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O poder da criação

Gosto de ser professora. Meus caminhos profissionais me levaram por outras veredas também, mas a sala de aula tem sido a mais constante, aquele lugar em que encontro sentido para as coisas que estudo e pesquiso. E gosto muito de participar da formação de professores, de História principalmente, e ver como aquilo que a gente constrói, sonha e cria no campo do conhecimento é transformado em um saber próprio que o docente produz ali, naquele lugar quente e complexo de encontro com os estudantes da Educação Básica. O quente aqui não se refere às agruras do clima, mas ao calor do debate e da criação.

Evidentemente, não vivo num idealismo piegas que me faz ver só campos floridos no trabalho do professor. Sei que esses profissionais, em sua maioria, tem um dia a dia duríssimo, e são muitas vezes desrespeitados por seus alunos, colegas e empregadores. A luta é cotidiana e não sem razão muitas vezes o enfrentamento das dificuldades gera o adoecimento, o desânimo e até o abandono da profissão. Todos os dias vários talentos para o magistério são perdidos, por não se sentirem capazes de enfrentar as durezas da profissão. O que fazer quando a falta de mínimas condições, de salários dignos, de efetivo apoio de gestores faz de tantos projetos para o ensino sonhos fracassados?

Não são apenas as frases bonitas colocadas nas redes sociais e murais da escola no dia do professor que vão conseguir animar a rapaziada. Homenagear é bom, celebrar é bom, e flores e bombons nunca são demais, mas o que pode significar a decisão entre desistir e seguir, entre seguir arrastando uma opção profissional da qual se orgulha, mas que esbarra numa realidade desgastante, tem que ser mais. Tem que trazer reconhecimento, e abrir novas possibilidades aos professores – de mostrarem, inclusive, que o que fazem, em meio a todas as dificuldades, é de uma qualidade excepcional. E não por que são heróis ou sacerdotes abnegados de um trabalho missionário. Mas, por que se fortalecem na sua própria capacidade de atuar em sala de aula. Criar novos modos de se aprender e ensinar é uma forma de resistir, é contrapor-se ao rolo compressor da mediocridade. E isso acontece.

E de onde eu consigo tirar tanto otimismo nesse contexto temerário? Afinal, estamos em tempos de projetos de mordaça ao professor, de denuncismo na escola, de cerceamento ao livre exercício de pensar e questionar – sem o qual nada se aprende. O ensino de História em especial tem se tornado alvo dessa onda reacionária que pretende atingir a livre navegação do pensamento em sala de aula. Os conteúdos de questionamento e de crítica inerentes ao saber histórico escolar são alvo preferencial daqueles que jogam no campo do obscurantismo, do racismo e da intolerância.

Felizmente, tenho boas notícias. A primeira turma do Mestrado Profissional em Ensino de História que conclui agora o curso apresentou os mais diversificados e estimulantes resultados daquilo que um investimento no professor poderia trazer. Os trabalhos finais de curso defendidos frente às bancas examinadoras trouxeram consistência teórica e criatividade que funcionam como sinais inequívocos de esperança. Foram dois anos de trabalho duro, com carga de disciplinas pesada e muitos debates em sala. Propostas de trabalho articulando textos teóricos e experiências práticas nasceram do dia do curso, desafiando os professores e estudantes.

E o que tivemos como resultados? Alguns exemplos, só para dar uma ideia: a produção de desenhos animados para se trabalhar com educação para relações étnico-raciais no ensino de História no ensino fundamental; um site com sugestões de atividades com o uso de canções da música popular brasileira (sambas) no ensino de História no ensino médio; a partir da trajetória pessoal e profissional de dois artistas plásticos negros do Brasil oitocentista, surgiu uma proposta de trabalho com diversas atividades para se conhecer esses personagens e discutir a relação entre ensino de história e representatividade afro-brasileira; uma reflexão sobre a laicidade do ensino por meio de estudos de casos de escolas situadas em territórios religiosos de filiação distinta; elaboração de metodologias e estratégias para ensino de História no campo da Educação Patrimonial; produção de um documentário para servir como uma visita virtual ao sítio histórico e arqueológico do Cais do Valongo, candidato a patrimônio da humanidade; uma proposta de trabalhos com ensino de História numa comunidade quilombola no Tocantins… entre tantos outros, e há muitos mais em finalização. Esses produtos são acompanhados por uma sólida reflexão teórica, em que o propor a fazer está articulado a pensar o fazer, e um só se realiza por meio do outro.

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Alessandro Paz, Joana Darc Ribeiro e Lucas Moreira Calvo: professores do ProfHistoria festejando conclusão de seus trabalhos finais de mestrado

Quando vejo e conheço esses trabalhos sinto que estamos cerrando fileiras. Não nos rendemos, nem vamos. O poder transformador dessas criações dos professores do ProfHistória não nos deixa entregar o jogo. Como se trata de um mestrado em rede nacional, esses trabalhos vêm de diferentes partes do Brasil, ou seja, têm professoras e professores produzindo ideias e reflexões sobre o campo e criando alternativas para o ensino de História em muitos lugares nesse nosso país. E isso tudo também quer dizer que nas universidades há outros docentes também empenhados em fazer com que aconteça, orientando, estimulando, acompanhando essas histórias. E o melhor: essa foi a primeira turma, e a segunda turma está aí, chegando junto, ainda que sem as mesmas condições até agora (que venham as bolsas para todos os professores da rede pública, como ocorreu na primeira!), e vem mostrando com força a que veio.

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Ana Luiza Ribeiro Garcia realizando exposição sobre seu trabalho final de mestrado (um documentário sobre o Cais do Valongo, para uso em sala de aula) no encontro Narrativas do Rio, na Casa da Ciência da UFRJ

E fica ainda mais bonito quando a gente vê que há movimentos próximos a esses acontecendo em outras partes desse mundo, que o saber que se cria em sala de aula é percebido não só como um conhecimento a ser respeitado, como que para os estudantes que vivem essas experiências pedagógicas pensadas e elaboradas num sentido do questionamento frente à realidade, da transformação e autonomia do pensamento, a escola e o aprender vira outra coisa – muito melhor.

Na Martinica, professoras de escolas da rede pública levaram aos seus estudantes de ensino fundamental aspectos da história da escravização de africanos, considerando a presença fundamental dessas pessoas na história da ilha e das Américas. Sem deixar de passar pelo sofrimento e dor, e considerando as iniciativas e resistências e, sobretudo, a força vital de nossos antepassados, propuseram que as crianças, por meio da arte e poesia, representassem essas histórias. O resultado não poderia ser mais comovente e belo, principalmente por que foi apresentado por elas e eles, ocupando de forma afirmativa e protagonista seu lugar de criadores. No Espaço Museu Domaine de La Pagerie, nas cercanias da cidade de Fort de France, alunos das escolas de ensino fundamental Sarrault, Long Pré, Ilex Sixtain e Marius Hurrard apresentaram seus olhares sobre a história da escravidão. E como expositores, falaram sobre seus trabalhos.

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Cartaz da exposição em que estudantes do Ensino Fundamental da Martinica apresentaram seus trabalhos literários e artísticos sobre a história da escravidão africana

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Alunos do Ensino Fundamental de uma escola pública na Martinica apresentam seus olhares sobre a escravidão a partir de produção artística e literária

Conhecendo a eles e as suas professoras deu para juntar com a riqueza dos resultados dos alunos do ProfHistoria e acreditar que estamos aí, no mundo. E sabemos que ainda há muitas experiências sendo desenvolvidas no Brasil, em escolas e outros espaços educativos. Temos que nos conhecer mais.

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Manuela Yung-Hing, Diretora do Museu Domaine de la Paigerie apresenta professoras e estudantes que realizaram a exposição “Olhares sobre a escravidão”

PS (31/10/2016). Resistir à onda conservadora que se vê cada vez mais ameaçadora no Brasil, mais do que uma postura necessária, torna-se um compromisso com a liberdade e com a vida. Vamos que vamos: que os tambores soem cada vez mais fortes, seja no Brasil, na Martinica, ou em África.

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Produção artística dos estudantes de Ensino Fundamental da Martinica. Algo semelhante pode estar sendo realizado nas nossas salas de aulas hoje, por tantos professores que se atrevem a tocar em tão delicado tema. Reparem: a imagem do escravizado é marcada por palavras de revolta, de insubmissão e de negação da sujeição. 

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Notícias da Semana

No papo coletivo de hoje, as historiadoras do blog resolveram comentar alguns aspectos da semana que passou sobre os quais não vale passar batido.

Cotas na Pós-Graduação! (por Hebe Mattos e Mônica Lima)

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Nessa última semana de julho, o colegiado do Programa de Pós-Graduação em História da UFF, um dos mais antigos cursos de mestrado e doutorado em História no Brasil, aprovou o edital de Seleção para 2017 com 20% de reserva de vagas para ação afirmativa (negros, indígenas e deficientes físicos).  A decisão foi aprovada no início de julho em reunião de colegiado por ampla maioria e o edital aprovado, por unanimidade, em 27 de julho. A UFF, como universidade, começa também a discutir a questão, já regulamentada na UNIRIO e nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. O exemplo do PPGH/UFF, curso de excelência, primeiro do Brasil na área de história a obter a nota máxima (7) de avaliação da CAPES,  é um exemplo que faz diferença. Um edital histórico.

