Pela desobediência

As recentes notícias da aprovação, na assembleia legislativa do estado de Alagoas, de uma lei que impede os professores de dar opinião em sala de aula e exige uma postura de “neutralidade” política causaram indignação e medo. Matérias jornalísticas do dia de hoje (02/05/2016) informam que o governador de Alagoas não promulgou a tal lei, perdendo o prazo estabelecido; mas, não há garantias que não seja obrigado a fazê-lo. Projetos com esse mesmo conteúdo tramitam em diversos legislativos estaduais e municipais no nosso país e defendem que qualquer trabalho pedagógico que tenha como objetivo estimular um pensamento crítico deve ser evitado. O que pretendem é retirar do professor a tarefa de educar, ficando apenas com a função de instruir. Foi apresentado no Congresso Nacional no ano passado o projeto de lei 867/2015 que propõe a alterar a lei de diretrizes e bases da educação nacional nesse mesmo sentido, e há interesses em que seja votado.

Tais propostas são defendidas por movimentos que se intitulam escola sem partido e escola livre e que, na verdade, estão distantes de corresponder ao que dizem essas denominações. Estão comprometidos com silenciar, nas escolas e universidades, as discussões sobre temas como diversidade de gênero, liberdade de credo religioso e combate ao racismo. Avançam em sua retórica fundamentalista e politicamente posicionada no campo do retrocesso e da intolerância, contrários às conquistas no campo de direitos humanos que se alcançaram nos últimos anos. Não são em nada imparciais e nem tampouco sem partido, e menos ainda defensores de escolhas livres.

Como diz a letra da canção: há perigo na esquina…

O que está em jogo é a liberdade de ensinar, e sem liberdade não há conhecimento, não há aprendizagem. Não há nada mais ultrapassado que preconizar uma educação que se reduza à instrução, entendida vulgarmente como “passar matéria”. Nenhum lugar do mundo onde se pense seriamente sobre os caminhos da inteligência humana no processo ensino-aprendizagem reconheceria a neutralidade como possível na ciência, na arte ou na técnica.  E, para culminar, esses movimentos estimulam o ódio aos professores, acusando-os de manipular, impor ideias e influenciar negativamente condutas e posturas contrárias ao que pregam aquilo que consideram como valores familiares. Incitam denúncias e ações judiciais contra professores que, segundo eles, doutrinariam os estudantes.

Há poucos dias, num dos espaços virtuais de apoio a esses projetos retrógrados, deu-se a exibição de uma retórica de desrespeito, tendo como foco os livros didáticos que trazem conteúdos de história da África e cultura afro-brasileira. Alegam – os seguidores da escola sem partido e similares – que essas leituras estariam fazendo uma doutrinação religiosa ao apresentar divindades e aspectos positivos das religiões de matriz africana no Brasil aos estudantes. Um argumento que traz tamanha demonstração de ignorância e estreiteza de pensamento poderia gerar apenas um olhar de menosprezo se fosse outra a conjuntura no Brasil. Nesse momento, devemos mais que sempre estar atentos e cientes da importância de tomarmos uma atitude.

Candomblé e umbanda em livros didáticos/2016 do MEC para o ensino fundamental
Alunos de escolas públicas e privadas, inclusive confessionais, que estudarem com os livros didáticos/2016 do MEC para crianças de 6 a 10 anos, serão doutrinados sistematicamente no Candomblé e na Umbanda.

As religiosidades de matriz africana têm uma longa e dolorosa história de perseguição no nosso país. Houve um tempo em que foram proibidas por lei, seus sacerdotes presos, suas casas sagradas destruídas. Esse tipo de ação não se extinguiu com a legislação que veio a institucionalizar os direitos de cidadania aos seguidores de diferentes religiões e a condenar, com base em princípios republicanos e constitucionais, a intolerância – seja em atos ou em discursos. Infelizmente, ainda se têm notícias de atentados contra casas religiosas de matriz afro-brasileira e o desrespeito aos seus féis é uma constante em diversos espaços.

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http://www.tudosobrexanxere.com.br/index.php/desc_noticias/centro_de_umbanda_e_incendiado_suspeita_que_seja_criminoso

Tendo suas origens nos corações e mentes negros durante o tráfico de escravizados, a fé trouxe a força necessária para a sobrevivência dessas pessoas e, ao mesmo tempo, contribuiu humanizar aquele mundo violento e desigual. Na experiência religiosa, criaram solidariedades, laços familiares, e imprimiram um sentido às suas vidas, relacionando-se muitas vezes estreitamente com o catolicismo e diversas vertentes cristãs. Casas religiosas de matriz africana agregaram gente de outros mundos e de todos tons de pele, não discriminaram – nem fizeram proselitismo. Seus deuses e espíritos fazem parte da cultura brasileira hoje, estão na nossa identidade, e a tornam mais bela e plural. Podem conviver tranquila e pacificamente com outros credos, já se demonstrou.

caminhada_pela_liberdade_religiosa

http://www.midiagospel.com.br/brasil/caminhada-defesa-liberdade-religiosa-leva-milhares-copacabana

E, da mesma forma, há cristãos de diferentes vertentes que assumem uma postura crítica e defendem o direito de todos escolherem seu caminho religioso e também condenam igrejas que mercantilizam a fé: https://www.facebook.com/Crist%C3%A3o-Protestante-486307198057073/?fref=ts

Sabendo da importância de se educar para combater a intolerância e o racismo, como deixar de trazer os elementos das religiosidades afro-brasileiras para a sala de aula, na fundamental discussão sobre as diferentes matrizes que formam o universo (tão diverso) cultural brasileiro?  Como não incluir as lendas e contos da rica tradição oral africana e afro-brasileira nas leituras e histórias contadas para crianças, jovens e adultos que se educam nas escolas do nosso país? Como esquecer os orixás, inquices e voduns, o povo da rua, os espíritos da floresta – entidades que significam tanto para seus fiéis e povoam nosso imaginário, sejamos nós ou não de outros credos, ou de nenhum?  Se isso acontecesse, se deixássemos de ler e ouvir essas histórias, seria uma perda, um esvaziamento e um ato de desprezo com relação a uma parte fundamental de nossa própria identidade. Uma violência, afinal.

Além disso, desde 10 de janeiro de 2003 existe uma legislação que tornou obrigatório o ensino de História da África e cultura afro-brasileira em todos os estabelecimentos de ensino públicos e privados do nosso país. Essa lei foi ampliada em 2008, incluindo a história indígena, dos povos originários de nosso território. É uma questão de cidadania.

Na primeira pessoa, falo aos meus colegas professores: coloquem nas mãos dos alunos as lendas de Exu, da Pomba-Gira, que venham histórias com Xangô, Iemanjá e as sagradas folhas da Jurema, e que estas se atravessem com as histórias das festas da Congada e do Divino Espírito Santo, as romarias de Nossa Senhora Aparecida, os relatos dos médiuns, as tradições judaicas e as narrativas bíblicas – que linda a história de Moisés, que tirou seu povo da opressão…. Que venham todos e muitos mais. Certamente não para doutrinar (precisa dizer?), mas para mostrar que o mundo pode ser mais bonito quando é plural e diverso. Afinal, todos têm direito às suas religiões, e conhecê-las em sua (nossa) riqueza cultural é direito nosso. A intolerância mata – especialmente a inteligência.

Como dizem os estudantes de Alagoas: desobedeçam.

https://www.facebook.com/professordesobedecaa/

DESOBEDEÇAM

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O mundo não é só dos espertos

(Sobre Pessach e os nossos lugares de fala)

De todas as festas judaicas, Pessach, comemorada na sexta passada, desde criança foi minha favorita. Na escola, a hagadá, o livro que lemos em Pessach, os hebreus apareciam curvados, carregando imensos tijolos usados para construir as pirâmides. Páginas adiante, seguiam em fila deserto afora atrás de Moises, até chegarem na Terra Prometida, terra do leite e do mel, onde todos podiam, dayeinu! (basta!, em hebraico) comer pão à vontade. Muito tempo depois, já na faculdade, aprendi que, entre a construção das pirâmides e a escravização dos hebreus, havia um hiato de uns mil e quinhentos anos. Ao interpelar minha antiga professora, ela respondeu que a verdade pouco importava se as crianças guardassem a mensagem.

