Memória e Cidadania no Complexo do Valongo

Levar uma turma de alunos de graduação para visitar locais de memória do trafico atlântico e da escravidão é sempre uma ótima oportunidade para discutirmos como a história está sendo contada em lugares públicos e memoriais. A abertura da visitação do cais do Valongo, há dois anos, faz parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana,  organizado pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, para também dinamizar em termos culturais o projeto de reforma urbana da área portuária.

Sem entrarmos nas  discussões e polêmicas sobre a  reforma do Porto, vale destacar a importância da iniciativa e a divulgação do circuito, em grande parte resultado da renovada presença das demandas dos movimentos sociais, e do movimento negro em especial, na cena pública brasileira. Organizado pela Prefeitura, ele percorre um conjunto de locais marcantes para a memória da cultura afro-brasileira e inclui o Cais do Valongo, os Jardins do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito e o Instituto Pretos Novos.

Os verbetes sobre o complexo do Valongo, no Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil, organizado pelo LABHOI-UFF, permitem uma primeira aproximação com a importância do percurso.  É possível percorrê-lo com apoio de guias, ou mesmo individualmente. Há placas indicadoras e explicativas em cada um dos locais de memória.  Destacamos, especialmente, as visitas guiadas organizadas pelo Cemitério dos Pretos Novos (25167089), sob coordenação do historiador Claudio Honorato.

O Cais do Valongo foi o principal porto de entrada de escravizados africanos, em um Rio de Janeiro que era a maior cidade escravista do Atlântico, na primeira metade do século XIX. É, portanto, extremamente significativa a iniciativa de recuperação e reconstrução da Herança Africana no seu entorno, ainda mais diante do silêncio que sobre ele recaiu desde que foi encoberto, ainda no século XIX, para dar lugar ao Cais da Imperatriz e às reformas de Pereira Passos.  Voltaremos a ele neste blog ao longo das próximas semanas.

Mas, após uma visita de Martha com uma turma de alunos ao circuito, o que primeiro chamou nossa atenção foi o que ainda está pouco valorizado e esquecido. Há ainda muito mais para ser lembrado, visitado e divulgado.  Por exemplo, em contraste com a centralidade do cais do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos está mantido, em grande parte, pelos esforços dos proprietários da casa da Rua Pedro Ernesto, 36, Gamboa, Merced e Petroccio. Na Pedra do Sal, já há uma rápida referência ao local de nascimento do samba e, desde dia 23 de maio, uma placa reconhecendo o Quilombo da Pedra do Sal como patrimônio cultural carioca, mas haveria muito mais histórias para contar.  Nos Jardins do Valongo, muito bem restaurados, não há qualquer referência à memória negra, apenas às obras do então Prefeito Pereira Passos, em 1906.

Há muitas outras marcas sobre a vivência de africanos escravizados e seus descendentes na região. Circuitos criativos, como os que Claudio Honorato tem feito, em torno do complexo do Valongo, podem recriar a memória de vivências da velha “Pequena África”, como a denominou Heitor dos Prazeres em princípios do século XX. Dos Jardins do Valongo, por exemplo, é possível avistar o Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores; a Rua Barão de São Felix, local de muitos cortiços e do mais famoso deles  – O Cabeça de Porco – espaço de encontro de libertos e imigrantes pobres, que deixariam profundas marcas culturais na história da cidade e que foi destruído por Barata Ribeiro, no início da República. Na Barão de São Felix também se localizava o destacado candomblé de João Alabá, frequentado pelas baianas da Praça Onze e por sambistas como João da Baiana.

Na Pedra do Sal, na base do Morro da Conceição e Largo da Prainha ainda era possível encontrar sedes de cordões e ranchos, casas de zungus, rodas de capoeira e associações e sindicatos de trabalhadores do porto, na sua grande maioria formada por afrodescendentes. Sem muito esforço, podemos usar a imaginação para pensar nas andanças de Elói Antero Dias, o Mano Elói, fundador da Império Serrano, nas primeiras décadas do século XX, visitando blocos carnavalescos, participando de candomblés e das politizadas reuniões da “Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café”, depois de um longo dia de trabalho de estivador no porto.

Para o bom conhecedor da região, mesmo que a população negra, aparentemente, já não seja mais majoritária, sabemos que muito desse passado ainda está presente nas casas de cômodo, que teimam em permanecer,  nas sedes de antigos sindicatos de estivadores, que perdem importância, e até mesmo na sede do Afoxé Filhos de Gandhi, que, situado bem ao  lado do restaurado Jardim do Valongo, segue sem telhado e praticamente destruído.

