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De novo, não!

Nestas últimas semanas,  a consciência histórica nunca se fez tão presente nas discussões políticas. A história das ameaças à democracia brasileira foi cantada em sambas,  funks, coco, rap e mpb. Registramos aqui. Clique na imagem para ver o clip. #VemPraDemocracia! #GolpeNuncaMais.

#MúsicaPela Democracia. “Não. não, golpe não! As velhas raposas querem o galinheiro…”

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“Golpe de ódio. Golpe de Dor. Golpe no tempo não sei onde estou…”

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“Não Vai Ter Golpe de Novo. Reage, reage meu povo”

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“O Morro Mandou Avisar. Se a senzala Descer Ninguém Vai Segurar…”

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“Portela Canta Pela Democracia”

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TV Poeira: “Seja Lembrado pela história”

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Homenagem do Vício à Virtude

Tentativas maniqueístas de desacreditar intelectual ou moralmente determinadas forças políticas estão na base de todos os fascismos. Infelizmente, os acontecimentos recentes no Brasil chegaram assustadoramente perto disso. Por outro lado, felizmente, os riscos do pensamento único me parecem que estão sendo superados na crise em curso. Sejam quais forem seus desdobramentos, não se farão em nome de qualquer unanimidade artificialmente construída. Estamos diante de um país politicamente dividido. Aprender a lidar democraticamente com isso é parte da solução.

Historiadores profissionais estão fortemente presentes na atual disputa política. O jogo de espelhos da história que se repete ora como farsa ora como tragédia assombrou a muitos, que vieram a público exorcizar tais fantasmas. Como escreveu meu amigo Sidney Chalhoub, em texto publicado aqui no blog, o jogo ainda está sendo jogado e eu não resisto a contar mais uma história.

A hipocrisia pode ser definida como o elogio que o vício presta à virtude e as raízes de sua presença na nossa cultura política são sabidamente antigas. Mesmo quando a estavam violando, a legalidade constitucional sempre foi celebrada pela tradição brasileira. Nem os anos abertamente autoritários do Estado Novo chegam a ser completamente exceção a esta regra. Bem antes do fim do período lá estava o ditador a criar partidos políticos, como bem nos ensina Ângela de Castro Gomes, no clássico A Invenção do Trabalhismo.  O golpe civil militar de 1964 gostava de chamar-se revolução democrática e Arena e MDB disputaram o poder em eleições regulares ao longo de todos os sombrios anos de chumbo.

Muitos remontam o gosto brasileiro pela hipocrisia na política à tradição católica, que ao propor códigos morais inalcançáveis à maioria dos seres humanos comuns, faz do pecado um pressuposto (como na proibição do uso de anticoncepcionais, para ficarmos num exemplo corriqueiro). Há muito, porém, que o Brasil é um país laico e plural do ponto de vista religioso e que a própria igreja católica discute a questão. Discursos únicos não podem dar conta da atualidade política do catolicismo ou do país.

Também a colonização ibérica costuma ser responsabilizada por nossas mazelas políticas. Seríamos uma sociedade de privilégios, mal adaptada à modernidade democrática. Vejo, porém, origem bem mais objetiva na condescendência brasileira com a hipocrisia política. E ela se encontra na nossa peculiar modernidade escravista, estruturadora da fundação do nosso primeiro estado nacional. O racismo à brasileira e a hipocrisia como tradição política têm origens comuns, se não são, a rigor, a mesma coisa.

Com a independência do Brasil, uma atividade mercantil até então considerada legal e legítima, apesar dos horrores em que implicava, que movimentava milhões de libras esterlinas – para ficarmos na então moeda forte do mercado internacional, transformou-se, oficialmente, em crime de contrabando. O reconhecimento da independência do país pela Inglaterra teve como contrapartida um compromisso oficial de extinção do tráfico de cativos africanos, depois ratificado por uma lei aprovada em 1831. Com a emancipação política, o comércio negreiro virou tráfico, e assim se fixaria na memória nacional.

A lei não foi aprovada para inglês ver, como passou para a história. Muitos lutaram para que fosse implementada, mas ela se tornou alvo de um vigoroso processo de desobediência civil por parte da classe senhorial que acabou se consolidando no movimento político conhecido como Regresso, que alcançou o poder em 1837. Ainda assim, não conseguiram revogar a lei de 1831 (ainda que tentassem), optando por fechar os olhos para seu descumprimento. A hipocrisia generalizada como política de estado nascia ali, juntamente com a prática de silenciar sobre a cor dos brasileiros livres nos documentos oficiais.

Invisibilizada na memória pública, a mobilidade social de intelectuais mestiços foi expressiva nas primeiras décadas após a independência. Francisco Montezuma, formado em direito por Coimbra, e Antônio Pereira Rebouças, advogado por notório saber, combateram o tráfico escravista no parlamento, como deputados pela Província da Bahia. Filho de uma liberta com um alfaiate português, Rebouças  tornou-se um dos maiores especialistas em direito civil no Brasil do século 19, como nos mostrou Keila Grinberg. Durante as tentativas de revogação da lei de 1831, discursou no parlamento denunciando a conivência da chamada “boa sociedade” brasileira com o tráfico de escravizados. Não porque alguns elementos se tivessem corrompido, como por vezes se acusava um ou outro inimigo político, fazendeiro ou funcionário público, mas porque todos os produtores rurais brasileiros, pequenos ou grandes, estavam de alguma forma envolvidos com o contrabando.

