Arquivo da categoria: historiografia

A “insurreição dos hipócritas”: base social e ideologia. Sidney Chalhoub

As historiadoras futuras da Bruzundanga haviam passado a semana a matutar sobre cousas que tinham lido a respeito das mulheres daqueles tempos interessantes, vários milênios antes do Apocalipse. Não acabavam de entender o que significavam aquelas palavras: “recatada”, “do lar”, “bela”. Havia também uma matéria enigmática, sobre ataque de nervos ou de histeria de mulher em cargo de poder. Jamais tinham visto tais adjetivos pespegados em pessoas como elas próprias. Não logravam saber ainda o que aquilo tudo significava quando uma delas saltou para trás, ao ler o título de um texto de época: “Aufstand der Scheinheiligen” (Der Spiegel), ou a “insurreição dos hipócritas”. A língua germânica havia desaparecido havia muito, mas sobrevivera a fama de seriedade dos alemães. Por isso espantava aquele título de matéria sobre a votação do impichamento da presidenta da Bruzundanga na câmara baixa do parlamento.

Curiosas por vício do ofício delas, as historiadoras seguiram a pista. Acharam de pronto um documento jurídico de erudição supimpa, na qual acusadores dum ex-presidente que era também um ex-operário citavam a parceria de dois filósofos alemães, Marx e Hegel, na autoria de escritos mui subversivos. Uma delas identificou, no douto parecer, um erro de ortografia de somenos importância no nome de um dos filósofos; no entanto, o que importava era a constatação de que na Bruzundanga se conhecia a excelsa filosofia teutônica. Logo adiante, eis que surge um provérbio popular: “Die dümmsten Bauern ernten die dicksten Kartoffeln”, que quer dizer mais ou menos o seguinte: “Os camponeses mais estúpidos colhem as maiores batatas”. Estupor geral. Todas gritaram ao mesmo tempo:  “Ao vencedor, as batatas!”, “Quincas Borba!”, “Machado de Assis!”. Atordoadas, porém de novo esperançosas, reabriram o grosso volume comentado das Memórias póstumas de Brás Cubas, o tratado-mór de sociologia bruzundanguense.

Machado de Assis, estudante de alemão, surrara o dicionário para ler o artigo do Der Spiegel e empacara numa passagem dele, na qual se dizia… As leitoras sabem alemão? Eu tampouco, mas aqui vai outra algaravia dos infernos: “ein großer Teil der brasilianischen Gesellschaft strukturell konservativ gesinnt ist”. Quer dizer, a “insurreição dos hipócritas” tornara-se possível devido ao apoio que recebera de parte da sociedade bruzundanguense “estruturalmente conservadora”. Num achado de endoidecer críticos literários de qualquer tempo, as historiadoras reconstituíram uma passagem riscada nos manuscritos das Memórias póstumas, em que Machado de Assis, num posfácio, afirmava que um de seus objetivos no volume fora destrinchar a ideologia da classe brascúbica, a base social dos insurretos da câmara baixa.

Foram vários dias de releitura lenta das Memórias póstumas, de insônia, de descobertas horripilantes, até que as historiadoras do futuro elaboraram um esquema das principais ideias do golpe de abril de 2016, conhecido nos anais históricos da Bruzundanga como “A Grande Usurpação”. Ficaram tão estupefatas com suas descobertas que decidiram escrever um livro sobre o tema. Aqui vai o breve roteiro dos capítulos, que me trouxeram em mãos:

Capítulo I: Misoginia. Nos capítulos iniciais das Memórias, Brás Cubas, o defunto autor, narra a sua própria morte. Num deles, “O delírio”, revela ao mundo as suas alucinações mentais nos instantes derradeiros. Montado num hipopótamo, Brás Cubas é forçado a viajar até “à origem dos séculos”. Após devorar muito caminho, o animal estaca numa imensidão branca e gelada, silenciosa como o sepulcro. Eis que surge “um vulto imenso, uma figura de mulher… fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano”. A mulher diz se chamar “Natureza ou Pandora”, e completa em voz tonitruante, seguida de uma gargalhada fenomenal: “sou tua mãe e tua inimiga”. Em certo momento, afirma o narrador, Pandora “estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma”. Indefeso, frágil, Brás implora pateticamente por um minuto a mais de existência. A grande mãe Natureza responde com um desdém do tamanho de todos os séculos: “Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada”. O temor visceral e primitivo de Brás pelas mulheres, o seu receio de ser dominado por elas, é metáfora da monomania ou patologia social da classe brascúbica diante de mulheres livres e insubmissas, como a presidenta da Bruzundanga. Desesperados, unem-se para combatê-la, como se vê pela súcia variadíssima de sujeitos engravatados e lúgubres sempre a cercar a presidenta. Será possível desenvolver o tema por meio do cruzamento de várias fontes, como, por exemplo, aquela faixa de uma manifestação popular: “Quando a mulher é livre, os marmanjos surtam”.

Capítulo II: Racismo. Brás Cubas se considerava o maior fodão com as mulheres (pedimos desculpas aos homens de épocas remotas da Bruzundanga, que sabemos mui recatados, mas não há jeito melhor de descrever as ilusões brascúbicas diante das personagens femininas). Uma de suas conquistas chamava-se Eugênia, “a flor da moita”. A menina era filha de dona Eusébia e de Vilaça, homem casado e sisudo (segundo O Sensacionalista, 97% dos parlamentares que citaram deus e a família em seus discursos de voto pró-impichamento têm amantes, alguns deles até mesmo concubinas teúdas e manteúdas), num caso extraconjugal que fora objeto de uma travessura de Brás na infância. Os namorados clandestinos trocaram um beijo atrás da moita, visto e denunciado pelo menino, dando a Brás a ideia da alcunha citada acima, de “flor da moita”, que atribuiu à pequena. Eugênia foi a única mulher por quem Brás teve uma inclinação séria, sentindo-se de fato ameaçado pela possibilidade de amá-la. Diante de semelhante perigo, o mancebo reage com determinação viripotente. Numa série de agressões, ele debocha do defeito físico da menina, que era um pouco coxa de nascença: “O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”. Além da obsessão brascúbica com o belo feminino, que a passagem permite explorar, dela se segue o episódio do beijo de Brás em Eugênia, durante o qual o maganão pensa “na moita, no Vilaça, …a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”. Em ritmo vertiginoso de alusões irônicas, Machado de Assis faz com que Brás veja Eugênia, cujo nome significa “a bem-nascida”, como naturalmente inferior, logo imprópria para casar com ele, relacionando-a inclusive com uma borboleta preta que acabara de matar em seu quarto, a golpe de toalha: “Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava o cérebro”. A negritude da borboleta e o defeito físico da menina se articulam na cabeça de Brás, resultando no projeto de eliminação desse Outro indesejável ou incômodo. O tema está ligado a vários eventos contemporâneos da Bruzundanga, como a reação brascúbica às políticas de ação afirmativa e à vinda de médicos cubanos ao país. Ele pode ser explorado por meio da análise de muitas fotos e faixas de manifestações populares, como esta: “A casa grande surta, quando a senzala vira médica”.

