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Uma coreógrafa brasileira no atlântico negro – homenagem à Mercedes Baptista

A morte de Mercedes Baptista (1921 – 2014), na semana passada, motivou nossa conversa de fim de semana. Pouco conhecida nos meios acadêmicos da História, fomos atrás de mais informações sobre aquela que é considerada a primeira mulher negra do corpo de baile do Municipal e uma das fundadoras do balé afro-brasileiro. O melhor resultado da busca foi encontrar o belíssimo livro do pesquisador e professor de Arte e Dança Paulo Melgaço da Silva Jr.

Com um levantamento de entrevistas, jornais e fotografias maravilhosas, Paulo nos apresenta uma Mercedes fascinante e ainda pouco conhecida. Migrante de Campos com sua mãe, começou a vida artística pelas mãos da bailarina Eros Volúsia, do Serviço Nacional do Teatro no Rio de Janeiro, em meados da década de 1940. Eros, na década de 1930, era uma bailarina preocupada em formar um balé brasileiro a partir de temas indígenas, sertanejos, negros e populares.

No final dos anos 40, Baptista conseguiu passar no difícil concurso do Municipal e passou a se engajar num dos mais importantes movimentos negros de então, o Teatro Experimental do Negro, dirigido por Abdias do Nascimento. A partir daí e principalmente depois de ter recebido uma bolsa para estudar balé em Nova York com Katherine Dunham (1909 – 2006) – considerada a fundadora da moderna dança afro-americana, com quem parece ter mantido contato por muito tempo- sua projeção no meio artístico, como dançarina e coreógrafa, consolidou-se. Sempre em articulação com a militância e a arte negra atlântica, inclusive internacionalmente.

Visitando o Brasil em 1950, Katherine Dunham foi recusada em um importante hotel em São Paulo, com grande repercussão, o que parece ter tido influência na aprovação da Lei Afonso Arinos, em 1951. É importante destacar que Duham também tinha formação em antropologia e etnografia e chegou a estudar a dança negra no Caribe em estreito diálogo, nos anos 40, com Melville Herskovits, reconhecido por suas pesquisas sobre a diáspora africana nas Américas. A descoberta da África nos Estados Unidos e nas Américas deve ter, sem dúvida, marcado a trajetória de Mercedes Baptista e a perfomance de sua companhia de Balé, chamada também de Ballet Folclórico. Suas coreografias sobre danças de escravos, sambas, macumbas e candomblés tornaram-se sempre presentes em sua carreira.

Além de ter atuado em companhias de balé, Baptista fez trabalhos para teatro, escolas de samba, televisão e cinema. Entre eles, destacamos a comemoração do Centenário da Abolição da Escravidão, em 1988. Nos dias 12 e 13 de maio, a coreógrafa foi a responsável pela parte dançante da Missa dos Quilombos, espetáculo concebido por João das Neves nos Arcos da Lapa e Paço Imperial. Também a participação de Mercedes Baptista em famosas coreografias do Salgueiro pode ser acompanhada com mais aprofundamento na tese de Doutorado de Guilherme José Motta Faria “Os Acadêmicos do Salgueiro e as representações do negro nos desfiles das Escolas de Samba” (UFF/2014).

Pelo que apresentamos, dá vontade de saber muito mais sobre a produção artística e a trajetória de Mercedes Baptista… Elas merecem muitos outros olhares e investimentos de pesquisa…

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O batismo de Izidora, filha de Joana Angola

Igrejas e irmandades é uma das temáticas que organiza o Inventário  dos lugares de memória do tráfico de africanos escravizados no Brasil (LABHOI/UFF-UNESCO).

