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A “Velha Corrupção” (carta aberta aos jovens sobre as eleições)

Amigos, a uma semana do segundo turno da eleição presidencial, nosso post não poderia ser outro do que a carta aberta do nosso grande amigo Sidney Chalhoub, que já vem circulando na internet. Assim ela fica incorporada à biblioteca do BLOG. Chalhoub estará na UFF nos dias 27 e 28 de outubro, para participar do seminário “Escravidão e Cultura Afro-Brasileira: Temas e Problemas em torno da obra de Robert Slenes”.  No seminário, Robert Slenes, pioneiro na criacão do campo da história social da escravidão no Brasil,  será homenageado por seus muitos ex-orientandos e alunos.  Ele começou sua carreira na UFF, onde foi orientador de mestrado de Chalhoub e também de Martha.  Um evento absolutamentre imperdível.

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A “Velha Corrupção” (carta aberta aos jovens sobre as eleições)

Sidney Chalhoub – historiador, professor da Unicamp

A violência do debate eleitoral no momento causa perplexidade aos jovens de idade semelhante aos que tenho em casa, que talvez acompanhem pela primeira vez, “ligados” de verdade, uma campanha eleitoral dessa importância para o país. Especialmente em São Paulo, a grande imprensa produziu um verdadeiro clima de guerra civil midiática em torno desta eleição, desinforma o quanto pode, confunde e manipula. São anos a fio de fogo cerrado contra o governo, em matérias jornalísticas cujos autores assumem o ar arrogante de ilibados defensores da ética e do interesse público.

A insistência no tema da corrupção, como se o atual governo tivesse inventado semelhante mostrengo, é uma combinação ácida de ignorância e hipocrisia. Vamos primeiramente à ignorância histórica, na qual a grande imprensa chafurda com grande desenvoltura. A corrupção está, por assim dizer, no código genético do Estado brasileiro. Nas primeiras décadas após a Independência, período de formação do Estado nacional, a fonte principal da corrupção foi o tráfico ilegal de africanos escravizados. Ao negociar o reconhecimento de nossa Independência no exterior, o Brasil contou com o apoio da Inglaterra em troca do compromisso de não continuar a capturar e escravizar africanos por meio do tráfico negreiro. Em respeito aos acordos internacionais firmados pelo país, o parlamento brasileiro aprovou uma lei de proibição do tráfico africano em 7 de novembro de 1831. Todavia, os africanos continuaram a chegar. Entre 1831 e o início da década de 1850, quando o tráfico realmente acabou por força da aplicação de uma nova lei, 750 mil africanos foram introduzidos no Brasil por contrabando e escravizados à revelia das leis do país.

O tráfico negreiro ilegal coincidiu com o desenvolvimento da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista. Em meados do século XIX, era comum que cerca de 80% dos trabalhadores das fazendas de café dessa região fossem africanos ilegalmente escravizados. Para dizer as coisas com clareza: a riqueza dos barões do café e a prosperidade das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo foram construídas por meio da escravização em massa de africanos sequestrados em seu continente de origem e trazidos para o Brasil ilegalmente. O negócio contou com a prática de corrupção em todas as escalas do governo do país e envolveu amplos setores da sociedade, desde os empresários envolvidos no tráfico, outros empenhados em manter a clandestinidade das operações, até os intermediários e fazendeiros que adquiriam os escravizados.

Basta de informação, oferecida aqui apenas para contrabalançar a ignorância histórica de boa parte da mídia nativa. Em especial quanto aos jornalões do Estado de São Paulo, eles deviam enrubescer de vergonha cada vez que insinuassem a virtude própria para enfatizar a corrupção alheia. Um deles, àquela época chamado A Província de São Paulo, foi fiel defensor dos proprietários de gente criminosamente escravizada. Quanto a este assunto, desde a sua fundação, em 1875, foi conivente com a Velha Corrupção. Sim, “Velha Corrupção”, para marcar bem o tamanho histórico do problema que os jornalões cismam de atribuir ao atual governo, apenas no intuito de desinformar e tentar influir no resultado das eleições.