Também o núcleo da UFRJ do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História – ProfHistoria aprovou, em recente reunião de seu colegiado, a adoção de ações afirmativas de caráter racial e social para seu próximo processo seletivo. Formado por professores do Instituto de História e da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, inserido em redes local (no estado do Rio de Janeiro) e nacional de programas de pós-graduação, articuladas pelo MEC, a aprovação no núcleo da UFRJ tem um significado especial, pois a universidade é a instituição que ancora o mestrado profissional e que, em outros períodos, reunia em seus seletos grupos de pesquisadores fortes adversários das ações afirmativas.

Em tempos de golpe e retrocesso, as duas decisões têm enorme importância prática e simbólica. Nenhum direito a menos!

Cultura negra e cultura popular ocupando espaços (por Martha Abreu)

Dia 23 de julho, o debate sobre salvaguarda do jongo esquentou a festa no Museu Casa do Pontal – Arte Popular Brasileira. Toninho Caneção, do quilombo de São José da Serra,  e Dyonne Boy, do jongo da Serrinha, mostraram como é importante ocupar os espaços dos museus e das escolas para a valorização dos jongueiros e seu patrimônio. O mesmo desafio, para o caso dos sambistas, foi discutido no dia 30 de julho no Segundo Encontro de Departamentos Culturais das Escolas de Samba organizado pelo Departamento Cultural da Visa Isabel.  A melhor novidade desse último encontro foi perceber a presença de muitos jovens, sambistas e historiadores, investindo na construção das histórias de suas Escolas e buscando estratégias de registro e valorização das memórias de seus baluartes. Fazer cultura e fazer política parece ser um aprendizado consolidado.

Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha chega à nona edição (por Ana Flávia Magalhães Pinto)

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Se comunicação é poder, não interessa apenas consumir produtos. É importante e estratégico ter o domínio das tecnologias e dos meios, bem como disputar a produção das mensagens e das narrativas a respeito do que temos vivido em sociedade. Com esse entendimento, a nona edição do Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha adotou o tema “Comunicação” e ocupou diferentes espaços da capital federal, entre os dias 25 e 31 de julho, para refletir sobre experiências do passado, apresentar iniciativas em curso e articular possibilidades futuras. A intensa programação criou ainda condições para o diálogo entre um público bastante amplo, que vai das nossas bem pequenas representantes da “Geração Tombamento” às mais experientes referências do Movimento de Mulheres Negras. Começando na segunda-feira com uma saudação a Exu, orixá da comunicação, na Rodoviária de Brasília, uma encruzilhada da cidade, abriu-se um tempo para se apropriar de debates sobre democratização da mídia, imprensa negra, comunicação pública, construção de redes livres de internet e telefonia celular, canais independentes, educomunicação, além de ouvir e contar histórias, dançar, cantar, poetizar, celebrar a vida e ainda denunciar o golpe, que atenta contra o que foi possível avançar até agora. Em 2017, o Festival Latinidades chegará ao seu décimo ano! Guarde na agenda a semana do 25 de julho, pois a coisa promete!

25/07: Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana Caribenha (por Giovana Xavier)

Uma data a cada ano mais e mais apropriada pelos movimentos sociais para conferir visibilidade às lutas de mulheres negras contra as opressões de gênero, raça e sexualidades. Conectada à máxima dos feminismos negros de que “Nossos passos vêm de longe” para compreender a sua importância vale aqui lembrar o conceito de “amefricana”. Cunhado pela feminista negra Lélia Gonzales, ele alude às origens americanas e africanas como constituintes das identidades de mulheres pretas. Esta perspectiva, nomeada nos anos 1980 pela historiadora negra Beatriz Nascimento de “atlântica” guia-nos para o tempo presente. Um agora no qual destaca-se a II Marcha das Mulheres Negras. Realizada no dia 31/07/16 na Praia de Copacabana, o ato político liga-se à luta pelo direito ao “bem-viver” não apenas de mulheres, mas de todo o povo negro, cotidianamente privado de direitos básicos relacionados à educação, à saúde, ao trabalho. Assim, os trabalhos da última semana do mês de julho foram marcados por muitas atividades em torno das pautas pretas. Destaca-se aí a I Semana Carolina Maria de Jesus: mulher negra e a cultura periférica afro-brasileira, organizado pelas estudantes negras integrantes do Coletivo Carolinas da UERJ. E como uma levanta a outra, a semana que homenageia a histórica líder quilombola Tereza de Benguela, findou-se em grande estilo. Com milhares de mulheres negras de diferentes gerações e perspectivas fincando na areia da princesinha do mar as nossas histórias e reivindicações. Em meio a tantas dores e dissabores, é sempre bonito e pungente ver e fazer parte de um movimento vivo que liga o passado e o presente por meio da presença das “mais velhas” e “mais novas”. Como não podia deixar de ser, malungas como Azoilda Loretto da Trindade, Joselita Souza e Luiza Bairros foram lembradas. Vocês assim como as milhões de mulheres negras espalhadas pelo mundo são visíveis. Presente!

Só a Constituição salva (por Keila Grinberg)

Semana passada, estive na sede da CAPES, em Brasilia, para uma reunião dos coordenadores do Mestrado Profissional em Ensino de História, o ProfHistoria. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um cartaz no elevador convidando a todos os servidores e colaboradores para uma “reunião especial”, no auditório do 1o subsolo, de 12:30 a 13:30h. O convite era assinado pelo “Grupo de Oração CAPES”. Cheguei atrasada, mas não tinha com que me preocupar: na saída, no mesmo elevador (quem for a CAPES não deve usar as escadas: perde-se muito) outro cartaz convidava a todos para “prestigiar mais uma celebração de fé” no mesmo auditório, de 12:45h às 14h. Desta vez não me atrasei e a cena que presenciei foi a que as imagens mostram: uma igreja católica montada em pleno auditório.

Fiquei surpresa e incomodada com o que aconteceu. Em primeiro lugar, pela cena em si. Uma celebração religiosa em pleno Ministério da Educação. Depois, pelas reações disparatadas de alguns que leram meu post no facebook a respeito. No primeiro dia, divulgando apenas a imagem do primeiro cartaz, escrevi “pode isso?”. Era só uma pergunta retórica, mas muita gente se achou no dever de responder e explicar que sim, podia. Não pode. Para isso temos Constituição, e ela é clara: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público” (art. 19, parágrafo 1).

Que fique bem claro: não tenho nada contra religião alguma. Admiro aqueles que têm fé e encontram esperança e sustentação em alguma religião. Justamente por isso, a cena na CAPES é inaceitável. Não se trata de inibir quem quer orar. Trata-se de defender a laicidade do Estado. Só o Estado laico pode garantir plenamente o exercício da liberdade religiosa. Escrevi ao gabinete da presidência da CAPES, expressando meu desconforto e solicitando providências. Recebi a promessa de que serão averiguadas “quais providências poderão ser tomadas sobre o assunto em questão”.

Nestes tempos sombrios, não podemos desgarrar da Constituição um segundo que seja. Só ela salva.

Você já ouviu falar de orixá na escola? (por Mônica Lima)

Uma professora do ensino fundamental de Itaguaí enfrentou o preconceito e trouxe a cultura afro-brasileira para a escola, tocando no sensível tema das religiosidades. Nesse trabalho teve o apoio não só da direção da escola e da secretaria municipal de Educação de seu município como das famílias das suas alunas e alunos – muitas delas católicas ou evangélicas. Viviane Martins planejou um ano inteiro de estudo e atividades integradoras com sua turma de quinto ano. Fez cursos e se preparou para tratar essas temáticas com toda sua inteireza, com meninos e meninas da turma em que é professora na Escola Tereza de Araújo Sagário. Tendo como eixo central a cultura afro-brasileira em seus diversos aspectos (linguagem, conhecimentos de botânica, medicina natural, arte), seus alunos estudaram assuntos inseridos nas diferentes matérias do currículo e terminaram o ano celebrando essas aprendizagens com teatro e dança. Festejaram os cem anos do samba com estilo e ginga e se vestiram de orixás, dançando ao som dos tambores. Os responsáveis pelos alunos, de diferentes matrizes religiosas, aplaudiram e acompanharam o trabalho pedagógico da professora Viviane – que explica esse apoio da seguinte maneira: “Eu expliquei direitinho aos alunos do que se tratava, e eles explicaram aos pais. Quando fui conversar com as famílias, disseram que já tinham entendido, que os filhos e filhas tinham explicado tudo. ”

Uma parte do trabalho da professora Viviane Martins foi apresentado no Salão Nobre no Instituto de História da UFRJ, num evento realizado em parceria pelo Laboratório de Estudos Africanos – LEÁFRICA e o Coletivo de Estudantes Afro-religiosos – AGÔ. Contou com a presença de mães de alunos e alunas da turma da professora Viviane, da diretora da escola e da coordenadora de Educação para a Diversidade Étnico-Racial e da Secretária de Educação do município de Itaguaí. Estudantes universitários, professores da rede pública de ensino, professores universitários estiveram presentes e se encantaram com a apresentação dos alunos e com o relato da experiência. Estavam na mesa desse evento que se chamou “Racismo na escola: perspectivas de enfrentamento”, além da professora Viviane Martins, a yalorixá e antropóloga Rosiane Rodrigues e a Monica Lima – professora de História da África na UFRJ. A sala estava cheia, numa tarde de terça-feira, dia 19 de julho de 2016. Uma aula de respeito, diversidade e beleza

 

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Não dialogamos com Governo golpista, patriarcal e ilegítimo

Confira o Tumblr Historiadores Pela Democracia para ter acesso às resoluções do encontro Historiadores Pela Democracia, realizado na UNB no dia 7 de junho, e ao registro audiovisual do encontro de historiadores com a Presidenta Dilma Rousseff, no mesmo dia, no Palácio da Alvorada.