Homem de seu tempo, Rebouças defendia que os trabalhadores africanos no país fossem todos considerados como colonos livres, e que novos braços africanos fossem trazidos nessa condição. Para tanto, seria preciso revogar outra lei, de 1830, que baseada em pressupostos racistas proibia a imigração de africanos livres.

Foi derrotado. Os sobreviventes da terrível travessia continuaram a cruzar clandestinamente o Atlântico e a Serra do Mar, para serem ilegalmente incorporados como trabalhadores escravizados às plantações de café, principal produto de exportação do novo país. Desse percurso, porém, quase não ficaram rastros. A ilegalidade trazia consigo invisibilidade social e silêncio. As pessoas morriam nas praias a vistas de todos, mas depois de Rebouças, apenas os ingleses continuaram a falar sobre isso. Um relatório do Foreign Affairs de Londres relata mais de 4000 pessoas desembarcadas entre Copacabana e a Ilha Grande apenas em janeiro de 1838.

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 (agradecemos à Mariana Muaze pela reprodução do documento no blog)

Era como se toda a sociedade se fizesse propositalmente muda e cega em relação à continuidade do tráfico negreiro, bem como à cor de parlamentares como Rebouças ou Montezuma. O Brasil nasceu como nação comandado por corsários de corpos negros que se imaginavam como construtores (quase) brancos de um Império civilizado nos trópicos.

Em 1850, uma segunda lei colocaria fim ao tráfico atlântico de escravizados, com o compromisso de manter, porém, o manto de silêncio sobre a ilegalidade anterior. Desde então a ideia de que as leis no Brasil podem pegar ou não tem sido repetida. Bem como o jargão histórico que ameaça com a lei os inimigos. Na atual crise política, não existe bordão mais cruel do que o Quero Meu País De Volta.

Do ponto de vista da velha corrupção política, o risco de mais um tapetão histórico (acho que a expressão é de Luiz Felipe Alencastro) está mais que nunca no horizonte. Se o clima político atual por vezes lembra o pré 1964, a proposta de um governo Temer a partir do impedimento da presidenta ecoa 1837. Reencenando como farsa o gosto pela hipocrisia generalizada, o réu Eduardo Cunha ameaça o mandato de Dilma Rousseff, presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos, entre eles o meu, e a própria democracia.

De novo, não. Os tempos são outros.

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PASSADOS PRESENTES – Circuito PEQUENA ÁFRICA

Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil chega à cidade do Rio de Janeiro. O circuito Pequena África, na região portuária da cidade, completa os roteiros de memória que contam a história da última geração de escravizados africanos no Rio de Janeiro, em um aplicativo de celular.

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19 pontos principais estão assinalados no mapa. Em três deles, com o leitor de código QR do aplicativo pode-se ouvir a voz de lideranças comunitárias e historiadores nos falando sobre a importância histórica da região. Outros 42 pontos, 7 dos quais sobre as atuais rodas de rua da capoeira da cidade, completam o roteiro, e podem ser acessados na função Perto de Mim.

Um filme de Guilherme Hoffmann sobre o desenvolvimento do projeto será exibido no próximo sábado, durante o lançamento do novo circuito,  dia 2 de abril, às 10 horas, no Museu de Arte do Rio. Em seguida, faremos parte do percurso em visita guiada.

Os locais que o visitante terá a oportunidade de conhecer são uma parte da cidade do Rio de Janeiro denominada de Pequena África pelo artista e sambista Heitor dos Prazeres no início do século 20. Divulgada em livros, letras de música e enredos de escolas de samba, a expressão passou a identificar parte significativa da zona portuária da cidade, onde a presença africana e o patrimônio cultural negro marcaram para sempre a história não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil.

Entre o final do século 18 e a primeira metade do século 19, a região foi marcada pelas  atividades de comércio e recepção dos africanos escravizados. Hoje as ruínas do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos rememoram a passagem  de mais de um milhão de africanos pela Pequena Africa, uma história de dor e sofrimento que não pode ser esquecida.

Na virada do século 19 para o 20, a vida cultural da Pequena África e da própria cidade foi renovada, com a chegada de migrantes negros, vindos especialmente  da Bahia e de antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, e de imigrantes portugueses, italianos e judeus.

A Pequena África passou a ser o centro de criação da cultura negra carioca e da organização de novas formas de mobilização política. Em torno de sindicatos, capoeiras, casas de santo, gestaram-se greves, revoltas urbanas e novos gêneros musicais. Naquele contexto, o samba emergiu como um gênero específico, e ganhou visibilidade em todo o país; também foram fundadas associações negras, sociais e dançantes, com seus cordões e ranchos, que ligaram a Pequena África ao que de mais moderno estava sendo produzido em termos musicais e artísticos no período.

O circuito Pequena África foi desenvolvido por nós (Hebe/Martha) e Keila Grinberg (co-autora deste texto), em parceria com o Quilombo da Pedra do Sal e o Instituto dos Pretos Novos. Semana passada, fizemos parte do circuito com Damião Braga, liderança do Quilombo, Claudio Honorato, historiador do IPN, Ruben Zonenschein, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do app, e a jornalista Flávia Oliveira.