Contar a História desses locais em visitas ou nas nossas salas de aula  parece ser uma das melhores formas para esse passado não ser esquecido…. Ainda voltaremos a essas visitas em outras conversas. Por enquanto, vale destacar como foi emocionante para todos nós, no momento da visita à Pedra do Sal, a leitura do depoimento recolhido por Roberto Moura, na década de 1980, de Carmem Teixeira da Conceição, mais conhecida como Tia Carmem.  Iniciativa inspirada nos roteiros históricos desenvolvidos pelo projeto Santa Afro Catarina, as frases de Tia Carmem bem que mereciam uma bela placa em uma das paredes das antigas construções que cercam a Pedra do Sal:

Tinha na Pedra do Sal, lá na Saúde, ali que era uma casa de baianos e africanos, quando chegavam da África ou da Bahia. Da casa deles se via o navio, aí já tinha o sinal de que vinha chegando gente de lá. (…) Era uma bandeira branca, sinal de Oxalá, avisando que vinha chegando gente. A casa era no morro, era de um africano, ela chamava Tia Dada e ele Tio Ossum, eles davam agasalho, davam tudo até a pessoa se aprumar. (…) Tinha primeira classe, era gente graúda, a baianada veio de qualquer maneira, a gente veio com a nossa roupa de pobre, e cada um juntou sua trouxa: “vamos embora para o Rio porque lá no Rio a gente vai ganhar dinheiro, lá vai ser um lugar muito bom (…)

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foto3.1 (1)Foto 1: Encontro da turma com o grupo liderado pelo historiador Claudio Honorato na Pedra do Sal.

Foto 2: Dos Jardins do Valongo, vista da Barão de São Felix, da Central do Brasil e, no primeiro plano, da Praça dos Estivadores, antigo Largo do Depósito (local de lojas de traficantes de escravos, no inicio do século XIX, e local de encontro dos estivadores, no final do século XIX e início do XX, na União dos Operários Estivadores).

Foto 3: Do Jardim do Valongo, vista do Morro da Providência, chamado de Morro da Favela no início do século XX, e a rua Barão de São Felix, logo em frente.

Fotos Rachel Terto e Luisy Andrade

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Instituições Nefandas

A escravidão é uma instituição tão antiga quanto a humanidade. E continuou uma instituição central para o desenvolvimento do mundo moderno e globalizado como o conhecemos ainda hoje. Sua lenta agonia nos Estados Unidos, Rússia e Brasil durante o longo século XIX é o tema de seminário internacional que começa amanhã, 20/5, na Casa de Rui Barbosa, com transmissão ao vivo pela internet. Colocar em conjunto especialistas no tema no Brasil, Estados Unidos e Rússia tem, entre outros, um mérito especial: ir além das análises comparativas mais usuais, que opõem modernidade (ocidental) e sociedades tradicionais (Rússia e Brasil), ou que consideram a escravidão racial no novo mundo (Brasil e Estados Unidos) inscritas de um modo ou outro na modernidade ocidental, em oposição a uma Rússia tradicional. A iniciativa do seminário, ao conectar diferentes historiografias, contribui para tornar mais complexas nossas concepções sobre a modernidade. As relações e interações entre os diferentes contextos, as fronteiras móveis entre trabalho “livre” e trabalho “servil”, as ambiguidades e inovações produzidas na progressiva e lenta deslegitimação da escravidão em termos globais no século XIX serão discutidas por especialistas, ganhando novas dimensões na interação entre eles.  Ainda que indiretamente, a centralidade da instituição na Europa e suas colônias (especialmente Inglaterra e França) e, depois, na sua expansão colonial na África e na Ásia também estarão presentes no debate. Pela internet. Em tempo Real. #ficaadica.

Para estimular a reflexão sobre o tema e seus desdobramentos contemporâneos, reproduzimos mais uma vez o post “Estranhos Costumes Ilegais”. #vale a pena ler de novo.

Nas três primeiras décadas após a independência do Brasil, mais de 750 mil africanos foram forçados a atravessar o Atlântico e  tornaram-se escravizados no país, apesar da legislação da então jovem monarquia constitucional proibir formalmente o tráfico negreiro desde 1831. Todo o processo de montagem e consolidação do estado imperial brasileiro se fez assentado nessa gigantesca ilegalidade, com um saldo imensurável de vidas perdidas na travessia do Atlântico e de violência fisica e simbólica sobre aqueles que sobreviveram e, no Brasil, foram forçados a aprender a viver “escravo”.

Até bem pouco tempo, porém, esta informação aparecia quase sempre com uma naturalidade desconcertante nas mais diversas narrativas da história do Brasil. Mesmo os especialistas em história social da escravidão não costumavam dar muita atenção para a montagem das atividades ilegais que permitiram a continuidade do tráfico negreiro no país, entre 1831 e 1850, e seus desdobramentos do ponto de vista político e ético. Subestimavam também, via de regra, a consciência dos atores da época sobre os direitos daqueles que chegavam ao país ilegalmente escravizados e o constrangimento que causava trazer a público tal tema.

Recentemente, porém, a temática do tráfico ilegal emergiu  com força na pesquisa histórica e pode ter importantes desdobramentos no ensino de história. Talvez seja hoje o campo da historiografia da escravidão que mais tem se renovado. Tem trazido importantes contribuições para nossa compreensão sobre a “força da escravidão” – título do último livro de Sidney Chalhoub;  sobre  envolvimento da população local de Pernambuco na organização do tráfico ilegal – tema de pesquisa de Marcus Carvalho; e sobre a dimensão nacional da atividade ilegal – que pode ser avaliada pelas evidências no sul do Brasil, registradas no site do Santa Afro Catarina, coordenado por Beatriz Mamigonian e Andrea Ferreira Delgado.

Mais uma vez a história responde  questões formuladas pela memória e o tempo presente. Parece-nos extremamente significativo para a democratização da sociedade brasileira que finalmente tenhamos conseguido olhar com estranhamentos a “costumes” baseados no racismo e no desrespeito aos direitos humanos. A ilegalidade do tráfico e da escravidão, após 1831, foi o argumento central na defesa apresentada por Luiz Felipe Alencastro, em 2011, para a aprovação das ações afirmativas para pretos e pardos no Supremo Tribunal.

