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Juízo Final?

“É o juízo final/

a história do Bem e do Mal/

Quero ter olhos pra ver/

A maldade desaparecer…”

(Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)

 

Terminou hoje a olimpíada do #ForaTemer. O quadro de medalhas do Brasil colocou em evidência, uma vez mais, os resultados positivos das políticas de inclusão social implementadas a partir de 2002. O programa Segundo Tempo, do Governo Federal, iniciado em 2003, deu ao Brasil um triplo medalhista em uma mesma olimpíada, Isaías Queiroz. No momento em que publico este post,  começa a cerimônia de encerramento da festa olímpica, sem a presença do presidente interino, transformando em realidade o desejo de quase todos, ainda que temporariamente. Pelo menos no encerramento das olimpíadas ele está fora! #ForaTemer!

Com apelo ecológico, a belíssima festa de abertura não chegou a fugir das interpretações mais correntes do país, com sua força simbólica e repetidos silêncios: o mito das três raças, a cordialidade do brasileiro, a gambiarra como capacidade de improvisação.  Vale a pena ler o texto de Lilia Schwarcz sobre o tema. Fez isso, entretanto, não apenas de forma plasticamente bela, mas com uma mensagem fortemente relacionada a alguns valores políticos que estão, neste momento, sob impiedoso ataque no Brasil. Entre eles: inclusão social, tolerância e pluralidade cultural. Recebeu os aplausos do mundo.

O show colocou representantes LGBTs à frente das comitivas,  dedicou metade de seu tempo ao protagonismo cultural negro na cidade olímpica e encenou (ainda que de forma discreta) a violência da escravidão. No final da cerimônia, todas as delegações se misturaram, uma solução simples, mas nunca antes executada para representar o espírito olímpico. O hino nacional com a voz e o violão de Paulinho da Viola ou as performances de Wilson das Neves e Elza Soares foram simplesmente inesquecíveis. Como muitos registraram, foi um Brasil sem “complexo de vira-latas” o que foi visto no palco do Maracanã. Alegoria à brasileira de um ufanismo democrático e politicamente correto, no melhor sentido da expressão, marca do país nas últimas décadas.

O constrangimento da cerimônia estar presidida literalmente por um usurpador foi enormemente ampliado pelo espírito do espetáculo.  As vaias a ele dirigidas concluíram a festa e quase poderiam estar no roteiro. Difícil acreditar que não haja senadores comprometidos com a democracia em número suficiente para reagir à ilegitimidade do governo interino e ao triste cenário que ele prepara para o futuro. Mantenho as esperanças, mesmo diante do oligopólio midiático que tenta de todas as formas escamotear a ruptura com a legalidade decorrente da inacreditável sessão da Câmara dos Deputados de 17 de abril, e da reconhecida deterioração do ambiente político, quase todo envolvido em escândalos de corrupção. Aproxima-se o juízo final, com todas as ambiguidades de sentido que a expressão sugere.

Caravanas da Democracia se dirigem à  Brasília neste final de agosto para acompanhar o julgamento do processo de impeachment no Senado Federal. Chegarei por lá, com Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian, no dia 27, quando lançaremos o livro Historiadores Pela Democracia. O golpe de 2016 e a força do passado, que organizamos juntas.

Conforme relatamos na introdução do volume, o movimento Historiadores Pela Democracia surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos em vídeo, cresceu como um grupo de discussões no Facebook (hoje com quase 10 mil membros) e cristalizou-se com a iniciativa de visitar a presidenta Dilma no Palácio do Alvorada, em apoio à legitimidade de seu mandato, que passava a simbolizar a soberania do voto e a própria democracia. Encontro que se deu no dia 7 de junho e para o qual foi elaborado um vídeo-manifesto.

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Reunindo historiadores com carreira consolidada nacional e internacionalmente e jovens profissionais de história, o movimento não pretende representar todos os profissionais da área, mas está em sintonia com muitos deles. Editado em tempo recorde pela Alameda Editorial, o livro reúne historiadores de diferentes gerações em um exercício de história imediata.

Escritos no calor do processo da atual crise política brasileira, os textos reunidos no livro lançam uma pluralidade de olhares sobre a sucessão de acontecimentos ao mesmo tempo em que demonstram uma preocupação comum: nossa democracia corre risco (texto da orelha do livro).

A partir de um olhar historiográfico, os autores tomam por base problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos políticos recentes. Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto analisado informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto reunido sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão. A seleção e reunião dos textos em ordem cronológica permitiram esboçar uma primeira proposta de periodização do golpe em curso. Ela estrutura as quatro partes em que a obra está dividida.

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Durante o evento, que ocorrerá às 16 horas no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, haverá mesa redonda com as organizadoras e autores presentes, seguida de debate sobre a conjuntura que se abre para a continuidade da luta democrática. No lançamento será mais uma vez exibido o Vídeo Manifesto Historiadores Pela democracia, que está recebendo legendas em inglês.

A Presidenta Dilma Rousseff foi convidada para o lançamento. Torcemos para que ela possa comparecer.