Como turismo comunitário e de memória, o projeto conta com apoio do Museu de Arte do Rio. O folder do projeto será distribuído gratuitamente na entrada do Museu, ponto zero do roteiro.

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Desfaçatez de classe. Sidney Chalhoub

Os futuros anais históricos da Bruzundanga contarão admirados as efemérides daqueles remotíssimos dias de março de 2016. No quarto dia daquele mês, sexta-feira aziaga, certo juiz da roça, um tanto guapo, outro tanto aloprado, prendeu por um dia um ex-presidente da república que era também um ex-operário. O acontecimento espetacular acelerou a história.

 As duas semanas seguintes foram um deus nos acuda. O juiz da roça, ao que se dizia um simpatizante do partido da ave de bico comprido, bisbilhotou e divulgou ilegalmente conversas de autoridades diversas, até mesmo da presidenta da Bruzundanga. O magistrado de província justificou os atos que praticara à revelia da lei como decorrentes da elevadíssima estatura moral de sua pessoa e de seus propósitos. Tais escutas telefônicas, consideradas de gravidade ímpar por parte da imprensa que as considerou de gravidade ímpar (sic), tinha como objetivo conclamar a massa dos cidadãos parrudos da república a ir para a rua e mostrar a sua cara.

Eles foram. Carregaram cartazes com a cara do juiz da roça, que não coube em si de contente e filosofou, mui profundamente, sobre a sabedoria das ruas e a necessidade de ouvi-las. Era preciso derrubar o governo da Bruzundanga. Dirigentes do partido da ave de bico comprido e do partido que nunca está fora do poder reuniram-se para planejar o novo governo, nomear ministros, pactuar o aprofundamento da política econômica em curso, que não vinha dando resultado, o que comprovava a excelência de sua concepção.

Uma sumidade do partido da ave de bico comprido acalmou os políticos que seriam depostos, perseguidos pelo juiz da roça e enviados para o calabouço. Explicou mui serenamente que o novo governo não seria vingativo. Um magistrado da Altíssima Corte do país tagarelava todos os dias, em entrevistas à mídia, a respeito de como julgaria os processos que ainda lhe chegariam à mesa para julgar (sic). Num último lance genial, uma espécie de cereja do bolo, um ex-presidente que era também um ex-intelectual, muito indignado com a possibilidade de o ex-presidente que era também um ex-operário ocupar uma pasta ministerial, sentenciou: “analfabeto não pode ser ministro”.

Que tempos memoráveis! Machado de Assis, intérprete-mor da Bruzundanga, escreveu um livro, chamado Memórias póstumas de Brás Cubas, que consistiu numa espécie de tratado de interpretação sociológica das duas semanas da história da Bruzundanga, naquele ano de 2016, decorridas entre o quarto e o décimo oitavo dias de março. Em tal compêndio de sapientíssima hermenêutica do repertório simbólico da sociedade bruzundanguense, o autor formulou o conceito de descaramento ou desfaçatez de classe.

Autor genial e complexo, Machado de Assis só teorizava por meio de alegorias, ou por linhas tortas, que é um jeito mais simples de dizer a mesma cousa. Por isso inventou Brás Cubas, outro guapo da história pátria, narrador e protagonista das Memórias. Brás Cubas não era um autor defunto, mas um defunto autor. Quer dizer, ele decidiu contar a própria história depois de morto, enviando os capítulos, direto do além-mundo, por correio sideral. A circunstância de morto dava ao autor daquelas páginas uma desenvoltura primorosa: “Agora… que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo”; e se o livro, “fino leitor”, “te não agradar… pago-te com um piparote”, que, ao que parece, era como se dizia “peteleco” naquela época.

Por conseguinte, o primeiro elemento constituinte do conceito de desfaçatez de classe é o transbordamento de autoconfiança, ou o impudor radical, que passa a guiar as atitudes de Brás Cubas e seus semelhantes. Podem “confessar tudo” o que pensam e fazem. Brás Cubas foi sujeito rico, dono de propriedades no Rio de Janeiro imperial, senhor de escravos, entre eles Prudêncio. Este era “um moleque de casa”, “o meu cavalo de todos os dias”; “punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o”. Se Prudêncio reclamasse, Brás retorquia: “Cala a boca, besta!”.

Brás Cubas sofria de monomania em relação às mulheres. Ele organizou a sua narrativa em torno das personagens femininas de sua vida, desde Pandora ou a mãe Natureza, que lhe aparecera no delírio derradeiro antes da morte (ou no momento do nascimento do defunto autor), até Virgília, passando por Eugênia, Marcela, dona Plácida etc. Dona Plácida foi uma criada da família de Virgília, que se tornou depois alcoviteira dos amores clandestinos desta senhora com o memorialista.

Brás se perguntou certa vez sobre a utilidade da vida de dona Plácida, queria desvendar o porquê de sua vinda ao mundo. Chegou à seguinte conclusão: “para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital”.

As historietas de Prudêncio e dona Plácida encapsulam o segundo elemento constitutivo do conceito de descaramento ou desfaçatez de classe. A desfaçatez de classe acontece quando a classe brascúbica, uma vez achacada de crise de despudor, como ocorreu na Bruzundanga naquelas memoráveis Jornadas de março de 2016, destampa ao mundo os mais recônditos segredos de sua maneira de ver as cousas, segundo a qual negros, mulheres e pobres existem para ralar ou empurrar traquitanas enquanto o patronato chiquérrimo vocifera, à beira-mar, contra a presidenta eleita.

