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Notícias da inauguracão no Quilombo São José

Foi com muita emoção que inauguramos a exposição memorial Passados Presentes no Quilombo São José. Como os que acompanham regularmente o Blog já sabem, é o segundo memorial/exposição do Projeto Passados Presentes com objetivo de promover ações de pesquisa e divulgação da história e do patrimônio imaterial relacionado ao legado do tráfico de africanos escravizados no estado do Rio de Janeiro, que coordenamos em colaboração com a historiadora Keila Grinberg, da UNIRIO. O primeiro memorial foi inaugurado em julho na cidade de Pinheiral e o terceiro terá sua abertura oficial em 14 de novembro próximo, no Quilombo do Bracui. Ao lado do memorial, faz parte do projeto a criação do aplicativo para celulares que indica os lugares de memória do tráfico, da escravidão e do pós-abolição, abertos à visitação pública, assim como do patrimônio cultural construído pelos descendentes da última geração de africanos escravizados no Rio de Janeiro.

Um grupo de colegas historiadores foram conosco em caravana conferir a festa no Quilombo São José, visitando no caminho o memorial do Parque das Ruínas da cidade de Pinheiral. Uma boa sugestão de roteiro de visitação.IMG_4133IMG_4171

Muitos já foram com o app passados presentes instalado. IMG_4247IMG_4248

Como indicado no roteiro, ao chegarmos ao Quilombo São José, visitamos primeiramente o Terreiro  do Jongo e, em especial, o  emocionante Museu da Casa Quilombola. IMG_4233IMG_4177IMG_4179

Na sequência do roteiro sugerido, nos dirigimos para a sede, onde foi servida a feijoada que antecedeu a solenidade de inauguração da exposição memorial. A inauguração de ontem contou com a participação de muitos jongueiros, alunos da graduação e da pós-graduação, assim como de muitos professores de História e moradores da região.blogsaojose1IMG_4217
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Compartilhamos com vocês, algumas fotos da festa e a alegria e emoção das nossas falas (Hebe Mattos, Martha Abreu, Keila Grinberg) durante a inauguração na roda expositiva do projeto.IMG_4225IMG_4228IMG_4224IMG_4192

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Memorial Passados Presentes no Quilombo São José

No próximo sábado, 19 de setembro, convidamos todos os amigos do Blog a celebrarem conosco no Quilombo São José, com feijoada e roda de jongo, a inauguração da exposição permanente e do memorial Passados Presentes. Contrataremos um ônibus para os que quiserem aderir à festa, saindo do Rio de Janeiro na parte da manhã e retornando no final da tarde. No caminho, o ônibus visitará o memorial do projeto na cidade de Pinheiral. O grupo de jongo de Pinheiral, os quilombolas do Bracuí e outros jongueiros do Pontão do Jongo e do Caxambu estarão presentes à festa. Para reservar seu lugar ou ter mais informações, basta entrar em contato através do e-mail contatopassadospresentes@gmail.com, até a próxima quarta feira, 16 de setembro.

Como os que acompanham regularmente o Blog já sabem, no Quilombo São José, localizado no município de Valença, no Rio de Janeiro, encontra-se um dos roteiros pilotos do projeto de turismo de memória Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil. O memorial do Quilombo São José conta a saga de Tertuliano e Miquelina e de Pedro e Militana, antepassados dos atuais moradores, desde a África até o Brasil. Narra também a luta de seus descendentes pelo território quilombola ocupado ainda no século 19 e a força da tradição cultural do Jongo, que tem origem na África Central.

A exposição permanente e os pontos de memória ali sinalizados foram identificados pelos moradores mais antigos do local, em diálogo com a equipe do projeto e com a pesquisa sobre a história e a memória do grupo, desenvolvida por Hebe há mais de 20 anos. São os moradores, porém, que contam a história local a partir do que ouviram de seus pais e avós.