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VOTAÇÃO NA LASA RATIFICA DENÚNCIA DO GOLPE NO BRASIL

Por ampla maioria (87% dos votantes), foi aprovada a resolução do Conselho Executivo da LASA em defesa da democracia no Brasil.

Resolution on Brazil Whereas: the arbitrary and casuistic manner in which the impeachment process is being carried out against President Dilma Rousseff constitutes an attack against Brazilian democracy; Whereas democracy is an indispensable condition for attaining a dignified and socially just future for all of the region’s inhabitants; and Whereas: the international community of Latin Americanists has long stood in solidarity with struggles in defense of democracy. Be it resolved that: LASA denounces the current impeachment process in Brazil as antidemocratic and encourages its members to call the world’s attention to the dangerous precedents that this process establishes for the entire region. The resolution will be sent out to the membership for voting. She also noted that LASA will put together a delegation to go to Brazil to observe the impeachment process.

Em tradução livre:

Resolução sobre o Brasil: Considerando: a arbitrariedade e a maneira casuística pela qual o processo de impeachment está sendo conduzido no Brasil contra a Presidenta Dilma Rousseff constitui um ataque contra a democracia brasileira; considerando que a democracia é indispensável condição para atingir um futuro digno e socialmente justo para todos os habitantes da região; e considerando que a comunidade internacional de latino-americanistas tem sempre atuado solidariamente com as lutas em defesa da democracia. Fica resolvido: LASA denuncia o corrente processo de impeachment no Brasil como antidemocrático e encoraja seus membos a chamar a atenção do mundo para o perigoso precedente que o processo representa para toda a região. A resolução será enviada para ser votada por seus membros. A LASA formará também uma delegação que irá acompanhar o processo de impeachment no Brasil.

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O relatório da delegação enviada ao Brasil para observar o processo de impeachment, sob a presidência de Sidney Chalhoub, Professor de História do Brasil da Universidade de Harvard, será conhecido em breve.

Ainda este mês de agosto será lançado pela Alameda Editorial, o livro Historiadores Pela Democracia: O Golpe de 2016 e A Força do Passado, organizado por Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian.

#FORATEMER

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CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO por Suzette Bloch e Fernando Nicolazzi

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Divulgada segunda feira na página pessoal do historiador Fernando Nicolazzi no facebook, publicamos hoje, para registro e maior circulação, a CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO, EM RESPOSTA AO EDITORIAL DE 14 DE JUNHO DE 2016*, escrita pela neta de Marc Bloch.

Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.

Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.

O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.

Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.

Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!

O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Mas deixo a palavra ao historiador Fernando Nicolazzi, integrante do grupo de Historiadores pela democracia, para quem solicitei escrever este direito de resposta com outras vozes.

O convite feito por Suzette Bloch para juntar minhas palavras às suas, no ato solidário e indispensável de combater a impostura de um jornal comprometido, em cada linha de seus editoriais, com a defesa de um golpe de Estado em curso, não poderia ser recusado. Este mesmo jornal, que há alguns meses disse um “basta!” à democracia, ecoando o gesto autoritário cometido pelo Correio da Manhã em 1964, agora direciona seus impropérios ao grupo de historiadores e historiadoras que atuam em defesa dos princípios democráticos de nossa sociedade. Faço parte deste grupo e estive na audiência realizada com a presidenta eleita Dilma Rousseff no último dia 7 de junho.

O editorial de 14 de junho, que pretende definir o “lugar de Dilma na história”, faz menção a palavras escritas por Marc Bloch, desvinculando-as irresponsavelmente daquele que as escreveu. Nesse sentido, instrumentaliza politicamente o nome do historiador francês, autor de uma apologia da história elaborada no momento mesmo em que atuava na resistência contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas. Suzette Bloch, em justificável indignação, já apontou acima o desrespeito ético e a desonestidade intelectual que caracterizam este texto. Quanto a isso não cabem aqui outras palavras.

Porém, é preciso fazer frente também à outra dimensão contida naquele editorial: sua falaciosa representação dos historiadores e historiadoras que assinaram o manifesto, definidos ali como intelectuais “a serviço de partidos políticos”, comprometidos com a elaboração de um “pensamento único”, “bajuladores do poder”. O editorial traz ainda as marcas da sua baixeza moral ao sugerir, sem qualquer respaldo aceitável, que muitos dos participantes do encontro com a presidenta a “detestam”. Nada mais desonesto, nada mais mentiroso! Mas também nada mais compreensível!

Afinal, não é difícil compreender que, para setores da sociedade comprometidos com a manutenção da exclusão em suas diferentes formas, a defesa da democracia e da inclusão social cause incômodo e provoque atitudes como esta que, faltando com a verdade, apenas encontra amparo na ofensa e na intolerância. Além disso, é fácil compreender que essa seja a única forma de linguagem política assumida pelo jornal, que já definiu os opositores ao golpe de “matilha de petistas e agregados”: a propagação do seu ódio na busca de cumplicidade, como se ele fosse compartilhado por todas as pessoas. Basta acompanhar as inúmeras e diversas intervenções dos Historiadores pela democracia para constatar quão caluniador e distante dos fatos é o editorial.

O golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ataca direitos sociais, políticos e civis que são fundamentais para a existência da democracia. Tais direito foram conquistas feitas pela sociedade e não simples concessões governamentais. Lutar contra este golpe não significa defender um governo ou um partido político, mas sim defender a vigência de princípios básicos de cidadania, considerando que a justiça social deve ser um valor preponderante em nossa sociedade. Foram estas razões que me fazem participar do grupo, além da convicção íntima, enquanto historiador e enquanto cidadão, de que posicionar-se pela democracia se coloca hoje como um imperativo incontornável na nossa vida pública.

Em um texto que pretende dizer o que deve ser o exercício da historiografia, lemos apenas o uso inconsequente da história e a utilização deturpada da obra de um historiador que soube como poucos escrever sobre o próprio métier. Apesar da indignação causada, o editorial cumpriu seu papel esperado, sem nenhuma surpresa. E ao menos algo positivo ficará dessa situação: não será preciso aguardar historiadores futuros para colocar o Estadão em seu devido lugar na história, ou seja, ao lado dos golpistas do passado, os mesmos que em 2 de abril de 1964 comemoraram a vitória do “movimento democrático” que hoje conhecemos como ditadura civil-militar e que, além de vitimar milhares de pessoas, ampliou a desigualdade social no Brasil. Seus editorialistas continuam realizando com esmero essa função no presente.

*O texto foi enviado para o portal Estadão, como resposta ao editorial publicado em 14/06/2016. Não houve resposta por parte dos editores.

 

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O ofício do historiador e os formadores de quadrilha/ por Silvia Hunold Lara/ Historiadora, pela democracia

Nos últimos meses, um grupo de historiadores decidiu se manifestar publicamente em defesa da democracia. Fazendo uso de meios de comunicação alternativos, criou nas redes sociais o grupo Historiadores pela Democracia, produziu vídeos e textos, além de um manifesto em defesa do governo legítimo que está sendo deposto por meio de um golpe. Há ali gente de tendências diversas, tanto do ponto de vista político como profissional. O que os une é a certeza de que o Legislativo e o Judiciário, com apoio dos grandes meios de comunicação, associaram-se para afastar do poder a presidente democraticamente eleita que, apesar da crise e de vários erros (incluindo relações ambíguas com corruptos), vinha se mantendo na defesa de direitos básicos estabelecidos na Constituição.

Em 7 de junho, uma parte desse grupo foi ao Alvorada, prestar sua solidariedade a Dilma Rousseff, afastada da presidência sob a alegação de ter cometido “crimes de responsabilidade” que, aliás, também foram praticados por seus antecessores e por vários governadores e prefeitos. O Legislativo fez uso de mecanismos constitucionais e o Judiciário estabeleceu o ritual do processo. A aparente legalidade não esconde, entretanto, o golpe articulado por forças retrógradas que se instalaram no poder e esforçam-se por dar uma guinada ultra liberal na economia, diminuir conquistas dos trabalhadores, limitar políticas sociais e restringir direitos humanos.

Os historiadores não foram os primeiros nem os únicos profissionais a se manifestar, nem a denunciar o golpe em curso. Mas chamaram a atenção de dois dos principais jornais do sudeste brasileiro: um publicou um editorial agressivo contestando a qualidade profissional dos participantes do grupo (“O lugar de Dilma na história”. O Estado de São Paulo, 14/06/16), e o outro um artigo, assinado por um de seus articulistas habituais, criminalizando o movimento (Demétrio Magnoli, “Formação de Quadrilha”. Folha de São Paulo, 25/06/16).

Ambos têm uma ideia bem tacanha do que seja o ofício do historiador. O primeiro afirma que o papel da história é “o de reconstituir o passado para entender o que somos no presente”. O segundo diz que “o historiador indaga o passado, formulando hipóteses que orientam a investigação e reconstrução da trama dos eventos”. Pois aí está o problema: o papel do historiador nunca foi o de “reconstituir” o passado. Analisando os documentos produzidos pelos diversos sujeitos que participam de um acontecimento ou fazem parte da sociedade, nós interpretamos o passado, procurando explicá-lo. Essa explicação nunca é unívoca, posto que deve compreender as diversas forças que produziram os “fatos”. Nem tampouco é singular: a história – como aprendem os alunos desde o primeiro ano do curso – não se escreve com verbos regulares e, geralmente, usa o plural. Isso acontece com o passado histórico que, pela sua própria natureza, como o presente, é prenhe de tensões e vozes dissonantes. O mesmo se dá com o trabalho dos historiadores, que só se realiza no diálogo com interpretações e explicações diversas. Ao supor a unicidade da história e dos profissionais que denunciam o golpe, os dois jornalistas produzem um efeito de verdade muito útil para a defesa de suas posições.

