Arquivo da categoria: Pos-abolição

Novas Conversas

 

O Conversa de Historiadoras volta renovado em 2016. Criado em março de 2014 por Hebe Mattos e Martha Abreu, durante dois anos o blog publicou basicamente textos a quatro mãos oriundos de conversas das duas historiadoras.  Em 2016, o blog se abre para novas conversas e mais textos individuais. Agora somos seis historiadoras que produziremos uma animadíssima conversa semanal. A cada domingo, um novo texto, individual ou coletivo, sobre temas de interesse do blog. Além de Hebe e Martha, Ana Flávia Magalhães PintoGiovana XavierKeila Grinberg e Mônica Lima agora são também parte do conversa de historiadoras. Confiram o Sobre e o Quem Somos para conhecer melhor o nosso novo grupo de conversas! Martha Abreu, analisando a cobertura do carnaval do Rio abrirá amanhã (domingo, 14 de fevereiro) a série de artigos. Não deixem de conferir.

Dia histórico, 13/2/2016, começando as conversas por skype, entre Rio, Niterói, Campinas e Chicago

Conversa Skype

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O Arco do Retorno

Uma importante notícia da última semana foi a inauguração, na ONU, em Nova York, na quarta feira, 25 de março, de um monumento em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos. O monumento, nomeado como “Arco do Retorno”, foi realizado pelo arquiteto e designer Rodney Leon. Vale conferir o filme disponibilizado no site da ONU em que ele explica (em inglês) o design desenvolvido. 

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O monumento celebra o reconhecimento pelas Nações Unidas da escravidão atlântica como crime contra a humanidade. Em mensagem para a inauguração, Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, considerou que o Arco do Retorno irá “ajudar a curar feridas, a lembrar o passado e a honrar a memória das vítimas”.

Na mesma Nova York, no sábado, 28 de março, O New York Times comemorou os 150 anos da rendição do General Confederado Robert Lee, que marcou o fim da chamada Guerra de Secessão nos Estados Unidos, com um memorável artigo de Eric Foner, historiador da Columbia University. Recomendamos a leitura do texto, ainda que em inglês. A derrota da política de Reconstrução nos Estados Unidos, em 1877, foi uma tragédia para a democracia estadunidense que influenciou a questão racial em todo mundo ao longo do século XX. Conhecer a disputa de versões historiográficas sobre os seus significados também nos ajudar a pensar sobre a contemporaneidade do tema da escravidão atlântica, celebrada no monumento da ONU.

No Brasil, as discussões (em português) sobre escravidão e pós-abolição também têm presença importante. Na retomada do julgamento no Supremo Tribunal Federal da ação de constitucionalidade sobre o Decreto 4887/03,  que estabelece os procedimentos para titulação das terras quilombolas, de acordo com o artigo 68 do ADCT, retomada no mesmo dia 25 da inauguração do monumento na ONU, a Ministra Rosa Weber votou pela constitucionalidade.  Segundo ela: “A eleição do critério de autoatribuição não é arbitrária, tampouco desfundamentada ou viciada. Além de consistir em método autorizado pela antropologia contemporânea, estampa uma opção de política pública legitimada pela Carta da República, na medida em que visa a interrupção do processo de negação sistemática da própria identidade aos grupos marginalizados”.  O parecer pode ser consultado na íntegra. Porém o Ministro Dias Toffoli pediu vista do processo e não há previsão de retomada do julgamento. Fiquemos atentos

Sobre escravidão e pós-abolição, destacamos também a aproximação do grande Encontro Nacional da Associação  de História (ANPUH), a ser realizado em Florianópolis, entre 27 a 31 julho de 2015. O Grupo de Trabalho Nacional Emancipações e Pós-abolição, do qual fazemos parte, convida pesquisadoras e pesquisadores interessados em discutir temas como escravidão, liberdade, raça, trabalho, pós-abolição, memórias da escravidão, ensino de história e reeducação das relações étnico-raciais, a inscreverem seus trabalhos em um dos três simpósios temáticos que organiza:

Simpósio 108 – Outras paisagens do cativeiro e da liberdade: abolição, abolicionismo e pós-emancipação 
Coordenadores: Flávio dos Santos Gomes (UFRJ) e Maria Helena Machado (USP)
Espaço voltado para o debate teórico e metodológico sobre os estudos da escravidão, Abolição e pós-emancipação nas Américas.