Em 30 de abril de 2015, os quilombolas tomaram oficialmente posse do território onde viveram seus antepassados e onde continuam a celebrar a herança cultural deles recebida. O jongo do Quilombo São José é um dos mais tradicionais do estado do Rio de Janeiro e a festa de maio ali realizada é hoje referência para todo o país. A sinalização do local para o turismo de memória permite aos visitantes ouvir diversos pontos de jongo e ter acesso às narrativas dos quilombolas mais antigos. Através de visitas guiadas, é possível também realizar percursos mais longos, de grande interesse histórico e ecológico, que incluem o centenário pé de jequitibá, a cachoeira saudada nos pontos de jongo e as ruínas do engenho velho.

A intensidade dos trabalhos para finalizar o projeto Passados Presentes afetou a periodicidade do Blog. Até novembro, quando pretendemos fazer o lançamento dos roteiros históricos do Centro do Rio de Janeiro e a festa de inauguração do memorial do Quilombo do Bracuí, vamos aparecer por aqui sempre que tivermos uma notícia nova de mais uma etapa cumprida.

Adoraremos encontrar vocês no sábado no Quilombo São José!

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Pinheiral, Cidade do Jongo

Etapa cumprida. No domingo 26 de julho, dia estadual do Jongo, foram inaugurados o primeiro roteiro, com sua sinalização, e a primeira das exposições memoriais do projeto Passsados Presentes, juntamente com o Parque das Ruínas da Fazenda São José do Pinheiro, na cidade de Pinheiral, Estado do Rio de Janeiro. Nossas orações à Santana e aos Pretos Velhos foram atendidas. Imagens e textos idealizados dentro de um computador materializaram-se nas placas de sinalização e nos grandes painéis da exposição. Ruinas cobertas de vegetação foram limpas e iluminadas pela Prefeitura da cidade para receber o Memorial, dando origem a um belo parque, onde pode ser visto, feito de pau a pique, madeira, história, memória e arte, o primeiro memorial Passados Presentes.

Como no jongo cantado por Mestre Cabiúna, que pode ser ouvido no audio da exposição, esse projeto “vem de longe, caminhando devagar”, em mais de vinte anos de pesquisa sobre a escravidão e o pós-abolição no Rio de Janeiro. Com textos e coordenação geral das historiadoras desse blog, juntamente com Keila Grinberg, a equipe do projeto se organiza a partir de um tripé de iniciativas: a pesquisa de campo, coordenada por Daniela Yabeta, com o apoio de Guilherme Hoffmann para o registro audiovisual, realizada ao longo de dois anos e inúmeras viagens, em estreito diálogo com a curadoria das três comunidades (Maria de Fátima Santos, Antônio Nascimento Fernandes e Marilda Souza); o desenvolvimento tecnológico para o banco de dados e o app de turismo de memória, em fase de implementacão, sob coordenação de Ruben Zonenschein; e a concepção artística e de design das exposições, sinalizações e app, sob direcão geral de André de Castro.

Após intenso trabalho da equipe de design, foi com emoção que vimos os arquivos das placas e painéis serem enviados para impressão. Com os textos e as narrativas finalizados, o braço de arte e design do projeto comandou os trabalhos, para que a festa de domingo fosse possível. André passou a semana na cidade, com uma super equipe, parcialmente formada por artesãos jongueiros e quilombolas, para fazer a sinalização do roteiro e erguer a primeira exposição. Publicamos aqui sua fala de apresentação na inauguração do Memorial e fazemos, em seguida, uma pequena reportagem visual do resultado.

Boa noite, quero aproveitar essa oportunidade para agradecer e ressaltar a felicidade que é participar desse projeto. Vou tentar também explicar rapidamente a sua estrutura visual. Em termos visuais, Passados Presentes pode ser dividido em três pilares: a exposição, o design e a parte artística.  