Capítulo III: Privilégio e ódio de classe. Brás Cubas achava que a sua condição de proprietário de cousas e gente escravizada tinha origem na natureza, era assim porque tinha de ser. O seu filósofo preferido, Quincas Borba, resumiu certa vez o modo de ver o mundo da classe brascúbica, no que tange ao seu suposto direito natural de explorar o trabalho dos outros, em especial dos negros, para sempre. Ao almoçar, trinchando uma coxinha de frango, Quincas Borba diz assim: “Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o único fim de dar mate ao meu apetite”. Que maravilha! O mundo inteiro conspira para que o coxinha trinche a coxinha! A imagem se completa numa espécie de antropofagia de classe, pois a grã-finagem brascúbica, paradoxalmente, parece ter certo prazer mórbido na extinção daqueles cujo trabalho produz tudo o que podem usufruir. Quando dona Plácida, criada de Virgília, alcoviteira de seus amores com Brás, está à morte, Brás faz a seguinte reflexão: “Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro… morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara”. Em seguida, Brás se pergunta se houvera alguma justificativa para a  existência de dona Plácida. Responde assim: “adverti logo que, se não fosse D. Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervescência; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plácida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho há absoluto nesse mundo?”.

Capítulo IV: Corrupção. Como é sabido, a classe brascúbica teve origem no maior caso de corrupção da história da Bruzundanga, cousa nunca jamais vista, antes ou depois em qualquer época, até o fim dos tempos. Nem o hipopótamo do delírio de Brás seria capaz de levá-lo a outras terras tão gélidas e sombrias. Mais de setecentos e cinquenta mil africanos foram escravizados ilegalmente e introduzidos no país por contrabando entre 1831 e 1850. A expansão do café, donde vem a riqueza brascúbica, surgiu da exploração do trabalho dessa gente criminosamente escravizada. Segundo a Federação das Indústrias da Tucanolândia (província mais rica da Bruzundanga), em informação que oferecemos aqui num furo de reportagem histórica, “O país tem o dever moral, político e econômico de aprofundar ações afirmativas destinadas a reparar esse crime contra a humanidade. Todos os nossos recursos ficam doravante à disposição do Estado bruzundanguense para tal fim”. Apesar desse fato novo e alvissareiro, Machado de Assis demonstra, em sua obra seminal, que a classe brascúbica tem o costume de perdoar os atos de corrupção em suas fileiras. No romance, a personagem do traficante de escravizados é simbolizada pela figura de Cotrim, cunhado de Brás, torturador de africanos. No entanto, Brás se mostra bastante compreensivo com o seu parente: “Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades…”. A última frase é promissora, pois indica uma relação íntima entre corrupção e instituições religiosas.

Capítulo V: Desfaçatez. Ah, que tema inesgotável! Já escrevemos sobre ele. Todavia, não há como resistir aos fatos recentes, desta semana mesmo, logo em seguida à votação do impichamento da presidenta na casa baixa do parlamento. Observadores externos à Bruzundanga, finalmente atentos aos sentidos profundos do que acontece no país, ficaram alarmados com o desfile de nulidades parlamentares do último domingo, a votar em nome do pai, do filho e do espírito… Machado de Assis, noutro texto que ainda teremos de estudar a fundo, interpretou o episódio como manifestação da “Igreja do diabo”, sugerindo pois que havia naquilo o espírito de Satanás. A repercussão de tal pândega lá fora provocou a ida imediata ao exterior dum aliado d’O Grande Usurpador, alcunha popular do vice-presidente da Bruzundanga. Que espetáculo curioso, ver aquele sujeito do partido da ave de bico comprido, representando o vice-presidente do partido que está sempre no poder (apesar de nunca ter ganho eleição para presidente), mui perfumado, engomadinho, respeitabilíssimo, a explicar para o Tio Sam que o ovo não é um ovo e que o círculo é quadrado. Provocou hilaridade em uns, e noutros aquele sentimento da vergonha alheia. Que situação! O importante, todavia, é tentar manter as aparências. O pai de Brás Cubas disse certa vez ao filho: “Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios…”. Que divertida a percuciência machadiana! Privilégios da “posição”, dos “meios”, valimento pela opinião dos outros… Dizem que Machado de Assis escreveu essas linhas inspirado num documento histórico curiosamente chamado “Uma ponte para o futuro”, que, dizem, foi o GPS utilizado por aquele hipopótamo do delírio, a galopar com Brás de volta ao passado mais longínquo.

As historiadoras terminaram o roteiro de seu livro horrorizadas: misoginia, racismo, ódio de classe, corrupção, desfaçatez. De fato, “ao vencedor, as batatas”. Fica melhor em alemão: ” Die dümmsten…” (o resto como apareceu acima).

P.S.: Agradeço ao meu Bruder baiano, João Reis, por sugerir a leitura da matéria do Der Spiegel e por me enviar o provérbio alemão.

Screen Shot 2016-04-23 at 9.43.07 PM

4 Comentários

Arquivado em historiografia

Desfaçatez de classe. Sidney Chalhoub

Os futuros anais históricos da Bruzundanga contarão admirados as efemérides daqueles remotíssimos dias de março de 2016. No quarto dia daquele mês, sexta-feira aziaga, certo juiz da roça, um tanto guapo, outro tanto aloprado, prendeu por um dia um ex-presidente da república que era também um ex-operário. O acontecimento espetacular acelerou a história.

 As duas semanas seguintes foram um deus nos acuda. O juiz da roça, ao que se dizia um simpatizante do partido da ave de bico comprido, bisbilhotou e divulgou ilegalmente conversas de autoridades diversas, até mesmo da presidenta da Bruzundanga. O magistrado de província justificou os atos que praticara à revelia da lei como decorrentes da elevadíssima estatura moral de sua pessoa e de seus propósitos. Tais escutas telefônicas, consideradas de gravidade ímpar por parte da imprensa que as considerou de gravidade ímpar (sic), tinha como objetivo conclamar a massa dos cidadãos parrudos da república a ir para a rua e mostrar a sua cara.