A presença dos africanos trazidos ao Brasil pelo tráfico atlântico de escravos também pode ser identificada na prática da religião católica. Africanos de diversas procedências converteram-se, fundaram irmandades, participaram de festas e construíram igrejas em devoção aos santos católicos negros, como Santo Elesbão, Santa Efigênia, São Benedito e Santo António do Categeró, mas, especialmente, à Nossa Senhora do Rosário. Por todo território, ao longo do período colonial e de todo o século XIX, o catolicismo tornou-se também africano. Para além do patrimônio arquitetônico, as inúmeras igrejas pertencentes a irmandades de “Homens Pretos”, como eram oficialmente chamadas, representam hoje marcos visíveis dos africanos no conjunto da população católica. O Inventário traz verbetes sobre irmandades de Pernambuco, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Para além das irmandades negras, grande parte da informação que temos sobre a presença de africanos escravizados e seus descendentes no Brasil encontra-se em arquivos eclesiásticos do período colonial e monárquico. Para saber mais sobre que informações são essas, convidamos o leitor a clicar na imagem abaixo, e tomar conhecimento do batismo de Izidora, filha de Joana Angola, em 1790, em mais um dos vídeos (1:21) do site Identidades do Rio.

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O roteiro Escravidão e Igreja Católica, organizado por Mariza de Carvalho Soares, Larissa Viana, Denise Vieira Demétrio e Jorge Victor de Araújo Souza, traz ainda informações sobre as irmandades de homens pretos do Rio de Janeiro e a transcrição integral de 7 “compromissos”, textos que fundavam e organizavam as irmandades negras. Estão online os compromissos das irmandades de Santo Elesbão e Santa Efigênia (1740), Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (1759), Nossa Senhora da Lampadosa (1767), Congregação dos Pretos minas Maki (1786), Nossa Senhora dos Remédios (1788), Santo Antônio da Mouraria (1812) e Santo Elesbão e Santa Efigênia (1910). Documentos raros e preciosos, acessíveis para pesquisadores e interessados no tema. Para o público mais amplo, o filme Devotos da Cor, de Mariza Soares, pode também ser acessado na íntegra. #ficaadica

 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Rio de Janeiro, Nave Central.

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Músicos Negros na História

A história da música brasileira e da presença de afrodescendentes em ambientes letrados, como as óperas e os teatros de revista, entre o final do século XIX e início do XX, vem sendo revisitada e reescrita por músicos e historiadores. Localizamos recentemente um site super interessante, o Acervo Digital Henrique Alves Mesquita (1830-1906), organizado por Alexandre Dias, que disponibiliza obras, discografia, imagens, letras e bibliografia sobre o personagem.

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Músico erudito, negro, com formação patrocinada pelo Imperador em Paris, Mesquita foi professor do Conservatório Imperial de Música.

Mas fez mesmo muito sucesso nos espetáculos teatrais de mágica e revista, das últimas décadas do século XIX, onde incorporava gêneros populares urbanos, como a polca, o lundu, o tango e o maxixe. O historiador da música Antônio Augusto desenvolve importante pesquisa sobre ele. Entre outros, o artigo “Da pérola mais luminosa à poeria do esquecimento”. sobre a trajetória do músico, está disponível no site.

Muito antes do chamado modernismo, músicos eruditos, do século XIX, já ouviam os sons das ruas e da música negra. Até mesmo jongos e batuques fizeram parte do repertório de Alves Mesquita e certamente atraíam grande público aos teatros em épocas de discussão sobre a abolição, como mostrou a pesquisadora Silvia Cristina Martins de Souza. Henrique Alves Mesquita foi professor de Chiquinha Gonzaga. Ambos são apontados como marcos da música urbana carioca e da formação do choro no Rio de Janeiro.

Sobre a história da formação do choro como gênero musical no Rio de Janeiro, vale a pena consultar o site Identidades do Rio, plataforma digital de divulgação científica, organizada por um pool de pesquisadores de diversas instituições de pesquisa do Rio, sob coordenação da UFF, com apoio da FAPERJ. O site disponibiliza informações e atividades sobre diversos temas da história política, social e cultural do Rio de Janeiro, voltadas para pesquisadores, professores, estudantes, agentes culturais e lideranças comunitárias. Nessa plataforma, Luiza Mara Martins, posdoutoranda no LABHOI/UFF, organizou a cronologia do choro no Rio de Janeiro.  Na forma de uma linha do tempo que se inicia em 1845 e termina em 2011 estão reunidos textos, imagens e vídeos.