Portanto, chega de hipocrisia, de usar dois pesos e duas medidas. No país independente, a corrupção surgiu junto com o Estado em formação, nele se incrustou e é uma tragédia que aí continue. Assim como continua a grassar na sociedade, como parece óbvio, presente às vezes nas falas dos próprios sujeitos que, ao mesmo tempo, vociferam contra os corruptos no Estado e se dedicam com afinco a viciar concorrências públicas, a bolar estratégias para sonegar impostos diversos, até para ingressar nos aeroportos do país com muambas variadas e outras baixezas do gênero.

Chega de hipocrisia. Onde estava a disposição de investigação da grande mídia quando o governo do PSDB, segundo se dizia, comprava os votos de parlamentares para aprovar a lei que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso? O chamado “mensalão do PSDB mineiro”, origem do outro do qual tanto se falou, por onde anda? As denúncias de irregularidades nas privatizações tucanas de empresas públicas –algumas vendidas a preço de banana- mereceram a devoção investigativa da grande imprensa? Trens? Metrô? Tudo anda assim tão dentro dos conformes em São Paulo, a nossa Tucanolândia?

A corrupção é tema complexo e difícil. Não há governante, no Brasil, que dê cabo disso numa penada. Muita coisa se pode e deve fazer para livrar o país da Velha Corrupção. Para começar, o governo precisa ter disposição para enfrentar o problema e tem de garantir a eficácia e a independência dos órgãos encarregados de investigar, processar e punir os responsáveis. O governo Dilma foi exemplar nesses quesitos. Por conseguinte, a hipocrisia de caluniá-lo por isto é especialmente danosa à democracia e ao atual processo eleitoral.

ESTÁ AUTORIZADA A REPRODUÇÃO EM BLOGS E SITES DE NOTÍCIA

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A discussão sobre a História Pública se consolida no Brasil

Este blog é parte de uma discussão que tem crescido entre os historiadores, sobre a ampliação dos campos e espaços públicos de atuação do historiador profissional. Pedimos à nossa colega Juniele Rabêlo de Almeida, uma das organizadoras do “2º Simpósio Internacional de História Pública” , ocorrido na UFF entre 10 e 12 de setembro, para fazer aqui um balanço do evento. Com ela, a palavra: 

“Esta é a avaliação a que se chega após o “2º Simpósio Internacional de História Pública”. O evento, realizado pela Rede Brasileira de História Pública (RBHP) e pelo Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF), aconteceu na Universidade Federal Fluminense (UFF) entre os dias 10 e 12 de setembro. O Simpósio contou com cerca de 500 participantes considerando todas as modalidades de participação (conferências, mesas redondas com debatedores convidados, oficinas, apresentações orais em Grupos de Trabalhos, sessões de comunicação de Experiências em História Pública e lançamentos de livros).

O tema aglutinador escolhido “Perspectivas da História Pública no Brasil” propiciou o cruzamento de fronteiras entre diversas áreas de conhecimento e atuação, acadêmicas e não acadêmicas. Tal intercâmbio, empreendido entre pesquisadores e profissionais de várias áreas, contribuiu para o fortalecimento da sistemática de realizações bienais de simpósios de História Pública. O encontro teve um perfil nitidamente interinstitucional, interdisciplinar e transnacional.

Profissionais e estudantes de múltiplas áreas, como historiadores, comunicólogos, cientistas sociais, professores, blogueiros estabeleceram os debates sobre o tema do simpósio. A historiadora Linda Shopes (Columbia University e Goucher College/EUA), responsável pela concorrida palestra de abertura, destacou o “parentesco radical” entre a história oral e história pública.

Após a abertura, duas mesas redondas ocorreram diariamente, versando sobre a relação entre História Pública e: mídias, tempo presente, comunidades e culturas populares, plataformas digitais, narrativas públicas. Mais de uma centena de comunicações foi inscrita nos 15 Grupos de Trabalho (Educação, Culturas Populares, Comunidades, História Oral, Biografia, Literatura, Cinema, Documentário, Artes, Fotografia, Rádio, Plataformas Digitais, Patrimônio, Jornalismo, Turismo e Produção cultural e Ciências da Saúde), reunindo profissionais de variadas formações e regiões com o intuito de discutir o modo de operação dessa prática de produção e divulgação do conhecimento histórico. Oficinas que abordaram temas da história e as mídias, o cinema, o videogame, a oralidade, completaram a programação.