No Alvorada, encontraram-se com a Presidenta alguns dos principais historiadores brasileiros. Entre eles, especialistas em todas as áreas da disciplina, com ênfase na história do Brasil e da América Latina, na história do tempo presente e, não por acaso, na história da escravidão no Brasil e das heranças e traumas que nos foram legados por este passado. São muitos os historiadores que vão buscar a raiz da crise atual na nossa formação colonial e escravocrata, que fez da lógica do privilégio base da cultura política brasileira. Tânia Bessone, da UERJ, representou a diretoria da Associação Nacional de História e James Green, da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, também estava entre os presentes.

Dilma Rousseff abriu o encontro com uma fala em defesa da democracia de cerca de meia hora realmente memorável. O encontro no Alvorada foi ao ar ao vivo e foi registrado também pela Mídia Ninja. Durante as falas dos historiadores, foi entregue a Presidenta a serigrafia em tela “#Democracia” . Depois da cerimônia, Dilma confraternizou com todo o grupo e conversou longamente com James Green sobre o livro que ele lançará em breve, uma biografia de Herbert Daniel, pioneiro da luta LGBT no Brasil, que foi amigo pessoal da Presidenta.

Como desdobramento do encontro, convidamos todos para o Debate sobre o movimento “Escola sem Partido” e o direito à diversidade cultural,  que vai se realizar no dia 17 de Junho de 2016, às 15:30, no Auditório da Fundação Casa de Rui Barbosa, como  atividade da mobilização nacional do grupo Historiadores Pela Democracia: por um Brasil com direitos, prevista para os dias 16 e 17 de junho.

Publicamos, a seguir, a Carta de Renúncia ao Conselho Nacional de Direitos da Mulher apresentada por importantes organizações de mulheres e Conselheiras de notório saber. Elas nos representam.

Não dialogamos com Governo golpista, patriarcal e ilegítimo

Nós, representantes da Articulação de Mulheres Brasileiras/AMB, Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras/AMNB, da Marcha Mundial das Mulheres/MMM, da Rede Mulher e Mídia/RMM; da Rede Economia e Feminismo/REF e as Conselheiras de Notório Conhecimento das questões de Gênero, Maria Betânia de Melo Ávila, Matilde Ribeiro, integrantes do CNDM – Conselho Nacional dos Direitos da Mulher vimos anunciar nossa RENÚNCIA ao mandato de Conselheira, pelos motivos abaixo expressados.

Não reconhecemos o governo provisório por considera-lo ilegítimo, resultado de uma coalizão de forças políticas que chega ao poder por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, levando ao afastamento temporário da Presidenta Dilma, eleita pelo voto popular, configurando um ataque à institucionalidade democrática;

Desde que assumiu o poder, este governo interino e ilegítimo vem cumprindo um programa ultraliberal, que requenta boa parte do programa eleitoral da coalizão derrotada nas últimas eleições presidenciais, e promove, de maneira ilegítima, mudanças ministeriais que representam uma brutal desestruturação de políticas públicas voltadas para a garantia de direitos, sinalizando o aprofundamento de retrocessos nas políticas de educação, seguridade social, de promoção da igualdade racial e nas políticas públicas para as mulheres, começando pelo desmonte da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres;

O governo interino e ilegítimo colocou no primeiro escalão do poder executivo, somente ministros homens e brancos, de partidos da coalizão golpista, muitos dos quais envolvidos em esquemas de corrupção e com posições marcadamente contrárias ao avanço dos direitos humanos e do desenvolvimento do País, assim como, a ameaça ao Estado Democrático de Direito. E para completar, não só acabou com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, como transferiu para o Ministério da Justiça as atribuições da Secretaria de Políticas para as Mulheres e nomeou para a pasta uma pessoa com postura contrária aos direitos sexuais e reprodutivos, agenda historicamente defendida pelas feministas.

Soma-se a tantos descalabros deste governo golpista, a tentativa de criminalização dos movimentos sociais e a utilização do aparato repressivo do estado, para reprimir qualquer manifestação organizada, quando o intuito é o de resistir e desmascarar a farsa do impeachment sem crime de responsabilidade, praticando repressão violenta contra as manifestações populares rememorando os tempos da ditadura militar.

Não reconhecemos este Governo e, portanto, com ele não dialogaremos. Acreditamos que a participação nos conselhos de controle social tem como objetivo primordial democratizar o Estado e avançar na garantia de direitos. Em um governo instituído pelo desrespeito à Constituição e ao voto popular e, portanto, à institucionalidade democrática, não existe possibilidade de diálogo.

Não renunciaremos à luta em defesa da Democracia. Permaneceremos nas ruas contra o golpe do impeachment, defendendo a continuidade do mandato da Presidenta Dilma Roussef e com ela retornaremos após derrotarmos o golpismo, comprometidas com um programa de avanço na implementação dos direitos das mulheres.

Estaremos nas ruas, contra a direita, pelos direitos. Golpistas, não passarão! Fora Temer!

Brasília, 06 de junho de 2016.

Conselheiras:
Schuma Schumaher – Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
Josanira Rosa Santos da Luz – Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB
Lourdes Andrade Simões -*Marcha Mundial das Mulheres – MMM*
Maria Betânia de Melo Ávila – Notório Conhecimento das questões de Gênero
Matilde Ribeiro – Notório Conhecimento das questões de Gênero
Rachel Moreno – Rede Mulher e Mídia – RMM
Sarah Luiza de Souza Moreira – Rede Economia e Feminismo -REF

Também nos dias 16 e 17 de junho, o Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras (GIN-UFRJ), coordenado por Giovana Xavier, historiadora do blog, promove o I Seminário Intelectuais Negras e escritas de si, um espaço ativista acadêmico que objetiva conferir visibilidade ao protagonismo de mulheres negras na história do Brasil. A programação, comprometida com o enfrentamento ao racismo, ao machismo e à transfobia, é composta por uma mesa solene, uma para apresentação do trabalho do grupo e três rodas de saberes, estruturadas a partir de três eixos: racialização do cuidado, movimentos sociais e protagonismo acadêmico. Para maiores informações visitem a página do evento no Facebook:

Seminário Intelectuais Negras - flyer com logo  11.06.16

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Debate sobre o movimento “Escola sem Partido” e o direito à diversidade cultural
17 de Junho de 2016. 15:30 – Auditório
Fundação Casa de Rui Barbosa
Rua São Clemente, 134, Botafogo

O encontro é promovido pelo grupo Historiadores pela democracia, pela Anpuh Brasil, por professores e pesquisadores das seguintes instituições: Fundação Casa de Rui Barbosa, Casa de Oswaldo Cruz, UFRJ, UFRRJ, UFF, Unirio, PUC-Rio, UERJ, CPDOC, Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC), MAST, SBPC.

Ivana Stolze Lima (FCRB) (mediação)
Hebe Mattos (UFF)
Henrique Estrada (PUC-Rio)
Fernando Penna (UFF)
Monica Lima (UFRJ)
Ildeu de Castro Moreira (UFRJ e SBPC)
Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ)
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Fogo no Canavial! Dossiê 13 de Maio

Uma Data Para Refletir e Celebrar/ por Hebe Mattos

O blog conversa de historiadoras não poderia deixar o 13 de maio passar em branco. Desde que combinamos a atual sequência de artigos, programamos, para este domingo, um dossiê com pequenos textos de todas nós refletindo sobre a data. No contexto político atual, porém, refletir sobre este 13 de maio em que se comemora 128 anos da abolição legal da escravidão no Brasil ganhou um significado ainda mais especial.

O título do dossiê vem de um post da historiadora Wlamyra Albuquerque em sua página no facebook, que eu peço licença para citar:

7 homens brancos perfilados no poder. É 13 de maio. Uma multidão rodeava José do Patrocínio. Era 13 de maio de 1888. No ar, o cheiro de canaviais queimados no Recôncavo baiano por ex-escravos apontava o alvo, os senhores brancos poderosos. Ontem, eram só 80 mil com o brilho nos olhos e sangue rebelde nas ruas. A juventude nos lidera. Em 1888, uma multidão gritava que a abolição foi conquista negra. Patrocínio alertava: a bandeira da liberdade está sempre em risco. Hoje é o treze de maio de luta. A bandeira da liberdade segue carregada pela juventude negra, pobre, feminina, LGBT e guerreira. Se a luta é antiga, a batalha é pra hoje: treze de maio de 2016. Fogo nos canaviais!

O post de Wlamyra está compartilhado no grupo Historiadores Pela Democracia. Criado por iniciativa do blog como forma de resistência ao atentado à democracia que estamos vivendo, já conta com mais de mil participantes. Também eu registrei a importância da desobediência civil dos libertos para que o 13 de maio de 1888 acontecesse e me emocionei com uma imagem compartilhada nas redes sociais.

Desobediência civil

Arte: Moisés Patrício

Mas 13 de maio de 2016 não foi apenas um dia de resistência democrática. Foi um dia de tristeza para todos os brasileiros e, em especial, para os descendentes dos últimos libertos do Brasil, a geração dos 13 de maio. Alguns de seus netos ainda vivos, como Manoel Seabra do Quilombo São José, viram o novo governo interino e ilegítimo interromper com uma canetada a política de titulação de terras quilombolas pelo INCRA. Impossível não evocar uma outra simbologia também fortemente ligada à data da abolição, sua incompletude.

“O 13 de maio marca o fim formal da escravidão no Brasil. Processo cujo desfecho é similar ao que vivemos hoje: rebote conservador depois de maré reformista”, escreveu Ângela Alonso, em outro post.