“Atraente”, a primeira música de Chiquinha Gonzaga publicada, foi criada na casa de Henrique Alves Mesquita, em 1877. O encontro está registrado na Cronologia do Choro, em um pequeno vídeo de 1:03 que vale conferir antes de continuar a leitura. É só clicar na imagem.

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É importante esclarecer, porém, que a estruturação do choro como gênero musical na cidade só aconteceu nas primeiras décadas do século XX, com destacada atuação de Pixinguinha. Fechamos o post com mais um vídeo da cronologia de Luiza Mara, sobre o sucesso do conjunto Os Oito Batutas, dirigido por Pixinguinha, nas décadas de 1910 e 1920 (1:53). Com a participação de músicos negros, o conjunto viajou por todo o Brasil, gravou na Argentina e se apresentou em Paris.  Convidamos os nossos leitores a ver o vídeo, basta clicar na imagem abaixo.

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Há muito mais para ver, ler o ouvir na Cronologia do Choro e muito outros roteiros no site. Confiram!

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Escravidão, Pós-Abolição e a Política da Memória

Alguns trechos da resenha do antropólogo Luis Nicolau Parés para a Caixa de DVDs Passados Presentes (AfroAsia 49).

No campo da historiografia do negro no Brasil, a transição da escravidão para a emancipação e o período pós-Abolição talvez sejam das áreas que mais vitalidade adquiriram na última década. Uma expressão dessa tendência é a coletânea Passados presentes, uma série de quatro documentários sobre as trajetórias, memórias e práticas culturais dos descendentes dos escravizados na região da antiga província do Rio de Janeiro. Os quatro filmes, intitulados Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-Abolição (2005), Jongos, calangos e folias: música negra, memória e poesia (2007), Versos e Cacetes: o jogo do pau na cultura afro-fluminense (2009) e Passados presentes: memória negra no sul fluminense (2011), foram produzidos pelo Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI/UFF), sob a direção geral das historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu.

Lançada em 2012, a coletânea reúne trabalhos produzidos ao longo de mais de seis anos, a partir do acervo audiovisual do LABHOI, que hoje conta com cerca de 300 horas de gravações. O primeiro filme, Memórias do cativeiro, utiliza, entre outros, registros de entrevistas com descendentes de escravos africanos gravadas em São Paulo, em 1987, e no Rio de Janeiro e Espírito Santo nos anos de 1994 e 1995. Porém, o conteúdo substancial da série está baseado em registros videográficos mais recentes, produzidos, na sua maioria, na primeira década deste século, no estado do Rio de Janeiro, e constitutivos do Acervo UFF Petrobrás Cultural – Memória e Música Negra, principal base documental da série.

Para além [do] foco na política da memória, consoante com o espírito do LABHOI, a coletânea é inovadora na sua tentativa de desenvolver formas de narrativa historiográfica a partir de uma escrita audiovisual.

Como os quatro documentários têm por base o mesmo acervo documental, várias personagens aparecem de forma reiterada, conferindo ao conjunto uma relativa unidade. Por exemplo, o entranhável senhor Manoel Seabra, nascido em 1919, liderança da comunidade da antiga Fazenda São José da Serra, no município de Valença, no Vale do Paraíba — hoje Quilombo de São José — aparece, no primeiro filme, rememorando seus ancestrais africanos, vindos da Bahia; no segundo, dançando o jongo; e, no terceiro, praticando o jogo do pau. O senhor Manuel Morais, líder da comunidade do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, aparece também em diversos momentos. Assim, embora os documentários tenham sua autonomia, acabam por oferecer uma visão multifacetada e polifônica de uma mesma realidade sociocultural.

Como se sabe, a presença contemporânea de famílias afrodescendentes na região sudeste do estado do Rio de Janeiro é, em grande medida, resultado histórico do recrutamento massivo de mão de obra escravizada, em meados do século XIX, para satisfazer a demanda da economia do café. No Vale do Paraíba, concretamente, nesse período, os africanos chegaram a constituir 90% da população. As falas, recordações, práticas culturais e ação política dos descendentes desses escravizados são o alvo prioritário de reflexão historiográfica da coletânea em questão.