Brás Cubas articulou teoricamente a ideia, central ao conceito sociológico de desfaçatez de classe, de que as desigualdades ou injustiças sociais são parte necessária da paisagem, assim como as montanhas, os rios e as praias: “Outrossim, afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares”.

Quiçá o momento analiticamente mais promissor das Jornadas de março de 2016 tenha sido o comentário do ex-presidente que era também ex-intelectual, de que “analfabeto não pode ser ministro”. A concisão dialética da frase é notável. Ao decifrá-la à luz do conceito de desfaçatez de classe, temos uma visão de mundo construída por metáfora, ou pela transposição do sentido próprio ao figurado. Assim, “analfabeto” significa a maioria da população da Bruzundanga, cujo lugar social, em respeito à tradição, deve permanecer o mesmo na longa duração histórica, com tendência ao infinito. Já “ministro” é fórmula abreviada de dizer classe brascúbica, conforme a definição de Machado de Assis (op. cit., passim).

Um participante das manifestações de 18 de março, contrárias ao impedimento da presidenta, foi às ruas com um cartaz no qual criticava a tese de Machado de Assis a respeito da desfaçatez de classe, por considerá-la desnecessariamente hermética. Segundo o manifestante, a crise política da Bruzundanga se resumia ao seguinte: “Quando a senzala aprende a ler, a casa grande surta”. Isso escrito em letras garrafais, o que é uma maneira de vencer no grito, e Machado de Assis era gago, o que de antemão deu ganho de causa ao crítico popular.

Os anais históricos da Bruzundanga guardam um enigma. Os historiadores não descobriram o que aconteceu depois das Jornadas de março. Uns dizem que as duas semanas de desfaçatez de classe demonstraram o poder invencível da classe brascúbica, logo o impedimento da presidenta era fait accompli, favas contadas. Outros, adeptos de ver as cousas por meio de velhos adágios populares, sustentaram que “a cura veio pelo excesso do mal”. O descaramento de classe suscitou o demônio rubro da resistência, quer dizer, a virada satânica da história.

Outra personagem popular, cheia de ouvir tanta teoria, recorreu ao tesouro de sabedoria do esporte bretão e acabou com esta crônica: “o jogo é jogado, e só acaba quando termina”.

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A história como hiper-ficção. Sidney Chalhoub

(Sidney Chalhoub, historiador da Universidade de Harvard e da UNICAMP, enviou este texto para divulgação na sexta feira, 18 de março)

Itaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens. Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos. O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade. Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam. Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.

Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga. Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas. Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João. O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro. Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.

O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação. Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela. No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado. A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga. Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.

Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário. De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI. De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.

Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio. Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?

P.S. A semelhança entre Simão Bacamarte e um determinado juiz de província do Brasil atual me foi sugerida por um amigo aqui de Harvard, a quem agradeço pela inspiração. Obrigado a todos aqueles que sairão às ruas, neste 18 de março, em defesa da democracia.

#VemPraDemocracia

Fotos do Album de Felipe Altenfelder

Manifestações pela democracia, em defesa do mandato de Dilma Roussseff, em 18/3/2016 em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Rio Branco, Porto Alegre, Curitiba e Brasília

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Com que fantasia eu vou?

07/02/2016 – Domingo de Carnaval. A expectativa da abertura do desfile das escolas do grupo especial coexistia com o transcorrer de aproximadamente cem blocos que flanavam pela cidade desde 9h da matina. Lá em casa, o espírito de equipe falou mais alto. E assim integrei-me ao público do Cordão do Boitatá, com marido e filho. Nos primeiros quinze minutos de andança na Praça XV, avistei um homem fantasiado de “cego” e uma mulher vestida de empregada doméstica, “dando voz” à criatividade das desigualdades, com direito a espanador e avental. Fechando o trio, esbarrei com outro homem que ostentava as vestimentas de preto-velho. Branco como os demais, este último caprichou no black face, no black body e em tudo que tinha direito, incluindo abordagens não consentidas para ofertar consultas a mulheres que passavam. Os três personagens ganharam reforços com a inestimável criatividade da família que escolheu homenagear seu filho, um menino negro, com a fantasia de macaco (tudo bem, era o macaco Abu da Disney!). Uma situação alvo de fortes críticas como a de Mariana Emiliano. Esse hábito de se fantasiar no carnaval reproduzindo representações racistas (sempre de um “outro”) com a intenção de fazer rir “é coisa da antiga”. Já no século XIX, Martha Abreu nos conta sobre diabinhos e Pais Joãos que faziam gargalhar foliões em cordões, ranchos e bailes. Deixei o Cordão do Boitatá perguntando-me: quais as fronteiras entre opressão e brincadeira? Como defini-las?

As perguntas, embora novas, foram formuladas em diálogo com Gabriela Monteiro. Menos do que presidir julgamentos individuais ou, nas palavras da autora, tornar-me “consultora política da folia”, desejo conversar sobre os diferentes sentidos que uma fantasia pode assumir, tanto para quem usa quanto para quem a vê. Esses sentimentos relacionam-se com a história do país e de seus sujeitos. Eles dizem respeito às histórias de afirmação, preterimento ou opressão que carregamos em nossos corpos. A depender dos corpos fantasiados, tais histórias falam de nós. Por nós. Ou sobre nós.