De nossa parte, também encontramos registros importantes sobre o tráfico ilegal através da memória dos descendentes de escravos do Quilombo da Rasa,  Quilombo da Marambaia e do Quilombo do Bracui, analisados no livro coletivo Diáspora Negra e Lugares de Memória (2013).  Se já tínhamos conhecimento de desembarques ilegais na região de Angra dos Reis, e havíamos trabalhado com o assunto, no porto do Bracui, na coletânea Resgate, uma janela para o oitocentos, na década de 1990, foi impressionante ouvir o  mesmo caso nas narrativas orais dos atuais moradores do Quilombo do Bracui.  São essas narrativas que hoje identificam sua luta pelo reconhecimento da terra e da identidade quilombola.

Os eventos e locais do tráfico ilegal, silenciados no passado e nos poucos vestígios que deixaram pela natureza da própria atividade,  podem hoje também ser conhecidos e visitados pelo Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil. Entre 2012 e 2013, organizamos o Inventário, sob a batuta de Milton Guran, representante  do Projeto da UNESCO “Rota do Escravo: Resistência, Herança e Liberdade”.   O  trabalho foi construído a partir da indicação e contribuição de diversos historiadores, antropólogos e geógrafos do país, após consultas e intensas trocas de informações por e-mail. Depois de muitas negociações quanto ao número de indicações, chegamos a 100 Lugares de Memória, dando prioridade às evidências documentais, escritas ou orais, da presença histórica e cultural dos africanos. Entre os diferentes tipos de Lugares de Memória selecionados, destacamos neste texto os lugares de desembarque ilegal.  São 15 lugares de desembarque ilegais assinalados, marcando para a posteridade  eventos que não podem mais ser esquecidos.

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“Sessão Nostalgia”

Tentamos marcar nosso papo para discutir sobre o post da semana. Mas as vezes a agenda aperta e impõe limites a duas mãezonas em pleno segundo domingo de maio. Ainda assim, em rápidos e-mails, mais uma vez nos demos conta da longa estrada das nossas conversas de historiadoras.

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Colocamos na biblioteca do blog esta semana, o pdf do livro Resgate. Uma Janela para o Oitocentos, de 1995, um dos livros pioneiros utilizando a micro-história como método para o estudo da história social da escravidão e da abolição no Brasil, organizado por Hebe e Eduardo Schnoor. Além da Martha, o livro reuniu toda a então chamada escola do Rio sobre a escravidão oitocentista, formada por historiadores da UFF e da UFRJ (Ana Lugão Rios, Sheila Faria, João Fragoso, Manolo Florentino,  José Roberto Goes, Ana Maria Mauad).  Com o pdf, entre muitos outros textos que valem a pena ler de novo, vocês podem ter acesso ao texto de Martha, O Caso do Bracuí, que tão fortemente dialoga com o nosso último filme Passados Presentes e a memória do tráfico ilegal de africanos em terras do atual Quilombo do Bracuí.

Também esta semana, o blog Terça com Tobias divulgou a entrevista que o grupo de jovens historiadores de Recife fez com Hebe, quando do final da sua estada como Professora Visitante da UFPE em julho de 2013. Vale a pena acompanhar o belo trabalho de edição, feito pelos entrevistadores, na viagem historiográfica através da memória que eles incitaram a entrevistada a fazer. Na versão do youtube, os capítulos temáticos da longa entrevista podem ser acessados separadamente. Nossas conversas estão lá, entre muitas outras, registradas com afeto pelo crivo da memória.

Por fim, de volta para o futuro, registramos o lançamento do blog do GT Emancipações e Pós-Abolição da Associação Nacional de história, que ajudamos a criar no encontro nacional da ANPUH de 2013, dirigido pelas historiadoras Wlamyra Albuquerque e Giovana Xavier.  E aproveitamos para divulgar o blog do nosso grupo de pesquisa na UFF, o Cultura Negra no Atlântico (CULTNA), filiado ao GT.

Com a imagem da saudosa Mãe Ferina (D. Zeferina), do Quilombo São José, desejamos a tod@s, um Feliz dia das Mães!

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Kumbukumbu: África, memória e patrimônio

Significado da palavra kumbukumbu:

“KUMBUKUMBU é uma palavra swahili que significa memória ou recordação. Como a história é considerada o estudo do passado, historiadores recolhem fatos do passado de diferentes fontes. Todas as coleções e documentações dos acontecimentos passados reunidas formam um MUSEU, que basicamente significa KUMBUKUMBU. As exposições dos museus são usadas para mostrar as memórias e as coleções de acontecimentos passados. KUMBUKUMBU evoca a dimensão do passado que nos aponta um caminho para o futuro.”    Gatera Mudahizi Maurice, Tanzânia

Quem está antenado com as novidades na nossa área de interesse já sabe do que se trata o post de hoje, a nova exposição sobre a coleção de África do Museu Nacional, que será inaugurada no próximo dia 14 de maio, às 16 horas. Graças ao trabalho minucioso e apaixonado da historiadora Mariza Soares, Kumbukumbu traz a público um pequeno tesouro que ficou muitos anos escondido. E de quebra uma visão panorâmica sobre as relações entre o Brasil e a África, da chegada da Corte Portuguesa por essas bandas em princípios do século XIX até a primeira metade do século XX.