[confira a resenha integral, com abordagem em separado de cada um dos filmes]

… A estrutura narrativa, nos dois primeiros filmes, impõe a cronologia linear do tempo historiográfico, partindo da África, passando pelo cativeiro, a Abolição, até o presente. Porém, o tempo da memória negra não acompanha necessariamente essa linearidade, ao contrário, funciona como uma reverberação que se move em múltiplas direções e sentidos. Trata-se de uma memória de luzes e sombras, de silêncios, de interrupções e vazios. Há uma consciência da perda, com a insistência na ideia de que os velhos não falavam, não passavam para os mais novos, mas também uma tenaz reconstrução da cadeia de transmissão: meu pai contava, meu pai me falou, os antigos contavam… O registro videográfico tem a capacidade de mostrar esse esforço vacilante da recordação, ora com o trunfo impiedoso do esquecimento que submerge, ora com a vitória da lembrança que, puxando o fio do primeiro verso, traz o seguinte e, no final, a cantiga toda reemerge. O maior desafio da escrita videográfica seria construir uma narrativa que evocasse ou refletisse a dinâmica errática e imprevisível dessa memória espectral.

Refletindo sobre a memória da escravidão em Serra Leoa, Rosalind Shaw distingue entre a memória discursiva, expressa por meio das falas, e a memória prática, que se perpetua inscrita nos comportamentos, nos gestos, nas danças e nos rituais. Se o primeiro e o último documentários lidam, predominantemente, com a voz dos entrevistados e, portanto, com a memória discursiva, o segundo, Jongos, calangos, e folias, embora continue a privilegiar o busto falante, focaliza também o papel da palavra no contexto ritual, apresentando, assim, um caso de articulação desses dois tipos de memória. Já o terceiro filme, com seu foco no jogo do pau, abriria espaço para uma reflexão sobre o papel do corpo na experiência da dança e do ritual e, portanto, para as formas de memória prática. Porém, como já foi dito, a performance ritual recebe uma atenção discreta no documentário. A possibilidade do “dar a ver” ao espectador, própria do filme etnográfico, é aqui minimizada em favor do “dar a ouvir”, ou seu correlato, o “dar a voz”.

Os quatro filmes combinam de forma proporcionada o primeiro plano das vozes afrodescendentes com a informação contextual fornecida por cartazes, voz em off  e, sobretudo, o diálogo e contraponto dos comentários dos historiadores e pesquisadores. Nesse sentido, cabe destacar o seleto grupo de consultores com que o projeto contou e a participação de vários bolsistas de produção científica. Porém, o espaço conferido à reflexividade, ou seja, à visibilidade dos produtores do filme no próprio filme, é pouco. Só na metade do primeiro filme se escuta, brevemente, a voz dos entrevistadores, e nos créditos aparecem imagens dos cineastas. O segundo filme incorpora entrevistas com historiadores, e aparecem tangencialmente imagens das diretoras do filme. No terceiro, a voz do entrevistador é mais audível, e Assunção interage com os entrevistados, inclusive se engajando com eles no jogo do pau. No quarto filme, as diretoras Mattos e Abreu aparecem brevemente e, talvez num dos momentos mais etnográficos da coletânea, Geraldo Romão, membro da comunidade do Bracuí, acompanha a equipe de filmagem, apresentando o quilombo e visitando o antigo engenho da fazenda. Essa sequência registra a interação entre filmmakers e filmado e, nela, o filmado é quem dirige e comanda a cena.