Eles foram. Carregaram cartazes com a cara do juiz da roça, que não coube em si de contente e filosofou, mui profundamente, sobre a sabedoria das ruas e a necessidade de ouvi-las. Era preciso derrubar o governo da Bruzundanga. Dirigentes do partido da ave de bico comprido e do partido que nunca está fora do poder reuniram-se para planejar o novo governo, nomear ministros, pactuar o aprofundamento da política econômica em curso, que não vinha dando resultado, o que comprovava a excelência de sua concepção.

Uma sumidade do partido da ave de bico comprido acalmou os políticos que seriam depostos, perseguidos pelo juiz da roça e enviados para o calabouço. Explicou mui serenamente que o novo governo não seria vingativo. Um magistrado da Altíssima Corte do país tagarelava todos os dias, em entrevistas à mídia, a respeito de como julgaria os processos que ainda lhe chegariam à mesa para julgar (sic). Num último lance genial, uma espécie de cereja do bolo, um ex-presidente que era também um ex-intelectual, muito indignado com a possibilidade de o ex-presidente que era também um ex-operário ocupar uma pasta ministerial, sentenciou: “analfabeto não pode ser ministro”.

Que tempos memoráveis! Machado de Assis, intérprete-mor da Bruzundanga, escreveu um livro, chamado Memórias póstumas de Brás Cubas, que consistiu numa espécie de tratado de interpretação sociológica das duas semanas da história da Bruzundanga, naquele ano de 2016, decorridas entre o quarto e o décimo oitavo dias de março. Em tal compêndio de sapientíssima hermenêutica do repertório simbólico da sociedade bruzundanguense, o autor formulou o conceito de descaramento ou desfaçatez de classe.

Autor genial e complexo, Machado de Assis só teorizava por meio de alegorias, ou por linhas tortas, que é um jeito mais simples de dizer a mesma cousa. Por isso inventou Brás Cubas, outro guapo da história pátria, narrador e protagonista das Memórias. Brás Cubas não era um autor defunto, mas um defunto autor. Quer dizer, ele decidiu contar a própria história depois de morto, enviando os capítulos, direto do além-mundo, por correio sideral. A circunstância de morto dava ao autor daquelas páginas uma desenvoltura primorosa: “Agora… que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo”; e se o livro, “fino leitor”, “te não agradar… pago-te com um piparote”, que, ao que parece, era como se dizia “peteleco” naquela época.

Por conseguinte, o primeiro elemento constituinte do conceito de desfaçatez de classe é o transbordamento de autoconfiança, ou o impudor radical, que passa a guiar as atitudes de Brás Cubas e seus semelhantes. Podem “confessar tudo” o que pensam e fazem. Brás Cubas foi sujeito rico, dono de propriedades no Rio de Janeiro imperial, senhor de escravos, entre eles Prudêncio. Este era “um moleque de casa”, “o meu cavalo de todos os dias”; “punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o”. Se Prudêncio reclamasse, Brás retorquia: “Cala a boca, besta!”.

Brás Cubas sofria de monomania em relação às mulheres. Ele organizou a sua narrativa em torno das personagens femininas de sua vida, desde Pandora ou a mãe Natureza, que lhe aparecera no delírio derradeiro antes da morte (ou no momento do nascimento do defunto autor), até Virgília, passando por Eugênia, Marcela, dona Plácida etc. Dona Plácida foi uma criada da família de Virgília, que se tornou depois alcoviteira dos amores clandestinos desta senhora com o memorialista.

Brás se perguntou certa vez sobre a utilidade da vida de dona Plácida, queria desvendar o porquê de sua vinda ao mundo. Chegou à seguinte conclusão: “para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital”.

As historietas de Prudêncio e dona Plácida encapsulam o segundo elemento constitutivo do conceito de descaramento ou desfaçatez de classe. A desfaçatez de classe acontece quando a classe brascúbica, uma vez achacada de crise de despudor, como ocorreu na Bruzundanga naquelas memoráveis Jornadas de março de 2016, destampa ao mundo os mais recônditos segredos de sua maneira de ver as cousas, segundo a qual negros, mulheres e pobres existem para ralar ou empurrar traquitanas enquanto o patronato chiquérrimo vocifera, à beira-mar, contra a presidenta eleita.

Brás Cubas articulou teoricamente a ideia, central ao conceito sociológico de desfaçatez de classe, de que as desigualdades ou injustiças sociais são parte necessária da paisagem, assim como as montanhas, os rios e as praias: “Outrossim, afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares”.

Quiçá o momento analiticamente mais promissor das Jornadas de março de 2016 tenha sido o comentário do ex-presidente que era também ex-intelectual, de que “analfabeto não pode ser ministro”. A concisão dialética da frase é notável. Ao decifrá-la à luz do conceito de desfaçatez de classe, temos uma visão de mundo construída por metáfora, ou pela transposição do sentido próprio ao figurado. Assim, “analfabeto” significa a maioria da população da Bruzundanga, cujo lugar social, em respeito à tradição, deve permanecer o mesmo na longa duração histórica, com tendência ao infinito. Já “ministro” é fórmula abreviada de dizer classe brascúbica, conforme a definição de Machado de Assis (op. cit., passim).

Um participante das manifestações de 18 de março, contrárias ao impedimento da presidenta, foi às ruas com um cartaz no qual criticava a tese de Machado de Assis a respeito da desfaçatez de classe, por considerá-la desnecessariamente hermética. Segundo o manifestante, a crise política da Bruzundanga se resumia ao seguinte: “Quando a senzala aprende a ler, a casa grande surta”. Isso escrito em letras garrafais, o que é uma maneira de vencer no grito, e Machado de Assis era gago, o que de antemão deu ganho de causa ao crítico popular.

Os anais históricos da Bruzundanga guardam um enigma. Os historiadores não descobriram o que aconteceu depois das Jornadas de março. Uns dizem que as duas semanas de desfaçatez de classe demonstraram o poder invencível da classe brascúbica, logo o impedimento da presidenta era fait accompli, favas contadas. Outros, adeptos de ver as cousas por meio de velhos adágios populares, sustentaram que “a cura veio pelo excesso do mal”. O descaramento de classe suscitou o demônio rubro da resistência, quer dizer, a virada satânica da história.

Outra personagem popular, cheia de ouvir tanta teoria, recorreu ao tesouro de sabedoria do esporte bretão e acabou com esta crônica: “o jogo é jogado, e só acaba quando termina”.