Simpósio 112 – Pós-abolição, identidades e culturas

Coordenadores: Edinelia Oliveira Souza (UNEB) e Rodrigo de Azevedo Weimer (UNISINOS)
Espaço voltado aos estudos históricos situados em período posterior à Abolição da escravidão, com destaque para as relações entre pós-abolição e memória da escravidão.
O trabalho de coordenação do ST será dividido com Álvaro Nascimento (UFRRJ), Martha Abreu (UFF) e Hebe Mattos (UFF), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Simpósio 114 – Reeducação das relações étnico-raciais e ensino de história: diálogos possíveis, relações necessárias
Coordenadores: Maria Aparecida Lima (UFF) e Lourival dos Santos (UFMS). Espaço voltado para discussões sobre educação étnico-racial e indígena no ensino de história. O trabalho de coordenação do ST será dividido com Warley da Costa (UFRJ), Giovana Xavier (UFRJ), Amílcar Pereira (UFRJ) e Mônica Lima (UFRJ), que participarão como comentadores das sessões pelo sistema de “coordenações compartilhadas”.

Fora do GT Emancipações e Pós-Abolição, mas também refletindo sobre a contemporaneidade dos estudos históricos sobre a escravidão, há ainda o Simpósio 005 – A Escravidão negra nas Américas: o antigo problema sob novas miradas, coordenado por Gabriel Aladren (USP) e Ynaê Lopes dos Santos (FGV).

As inscrições de trabalhos nos simpósios temáticos terminam nesta terça-feira, 31 de Março.

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CULTNA especial de final de ano

O Grupo de Estudos e Pesquisa Cultura Negra no Atlântico encerra sua programação de 2014. Nossa mesa de encerramento, na próxima sexta feira,  12 de dezembro,  tem convidados muito especiais.

A historiadora Kim Buttler é uma das pioneira nos estudos sobre o pós-abolição no Brasil, com o seu Freedoms given, freedoms won: Afro-Brazilians in post-abolition, São Paulo and Salvador de 1998.  Professora na Rutgers University, Kim é Fulbright Scholar na Bahia neste ano de 2014. É um prazer e uma honra recebê-la na UFF para discutir sua pesquisa recente sobre identidade negra no carnaval baiano.

O antropólogo André Cicalo, autor de Urban encounters : affirmative action and Black identities in Brazil, 2012, está no seu segundo ano de pos-doutorado no LABHOI/UFF, como pesquisador do Kings College da Universidade de Londres. André realizou, em 1998, um imperdível filme etnográfico sobre a ausência de memória da escravidão na região portuária do Rio de Janeiro: Memórias do Esquecimento.  Na mesa-redonda, discutirá  alguns de seus achados de pesquisa sobre identidade negra e memória da escravidão na mesma região, que hoje possui um circuito de memória africana com centro no sítio arqueológico do Cais do Valongo.

#ficaadica

culna de fim de ano

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Futebol e racismo

Como divulgado em vários jornais e redes sociais, muitos torcedores abusaram de xingamentos racistas para criticar a terrível falta de Zúñiga em Neymar, mostrando que o futebol no Brasil também está impregnado desse tipo de atitude, tão marcante em diversos campos de futebol pelo mundo, como o caso de Daniel Alves há pouco tempo foi exemplo. Sem dúvida, não somos tão diferentes dos europeus nesses assuntos. Especialmente no Brasil e na América Latina, futebol e racismo possuem uma longa e intrincada história, fruto da  internacionalização e popularização do esporte, ao longo do século XX.

Em  princípios do século XX, o futebol no Brasil, como quase todos os esportes, era uma atividade de elite, de afirmação social de determinados grupos brancos e intelectualizados, que se representavam como os mais saudáveis, finos e educados — os melhores da cidade. No caso do Rio de Janeiro, o futebol era mais um local de reprodução das hierarquias socais e raciais, de comprovação da supremacia branca no pós-abolição, como já é mais ou menos conhecido.

Sobre o tema, vale acompanhar o livro pioneiro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicado pela primeira vez em 1947. Naquele momento, Mário Filho, reconhecido fundador do jornalismo esportivo no Brasil, sentiu necessidade de escrever um livro sobre o “penoso e longo” caminho de participação e valorização do negro no futebol, processo que denominou de “democratização do futebol brasileiro”  na segunda edição do livro, em 1964.