Em termos d​o projeto expográfico, o conceito é ​a roda de Jongo, que preserva a memória e a história. Quero agradecer a colaboração de Jorge Estevão, Antônio de Padua Estevão, Sebastião Seabra e Carlos Alberto, do Quilombo São José, que junto com Walmir​ de Souza Francisco​, do Quilombo do Bracuí, ajudaram a definir e levantar a estrutura de pau-a-pique, bambu e cipó, base do Memorial. ​Agradeço também as equipes de montagem de André Salles e Carlos Alberto Ribeiro Andrade, que vieram do Rio de Janeiro para cuidar do acabamento e do caráter permanente da exposição. No Quilombo São José, agradeço também à D. Joana D’Arc, que bordou os títulos dos painéis expositivos. Agradeço ainda, especialmente, a Isabel Pacheco, produtora que esteve presente todo o tempo, e foi o braço direito dos trabalhos. E claro, a todos os participantes do Jongo de Pinheiral, por sua hospitalidade e suporte durante a semana de montagem.

Em termos de design, gostaria de agradecer a equipe que me ajudou a definir as placas, a sinalização, o design do app e das peças gráficas, especialmente a Julia Haiad, designer dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio 2016,​​ que trabalhou ilustrando o mapa e ​todo​ sistema de ícones ​e submarcas​ do projeto, além dos designers João Roma e Vitor Lifsitch, que trabalham com a gente.

Por fim, a parte artística, que permite a visualização do conceito da roda de jongo, possui uma linguagem visual mais pessoal. A base das serigrafias foram as fotos realizadas pelo Guilherme Hoffmann com os jongueiros de Pinheiral. O resultado, com uma linguagem menos figurativa e mais gestual, representa não só a individualidade dos jongueiros retratados, mas a energia e o movimento do jongo. Simboliza não só Pinheiral, mas também toda comunidade jongueira. Eu espero que vocês gostem.

Para compartilhar fotos, a hashtag do projeto é #passadospresentes. Obrigado!

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Diário da Bicicleta (ou conversas de Havana)

Escrevemos este texto do aeroporto Internacional José Marti, em Havana, Cuba. Estamos deixando a cidade após participarmos de colóquio sobre memória da escravidão e herança africana em Brasil e Cuba, organizado por Andre Cicalo (pelo Museu Afro-Digital da UERJ) e por Alberto Granado (pela Casa de Africa, Havana). O colóquio reuniu especialistas brasileiros e cubanos para discutir o desenvolvimento do projeto Rota do Escravo da UNESCO nos dois países, e temas como patrimônio, democracia e racismo; escravidão, arqueologia e lugares de memória; religião, literatura e herança africana em perspectiva comparada.

São muitos os diálogos entre a história da escravidão e as formas peculiares de racismo no Brasil e em Cuba. Para nossa boa surpresa, a pesquisa sobre a história do tráfico ilegal no século XIX, que tem se desenvolvido no Brasil quebrando um silêncio clássico da nossa historiografia, é tema prioritário do grupo de pesquisa da universidade cubana, coordenado pela historiadora Maria del Carmem Barcia.

Também com evidente paralelismo em relação à questão das ações afirmativas no campo cultural na sociedade brasileira, o projeto Rota do Escravo em Cuba se apresentou como instrumento para promover ações no campo da pesquisa histórica e do ensino sobre a escravidão e o tráfico negreiro, valorizando as culturas vivas de matriz africana. Apesar do discurso oficial, que persiste, de afirmação de uma cubanidade revolucionária que nega a existência de racismo, a presença dos movimentos negros no simpósio e a discussão aberta do tema nos pareceram sinais de novos tempos.

Como participantes do colóquio, fomos levadas a visitar o Pueblo de Regla, sede de importantes irmandades e organizações religiosas negras, que fica do outro lado da baía de Havana, em frente ao porto. Ali, tomamos contato com a Nossa Senhora de Regra, Virgem Negra, com um menino Jesus mestiço em seu colo, objeto de intensa devoção da população local. A história da imagem é controversa, mas sua riqueza e possibilidades simbólicas quase dispensam comentários. Em Regla, pudemos visitar também um dos muitos museus de história local existente no país, com ênfase na identidade e história das associações religiosas de matriz africanas locais (além da história cívica da revolução cubana, é claro).