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Hagadá de Pessach, Escola Israelita Brasileira Eliezer Steinbarg, fim da década de 1970.

Na casa dos meus avós maternos, não faltavam mensagens de Pessach para guardar. O seder, nome do jantar que dá início à semana de privações para lembrarmos dos nossos antepassados escravizados no Egito, era animado. Nós, as crianças, sentávamos ao fundo de uma mesa enorme enquanto cochichávamos esperando a hora de cantar as músicas de praxe. Sentado na cabeceira do outro extremo da mesa, meu avô comandava a noite, alternando a reza com séries de tapas na mesa, que, sem sucesso, pediam silêncio. Nessas horas minha avó, ao seu lado, fazia um ar sério e compungido e dava uma piscadela pra gente, antes de voltar à conversa com a tia Lucy. A balbúrdia só era interrompida pelo sininho que avisava às empregadas a hora de servir o jantar. Depois da ceia, faltando ainda uma hora de reza e cantoria, todos disputávamos um lugar em um dos sofás do salão arranjado especialmente para a ocasião. Um deles hoje mora na minha casa. É o menos confortável de todos, mas não escondo um sorriso sempre que me esparramo ali. Ah, se meu irmão e meus primos me vissem, o sofá todo só pra mim!

Eu levei o sofá, mas o afikoman, em compensação, nunca consegui. O afikoman é um pedaço da matzá (pão sem fermento, feito de farinha e água, comido pelos judeus durante o Pessach) escondido pelos donos da casa antes do jantar. Reza a tradição que, depois do jantar, o seder só continua depois que alguém — uma das criança da casa — acha o embrulho e o dá ao responsável pela reza em troca de um presente ou algumas moedas. Quando acabávamos de comer, saíamos, as crianças, loucas pela casa atrás do guardanapo branco. Dos nove netos, quem geralmente achava o afikoman era uma das minhas primas. Nós duas chegávamos algumas horas mais cedo, supostamente para ajudarmos a fazer alguma coisa que agora nem me lembro. Uma vez descobri que, quando a busca ao afikoman começou, ela já o tinha encontrado há muito tempo. Reclamei com a minha avó. E ouvi de volta o comentário meio resignado, meio me alertando, minha querida, o mundo é dos espertos. Acho que a Gi sempre foi mesmo a mais esperta, tanto que hoje até mora na Australia. Eu adorava minha avó e achava que devia haver alguma ligação entre a esperteza dos judeus e a fuga da escravidão. A conquista da liberdade depois de quarenta anos vagando pelo Sinai só podia mesmo ser coisa para espertos.

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Idem. A obra de arte na página 18 é de minha autoria.

Não foram poucos os escritores que associaram Pessach à reflexão sobre os nossos dilemas contemporâneos, individuais e coletivos.  Durante a ditadura, Carlos Heitor Cony fez sucesso com o livro Pessach, a travessia; e a Hagadá para nossos dias de Moacyr Scliar circula até hoje e é lida e adaptada aos montes por aí. Nos dias de hoje, a simbologia de Pessach virou uma metáfora imbatível, para livro de auto-ajuda nenhum botar defeito. Minha timeline no facebook está cheia de mensagens libertadoras. Eu curto todas. Que tenhamos coragem de cruzar nossos desertos internos e nos libertar dos fantasmas que nos escravizam. Que possamos livrar o mundo do jugo dos poderosos. Que os nossos antepassados nos inspirem a lutar contra a fome, a miséria, o antissemitismo, o capitalismo, o comunismo, a ditadura, a mídia e a corrupção. (Nessa noite que é diferente de todas as outras noites, alguns certamente brindarão à vitória do último domingo contra um Estado que julgam excessivamente espaçoso, ocupado por gente pouco merecedora do cargo. Eu, aqui no meu cantinho, desejo que mantenhamos nossos espíritos abertos na luta contra a escravidão do pensamento único. E ao meu jeito rezo para que consigamos persistir na defesa da democracia, o outro nome da liberdade.)

Metáforas a parte, o que gosto de comemorar em Pessach é mais o fato do que a interpretação. Crescendo na zona sul do Rio de Janeiro nas décadas de 1970 e 1980, para mim os descendentes dos hebreus que construíram as pirâmides do Egito não éramos nós, crianças judias de classe média, quase todas brancas, que estudávamos em uma escola judaica particular, mas aquelas quase todas negras, quase nenhuma de classe média, que estudavam na escola pública ao lado. E que, se mulheres fossem, grandes eram as chances de acabar servindo as mesas das casas de classe média como a da minha avó. Acho que comecei a me interessar pelo estudo da escravidão no Brasil  por estar ainda impressionada com os contos de Pessach que ouvi na infância, não importa que falsos, e porque a liberdade que eu via no fim do século XX me parecia mais um mistério.

E também porque, criança, eu sentia que havia qualquer coisa de errado naquele muro que separava (e ainda separa) as duas escolas e os universos de seus alunos. Que nem aquela história de o mundo ser dos espertos. No fundo, no fundo, era uma baita de uma injustiça.

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Ibidem!

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A “insurreição dos hipócritas”: base social e ideologia. Sidney Chalhoub

As historiadoras futuras da Bruzundanga haviam passado a semana a matutar sobre cousas que tinham lido a respeito das mulheres daqueles tempos interessantes, vários milênios antes do Apocalipse. Não acabavam de entender o que significavam aquelas palavras: “recatada”, “do lar”, “bela”. Havia também uma matéria enigmática, sobre ataque de nervos ou de histeria de mulher em cargo de poder. Jamais tinham visto tais adjetivos pespegados em pessoas como elas próprias. Não logravam saber ainda o que aquilo tudo significava quando uma delas saltou para trás, ao ler o título de um texto de época: “Aufstand der Scheinheiligen” (Der Spiegel), ou a “insurreição dos hipócritas”. A língua germânica havia desaparecido havia muito, mas sobrevivera a fama de seriedade dos alemães. Por isso espantava aquele título de matéria sobre a votação do impichamento da presidenta da Bruzundanga na câmara baixa do parlamento.

Curiosas por vício do ofício delas, as historiadoras seguiram a pista. Acharam de pronto um documento jurídico de erudição supimpa, na qual acusadores dum ex-presidente que era também um ex-operário citavam a parceria de dois filósofos alemães, Marx e Hegel, na autoria de escritos mui subversivos. Uma delas identificou, no douto parecer, um erro de ortografia de somenos importância no nome de um dos filósofos; no entanto, o que importava era a constatação de que na Bruzundanga se conhecia a excelsa filosofia teutônica. Logo adiante, eis que surge um provérbio popular: “Die dümmsten Bauern ernten die dicksten Kartoffeln”, que quer dizer mais ou menos o seguinte: “Os camponeses mais estúpidos colhem as maiores batatas”. Estupor geral. Todas gritaram ao mesmo tempo:  “Ao vencedor, as batatas!”, “Quincas Borba!”, “Machado de Assis!”. Atordoadas, porém de novo esperançosas, reabriram o grosso volume comentado das Memórias póstumas de Brás Cubas, o tratado-mór de sociologia bruzundanguense.