Screen Shot 2016-03-25 at 10.39.21 AM

11 Comentários

Arquivado em historiografia, Pos-abolição

A história como hiper-ficção. Sidney Chalhoub

(Sidney Chalhoub, historiador da Universidade de Harvard e da UNICAMP, enviou este texto para divulgação na sexta feira, 18 de março)

Itaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens. Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos. O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade. Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam. Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.

Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga. Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas. Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João. O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro. Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.

O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação. Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela. No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado. A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga. Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.

Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário. De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI. De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.

Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio. Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?

P.S. A semelhança entre Simão Bacamarte e um determinado juiz de província do Brasil atual me foi sugerida por um amigo aqui de Harvard, a quem agradeço pela inspiração. Obrigado a todos aqueles que sairão às ruas, neste 18 de março, em defesa da democracia.

#VemPraDemocracia

Fotos do Album de Felipe Altenfelder

Manifestações pela democracia, em defesa do mandato de Dilma Roussseff, em 18/3/2016 em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Rio Branco, Porto Alegre, Curitiba e Brasília

sao paulorio de janeirofortalezareciferio brancoporto alegrecuritibabrasilia

 

3 Comentários

Arquivado em historiografia, Pos-abolição

Preocupante Semelhança?

Durante o segundo semestre de 2013, em função da minha pesquisa sobre o engenheiro abolicionista André Rebouças, eu lia diariamente exemplares das edições mensais de um periódico publicado em Nova York, por um jornalista brasileiro, do qual André foi ativo colaborador. O Novo Mundo registrava notícias dos Estados Unidos para o Brasil durante a década que se seguiu à guerra de secessão americana.

No antigo sul escravista derrotado, o período conhecido como “Reconstrução Radical” (1865-1877) foi pioneiro em reconhecer direitos civis e políticos aos ex-escravos tornados livres com a vitória da União. Muitos se alfabetizaram, participaram politicamente em seus locais de moradia, votando e sendo eleitos, junto aos políticos republicanos radicais oriundos do Norte do país. As conquistas sociais realizadas neste curto espaço de tempo são impressionantes e preenchem as melhores páginas da historiografia social e política sobre o pós-emancipação nos Estados Unidos.

No entanto, o movimento fracassou, graças principalmente à eficácia de um discurso de fundo aristocrático, construído a partir da manipulação seletiva de uma série de casos de corrupção, segundo o qual toda a ação política dos libertos e o idealismo republicano eram uma simples fachada para a ação criminosa de um grupo de aventureiros corruptos que enganavam ex-escravos desinformados. Esta leitura foi depois potencializada pela memória, associou-se ao chamado “racismo científico” do final do século XIX, e progressivamente foi corroendo as conquistas dos libertos, ainda pouco sedimentadas, resultando em leis de segregação racial em todo o Sul a partir dos anos 1890, que durariam até a segunda metade do século XX.

Todo este projeto foi glamourizado em um dos filmes pioneiros da indústria do cinema americano, um ícone da ideologia da supremacia branca, o conhecido The Birth of a Nation (Griffth, 1915), em que os cavaleiros da Ku Klux Klan são os heróis que salvam a América.  Apesar de repugnante em sua mensagem, o filme é uma aula sobre os riscos de processos como o que venho de relatar. E como eles podem ser duradouros. Ainda em 1939, de uma forma menos explícita, a interpretação de Griffth continuava forte e presente no famoso Gone With the Wind (E o Vento Levou), dirigido pelo trio Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood. Neste ano de 2016, Nate Parker lançou, nos Estados Unidos, um novo filme com o mesmo título, The Birth of a Nation,  contando a história da rebelião negra de Nat Turner, na Virginia, em 1831. O filme ganhou o festival de Sundance e fez o país do filme do passado e o do presente dialogarem. Voltarei a ele em um próximo post, mas hoje, é a tragédia anunciada da Reconstrução Radical que me mobiliza a escrever.

Através das páginas de O Novo Mundo, acompanhei o dia a dia da tragédia que se anunciava e as semelhanças com o que eu ouvia no Brasil do século XXI, então em acirrada campanha eleitoral, muitas vezes me preocuparam. Uma versão muito próxima dos parágrafos acima abriam um texto que publiquei durante a campanha eleitoral de 2013. Na última sexta feira, quando eu me preparava para escrever o post da semana, o espetáculo midiático da condução forçada do ex-presidente Lula a depor no aeroporto de Congonhas me fez mais uma vez lembrar do primeiro The Birth of a Nation e a temer, mais que nunca, pelas muitas conquistas democráticas que o país obteve desde a Constituição de 1988.

HistoriadorAs

Quando decidimos abrir o formato do blog, uma das motivações foi exatamente poder trazer perspectiva mais autoral para alguns dos textos. É o caso da minha convicção e preocupação pessoais em como, desde o início, têm sido apropriadas, espetacularizadas e partidarizadas as investigações da operação lava jato. Na semana do dia internacional da mulher, porém, aproveito também para compartilhar, com minhas colegas de conversa, uma breve reflexão sobre outros sentidos do novo formato. Porque foi assim meio por acaso, enquanto eu e Martha pensávamos sobre possíveis colaboradoras para o blog, que nos demos conta que o fato de termos nos assumido no feminino nas conversas tinha se tornado uma marca essencial do blog. Por que conversa de historiadorAs e não conversa de historiadorXs?

A crítica às vulgarizações do pensamento de Gilberto Freyre, sobretudo o chamado mito da democracia racial que ele ajudou a disseminar, tornou-se bandeira política dos movimentos negros após 1970. Mas a universalidade da obra de Freyre, principalmente em Casa Grande e Senzala, está exatamente na identificação explícita que o autor faz do lugar de que ele fala. Em Casa Grande e Senzala, “todo brasileiro” traz na “alma” e/ou no “corpo” a “sombra do indígena ou do negro” … porque teria sido “embalado por uma mucama negra” ou sido iniciado sexualmente “no amor físico” por uma “mulata”, e também por que teve um “muleque” como companheiro. O brasileiro de Freyre era homem, ex-senhor de escravos e branco. E por que nos fala com brilho da relação deste brasileiro com o mundo que o cercava, e que a modernidade ameaçava destruir, Casa Grande e Senzala envelheceu sem perder poder explicativo. Sempre leio Freyre com as minhas turmas de graduação, e como na leitura de O Novo Mundo, sempre nos perguntamos ao final do livro, o quanto daquele mundo ainda permanece?