Concluindo, cabe destacar o valor historiográfico e o interesse didático de uma coletânea que deve contribuir de forma significativa para a difusão e valorização da memória e do patrimônio cultural dos afrodescendentes nas salas de aulas, tanto do ensino secundário, no contexto das diretrizes nacionais para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, como no ensino superior. Nesse sentido, vale lembrar a riqueza dos “Extras” dos DVDs, com registros documentais de performances rituais, informações sobre as regiões visitadas e sobre os participantes do filme, assim como entrevistas com pesquisadores e referências de documentos históricos. Junto à seriedade historiográfica e a sua vocação didática, Passados presentes apresenta um elevado índice militante, com uma aguçada consciência do papel que a representação do passado e a representação da memória têm na política do presente e na luta pelos direitos de cidadania das populações afrodescendentes. A rica polifonia de vozes desses documentários, aliada à persuasão comunicativa inerente à linguagem cinematográfica, capaz de atingir um público amplo e variado, com certeza deverá contribuir para essa reafirmação política e cultural.

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Atlântico Negro na ANPHLAC e na ANPUH!

Nesta semana nosso post é para divulgar dois encontros acadêmicos muito importantes no Rio de Janeiro. O XI Encontro Internacional da ANPHLAC (Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas), entre os dias 29 e 1º. de agosto, na UFF (bloco F), e o XVI Encontro Regional de História, entre os dias 28 e 1º. de agosto, na Fiocruz e Universidade Santa Úrsula.
Para os interessados nas discussões sobre Atlântico Negro, há ótimas conferências na Anphlac, todos os dias, 18 horas. No dia 29/7, Paradoxos do poder governamental nos EUA, como o Prof. Gary Gerstle da Vanderbilt University (no museu do Ingá). No dia 30/7, Periferias críticas: Raça, Guerra e Império Americano no Século XX, com o Prof. Paul Kramer – Vanderbilt University (no auditório da economia da UFF, bloco F). Dia 31/7, Africanos y afrodescendientes en la sociedad novohispana: fuentes y tema para su estudio, com a Profa. Maria Elisa Velázquez Gutiérrez – Instituto Nacional de Antropologia e História do México (no auditório do bloco F). Na sexta feira, manhã e tarde, também no bloco F, acontecem as melhores mesas sobre diáspora, intelectuais, mestiçagem, pós-abolição e cultura negra, em Cuba, Estados Unidos e Brasil, na parte da manhã e tarde. Confiram a programação completa.
Já na Anpuh, os simpósios ligados aos estudos de escravidão, abolição, pós-abolição, cultura negra e ensino de história também estão com ótima programação. Em geral, as mesas acontecem nas terças, quintas e sextas feiras. O Simpósio 1, coordenado por Mariana Muaze e Ricardo Salles, é sobre a Segunda Escravidão e a Civilização Imperial, na Bacia do Paraíba; o Simpósio 18, coordenado por Warley da Costa e Martha Abreu, é sobre Ensino de História, Culturas Africanas, Afro-brasileiras e Indígenas; o Simpósio 60, coordenado por Carlos Eduardo Costa e Larissa Viana, terá apresentações sobre Pós-Abolição nas Américas: Trabalho, Racialização e Memória; o Simpósio 67, coordenado por Jonis Freire, Marcia Eliane de Souza e Mello, terá trabalhos sobre Sociedades Escravistas nas Américas (identidades e sociabilidades no mundo ibérico séculos XVI-XIX).

#ficaadica

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Roda dos Saberes e o Inventário UFF_UNESCO

Acabamos de chegar de uma viagem de trabalho às ruínas de um local de desembarque ilegal de africanos na praia do Saí, em Mangaratiba, e ao Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, lugares de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados no Rio de Janeiro.

Domingo passado, a final da copa não permitiu que a nossa conversa de fim de semana para o blog ocorresse como de costume, mas esta semana a conversa rendeu ao longo de nosso encontro com a equipe de arqueologia em trabalho de campo nas ruínas do Saí, bem como na reunião sobre um novo projeto envolvendo os lugares de memória do patrimônio imaterial da diáspora africana no Rio de Janeiro, no Quilombo do Bracuí. O papo do próximo fim de semana já rolou. Aguardem o post de domingo.