Em Havana, como qualquer visitante, andamos de bicicleta-taxi e ouvimos do jazz ao tecno-salsa, embaladas em alguns mojitos e daiquiris. Na Cidade Velha, patrimônio da humanidade, com grande parte magnificamente restaurada, fomos surpreendidas por uma multidão de turistas de todas as partes do mundo convivendo intensamente com a população local. Nesses 6 dias no país, nossa impressão de viagem foi de uma sociedade otimista com o futuro, buscando conciliar modernidade, mercado e orgulho revolucionário.

Apesar disso, o acesso a internet ainda é precário. Se começamos a escrever no aeroporto José Marti, postamos este blog já em casa, no Brasil.

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Mais um Treze de Maio?

Já faz algum tempo que o mês de maio nos mobiliza. O 13 de maio, dia da abolição legal da escravidão no Brasil, desde 1988 é celebrado como dia nacional de luta contra a discriminação racial no país. O sentido inacabado da reforma então empreendida não deve apagar, entretanto, seu profundo significado.

Resultado do primeiro grande movimento social do país e de intensa movimentação de desobediência civil por parte dos últimos escravizados, a magnitude da mobilização social que possibilitou a aprovação da chamada lei Áurea ficou registrada em foto histórica da multidão presente à missa campal de 17 de maio do fotógrafo Antônio Luis Ferreira. Reportagem do Portal Brasiliana Fotográfica, neste 17 de maio, identifica a presença de Machado de Assis no palanque oficial, o que é uma interessantíssima novidade. Porém, é a imponência da multidão que mais uma vez buscamos registrar aqui no blog. Foi a mobilização social e a fuga em massa dos escravizados que surpreenderam os conservadores e tornaram possível que a Lei fosse aprovada sem indenização aos senhores e com expectativas, depois frustradas, de alguma compensação aos escravizados.

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Nos cursos que ministramos, em seminários, entrevistas ou nas festas do quilombo de São José da Serra, sempre em data próxima ao 13 de maio, avaliar o legado da abolição com mais atenção e profundidade tem se tornado bastante comum. Entretanto, nesse último 13 de maio, tivemos a impressão que de que o reconhecimento do legado de sofrimento e racismo deixado pela violência do tráfico negreiro e da escravização para a população negra do país ganhou importância e visibilidade em diferentes veículos de comunicação.

A começar pala primeira página de O Globo do dia 13 de maio com uma matéria sobre Luis Pinto Jr do Quilombo do Sacopã que participou do projeto “Brasil: DNA África”, da produtora Cine Group. Para além de desmentir perspectivas biológicas de raça, que não possuem qualquer sentido científico, as pesquisas de DNA têm sido usadas para remontar o trajeto de grandes deslocamentos populacionais no espaço global, como o produzido pelo tráfico forcado de africanos escravizados. Por meio de exames feitos em um laboratório em Washington, Luis teve a origem de seus antepassados africanos identificada no território atual da Nigéria. Ao lado de outros escolhidos, participará de uma séria de documentários sobre o que os produtores definiram como o “resgate dos laços interrompidos pela escravidão”. Trata-se assim de discutir, de forma pública, o trauma e a violência da ruptura provocada pelo tráfico negreiro e pela escravização no Brasil.

Também chamou atenção o ótimo documentário produzido pela TV Brasil, com o título Ecos da Escravidão, para o programa Caminhos da Reportagem (TV Brasil, 54:31), apresentado pelos jornalistas Debora Brito e Carlos Molinari. Desenvolvido a partir do mote da criação da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra da OAB, o programa provou, como ressaltou Ana Flávia Magalhães Pinto, uma das historiadoras entrevistadas, “que um bom diálogo entre jornalistas, acadêmicos e ativistas é possível”. Alvíssaras! Com a participação de inúmeros historiadores, contou também com entrevistas importantes com militantes e lideranças quilombolas, como Toninho do Quilombo de São José, buscando registrar a escravidão e seu legado, do tráfico de escravizados até as ações de reparação nos dias de hoje.

Da mesma forma, ocorreram vários debates na UFF sobre os limites da liberdade e a continuidade do racismo, com destaque para a participação na campanha #AhBrancoDaUmTempo. As polêmicas daí resultantes são boa medida da urgência da discussão. Os alunos da História, do Coletivo Negro na Escola, organizaram belo evento no nosso prédio, na escola pública Guilherme Briggs e no Colégio Estadual Raul Vidal, com a Participação dos Professores Elaine Monteiro e Jonis Freire.