Machado de Assis, estudante de alemão, surrara o dicionário para ler o artigo do Der Spiegel e empacara numa passagem dele, na qual se dizia… As leitoras sabem alemão? Eu tampouco, mas aqui vai outra algaravia dos infernos: “ein großer Teil der brasilianischen Gesellschaft strukturell konservativ gesinnt ist”. Quer dizer, a “insurreição dos hipócritas” tornara-se possível devido ao apoio que recebera de parte da sociedade bruzundanguense “estruturalmente conservadora”. Num achado de endoidecer críticos literários de qualquer tempo, as historiadoras reconstituíram uma passagem riscada nos manuscritos das Memórias póstumas, em que Machado de Assis, num posfácio, afirmava que um de seus objetivos no volume fora destrinchar a ideologia da classe brascúbica, a base social dos insurretos da câmara baixa.

Foram vários dias de releitura lenta das Memórias póstumas, de insônia, de descobertas horripilantes, até que as historiadoras do futuro elaboraram um esquema das principais ideias do golpe de abril de 2016, conhecido nos anais históricos da Bruzundanga como “A Grande Usurpação”. Ficaram tão estupefatas com suas descobertas que decidiram escrever um livro sobre o tema. Aqui vai o breve roteiro dos capítulos, que me trouxeram em mãos:

Capítulo I: Misoginia. Nos capítulos iniciais das Memórias, Brás Cubas, o defunto autor, narra a sua própria morte. Num deles, “O delírio”, revela ao mundo as suas alucinações mentais nos instantes derradeiros. Montado num hipopótamo, Brás Cubas é forçado a viajar até “à origem dos séculos”. Após devorar muito caminho, o animal estaca numa imensidão branca e gelada, silenciosa como o sepulcro. Eis que surge “um vulto imenso, uma figura de mulher… fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano”. A mulher diz se chamar “Natureza ou Pandora”, e completa em voz tonitruante, seguida de uma gargalhada fenomenal: “sou tua mãe e tua inimiga”. Em certo momento, afirma o narrador, Pandora “estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma”. Indefeso, frágil, Brás implora pateticamente por um minuto a mais de existência. A grande mãe Natureza responde com um desdém do tamanho de todos os séculos: “Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada”. O temor visceral e primitivo de Brás pelas mulheres, o seu receio de ser dominado por elas, é metáfora da monomania ou patologia social da classe brascúbica diante de mulheres livres e insubmissas, como a presidenta da Bruzundanga. Desesperados, unem-se para combatê-la, como se vê pela súcia variadíssima de sujeitos engravatados e lúgubres sempre a cercar a presidenta. Será possível desenvolver o tema por meio do cruzamento de várias fontes, como, por exemplo, aquela faixa de uma manifestação popular: “Quando a mulher é livre, os marmanjos surtam”.

Capítulo II: Racismo. Brás Cubas se considerava o maior fodão com as mulheres (pedimos desculpas aos homens de épocas remotas da Bruzundanga, que sabemos mui recatados, mas não há jeito melhor de descrever as ilusões brascúbicas diante das personagens femininas). Uma de suas conquistas chamava-se Eugênia, “a flor da moita”. A menina era filha de dona Eusébia e de Vilaça, homem casado e sisudo (segundo O Sensacionalista, 97% dos parlamentares que citaram deus e a família em seus discursos de voto pró-impichamento têm amantes, alguns deles até mesmo concubinas teúdas e manteúdas), num caso extraconjugal que fora objeto de uma travessura de Brás na infância. Os namorados clandestinos trocaram um beijo atrás da moita, visto e denunciado pelo menino, dando a Brás a ideia da alcunha citada acima, de “flor da moita”, que atribuiu à pequena. Eugênia foi a única mulher por quem Brás teve uma inclinação séria, sentindo-se de fato ameaçado pela possibilidade de amá-la. Diante de semelhante perigo, o mancebo reage com determinação viripotente. Numa série de agressões, ele debocha do defeito físico da menina, que era um pouco coxa de nascença: “O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”. Além da obsessão brascúbica com o belo feminino, que a passagem permite explorar, dela se segue o episódio do beijo de Brás em Eugênia, durante o qual o maganão pensa “na moita, no Vilaça, …a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”. Em ritmo vertiginoso de alusões irônicas, Machado de Assis faz com que Brás veja Eugênia, cujo nome significa “a bem-nascida”, como naturalmente inferior, logo imprópria para casar com ele, relacionando-a inclusive com uma borboleta preta que acabara de matar em seu quarto, a golpe de toalha: “Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava o cérebro”. A negritude da borboleta e o defeito físico da menina se articulam na cabeça de Brás, resultando no projeto de eliminação desse Outro indesejável ou incômodo. O tema está ligado a vários eventos contemporâneos da Bruzundanga, como a reação brascúbica às políticas de ação afirmativa e à vinda de médicos cubanos ao país. Ele pode ser explorado por meio da análise de muitas fotos e faixas de manifestações populares, como esta: “A casa grande surta, quando a senzala vira médica”.

Capítulo III: Privilégio e ódio de classe. Brás Cubas achava que a sua condição de proprietário de cousas e gente escravizada tinha origem na natureza, era assim porque tinha de ser. O seu filósofo preferido, Quincas Borba, resumiu certa vez o modo de ver o mundo da classe brascúbica, no que tange ao seu suposto direito natural de explorar o trabalho dos outros, em especial dos negros, para sempre. Ao almoçar, trinchando uma coxinha de frango, Quincas Borba diz assim: “Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o único fim de dar mate ao meu apetite”. Que maravilha! O mundo inteiro conspira para que o coxinha trinche a coxinha! A imagem se completa numa espécie de antropofagia de classe, pois a grã-finagem brascúbica, paradoxalmente, parece ter certo prazer mórbido na extinção daqueles cujo trabalho produz tudo o que podem usufruir. Quando dona Plácida, criada de Virgília, alcoviteira de seus amores com Brás, está à morte, Brás faz a seguinte reflexão: “Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro… morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara”. Em seguida, Brás se pergunta se houvera alguma justificativa para a  existência de dona Plácida. Responde assim: “adverti logo que, se não fosse D. Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervescência; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plácida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho há absoluto nesse mundo?”.

Capítulo IV: Corrupção. Como é sabido, a classe brascúbica teve origem no maior caso de corrupção da história da Bruzundanga, cousa nunca jamais vista, antes ou depois em qualquer época, até o fim dos tempos. Nem o hipopótamo do delírio de Brás seria capaz de levá-lo a outras terras tão gélidas e sombrias. Mais de setecentos e cinquenta mil africanos foram escravizados ilegalmente e introduzidos no país por contrabando entre 1831 e 1850. A expansão do café, donde vem a riqueza brascúbica, surgiu da exploração do trabalho dessa gente criminosamente escravizada. Segundo a Federação das Indústrias da Tucanolândia (província mais rica da Bruzundanga), em informação que oferecemos aqui num furo de reportagem histórica, “O país tem o dever moral, político e econômico de aprofundar ações afirmativas destinadas a reparar esse crime contra a humanidade. Todos os nossos recursos ficam doravante à disposição do Estado bruzundanguense para tal fim”. Apesar desse fato novo e alvissareiro, Machado de Assis demonstra, em sua obra seminal, que a classe brascúbica tem o costume de perdoar os atos de corrupção em suas fileiras. No romance, a personagem do traficante de escravizados é simbolizada pela figura de Cotrim, cunhado de Brás, torturador de africanos. No entanto, Brás se mostra bastante compreensivo com o seu parente: “Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades…”. A última frase é promissora, pois indica uma relação íntima entre corrupção e instituições religiosas.

