martha prepara o fim do semestre letivo na UFF, que deve acabar antes do início da Copa do Mundo. Mas a conversa da semana já estava marcada pelos alunos de história da UFF, um debate na quarta (4/6), no auditório do ICHF, com mais três colegas do Departamento de História, pesquisadores da história social da escravidão no Brasil ou nas Américas,  após uma exibição do premiado filme 12 anos de Escravidão, de Steve McQueen. A discussão foi quente.

O debate começou com a fala de Larissa Viana, professora da área de História da América, especializada na história da escravidão e do abolicionismo nos Estados Unidos. Em dez minutos esclarecedores, Larissa traçou o contexto do livro que deu origem ao filme, o relato de Salomon Northup, publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1853, no contexto de relatos de ex-escravos levados a público com o apoio do movimento abolicionista, e que se tornaram grandes sucessos, formatando um gênero literário. O quanto expectativas do movimento abolicionista do Norte e seu público interferiram no texto e na narrativa original de Salomon Northup é uma das questões clássicas específicas a este tipo de literatura. Porém, enquanto a maioria das narrativas de ex-escravos relatam histórias de cativos que escaparam do sul para a liberdade no Canadá ou no Norte do país, Northup narrava uma história diferente, e bem menos registrada – a da escravização de cidadãos negros livres do Norte, vendidos ilegalmente como escravos no Sul do país.

Em seguida, Verônica Secreto, também professora da área de história da América, abordou livro, filme e historiografia, revisitando as  possibilidades de autonomia dos escravos nas sociedades escravistas e mapeando as licenças narrativas do filme em relação ao livro que lhe deu origem.  Este último assunto  tem sido  recorrente entre os historiadores  que discutiram o filme também nos Estados Unidos. Lá, em geral, o roteiro de John Ridley e a abordagem de Steve McQueen  têm saído  bem no teste. Mesmo as polêmicas são percebidas como positivas. Com a consultoria de Henry Louis Gates Jr, o filme sublinha, por exemplo, a importância do cristianismo para a justificativa da escravidão tanto para o “bom” quanto para o “mal” senhor, o que é correto historicamente e tem ressonância política específica para o espectador do século XXI. Os críticos não deixaram de assinalar, porém, que, ao fazê-lo, o filme opta também por uma abordagem assumidamente estereotipada dos personagens senhoriais. Especialmente o primeiro senhor tem no livro uma narrativa muito mais compreensiva do próprio Solomon.

Talvez a maior polêmica causada pelo filme entre historiadores diga respeito ao papel secundário da comunidade escrava no filme, que, porém, como salientou Veronica, não deixa de estar nele representada – especialmente na reconstituição cenográfica das cabanas, das atividades cotidianas e dos cantos de trabalho, bem como na importância da família para os cativos. O filme teve locação em três plantations da Lousiana, hoje abertas à visitação, uma delas bem próxima ao lugar real onde se deu a experiência de escravização de Northup.

Hebe falou em seguida. Considerou que o maior mérito do filme era antes que a fidelidade histórica ao livro ou às pesquisas sobre à época, o caráter épico da narrativa, que fazia de Solomon Northup um personagem negro universal, com o qual os espectadores se identificavam. Com esse recurso, o filme atualizou uma analogia clássica – a da plantation com o campo de concentração nazista e a da escravidão com o holocausto, evocando a abundante filmografia hollywoodiana sobre o tema. Nas palavras do diretor, Steve McQueen, “o livro nos encantou: a dimensão épica, o detalhamento, a aventura, o horror, a humanidade. Lia-se como um roteiro de cinema, pronto para ser filmado. Eu não podia acreditar que nunca ouvira falar nele. Pareceu-me tão importante quanto O diário de Anne Frank, só que publicado quase cem anos antes.”

Para Hebe, é a escravidão como questão moral, como crime contra a humanidade, em última instância, a questão central do filme. E apesar disso, ou por causa disso, ele toca em questões historiográficas importantes, pouco frequentadas até recentemente, e que estão sendo formuladas ou reformuladas, nos Estados Unidos e também no Brasil. Especialmente, a da extensão da prática da escravização ilegal no século XIX e a da generalização do argumento racial como justificativa para a escravidão – característica que se torna essencial à escravidão atlântica exatamente no período. É quando a instituição aparentemente entrava em crise do ponto de vista moral, com o advento do abolicionismo, que o racismo se tornou seu principal alicerce.