Com a Fogueira da Festa de 16 de maio no Quilombo São José, finalmente de posse do título de seu território, celebramos mais um 13 de maio. Dia dos Pretos Velhos e da Abolição Legal da Escravidão no Brasil.

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Um Dia de Vitória!

Semana passada não teve blog. Estávamos em campo, numa visita intensa e rica como sempre ao Quilombo de São josé da Serra, ao Centro de Referência do Jongo de Pinheiral e ao Quilombo do Bracuí. Foi mais uma viagem de trabalho do projeto Passados Presentes que, com apoio do Edital Petrobras de Patrimônio Imaterial e em parceria com as comunidades, irá sinalizar lugares de memória e erguer monumentos memoriais em cada uma das localidades. No final do texto, uma pequena reportagem visual da nossa visita. A iniciativa busca honrar as vítimas da tragédia da escravização e celebrar o milagre do patrimônio cultural construído em terras brasileiras pela última geração de africanos escravizados aqui chegada.

Começamos pelo Quilombo São José e ali a visita teve um sabor especial. A primeira visita de Hebe ao Quilombo se deu em 1998, há exatos 17 anos, junto ao ITERJ e a Fundação Palmares, para fazer a pesquisa que embasou o relatório de reconhecimento do Quilombo, redigido naquele ano. Anos mais tarde e muitas visitas depois, a emoção foi grande quando a caminho do Quilombo para as filmagens do filme Jongos, Calangos e Folias, já em conjunto com Martha, vimos pela primeira vez, na estrada, uma sinalização oficial de local de interesse histórico – com a indicação Quilombo São José. Parecia que a titulação estava finalmente próxima. Ledo engano.

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Foram precisos mais de 7 anos, como em uma promessa de Folia de Reis, para que o Quilombo entrasse plenamente de posse de seu território, processo que se completou em 30 de abril de 2015, apenas 2 dias antes da nossa última visita. Difícil descrever a emoção de Hebe, ao caminhar com Antônio Nascimento Fernandes até o coração da área que permaneceu por todos estes anos proibida aos quilombolas. O filme que reproduzimos aqui, já circulou amplamente pela internet, mas ficará registrado no nosso blog, como celebração deste momento de vitória.

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Fotos 1, 2 e 3 – Quilombo São José; Fotos 4, 5 e 6 – Quilombo do Bracuí; Fotos 7, 8 e 9 – Grupo de Jongo de Pinheiral.

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Ialorixá Torody e o Festival do Filme de Pesquisa

Sábado, dia 25, no MAR (Museu de Arte do Rio), aconteceu o primeiro dia do V Festival Internacional do Filme de Pesquisa. Como o próprio nome do Festival indicava, tivemos uma ótima discussão sobre Patrimônio e Memória da Escravidão no Brasil. A partir dos filmes Memórias do Esquecimento, de André Cicalo, Memórias Periféricas, de Francine Saillant e Jacques D’Adesky, FESMAN 2010, de Cristine Douxami e Philipe Degaille, e Passados Presentes, das autoras deste blog, discutimos identidades negras no Brasil e em países africanos, politização das memórias da escravidão e do tráfico de escravizados e a emergência dos movimentos negros contemporâneos na Baixada Fluminense. Destaque também para as reflexões sobre a construção da relação entre os diretores, os protagonistas dos documentários e suas lutas por direitos. Em breve, todos os filmes poderão ser vistos online, no site do festival. Foi um debate produtivo, além dos realizadores, contamos com a participação de Myriam Sepúlveda, do Museu Afro-Digital do Rio de Janeiro, com o fotógrafo Januário Garcia e com uma antenada plateia.

Mas arriscamos dizer que o ponto alto do dia foi mesmo a poderosa fala da Ialorixá Torody de Ogum, do terreiro Ala Koro Wo, de São João do Meriti, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, que pela terceira vez participou da sessão carioca do Festival.