A julgar pelos debates desenvolvidos pelos participantes, o evento cumpriu seu objetivo principal. Se o primeiro simpósio (USP, 2011) objetivava sensibilizar e mobilizar profissionais que se identificassem com a prática da História Pública, este segundo simpósio propôs refletir sobre o que se compreende ser a História Pública e avaliar as perspectivas de sua prática no Brasil. De fato, sobressaiu no momento inicial o entendimento da História Pública como a ampliação dos públicos para o conhecimento histórico, que se utiliza de outros meios para ser divulgado além da produção acadêmica; como revistas, televisão, cinema etc. Contudo, outro aspecto a ser destacado a partir dos debates do evento diz respeito à produção compartilhada do conhecimento histórico e as transformações sociais decorrentes (em especial, políticas públicas). A prática em História Pública considera passível de reflexão histórica trabalhos realizados por não-historiadores, como a atuação profissional de diversas áreas que abordam temas da história. Não se trata de hierarquizar os saberes/produções, mas reconhecer que um trabalho dialógico feito com responsabilidade no tratamento das fontes e na construção da narrativa histórica permite a problematização da história. Por essa perspectiva, valoriza-se o diálogo entre múltiplas áreas do conhecimento para a produção do saber histórico, reiterando-se a observação de Jill Liddington de que mais importante do que definir o que é a história pública, é compreender como se faz.

Refletir sobre a produção e a circulação do conhecimento histórico é um exercício antigo, especialmente entre historiadores. Mas, sua pertinência continua atual, sobretudo diante das novas tecnologias que tem modificado o tratamento das fontes de pesquisa, desde o seu arquivamento ao seu acesso, a própria pesquisa e, naturalmente, às formas de compartilhar o saber produzido. A Rede Brasileira de História Pública tem proposto olhares para essa reflexão, num esforço que tem encontrado interlocutores dispostos a qualificar e avançar nos debates. Sendo assim, foi estabelecido na Assembleia da RBPH os novos caminhos. O próximo Simpósio Internacional de História Pública ocorrerá em 2016 e será sediado na região nordeste, cuja coordenação inicial está a cargo da Universidade Federal do Ceará. Enquanto isso, ao longo de 2015, eventos pontuais nas cidades onde a RBHP está representada serão realizados para sensibilizar a comunidade acadêmica e os profissionais que trabalham com a História.”

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 Legenda das fotos:

Cartaz/ Abertura do simpósio internacional “Perspectivas da História Pública no Brasil”, composta por Ana Mauad, Juniele Rabêlo de Almeida, Ricardo Santhiago, Anita Lucchesi e Serge Noiret/Martha Abreu, Paulo Fontes, Lia Calabre, Hebe Mattos e Marta Rovai compuseram a mesa redonda História Pública, Comunidades e Culturas Populares/ Linda Shopes profere palestra de abertura, mediada por Ana Mauad/ Mesa de encerramento do Simpósio, composta por Benito Shimidt, Marieta Ferreira, Juniele Rabêlo de Almeida, Renata Schittino e Ricardo Santhiago

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O Samba Carioca e o legado da última geração de africanos escravizados do sudeste

Para os muito interessados na história social do samba no Rio de Janeiro, disponibilizamos hoje neste post e na biblioteca do Blog, novo texto de Martha Abreu, de título:

O samba carioca e o legado da última geração de africanos escravizados do sudeste.

Trata-se de um texto de 3 páginas, escrito como parte da exposição itinerante Para não perder a memória, D. Zica 100 anos do Centro Cultural Cartola – Museu do Samba Carioca.

A exposição sobre a importância do samba e da liderança das mulheres, especialmente D. Zica, na sua história, irá percorrer 8 escolas públicas em torno da Mangueira,   atingindo mais de 5 mil alunos. O catálago da exposição, que, em breve, divulgaremos, conta com textos de especialistas, imagens de mulheres poderosas, módulos da exposição e com atividades pedagógicas sobre o patrimônio cultural do samba.

O Centro Cultural Cartola, além da organização de eventos e exposições itinerantes, como a de D. Zica, reúne hoje o maior acervo sobre a história do samba carioca, com documentos textuais, livros, fotografias, indumentária, periódicos, monografias e depoimentos. Sob a coordenação de Nilcemar Nogueira, neta de Dona Zica,  o Centro Cultural Cartola foi responsável pela realização do dossiê que conferiu às Matrizes do samba do Rio de Janeiro, partido alto, samba de terreiro e samba enredo, o título de patrimônio cultural do Brasil .