O Estado de São Paulo acusa os Historiadores pela Democracia de serem “intelectuais a serviço de partidos que se dizem revolucionários”, registrando que todos aqueles profissionais estão a serviço do “lulopetismo”. O articulista daFolha de São Paulo os coloca como militantes de um Partido totalitário. O primeiro recorre a um neologismo depreciativo. Ele faz par com outros, mais recentes, como “esquerdopata”, “petralha”, “feminazi”. São substantivos coletivos que servem claramente para desqualificar todos os que não pensam como o emissor do discurso. O uso varia conforme a ênfase que se queira dar: contra uma opção político-partidária, contra os que defendem princípios democráticos e/ou libertários ou os direitos das mulheres e de outras minorias. Como se em cada um desses registros só coubesse uma forma única de ser e de pensar. O tratamento coletivo e pejorativo serve, assim, a uma visão incapaz de abarcar a pluralidade. O mesmo acontece quando se tenta explicar que a atitude desses historiadores estaria sendo conduzida por um Partido, com “P” maiúsculo. Tal fantasmagoria só revela a completa ignorância do colunista em relação à diversidade de posições desses profissionais da área de História – alguns dos mais competentes e destacados, no Brasil e no exterior.

Além de associar dessemelhantes, o colunista da Folha acusa os Historiadores pela Democracia de possuírem “alinhamento ideológico” próximo ao “alinhamento corporativo” dos juízes do Paraná que tiveram seus salários divulgados em uma reportagem. Como se trata de um atentado contra a liberdade de imprensa, ele analisa contradições entre a pretendida defesa dos valores democráticos por associações de magistrados e o assédio judicial cometido contra os jornalistas. Aqui, o golpe e o “sequestro do sistema de justiça” podem ser denunciados. Estranhamente, o articulista não associa os historiadores aos jornalistas, mas sim aos juízes, invertendo completamente a lógica mais elementar. São os juízes que estão recorrendo a estratagemas e brechas do sistema legal para cassar, na prática (como diz o próprio Magnoli) os direitos dos jornalistas. Se pode admitir isso nesse caso, por que não consegue concordar com aqueles que denunciam que, “na prática”, o que se assiste é à produção lenta e gradual de um golpe contra a democracia? Ao preferir xingar, acusar e desqualificar, juntando desiguais sob o signo de comportamentos deploráveis, o colunista se aproxima – ele sim – mais dos juízes que de seus colegas jornalistas.

O que, na manifestação dos Historiadores pela Democracia teria incomodado tanto os autores desses dois textos e seus patrões? A pista está nos títulos. O lugar que todos nós ocupamos na história não está nas mãos dos historiadores, nem terão esses profissionais uma só verdade sobre ela, como já expliquei. Como são partidários de uma história unívoca e “verdadeira”, temem que a narrativa histórica não lhes faça “justiça”. Historiadores do presente e do futuro certamente lerão os documentos produzidos ao longo desse processo e poderão mostrar, com base neles, as forças atuantes, seus protagonistas, os vencedores e vencidos, e aqueles que ficaram em cima do muro. Todos nós temos um lugar – e aqueles que lutaram pela pluralidade e pela diversidade poderão estar juntos, mesmo sendo diferentes. O nome disso é democracia.

Os que usam malabarismos retóricos para criminalizar os que não pensam como eles estão fora deste campo. Ao imaginar uma quadrilha, usar neologismos pejorativos e maiúsculas generalistas, imputam ao outro unicidades que buscam apenas intimidar. Certamente exageros e figuras de linguagem fazem parte da disputa de ideias e argumentos. Mas nesses textos há mais que isso. A história tem exemplos dolorosos desse tipo de comportamento – basta lembrar textos e atitudes de alguns jornalistas, militantes e intelectuais da Alemanha ou da Itália nos anos 1930. O nome disso é fascismo.

(o post Contradança: réplicas às críticas ao movimento historiadores pela democracia foi atualizado com respostas às novas críticas ao movimento; clique na imagem para ver o vídeo manifesto)

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Contradança: réplicas às críticas ao movimento historiadores pela democracia

Este post vai para o tumblr Historiadores Pela Democracia com todos os textos em resposta ao editorial do Estadão de 14 de junho, O Lugar de Dilma na História, e ao artigo de Demétrio Magnoli, “Formação de Quadrilha”, publicado na Folha de São Paulo, em 25 de junho de 2016.

Convidamos Magnoli a vir dançar a quadrilha da democracia foi o título da réplica de Hebe Mattos, publicada na Folha de São Paulo em 27/6 e O ofício do historiador e os formadores de quadrilha, o título do texto resposta de Silvia Lara, a ambos os artigos, publicado na mesma data, no VIOMUNDO. 

João José Reis também respondeu Magnoli, em email coletivo, depois disponibilzado no perfil do facebook de Ana Flávia Magalhães Pinto.