O 13 de Maio terá sempre múltiplos significados, por isso é uma data tão rica para pensarmos o presente. Dia da maior reforma social e política do Brasil, a aprovação da chamada Lei Áurea tornou ilegal uma instituição infame que estruturou por três séculos a história da colonização portuguesa na América e a construção do primeiro estado nacional brasileiro. O dia 13 de Maio deixou de ser feriado no Brasil, mas se tornou o Dia dos Pretos Velhos nas tradições religiosas afro-brasileiras. Dia de festa, dia de luta contra o racismo, dia de reflexão, dia de celebração.

Treze de Maio também é dia de negro! / por Ana Flávia Magalhães Pinto

A Gazeta de Notícias, em 14 de maio de 1888, informava a seus leitores:

“Reuniram-se anteontem, a convite da Sociedade Cooperativa da Raça Negra, os delegados de diversas corporações de descendentes da mesma raça, a fim de deliberarem sobre os meios de agradecer àqueles que trabalharam para o acontecimento glorioso que, para honra de nossa pátria, completou-se sem a menor perturbação na ordem pública, e resolveram nomear uma comissão executiva dos festejos, que apresentará o programa destes, sendo um deles um Te-Deum na igreja da venerável irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito”.

Efetivamente, para além do que aconteceu no interior do Paço Imperial, não foram poucas as pessoas que se encheram de expectativa sobre o futuro nos dias que antecederam e sucederam o 13 de maio de 1888. Mais do que isso, na contramão de várias versões construídas ao longo do tempo, não foram poucas as mulheres e homens negros que estavam nas ruas ou que foram nelas lembrados como responsáveis pela chegada ao momento da assinatura da lei que extinguia formalmente a escravidão no Brasil. Entre lembrados e esquecidos atualmente, sobressaíam-se Luiz Gama, Ferreira de Menezes e José do Patrocínio, por exemplo.

Abolicionistas

Arte: Vitor Epifãnio, 2015.

Aspecto central da minha pesquisa de doutorado, o interesse por essa presença negra nas lutas abolicionistas, entretanto, me foi despertado por uma espécie de afirmação da ausência sugerida em falas de pessoas um pouco mais velhas como forte justificativa para a defesa do 20 de Novembro, visto como uma data mais legítima para simbolizar as lutas contra o racismo e a discriminação racial no país. A denúncia da “falsa abolição” – bastante documentada pelo Acervo Cultne − levava muita gente do final do século XX a dissociar aquele ato do governo imperial da ação política negra. Entre os vários registros em que esse discurso aparece, a contar do fim dos anos 1970, destacaria ainda as músicas produzidas por compositores e grupos afros. Martha Rosa Queiroz, na tese em que problematiza a dicotomia entre cultura e política no fazer das organizações negras pernambucanas entre 1979 e 1995, cita uma série de exemplos, entre os quais “Dia de Negro”, música de Zumbi Bahia, para o Bloco Quilombo Axé:

“Irmãos e irmãs assumam sua raça assumam sua cor/ Essa beleza negra Olorum quem criou/ Vem pro Quilombo Axé dançar em nagô/ Todos unidos num só pensamento/ Levando à origem desse carnaval/ Desse bloco colossal/ Pra denunciar o racismo/ Contra o apartheid brasileiro/ 13 de Maio não é dia de negro/ 13 de Maio não é dia de negro/ Quilombo axé, colofé, colofé, colofé, Olorum”.

Em face desse aparente choque de temporalidades, penso que fazer o papel de juiz/a das razões e estratégias adotadas por ativistas negros/as − que naquele momento intentavam promover o desmonte do mito da democracia racial e, ao mesmo tempo, reposicionar o lugar de africanos e seus descendentes na história nacional − não figura como a melhor opção para quem está interessado/a na compreensão das experiências negras numa perspectiva histórica. Sobretudo neste momento em que julgamentos ilegítimos de natureza comum conduzem o país mais uma vez a cenários trágicos.

Afinal, pelo menos ainda é consenso entre historiadores/as que a abolição, seguida de uma série de manobras que inviabilizaram um debate sério sobre a formulação de políticas de apoio ao trabalhador nacional, mantém-se como um tema que desperta interesse justamente por estar repleta de conflitos. Por outro lado, como sabiamente me disse Luiza Bairros, referência do movimento negro e de mulheres negras, numa dessas conversas que impulsionam uma vida inteira: Nós não tínhamos elementos para fazer uma outra leitura do 13 de Maio. A recuperação dessa outra história está nas mãos de vocês que estão chegando às universidades em maior quantidade e num outro cenário – tal como me recordo.

Por isso, neste 13 de Maio de 2016, marcado pela entrega da demarcação das terras dos remanescentes das comunidades quilombolas nas mãos do deputado José Mendonça Bezerra Filho (DEM-PE), agora ministro da Educação e Cultura; e pelo início do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN), na UFRJ, eu preferi alimentar minha aposta de que, em se tratando de história do Brasil, não dá para abrir mão de toda e qualquer experiência de resistência empreendida pelos vários segmentos populacionais subalternizados no Brasil. Sendo assim, não dá para deixar o dia passar em branco, sem dizer que “Treze de Maio também é dia de negro”! E para embalar essa celebração da memória de luta, nada melhor do que os versos de Seu Wilson Moreira e Nei Lopes, em seu “Jongueiro Cumba“: “O dia tanto treze quanto vinte / Avia que o negócio é o seguinte: / Um é feriado novo / O outro é de todo esse povo / Vamos os dois festejar”.

É uma questão política, como insiste o orador/ Por keila Grinberg

“A questão não é de sentimentalidade, é uma questão política, insiste o orador. Com finanças já arruinadas, com uma dívida publica que vai crescendo a passos agigantados, com as fontes de produção ameaçadas, é preciso que os representantes da Nação sejam mais cautelosos. Abra-se o relatório do Ministério da Fazenda, vejam-se os balanços do Tesouro, coteje-se a renda arrecadada nas alfândegas, visto que os nossos tributos consistem quase que exclusivamente em direitos de exportação e direitos de importação. Encontram-se aí lições eloqüentes.”

 O orador em questão é o deputado Andrade Figueira. O discurso foi proferido em 9 de maio de 1888. A cautela que ele recomendava? A iminente e imediata abolição da escravidão, grande problema para os lavradores de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Melhor ter cautela, argumentava ele, já que dois terços das rendas públicas destas províncias, as mais produtivas do país, eram baseadas no trabalho escravo. “Quer-se agora extinguir tudo isso: já pensou no resultado que este acontecimento acarretará para as rendas públicas?” Andrade Figueira votou contra a aprovação da lei que extinguia a escravidão. Defendia a indenização aos proprietários de escravos. E queria ainda que o governo os ajudasse, criando uma linha de crédito para se adaptarem aos novos tempos do pagamento de salários, não fazendo sofrer, assim, “a produção nacional e as rendas públicas em sua marcha ascendente. Mas querer destruir sem edificar é expor a pátria a um grande perigo!”, alertava Figueira. “É expor o crédito público, que está comprometido por somas importantes nas praças estrangeiras e por contratos solenes com companhias estrangeiras, a azares perigosos.”

Qualquer semelhança entre o nobre deputado e aqueles que hoje defendem retrocessos nas conquistas sociais em nome do equilíbrio nas contas públicas e da defesa dos interesses privados não é mera coincidência. Mas veio o 13 de Maio e a História reservou lugar de honra a Figueira: o esquecimento. Que o destino reservado a seus tataranetos políticos seja o mesmo. Afinal, dentre os membros da Câmara dos Deputados daquele célebre maio de 1888, de quem você já ouviu falar? Andrade Figueira ou Joaquim Nabuco?

Sexta-feira 13 (DE MAIO)/ por Giovana Xavier

São conhecidas as disputas pela memória oficial da abolição da escravatura no tempo presente, disputas estas simbolizadas pela contraposição entre o 13 de Maio, data de assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, e o 20 de Novembro de 1695, dia em que Zumbi, líder do quilombo dos Palmares foi morto lutando pela liberdade sua e dos palmarinos. Tal guerra de narrativas entre o 20 e o 13 iniciou-se em debates travados no âmbito do recém criado Movimento Negro Unificado no fim dos anos 1970, conforme pontuou Ana Flavia Magalhães Pinto em seu post. Particularmente, acho que o 13 de Maio é um dia que também deve ser reconhecido como parte das nossas lutas, afinal de contas a abolição foi feita à base de muita “raça” e ativismo de pessoas negras que recusaram até o fim a condição de escravizadas. Além disso, a despeito de todos os limites e imprecisões que a ideia de liberdade carrega em seu bojo, o 13 representa um marco. Daquela data em diante, as categorias senhor e escravo deixaram de existir do ponto de vista jurídico, embora na prática ainda hoje sejam reatualizadas através de processos de racialziação que naturalizam hierarquias socialmente construídas entre negros e brancos não somente no Brasil, mas em todas as sociedades pós-escravistas. Em meio a esta guerra de narrativas, foi muito significativo ter participado da mesa solene “Fortalecer para Permanecer: Uma permanência estudantil para muito além de moradia e alimentação” do I Encontro de Estudantes e Coletivos Negros Universitários, sediado na UFRJ, justamente no dia 13 de Maio de 2016. Falar com mais de 1.500 jovens negros, com tonalidades de pele, texturas de cabelos, sexualidades, gêneros e classes plurais, leva-nos a pensar que estas juventudes negras têm nos ensinado – na prática – a lutar por sentidos de liberdade que deem conta das nossas experiências como pretxs.