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Uma coreógrafa brasileira no atlântico negro – homenagem à Mercedes Baptista

A morte de Mercedes Baptista (1921 – 2014), na semana passada, motivou nossa conversa de fim de semana. Pouco conhecida nos meios acadêmicos da História, fomos atrás de mais informações sobre aquela que é considerada a primeira mulher negra do corpo de baile do Municipal e uma das fundadoras do balé afro-brasileiro. O melhor resultado da busca foi encontrar o belíssimo livro do pesquisador e professor de Arte e Dança Paulo Melgaço da Silva Jr.

Com um levantamento de entrevistas, jornais e fotografias maravilhosas, Paulo nos apresenta uma Mercedes fascinante e ainda pouco conhecida. Migrante de Campos com sua mãe, começou a vida artística pelas mãos da bailarina Eros Volúsia, do Serviço Nacional do Teatro no Rio de Janeiro, em meados da década de 1940. Eros, na década de 1930, era uma bailarina preocupada em formar um balé brasileiro a partir de temas indígenas, sertanejos, negros e populares.

No final dos anos 40, Baptista conseguiu passar no difícil concurso do Municipal e passou a se engajar num dos mais importantes movimentos negros de então, o Teatro Experimental do Negro, dirigido por Abdias do Nascimento. A partir daí e principalmente depois de ter recebido uma bolsa para estudar balé em Nova York com Katherine Dunham (1909 – 2006) – considerada a fundadora da moderna dança afro-americana, com quem parece ter mantido contato por muito tempo- sua projeção no meio artístico, como dançarina e coreógrafa, consolidou-se. Sempre em articulação com a militância e a arte negra atlântica, inclusive internacionalmente.

Visitando o Brasil em 1950, Katherine Dunham foi recusada em um importante hotel em São Paulo, com grande repercussão, o que parece ter tido influência na aprovação da Lei Afonso Arinos, em 1951. É importante destacar que Duham também tinha formação em antropologia e etnografia e chegou a estudar a dança negra no Caribe em estreito diálogo, nos anos 40, com Melville Herskovits, reconhecido por suas pesquisas sobre a diáspora africana nas Américas. A descoberta da África nos Estados Unidos e nas Américas deve ter, sem dúvida, marcado a trajetória de Mercedes Baptista e a perfomance de sua companhia de Balé, chamada também de Ballet Folclórico. Suas coreografias sobre danças de escravos, sambas, macumbas e candomblés tornaram-se sempre presentes em sua carreira.

Além de ter atuado em companhias de balé, Baptista fez trabalhos para teatro, escolas de samba, televisão e cinema. Entre eles, destacamos a comemoração do Centenário da Abolição da Escravidão, em 1988. Nos dias 12 e 13 de maio, a coreógrafa foi a responsável pela parte dançante da Missa dos Quilombos, espetáculo concebido por João das Neves nos Arcos da Lapa e Paço Imperial. Também a participação de Mercedes Baptista em famosas coreografias do Salgueiro pode ser acompanhada com mais aprofundamento na tese de Doutorado de Guilherme José Motta Faria “Os Acadêmicos do Salgueiro e as representações do negro nos desfiles das Escolas de Samba” (UFF/2014).

Pelo que apresentamos, dá vontade de saber muito mais sobre a produção artística e a trajetória de Mercedes Baptista… Elas merecem muitos outros olhares e investimentos de pesquisa…

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O batismo de Izidora, filha de Joana Angola

Igrejas e irmandades é uma das temáticas que organiza o Inventário  dos lugares de memória do tráfico de africanos escravizados no Brasil (LABHOI/UFF-UNESCO).