Se o pessoal é político, é pertinente questionar o universalismo presente na ideia do “direito de escolha”. “Para não fazer feio” um caminho é se indagar sobre as motivações para escolha de um traje carnavalesco. Por que se fantasiar de trabalhadora doméstica em um país que apenas em 2013 regulamentou esta profissão? Em que medida, o “direito de escolha” de incorporar a empregada compactua com estereótipos de hipersexualização, particularmente das mulheres negras, nacionalmente mais de 50% dessa categoria? O que pensar na manutenção de blocos como o Domésticas de Luxo, exclusivo para homens brancos, que promovem um espetáculo de racismo e machismo nas ruas de Juiz de Fora?

Domésticas de luxo - Carna 2016Desfile do Bloco Domésticas de Luxo, 2016.

No caso da família Aladin: como enfrentar a realidade, mediada por confetes e serpentinas, de uma criança negra vestida de macaco devido ao “direito de escolha” de seus pais? Que relações esta fantasia “carinhosa” guarda com a cultura da “justiça com as próprias mãos”, ilustrada por recorrentes linchamentos de jovens negros em bairros de classe alta? Com medidas governamentais como a diminuição expressiva dos ônibus que ligam a zona norte à parte sul da cidade? Ou com operações policias proibindo adolescentes, em sua maioria, negros e pobres de seguirem viagem até a orla carioca? Quanto ao traje de preto-velho: como pensá-lo frente às perseguições, agressões físicas e verbais de praticantes das religiões de matrizes afro-brasileiras, incluindo crianças apedrejadas e proibidas de frequentarem escolas? Embora compartilhe da opinião da historiadora Erika Arantes sobre a diminuição do número de “negas malucas” nos blocos cariocas este ano, os exemplos acima permanecem evidenciando racismos, machismos e assédios construídos historicamente e que são naturalizados ou desqualificados como brincadeiras de carnaval.

Sabe-se, no entanto, que, desde as primeiras décadas do século XX, o Carnaval também foi marcado por contestações políticas em clima de sátira e pilhéria. A expressão elefante branco foi criada e encenada nos festejos de momo de 1910 em referência à compra pelo governo brasileiro do navio Minas Gerais, o encouraçado de uma tonelada que nunca foi à guerra pela Marinha de Guerra, como mostrou em suas pesquisas o historiador João Roberto Martins Filho. A criação de cordões carnavalescos como O Macaco é o Outro por homens e mulheres negros revelam o papel de descendentes de escravos na subversão de estigmas e estereótipos que lhes eram atribuídos, de acordo com pesquisas de Eric Brasil. Lembrando-me desses exemplos, senti que em 2016, a conversa sobre usos políticos das fantasias tornou-se mais forte. No lendário ensaio técnico do Salgueiro, Cris Alves e Vivi Araújo causaram atravessando o sambódromo fantasiadas das pombagiras Maria Navalha e Maria Padilha. A repercussão foi enorme, gerando debates sobre gênero, raça e racismo entre feministas negras como Djamila Ribeiro, Stephanie Ribeiro e eu própria. No dia seguinte ao desfile da comunidade salgueirense, a funkeira Ludmilla, musa da escola, sofreu manifestações explícitas de racismo por usar uma peruca black power, comparada à palha de aço Bombril por Val Marchiori na Rede TV. Cidinha da Silva analisou com categoria o incômodo da socialite como parte da peleja estereótipos raciais x empoderamento negro.

Ludimila - Musa do SalgueiroLudimilla, Musa do Salgueiro, no Desfile 2016 (Foto: Isac Luz/EGO).

Existem sentidos em disputa na escolha, criação e uso de uma fantasia. As representações de Fridas Kahlo, Ganeshas, Dandaras, Panteras Negras, Pombagiras como lembrou a psicóloga Amana Mattos, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros, merecem atenção. Tais personagens, vistas em quantidades expressivas em blocos, são encarnadas por mulheres que lançam mão do “direito de escolha” para afirmar e conferir visibilidade às lutas pela igualdade de gênero e raça ao longo da história. Nesses casos, os sentidos em disputa trazem instigantes questões sobre feminismo, raça e empoderamento. O que dizer das discussões de Joice Berth acerca das relações entre o arquétipo das pombagiras e as lutas feministas? Quais os sentidos históricos de fantasias como a da Squel? A porta-bandeira da verde e rosa encantou a avenida com o belo bailado e seu inesquecível sorriso. A impecável maquiagem, inspirada nas pinturas das iaôs (filhas de santo iniciadas), divide opiniões sobre o direito de publicizar referências sagradas. Nos dizeres da socióloga Elizabeth Viana, trata-se de “outros tempos”. Tempos nos quais símbolos impensáveis de serem levados para fora do terreiro tornam-se de domínio público. “Outros tempos” que nos fazem pensar nas fronteiras entre sagrado e profano. Direito e respeito. Afirmação e apropriação cultural…

Squel Jorgea               Squel Jorgea, porta-bandeira da Mangueira, escola campeã do Carnaval 2016. (Foto: Michele Iassanori).