O autor denuncia o quanto era branco o futebol dos primeiros  tempos, até a década de 1920, pelo menos.  “Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção”… . Nos jogos dos clubes chics, como o Fluminense, o Botafogo e o Flamengo, branco pobre, pretos e mestiços, poderiam até estar presentes, mas como torcedores, na geral. “Cada um no seu lugar”. “O Futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. Onde se podia encontrar melhor demonstração de que tudo era como deveria ser? O branco superior ao preto. Os ídolos do futebol todos brancos. Quando muito, morenos”… Mesmo nos clubes das fábricas, como na Bangu, haveria um esforço, registra Mario Filho, para se colocar mais brancos que “pretos”, ao menos em jogos da Zona Sul.

Ao longo década de 20 e 30, outros times dos subúrbios cariocas, como o Vasco, o São Cristovão, o Bangu, o América e o Vila, começariam a incorporar os negros e, com eles, a ganhar campeonatos, em paralelo ao processo de profissionalização do futebol. Apesar disso, Mario Filho relata diversos mecanismos excludentes que continuariam a atingir os jogadores negros, como a necessidade de provarem seus meios de sobrevivência e grau de escolarização para serem inscritos nos campeonatos, a preferência por jogadores brancos nos clubes e nas seleções que representavam o país, o constrangimento para adotarem mecanismos físicos de branqueamento –  um trato especial para os cabelos e pele, a  vergonha e a  negação da cor, ou a impossibilidade de frequentar as sedes sociais dos clubes.

A escrita da história do negro no futebol de Mário Filho, em 1947, revela muito sobre as formas de operação do racismo no Brasil do pós-abolição, como os mecanismos não explicitados de exclusão racial e as articulações preconceituosas entre condição social e  cor. Na bela “nota ao leitor” da primeira edição, Mário registra que não poderia ter escrito o livro sem o apoio da tradição oral, “muito mais rica, muito mais viva do que a escrita dos documentos oficiais…” Os documentos oficiais teriam mostrado ao autor que a “história verdadeira se escreve de outro jeito”…  Os livros, “as atas, as correspondências dos clubes não falam de negros… não tocam, nem de leve, em questões de raça”…

A primeira edição de 1947 teve prefácio de Gilberto Freyre, que valorizava a importância do papel do negro na formação da identidade nacional. Para o autor, o futebol inglês teria se tornado uma instituição brasileira, com evidentes traços originais e mestiços. E, de fato, o livro de Mário ajuda muito a entender a tessitura das relações entre brasilidade e futebol desde então. Algumas frases da apresentação da segunda edição, por exemplo, escritas por Mário Filho, expressam, como poucas, o que estamos vivendo hoje, especialmente depois da saída de Neymar da Copa: “No fundo o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele. O jogador representa-o, representa o clube, a sua cidade, o seu estado, a sua pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor…”

Na edição de 1964, entretanto, Mário Filho  procura mostrar que não pretendeu defender “uma visão otimista a respeito de uma integração racial” do negro no futebol, “sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto”, em suas palavras.  Lembra que a derrota do Brasil, no Maracanã, no final da copa de 1950, teria provocado um “recrudescimento do racismo”, já que “culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho”… “Os bodes expiatórios,  escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada”… Ainda na convocação para a Copa de 1958, na Suécia, a maior preocupação, salienta Mário Filho, era de embranquecer o escrete. Didi teria sido o único preto na estreia contra a Austria! Só aos poucos o time foi escurecendo com a entrada de Garrincha, Vavá, Djalma Santos, Zózimo e, finalmente, Pelé.

Segundo Edson Carneiro,  antropólogo, negro, que escreveu a orelha da segunda edição, apesar das  diversas “ofensivas segregacionistas” impostas aos jogadores negros, o “negro não se deu por vencido –  no campo e na pelada… Ao menos no futebol, afirma com ênfase, havia chegado “a vez do preto, tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé”. A reedição do livro em 1964 parecia evidenciar a  necessidade de afirmação  do talento dos jogadores negros, sinalizando o quanto combater o racismo ainda era o pano de fundo do livro, mesmo dois anos após o Brasil  ter se tornado bi-campeão do mundo (conquistas de 1958 e 1962), com uma seleção maravilhosamente multirracial.