Capítulo V: Desfaçatez. Ah, que tema inesgotável! Já escrevemos sobre ele. Todavia, não há como resistir aos fatos recentes, desta semana mesmo, logo em seguida à votação do impichamento da presidenta na casa baixa do parlamento. Observadores externos à Bruzundanga, finalmente atentos aos sentidos profundos do que acontece no país, ficaram alarmados com o desfile de nulidades parlamentares do último domingo, a votar em nome do pai, do filho e do espírito… Machado de Assis, noutro texto que ainda teremos de estudar a fundo, interpretou o episódio como manifestação da “Igreja do diabo”, sugerindo pois que havia naquilo o espírito de Satanás. A repercussão de tal pândega lá fora provocou a ida imediata ao exterior dum aliado d’O Grande Usurpador, alcunha popular do vice-presidente da Bruzundanga. Que espetáculo curioso, ver aquele sujeito do partido da ave de bico comprido, representando o vice-presidente do partido que está sempre no poder (apesar de nunca ter ganho eleição para presidente), mui perfumado, engomadinho, respeitabilíssimo, a explicar para o Tio Sam que o ovo não é um ovo e que o círculo é quadrado. Provocou hilaridade em uns, e noutros aquele sentimento da vergonha alheia. Que situação! O importante, todavia, é tentar manter as aparências. O pai de Brás Cubas disse certa vez ao filho: “Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios…”. Que divertida a percuciência machadiana! Privilégios da “posição”, dos “meios”, valimento pela opinião dos outros… Dizem que Machado de Assis escreveu essas linhas inspirado num documento histórico curiosamente chamado “Uma ponte para o futuro”, que, dizem, foi o GPS utilizado por aquele hipopótamo do delírio, a galopar com Brás de volta ao passado mais longínquo.

As historiadoras terminaram o roteiro de seu livro horrorizadas: misoginia, racismo, ódio de classe, corrupção, desfaçatez. De fato, “ao vencedor, as batatas”. Fica melhor em alemão: ” Die dümmsten…” (o resto como apareceu acima).

P.S.: Agradeço ao meu Bruder baiano, João Reis, por sugerir a leitura da matéria do Der Spiegel e por me enviar o provérbio alemão.

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O ódio como marca e a encruzilhada da democracia no Brasil

“Está tudo errado
É até difícil explicar
Mas do jeito que a coisa está indo
Já passou da hora do bicho pegar
Está tudo errado
Difícil entender também
Tem gente plantando o mal
Querendo colher o bem”
(Tá tudo errado, MC Júnior e Leonardo)

Ferrenho crítico da política de segurança pública vigente, MC Leonardo, da Apafunk, subiu no caminhão da Furacão 2000 na praia de Copacabana no domingo, 17 de abril, e se posicionou contra o golpe à democracia via tentativa de impeachment da presidenta da República, Dilma Rousseff. Para além de clássicos como o “Rap do Silva” e o “Rap da Felicidade”, consagrados nos anos 1990, a multidão presente no ato Funk Contra o Golpe foi embalada por letras mais recentes, que também politizam o cotidiano das favelas e periferias do Rio de Janeiro e do Brasil. Para a surpresa positiva de alguns, as falas dos mais de vinte funkeiros presentes mantinham fina sintonia e até semelhança com as de magistrados que pegaram o microfone para se posicionar a partir de lugares de classe, raça e também de gênero.

Funk contra o golpe

Dias antes, num dos vídeos de mobilização, Rômulo Costa, fundador da Furacão 2000, buscava fortalecer a legitimidade do ato divulgando o apoio do desembargador Siro Darlan, jurista contrário à redução da maioridade penal e defensor do fim dos autos de resistência. Por outro lado, a organização do evento, formada pela Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e Federação de Associações de Favelas do Rio, valia-se de personalidades do funk para convocar sobretudo os moradores das comunidades próximas − Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Morro dos Cabritos, Ladeira dos Tabajaras, Chapéu Mangueira, Rocinha e Vidigal. O importante era dar o recado de que as populações marginalizadas são sujeitos políticos e precisam ser consideradas nos momentos decisivos da história do país.

Mas na manhã de domingo, enquanto o som rolava na rua, eu acompanhava a transmissão via canal da PosTV  no Youtube, lia os comentários do bate-papo da postagem e percebia como essa mensagem era inaceitável para várias pessoas. Defensores do impeachment e “odiadores do PT”, com suas hashtags convencionais, eram esperados. Só que as reações não pararam por aí. “Se descer vão levar bala”, eis o comentário que pouco depois das 10h me fez observar com mais atenção a coluna do lado direito da tela. A partir daí a experiência não foi nada agradável e alterou até o rumo do texto que preparava para hoje.

Segue uma amostra do que foi dito: “Não sabem nem o que é fascismo”; “Tudo puta”; “Depois do resultado de hoje, cuidado cassaremos suas tocas. Aguardem! Aço!”; “Funk coisa de bandidos alienados”; “Fala sério funk não rima com cultura”; “ao ao ao bala perdida na próxima eleição”; “Auditoria militar… Vocês vão se foder.. Desta vez não haverá anistia!”; “Chama o BOPE pra acabar com isso”; “Interromperam [a transmissão] porque passou um arrastão e roubou a câmera”; “Os fankeiros falam em faculdade mas não terminaram nem o 2º Grau”; “Vai ter golpe sim”, “Vai ter caça a esse pensamento do final do século 19. Socialismo e comunismo é pensamento de retardado”; e daí para mais até.

Vi tudo isso e topei com meu adesivo: “Esse não será o país do ódio”. Não será… Não será?

Após a votação que aprovou a admissibilidade do rito de impeachment na tarde e na noite de ontem, parece-me mais do que urgente parar de lidar com essas manifestações alegando que esse tipo de coisa não tem ressonância no sentimento do povo brasileiro, cordial e culturalmente aberto às diferenças. Para além de esposas, filhos, netos e outros familiares, a maioria dos deputados democraticamente eleitos pela população brasileira, que também elegeu Dilma, justificou os seus sins em argumentos tais: “Pelos fundamentos do cristianismo”; “Pelo fim da rentabilização de desocupados e vagabundos”; “Pelo fim da CUT e seus marginais”, “Pela República de Curitiba”; “Pelo comunismo que assombra o país”; “em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, ex-chefe do DOI-CODI (1970-1974) e primeiro militar reconhecido como torturador pela Justiça brasileira, em 2008]… Isso e muito mais, com direito a arremates como o misógino e gramaticalmente incorreto “Tchau Querida!”, e sua intencionalidade de adeus à democracia.

O fato é que, se vista a partir das experiências de populações negras, indígenas, mulheres, LGBTT, trabalhadores pobres do campo e da cidade e outros condenados dessa terra chamada Brasil, a história deste país é a prova de que a violência, como manifestação de ódios, é uma marca da nossa sociabilidade. De tal sorte, a forma ineficaz como a inteligência brasileira de intenções democráticas lidou por muito tempo com problema do racismo, por exemplo, nos ensina que o nosso desejo de um país melhor não faz dele este país melhor. Entre os muitos casos ilustrativos disponíveis, Joaquim Nabuco, ao publicar o seu O Abolicionismo, em 1883, buscou legitimar o fim da escravidão apostando na ideia de que não poderíamos correr o risco de ver acontecer no Brasil um acirramento de conflitos raciais, o que para muitos analistas soou como a simples negação do próprio problema racial naquele momento. Mas isso ele não pôde fazer:

“Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos portanto admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos tudo fazer por esquecê-la.
A escravidão, por felicidade nossa, não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor – falando coletivamente – nem criou entre as duas raças ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos” (Joaquim Nabuco, O Abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Publifolha, 2000, p. 16 – grifos meus).

“Devemos tudo fazer por esquecê-la”, porque, “falando coletivamente”, o ódio de raça não nos definiria. Eis o sintoma do mal existente que se tentava combater via universalização da liberdade. A maldição da cor era percebida, mas o fim da escravidão poderia ser um caminho para que ela não tivesse de ser tratada como um problema central entre nós. Procedimento semelhante me parece organizar nossa forma de lidar com o momento atual: Pensamentos e gestos fascistas são periféricos, e a defesa da democracia é maior e figura como chave para nos distanciarmos de um cenário de ódio. Sendo assim, o sentimento de nojo que alimenta nossa certeza de que os/as parlamentares ou cidadãos comuns que emitem tais “opiniões” não nos representam, infelizmente, apenas nos confirma na encruzilhada histórica em que estamos. A perguntar que fica é: como enfrentar o ódio se não admitimos a sua dimensão real?