As historiadoras têm papel importante na historiografia produzida nas universidades brasileiras desde o seu início. Alice Canabrava, Eulália Lobo, Katia Mattoso, Maria Yedda Linhares são nomes que estão na fundação do campo acadêmico do profissional de história no Brasil. Quase todas elas, mulheres brancas de classe média ou alta.  Ainda hoje, uma olhadinha na lista de pesquisadores do CNPq na área de história nos apresenta uma alta proporção de mulheres. Impressiona o equilíbrio de gênero entre os profissionais da área, talvez sinal de um relativo desprestígio da profissão.

Apesar disso, tirando o campo específico dos estudos de gênero, a escrita historiográfica feminina raramente foi problematizada enquanto tal. As mulheres historiadoras tem procurado, em sua maioria, uma escrita comprometida com a neutralidade científica, produzida como a fala de um sujeito universal. Trabalhamos, nós historiadoras, pelo menos as historiadoras brancas de classe média e alta até a minha geração, no mais das vezes, com a ilusão do universalismo. À exceção da historiografia feminista sobre gênero e história das mulheres, é claro. E talvez por isso os  estudos de gênero permaneçam como um campo a parte, ainda isolado na disciplina da história. Convido então os leitores a revisitar os textos das historiadoras brasileiras, pensando em seus lugares de fala e em como esses lugares influenciaram suas perguntas. Creio que poderemos ter boas surpresas com uma releitura delas a partir dessa perspectiva.

Foi a experiência do blog, com seis historiadoras de diferentes gerações, origens e lugares de fala, que  me fez enxergar isso. E com essa constatação, chego a pensar, de forma otimista, que talvez as minhas preocupações do início do texto não tenham fundamento. Na experiência democrática brasileira dos últimos anos, o mundo patriarcal de Gilberto Freyre pareceu realmente estar mudando e o  novo mundo, buscado por André Rebouças, nunca pareceu tão próximo.

(Na foto, da esquerda para a direita, HistoriadorXs NegrXs no Simpósio Nacional da ANPUH 2015; Alice Canabrava, Eulália Lobo, Katia Mattoso, Maria Yedda Linhares)

 

IMG_5141

 

 

7 Comentários

Arquivado em história pública, historiografia

A cegueira da TV Globo

Na terça feira gorda de carnaval, pela manhã, terminei de assistir ao desfile da Imperatriz e da Mangueira e continuei com a mesma sensação desagradável da véspera.  A cobertura da TV Globo havia se superado em termos de mediocridade – e desde domingo.  Entrei no facebook e encontrei alguns textos de historiadores que ajudavam a pensar. Paulo Cavalcante foi categórico: “A cobertura da Globo é um atentado contra a cultura brasileira”. Era isso mesmo. Rapidamente coloquei minha raiva no papel e postei no face um texto, denunciando a cegueira da TV Globo.

Não tenho muitos elementos para entender por que os desfiles desse ano foram tão especiais, mas foram.  Vi muita coisa maravilhosa acontecendo nas escolas. Lá estavam ícones religiosos e musicais da cultura afro-brasileira, como os Exus e as pombas giras, divindades africanas, maracatus, sambas de roda, folias de reis e do divino; as inovações de jovens negros diretores da bateria e da harmonia, muitos deles filhos e netos dos fundadores, alas e passistas com lindas coreografias, contando, com muita beleza e orgulho, a história da população negra e brasileira. Até mesmo o Marquês de Sapucaí ficou amigo da Ciata, e logo na Beija Flor! Quem diria!  Aliás, o samba da Beija Flor é imbatível.

Lamentavelmente, a cobertura da Globo não conseguiu ver nada disso, o que revela um impressionante descaso com a cultura popular e com a história da população negra no Rio de Janeiro.  Nenhum comentário  relacionado às comunidades, seus problemas (como UPPs e  intolerância religiosa), suas vitórias, seus  fundadores, lideranças, sambistas, alas e histórias.  As escolas de samba, nas transmissões da TV Globo, não parecem pertencer ao Rio de Janeiro.

E logo nesse ano que estamos comemorando os 100 anos do samba no Rio de Janeiro, ao menos o que foi registrado por Donga e gravado em 1916 pela Odeon. A Globo não tem a mínima ideia das várias iniciativas que estão sendo feitas pelas próprias escolas de samba para registrarem suas memórias, como na Vila Isabel e no Salgueiro, e construírem um acervo que valorize seus projetos educacionais e culturais. A Mangueira reúne hoje o maior centro de documentação sobre o samba, o Centro Cultural Cartola,  e  o Museu do Samba. Vale a visita.

Vida longa às escolas samba!  Elas são uma das mais antigas instituições brasileiras e fazem parte de um dos nossos maiores patrimônios culturais, reconhecidos, pelo IPHAN, em 2007, no Livro de Registro das Formas de Expressão, em nome das matrizes do samba carioca: samba de partido alto, samba enredo e samba de terreiro. Para se saber mais sobre a história desse patrimônio, é fácil o acesso ao dossiê que embasou o reconhecimento oficial.

Apesar da raiva e tristeza, não dá para desanimar. Hoje conhecemos muito mais do que a Globo consegue visualizar.  Jovens pesquisadores de diferentes áreas desenvolvem importantes trabalhos sobre a história das escolas de samba.  Se ainda precisam encontrar maior campo de atuação e visibilidade, a universidade já tem feito muito por isso.  De uma forma complementar, professores de história, como Eric Brasil, também começam a entender que o carnaval não termina na quarta feira de cinzas, com a programação da Globo.  Em seu post no facebook,  recomenda o trabalho em sala com o enredo do Salgueiro, a Opera do Malandro, pois cabe muito bem como recurso à implementação da lei 10639/03. É uma ótima estratégia de combate à intolerância em relação às religiões afro-brasileiras nas escolas.

No dia que publiquei o texto no face, registrei minhas saudades dos tempos em que  Haroldo Costa e  Leci Brandão conseguiam imprimir outros sentidos aos  lamentáveis  comentários da Globo. Hoje posso anunciar com alegria que a TV Brasil cobriu os desfiles das campeãs, com comentários super qualificados, liderados por Nilcemar Nogueira  (neta de D. Zica e Cartola, coordenadora do Centro Cultural Cartola e doutora em Psicologia Social pela UERJ) e Luiz Antonio Simas  (professor de história e autor de vários trabalhos sobre a história do samba).  Além disso, acompanhamos  entrevistas de qualidade com sambistas  e o emocionante momento do “esquenta das escolas”. Novos tempos… espero!

Obs: A TV Globo não televisionou o desfile das campeãs. Inacreditável!