A exposição está organizada em seis conjuntos  e nove vitrines a partir de uma seleção de temas que emergem dos objetos reunidos na coleção. Segundo a curadora da exposição, “são ao todo 150 objetos trazidos de diferentes partes do continente africano entre 1810 e 1940, acrescidos de objetos que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil, entre 1880 e 1950”.

Os objetos adquiridos no passado e sua releitura hoje, na nova exposição, são registros não só da diversidade de culturas e da história africana, mas nos contam também um pouco da história do Museu Nacional e de seu olhar de pesquisa para o continente e os povos africanos.

Objetos de povos considerados “exóticos”, como instrumentos religiosos e cotidianos dos povos nômades da floresta equatorial, pejorativamente conhecidos como “pigmeus”,  foram compradas pelo Museu Nacional ainda no século XIX.  O grande destaque é uma enorme escultura feita de presa de elefante.

A violência colonial produziu objetos africanos para museus do mundo todo, o Museu Nacional, principal instituição científica do Brasil, não foi exceção. Armas usadas pelos povos do sul da África, foram compradas ou recebidas em doação pelo Museu durante as guerras coloniais no rio Zambeze (1880-1902). Uma bela coleção de objetos dos povos ovibumdu, do planalto central de Angola, com destaque para uma coleção de bastões Tchokwe, foi doada ao Museu por uma missionária brasileira  que ali residiu entre 1935-1938, período que marca a consolidação do poder colonial português no interior do país, com a implantação do estatuto do indigenato.

A coleção registra, ainda, um tempo anterior.  Marcado pela violência do tráfico atlântico de escravos e por relações diplomáticas entre reis escravistas europeus e africanos.

Segundo Mariza Soares: “Em 1810, o rei Adandozan do Daomé enviou uma embaixada ao Brasil com a missão de negociar melhores condições para o comércio de escravos. Na ocasião os embaixadores trouxeram várias cartas e presentes para D. João, então regente de Portugal. Os presentes formam um importante conjunto que nos dá a medida das relações diplomáticas entre os dois reinos escravistas. O conjunto é composto por um trono, uma bandeira de guerra e outros objetos menores.”

Por fim, como não podia deixar de ser, temos objetos relativos às últimas gerações de africanos e seus descendentes diretos no Brasil  –  milhões de africanos chegados através da diáspora forçada produzida pelo tráfico atlântico de escravos sobretudo no Rio de Janeiro e na Bahia. Ao falar dos africanos e de seus descendentes no Brasil, a exposição nos conta também, mais uma vez, a história intelectual da instituição, em três tempos: o final do século XIX – com objetos apreendidos pela polícia do Rio de Janeiro em casas de candomblé (chamadas “casas de dar fortuna”) na década de 1880, “requisitadas pelo Museu para estudo”;  a década de 1940 – com “objetos comprados pela então diretora do Museu, Heloisa Alberto Torres, de tradicionais casas de Candomblé da Bahia”; e o tempo atual – com resultados das pesquisas arqueológicas recentes do Museu Nacional, com destaque para as coleções de cachimbos de barro.

O fascínio da música africana sempre se fez presente nas imaginações dos estudiosos de todos os tempos. Instrumentos musicais tradicionais, ainda hoje presentes nas modernas culturas africanas, abrem a exposição na vitrine África, passado e presente. Uma sala em que “os objetos falam do passado e de como essa passado marca profundamente a história dos países africanos atuais”.

Poucos sabiam dessas inestimáveis peças sobre a África no Museu Nacional, muito menos  do papel do Museu, e de seus dirigentes, na construção desse acervo.

Imperdivel! Parabéns Mariza! #ficaadica
bandeira Adandozan

bandeira de Adedozan, rei do Daomé.

conjunto Celenia (1)convite web (kumbukumbu)sanza com cabaça

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Estranhos Costumes Ilegais

Nas três primeiras décadas após a independência do Brasil, mais de 750 mil africanos foram forçados a atravessar o Atlântico e  tornaram-se escravizados no país, apesar da legislação da então jovem monarquia constitucional proibir formalmente o tráfico negreiro desde 1831. Todo o processo de montagem e consolidação do estado imperial brasileiro se fez assentado nessa gigantesca ilegalidade, com um saldo imensurável de vidas perdidas na travessia do Atlântico e de violência fisica e simbólica sobre aqueles que sobreviveram e, no Brasil, foram forçados a aprender a viver “escravo”.

Até bem pouco tempo, porém, esta informação aparecia quase sempre com uma naturalidade desconcertante nas mais diversas narrativas da história do Brasil. Mesmo os especialistas em história social da escravidão não costumavam dar muita atenção para a montagem das atividades ilegais que permitiram a continuidade do tráfico negreiro no país, entre 1831 e 1850, e seus desdobramentos do ponto de vista político e ético. Subestimavam também, via de regra, a consciência dos atores da época sobre os direitos daqueles que chegavam ao país ilegalmente escravizados e o constrangimento que causava trazer a público tal tema.