Tais questionamentos me fazem, aliás, recordar o post Preocupante Semelhança?, neste blog em 6 de março, no qual historiadora Hebe Mattos pondera sobre como o desmantelamento dos projetos de cidadania para negros nos EUA no fim da década de 1870 foi legitimado por um repertório amplo da cultura local que adentrou o século XX. Ter isso em mente, por sua vez, acentua a importância do discurso da deputada Benedita da Silva, no dia 15 de abril, que, entre outras coisas, apontou como a crise política gerada e alimentada pelos opositores do governo tem legitimado discursos e práticas que justificam o aumento do desemprego e as perdas dos direitos trabalhistas, como se isso tivesse que ser feito pelo bem da Nação. Não é demais mencionar as dezenas de projetos de lei que tramitam com bastante celeridade no Congresso com esse fim.

Benedita 15.4.2016

Os tempos inegavelmente são e serão difíceis de entender e explicar. Como historiadora, mais do que os registros dos opressores, tenho me dedicado a reunir as falas de quem tem reagido contra o retrocesso, sobretudo de sujeitos que não costumam ser priorizados nas narrativas hegemônicas, sejam as de direita ou as de esquerda. Ao fazê-lo, uma coisa me parece certa: há uma grande parte deste país que, após gerações e gerações enfrentando o ódio (negado), conquistou a oportunidade de começar a acessar direitos interditados e não está disposta a abrir mão do que ainda é tão pouco para acalmar a fúria dos que não admitem transformar privilégio em direitos universais. Pessoas como a estudante de medicina Suzane Silva, que, sem desmerecer o trabalho de suas antepassadas, tem plena consciência do que significa não ser obrigada a utilizar o melhor de si para se tornar “uma excelente babá, faxineira ou empregada doméstica”. Temos, pois, o desafio de aprender a enfrentar os ódios que são reais e amplos no Brasil e pessoas como Suzane, MC Leonardo e Benedita da Silva, em suas artes da resistência, têm muito a nos ensinar.

Suzane Silva

Suzane Silva, estudante de medicina, bolsita ProUni na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.

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De novo, não!

Nestas últimas semanas,  a consciência histórica nunca se fez tão presente nas discussões políticas. A história das ameaças à democracia brasileira foi cantada em sambas,  funks, coco, rap e mpb. Registramos aqui. Clique na imagem para ver o clip. #VemPraDemocracia! #GolpeNuncaMais.

#MúsicaPela Democracia. “Não. não, golpe não! As velhas raposas querem o galinheiro…”

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“Golpe de ódio. Golpe de Dor. Golpe no tempo não sei onde estou…”

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“Não Vai Ter Golpe de Novo. Reage, reage meu povo”

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“O Morro Mandou Avisar. Se a senzala Descer Ninguém Vai Segurar…”

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“Portela Canta Pela Democracia”

portela canta pela democracia

TV Poeira: “Seja Lembrado pela história”

seja lembrado pela historia 1

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Homenagem do Vício à Virtude

Tentativas maniqueístas de desacreditar intelectual ou moralmente determinadas forças políticas estão na base de todos os fascismos. Infelizmente, os acontecimentos recentes no Brasil chegaram assustadoramente perto disso. Por outro lado, felizmente, os riscos do pensamento único me parecem que estão sendo superados na crise em curso. Sejam quais forem seus desdobramentos, não se farão em nome de qualquer unanimidade artificialmente construída. Estamos diante de um país politicamente dividido. Aprender a lidar democraticamente com isso é parte da solução.

Historiadores profissionais estão fortemente presentes na atual disputa política. O jogo de espelhos da história que se repete ora como farsa ora como tragédia assombrou a muitos, que vieram a público exorcizar tais fantasmas. Como escreveu meu amigo Sidney Chalhoub, em texto publicado aqui no blog, o jogo ainda está sendo jogado e eu não resisto a contar mais uma história.

A hipocrisia pode ser definida como o elogio que o vício presta à virtude e as raízes de sua presença na nossa cultura política são sabidamente antigas. Mesmo quando a estavam violando, a legalidade constitucional sempre foi celebrada pela tradição brasileira. Nem os anos abertamente autoritários do Estado Novo chegam a ser completamente exceção a esta regra. Bem antes do fim do período lá estava o ditador a criar partidos políticos, como bem nos ensina Ângela de Castro Gomes, no clássico A Invenção do Trabalhismo.  O golpe civil militar de 1964 gostava de chamar-se revolução democrática e Arena e MDB disputaram o poder em eleições regulares ao longo de todos os sombrios anos de chumbo.

Muitos remontam o gosto brasileiro pela hipocrisia na política à tradição católica, que ao propor códigos morais inalcançáveis à maioria dos seres humanos comuns, faz do pecado um pressuposto (como na proibição do uso de anticoncepcionais, para ficarmos num exemplo corriqueiro). Há muito, porém, que o Brasil é um país laico e plural do ponto de vista religioso e que a própria igreja católica discute a questão. Discursos únicos não podem dar conta da atualidade política do catolicismo ou do país.

Também a colonização ibérica costuma ser responsabilizada por nossas mazelas políticas. Seríamos uma sociedade de privilégios, mal adaptada à modernidade democrática. Vejo, porém, origem bem mais objetiva na condescendência brasileira com a hipocrisia política. E ela se encontra na nossa peculiar modernidade escravista, estruturadora da fundação do nosso primeiro estado nacional. O racismo à brasileira e a hipocrisia como tradição política têm origens comuns, se não são, a rigor, a mesma coisa.

Com a independência do Brasil, uma atividade mercantil até então considerada legal e legítima, apesar dos horrores em que implicava, que movimentava milhões de libras esterlinas – para ficarmos na então moeda forte do mercado internacional, transformou-se, oficialmente, em crime de contrabando. O reconhecimento da independência do país pela Inglaterra teve como contrapartida um compromisso oficial de extinção do tráfico de cativos africanos, depois ratificado por uma lei aprovada em 1831. Com a emancipação política, o comércio negreiro virou tráfico, e assim se fixaria na memória nacional.

A lei não foi aprovada para inglês ver, como passou para a história. Muitos lutaram para que fosse implementada, mas ela se tornou alvo de um vigoroso processo de desobediência civil por parte da classe senhorial que acabou se consolidando no movimento político conhecido como Regresso, que alcançou o poder em 1837. Ainda assim, não conseguiram revogar a lei de 1831 (ainda que tentassem), optando por fechar os olhos para seu descumprimento. A hipocrisia generalizada como política de estado nascia ali, juntamente com a prática de silenciar sobre a cor dos brasileiros livres nos documentos oficiais.

Invisibilizada na memória pública, a mobilidade social de intelectuais mestiços foi expressiva nas primeiras décadas após a independência. Francisco Montezuma, formado em direito por Coimbra, e Antônio Pereira Rebouças, advogado por notório saber, combateram o tráfico escravista no parlamento, como deputados pela Província da Bahia. Filho de uma liberta com um alfaiate português, Rebouças  tornou-se um dos maiores especialistas em direito civil no Brasil do século 19, como nos mostrou Keila Grinberg. Durante as tentativas de revogação da lei de 1831, discursou no parlamento denunciando a conivência da chamada “boa sociedade” brasileira com o tráfico de escravizados. Não porque alguns elementos se tivessem corrompido, como por vezes se acusava um ou outro inimigo político, fazendeiro ou funcionário público, mas porque todos os produtores rurais brasileiros, pequenos ou grandes, estavam de alguma forma envolvidos com o contrabando.