Passados cinquenta anos, em plena copa contra o racismo, o problema ainda persiste nos insultos que se repetem nas redes sociais dos mais diversos países, na segregação econômica que impõe uma maioria branca nos estádios ou no racismo invisível que resulta em uma minoria negra de crianças escolhidas para entrar em campo com os jogadores, através de indicação dos países e campanhas comerciais.  Mas exatamente por isso, é importante valorizar a decisão de abrir cada jogo com o anúncio da campanha Say No To Racism (Diga Não Ao Racismo) lido pelos capitães de cada seleção, no caso de sexta feira última  por Thiago Silva e Mario Yepes, em suas línguas nativas.  Com certeza,  vale a pena o esforço de divulgar bem alto,  em todos os estádios e em todas as TVs desse país, que o racismo é crime e envolve todas as formas de preconceito, seja de gênero, cor ou de origem.

A democratização do futebol, nos termos sonhados por Mário Filho, ainda é uma boa bandeira para se lutar.

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Seleção brasileira, 1950, antes do jogo em que goleou a Suécia por 7X1.

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Seleção brasileira, campeã do mundo, 1958.

 

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Um festival de filmes

O Festival do filme de pesquisa sobre memória e história da escravidão moderna (cultura, diáspora, cidadania) teve início em 2008 em Paris, por iniciativa de centros de pesquisa da França, do Canadá e do Brasil. Trata-se de uma mostra itinerante, que ganhou este ano uma página na web, com uma chamada permanente por novos filmes e um arquivo com a sinopse de todos os vídeos já apresentados. Os filmes estão disponíveis em DVD na videoteca do LABHOI/UFF e muitos estão disponibilizados integralmente na internet, podendo ser acessados a partir do próprio site. Convidamos os leitores a explorar este interessante acervo.

Para começar, vale conferir o curta de Nilma Accioli, Ibiri, tua boca fala por nós, que em 16 minutos nos apresenta seis irmãs, descendentes de escravos, que guardam a memória de como foram violentamente expulsas das terras em que haviam nascido e crescido, no município de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro. Desenvolvido enquanto Nilma fazia seu curso de pós-graduação lato-sensu em história do Rio de Janeiro na UFF, o filme emocionou a platéia da edição de Paris 2009,  ganhando o prêmio de público, instituído para esssa edição específica.  A convite dos organizadores, Nilma viajou a Paris para recebê-lo.

Em uma semana em que tradições religiosas diferentes celebram passagem, ressureição e renascimento, vale também conferir o filme da antropóloga canadense Francine Saillant, em parceria com a Ialorixá Torodi de Ogum, do terreiro Ala Koro Wo de São João do Meriti, Rio de Janeiro. O Navio Negreiro registra uma poderosa encenação feita pela Mãe de Santo, com filhos de Santo e crianças que frequentavam os cursos de cidadania realizados no terreiro, sobre a travessia do Atlântico de seus antepassados.

Para os amantes do jongo, dois filmes do antropólogo Pedro Simmonard estão na lista. Salve Jongo! sobre Mestre Darcy da Serrinha, e o documentário de 2010 sobre o Jongo de Pinheiral, Eu venho de Longe,  estão disponíveis na íntegra na web. Além, é claro, de todos os filmes da nossa caixa de DVDs Passados Presentes.

Há muito mais no site, com personagens e narrativas quase sempre surpreendentes e emocionantes. O Brasil é, sem sombra de dúvida, o país com maior número de vídeos no festival, em sua maioria disponíveis online. Mas há também inúmeros filmes em francês ou inglês, sobre lugares absolutamente fascinantes, como Haiti, Benin, Moçambique e Irã,  algumas vezes integralmente disponíveis na internet, infelizmente sem legendas para o português na maior parte dos casos. Golden Scars, da antropóloga canadense Alexandrine Boudreaul-Furnier, sobre dois jovens rappers cubanos, é falado em espanhol e está na íntegra disponível no site.

#ficaadica

 

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imagem 1:  Projeção do Filme Os Escravos de Ontem. Democracia e Etnicidade no Benin. Imagem 2: Debate após projecão do filme Passados Presentes: Memória Negra no Sul Fluminense, com a presença de Fatinha e Gracinha (Jongo de Pinheiral) e Romão e Marilda (Quilombo do Bracuí)

Quarto Festival do Filme de Pesquisa no Rio de Janeiro, CINEMA 2, Centro Cultural Banco do Brasil, 25 de abril de 2012.Para mais imagens das várias edições do festival, confira a Galeria de Imagens do Site.