No mote dos sentidos em disputa, a fantasia do que não se quer ser garantiu espaço na folia para conferir visibilidade às lutas políticas protagonizadas cotidianamente. No jocoso faz de conta, algumas personagens tornaram-se marcantes:

Lolo Figueroa, de Luana Teofilo. Luana descreveu assim sua socialite-paneleira e usuária do pau de selfie: “Lolo não é racista, mas acha que lugar de moreninho não é na universidade ao seu lado, pois cada um deve ficar no seu devido lugar. As flores no cabelo mostram um certo clima hippie chic, afinal ela quer paz e amor com o apoio do aparelho policial do Estado para defender seu patrimônio e os seus”.

Lolo Figueroa - Carna 2016(Foto: Reprodução/Facebook)

Patricinha Gratidão, concebida por Caroline Cavassa, feminista interseccional Caracterizada com uma indefectível white face, que deixava os foliões em dúvida sobre sua “verdadeira raça”, a patricinha distribuiu bambolês na Praça XV para pessoas brancas, professando o bordão “Namastê, estou fantasiada de você”. No dia seguinte, desdobramentos na versão “Paquita Gratidão” eram ostentadas no Bloco Comuna que Pariu.

Patricinha Gratidão - Carol Cavassa                (Foto: Reprodução/Facebook)

Mulata do Gois #sqn/E por acaso eu sou fantasia?, da Giovana Xavier. Concebida para o Bloco Comuna que Pariu, que trouxe o enredo “Na raça, contra o racismo”, a fantasia representou uma resposta ao devaneio de Ancelmo Gois de escolher Grazi Massafera como a mulata da coluna. No país da “democracia racial”, a eleição de uma mulata branca para chamar de “sua” revela intersecções de gênero, racismo e machismo que nenhum laço cor de rosa poderia dar conta.

A Mulata do Gois - Carna 2016.jpg                  (Foto: Reprodução/Facebook)

P.S. As fantasias escolhidas são de autoria de mulheres negras que botaram o bloco na rua. Para desespero de Lolo Figueroa que não para de pensar “o Brasil está realmente mudando…”

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Novas Conversas

 

O Conversa de Historiadoras volta renovado em 2016. Criado em março de 2014 por Hebe Mattos e Martha Abreu, durante dois anos o blog publicou basicamente textos a quatro mãos oriundos de conversas das duas historiadoras.  Em 2016, o blog se abre para novas conversas e mais textos individuais. Agora somos seis historiadoras que produziremos uma animadíssima conversa semanal. A cada domingo, um novo texto, individual ou coletivo, sobre temas de interesse do blog. Além de Hebe e Martha, Ana Flávia Magalhães PintoGiovana XavierKeila Grinberg e Mônica Lima agora são também parte do conversa de historiadoras. Confiram o Sobre e o Quem Somos para conhecer melhor o nosso novo grupo de conversas! Martha Abreu, analisando a cobertura do carnaval do Rio abrirá amanhã (domingo, 14 de fevereiro) a série de artigos. Não deixem de conferir.

Dia histórico, 13/2/2016, começando as conversas por skype, entre Rio, Niterói, Campinas e Chicago

Conversa Skype

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O Arco do Retorno

Uma importante notícia da última semana foi a inauguração, na ONU, em Nova York, na quarta feira, 25 de março, de um monumento em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos. O monumento, nomeado como “Arco do Retorno”, foi realizado pelo arquiteto e designer Rodney Leon. Vale conferir o filme disponibilizado no site da ONU em que ele explica (em inglês) o design desenvolvido. 

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O monumento celebra o reconhecimento pelas Nações Unidas da escravidão atlântica como crime contra a humanidade. Em mensagem para a inauguração, Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, considerou que o Arco do Retorno irá “ajudar a curar feridas, a lembrar o passado e a honrar a memória das vítimas”.

Na mesma Nova York, no sábado, 28 de março, O New York Times comemorou os 150 anos da rendição do General Confederado Robert Lee, que marcou o fim da chamada Guerra de Secessão nos Estados Unidos, com um memorável artigo de Eric Foner, historiador da Columbia University. Recomendamos a leitura do texto, ainda que em inglês. A derrota da política de Reconstrução nos Estados Unidos, em 1877, foi uma tragédia para a democracia estadunidense que influenciou a questão racial em todo mundo ao longo do século XX. Conhecer a disputa de versões historiográficas sobre os seus significados também nos ajudar a pensar sobre a contemporaneidade do tema da escravidão atlântica, celebrada no monumento da ONU.

No Brasil, as discussões (em português) sobre escravidão e pós-abolição também têm presença importante. Na retomada do julgamento no Supremo Tribunal Federal da ação de constitucionalidade sobre o Decreto 4887/03,  que estabelece os procedimentos para titulação das terras quilombolas, de acordo com o artigo 68 do ADCT, retomada no mesmo dia 25 da inauguração do monumento na ONU, a Ministra Rosa Weber votou pela constitucionalidade.  Segundo ela: “A eleição do critério de autoatribuição não é arbitrária, tampouco desfundamentada ou viciada. Além de consistir em método autorizado pela antropologia contemporânea, estampa uma opção de política pública legitimada pela Carta da República, na medida em que visa a interrupção do processo de negação sistemática da própria identidade aos grupos marginalizados”.  O parecer pode ser consultado na íntegra. Porém o Ministro Dias Toffoli pediu vista do processo e não há previsão de retomada do julgamento. Fiquemos atentos