__

Screen Shot 2016-02-14 at 6.46.54 PM

Screen Shot 2016-02-14 at 6.54.29 PMScreen Shot 2016-02-14 at 6.53.13 PM

61 Comentários

Arquivado em cultura negra, história pública, historiografia

Novas Conversas

 

O Conversa de Historiadoras volta renovado em 2016. Criado em março de 2014 por Hebe Mattos e Martha Abreu, durante dois anos o blog publicou basicamente textos a quatro mãos oriundos de conversas das duas historiadoras.  Em 2016, o blog se abre para novas conversas e mais textos individuais. Agora somos seis historiadoras que produziremos uma animadíssima conversa semanal. A cada domingo, um novo texto, individual ou coletivo, sobre temas de interesse do blog. Além de Hebe e Martha, Ana Flávia Magalhães PintoGiovana XavierKeila Grinberg e Mônica Lima agora são também parte do conversa de historiadoras. Confiram o Sobre e o Quem Somos para conhecer melhor o nosso novo grupo de conversas! Martha Abreu, analisando a cobertura do carnaval do Rio abrirá amanhã (domingo, 14 de fevereiro) a série de artigos. Não deixem de conferir.

Dia histórico, 13/2/2016, começando as conversas por skype, entre Rio, Niterói, Campinas e Chicago

Conversa Skype

8 Comentários

Arquivado em história pública, historiografia, Pos-abolição

Sobre a BNCC e os historiadores

(por Hebe Mattos)

É com preocupação que tenho acompanhado a reação indignada, predominante em alguns círculos historiográficos, à divulgação, para consulta pública, do texto de história da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), em elaboração no MEC. Como todos os outros textos da base, trata-se de um texto preliminar, aberto à discussão, construído por uma equipe de pesquisadores da área de ensino da disciplina em questão. Este caráter técnico do recrutamento do grupo de trabalho, efetuado a partir da expertise no campo do ensino da disciplina, tornou possível que o próprio ex-ministro da educação, professor de filosofia e ética da USP, Renato Janine Ribeiro, fosse o primeiro a fazer ressalvas públicas ao texto base de história, em sua conta pessoal no facebook.  Um comentário postado por ele teve grande repercussão na imprensa.

“O documento entregue, porém, na sua primeira versão ignorava quase por completo o que não fosse Brasil e África. Pedi que o revissem. (…) Mas o grupo que elaborava a base não entendia assim. Não havia sequência histórica. (…) Queriam partir do presente para ver o passado. No caso do Brasil, por exemplo, propunham a certa altura estudar revoluções com participação de escravos ou índios. E deixavam de lado a Inconfidência Mineira!”, escreveu o ministro.

Li este pequeno comentário, publicado na imprensa, antes de conhecer o texto completo publicado por Renato Janine. Imediatamente me lembrei da minha principal experiência com o ensino da história. Há quinze anos atrás, deixei a meio caminho a coordenação da equipe de história do Telecurso 2000, da Fundação Roberto Marinho, por desentendimentos com a direção da Fundação, que passavam pelo lugar da Inconfidência Mineira nas aulas de história e por um suposto ‘excesso’ do tema da escravidão nas aulas propostas para a história do Brasil. A crítica me soou como um convite para que eu lesse com atenção o que “o grupo que elaborava a base” estava propondo. Pareceu-me que eles podiam estar disputando os repertórios que ainda hoje compõem as narrativas canônicas da história brasileira. Construídos quase todos, como sabemos bem, a partir de uma perspectiva racista e eurocêntrica, no século 19 ou na primeira metade do século 20. Ganhavam minha simpatia.

Eu ainda estava lendo o documento com a atenção que merece, para formar minha opinião sobre ele, quando tive acesso a uma segunda crítica, que se pretendia devastadora. A atual diretoria da ANPUH-Rio de Janeiro convocou uma jornada de estudos para discutir o texto. Já na convocação, me chamou a atenção que o GT História Indígena e o GT Emancipações e Pós-Abolição, que reúnem inúmeros historiadores do Rio de Janeiro, muitos com destacado reconhecimento internacional, não tivessem sido formalmente convidados. E mesmo o GT Ensino de História, presente à reunião, foi desconsiderado na redação do documento final, divulgado no site da Associação. A carta acabou por gerar um pequeno abaixo assinado daqueles que não se sentiam representados pelo texto, encabeçado pelos representantes do GT de ensino de história na reunião e pela minha colega Martha Abreu.

Pessoalmente, me senti profundamente incomodada com o tom dos primeiros parágrafos da carta crítica, que vaticinava que a proposta em discussão estava em flagrante “descompasso com as pesquisas historiográficas de ponta”. Concedia ao texto, apenas, “a boa intenção” de romper com uma perspectiva eurocêntrica e quadripartite do tempo histórico. Ainda que sem sucesso, pois, para os autores, “o tempo histórico é o tempo humano, o tempo da espécie humana em seu fazer-se, o Homem se reconhecendo em suas relações sociais”. Quase parei a leitura após esta frase. Pelo menos na minha área de estudos, o ser humano universalizado no masculino e com agá maiúsculo não se faz presente em qualquer pesquisa de ponta. Há muitos anos.

Voltei à leitura do documento proposto para discussão, com redobrada boa vontade. Não sei se precisamos de uma base curricular comum. Se precisamos, ela sem dúvida deve ser amplamente discutida com a comunidade de educadores, de historiadores e com a sociedade, antes de ser aprovada. Mas fico feliz que tenhamos largado para discussão a partir de um documento tão radical no seu esforço de romper com o eurocentrismo que informa a concepção de história até agora predominante no ensino de história do país. Inclusive nas nossas universidades.

Por onde recortar para apresentar aos estudantes uma história global não eurocêntrica? Do neolítico à internet, como escolher o que estudar? A entrada pela história do Brasil, espaço de inserção política do estudante, faz todo sentido no contexto de um base curricular mínima nacional. E pode ser amplamente cosmopolita, se conseguir articular de forma consistente o local, o global e o nacional.  A ênfase nas representações do passado no tempo presente também me pareceu chave interessante para propor recortes em sala de aula, capazes de ajudar o professor a problematizar as noções de tempo e de historicidade, matérias primas da disciplina da história. Os usos do passado no presente são também ferramenta eficaz para elencar conteúdos programáticos anteriores à colonização portuguesa no Brasil, problematizando legados filosóficos, artísticos ou religiosos fortemente presentes na contemporaneidade. No conjunto, porém, parece-me necessário precisar mais quais contextos, em cada uma das fases do aprendizado, permitirão refletir sobre a dimensão temporal da história humana, bem como sobre a alteridade entre épocas e culturas.