 

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Uma viagem no tempo

Track 14189 (0:23)/ clique para ouvir a gravação (Audio 14)

No tempo de cativeiro/  In the days of captivity

Aturava muito desaforo/  I endured many an insult

Levantava de manhã cedo /I got up early in the morning

Com cara limpa levo o couro, ai / The leather whip beat me for no reason

 

Agora quero ver o cidadão/ Now I want to see the citizen

Que grita no alto do morro/ Who shouts at me from the hilltop

Vai-se Cristo, seu moço/ God bless you, master

Seu negro agora tá forro/ Your Negro is now a freedman

 

 

Cangoma Calling. Spirits and Rhythms of Freedom in Brazilian Jongo Slavery Songs,  2013, é um Hybrid Book, com som e texto em pdf disponíveis gratuitamente na web, em torno das gravações de jongos e outras formas musicais feitas pelo historiador estadunidense Stanley Stein e sua esposa Barbara Stein, na década de 1940, com ex-escravizados do Vale do Paraíba Fluminense. O Hybrid Book foi organizado por Pedro Meira Monteiro e Michael Stone, da Universidade de Princeton, onde ainda atua Slanley Stein,  a partir do CD Livro Memória do Jongo, organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco, publicado em 2007 no Brasil (Folha Seca, Cecult/Petrobras Cultural) e hoje esgotado.

A história das gravações de Stein, por si só, já é motivo de sobra para um olhar atento sobre as duas obras. No final da década de 1990, o então jovem e sempre entusiasmado historiador Gustavo Pacheco, começava a se perguntar onde estariam as gravações realizadas por Stein na década de 1940, quando o autor realizava sua pesquisa para o clássico livro Vassouras, um município brasileiro do café, 1850-1900, publicado nos Estados Unidos por Harvard, em 1958, e Princeton, em 1985, e no Brasil pela Brasiliense e a Nova Fronteira, em 1961 e 1990.

De uma curiosa e atenta pergunta, Gustavo conseguiu entrar em contato com Stein, em setembro de 1999, depois de valiosa ajuda de Rebecca Stein e Jeremy Adelman. Nesse encontro, soube que as gravações haviam sido feitas com fio de arame (wire records), mas Stein ainda não as tinha localizado. Tempos depois, em 2002, acompanhando o crescimento do jongo entre os pesquisadores e os próprios jongueiros, Gustavo entraria de novo em contato com Stein, mostrando a importância da recuperação das gravações. Ele não desistia. Em 2003, para sua alegria, Gustavo recebeu de Stein a encomenda em “uma latinha redonda de metal, contendo um carretel com um arame fino como um fio de cabelo”. Agora era buscar apoio e recursos para a digitalização das gravações, sem se ter a garantia de que fosse possível ouvir alguma coisa depois de tanto tempo. Nesse momento a entrada do Cecult da Unicamp e de Silvia Lara foram fundamentais. As gravações ainda voltariam aos Estados Unidos para serem trabalhadas por uma firma especializada. E tudo deu certo.

Hoje, depois de quase setenta anos da época que foram feitas, podemos ouvir mais de meia hora de sons gravados, com 60 pontos de jongo, 5 fragmentos de batuques, oito cantigas acompanhadas por acordeão (calangos, certamente), uma folia de Reis, cinco batucadas de samba e um samba cantado. Nas palavras de Gustavo, “as gravações de Stanley J. Stein saíam do gabinete para entrar para a história”.

Participamos com o texto Jongo: registro de uma história, do livro organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco para trazer a público as gravações. Para nós, foi uma feliz coincidência que dois projetos sobre a memória do Jongo tivessem sido aprovados pelo edital sobre Patrimônio Imaterial Petrobras 2005: o projeto de publicação do livro/CD Memória do Jongo de Silvia e Gustavo e o nosso projeto de trabalhar a memória do jongo entre o campesinato negro do Rio de Janeiro, que resultou no arquivo Petrobras Cultural Memória e Música Negra e no filme Jongos, Calangos e Folias. A feliz coincidência se tornou grande emoção quando ouvimos as gravações de Stein e descobrimos que também ele registrara jongos, calangos e folias, falando diretamente com camponeses negros que haviam vivido a experiência da abolição no Vale do Paraíba. A força dos versos e a versatilidade musical que tanto nos impressionaram durante a pesquisa de 2007, já estavam lá, cantadas por contemporâneos dos pais e avós de nossos entrevistados

A riqueza dos pontos e versos registrados por Stein pode ser acompanhada a partir da página 133 do PDF do Hybrid Book. Para ouvir qualquer um deles, basta clicar em “sound files/field recordings (in mp3 format) by Stanley Stein and Barbara Stein”, a partir da numeração dos “tracks” das gravações, informada ao lado da transcrição.