“O historiador indaga o passado, formulando hipóteses que orientam a investigação e reconstrução da trama dos eventos.”
Demétrio Magnoli, Folha de São Paulo, 25/06/2016

“Um dos métodos de trabalho mais usados pelo historiador se assemelha ao de uma investigação policial: começamos com hipóteses (ou “suspeitas”) e vamos aos documentos em busca de provas para confirmá-las, ou não. A hipótese que muitos de nós — não apenas nós, é claro! — vínhamos sugerindo há alguns meses era a de que um golpe estava sendo gerado e que culminou com a abertura do processo de seu impedimento naquela lamentável sessão da Câmara dos Deputados, e chefiado por quem!

Ora, com as gravações desse Sérgio Machado, temos o que chamamos de fonte segura a comprovar a hipótese do golpe, está tudo lá, explicadinho. Espera-se que a Justiça, cujos métodos de trabalho se assemelham aos dos historiadores, começará, pelo menos, a considerar a hipótese do golpe, avançando na coleta de provas e decidindo de acordo com elas.”

João José Reis, do grupo Historiadores pela democracia, no vídeo manifesto de 6/6/2016.

Também as falas públicas no Alvorada, de Hebe Mattos, Tania Bessone (representando a diretoria da ANPUH Nacional), Wlamyra Albuquerque, Dulce Pandolfi e da própria Presidenta Dilma Rousseff, são respostas prévias aos ataques que não as ouviram ou citaram.  O vídeo #Historiadores Pela Democracia, de menos de 10 minutos, com legendas em inglês, faz uma boa e emocionada síntese daquele momento histórico. Confiram.
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Mais historiadores, pela democracia, escreveram réplicas às críticas ao movimento.

Keila Grinberg, com Hebe Mattos e Martha Abreu, 14/6/2016 Mais respeito com a biografia dos outros, pessoal. e em 15/6/2016 (carta maior), com pequenas variações,  Mais respeito coma biografia dos outros, pessoal.
Alexandre Moraes, 15/6/2016, Quem tem medo da História? 
Historiadoras e Historiadores matriculados no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 22/6/2016, O medo do Estadão: a disputa pela história e pela memória em mais um golpe contra a democracia.
Clovis Gruner e Murilo Cleto, 28/6/2016, A história como exercício democrático

Os textos de Hebe e Silvia já circularam muito, mas vão aqui mais uma vez reproduzidos.

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Convidamos Mangnoli a vir dançar a quadrilha da democracia/ Hebe Mattos

Em tempos de festa junina, Demétrio Magnoli acusa o movimento Historiadores Pela Democracia de “formação de quadrilha”, em texto publicado na Folha em 25/6.

O artigo começa com o meu nome, honrando-me com a companhia de renomadíssimos colegas de ofício que, estando no exterior, só puderam participar da iniciativa com depoimentos em vídeo ou por escrito.

Esses e outros depoimentos e vídeos podem ser consultados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. Convido todos a fazerem isso.

Como não é historiador, Demétrio Magnoli não consultou tais documentos. Se o fez, omite isso, mas ainda assim afirma que nossa iniciativa “viola os princípios que regem o ofício do historiador”, que temos “vocação totalitária” e que queremos escrever versão da história útil para o “Partido”, com P maiúsculo.

Como já tive oportunidade de escrever no blog “Conversa de historiadoras”, sobre editorial de teor semelhante publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, a utilização desse tipo de lógica maniqueísta por órgãos de imprensa é surpreendente e muito preocupante.

Os depoimentos individuais foram feitos por alguns dos mais importantes historiadores do país, mas também por jovens profissionais e estudantes de história, englobando uma enorme diversidade de orientações políticas, bem como de escolas historiográficas e teóricas.

Juntos, formam uma narrativa polifônica e plural, que vem se somar ao alentado movimento da sociedade civil em defesa da Constituição de 1988 e de resistência ao governo interino, ao programa que tem desenvolvido sem o amparo das urnas e à forma como chegou ao poder.

Em comum, têm a preocupação com os sentidos republicanos e democráticos da ordem política brasileira, ameaçados desde a votação da Câmara dos Deputados de 17 de abril, de triste memória.

“A Força do Passado” é o título do arquivo de textos do tumblr, com exercícios de história imediata publicados ao longo dos últimos meses, que servirão de base para a organização de um livro.

A tese de que há um golpe branco em andamento, como reação conservadora às mudanças da sociedade brasileira produzidas desde a adoção da Constituição de 1988, é hipótese que defendo, junto a outros colegas e, por enquanto, inspirou o título da coletânea.

Para os que discordam que um golpe branco à democracia brasileira está em curso, basta escolher dialogar com alguns dos muitos e diferenciados argumentos dos depoimentos e textos arquivados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. As autorias individuais estão bem assinaladas e os autores têm tradição democrática.

Por fim, para não parecer que só tenho discordância com o artigo de Magnoli, gostaria de me solidarizar com a sua defesa dos cinco jornalistas da “Gazeta do Povo” processados por juízes paranaenses.

Quanto ao título do seu artigo, não pretendemos processá-lo, e aqui falo pelos colegas citados. Temos certeza de que eram as festas juninas que Magnoli tinha em mente quando falou em formação de quadrilha.

Nós o convidamos a deixar de lado o maniqueísmo e o discurso de intolerância e a vir dançar conosco a quadrilha da democracia.