EECUN- geral

Fonte: Página do EECUN no Facebook

Autônomo e organizado sob os princípios da auto-gestão, o EECUN possui uma estrutura que abarca dezenas de coletivos universitários negros espalhados por todo o Brasil, dentre eles, o respeitado Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus (UFRJ), conhecido por suas articulações entre academia e movimentos sociais como o Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto e também, não menos importante, pelo diálogo horizontal com o Sindicato das Trabalhadoras Terceirizadas da UFRJ, com que as e os integrantes do coletivo como Caroline Amanda Lopes Borges, Nayara Silva e Denilson Souza mantêm estreita relação, fazendo aflorar não apenas sentidos de ativismo que articulam classe, raça, gênero e geração, mas também distinguindo-se das estruturas clássicas dos movimentos estudantis (DCE e Centros Acadêmicos), com pouco espaço para diálogos com as classes trabalhadoras. Na sexta-feira 13 do EECUN, viajei para longe, lembrando-me da Missa da Abolição narrada por ninguém menos que Lima Barreto:

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.

Foto da Missa Campal

Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”. Antonio Luiz Ferreira, 1888”.

Enquanto pensava na narrativa de Lima Barreto, olhava para aquela plateia repleta de estudantes negros, ciosos por darem continuidade à escrita de suas próprias histórias. Saltou-me aos olhos uma delas, com seu casaco preto escrito em letras garrafais brancas “Mães de Maio”, uma referência ao movimento de mulheres que perderam seus filhos em razão da violência policial e da naturalização do genocídio da população negra em São Paulo. Como não pensar nos dizeres no agasalho em conjunto com a frase ostentada na legenda a uma das imperdíveis fotos do encontro?

13 de maio, dia nacional de luta contra o racismo.
Que esse 13 de maio seja lembrado como o dia de luta do EECUN – Encontros Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros.
Um dos grandes passos pra uma verdadeira abolição.

Agora mais do que nunca, precisamos ouvir e aprender com as Mães de Maio quando elas dizem “escrevemos na guerra”. Em tempo: Feliz 13 de Maio!

Mães de MaioFoto: Carta das Mães de Maio da Democracia Brasileira a Presidente Dilma Vana Roussef (à esq. a Presidenta Dilma Rousseff, à dir. Debora Silva Maria)

O 13 de maio e os olhos do mundo/ por Mônica Lima

De um lado e outro do Atlântico se celebrou a assinatura da lei de 13 de maio de 1888. A abolição da escravidão no Brasil foi festejada naquele ano durante vários dias na cidade de Lagos, na atual Nigéria, na África Ocidental. Solenidades com discursos de importantes personalidades, cerimônias religiosas e um grande baile marcaram o início das comemorações oficiais, seguidas por diversas celebrações com queima de fogos, uma sessão teatral, apresentações musicais, um desfile de carnaval e um baile à fantasia. Nas ruas, praças e igrejas de Lagos a população se reuniu para cantar e dançar a abolição da escravidão no Brasil. Diversos jornais locais como o Lagos Observer destacaram e saudaram a lei por meio de artigos e editoriais. Destacaram a importância do fim da escravidão para as populações da África, para a paz e boas relações com o nosso país. Essas e outras histórias que remetem ao significado da lei são narradas, a partir de pesquisa em periódicos lagosianos, na excelente tese de doutorado sobre a comunidade de brasileiros em Lagos recentemente defendida na USP pela historiadora Angela Fileno da Silva.

Não foram somente os africanos a saudar a abolição da escravidão no nosso país. Outros jornais de diferentes partes do mundo, especialmente na Inglaterra, noticiaram a medida e a celebraram, reconhecendo como um marco para um outro Brasil no cenário mundial. Hoje, cento e vinte e oito anos depois, são outros os destaques da imprensa internacional sobre o Brasil. Aparecemos como um país em que um grupo de políticos corruptos fez aprovar sem nenhuma base consistente, num visível e ardiloso golpe, o processo de impeachment contra uma presidenta eleita com 54 milhões de votos e que promovera políticas públicas progressistas e dirigidas à população mais carente – que, no nosso país é sobretudo negra.

A lei de 13 de maio de 1888 resultou da ação do movimento social abolicionista e da luta de escravizados e de libertos que, com atitudes e argumentos, pressionaram e criaram diversas situações de rebeldia, em ações coletivas e individuais. Fugas, formação de quilombos, rebeliões e campanhas públicas fizeram da abolição uma causa de muitos e um desejo da maioria. Juntamente à campanha internacional abolicionista, tornaram insustentável a continuidade do cativeiro no Brasil. As narrativas das experiências de africanos escravizados que conseguiram a liberdade, quando divulgada nos meios da época, causava comoção e contribuía para aprofundar o forte apelo da onda abolicionista.

 https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/c8/Biography_of_Mahommah_G._Baquaqua.jpg/220px-Biography_of_Mahommah_G._Baquaqua.jpgBiografia de Baquaqua, africano liberto que quando escravizado foi trazido ao Brasil

Hoje também estamos frente a sérias ameaças aos processos de reconhecimento dos direitos dos quilombolas, herdeiros diretos dessa história de luta pela liberdade. Uma das primeiras medidas do governo Temer alterou os trâmites para o reconhecimento dos direitos de propriedade aos territórios de quilombo – que incluem, em sua acepção mais completa, comunidades quilombolas urbanas como o Quilombo da Pedra do Sal, na zona portuária do Rio de Janeiro. Trata-se de direitos reconhecidos pela Constituição de 1988 –  ano do centenário do 13 de maio. Segundo avaliação de historiadores comprometidos com a causa quilombola, há perigo de um retrocesso.

Nesses tempos de ameaça às conquistas negras e populares devemos aprender com os quilombolas que a obtenção da real liberdade resulta de uma luta permanente, e ao mesmo tempo celebrar as conquistas de forma a não esquecer que vale a pena continuar lutando. #VaiTerLuta

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Festas de 13 de maio/ por Martha Abreu

Não sei bem os motivos, mas sempre achei que as festas tinham algo muito especial,  difícil de explicar  quando se é criança. Talvez porque as festas fossem lugares onde todos estavam alegres – ou pareciam alegres (pois  eram inevitáveis conflitos); locais de encontro, música e riso. Na minha família e na minha escola, as festas exigiam nossa presença, com o que tínhamos de melhor e de mais bonito. E ainda planejávamos o futuro: as festas do ano que vem sempre seriam melhores! Eu chegava a perceber também que as festas davam o maior trabalho…e não era pequeno o esforço de organizar as comidas, bebidas, musicas, danças e, talvez o mais difícil, a escolha dos convidados. Quem iria? Quem seria barrado? As festas exigiam certa arte política e muitas costuras entre as várias identidades. Quem entrava e quem ficava de fora…

Minha formação, e provavelmente, a de todos nós passou pelas festas. Nos tornamos cariocas, baianos, gaúchos, brasileiros,  sambistas, pagodeiros  ou jongueiros ali, vivendo os aniversários, casamentos, carnavais, viradas de ano, festas juninas, festas de santo …tantas festas. Dizia minha saudosa amiga Ana Lugão que, brincando o carnaval, cumpríamos nosso dever cívico de tornar nossas filhas brasileiras e cariocas.

Quando cresci, algo aconteceu e minhas memórias das festas começaram a não combinar com o que eu lia. Aprendi na faculdade de História, lendo importantes teóricos, que as festas eram válvulas de escape da realidade, ou lugares para a celebração de tradições conservadoras, em geral católicas. A religião também alienava.

Ainda bem que os tempos mudaram, junto com a historiografia e com os movimentos políticos (será vice-versa?).  Os movimentos pela redemocratização, a partir do final dos anos 1970,  iriam reconciliar minhas memórias infantis com as novas vivências das festas. A esquerda começou a levar mais a sério as festas, incorporando a alegria e a musica em seus comícios. Não foi mesmo por acaso que escrevi o Império do Divino, festas e cultura popular no Rio de Janeiro, no século XIX, nos primeiros anos da década de 1990. Muita coisa tinha mudado.  As festas não eram mais lugar para esquecer e fugir, mas para lembrar, lembrar de pessoas, de histórias  e de conquistas; lugar de renovar os encontros e as esperanças.  Tornei-me historiadora das festas.

Foi com enorme emoção que, pela primeira vez, assisti as festas  do 13 de maio do quilombo de São José da Serra, em 2003 ou 2004, a partir de convite de Hebe Mattos.  Ali estavam, e sempre estiveram, todas as possibilidades culturais, políticas e sociais das festas. O jongo marcava a identidade negra e as memórias de um cativeiro, que  não podia ser esquecido; a fogueira unia todos, velhos e jovens,  com os antepassados; os pretos velhos, abençoavam  os participantes  e renovavam as energias; as festas teciam solidariedades internas e externas na luta por um futuro melhor, a partir da identidade quilombola,  do direito à terra e das ações de reparação.  A feijoada trazia alegria ao corpo e à alma. Ali, passado, presente e futuro se encontravam.

Em 2005, o IPHAN considerou  o jongo  Patrimônio Cultural do Brasil a partir de uma demanda de São Jose da Serra e do Jongo da Serrinha, com o apoio de todos os grupos jongueiros do velho sudeste escravista.  Cultura e  Festa tornavam-se oficialmente patrimônio e direito,  bandeira de luta política para muitas conquistas.

Em pouco tempo, muitas outras festas trilharam esse caminho,  que já tinha sido aberto com samba de roda baiano. Tornaram-se Patrimônio Cultural Brasileiro maracatus,  cocos,  bois,  matrizes do samba carioca etc.