Homem de seu tempo, Rebouças defendia que os trabalhadores africanos no país fossem todos considerados como colonos livres, e que novos braços africanos fossem trazidos nessa condição. Para tanto, seria preciso revogar outra lei, de 1830, que baseada em pressupostos racistas proibia a imigração de africanos livres.

Foi derrotado. Os sobreviventes da terrível travessia continuaram a cruzar clandestinamente o Atlântico e a Serra do Mar, para serem ilegalmente incorporados como trabalhadores escravizados às plantações de café, principal produto de exportação do novo país. Desse percurso, porém, quase não ficaram rastros. A ilegalidade trazia consigo invisibilidade social e silêncio. As pessoas morriam nas praias a vistas de todos, mas depois de Rebouças, apenas os ingleses continuaram a falar sobre isso. Um relatório do Foreign Affairs de Londres relata mais de 4000 pessoas desembarcadas entre Copacabana e a Ilha Grande apenas em janeiro de 1838.

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 (agradecemos à Mariana Muaze pela reprodução do documento no blog)

Era como se toda a sociedade se fizesse propositalmente muda e cega em relação à continuidade do tráfico negreiro, bem como à cor de parlamentares como Rebouças ou Montezuma. O Brasil nasceu como nação comandado por corsários de corpos negros que se imaginavam como construtores (quase) brancos de um Império civilizado nos trópicos.

Em 1850, uma segunda lei colocaria fim ao tráfico atlântico de escravizados, com o compromisso de manter, porém, o manto de silêncio sobre a ilegalidade anterior. Desde então a ideia de que as leis no Brasil podem pegar ou não tem sido repetida. Bem como o jargão histórico que ameaça com a lei os inimigos. Na atual crise política, não existe bordão mais cruel do que o Quero Meu País De Volta.

Do ponto de vista da velha corrupção política, o risco de mais um tapetão histórico (acho que a expressão é de Luiz Felipe Alencastro) está mais que nunca no horizonte. Se o clima político atual por vezes lembra o pré 1964, a proposta de um governo Temer a partir do impedimento da presidenta ecoa 1837. Reencenando como farsa o gosto pela hipocrisia generalizada, o réu Eduardo Cunha ameaça o mandato de Dilma Rousseff, presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos, entre eles o meu, e a própria democracia.

De novo, não. Os tempos são outros.

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Celebrando #PassadosPresentes

Em 2 de junhos de 2014, fizemos o nosso primeiro post com a hashtag Passados Presentes. Com o título “Uma Aula de História Pública” contávamos uma visita de Martha com uma turma da UFF ao Quilombo do Bracuí e dávamos a notícia:

“A partir deste mês de junho, iniciamos no LABHOI/UFF, em associação como o NUMEM, da UNIRIO, coordenado por Keila Grinberg, e apoio do Edital Petrobras Cultural, um projeto de história pública sobre o tema, com o título Passados Presentes: Patrimônio Imaterial e Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos no Rio de Janeiro.”

Quase dois anos depois, celebramos ontem, 2 de abril de 2016, a disponibilização de todo o conteúdo previsto para o projeto no aplicativo Passados Presentes, com 4 roteiros de memória. No evento, foi lançado um novo circuito.

Mais de 500 pessoas, segundo o Museu de Arte do Rio (MAR), percorreram em diversos grupos os caminhos da antiga Pequena África no Centro do Rio.  Não deixe de conferir a reportagem da TV Brasil sobre  evento e a versão atualizada do teaser do roteiro,  ambos com imagens inéditas da histórica caminhada.

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No lançamento, nas dependências do MAR, ficamos emocionadas com a primeira exibição do curta de Guilherme Hoffmann, Criando Passados Presentes, de 23 minutos, sobre o “making of” do projeto, em parceria com o Grupo de Jongo de Pinheiral e os quilombos do Bracuí e de São José da Serra. Um pequeno e emocionante histórico de dois anos do mais gratificante trabalho.

Através de Maria de Fátima Silveira Santos (Fatinha), Antônio Nascimento Fernandes (Toninho) e Marilda de Souza, agradecemos mais uma vez a todos que fizeram do sonho realidade.

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COORDENAÇÃO GERAL E TEXTOS

Hebe Mattos – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF)

Martha Abreu – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Organizadora, com Hebe Mattos e Milton Guran, do Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Negreiro e da História dos Africanos escravizados no Brasil da UNESCO – www.labhoi.uff.br/node/1507

Keila Grinberg – historiadora, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Núcleo de Documentação, História e Memória (NUMEM/UNIRIO)

CONSULTORIA DE PESQUISA

Matthias Assunção – Matthias Röhrig Assunção – historiador na Universidade de Essex, Reino Unido, e pesquisador associado ao LABHOI/UFF

Elaine Monteiro _ Educadora, Universidade Federal Fluminense e Coordenadora do Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu www.pontaojongo.uff.br

COORDENAÇÃO DE PESQUISA

Daniela Yabeta _ Historiadora, pos-doutoranda no LABHOI/UFF (CNPq/FAPERJ)

ASSISTENCIA DE PESQUISA

Lívia Monteiro _ Historiadora, doutoranda no PPGH/UFF.

APOIO TÉCNICO

Alexandre Abrantes e Clarissa Mainardi (LABHOI/UFF)

BOLSISTAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA (APOIO FAPERJ/CNPq):

Eline Cypriano; Daniely Sant’Anna; Lissa Passos; Raquel Terto; Thamyris Morais; Vanessa Gonçalves.

ASSESORIA E CONSULTORIA DE PESQUISA NAS COMUNIDADES

Jongo de Pinheiral:
Maria de Fátima da Silveira Santos, Maria Amélia da Silveira Santos e Maria das Graças da Silveira Santos.

Quilombo de São José da Serra:
Antônio do Nascimento Fernandes, Almir Gonçalves Fernandes, Gilmara da Silva Roberto e Luciene Estevão Nascimento.

Quilombo do Bracuí:
Marilda de Souza Francisco, Angélica Souza Pinheiro e Luciana Adriano da Silva.

Quilombo da Pedra do Sal:
Damião Braga.

Instituto dos Pretos Novos:
Marced Guimarães e Claudio Honorato.

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO E ARTE DO MEMORIAL: André De Castro

DESIGNER SÊNIOR E ILUSTRAÇÃO: Julia Haiad

DESIGNERS: João Roma e Victor Lifsitch

CENOTÉCNICO: André Salles

EQUIPE LOCAL DE MONTAGEM: Walmir de Souza Francisco; Antônio de Pádua Estevão; Jorge dos Passos Estevão e Carlos Roberto Roberto.

CRIAÇÃO AUDIO-VISUAL: Guilherme Hoffmann

TECNOLOGIA – SITE E APLICATIVO: Digitok

REVISÃO DOS TEXTOS: Simone Intrator e Renata Saavedra

GERENCIAMENTO DE REDES SOCIAIS: Renata Saavedra

VERSÃO EM INGLÊS: Kristin McGuire

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Somma Comunicações

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Isabel Pacheco

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Cria Produções

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PASSADOS PRESENTES – Circuito PEQUENA ÁFRICA

Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil chega à cidade do Rio de Janeiro. O circuito Pequena África, na região portuária da cidade, completa os roteiros de memória que contam a história da última geração de escravizados africanos no Rio de Janeiro, em um aplicativo de celular.

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19 pontos principais estão assinalados no mapa. Em três deles, com o leitor de código QR do aplicativo pode-se ouvir a voz de lideranças comunitárias e historiadores nos falando sobre a importância histórica da região. Outros 42 pontos, 7 dos quais sobre as atuais rodas de rua da capoeira da cidade, completam o roteiro, e podem ser acessados na função Perto de Mim.