(texto reproduzido na página da diretoria da ANPUH Nacional no facebook)

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O ofício do historiador e os formadores de quadrilha  

Silvia Hunold Lara/ Historiadora, pela democracia

Nos últimos meses, um grupo de historiadores decidiu se manifestar publicamente em defesa da democracia. Fazendo uso de meios de comunicação alternativos, criou nas redes sociais o grupo Historiadores pela Democracia, produziu vídeos e textos, além de um manifesto em defesa do governo legítimo que está sendo deposto por meio de um golpe. Há ali gente de tendências diversas, tanto do ponto de vista político como profissional. O que os une é a certeza de que o Legislativo e o Judiciário, com apoio dos grandes meios de comunicação, associaram-se para afastar do poder a presidente democraticamente eleita que, apesar da crise e de vários erros (incluindo relações ambíguas com corruptos), vinha se mantendo na defesa de direitos básicos estabelecidos na Constituição.

Em 7 de junho, uma parte desse grupo foi ao Alvorada, prestar sua solidariedade a Dilma Rousseff, afastada da presidência sob a alegação de ter cometido “crimes de responsabilidade” que, aliás, também foram praticados por seus antecessores e por vários governadores e prefeitos. O Legislativo fez uso de mecanismos constitucionais e o Judiciário estabeleceu o ritual do processo. A aparente legalidade não esconde, entretanto, o golpe articulado por forças retrógradas que se instalaram no poder e esforçam-se por dar uma guinada ultra liberal na economia, diminuir conquistas dos trabalhadores, limitar políticas sociais e restringir direitos humanos.

Os historiadores não foram os primeiros nem os únicos profissionais a se manifestar, nem a denunciar o golpe em curso. Mas chamaram a atenção de dois dos principais jornais do sudeste brasileiro: um publicou um editorial agressivo contestando a qualidade profissional dos participantes do grupo (“O lugar de Dilma na história”. O Estado de São Paulo, 14/06/16), e o outro um artigo, assinado por um de seus articulistas habituais, criminalizando o movimento (Demétrio Magnoli, “Formação de Quadrilha”. Folha de São Paulo, 25/06/16).

Ambos têm uma ideia bem tacanha do que seja o ofício do historiador. O primeiro afirma que o papel da história é “o de reconstituir o passado para entender o que somos no presente”. O segundo diz que “o historiador indaga o passado, formulando hipóteses que orientam a investigação e reconstrução da trama dos eventos”. Pois aí está o problema: o papel do historiador nunca foi o de “reconstituir” o passado. Analisando os documentos produzidos pelos diversos sujeitos que participam de um acontecimento ou fazem parte da sociedade, nós interpretamos o passado, procurando explicá-lo. Essa explicação nunca é unívoca, posto que deve compreender as diversas forças que produziram os “fatos”. Nem tampouco é singular: a história – como aprendem os alunos desde o primeiro ano do curso – não se escreve com verbos regulares e, geralmente, usa o plural. Isso acontece com o passado histórico que, pela sua própria natureza, como o presente, é prenhe de tensões e vozes dissonantes. O mesmo se dá com o trabalho dos historiadores, que só se realiza no diálogo com interpretações e explicações diversas. Ao supor a unicidade da história e dos profissionais que denunciam o golpe, os dois jornalistas produzem um efeito de verdade muito útil para a defesa de suas posições.

O Estado de São Paulo acusa os Historiadores pela Democracia de serem “intelectuais a serviço de partidos que se dizem revolucionários”, registrando que todos aqueles profissionais estão a serviço do “lulopetismo”. O articulista da Folha de São Paulo os coloca como militantes de um Partido totalitário. O primeiro recorre a um neologismo depreciativo. Ele faz par com outros, mais recentes, como “esquerdopata”, “petralha”, “feminazi”. São substantivos coletivos que servem claramente para desqualificar todos os que não pensam como o emissor do discurso. O uso varia conforme a ênfase que se queira dar: contra uma opção político-partidária, contra os que defendem princípios democráticos e/ou libertários ou os direitos das mulheres e de outras minorias. Como se em cada um desses registros só coubesse uma forma única de ser e de pensar. O tratamento coletivo e pejorativo serve, assim, a uma visão incapaz de abarcar a pluralidade. O mesmo acontece quando se tenta explicar que a atitude desses historiadores estaria sendo conduzida por um Partido, com “P” maiúsculo. Tal fantasmagoria só revela a completa ignorância do colunista em relação à diversidade de posições desses profissionais da área de História – alguns dos mais competentes e destacados, no Brasil e no exterior.