Recentemente, porém, a temática do tráfico ilegal emergiu  com força na pesquisa histórica e pode ter importantes desdobramentos no ensino de história. Talvez seja hoje o campo da historiografia da escravidão que mais tem se renovado. Tem trazido importantes contribuições para nossa compreensão sobre a “força da escravidão” – título do último livro de Sidney Chalhoub;  sobre  envolvimento da população local de Pernambuco na organização do tráfico ilegal – tema de pesquisa de Marcus Carvalho; e sobre a dimensão nacional da atividade ilegal – que pode ser avaliada pelas evidências no sul do Brasil, registradas no site do Santa Afro Catarina, coordenado por Beatriz Mamigonian e Andrea Ferreira Delgado.

Mais uma vez a história responde  questões formuladas pela memória e o tempo presente. Parece-nos extremamente significativo para a democratização da sociedade brasileira que finalmente tenhamos conseguido olhar com estranhamentos a “costumes” baseados no racismo e no desrespeito aos direitos humanos. A ilegalidade do tráfico e da escravidão, após 1831, foi o argumento central na defesa apresentada por Luiz Felipe Alencastro, em 2011, para a aprovação das ações afirmativas para pretos e pardos no Supremo Tribunal.

De nossa parte, também encontramos registros importantes sobre o tráfico ilegal através da memória dos descendentes de escravos do Quilombo da Rasa,  Quilombo da Marambaia e do Quilombo do Bracui, analisados no livro coletivo Diáspora Negra e Lugares de Memória (2013).  Se já tínhamos conhecimento de desembarques ilegais na região de Angra dos Reis, e havíamos trabalhado com o assunto, no porto do Bracui, na coletânea Resgate, uma janela para o oitocentos, na década de 1990, foi impressionante ouvir o  mesmo caso nas narrativas orais dos atuais moradores do Quilombo do Bracui.  São essas narrativas que hoje identificam sua luta pelo reconhecimento da terra e da identidade quilombola.

Os eventos e locais do tráfico ilegal, silenciados no passado e nos poucos vestígios que deixaram pela natureza da própria atividade,  podem hoje também ser conhecidos e visitados pelo Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil. Entre 2012 e 2013, organizamos o Inventário, sob a batuta de Milton Guran, representante  do Projeto da UNESCO “Rota do Escravo: Resistência, Herança e Liberdade”.   O  trabalho foi construído a partir da indicação e contribuição de diversos historiadores, antropólogos e geógrafos do país, após consultas e intensas trocas de informações por e-mail. Depois de muitas negociações quanto ao número de indicações, chegamos a 100 Lugares de Memória, dando prioridade às evidências documentais, escritas ou orais, da presença histórica e cultural dos africanos. Entre os diferentes tipos de Lugares de Memória selecionados, destacamos neste texto os lugares de desembarque ilegal.  São 15 lugares de desembarque ilegais assinalados, marcando para a posteridade  eventos que não podem mais ser esquecidos.

INVENTÁRIO DOS LUGARES DE MEMÓRIA DO TRÁFICO ATLÂNTICO DE ESCRAVOS E DA HISTÓRIA DOS AFRICANOS ESCRAVIZADOS NO BRASIL

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Um festival de filmes

O Festival do filme de pesquisa sobre memória e história da escravidão moderna (cultura, diáspora, cidadania) teve início em 2008 em Paris, por iniciativa de centros de pesquisa da França, do Canadá e do Brasil. Trata-se de uma mostra itinerante, que ganhou este ano uma página na web, com uma chamada permanente por novos filmes e um arquivo com a sinopse de todos os vídeos já apresentados. Os filmes estão disponíveis em DVD na videoteca do LABHOI/UFF e muitos estão disponibilizados integralmente na internet, podendo ser acessados a partir do próprio site. Convidamos os leitores a explorar este interessante acervo.

Para começar, vale conferir o curta de Nilma Accioli, Ibiri, tua boca fala por nós, que em 16 minutos nos apresenta seis irmãs, descendentes de escravos, que guardam a memória de como foram violentamente expulsas das terras em que haviam nascido e crescido, no município de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro. Desenvolvido enquanto Nilma fazia seu curso de pós-graduação lato-sensu em história do Rio de Janeiro na UFF, o filme emocionou a platéia da edição de Paris 2009,  ganhando o prêmio de público, instituído para esssa edição específica.  A convite dos organizadores, Nilma viajou a Paris para recebê-lo.

Em uma semana em que tradições religiosas diferentes celebram passagem, ressureição e renascimento, vale também conferir o filme da antropóloga canadense Francine Saillant, em parceria com a Ialorixá Torodi de Ogum, do terreiro Ala Koro Wo de São João do Meriti, Rio de Janeiro. O Navio Negreiro registra uma poderosa encenação feita pela Mãe de Santo, com filhos de Santo e crianças que frequentavam os cursos de cidadania realizados no terreiro, sobre a travessia do Atlântico de seus antepassados.

Para os amantes do jongo, dois filmes do antropólogo Pedro Simmonard estão na lista. Salve Jongo! sobre Mestre Darcy da Serrinha, e o documentário de 2010 sobre o Jongo de Pinheiral, Eu venho de Longe,  estão disponíveis na íntegra na web. Além, é claro, de todos os filmes da nossa caixa de DVDs Passados Presentes.