Em tempos tão difíceis que se avistam agora, só posso  esperar  vida longa para as festas!!!  Festas que mantenham as esperanças; festas que celebrem memórias de conquistas e direitos! Festas que, como as festas do 13 de maio de São José,  não podem ser esquecidas.

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Celebrando #PassadosPresentes

Em 2 de junhos de 2014, fizemos o nosso primeiro post com a hashtag Passados Presentes. Com o título “Uma Aula de História Pública” contávamos uma visita de Martha com uma turma da UFF ao Quilombo do Bracuí e dávamos a notícia:

“A partir deste mês de junho, iniciamos no LABHOI/UFF, em associação como o NUMEM, da UNIRIO, coordenado por Keila Grinberg, e apoio do Edital Petrobras Cultural, um projeto de história pública sobre o tema, com o título Passados Presentes: Patrimônio Imaterial e Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos no Rio de Janeiro.”

Quase dois anos depois, celebramos ontem, 2 de abril de 2016, a disponibilização de todo o conteúdo previsto para o projeto no aplicativo Passados Presentes, com 4 roteiros de memória. No evento, foi lançado um novo circuito.

Mais de 500 pessoas, segundo o Museu de Arte do Rio (MAR), percorreram em diversos grupos os caminhos da antiga Pequena África no Centro do Rio.  Não deixe de conferir a reportagem da TV Brasil sobre  evento e a versão atualizada do teaser do roteiro,  ambos com imagens inéditas da histórica caminhada.

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No lançamento, nas dependências do MAR, ficamos emocionadas com a primeira exibição do curta de Guilherme Hoffmann, Criando Passados Presentes, de 23 minutos, sobre o “making of” do projeto, em parceria com o Grupo de Jongo de Pinheiral e os quilombos do Bracuí e de São José da Serra. Um pequeno e emocionante histórico de dois anos do mais gratificante trabalho.

Através de Maria de Fátima Silveira Santos (Fatinha), Antônio Nascimento Fernandes (Toninho) e Marilda de Souza, agradecemos mais uma vez a todos que fizeram do sonho realidade.

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COORDENAÇÃO GERAL E TEXTOS

Hebe Mattos – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF)

Martha Abreu – historiadora, Universidade Federal Fluminense. Organizadora, com Hebe Mattos e Milton Guran, do Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Negreiro e da História dos Africanos escravizados no Brasil da UNESCO – www.labhoi.uff.br/node/1507

Keila Grinberg – historiadora, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Núcleo de Documentação, História e Memória (NUMEM/UNIRIO)

CONSULTORIA DE PESQUISA

Matthias Assunção – Matthias Röhrig Assunção – historiador na Universidade de Essex, Reino Unido, e pesquisador associado ao LABHOI/UFF

Elaine Monteiro _ Educadora, Universidade Federal Fluminense e Coordenadora do Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu www.pontaojongo.uff.br

COORDENAÇÃO DE PESQUISA

Daniela Yabeta _ Historiadora, pos-doutoranda no LABHOI/UFF (CNPq/FAPERJ)

ASSISTENCIA DE PESQUISA

Lívia Monteiro _ Historiadora, doutoranda no PPGH/UFF.

APOIO TÉCNICO

Alexandre Abrantes e Clarissa Mainardi (LABHOI/UFF)

BOLSISTAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA (APOIO FAPERJ/CNPq):

Eline Cypriano; Daniely Sant’Anna; Lissa Passos; Raquel Terto; Thamyris Morais; Vanessa Gonçalves.

ASSESORIA E CONSULTORIA DE PESQUISA NAS COMUNIDADES

Jongo de Pinheiral:
Maria de Fátima da Silveira Santos, Maria Amélia da Silveira Santos e Maria das Graças da Silveira Santos.

Quilombo de São José da Serra:
Antônio do Nascimento Fernandes, Almir Gonçalves Fernandes, Gilmara da Silva Roberto e Luciene Estevão Nascimento.

Quilombo do Bracuí:
Marilda de Souza Francisco, Angélica Souza Pinheiro e Luciana Adriano da Silva.

Quilombo da Pedra do Sal:
Damião Braga.

Instituto dos Pretos Novos:
Marced Guimarães e Claudio Honorato.

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO E ARTE DO MEMORIAL: André De Castro

DESIGNER SÊNIOR E ILUSTRAÇÃO: Julia Haiad

DESIGNERS: João Roma e Victor Lifsitch

CENOTÉCNICO: André Salles

EQUIPE LOCAL DE MONTAGEM: Walmir de Souza Francisco; Antônio de Pádua Estevão; Jorge dos Passos Estevão e Carlos Roberto Roberto.

CRIAÇÃO AUDIO-VISUAL: Guilherme Hoffmann

TECNOLOGIA – SITE E APLICATIVO: Digitok

REVISÃO DOS TEXTOS: Simone Intrator e Renata Saavedra

GERENCIAMENTO DE REDES SOCIAIS: Renata Saavedra

VERSÃO EM INGLÊS: Kristin McGuire

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Somma Comunicações

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Isabel Pacheco

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Cria Produções

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PASSADOS PRESENTES – Circuito PEQUENA ÁFRICA

Passados Presentes – Memória da Escravidão no Brasil chega à cidade do Rio de Janeiro. O circuito Pequena África, na região portuária da cidade, completa os roteiros de memória que contam a história da última geração de escravizados africanos no Rio de Janeiro, em um aplicativo de celular.

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19 pontos principais estão assinalados no mapa. Em três deles, com o leitor de código QR do aplicativo pode-se ouvir a voz de lideranças comunitárias e historiadores nos falando sobre a importância histórica da região. Outros 42 pontos, 7 dos quais sobre as atuais rodas de rua da capoeira da cidade, completam o roteiro, e podem ser acessados na função Perto de Mim.

Um filme de Guilherme Hoffmann sobre o desenvolvimento do projeto será exibido no próximo sábado, durante o lançamento do novo circuito,  dia 2 de abril, às 10 horas, no Museu de Arte do Rio. Em seguida, faremos parte do percurso em visita guiada.

Os locais que o visitante terá a oportunidade de conhecer são uma parte da cidade do Rio de Janeiro denominada de Pequena África pelo artista e sambista Heitor dos Prazeres no início do século 20. Divulgada em livros, letras de música e enredos de escolas de samba, a expressão passou a identificar parte significativa da zona portuária da cidade, onde a presença africana e o patrimônio cultural negro marcaram para sempre a história não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil.

Entre o final do século 18 e a primeira metade do século 19, a região foi marcada pelas  atividades de comércio e recepção dos africanos escravizados. Hoje as ruínas do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos rememoram a passagem  de mais de um milhão de africanos pela Pequena Africa, uma história de dor e sofrimento que não pode ser esquecida.

Na virada do século 19 para o 20, a vida cultural da Pequena África e da própria cidade foi renovada, com a chegada de migrantes negros, vindos especialmente  da Bahia e de antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, e de imigrantes portugueses, italianos e judeus.

A Pequena África passou a ser o centro de criação da cultura negra carioca e da organização de novas formas de mobilização política. Em torno de sindicatos, capoeiras, casas de santo, gestaram-se greves, revoltas urbanas e novos gêneros musicais. Naquele contexto, o samba emergiu como um gênero específico, e ganhou visibilidade em todo o país; também foram fundadas associações negras, sociais e dançantes, com seus cordões e ranchos, que ligaram a Pequena África ao que de mais moderno estava sendo produzido em termos musicais e artísticos no período.

O circuito Pequena África foi desenvolvido por nós (Hebe/Martha) e Keila Grinberg (co-autora deste texto), em parceria com o Quilombo da Pedra do Sal e o Instituto dos Pretos Novos. Semana passada, fizemos parte do circuito com Damião Braga, liderança do Quilombo, Claudio Honorato, historiador do IPN, Ruben Zonenschein, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do app, e a jornalista Flávia Oliveira.

Como turismo comunitário e de memória, o projeto conta com apoio do Museu de Arte do Rio. O folder do projeto será distribuído gratuitamente na entrada do Museu, ponto zero do roteiro.

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Eu quero passar com a minha dor

Recentemente, tivemos a boa notícia de que a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade foi aceita pela UNESCO. Para receber o título e ser incluída na lista, ainda falta a avaliação do sítio arqueológico pelos técnicos especializados e o parecer final do Comitê; mas, um passo importante foi dado nessa direção. Caso se tenha um resultado positivo, esse será o primeiro local a ser reconhecido como patrimônio da humanidade no Brasil tendo como núcleo central da sua justificativa a história da escravização de africanos e da população negra. Outros sítios que fazem parte da lista de patrimônio mundial no nosso país guardam profundas relações com essa história, como por exemplo o conjunto arquitetônico do Pelourinho em Salvador e a cidade histórica de Ouro Preto, mas ela não aparece com destaque nas suas apresentações. O Cais do Valongo tem a candidatura defendida a partir de seu reconhecimento como lugar de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados e da resistência cultural e política da população negra a uma longa história de violência e exclusão. Situado no Rio de Janeiro, o cais é o testemunho material do local de desembarque do maior número de africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Em nenhuma outra parte do mundo chegaram tantos cativos trazidos da África.