Além de associar dessemelhantes, o colunista da Folha acusa os Historiadores pela Democracia de possuírem “alinhamento ideológico” próximo ao “alinhamento corporativo” dos juízes do Paraná que tiveram seus salários divulgados em uma reportagem. Como se trata de um atentado contra a liberdade de imprensa, ele analisa contradições entre a pretendida defesa dos valores democráticos por associações de magistrados e o assédio judicial cometido contra os jornalistas. Aqui, o golpe e o “sequestro do sistema de justiça” podem ser denunciados. Estranhamente, o articulista não associa os historiadores aos jornalistas, mas sim aos juízes, invertendo completamente a lógica mais elementar. São os juízes que estão recorrendo a estratagemas e brechas do sistema legal para cassar, na prática (como diz o próprio Magnoli) os direitos dos jornalistas. Se pode admitir isso nesse caso, por que não consegue concordar com aqueles que denunciam que, “na prática”, o que se assiste é à produção lenta e gradual de um golpe contra a democracia? Ao preferir xingar, acusar e desqualificar, juntando desiguais sob o signo de comportamentos deploráveis, o colunista se aproxima – ele sim – mais dos juízes que de seus colegas jornalistas.

O que, na manifestação dos Historiadores pela Democracia teria incomodado tanto os autores desses dois textos e seus patrões? A pista está nos títulos. O lugar que todos nós ocupamos na história não está nas mãos dos historiadores, nem terão esses profissionais uma só verdade sobre ela, como já expliquei. Como são partidários de uma história unívoca e “verdadeira”, temem que a narrativa histórica não lhes faça “justiça”. Historiadores do presente e do futuro certamente lerão os documentos produzidos ao longo desse processo e poderão mostrar, com base neles, as forças atuantes, seus protagonistas, os vencedores e vencidos, e aqueles que ficaram em cima do muro. Todos nós temos um lugar – e aqueles que lutaram pela pluralidade e pela diversidade poderão estar juntos, mesmo sendo diferentes. O nome disso é democracia.

Os que usam malabarismos retóricos para criminalizar os que não pensam como eles estão fora deste campo. Ao imaginar uma quadrilha, usar neologismos pejorativos e maiúsculas generalistas, imputam ao outro unicidades que buscam apenas intimidar. Certamente exageros e figuras de linguagem fazem parte da disputa de ideias e argumentos. Mas nesses textos há mais que isso. A história tem exemplos dolorosos desse tipo de comportamento – basta lembrar textos e atitudes de alguns jornalistas, militantes e intelectuais da Alemanha ou da Itália nos anos 1930. O nome disso é fascismo.

(versão arquivada em 26/6/2016 na Biblioteca do Blog)

#HistoriadoresPelaDemocracia

 

 

 

 

 

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A força do passado e os editorialistas do Estadão

A internet e as redes sociais, com destaque para o facebook, tornaram-se um poderoso espaço de formação de opinião no Brasil. As chamadas “memórias” do face me fizeram revisitar um publicação minha de 19 de junho de 2013, sobre o “Anonymous Brasil”, “perfil” extremamente ativo durante as chamadas jornadas de junho de 2013.

“Os post do Anonymous Brasil são simplesmente um horror. …Por que o anonimato? Por que o chamado de tom moral com a palavra de ordem fascista “sem bandeiras partidárias” e “sem ideologia”? Mas, principalmente, por que tantos que não concordam com essa pauta (política e partidária, obviamente) compartilham seus conteúdos? 

Em 2 de julho daquele ano, quando a Copa das Confederações finalmente terminava, eu refletia:

Fim da Copa das Confederações. A democracia passou no teste. Ufa!  … A chamada crise da representação existe em diversos níveis e é em alguma medida mundial. Quero, entretanto, manifestar meu incômodo, com uma certa cultura política de fundo autoritário, que tem predominado nas redes sociais, tanto à esquerda, quanto à direita. Ela apresenta o adversário político, em geral bem eleito, muitas vezes em pleito majoritário, como um ser amoral, oportunista, muitas vezes simplesmente perverso (seus eleitores também o são ou então são ignorantes e manipulados). A tentação autoritária desse tipo de discurso é evidente, mas felizmente, com algumas exceções assustadoras, parece reduzida à dimensão retórica, para ser lida apenas por aqueles que já concordavam antes com quem escreve. Felizmente, ao fim das contas, a polifonia das ruas ficou bem estabelecida. … O fisiologismo foi para o corner. A crise de crescimento nas grandes cidades está no centro dos debates. Vamos ver se haverá reforma política. ..

Não tivemos reforma política, o fisiologismo saiu do corner e a democracia e a constituição de 1988 estão sob ataque. As tentações autoritárias venceram?

Textos publicados neste blog analisando a escalada fascistizante e reacionária que, desde então, se desenvolveu no país, atingindo inclusive os veículos tradicionais da chamada grande imprensa, estão na origem do movimento historiadores pela democracia. Esses textos e outros exercícios de história imediata estão sendo reunidos no tumblr do grupo, sob o título A Força do Passado.  A ideia é tomá-los como base para organizar um livro coletânea de mesmo título. No tumblr, o objetivo é conseguir reunir o conjunto mais amplo possível de reflexões de historiadores sobre a atual crise política brasileira, que se somam aos vídeos de depoimentos, ao vídeo manifesto e  ao registro completo do encontro de mais de 40 historiadores com a Presidenta afastada, na tarde do dia 7 de junho de 2016.