Antes disso, o Inventário LABHOI-UNESCO sobre a memória dos africanos escravizados no Brasil, e na cidade do Rio, em especial, é o tema de palestra de Martha, na Roda dos Saberes do Cais do Valongo, que antecede a já tradicional Roda de Capoeira, no terceiro sábado de cada mês. Fazemos este post de meio de semana para divulgar o evento.

#ficaadica.

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O Instituto dos Pretos Novos e os Objetos da Escravidão

A riqueza histórica, cultural e arqueológica do complexo do Valongo continua a dar o tom de nossas conversas, nesse período de muitos turistas no Rio. O Instituto dos Pretos Novos – um dos mais importantes lugares de memória que compõe o conjunto histórico da região portuária – e sua programação cultural – são o tema da nossa conversa no post da semana. Divulgamos aqui a programação do espaço, na próxima quarta, 25 de junho, com a participação da arqueóloga Camilla Agostini e o lançamento do livro Objetos da Escravidão – abordagens sobre a cultura material da escravidão e seu legado.  O livro traz uma rica discussão entre historiadores e antropólogos. Tudo a ver com o local.

Os africanos recém-chegados no Valongo (os chamados pretos novos), quando não conseguiam resistir aos sofrimentos da viagem, tinham como destino final uma vala comum onde seus corpos eram depositados e incinerados. Os vestígios arqueológicos do Cemitério dos Pretos Novos foram descobertos nos anos 90 por Merced e Petroccio, durante uma obra de reforma em sua casa na Rua Pedro Ernesto. Durante alguns anos lutaram praticamente sozinhos pelo reconhecimento da importância histórica e arqueológica da descoberta, e criaram no local o Memorial dos Pretos Novos. As pesquisas arqueológicas desenvolvidas no local comprovaram a predominância, entre os escravizados recém chegados no Valongo, de mulheres e homens muito jovens, em sua maioria oriundos da África Central, das regiões de língua bantu.

Hoje amplamente reconhecido por sua importância histórica e arqueológica, o Instituto se organiza como local de memória, mas também como Centro Cultural. Organiza visitas guiadas pela região com o historiador Claudio Honorato, autor de um dos principais trabalhos sobre o mercado de escravos do Valongo, e mantém uma agenda cultural diferenciada e criativa. Dia 25 tem palestra, exposição, música, gastronomia. Um dia inteiro de atividades culturais.

 #ficaadica.

pretos novos

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por | junho 22, 2014 · 16:19

Sob as pedras do Cais: Tragédia e Milagre

Nem só de futebol vive o Rio. A palestra de Hebe, no próximo sábado, na roda dos saberes do Projeto O Porto Importa, revisitará a complementariedade entre os pontos de vista de Martha e Hebe, no debate na UFF sobre o filme 12 anos de escravidão, apresentada no último post. E também alguns dos temas abordados no texto Memória e Cidadania no Complexo do Valongo.

O Cais do Valongo, onde chegavam os sobreviventes da travessia forçada do Atlântico para serem escravizados no Brasil, e o cemitério dos Pretos Novos, onde os que morriam na chegada conheciam sua última morada,  locais alternativos para a palestra (em caso de sol ou chuva) memorializam a tragédia da escravidão atlântica – que não pode ser esquecida. Mas estes lugares de memória celebram igualmente o milagre da emergência da cultura negra no Atlântico, e no Rio em especial, que tem, na região portuária, um lugar de referência e, na roda de capoeira do Valongo, um momento de celebraçao mais que especial. Sob as pedras do cais estão presentes também a memória da antiga “Pequena África” no início do século XX, do nascimento do samba, das mais antigas casas religiosas de matriz africana da cidade. A roda de capoeira do Valongo celebra a cada terceiro sábado do mês esta rica herança cultural. Quem quiser saber mais, é só aparecer por lá.