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Na mesa de debates do filme Memórias Periféricas, Torody expressou sua preocupação com o crescimento e fortalecimento de políticos comprometidos com a intolerância religiosa.

Ativista, a Ialorixá vem acompanhando de perto as discussões políticas em Brasília em torno do tema. Na Baixada Fluminense, a África da diáspora possibilitou um ativismo cidadão no terreiro de Mãe Torody e na Pastoral Afro da Igreja Católica, documentados no filme de Francine Saillant e Jacques D’Adesky.

Na mesa de debates, Torody fez questão de registrar a luta histórica das comunidades tradicionais dos terreiros de candomblé e de umbanda na Baixada, desde a década de 1980, e enfatizou a possibilidade de antigos caminhos de luta ganharem importantes desdobramentos e novas inspirações. Desde aquela época, foi possível construir importante aliança entre padres católicos, como Frei Tatá e Frei Davi, incentivadores das Missas Afros, e os terreiros de Matriz Africana. A busca do ativismo negro por reconhecimento incentivou diálogos intereligiosos ainda mais amplos, inclusive com pastores protestantes, que podem ser acompanhados no filme Axé Dignidade (de Francine Saillant e Mãe Torody), apresentado no segunda edição do Festival, em 2009.  Em tempos em que os que se opõem ao diálogo ganham assustadora visibilidade, vale a pena rever e divulgar o filme, disponível no arquivo do site do festival.

Para finalizar, em função do nosso texto do dia 5 de abril, sobre as cotas na pós-graduação, achamos por bem registrar no BLOG toda noticia sobre o assunto que localizarmos. Para isso, estamos dando início à sessão //EM TEMPO//e pedimos aos nossos leitores para nos repassarem sempre que tiverem alguma nova informação sobre a adoção da medida por diferentes universidades.

//EM TEMPO// Foi aprovado no dia 24/04/2015 a resolução para estabelecimento de cotas raciais e ações afirmativas para todos os programas de pós-graduação ‘stricto sensu’ da UFG (Universidade Federal de Goiás). A minuta foi elaborada por uma comissão de docentes da UFG e apreciada e discutida na CPPG em 13/11/2014. Pelo documento, Os cursos de pós-graduação stricto sensu da Universidade Federal de Goiás adotarão ações afirmativas para a inclusão e a permanência da população negra e indígena no seu corpo discente. O processo seletivo dos Programas de Pós-Graduação será regido por edital específico, segundo os termos da Resolução Geral dos Cursos de Pós-Graduação da UFG, sendo garantida à coordenadoria, por meio do edital, a liberdade de definir critérios específicos para o ingresso dos discentes, considerando as especificidades das áreas do conhecimento e as diretrizes do órgão federal de avaliação e acompanhamento. O número de vagas oferecidas em cada processo seletivo será fixado no edital, observando-se, em qualquer caso, que pelo menos 20% (vinte por cento) das vagas serão reservadas para pretos, pardos e indígenas.

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Hebe Mattos, Francine Saillant, Martha Abreu

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Januário Garcia e Christine Douxami

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Andre Cicalo, Myrian Sepulveda, Hebe Mattos

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Na plateia, Giovana Xavier e Martha Abreu

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Mesa de debates do filme Memórias Periféricas (de Francine Saillant e Jacques D’Adesky)

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Terça, 28, tem mais…

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Cotas, Reparações e Ações Afirmativas _ um diálogo audiovisual

As Cotas na Pós-Graduação renderam discussão nos grupos de professores e historiadores em que habitualmente divulgamos o blog. É um bom começo de conversa. Fizemos um texto antes de tudo celebrativo, mas não deixamos de assinalar os principais fundamentos da proposta. Nosso argumento central é que a diversidade étnico-cultural, incluindo aí questões de gênero e de identidade racial, possui impacto positivo no ambiente acadêmico e na construção de suas agendas de pesquisa – e isso em todas as áreas do conhecimento. Não por acaso, os cursos de antropologia social saíram na frente, corolário quase necessário do esforço que a disciplina empreende já há muitas décadas para superar por completo suas origens coloniais.