Um filme de Guilherme Hoffmann sobre o desenvolvimento do projeto será exibido no próximo sábado, durante o lançamento do novo circuito,  dia 2 de abril, às 10 horas, no Museu de Arte do Rio. Em seguida, faremos parte do percurso em visita guiada.

Os locais que o visitante terá a oportunidade de conhecer são uma parte da cidade do Rio de Janeiro denominada de Pequena África pelo artista e sambista Heitor dos Prazeres no início do século 20. Divulgada em livros, letras de música e enredos de escolas de samba, a expressão passou a identificar parte significativa da zona portuária da cidade, onde a presença africana e o patrimônio cultural negro marcaram para sempre a história não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil.

Entre o final do século 18 e a primeira metade do século 19, a região foi marcada pelas  atividades de comércio e recepção dos africanos escravizados. Hoje as ruínas do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos rememoram a passagem  de mais de um milhão de africanos pela Pequena Africa, uma história de dor e sofrimento que não pode ser esquecida.

Na virada do século 19 para o 20, a vida cultural da Pequena África e da própria cidade foi renovada, com a chegada de migrantes negros, vindos especialmente  da Bahia e de antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, e de imigrantes portugueses, italianos e judeus.

A Pequena África passou a ser o centro de criação da cultura negra carioca e da organização de novas formas de mobilização política. Em torno de sindicatos, capoeiras, casas de santo, gestaram-se greves, revoltas urbanas e novos gêneros musicais. Naquele contexto, o samba emergiu como um gênero específico, e ganhou visibilidade em todo o país; também foram fundadas associações negras, sociais e dançantes, com seus cordões e ranchos, que ligaram a Pequena África ao que de mais moderno estava sendo produzido em termos musicais e artísticos no período.

O circuito Pequena África foi desenvolvido por nós (Hebe/Martha) e Keila Grinberg (co-autora deste texto), em parceria com o Quilombo da Pedra do Sal e o Instituto dos Pretos Novos. Semana passada, fizemos parte do circuito com Damião Braga, liderança do Quilombo, Claudio Honorato, historiador do IPN, Ruben Zonenschein, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do app, e a jornalista Flávia Oliveira.

Como turismo comunitário e de memória, o projeto conta com apoio do Museu de Arte do Rio. O folder do projeto será distribuído gratuitamente na entrada do Museu, ponto zero do roteiro.

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Desfaçatez de classe. Sidney Chalhoub

Os futuros anais históricos da Bruzundanga contarão admirados as efemérides daqueles remotíssimos dias de março de 2016. No quarto dia daquele mês, sexta-feira aziaga, certo juiz da roça, um tanto guapo, outro tanto aloprado, prendeu por um dia um ex-presidente da república que era também um ex-operário. O acontecimento espetacular acelerou a história.

 As duas semanas seguintes foram um deus nos acuda. O juiz da roça, ao que se dizia um simpatizante do partido da ave de bico comprido, bisbilhotou e divulgou ilegalmente conversas de autoridades diversas, até mesmo da presidenta da Bruzundanga. O magistrado de província justificou os atos que praticara à revelia da lei como decorrentes da elevadíssima estatura moral de sua pessoa e de seus propósitos. Tais escutas telefônicas, consideradas de gravidade ímpar por parte da imprensa que as considerou de gravidade ímpar (sic), tinha como objetivo conclamar a massa dos cidadãos parrudos da república a ir para a rua e mostrar a sua cara.

Eles foram. Carregaram cartazes com a cara do juiz da roça, que não coube em si de contente e filosofou, mui profundamente, sobre a sabedoria das ruas e a necessidade de ouvi-las. Era preciso derrubar o governo da Bruzundanga. Dirigentes do partido da ave de bico comprido e do partido que nunca está fora do poder reuniram-se para planejar o novo governo, nomear ministros, pactuar o aprofundamento da política econômica em curso, que não vinha dando resultado, o que comprovava a excelência de sua concepção.

Uma sumidade do partido da ave de bico comprido acalmou os políticos que seriam depostos, perseguidos pelo juiz da roça e enviados para o calabouço. Explicou mui serenamente que o novo governo não seria vingativo. Um magistrado da Altíssima Corte do país tagarelava todos os dias, em entrevistas à mídia, a respeito de como julgaria os processos que ainda lhe chegariam à mesa para julgar (sic). Num último lance genial, uma espécie de cereja do bolo, um ex-presidente que era também um ex-intelectual, muito indignado com a possibilidade de o ex-presidente que era também um ex-operário ocupar uma pasta ministerial, sentenciou: “analfabeto não pode ser ministro”.

Que tempos memoráveis! Machado de Assis, intérprete-mor da Bruzundanga, escreveu um livro, chamado Memórias póstumas de Brás Cubas, que consistiu numa espécie de tratado de interpretação sociológica das duas semanas da história da Bruzundanga, naquele ano de 2016, decorridas entre o quarto e o décimo oitavo dias de março. Em tal compêndio de sapientíssima hermenêutica do repertório simbólico da sociedade bruzundanguense, o autor formulou o conceito de descaramento ou desfaçatez de classe.

Autor genial e complexo, Machado de Assis só teorizava por meio de alegorias, ou por linhas tortas, que é um jeito mais simples de dizer a mesma cousa. Por isso inventou Brás Cubas, outro guapo da história pátria, narrador e protagonista das Memórias. Brás Cubas não era um autor defunto, mas um defunto autor. Quer dizer, ele decidiu contar a própria história depois de morto, enviando os capítulos, direto do além-mundo, por correio sideral. A circunstância de morto dava ao autor daquelas páginas uma desenvoltura primorosa: “Agora… que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo”; e se o livro, “fino leitor”, “te não agradar… pago-te com um piparote”, que, ao que parece, era como se dizia “peteleco” naquela época.

Por conseguinte, o primeiro elemento constituinte do conceito de desfaçatez de classe é o transbordamento de autoconfiança, ou o impudor radical, que passa a guiar as atitudes de Brás Cubas e seus semelhantes. Podem “confessar tudo” o que pensam e fazem. Brás Cubas foi sujeito rico, dono de propriedades no Rio de Janeiro imperial, senhor de escravos, entre eles Prudêncio. Este era “um moleque de casa”, “o meu cavalo de todos os dias”; “punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o”. Se Prudêncio reclamasse, Brás retorquia: “Cala a boca, besta!”.

Brás Cubas sofria de monomania em relação às mulheres. Ele organizou a sua narrativa em torno das personagens femininas de sua vida, desde Pandora ou a mãe Natureza, que lhe aparecera no delírio derradeiro antes da morte (ou no momento do nascimento do defunto autor), até Virgília, passando por Eugênia, Marcela, dona Plácida etc. Dona Plácida foi uma criada da família de Virgília, que se tornou depois alcoviteira dos amores clandestinos desta senhora com o memorialista.

Brás se perguntou certa vez sobre a utilidade da vida de dona Plácida, queria desvendar o porquê de sua vinda ao mundo. Chegou à seguinte conclusão: “para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital”.

As historietas de Prudêncio e dona Plácida encapsulam o segundo elemento constitutivo do conceito de descaramento ou desfaçatez de classe. A desfaçatez de classe acontece quando a classe brascúbica, uma vez achacada de crise de despudor, como ocorreu na Bruzundanga naquelas memoráveis Jornadas de março de 2016, destampa ao mundo os mais recônditos segredos de sua maneira de ver as cousas, segundo a qual negros, mulheres e pobres existem para ralar ou empurrar traquitanas enquanto o patronato chiquérrimo vocifera, à beira-mar, contra a presidenta eleita.

Brás Cubas articulou teoricamente a ideia, central ao conceito sociológico de desfaçatez de classe, de que as desigualdades ou injustiças sociais são parte necessária da paisagem, assim como as montanhas, os rios e as praias: “Outrossim, afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares”.