De fato, concordo com algumas das críticas elencadas pelo ex-ministro Janine ou pela carta da ANPUH-Rio, apenas me parece que elas devem ser dirigidas aos especialistas que vem trabalhando o documento, para que a proposta seja aperfeiçoada. No texto apresentado, em especial na proposta de ensino médio, o esforço de se libertar da organização eurocêntrica da história resultou, em grande medida, em uma dificuldade de abordar historicamente a centralidade da expansão europeia para a própria construção de uma “História do Brasil”. A incorporação da noção de história Atlântica, articulando América, Europa e África, a partir da expansão marítima e comercial europeia, pode ser uma chave de leitura eficaz para superar o problema. Algum investimento na interdisciplinaridade com a filosofia e a sociologia me parece também fundamental.

A ideia de fazer uma base nacional curricular mínima é em si bastante problemática. Pessoalmente, não gosto da ideia. Currículos mínimos pressupõem consensos mínimos sobre o que deve ser ensinado e isso não é fácil. E também não é estritamente técnico. Em nenhuma área. Nas ciências humanas mais do que nas outras.

Por outro lado, o grupo que elabora a base foi recrutado entre os especialistas em ensino de história, campo que teve importante desenvolvimento nos últimos anos. É uma área que vem pensando há anos como ensinar a história, para quem estamos ensinando história e para que serve a história ensinada. Seus especialistas estão fortemente embasados no que de melhor tem acontecido nas salas de aula do ensino básico e das universidades na matéria. O MEC mostra-se consciente do caráter preliminar da proposta apresentada – e da delicadeza política da missão, o que é bastante auspicioso. A base está aberta para críticas e comentários em um site específico, e diversos historiadores, nacionalmente reconhecidos e com interface com o campo do ensino da história, de diversas áreas, foram convidados a atuar como leitores críticos, conforme adiantou o ex-ministro Renato Janine e relatou Martha, em carta divulgada em sua conta pessoal no facebook. Outros historiadores e nossas associações serão todos ouvidos. Pessoalmente, redigi uma pequena contribuição sobre o texto, que pode ser acessada aqui.

Com as tensões teóricas e políticas inevitáveis à decisão de construir um currículo mínimo nacional, e tendo em vista a obrigatoriedade legal de abordar a história indígena, da África e da cultura afro-brasileira, o trabalho me parece estar muito bem encaminhado.

Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 2015

Hebe Mattos

Captura de Tela 2015-12-02 às 01.50.46

 

7 Comentários

Arquivado em historiografia

Livros imperdíveis!

A diva do teatro brasileiro, Ruth de Souza, ganhou uma biografia que faz diferença, escrita por Júlio Cláudio Silva, professor da Universidade Estadual do Amazonas e historiador apaixonado pela profissão: Uma estrela negra no teatro brasileiro. Relacões raciais e de gênero nas memórias de Ruth de Souza (1945-1952).

Captura de Tela 2015-10-16 às 13.24.56

No livro, o autor nos apresenta a trajetória de Ruth de Souza, uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, suas memórias e possibilidades de ascensão num dos mais difíceis campos profissionais para mulheres negras. O lançamento do livro no Rio foi uma festa de estrelas negras, para não ser esquecida na cidade. Clique na imagem acima para acompanhar a reportagem de Fernando Reski sobre o lançamento.

Felisberta, matriarca de quilombolas gaúchos do século 21, também inspirou um livro que ajuda a mudar o lugar das mulheres negras na historiografia brasileira, em um texto que nos oferece também um profundo mergulho sobre as complexas relações entre historia e memória: Felisberta e sua gente. Consciencia história e racializacão em uma família negra no pós-emancipacão rio-grandense, de Rodrigo de Azevedo Weimer. O livro de Rodrigo nos brinda com a história de Felizberta Severina Marques, a partir da memória de seus filhos e netos, que fizeram questão de não esquecer suas conquistas numa sociedade que oferecia poucas possibilidades para mulheres libertas no pós-abolição. Ele irá discutir e lançar o trabalho em encotro do CULTNA, na sala 508 do Bloco P do Campus do Gragoatá na UFF, no próximo dia 22 de outubro, às 15 horas.

felisberta e sua gente (1)

Ambos os textos são frutos de teses de doutorado, orientadas por Hebe e defendidas na UFF, com total apoio de Martha. Felisberta e sua gente ganhou o Prêmio PRONEX Culturas Políticas e Usos do Passado de teses e dissertações. Os livros de Julio e Rodrigo tratam da experiência de duas mulheres negras, que, cada uma a seu modo, marcaram a vida de todos que as conheceram e acompanharam suas vitórias. Transformados em livros, os dois trabalhos também são ótimos exemplos de como a pesquisa histórica recente dialoga profundamente com as lutas atuais de combate ao racismo e ao sexismo, ainda tão presentes na sociedade brasileira.

Para concluir o post, registramos também o lançamento do livro de Matthias Assunção, professor da Universidade de Essex, na Inglaterra, nosso colega e parceiro de muitos trabalhos e projetos. Finalmente a premiada tese de Matthias, defendida na Alemanhã no final dos anos 1980, com o título De Caboclos a Bem-te-vis. Formação do campesinato numa sociedade escravista: Maranhão 1800-1850,  vem a público em português.

De cablocos a bem - te -vis (2)

O trabalho é um clássico para as discussões sobre campesinato e escravidão no Brasil e também uma obra essencial para compreender a Balaiada, verdadeira guerra civil ocorrida no Maranhão, na primeira metade do século 19, que deixou intensas marcas na memória local. Num intenso diálogo entre o local, o regional, o nacional e o atlântico, o livro de Matthias nos faz entender como caboclos, escravos e libertos africanos ou seus descendentes tornaram-se protagonistas da grande rebelião.

Captura de Tela 2015-10-16 às 14.40.40

 

1 comentário

Arquivado em história e memória, historiografia

Defesa de Memorial para aprovação de novos Professores Titulares do Departamento de História da UFF

A terra vai tremer com o peso da historiografia que será passada em revista amanhã e depois no Campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, onde irá ocorrer a prova pública de progressão funcional para Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Entre os que se apresentam para a progressão, Martha Abreu, que já é titular aqui do blog. Convidamos todos a acompanhar as defesas.

Aproveitamos o post também para divulgar o email que Hebe Mattos escreveu, em resposta à nota crítica sobre a prova pública de defesa do memorial em momento de greve, publicada hoje na Coluna de Ancelmo Gois, no Jornal O Globo.