Não são apenas as pedras pisadas no local de desembarque de tanta gente trazida à força do lado de lá do oceano, durante o mais longo processo de migração forçada da história da humanidade. É o Cais do Valongo e seu entorno. Estamos falando também do cemitério dos pretos novos, do quilombo da Pedra do Sal, das esquinas e ruas por onde circularam João Alabá e Prata Preta, da fundação do Ile Ase Opo Afonja no Rio de Janeiro, do sindicato dos trabalhadores portuários, e de tantos outros personagens, movimentos e fatos históricos que fazem da região parte fundamental da Pequena África na cidade – como nomeou Heitor dos Prazeres. E aos vestígios e construções se agrega a tradição viva – tal como a chamava o grande historiador africano Amadou Hampaté-Bâ – que dá sentido e mantém acesa a chama que arde nas rodas de samba e de capoeira, nos tambores e afoxés.

No entanto, aqui nesse texto eu venho trazer a dor e a violência como parte dessa história. E não se trata simplesmente de uma dor diluída numa história de um passado remoto, num tempo em que submeter o outro a uma situação de desumanização era natural. Quero recordar a dor que existia apesar do fato das pessoas de outra época acreditarem ter o direito de escravizar alguém. E lembrar, da parte dos que sofreram, o medo, a incompreensão e o espanto frente a uma realidade que mais parecia um pesadelo. Esse conjunto de sensações aos quais me reporto também definem, junto com a força da criação de tantas coisas belas, a atmosfera do Valongo. Tudo isso faz desse lugar onde tanto se celebra – com toda a razão – a presença africana e negra na cidade do Rio de Janeiro e no país, um sítio de memória sensível. Um lugar em que durantes anos desaguava um mar de gente depois de uma travessia em que não morrer poderia ser esperar sobreviver dolorosamente.

Mas, por que lembrar de tantas coisas ruins frente a uma notícia que é tão boa; afinal, podemos celebrar as heranças africanas com (re)conhecimento do mundo de que somos o país mais negro fora da África, e que mais do que isso, fazermos dessa história monumento e marco de nossa identidade?

Quero escrever sobre a dor e a violência por que é importante lembrar que o tráfico atlântico de africanos escravizados é um crime contra humanidade e o Brasil ainda não o reconheceu oficialmente como tal. Num crime, há vítimas. Nem de longe estou me referindo a sujeitos-objetos, transformados em mercadorias e submetidos sem reação. Não é essa qualidade de vítima. Estou dizendo dos que sofreram, e nos legaram essa memória. O ser vítima não significa perder a capacidade de agir, e mesmo de transformar.  Devo lembrar que assim como toda a beleza e poder da criação, a dor é parte da herança deixada por nossos antepassados africanos. Essa dor que atravessa a memória sensível dos descendentes faz do trauma da escravidão um processo cultural de base na formação de identidades no pós-abolição. Sem nenhum exagero, e com todo o drama, não há como encarar o Cais do Valongo e permitir que essa dimensão da história se dissolva no tempo. Até porque, como a tradição oral africana, ela está viva, e esbarramos com ela nas nossas ruas e quebradas hoje. O trauma coletivo não foi superado, ainda que em alguns casos se consiga aprender de alguma forma a lidar com ele.

Hoje o Cais do Valongo e a região que o cerca se tornaram roteiros frequentes de aulas de campo de muitos professores da Educação Básica, sobretudo os de História. Cursos de formação de professores que incluem a educação patrimonial entre seus temas fazem da visita à região portuária do Rio de Janeiro uma etapa necessária. Oficinas e roteiros guiados conduzem educadores, profissionais do turismo e interessados de diferentes origens a conhecer os logradouros de referência na área. Além de estudantes e educadores, turistas e moradores da cidade descobrem a região motivados por uma valorização da mesma pelas obras de reforma urbana e a presença de museus.

Acompanho algumas experiências no campo do ensino de História que transitam nos caminhos do Valongo, e me interessa entender como lidam com a história da dor e da violência. Como se pode fazer estratégias de aprendizagem a partir do contato com esses aspectos da experiência dos nossos antepassados contribuindo para desnaturalizar a violência da escravidão, pensada sob o ponto de vista de quem a sofria? Fico procurando perceber como os professores encontram meios de articular o conhecimento sobre as diferentes maneiras de se celebrar a vida, de se tecer solidariedades, de afirmar-se em suas práticas religiosas e artísticas, à enorme carga de sofrimento físico e psíquico daquelas pessoa e as suas marcas na história de seus descendentes.

Aprendo com os professores e estudantes e percebo que as dimensões não se opõem, se completam, e se tornam mais compreensíveis quando vistas em conjunto. O samba na Pedra do Sal se mostra por inteiro quando se situa historicamente a perseguição aos terreiros, a luta dos trabalhadores portuários e a dureza da repressão. A emoção sentida ao visitar o lugar onde os corpos dos africanos recém-chegados eram deixados à flor da terra , humaniza o conhecimento que se adquire. E permite ver com outros olhos a luta quilombola hoje.

Tudo isso, se não explica o que acontece em nossos dias, sem dúvida ajuda a exercitar a sensibilidade. E é fundamental não a perder de vista. Estamos num tempo em que as estatísticas de mortalidade de jovens negros e de violência contra mulheres, e em especial mulheres negras, soam como lugar-comum. O racismo segue vivo e presente, rasgando a pele da nossa realidade. Aproximar-nos dessas histórias como numa visita a um lugar de memória talvez nos lembre de nossa dimensão humana. Como na maioria dos processos traumáticos, o silêncio é cúmplice, e rompê-lo é um caminho para não deixar que o medo nos paralise.

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A Pequena África, coração da cidade negra do Rio de Janeiro no século XIX e início do século XX, onde se insere o Cais do Valongo, tornou-se cenário para um roteiro em forma de aplicativo que será lançado no próximo dia 2 de abril, dentro do projeto Passados Presentes 

Mais sobre o Cais do Valongo nesse blog:

https://conversadehistoriadoras.com/complexo-do-valongo/

https://conversadehistoriadoras.com/2014/05/25/memoria-e-cidadania-no-complexo-do-valongo/

https://conversadehistoriadoras.com/placa-quilombo-pedra-do-sal/

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A cegueira da TV Globo

Na terça feira gorda de carnaval, pela manhã, terminei de assistir ao desfile da Imperatriz e da Mangueira e continuei com a mesma sensação desagradável da véspera.  A cobertura da TV Globo havia se superado em termos de mediocridade – e desde domingo.  Entrei no facebook e encontrei alguns textos de historiadores que ajudavam a pensar. Paulo Cavalcante foi categórico: “A cobertura da Globo é um atentado contra a cultura brasileira”. Era isso mesmo. Rapidamente coloquei minha raiva no papel e postei no face um texto, denunciando a cegueira da TV Globo.

Não tenho muitos elementos para entender por que os desfiles desse ano foram tão especiais, mas foram.  Vi muita coisa maravilhosa acontecendo nas escolas. Lá estavam ícones religiosos e musicais da cultura afro-brasileira, como os Exus e as pombas giras, divindades africanas, maracatus, sambas de roda, folias de reis e do divino; as inovações de jovens negros diretores da bateria e da harmonia, muitos deles filhos e netos dos fundadores, alas e passistas com lindas coreografias, contando, com muita beleza e orgulho, a história da população negra e brasileira. Até mesmo o Marquês de Sapucaí ficou amigo da Ciata, e logo na Beija Flor! Quem diria!  Aliás, o samba da Beija Flor é imbatível.

Lamentavelmente, a cobertura da Globo não conseguiu ver nada disso, o que revela um impressionante descaso com a cultura popular e com a história da população negra no Rio de Janeiro.  Nenhum comentário  relacionado às comunidades, seus problemas (como UPPs e  intolerância religiosa), suas vitórias, seus  fundadores, lideranças, sambistas, alas e histórias.  As escolas de samba, nas transmissões da TV Globo, não parecem pertencer ao Rio de Janeiro.

E logo nesse ano que estamos comemorando os 100 anos do samba no Rio de Janeiro, ao menos o que foi registrado por Donga e gravado em 1916 pela Odeon. A Globo não tem a mínima ideia das várias iniciativas que estão sendo feitas pelas próprias escolas de samba para registrarem suas memórias, como na Vila Isabel e no Salgueiro, e construírem um acervo que valorize seus projetos educacionais e culturais. A Mangueira reúne hoje o maior centro de documentação sobre o samba, o Centro Cultural Cartola,  e  o Museu do Samba. Vale a visita.

Vida longa às escolas samba!  Elas são uma das mais antigas instituições brasileiras e fazem parte de um dos nossos maiores patrimônios culturais, reconhecidos, pelo IPHAN, em 2007, no Livro de Registro das Formas de Expressão, em nome das matrizes do samba carioca: samba de partido alto, samba enredo e samba de terreiro. Para se saber mais sobre a história desse patrimônio, é fácil o acesso ao dossiê que embasou o reconhecimento oficial.

Apesar da raiva e tristeza, não dá para desanimar. Hoje conhecemos muito mais do que a Globo consegue visualizar.  Jovens pesquisadores de diferentes áreas desenvolvem importantes trabalhos sobre a história das escolas de samba.  Se ainda precisam encontrar maior campo de atuação e visibilidade, a universidade já tem feito muito por isso.  De uma forma complementar, professores de história, como Eric Brasil, também começam a entender que o carnaval não termina na quarta feira de cinzas, com a programação da Globo.  Em seu post no facebook,  recomenda o trabalho em sala com o enredo do Salgueiro, a Opera do Malandro, pois cabe muito bem como recurso à implementação da lei 10639/03. É uma ótima estratégia de combate à intolerância em relação às religiões afro-brasileiras nas escolas.