Quiçá o momento analiticamente mais promissor das Jornadas de março de 2016 tenha sido o comentário do ex-presidente que era também ex-intelectual, de que “analfabeto não pode ser ministro”. A concisão dialética da frase é notável. Ao decifrá-la à luz do conceito de desfaçatez de classe, temos uma visão de mundo construída por metáfora, ou pela transposição do sentido próprio ao figurado. Assim, “analfabeto” significa a maioria da população da Bruzundanga, cujo lugar social, em respeito à tradição, deve permanecer o mesmo na longa duração histórica, com tendência ao infinito. Já “ministro” é fórmula abreviada de dizer classe brascúbica, conforme a definição de Machado de Assis (op. cit., passim).

Um participante das manifestações de 18 de março, contrárias ao impedimento da presidenta, foi às ruas com um cartaz no qual criticava a tese de Machado de Assis a respeito da desfaçatez de classe, por considerá-la desnecessariamente hermética. Segundo o manifestante, a crise política da Bruzundanga se resumia ao seguinte: “Quando a senzala aprende a ler, a casa grande surta”. Isso escrito em letras garrafais, o que é uma maneira de vencer no grito, e Machado de Assis era gago, o que de antemão deu ganho de causa ao crítico popular.

Os anais históricos da Bruzundanga guardam um enigma. Os historiadores não descobriram o que aconteceu depois das Jornadas de março. Uns dizem que as duas semanas de desfaçatez de classe demonstraram o poder invencível da classe brascúbica, logo o impedimento da presidenta era fait accompli, favas contadas. Outros, adeptos de ver as cousas por meio de velhos adágios populares, sustentaram que “a cura veio pelo excesso do mal”. O descaramento de classe suscitou o demônio rubro da resistência, quer dizer, a virada satânica da história.

Outra personagem popular, cheia de ouvir tanta teoria, recorreu ao tesouro de sabedoria do esporte bretão e acabou com esta crônica: “o jogo é jogado, e só acaba quando termina”.

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HÁ UM LUGAR PARA A LIBERDADE?*

A escravidão foi reconhecida como crime contra a humanidade pela ONU, por meio do Estatuto de Roma, do Tribunal Penal Internacional, em 1998. A especial gravidade do tráfico transatlântico de africanos, por sua vez, foi destacada na Declaração e no Programa de Ação  da Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, de 2001. Estamos no segundo ano da Década Internacional do Afrodescendente. E nesta segunda-feira, 21 de março, chegamos ao 50º ano do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído seis anos depois do Massacre de Sharpeville, quando a polícia do apartheid sul-africano se lançou contra cerca de 20 mil pessoas que manifestavam contra a Lei do Passe, que limitava o direito de ir e vir de gente de pele escura no país, atentado que deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. O episódio é representado no filme Mandela: o caminho para a liberdade (2013), dirigido por Justin Chadwick e estrelado por Idris Elba, a partir do 25º minuto.

Sharpeville

O apartheid inequivocamente foi uma prática condenável. E precisamos nunca perder isso de vista. Ao mesmo tempo, devemos fugir da antiga armadilha de estabelecer rankings da violência racial no mundo. Trata-se de uma questão que dá sentido à sociabilidade em escala global e isso precisa ser encarado com seriedade e serenidade. Não é por acaso que, no lado de cá do Atlântico, de uma ponta a outra do continente americano, a escravidão e o racismo tiveram papel decisivo na conformação de projetos nacionais que em sua maioria não adotaram a universalização da liberdade e da cidadania como pressuposto para seus processos de independência. Senão, vejamos.

Afora o delicado caso do Haiti, nenhuma outra nação americana independente no século XIX construiu as bases de sua soberania a partir da liberdade de todos os seus membros. A permanência da escravização de africanos e seus descendentes, em vez disso, serviu para sustentar os primeiros passos de países como os EUA (ainda no século XVIII), Brasil, Colômbia, Argentina, etc. Por outro lado, seja o difícil processo da emancipação política das colônias inglesas, no pós-segunda guerra mundial, e de Cuba, em 1959; seja a ambiguidade da atual condição das ex-colônias francesas e de Porto Rico, esses casos em vez desmontar o argumento, acabam por reforçá-lo. Isso porque tais experiências nos permitem explicitar uma outra face do mesmo problema: os limites e as possibilidades da cidadania negra antes e após o fim da escravidão legalizada.

Tabela Independências - Abolição

A hierarquização sociorracial dos habitantes desses países – a princípio, divididos entre escravizados, libertos e livres − gerou um embaraço que ainda hoje custa ser desfeito pelos pesquisadores dessas histórias nacionais. Cidadania de segunda classe, quase cidadania, cidadania parcial ou não cidadania, essas são expressões por meio das quais pesquisadoras/es têm buscado se aproximar das experiências da liberdade negra nas diversas sociedades americanas. Fato que muitas vezes causa estranheza até entre interessados/as na chamada “história negra”, não foram pontuais as presenças de “pretos”, “pardos”, “morenos”, “mulatos”, etc. livres durante a vigência da escravidão.

Como observado por George Andrews, em 1783, 59,7% da população “negra e mulata” de Caracas era livre; em 1810, 22,6% dos “negros e mulatos” da cidade de Buenos Aires também; e aproximadamente 54,8% em 1827; em 1850, 35% da população afro-cubana já não estava submetida à escravidão. Giovana Xavier, a partir da análise dos censos dos EUA, destaca que, se em 1860, 11% dos “blacks and mulattos” do país; os 41.224 afro-americanos de Nova York (ou seja 100%) eram livres já neste período. No Brasil, para o ano de 1872, segundo o Recenseamento Geral do Império, para dez pessoas pretas e pardas, seis eram libertas ou livres.

Diante de tal cenário, fica a pergunta: Como e por que, a despeito do tempo e do espaço, o sujeito negro por excelência se tornou sinônimo de escravo nas histórias nacionais? Longe de subtrair o peso da escravidão, interessa responder por que a lacuna representada pela ignorância sobre os destinos de tantas pessoas vivendo na liberdade e lutando por cidadania não colocam em xeque o que acreditamos conhecer sobre a história do nosso continente? Por força do costume ou “razões científicas”, a invenção da liberdade como um não lugar da gente negra fez com que, por exemplo, a inclusão dessas pessoas em projetos de imigração entre países americanos se tornasse inviável. Tal impossibilidade de pensar as populações negras na liberdade extrapola, portanto, a escravidão e nos informa sobre a viabilidade desses sujeitos e das nações em que se encontram, como registrado pelo jornal O Homem, primeiro periódico da imprensa negra de Pernambuco, que em 1876 apresentava o subtítulo “Realidade Constitucional ou Dissolução Social”. Afinal, desde a Constituição de 1824, os cidadãos deveriam ser medidos por seus talentos e virtudes.

De tal sorte, acredito que, do lugar de historiadoras/es, contribuir para a luta que marca o dia de hoje passa por romper com essa expressão do racismo expressa nesse apagamento desses sujeitos históricos e sua importância para a trajetória de cada país. Estando nos anos iniciais da Década do Internacional do Afrodescendente, é importante problematizar o que das histórias americanas queremos rememorar e como faremos isso. E mais, torna-se ainda mais urgente incorporar em nosso repertório as experiências dos países vizinhos, como as das irmãs Petrona e Sebastiana Cárdenas, uma das tantas apresentadas pela série colombiana “Invisibles”. Se os estudos comparados sobre escravidão renderam bons resultados, está caindo de madura a oportunidade de aproximar as reflexões sob essa outra perspectiva também.

Irmãs Cadernas

 

*Texto produzido enquanto acompanhava as mobilizações contra as investidas de golpe à democracia brasileira e sobrevoava o mar do Caribe com destino a Nova York; e finalizado sob o impacto da fala da cineasta e advogada Viviane Ferreira  no ato realizado na Avenida Paulista em 18 de março.

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