Prezado Ancelmo,
As greves nas federais se tornaram há muitos anos uma ficção sindical que atinge apenas os cursos de graduação (ainda assim, enquanto se mantém o semestre letivo, bastante parcialmente) e, infelizmente, a credibilidade da instituição da Universidade Pública, como inúmeros professores do Departamento de História da UFF têm denunciado há tempos (e não apenas Daniel Aarão Reis). Assim como as pesquisas acadêmicas ou as bancas de mestrado e doutorado, os concursos internos de progressão para Professor Titular continuam ocorrendo nas Universidades Federais de todo o país, em todas as áreas de conhecimento, amplamente noticiados e abertos a todos os professores que atendam aos requisitos da nova legislação (aliás fruto da última greve). 
Os professores que estão se apresentando à progressão para Professor Titular no Departamento de História da UFF são, cada um deles, referências da historiografia brasileira em suas áreas de pesquisa, como pode ser acompanhado em seus cv lattes ou nas defesas públicas de memorial que acontecerão amanhã e depois. As inscrições para o concurso de progressão foram feitas há muitos meses atrás. 
O mapa das atividades suspensas, e das que não o são, durante as greves nas Universidades Federais, que se prolongam indefinidamente, com garantia de salários, não produz um retrato bonito da comunidade acadêmica. Por isso, muitos se recusam a aderir a elas, por objeção de consciência. É o meu caso e de muitos outros. 
Uma nota como a da coluna de hoje, porém, repercutindo acusações baseadas em ressentimentos internos sem qualquer base de sustentação merecia consulta a mais de uma fonte. 
Atenciosamente,
Hebe Mattos
Professora Titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense

 defesas de memorial

4 Comentários

Arquivado em historiografia

O Arco do Retorno

Uma importante notícia da última semana foi a inauguração, na ONU, em Nova York, na quarta feira, 25 de março, de um monumento em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos. O monumento, nomeado como “Arco do Retorno”, foi realizado pelo arquiteto e designer Rodney Leon. Vale conferir o filme disponibilizado no site da ONU em que ele explica (em inglês) o design desenvolvido. 

Captura de Tela 2015-03-30 às 01.07.17

O monumento celebra o reconhecimento pelas Nações Unidas da escravidão atlântica como crime contra a humanidade. Em mensagem para a inauguração, Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, considerou que o Arco do Retorno irá “ajudar a curar feridas, a lembrar o passado e a honrar a memória das vítimas”.

Na mesma Nova York, no sábado, 28 de março, O New York Times comemorou os 150 anos da rendição do General Confederado Robert Lee, que marcou o fim da chamada Guerra de Secessão nos Estados Unidos, com um memorável artigo de Eric Foner, historiador da Columbia University. Recomendamos a leitura do texto, ainda que em inglês. A derrota da política de Reconstrução nos Estados Unidos, em 1877, foi uma tragédia para a democracia estadunidense que influenciou a questão racial em todo mundo ao longo do século XX. Conhecer a disputa de versões historiográficas sobre os seus significados também nos ajudar a pensar sobre a contemporaneidade do tema da escravidão atlântica, celebrada no monumento da ONU.

No Brasil, as discussões (em português) sobre escravidão e pós-abolição também têm presença importante. Na retomada do julgamento no Supremo Tribunal Federal da ação de constitucionalidade sobre o Decreto 4887/03,  que estabelece os procedimentos para titulação das terras quilombolas, de acordo com o artigo 68 do ADCT, retomada no mesmo dia 25 da inauguração do monumento na ONU, a Ministra Rosa Weber votou pela constitucionalidade.  Segundo ela: “A eleição do critério de autoatribuição não é arbitrária, tampouco desfundamentada ou viciada. Além de consistir em método autorizado pela antropologia contemporânea, estampa uma opção de política pública legitimada pela Carta da República, na medida em que visa a interrupção do processo de negação sistemática da própria identidade aos grupos marginalizados”.  O parecer pode ser consultado na íntegra. Porém o Ministro Dias Toffoli pediu vista do processo e não há previsão de retomada do julgamento. Fiquemos atentos

Sobre escravidão e pós-abolição, destacamos também a aproximação do grande Encontro Nacional da Associação  de História (ANPUH), a ser realizado em Florianópolis, entre 27 a 31 julho de 2015. O Grupo de Trabalho Nacional Emancipações e Pós-abolição, do qual fazemos parte, convida pesquisadoras e pesquisadores interessados em discutir temas como escravidão, liberdade, raça, trabalho, pós-abolição, memórias da escravidão, ensino de história e reeducação das relações étnico-raciais, a inscreverem seus trabalhos em um dos três simpósios temáticos que organiza:

Simpósio 108 – Outras paisagens do cativeiro e da liberdade: abolição, abolicionismo e pós-emancipação 
Coordenadores: Flávio dos Santos Gomes (UFRJ) e Maria Helena Machado (USP)
Espaço voltado para o debate teórico e metodológico sobre os estudos da escravidão, Abolição e pós-emancipação nas Américas.

Simpósio 112 – Pós-abolição, identidades e culturas

Coordenadores: Edinelia Oliveira Souza (UNEB) e Rodrigo de Azevedo Weimer (UNISINOS)
Espaço voltado aos estudos históricos situados em período posterior à Abolição da escravidão, com destaque para as relações entre pós-abolição e memória da escravidão.
O trabalho de coordenação do ST será dividido com Álvaro Nascimento (UFRRJ), Martha Abreu (UFF) e Hebe Mattos (UFF), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Simpósio 114 – Reeducação das relações étnico-raciais e ensino de história: diálogos possíveis, relações necessárias
Coordenadores: Maria Aparecida Lima (UFF) e Lourival dos Santos (UFMS). Espaço voltado para discussões sobre educação étnico-racial e indígena no ensino de história. O trabalho de coordenação do ST será dividido com Warley da Costa (UFRJ), Giovana Xavier (UFRJ), Amílcar Pereira (UFRJ) e Mônica Lima (UFRJ), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Fora do GT Emancipações e Pós-Abolição, mas também refletindo sobre a contemporaneidade dos estudos históricos sobre a escravidão, há ainda o Simpósio 005 – A Escravidão negra nas Américas: o antigo problema sob novas miradas, coordenado por Gabriel Aladren (USP) e Ynaê Lopes dos Santos (FGV).

As inscrições de trabalhos nos simpósios temáticos terminam nesta terça-feira, 31 de Março.

Captura de Tela 2015-03-30 às 01.12.21

1 comentário

Arquivado em história e memória, história pública, historiografia, politicas de reparação, Pos-abolição