A experiência é imperdível. Absolutamente fantástico para trabalhar em sala de aula. #fica a dica.

http://www.laabst.net/laabst3/

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Conversando com Eric Foner

Eric Foner é um dos mais importantes historiadores dos Estados Unidos. Sua releitura sobre a abolição e o pós-abolição no mundo atlântico influenciou  uma geração de novos historiadores nos Estados Unidos e no Brasil. Sua obra principal sobre o período após a guerra civil nos Estados Unidos, conhecido como Reconstrução (1865-1977), escrita durante os anos 80, revolucionou as abordagens sobre o período e não apenas no mundo acadêmico. Até a obra de Foner, a experiência política da Reconstrução ainda era vista como uma evidencia do despreparo dos libertos para a vida politica, e a escravidão muitas vezes considerada uma questão secundária para entender a guerra. Sua obra colocou a escravidão e os ex-escravos, respectivamente, como motivação e atores centrais de todo o processo, trazendo novamente à luz a primeira grande experiência dos libertos na luta por direitos políticos e civis, conforme pioneiramente propusera o historiador negro W.E.B. Du Bois, em 1935 .

Em mais de 400 páginas, “Reconstruction: America’s Unfinished Revolution” (1988) fez emergir um período pós guerra civil de crescente democratização e extraordinária riqueza política, cujo fim representara uma tragédia sem precedentes para a vida americana. A progressiva retirada dos direitos civis e políticos dos novos cidadãos, algumas décadas após os terem adquirido e exercido amplamente, culminaria com a institucionalização da segregação racial nos estados do Sul do país. De fato, sua pesquisa representou o golpe de morte em uma interpretação inacreditavelmente racista e elitista das disputas políticas do período – que havia transformado os integrantes da Ku Klux Klan em heróis, em luta contra o que era percebido como desmandos e corrupção de políticos negros ou oriundos do Norte apoiados no voto dos libertos. Até a vitória do movimento pelos direitos civis nos anos 60, essa leitura esteve fortemente presente nos livros didáticos e  no cinema – como nos célebres “The Birth of a Nation” (O Nascimento de uma Nação, 1915) e “Gone With the Wind” (E o Vento Levou, 1939), e ainda nos anos 80, resistia a desaparecer do senso comum.

Desde então, as pesquisas históricas sobre o período da Reconstrução se multiplicaram. Foner também se revelou incansável como historiador público sobre o tema. Foi curador de exposições, escreveu livros didáticos e refletiu, em livros e artigos, sobre o ofício do historiador em relação às questões políticas do presente e à memória pública (vale a pena conferir, especialmente, Who Owns History, 2002).

Foner acaba de publicar uma biografia de Lyncoln (The Fiery Tryal. Abrahan Lyncoln and American Slavery) – que ganhou o prêmio Pulitzer, e está terminando um livro sobre a Nova York pré-guerra civil. Ele nos recebeu em seu escritório na Columbia University na sexta feira, 28 de março, para uma entrevista combinada com Hebe, para ser publicada como texto no dossiê sobre Pós-Abolição no Mundo Atlântico da Revista Brasileira de História, previsto para 2015. O encontro terminou parcialmente registrado em video pelo ipad de Martha, que havia chegado na cidade naquele dia, para participar de um evento organizado pelo Center for Brazilian Studies e o Center for the Study of Ethnicity and Race da Columbia.

Disponibilizamos aqui os primeiros 5 minutos de seu depoimento, em que Foner aborda as primeiras influências na sua formação como historiador.  Os destaques ficam para o radicalismo de esquerda na Nova York dos anos 50, a que chama “the old left”,  do qual participaram seu pai e tio, ambos historiadores (Jack e Philip Foner), e para o movimento pelos direitos civis dos anos 60. Um breve diálogo do historiador com sua memória e as lutas políticas de seu próprio tempo. Vale a pena conferir. Em inglês, sem legendas, por enquanto.

 

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