Há muito mais no site, com personagens e narrativas quase sempre surpreendentes e emocionantes. O Brasil é, sem sombra de dúvida, o país com maior número de vídeos no festival, em sua maioria disponíveis online. Mas há também inúmeros filmes em francês ou inglês, sobre lugares absolutamente fascinantes, como Haiti, Benin, Moçambique e Irã,  algumas vezes integralmente disponíveis na internet, infelizmente sem legendas para o português na maior parte dos casos. Golden Scars, da antropóloga canadense Alexandrine Boudreaul-Furnier, sobre dois jovens rappers cubanos, é falado em espanhol e está na íntegra disponível no site.

#ficaadica

 

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imagem 1:  Projeção do Filme Os Escravos de Ontem. Democracia e Etnicidade no Benin. Imagem 2: Debate após projecão do filme Passados Presentes: Memória Negra no Sul Fluminense, com a presença de Fatinha e Gracinha (Jongo de Pinheiral) e Romão e Marilda (Quilombo do Bracuí)

Quarto Festival do Filme de Pesquisa no Rio de Janeiro, CINEMA 2, Centro Cultural Banco do Brasil, 25 de abril de 2012.Para mais imagens das várias edições do festival, confira a Galeria de Imagens do Site.

 

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Uma viagem no tempo

Track 14189 (0:23)/ clique para ouvir a gravação (Audio 14)

No tempo de cativeiro/  In the days of captivity

Aturava muito desaforo/  I endured many an insult

Levantava de manhã cedo /I got up early in the morning

Com cara limpa levo o couro, ai / The leather whip beat me for no reason

 

Agora quero ver o cidadão/ Now I want to see the citizen

Que grita no alto do morro/ Who shouts at me from the hilltop

Vai-se Cristo, seu moço/ God bless you, master

Seu negro agora tá forro/ Your Negro is now a freedman

 

 

Cangoma Calling. Spirits and Rhythms of Freedom in Brazilian Jongo Slavery Songs,  2013, é um Hybrid Book, com som e texto em pdf disponíveis gratuitamente na web, em torno das gravações de jongos e outras formas musicais feitas pelo historiador estadunidense Stanley Stein e sua esposa Barbara Stein, na década de 1940, com ex-escravizados do Vale do Paraíba Fluminense. O Hybrid Book foi organizado por Pedro Meira Monteiro e Michael Stone, da Universidade de Princeton, onde ainda atua Slanley Stein,  a partir do CD Livro Memória do Jongo, organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco, publicado em 2007 no Brasil (Folha Seca, Cecult/Petrobras Cultural) e hoje esgotado.

A história das gravações de Stein, por si só, já é motivo de sobra para um olhar atento sobre as duas obras. No final da década de 1990, o então jovem e sempre entusiasmado historiador Gustavo Pacheco, começava a se perguntar onde estariam as gravações realizadas por Stein na década de 1940, quando o autor realizava sua pesquisa para o clássico livro Vassouras, um município brasileiro do café, 1850-1900, publicado nos Estados Unidos por Harvard, em 1958, e Princeton, em 1985, e no Brasil pela Brasiliense e a Nova Fronteira, em 1961 e 1990.

De uma curiosa e atenta pergunta, Gustavo conseguiu entrar em contato com Stein, em setembro de 1999, depois de valiosa ajuda de Rebecca Stein e Jeremy Adelman. Nesse encontro, soube que as gravações haviam sido feitas com fio de arame (wire records), mas Stein ainda não as tinha localizado. Tempos depois, em 2002, acompanhando o crescimento do jongo entre os pesquisadores e os próprios jongueiros, Gustavo entraria de novo em contato com Stein, mostrando a importância da recuperação das gravações. Ele não desistia. Em 2003, para sua alegria, Gustavo recebeu de Stein a encomenda em “uma latinha redonda de metal, contendo um carretel com um arame fino como um fio de cabelo”. Agora era buscar apoio e recursos para a digitalização das gravações, sem se ter a garantia de que fosse possível ouvir alguma coisa depois de tanto tempo. Nesse momento a entrada do Cecult da Unicamp e de Silvia Lara foram fundamentais. As gravações ainda voltariam aos Estados Unidos para serem trabalhadas por uma firma especializada. E tudo deu certo.

Hoje, depois de quase setenta anos da época que foram feitas, podemos ouvir mais de meia hora de sons gravados, com 60 pontos de jongo, 5 fragmentos de batuques, oito cantigas acompanhadas por acordeão (calangos, certamente), uma folia de Reis, cinco batucadas de samba e um samba cantado. Nas palavras de Gustavo, “as gravações de Stanley J. Stein saíam do gabinete para entrar para a história”.

Participamos com o texto Jongo: registro de uma história, do livro organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco para trazer a público as gravações. Para nós, foi uma feliz coincidência que dois projetos sobre a memória do Jongo tivessem sido aprovados pelo edital sobre Patrimônio Imaterial Petrobras 2005: o projeto de publicação do livro/CD Memória do Jongo de Silvia e Gustavo e o nosso projeto de trabalhar a memória do jongo entre o campesinato negro do Rio de Janeiro, que resultou no arquivo Petrobras Cultural Memória e Música Negra e no filme Jongos, Calangos e Folias. A feliz coincidência se tornou grande emoção quando ouvimos as gravações de Stein e descobrimos que também ele registrara jongos, calangos e folias, falando diretamente com camponeses negros que haviam vivido a experiência da abolição no Vale do Paraíba. A força dos versos e a versatilidade musical que tanto nos impressionaram durante a pesquisa de 2007, já estavam lá, cantadas por contemporâneos dos pais e avós de nossos entrevistados

A riqueza dos pontos e versos registrados por Stein pode ser acompanhada a partir da página 133 do PDF do Hybrid Book. Para ouvir qualquer um deles, basta clicar em “sound files/field recordings (in mp3 format) by Stanley Stein and Barbara Stein”, a partir da numeração dos “tracks” das gravações, informada ao lado da transcrição.