Sobre escravidão e pós-abolição, destacamos também a aproximação do grande Encontro Nacional da Associação  de História (ANPUH), a ser realizado em Florianópolis, entre 27 a 31 julho de 2015. O Grupo de Trabalho Nacional Emancipações e Pós-abolição, do qual fazemos parte, convida pesquisadoras e pesquisadores interessados em discutir temas como escravidão, liberdade, raça, trabalho, pós-abolição, memórias da escravidão, ensino de história e reeducação das relações étnico-raciais, a inscreverem seus trabalhos em um dos três simpósios temáticos que organiza:

Simpósio 108 – Outras paisagens do cativeiro e da liberdade: abolição, abolicionismo e pós-emancipação 
Coordenadores: Flávio dos Santos Gomes (UFRJ) e Maria Helena Machado (USP)
Espaço voltado para o debate teórico e metodológico sobre os estudos da escravidão, Abolição e pós-emancipação nas Américas.

Simpósio 112 – Pós-abolição, identidades e culturas

Coordenadores: Edinelia Oliveira Souza (UNEB) e Rodrigo de Azevedo Weimer (UNISINOS)
Espaço voltado aos estudos históricos situados em período posterior à Abolição da escravidão, com destaque para as relações entre pós-abolição e memória da escravidão.
O trabalho de coordenação do ST será dividido com Álvaro Nascimento (UFRRJ), Martha Abreu (UFF) e Hebe Mattos (UFF), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Simpósio 114 – Reeducação das relações étnico-raciais e ensino de história: diálogos possíveis, relações necessárias
Coordenadores: Maria Aparecida Lima (UFF) e Lourival dos Santos (UFMS). Espaço voltado para discussões sobre educação étnico-racial e indígena no ensino de história. O trabalho de coordenação do ST será dividido com Warley da Costa (UFRJ), Giovana Xavier (UFRJ), Amílcar Pereira (UFRJ) e Mônica Lima (UFRJ), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Fora do GT Emancipações e Pós-Abolição, mas também refletindo sobre a contemporaneidade dos estudos históricos sobre a escravidão, há ainda o Simpósio 005 – A Escravidão negra nas Américas: o antigo problema sob novas miradas, coordenado por Gabriel Aladren (USP) e Ynaê Lopes dos Santos (FGV).

As inscrições de trabalhos nos simpósios temáticos terminam nesta terça-feira, 31 de Março.

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CULTNA especial de final de ano

O Grupo de Estudos e Pesquisa Cultura Negra no Atlântico encerra sua programação de 2014. Nossa mesa de encerramento, na próxima sexta feira,  12 de dezembro,  tem convidados muito especiais.

A historiadora Kim Buttler é uma das pioneira nos estudos sobre o pós-abolição no Brasil, com o seu Freedoms given, freedoms won: Afro-Brazilians in post-abolition, São Paulo and Salvador de 1998.  Professora na Rutgers University, Kim é Fulbright Scholar na Bahia neste ano de 2014. É um prazer e uma honra recebê-la na UFF para discutir sua pesquisa recente sobre identidade negra no carnaval baiano.

O antropólogo André Cicalo, autor de Urban encounters : affirmative action and Black identities in Brazil, 2012, está no seu segundo ano de pos-doutorado no LABHOI/UFF, como pesquisador do Kings College da Universidade de Londres. André realizou, em 1998, um imperdível filme etnográfico sobre a ausência de memória da escravidão na região portuária do Rio de Janeiro: Memórias do Esquecimento.  Na mesa-redonda, discutirá  alguns de seus achados de pesquisa sobre identidade negra e memória da escravidão na mesma região, que hoje possui um circuito de memória africana com centro no sítio arqueológico do Cais do Valongo.

#ficaadica

culna de fim de ano

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Futebol e racismo

Como divulgado em vários jornais e redes sociais, muitos torcedores abusaram de xingamentos racistas para criticar a terrível falta de Zúñiga em Neymar, mostrando que o futebol no Brasil também está impregnado desse tipo de atitude, tão marcante em diversos campos de futebol pelo mundo, como o caso de Daniel Alves há pouco tempo foi exemplo. Sem dúvida, não somos tão diferentes dos europeus nesses assuntos. Especialmente no Brasil e na América Latina, futebol e racismo possuem uma longa e intrincada história, fruto da  internacionalização e popularização do esporte, ao longo do século XX.

Em  princípios do século XX, o futebol no Brasil, como quase todos os esportes, era uma atividade de elite, de afirmação social de determinados grupos brancos e intelectualizados, que se representavam como os mais saudáveis, finos e educados — os melhores da cidade. No caso do Rio de Janeiro, o futebol era mais um local de reprodução das hierarquias socais e raciais, de comprovação da supremacia branca no pós-abolição, como já é mais ou menos conhecido.

Sobre o tema, vale acompanhar o livro pioneiro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicado pela primeira vez em 1947. Naquele momento, Mário Filho, reconhecido fundador do jornalismo esportivo no Brasil, sentiu necessidade de escrever um livro sobre o “penoso e longo” caminho de participação e valorização do negro no futebol, processo que denominou de “democratização do futebol brasileiro”  na segunda edição do livro, em 1964.