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por | junho 15, 2014 · 19:09

Instituições Nefandas

A escravidão é uma instituição tão antiga quanto a humanidade. E continuou uma instituição central para o desenvolvimento do mundo moderno e globalizado como o conhecemos ainda hoje. Sua lenta agonia nos Estados Unidos, Rússia e Brasil durante o longo século XIX é o tema de seminário internacional que começa amanhã, 20/5, na Casa de Rui Barbosa, com transmissão ao vivo pela internet. Colocar em conjunto especialistas no tema no Brasil, Estados Unidos e Rússia tem, entre outros, um mérito especial: ir além das análises comparativas mais usuais, que opõem modernidade (ocidental) e sociedades tradicionais (Rússia e Brasil), ou que consideram a escravidão racial no novo mundo (Brasil e Estados Unidos) inscritas de um modo ou outro na modernidade ocidental, em oposição a uma Rússia tradicional. A iniciativa do seminário, ao conectar diferentes historiografias, contribui para tornar mais complexas nossas concepções sobre a modernidade. As relações e interações entre os diferentes contextos, as fronteiras móveis entre trabalho “livre” e trabalho “servil”, as ambiguidades e inovações produzidas na progressiva e lenta deslegitimação da escravidão em termos globais no século XIX serão discutidas por especialistas, ganhando novas dimensões na interação entre eles.  Ainda que indiretamente, a centralidade da instituição na Europa e suas colônias (especialmente Inglaterra e França) e, depois, na sua expansão colonial na África e na Ásia também estarão presentes no debate. Pela internet. Em tempo Real. #ficaadica.

Para estimular a reflexão sobre o tema e seus desdobramentos contemporâneos, reproduzimos mais uma vez o post “Estranhos Costumes Ilegais”. #vale a pena ler de novo.

Nas três primeiras décadas após a independência do Brasil, mais de 750 mil africanos foram forçados a atravessar o Atlântico e  tornaram-se escravizados no país, apesar da legislação da então jovem monarquia constitucional proibir formalmente o tráfico negreiro desde 1831. Todo o processo de montagem e consolidação do estado imperial brasileiro se fez assentado nessa gigantesca ilegalidade, com um saldo imensurável de vidas perdidas na travessia do Atlântico e de violência fisica e simbólica sobre aqueles que sobreviveram e, no Brasil, foram forçados a aprender a viver “escravo”.

Até bem pouco tempo, porém, esta informação aparecia quase sempre com uma naturalidade desconcertante nas mais diversas narrativas da história do Brasil. Mesmo os especialistas em história social da escravidão não costumavam dar muita atenção para a montagem das atividades ilegais que permitiram a continuidade do tráfico negreiro no país, entre 1831 e 1850, e seus desdobramentos do ponto de vista político e ético. Subestimavam também, via de regra, a consciência dos atores da época sobre os direitos daqueles que chegavam ao país ilegalmente escravizados e o constrangimento que causava trazer a público tal tema.

Recentemente, porém, a temática do tráfico ilegal emergiu  com força na pesquisa histórica e pode ter importantes desdobramentos no ensino de história. Talvez seja hoje o campo da historiografia da escravidão que mais tem se renovado. Tem trazido importantes contribuições para nossa compreensão sobre a “força da escravidão” – título do último livro de Sidney Chalhoub;  sobre  envolvimento da população local de Pernambuco na organização do tráfico ilegal – tema de pesquisa de Marcus Carvalho; e sobre a dimensão nacional da atividade ilegal – que pode ser avaliada pelas evidências no sul do Brasil, registradas no site do Santa Afro Catarina, coordenado por Beatriz Mamigonian e Andrea Ferreira Delgado.

Mais uma vez a história responde  questões formuladas pela memória e o tempo presente. Parece-nos extremamente significativo para a democratização da sociedade brasileira que finalmente tenhamos conseguido olhar com estranhamentos a “costumes” baseados no racismo e no desrespeito aos direitos humanos. A ilegalidade do tráfico e da escravidão, após 1831, foi o argumento central na defesa apresentada por Luiz Felipe Alencastro, em 2011, para a aprovação das ações afirmativas para pretos e pardos no Supremo Tribunal.