Uma boa ocasião para discutirmos diversidade cultural e produção de conhecimento nos campos da história e da antropologia se configura com a aproximação da primeira jornada de discussão do V Festival Internacional do Filme de Pesquisa, com o tema Patrimônio e Memória da Escravidão Negra no Brasil, que acontecerá nos próximos dias 25 (sábado) e 28 (terça-feira) de abril no Museu de Arte do Rio. A jornada foi organizada pelo LABHOI, em conjunto com Francine Saillant, da Université Laval e apoio de Michele Johnson, da York University, do Canadá, celebrando o encerramento do projeto de pesquisa Slavery, Memory and Citizenship, que deu origem à ideia do festival itinerante.

Francine Saillant, diretora do Centro de  Pesquisa Cultura, Artes e Sociedade (CELAT) da Universidade de Laval, acaba de lançar, no Quebec, o livro Le Mouvement Noir au Brésil (2000-2010). Réparations, Droits et Citoyenneté/ O Movimento Negro no Brasil (2000-2010). Reparações, Direitos e Cidadania, sistematizando dez anos de pesquisa em estreito contato com diversos atores do Movimento Negro no Brasil. Suas reflexões sobre o tema estarão em pauta na conferência “Reparação e Reconhecimento”, na terça-feira, 28, às 11:30h. No mesmo dia, a historiadora Michele Johnson, diretora do Harriet Tubman Institute, da Universidade de York, será debatedora do conjunto de DVDs sobre cultura negra e memória da escravidão no Rio de Janeiro, que as historiadoras deste blog reuniram na Caixa Passados Presentes, e encerrará o evento com a conferência “Brasil e Caribe. Diferenças e Aproximações”, abordando a performance como fonte de resistência cultural e de produção de identidades negras, apoiada em rico material audiovisual, com tradução consecutiva.

A programação começa no sábado, dia 25, pela manhã, com a exibição do filme “Memórias do Esquecimento”, do antropólogo italiano Andre Cicalo, autor de importante livro sobre a experiência de introdução do sistema de cotas na UERJ, Urban Encounters. Affirmative Action and Black Indentities in Brazil/ Encontros na Cidade. Ação Afirmativa e Identidades Negras no Brasil (2012), prêmio de melhor livro da Sessão Brasil na LASA 2013. O filme “Memórias do Esquecimento” discute a ausência de memória da escravidão na zona portuária do Rio de Janeiro, hoje completamente revertida com a patrimonialização do Cais do Valongo, tema da pesquisa atual do diretor. A historiadora e antropóloga da UERJ, Myriam Sepulveda dos Santos, coordenadora do Museu Afrodigital Rio de Janeiro, atuará como debatedora na sessão.

Em seguida, será exibido o filme FESMAN 2010, sobre o Festival de Artes Negras em Dakar, no qual o Brasil foi convidado especial, de Christine Douxami e Philippe Degaille. Christine é antropóloga no Centro de Estudos Africanos da EHESS, em Paris, e autora de extensa pesquisa sobre o teatro negro como teatro político no Brasil. Os diretores estarão presentes para discutir o filme com a plateia. Coordenando os debates, a antropóloga italiana, radicada em Paris, Stefania Capone.

Stefania é uma das mais importantes pesquisadoras das religiões de matriz africana no novo mundo, especialmente o candomblé e outras variantes do culto aos orixás. Será debatedora na terça feira, 28, da caixa de DVDs realizados por Francine Saillant em colaboração com Mãe Torodi de Ogum, de título Resistência! Este mês, ela está lançando no Brasil, em conjunto com Leonardo Carneiro, o livro Modupé, meu amigo, primeiro livro infantil discutindo a intolerância religiosa. Além de participar das atividades do festival, no Museu de Arte do Rio, os autores farão lançamento do livro na UFF, na segunda-feira, 27, 14:30, no auditório do segundo andar do bloco O do Campus do Gragoatá.