No dia que publiquei o texto no face, registrei minhas saudades dos tempos em que  Haroldo Costa e  Leci Brandão conseguiam imprimir outros sentidos aos  lamentáveis  comentários da Globo. Hoje posso anunciar com alegria que a TV Brasil cobriu os desfiles das campeãs, com comentários super qualificados, liderados por Nilcemar Nogueira  (neta de D. Zica e Cartola, coordenadora do Centro Cultural Cartola e doutora em Psicologia Social pela UERJ) e Luiz Antonio Simas  (professor de história e autor de vários trabalhos sobre a história do samba).  Além disso, acompanhamos  entrevistas de qualidade com sambistas  e o emocionante momento do “esquenta das escolas”. Novos tempos… espero!

Obs: A TV Globo não televisionou o desfile das campeãs. Inacreditável!

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Feliz Ano Novo

O Conversa de Historiadoras completa seu segundo ano no ar. Inauguramos o blog, em 15 de março de 2014, com um texto que chamamos de O Novo Caso do Bracuí. Hebe estava então como professora visitante em Nova York. Martha, no Rio, tinha acompanhado de perto o carnaval da Império Serrano, com enredo sobre Angra dos Reis, baseado em nosso filme Jongos, Calangos e Folias. O Quilombo do Bracuí tinha destaque no enredo, belamente defendido pela escola de samba da Serrinha, mas os quilombolas não puderam estar na avenida. Para completar sua decepção, as chuvas daquele fevereiro fizeram cair o teto da sede da associação quilombola. A situação de fragilidade social do grupo nos afligia e queríamos que o Projeto Passados Presentes, aprovado no edital de patrimônio imaterial da Petrobras do ano anterior e que tinha no Quilombo do Bracuí um de seus proponentes, se tornasse uma ferramenta para modificar isso. Nosso primeiro artigo e o próprio blog surgiram da vontade de construir um veiculo para divulgar o trabalho que então se iniciava.

Local de memória dos últimos desembarques ilegais de africanos no Rio de Janeiro, a história do quilombo do Bracuí e sua poderosa tradição oral são a matéria prima da exposição memorial inaugurada em 14 de novembro deste ano de 2015 na casa da quilombola Marilda de Souza. Ponto 1 do circuito de memória Passados Presentes no Rio de Janeiro, o Projeto reflete e divulga a experiência da última geração de africanos, sequestrados em África ainda meninos e trazidos para portos clandestinos da costa do Sudeste, como a antiga fazenda do Bracuí.

Enquanto montávamos a exposição no Bracuí, o terreno de Marilda foi invadido e três das placas do circuito de memória sinalizado foram arrancadas e destruídas. Ainda que a festa de inauguração tenha sido um grande sucesso e as visitas tenham se avolumado desde então, a fragilidade social dos quilombolas do Bracuí continuava a nos afligir, quase dois anos depois de iniciados o Blog e o Projeto.

Mas o ano de 2015 termina com uma ótima notícia para os quilombolas. Dia 23 de dezembro, foi finalmente publicado, no Diário Oficial da União, o edital que trata da regularização fundiária do território do Bracuí. A comunidade esperava desde o final dos anos 1990 por esse dia. Quase um presente de Natal. Claro que o caminho para a titulação definitiva ainda é longo, mas 2016 se anuncia com alguma esperança.

No Brasil e no mundo, 2015 foi um ano desafiador, ainda assim o Blog tem muito a agradecer e a comemorar. Em 30 de abril de 2015, o Quilombo de São José da Serra, segundo ponto do circuito de memória do projeto Passados Presentes, depois de 20 anos de luta, recebeu oficialmente a posse integral de seu território! Formado pelos descendentes de dois casais de africanos que moraram na antiga fazenda cafeeira que se metamorfoseou em quilombo abolicionista, a memória do jongo e de suas raízes na África Central estão na base do memorial erguido no Quilombo e no circuito de visitação desenvolvido pelos quilombolas.

Também em 2015, o Quilombo São José e o Jongo de Pinheiral, grupo que encabeçou o projeto Passados Presentes para o edital Petrobras Cultural, foram ganhadores do Prêmio de Cultura Afro-Fluminense. A cerimônia de premiação aconteceu no dia 19 de dezembro, na Casa do Jongo, em Madureira.

O memorial Passados Presentes erguido na cidade de Pinheiral celebra as migrações negras do século 20, que fizeram do jongo patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Ele foi inaugurado juntamente com o Parque das Ruinas da Fazenda de São José do Pinheiro, no último 26 de julho, dia estadual do Jongo. A parceria que surgiu daí, entre o Grupo de Jongo de Pinheiral, a Prefeitura da Cidade e o projeto Passados Presentes, tornou Pinheiral, oficialmente, Cidade do Jongo.

Fechamos o ano com a sensação de dever cumprido e isto é sempre muito bom. E ainda conseguimos guardar uma surpresa para março de 2016, quando iremos inaugurar o circuito dos lugares de memória em torno da Capoeira e da Pequena Africa no centro da cidade do Rio de Janeiro.

O Blog entra em recesso até fevereiro de 2016, quando voltaremos ampliando ainda mais nossas conversas sobre história, gênero, escravidão atlântica e políticas de memória.

Bom Ano Bom Para Tod@s!

Baixe o aplicativo Passados Presentes!

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Passados Presentes na Semana da Consciência Negra

A festa de inauguração da terceira exposição do projeto Passados Presentes aconteceu no último domingo, 14 de novembro, no Quilombo do Bracuí. A celebração foi memorável. Reuniu mais de 400 pessoas, organizada com brilho pela comunidade quilombola, que luta há mais de cem anos pelo território coletivo ocupado por seu antepassados, desde antes de o receberem oficialmente, em 1878, em doação no testamento de José de Souza Breves, que ali desenvolvia atividades negreiras na primeira metade do século 19.

As fazendas negreiras se desenvolveram no litoral das principais áreas escravistas do Império do Brasil, sobretudo depois da primeira proibição formal do comércio negreiro no então jovem país independente, em 1831. Elas substituíram as antigas áreas oficiais voltadas para este tipo de atividade, como o complexo do Valongo, no Rio de Janeiro.

Clique na figura abaixo para ouvir a narrativa dos griôs do Quilombo do Bracuí, sobre o funcionamento da antiga fazenda.

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Os griôs do Quilombo do Bracuí são guardiões da memória dos horrores cometidos contra os recém chegados e da sua recuperação para serem enviados serra acima, para as áreas cafeicultoras do Vale do Paraíba,

A tradição oral guardou até mesmo o naufrágio criminoso em águas próximas à fazenda, do Brigue negreiro Camargo, perseguido pela marinha brasileira após a segunda lei de extinção do tráfico atlântico, em 1850.

Confira a narrativa de Manoel Moraes, clicando na imagem abaixo.

Captura de Tela 2015-11-20 às 19.38.53

O naufrágio deixou documentos históricos na auditoria da marinha e no ministério da justiça brasileiros. O memorial do Quilombo do Bracuí homenageia os africanos sobreviventes resgatados pelas autoridades. Na imagem abaixo, vemos a griô quilombola Marilda de Souza contar esta história para estudantes que participaram da festa de inauguração.

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São, porém, os jovens do quilombo que transformam a tradição oral em bandeira de luta por novos e melhores tempos, simbolizados na imagem da Santa Rita Black, do artista Lee27.

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A Exposição Memorial do Quilombo do Bracuí conta a história de como funcionavam as antigas fazendas negreiras do litoral sul fluminense e de como elas se tornaram improdutivas após o fim do tráfico atlântico de escravos para o Brasil. De fato, os trabalhadores africanos ali residentes eram testemunhas de um crime contra as leis do Brasil, que apenas após 1850 passou a ser efetivamente reprimido pelas autoridades imperiais. O proprietário da antiga fazenda do Bracuí, José de Souza Breves, os deixou com o usofruto das terras após o encerramento das atividades negreiras. Em seu testamento, eles foram depois alforriados e transformados em herdeiros do território ocupado. A tradição oral de seus descendentes, no século 21, tornou-se testemunho, não de um crime contra as leis do Império do Brasil, mas de um crime contra a humanidade.

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A roda expositiva conta também a história da luta da comunidade pela terra coletiva ao longo do século 20. Na década de 1970, a construção da Rio Santos lhes tirou, não sem luta, toda a terra que ocupavam da estrada até o mar. Ainda hoje, o território comunitário continua ameaçado apesar da certificação da Fundação Palmares como comunidade quilombola. Três da placas do projeto Passados Presentes foram arrancadas poucas horas após terem sido colocadas. Tais locais de memória continuam sinalizados no roteiro do aplicativo e, felizmente, encontram-se fora da área que vem sendo negociada com o INCRA para demarcação definitiva. Esperamos que isso aconteça o mais rápido possível. Enquanto não acontece, a sinalização do projeto Passados Presentes atualiza a memória do território histórico ocupado pela comunidade e a fortalece para a futura titulação de acordo com a Constituição de 1988.

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O racismo é o mais terrível legado da sociedade escravista para a experiência nacional brasileira. Nessa semana da consciência negra, o conversa de historiadoras vem mais uma vez celebrar a riqueza e a especificidade do legado cultural da última geração de africanos no Rio de Janeiro. Trazidos à força ao país a menos de 150 anos, seus descendentes hoje compõem a maior parte das comunidades remanescentes de quilombo e dos grupos detentores do patrimônio cultural brasileiro de matriz africana oficialmente reconhecido.

“O Gente presta atenção na história que eu vou contar//Deitei minha cabeça na cabeceira do rio mas o pé está lá no mar” (Ponto de jongo sobre a extensão das terras do Quilombo do Bracuí – Marilda de Souza)

Assista o teaser atualizado do projeto Passados Presentes.

 

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