O autor denuncia o quanto era branco o futebol dos primeiros  tempos, até a década de 1920, pelo menos.  “Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção”… . Nos jogos dos clubes chics, como o Fluminense, o Botafogo e o Flamengo, branco pobre, pretos e mestiços, poderiam até estar presentes, mas como torcedores, na geral. “Cada um no seu lugar”. “O Futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. Onde se podia encontrar melhor demonstração de que tudo era como deveria ser? O branco superior ao preto. Os ídolos do futebol todos brancos. Quando muito, morenos”… Mesmo nos clubes das fábricas, como na Bangu, haveria um esforço, registra Mario Filho, para se colocar mais brancos que “pretos”, ao menos em jogos da Zona Sul.

Ao longo década de 20 e 30, outros times dos subúrbios cariocas, como o Vasco, o São Cristovão, o Bangu, o América e o Vila, começariam a incorporar os negros e, com eles, a ganhar campeonatos, em paralelo ao processo de profissionalização do futebol. Apesar disso, Mario Filho relata diversos mecanismos excludentes que continuariam a atingir os jogadores negros, como a necessidade de provarem seus meios de sobrevivência e grau de escolarização para serem inscritos nos campeonatos, a preferência por jogadores brancos nos clubes e nas seleções que representavam o país, o constrangimento para adotarem mecanismos físicos de branqueamento –  um trato especial para os cabelos e pele, a  vergonha e a  negação da cor, ou a impossibilidade de frequentar as sedes sociais dos clubes.

A escrita da história do negro no futebol de Mário Filho, em 1947, revela muito sobre as formas de operação do racismo no Brasil do pós-abolição, como os mecanismos não explicitados de exclusão racial e as articulações preconceituosas entre condição social e  cor. Na bela “nota ao leitor” da primeira edição, Mário registra que não poderia ter escrito o livro sem o apoio da tradição oral, “muito mais rica, muito mais viva do que a escrita dos documentos oficiais…” Os documentos oficiais teriam mostrado ao autor que a “história verdadeira se escreve de outro jeito”…  Os livros, “as atas, as correspondências dos clubes não falam de negros… não tocam, nem de leve, em questões de raça”…

A primeira edição de 1947 teve prefácio de Gilberto Freyre, que valorizava a importância do papel do negro na formação da identidade nacional. Para o autor, o futebol inglês teria se tornado uma instituição brasileira, com evidentes traços originais e mestiços. E, de fato, o livro de Mário ajuda muito a entender a tessitura das relações entre brasilidade e futebol desde então. Algumas frases da apresentação da segunda edição, por exemplo, escritas por Mário Filho, expressam, como poucas, o que estamos vivendo hoje, especialmente depois da saída de Neymar da Copa: “No fundo o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele. O jogador representa-o, representa o clube, a sua cidade, o seu estado, a sua pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor…”

Na edição de 1964, entretanto, Mário Filho  procura mostrar que não pretendeu defender “uma visão otimista a respeito de uma integração racial” do negro no futebol, “sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto”, em suas palavras.  Lembra que a derrota do Brasil, no Maracanã, no final da copa de 1950, teria provocado um “recrudescimento do racismo”, já que “culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho”… “Os bodes expiatórios,  escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada”… Ainda na convocação para a Copa de 1958, na Suécia, a maior preocupação, salienta Mário Filho, era de embranquecer o escrete. Didi teria sido o único preto na estreia contra a Austria! Só aos poucos o time foi escurecendo com a entrada de Garrincha, Vavá, Djalma Santos, Zózimo e, finalmente, Pelé.

Segundo Edson Carneiro,  antropólogo, negro, que escreveu a orelha da segunda edição, apesar das  diversas “ofensivas segregacionistas” impostas aos jogadores negros, o “negro não se deu por vencido –  no campo e na pelada… Ao menos no futebol, afirma com ênfase, havia chegado “a vez do preto, tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé”. A reedição do livro em 1964 parecia evidenciar a  necessidade de afirmação  do talento dos jogadores negros, sinalizando o quanto combater o racismo ainda era o pano de fundo do livro, mesmo dois anos após o Brasil  ter se tornado bi-campeão do mundo (conquistas de 1958 e 1962), com uma seleção maravilhosamente multirracial.

Passados cinquenta anos, em plena copa contra o racismo, o problema ainda persiste nos insultos que se repetem nas redes sociais dos mais diversos países, na segregação econômica que impõe uma maioria branca nos estádios ou no racismo invisível que resulta em uma minoria negra de crianças escolhidas para entrar em campo com os jogadores, através de indicação dos países e campanhas comerciais.  Mas exatamente por isso, é importante valorizar a decisão de abrir cada jogo com o anúncio da campanha Say No To Racism (Diga Não Ao Racismo) lido pelos capitães de cada seleção, no caso de sexta feira última  por Thiago Silva e Mario Yepes, em suas línguas nativas.  Com certeza,  vale a pena o esforço de divulgar bem alto,  em todos os estádios e em todas as TVs desse país, que o racismo é crime e envolve todas as formas de preconceito, seja de gênero, cor ou de origem.

A democratização do futebol, nos termos sonhados por Mário Filho, ainda é uma boa bandeira para se lutar.

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Seleção brasileira, 1950, antes do jogo em que goleou a Suécia por 7X1.

selecao 1958

Seleção brasileira, campeã do mundo, 1958.

 

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