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O evento no Palácio da Alvorada foi precedido de um debate na Universidade de Brasília. Uma edição desse debate, com cerca de 7 minutos, acaba de ser concluída, destacando a preocupação dos presentes com a manutenção dos direitos garantidos pela constituição de 1988. Foi essa preocupação que orientou a iniciativa de organizar os debates “Historiadores Pela Democracia: Por um Brasil com Direitos”, ocorridos em todo o país, nos dias 16 e 17 de junho.

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No Rio de Janeiro, o painel “O Movimento Escola Sem Partido e o Direito à Diversidade Cultural”, na Casa de Rui Barbosa, com Ivana Lima, Hebe Mattos, Fernando Penna, Mônica Lima, Francisco Carlos Teixeira da Silva, Henrique Estrada, Ildeu de Castro Moreira, e mediado por Ângela de Castro Gomes, foi transmitido ao vivo e reuniu mais de 300 pessoas. O vídeo com a edição do debate da UNB foi apresentado no evento. O registro integral estará brevemente disponível no canal da instituição no youtube.

Toda essa movimentação reunindo alguns dos mais importantes historiadores do Brasil e do exterior, englobando uma enorme diversidade de escolas historiográficas e orientações teóricas, não mereceu sequer uma linha nos chamados grandes jornais brasileiros. Esta tem sido a regra predominante para quase todo o alentado movimento da sociedade civil de resistência ao governo interino e à forma como chegou ao poder.

Apesar disso, o movimento historiadores pela democracia tornou-se alvo de um editorial raivoso de “O Estado de São Paulo”, que acusava os historiadores em visita ao Palácio da Alvorada de “estar a serviço de partidos” e de desprezar aquilo que tinham ido homenagear: o estado democrático de direito e a Presidenta  legítima, eleita por 54 milhões de votos, Dilma Rousseff. No ataque desferido, o texto do editorial reduz os intelectuais que participaram do movimento ao anonimato,  enquadrando-os, como “lulopetistas”, no discurso de ódio que tenta legitimar o impedimento da Presidenta. A pluralidade de orientações teóricas e políticas dos historiadores que se engajaram no movimento, sua relevância intelectual nos diversos campos de atuação em que se inserem, a defesa comum dos sentidos republicanos e democráticos da ordem política brasileira, bem como a preocupação com o crescimento da intolerância e do discurso de ódio no país, essenciais ao vídeo manifesto veiculado, foram simplesmente ignorados.

Vivemos tempos sombrios. Intelectuais transformados em “não notícia” por decisão editorial podem tornar-se alvo de editoriais que não citam seus nomes. Um texto sem assinatura, representando uma entidade corporativa, O Jornal O Estado de São Paulo, desfere ataque absolutamente maniqueísta contra supostos “lulopetistas” igualmente anônimos. Os autores desconhecidos do editorial escolheram o texto coletivo do manifesto como base da crítica,  fingindo ignorar o vídeo síntese que lhe deu origem, construído como narrativa polifônica a partir de mais de 80 depoimentos, onde as autorias individuais estão bem evidenciadas. Citam, retiradas do contexto, como exemplo de “má fé” ou de “lulopetismo”, frases de Sidney Chalhoub, da Universidade de Harvard, de Martha Abreu, da UFF e de Iris Kantor, da USP, sem qualquer referência.

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O ataque fascista à UNB ocorrido na semana passada e o editorial do Estadão contra o movimento historiadores pela democracia são faces de uma mesma e assustadora moeda. Como bem disse a Presidenta Dilma, ultrapassaram a fronteira do Estado de Exceção. Repito, aqui, frase de Heloisa Starling, destacada no vídeo manifesto: Nós vamos mesmo abrir mão dos princípios das sociedades republicanas, princípios baseados na liberdade e na igualdade? 

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Para concluir, convido todos a assistir, já com legendas em inglês, uma pequena edição das falas públicas no encontro dos historiadores pela democracia com a Presidenta Dilma Rousseff, no Palácio da Alvorada (9 minutos). Foi um momento emocionante. Um dia para ficar na história.

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Lançamento do vídeo: historiadores pela democracia

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A tela acima dá acesso ao vídeo historiadores pela democracia, de 7 minutos, que lançamos em primeira mão aqui no Blog.  Ele será exibido amanhã, às 10 horas, na jornada Historiadores pela Democracia, no Auditório da Biblioteca Central da UNB.

A ANPUH Nacional estará representada no encontro pela Professora Tânia Bessone, conforme nota publicada hoje pela entidade.

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(clique na imagem para ler a nota)

O vídeo editado pode ser visto também no tumblr Historiadores Pela Democracia. Ficará ali arquivado de forma permanente, junto a todos os depoimentos individuais produzidos pelo nosso movimento.

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(clique na imagem para acessar o tumblr)

No ato da UNB será redigido um manifesto de historiadores em defesa do estado democrático de direito a ser entregue à Presidenta Dilma Rousseff, na parte da tarde, em audiência no Palácio da Alvorada.

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