No sábado, 25, a tarde, as historiadoras do blog terão prazer em discutir com o público presente o filme Passados Presentes. Memórias Negras no Sul Fluminense, sobre a memória do tráfico ilegal de africanos escravizados no Rio de Janeiro. Em seguida, será exibido, pela primeira vez no Festival, o filme Memórias Periféricas, de Francine Saillant com o antropólogo Jacques D’Adesky. O filme traz a público uma das últimas entrevistas de Abdias do Nascimento, conjugada a uma abordagem original do movimento negro na periferia do grande Rio e ao desenvolvimento de uma oficina de fotografia, com crianças da comunidade de terreiro de Mãe Torody, ministrada pelo grande fotógrafo e militante negro Januário Garcia.

Cliquem duas vezes na imagem abaixo para acessarem em melhor resolução o folder virtual com a programação completa do evento.

Esperamos vocês por lá.

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Cartaz_abril_junho_2015

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Jongo em três pontos e a língua nacional…

Saindo do forno:

 “História Social da Língua Nacional 2: diáspora africana”, organizado por Ivana Stolze Lima e Laura do Carmo. O livro é fruto do “II Seminário História Social da Língua Nacional”, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Apresenta questões da diáspora africana relacionadas ao processo histórico-social da língua nacional, considerando o tráfico de escravos e as redes do mundo atlântico como travessia de homens, culturas, línguas, modos de comunicação e vida social. Martha e Hebe participam com um artigo sobre a tradição oral do Quilombo do Bracuí.

“O Jongo em Três Pontos”, caixa de DVDs reunindo os últimos filmes realizados pelo Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu : “Saravá Jongueiro Novo”, “10º Encontro de Jongueiros” e “Pontão do Jongo: fazer com, em diferença”. Esses filmes narram importantes momentos da organização dos jongueiros nas ações de articulação com jovens , na própria construção da metodologia do pontão, que envolvem as ações de salvaguarda, e nas comemorações pelo recebimento do título de patrimônio cultural do Brasil, em 2005.  Lançamento na UFF nesta sexta, dia 28/11, no Campus do Gragoatá, Auditório da Pós-Grafuação da História (5º andar), Bloco O. Depois de cada filme haverá debate com os
jongueiros do sudeste, também presentes no evento! Começa às 14h e mais tarde, roda de Jongo, claro!

jongo em tres pontoslingua nacional

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Cultura Negra na Escola

No mês de novembro participamos de algumas iniciativas fora dos muros da universidade, que discutem caminhos pedagógicos e políticos sobre a história do negro no Brasil. Martha deu entrevista para o Especial “Consciência Negra” da Revista Nova Escola. Hebe participou das gravações de uma mesa redonda sobre Reparações, na TV Futura, que deverá ir ao ar no dia 20 de novembro. Voltaremos a essa discussão no próximo post.

O Especial “Consciência Negra” da Revista Nova Escola apresenta um material denso, bonito e renovador para o trabalho com a temática o ano inteiro! Logo na abertura fica a recomendação, que assinamos em baixo: o combate ao racismo e o respeito à diversidade precisam ser trabalhados o ano inteiro nas escolas!

O material on line, com a oferta de muitos links interessantes, reúne uma série de textos de especialistas e professores, orientações para o combate ao racismo, atividades já realizadas por professores, filmes, planos de aula e orientações para trabalhos com imagens, fontes orais e museus. Os temas são apresentados a partir de 6 eixos de discussão e têm a preocupação de mostrar a história do negro para muito além da escravidão e inserida nas tramas da História do Brasil: África e Brasil, Identidade Negra, História da África, A Luta no Brasil, Cultura Afro-brasileira e Recursos Pedagógicos.

O primeiro eixo, África e Brasil, com o subtítulo unidos pela história e pela cultura, dá o tom de todo o Especial, ao incorporar a posição de Mônica Lima e Sousa, coordenadora do Leáfrica (Laboratório de Estudos Africanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro): “A África está em nós, em nossa cultura, em nossa vida, independentemente de nossa origem pessoal”. A história do negro interessa a toda a sociedade brasileira.

Inspiradas em iniciativa de nossos alunos do curso de história da UFF, demos o título a este post. Vida longa ao coletivo Cultura Negra na Escola!

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