A experiência é imperdível. Absolutamente fantástico para trabalhar em sala de aula. #fica a dica.

http://www.laabst.net/laabst3/

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Conversando com Eric Foner

Eric Foner é um dos mais importantes historiadores dos Estados Unidos. Sua releitura sobre a abolição e o pós-abolição no mundo atlântico influenciou  uma geração de novos historiadores nos Estados Unidos e no Brasil. Sua obra principal sobre o período após a guerra civil nos Estados Unidos, conhecido como Reconstrução (1865-1977), escrita durante os anos 80, revolucionou as abordagens sobre o período e não apenas no mundo acadêmico. Até a obra de Foner, a experiência política da Reconstrução ainda era vista como uma evidencia do despreparo dos libertos para a vida politica, e a escravidão muitas vezes considerada uma questão secundária para entender a guerra. Sua obra colocou a escravidão e os ex-escravos, respectivamente, como motivação e atores centrais de todo o processo, trazendo novamente à luz a primeira grande experiência dos libertos na luta por direitos políticos e civis, conforme pioneiramente propusera o historiador negro W.E.B. Du Bois, em 1935 .

Em mais de 400 páginas, “Reconstruction: America’s Unfinished Revolution” (1988) fez emergir um período pós guerra civil de crescente democratização e extraordinária riqueza política, cujo fim representara uma tragédia sem precedentes para a vida americana. A progressiva retirada dos direitos civis e políticos dos novos cidadãos, algumas décadas após os terem adquirido e exercido amplamente, culminaria com a institucionalização da segregação racial nos estados do Sul do país. De fato, sua pesquisa representou o golpe de morte em uma interpretação inacreditavelmente racista e elitista das disputas políticas do período – que havia transformado os integrantes da Ku Klux Klan em heróis, em luta contra o que era percebido como desmandos e corrupção de políticos negros ou oriundos do Norte apoiados no voto dos libertos. Até a vitória do movimento pelos direitos civis nos anos 60, essa leitura esteve fortemente presente nos livros didáticos e  no cinema – como nos célebres “The Birth of a Nation” (O Nascimento de uma Nação, 1915) e “Gone With the Wind” (E o Vento Levou, 1939), e ainda nos anos 80, resistia a desaparecer do senso comum.

Desde então, as pesquisas históricas sobre o período da Reconstrução se multiplicaram. Foner também se revelou incansável como historiador público sobre o tema. Foi curador de exposições, escreveu livros didáticos e refletiu, em livros e artigos, sobre o ofício do historiador em relação às questões políticas do presente e à memória pública (vale a pena conferir, especialmente, Who Owns History, 2002).

Foner acaba de publicar uma biografia de Lyncoln (The Fiery Tryal. Abrahan Lyncoln and American Slavery) – que ganhou o prêmio Pulitzer, e está terminando um livro sobre a Nova York pré-guerra civil. Ele nos recebeu em seu escritório na Columbia University na sexta feira, 28 de março, para uma entrevista combinada com Hebe, para ser publicada como texto no dossiê sobre Pós-Abolição no Mundo Atlântico da Revista Brasileira de História, previsto para 2015. O encontro terminou parcialmente registrado em video pelo ipad de Martha, que havia chegado na cidade naquele dia, para participar de um evento organizado pelo Center for Brazilian Studies e o Center for the Study of Ethnicity and Race da Columbia.

Disponibilizamos aqui os primeiros 5 minutos de seu depoimento, em que Foner aborda as primeiras influências na sua formação como historiador.  Os destaques ficam para o radicalismo de esquerda na Nova York dos anos 50, a que chama “the old left”,  do qual participaram seu pai e tio, ambos historiadores (Jack e Philip Foner), e para o movimento pelos direitos civis dos anos 60. Um breve diálogo do historiador com sua memória e as lutas políticas de seu próprio tempo. Vale a pena conferir. Em inglês, sem legendas, por enquanto.

 

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Repare Bem…

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais … Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. … Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. (Machado de Assis, Pai contra a Mãe, 1906).

 

Repare bem é o título do bonito documentário da atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros sobre Denise Crispim, viúva do jovem guerrilheiro brasileiro Eduardo Leite, o Bacury, morto pela última ditadura brasileira, depois de 109 dias de tortura. O documentário foi uma iniciativa do projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia e Reparação do Ministério da Justiça do Brasil. O título e o filme são um bom mote para colocarmos a questão que queremos discutir neste artigo, as iniciativas  e demandas de reparação de males cometidos no passado – e as disputas que suscitam. Afinal escrevemos em pleno aniversário do golpe civil-militar de 1964, de triste memória.

Também esta semana, repare bem, foi aprovada pela câmara dos deputados, por expressiva maioria, lei que determina, por dez anos, uma cota de 20% de vagas para pretos e pardos no funcionalismo público. É o racismo como legado da escravidão que está na base da justificativa da nova lei.  É possível reparar o passado?