De nossa parte, também encontramos registros importantes sobre o tráfico ilegal através da memória dos descendentes de escravos do Quilombo da Rasa,  Quilombo da Marambaia e do Quilombo do Bracui, analisados no livro coletivo Diáspora Negra e Lugares de Memória (2013).  Se já tínhamos conhecimento de desembarques ilegais na região de Angra dos Reis, e havíamos trabalhado com o assunto, no porto do Bracui, na coletânea Resgate, uma janela para o oitocentos, na década de 1990, foi impressionante ouvir o  mesmo caso nas narrativas orais dos atuais moradores do Quilombo do Bracui.  São essas narrativas que hoje identificam sua luta pelo reconhecimento da terra e da identidade quilombola.

Os eventos e locais do tráfico ilegal, silenciados no passado e nos poucos vestígios que deixaram pela natureza da própria atividade,  podem hoje também ser conhecidos e visitados pelo Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil. Entre 2012 e 2013, organizamos o Inventário, sob a batuta de Milton Guran, representante  do Projeto da UNESCO “Rota do Escravo: Resistência, Herança e Liberdade”.   O  trabalho foi construído a partir da indicação e contribuição de diversos historiadores, antropólogos e geógrafos do país, após consultas e intensas trocas de informações por e-mail. Depois de muitas negociações quanto ao número de indicações, chegamos a 100 Lugares de Memória, dando prioridade às evidências documentais, escritas ou orais, da presença histórica e cultural dos africanos. Entre os diferentes tipos de Lugares de Memória selecionados, destacamos neste texto os lugares de desembarque ilegal.  São 15 lugares de desembarque ilegais assinalados, marcando para a posteridade  eventos que não podem mais ser esquecidos.

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“Sessão Nostalgia”

Tentamos marcar nosso papo para discutir sobre o post da semana. Mas as vezes a agenda aperta e impõe limites a duas mãezonas em pleno segundo domingo de maio. Ainda assim, em rápidos e-mails, mais uma vez nos demos conta da longa estrada das nossas conversas de historiadoras.

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Colocamos na biblioteca do blog esta semana, o pdf do livro Resgate. Uma Janela para o Oitocentos, de 1995, um dos livros pioneiros utilizando a micro-história como método para o estudo da história social da escravidão e da abolição no Brasil, organizado por Hebe e Eduardo Schnoor. Além da Martha, o livro reuniu toda a então chamada escola do Rio sobre a escravidão oitocentista, formada por historiadores da UFF e da UFRJ (Ana Lugão Rios, Sheila Faria, João Fragoso, Manolo Florentino,  José Roberto Goes, Ana Maria Mauad).  Com o pdf, entre muitos outros textos que valem a pena ler de novo, vocês podem ter acesso ao texto de Martha, O Caso do Bracuí, que tão fortemente dialoga com o nosso último filme Passados Presentes e a memória do tráfico ilegal de africanos em terras do atual Quilombo do Bracuí.

Também esta semana, o blog Terça com Tobias divulgou a entrevista que o grupo de jovens historiadores de Recife fez com Hebe, quando do final da sua estada como Professora Visitante da UFPE em julho de 2013. Vale a pena acompanhar o belo trabalho de edição, feito pelos entrevistadores, na viagem historiográfica através da memória que eles incitaram a entrevistada a fazer. Na versão do youtube, os capítulos temáticos da longa entrevista podem ser acessados separadamente. Nossas conversas estão lá, entre muitas outras, registradas com afeto pelo crivo da memória.

Por fim, de volta para o futuro, registramos o lançamento do blog do GT Emancipações e Pós-Abolição da Associação Nacional de história, que ajudamos a criar no encontro nacional da ANPUH de 2013, dirigido pelas historiadoras Wlamyra Albuquerque e Giovana Xavier.  E aproveitamos para divulgar o blog do nosso grupo de pesquisa na UFF, o Cultura Negra no Atlântico (CULTNA), filiado ao GT.

Com a imagem da saudosa Mãe Ferina (D. Zeferina), do Quilombo São José, desejamos a tod@s, um Feliz dia das Mães!

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Arquivado em Entrevista, história e memória, historiografia