Jonis Freire, professor de História do Brasil, pontuou diversos trechos do filme em que, apesar da ênfase da narrativa na extrema violência da plantation, a agência escrava se fazia presente, de forma bastante semelhante ao que tem sido extensamente documentado pela historiografia sobre a experiência escrava no Brasil. Destacou, por exemplo, as fronteiras fluidas entre trabalhadores escravos e livres na cena em que Solomon negocia com Armsby, trabalhador branco em situação análoga à escravidão (empregado na colheita de algodão junto com os trabalhadores negros escravizados), a entrega de uma carta sua aos amigos de Nova York. Traído por Armsby, Solomon consegue convencer o proprietário da plantation que era Armsby, e não ele, quem estava mentindo, ainda que por um preço alto ao rasgar a carta que tentava escrever.

Solomon, nascido livre e alfabetizado, não compartilha, a princípio, os códigos das comunidades cativas nas quais se vê inserido. Muitas vezes funciona como elo e mediador entre elas e os senhores.  Reduzido à escravidão pelas circunstâncias, entretanto, aproxima-se cada vez mais dos companheiros de infortúnio. Embora rápida, é especialmente emocionante a cena do funeral de um escravo, em que  canta junto com os outros cativos o legendário Roll Jordan Roll.

Martha finalizou as intervenções, quando formulou a principal questão do debate que se seguiu. Como trabalhar o filme em sala de aula do ponto de visto da delicada questão das relações raciais no Brasil? Martha está entre os historiadores que sentiram falta de uma maior ênfase na força da comunidade escrava e no protagonismo negro na narrativa do filme. Como articular o filme com o ensino da história da escravidão, quando a presença desses elementos não é evidente? Tendo em vista a ênfase da narrativa na subserviência e na extrema violência a que os cativos estavam submetidos, qual o efeito do filme sobre a autoestima e a autoimagem de adolescentes e jovens negros? Seria semelhante à (danosa e unilateral) super exposição de imagens de Debret de negros escravizados torturados nos livros didáticos? Mesmo que professores não escolham discutir o filme em sala com adolescentes e jovens,  o filme fatalmente terá chegado a eles, tendo em vista seu enorme sucesso de público, de forma que esta é uma questão importante a ser pensada e encaminhada.

A pergunta gerou múltiplas discussões e dividiu a plateia. As autoras desse blog ficaram em campos opostos, mas complementares. Hebe considerou que o filme foi produzido por um cineasta negro, um roteirista negro, com atores negros – e ganhou os maiores prêmios da indústria do cinema, inclusive o Oscar de melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante e que isto o tornava qualitativamente diferente de uma imagem de Debret, do ponto de vista das relações raciais e da auto-estima de jovens e adolescentes negros brasileiros. Reiterou novamente que Solomon Northup está construído no filme como um personagem universal. O olhar do filme sobre a escravidão não é um olhar estrangeiro, mas um olhar que coloca o espectador, qualquer espectador, na experiência do escravizado.

Para Martha, uma audiência jovem e pouco informada pode muito facilmente projetar, nos personagens do filme, situações de racismo vividas ainda hoje, por alunos negros e brancos. Para ela, a informação sobre a ficha técnica do filme, basicamente negra, do diretor ao atores, não é algo que se possa presumir que todos os estudantes que viram o filme tenham acesso, e que deveria ser ressaltada pelo professor. Também o caráter secundário, no filme, das instituições de solidariedade escrava, especialmente o cristianismo negro, e da rica tradição cultural da comunidade cativa demandam uma ação sensível e delicada do professor em sala de aula, para que estes aspectos possam se tornar visíveis nas entrelinhas da narrativa.   As intervenções dos debatedores sugeriram algumas das possibilidades dessa abordagem.

De todo modo, a própria realização do debate sugere que o sucesso estrondoso de 12 Anos de Escravidão pode ser uma ferramenta eficaz para falar do trauma que efetivamente a escravidão representa na vida brasileira. Trauma que está na base do racismo ainda vigente na nossa sociedade e que começa, finalmente, a ser enfrentado, pelas políticas de reparação e ações afirmativas recentemente implantadas em nosso país.

Aqui, o debate, no youtube! Parabéns e agradecimentos especiais a Nubia Aguilar.

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