Como bem nos ensinou Hannah Arendt, as situações de extrema opressão em geral se estabelecem em meio a enormes cumplicidades das sociedades e frequentemente colocam suas vítimas em situações que geram humilhação e vergonha. E esta é, talvez, a maior violência, retirar às vítimas o direito ao passado. Pois para se lidar com um passado de opressão,  é mais confortável falar de honra, orgulho e resistência heroica, e essas virtudes, apesar de existirem, raramente prevalecem integralmente em situações em que estão em jogo a vida e a experiência da dor.

Uma vez passada a situação opressiva, também aqueles que conviveram com o horror sem incomodarem-se com ele, muitas vezes querem esquecer que o fizeram. Calam ou reconstroem suas relações com o passado.

Passaram-se quase 25 anos da Constituição de 1988 para que o Brasil conseguisse falar dos crimes e das cumplicidades na ditatura civil militar com a amplitude que está fazendo agora. É importante que o faça. A explosão de livros sobre o tema dá bem a medida de como a agenda historiográfica se faz  em diálogo direto com a politização das disputas de sentido sobre o passado. As perguntas dos historiadores são sempre alimentadas pela memória. História e Memória não são antagônicas, são formas diferentes e legítimas de se lidar com o passado, para que se possam estabelecer novos consensos sociais sobre o que é intolerável – e o horror não mais se repita.

Não apenas a reflexão sobre o passado recente pode ajudar a conseguir este intento. A nosso ver, no cerne dos crimes do regime instaurado em 1964, estão duas heranças culturais da sociedade brasileira: o elitismo, que faz uma minoria acreditar que “o povo não sabe votar” e a conivência com a tortura, comum a sociedades que conheceram a escravidão como instituição legítima, como bem nos lembrou Machado de Assis. Ela era praticada em quase todas as casas do Brasil oitocentista, de forma corriqueira, contra corpos pretos e pardos.

Nos últimos 30 anos, a pesquisa histórica muito avançou na compreensão da sociedade escravista e sobre o papel essencial dos homens e mulheres escravizados no seu devir. Sabemos como a vida se reinventava a cada dia,  engendrando a cumplicidade dos livres (independentemente da cor) e a resistência dos escravizados (mesmo quando limitados pelo teatro da subserviência). Sabemos também o quanto essas situações eram intercambiantes, fazendo da alforria, um objetivo dos cativos, e do temor da reescravização, um fantasma para os livres de cor. A linguagem racial fazia de escravos e forros, pretos e pardos, e da maioria dos livres, homens e mulheres que se queriam sem cor – e sem memória.

Mas os movimentos negros, finalmente, parecem ter conseguido voz no espaço público para não nos deixar esquecer. No Brasil, a memória da escravidão também está na ordem do dia. Na verdade, políticas de reparação em relação à escravidão atlântica estão em pauta em todo mundo e exigem romper o silêncio sobre os milhares de mortos e desaparecidos antes, durante e depois da travessia do Atlântico e sobre a herança racializada do estigma da escravização.

Também nesse tema, a agenda historiográfica se produz em diálogo com a memória e a politização do passado. Que a polifonia seja bem vinda. Não por acaso, a violência, problemática clássica dos estudos da escravidão, volta à pauta, reexaminada sob novas luzes, abrindo-se a novos debates e interpretações. Neste 31 de março, de muitas vozes e muitas polêmicas, em que a câmara dos deputados acaba de aprovar mais uma lei de ação afirmativa para pretos e pardos, agora no serviço público, fazemos um brinde ao ofício do historiador e à democracia brasileira.

Viva!

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Da Cor Inexistente às Cores do Silêncio

Das Cores do Silêncio nasceu tese de doutorado, defendida em 10 de setembro de 1993, com o título A Cor Inexistente, que também dava nome ao quarto capítulo da tese e do livro. Problematizar a ausência de informação sobre a cor da população livre na documentação cartorária e judicial do Brasil oitocentista tinha se tornado a pedra de toque para a principal inovação empírica do trabalho e por isso lhe dava o título.

Inscrevi o manuscrito  da tese  na segunda edição do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa no mesmo ano, acho que já então com o título modificado.  Não me lembro mais quando decidi a mudança do título – se quando enviei o manuscrito para o concurso ou depois que tive a notícia do primeiro lugar e a certeza da publicação. De todo modo, é certo que devo a minha colega Martha Abreu, a observação de que a cor estava ausente das fontes, mas não deixava de existir e que o adjetivo inexistente do título poderia levar a uma leitura enviezada do texto, em relação à minha intenção interpretativa.  Era a existência das cores na sociedade do Brasil oitocentista, apesar da sua invisibilidade nas fontes, que eu queria enfatizar. Foi assim que cheguei ao Das Cores do Silêncio.” (Mattos, Hebe. “Posfacio” In: Das Cores do Silêncio, Editora da UNICAMP, 2014, p. 366)

Nossas conversas começaram há muito tempo nos corredores da UFF.  Serão a base para tentarmos ocupar este espaço semanalmente com dicas de livros e sites e, sempre que pertinente, com um artigo mais encorpado.  A dica da semana é um pouco óbvia, a nova edição do livro de Hebe, que teve lançamento esta semana na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.

Lançamento Das Cores do Silêncio

Lançamento Das Cores do Silêncio

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