A presença dos africanos trazidos ao Brasil pelo tráfico atlântico de escravos também pode ser identificada na prática da religião católica. Africanos de diversas procedências converteram-se, fundaram irmandades, participaram de festas e construíram igrejas em devoção aos santos católicos negros, como Santo Elesbão, Santa Efigênia, São Benedito e Santo António do Categeró, mas, especialmente, à Nossa Senhora do Rosário. Por todo território, ao longo do período colonial e de todo o século XIX, o catolicismo tornou-se também africano. Para além do patrimônio arquitetônico, as inúmeras igrejas pertencentes a irmandades de “Homens Pretos”, como eram oficialmente chamadas, representam hoje marcos visíveis dos africanos no conjunto da população católica. O Inventário traz verbetes sobre irmandades de Pernambuco, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Para além das irmandades negras, grande parte da informação que temos sobre a presença de africanos escravizados e seus descendentes no Brasil encontra-se em arquivos eclesiásticos do período colonial e monárquico. Para saber mais sobre que informações são essas, convidamos o leitor a clicar na imagem abaixo, e tomar conhecimento do batismo de Izidora, filha de Joana Angola, em 1790, em mais um dos vídeos (1:21) do site Identidades do Rio.

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O roteiro Escravidão e Igreja Católica, organizado por Mariza de Carvalho Soares, Larissa Viana, Denise Vieira Demétrio e Jorge Victor de Araújo Souza, traz ainda informações sobre as irmandades de homens pretos do Rio de Janeiro e a transcrição integral de 7 “compromissos”, textos que fundavam e organizavam as irmandades negras. Estão online os compromissos das irmandades de Santo Elesbão e Santa Efigênia (1740), Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (1759), Nossa Senhora da Lampadosa (1767), Congregação dos Pretos minas Maki (1786), Nossa Senhora dos Remédios (1788), Santo Antônio da Mouraria (1812) e Santo Elesbão e Santa Efigênia (1910). Documentos raros e preciosos, acessíveis para pesquisadores e interessados no tema. Para o público mais amplo, o filme Devotos da Cor, de Mariza Soares, pode também ser acessado na íntegra. #ficaadica

 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Rio de Janeiro, Nave Central.

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Músicos Negros na História

A história da música brasileira e da presença de afrodescendentes em ambientes letrados, como as óperas e os teatros de revista, entre o final do século XIX e início do XX, vem sendo revisitada e reescrita por músicos e historiadores. Localizamos recentemente um site super interessante, o Acervo Digital Henrique Alves Mesquita (1830-1906), organizado por Alexandre Dias, que disponibiliza obras, discografia, imagens, letras e bibliografia sobre o personagem.

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Músico erudito, negro, com formação patrocinada pelo Imperador em Paris, Mesquita foi professor do Conservatório Imperial de Música.

Mas fez mesmo muito sucesso nos espetáculos teatrais de mágica e revista, das últimas décadas do século XIX, onde incorporava gêneros populares urbanos, como a polca, o lundu, o tango e o maxixe. O historiador da música Antônio Augusto desenvolve importante pesquisa sobre ele. Entre outros, o artigo “Da pérola mais luminosa à poeria do esquecimento”. sobre a trajetória do músico, está disponível no site.

Muito antes do chamado modernismo, músicos eruditos, do século XIX, já ouviam os sons das ruas e da música negra. Até mesmo jongos e batuques fizeram parte do repertório de Alves Mesquita e certamente atraíam grande público aos teatros em épocas de discussão sobre a abolição, como mostrou a pesquisadora Silvia Cristina Martins de Souza. Henrique Alves Mesquita foi professor de Chiquinha Gonzaga. Ambos são apontados como marcos da música urbana carioca e da formação do choro no Rio de Janeiro.

Sobre a história da formação do choro como gênero musical no Rio de Janeiro, vale a pena consultar o site Identidades do Rio, plataforma digital de divulgação científica, organizada por um pool de pesquisadores de diversas instituições de pesquisa do Rio, sob coordenação da UFF, com apoio da FAPERJ. O site disponibiliza informações e atividades sobre diversos temas da história política, social e cultural do Rio de Janeiro, voltadas para pesquisadores, professores, estudantes, agentes culturais e lideranças comunitárias. Nessa plataforma, Luiza Mara Martins, posdoutoranda no LABHOI/UFF, organizou a cronologia do choro no Rio de Janeiro.  Na forma de uma linha do tempo que se inicia em 1845 e termina em 2011 estão reunidos textos, imagens e vídeos.

“Atraente”, a primeira música de Chiquinha Gonzaga publicada, foi criada na casa de Henrique Alves Mesquita, em 1877. O encontro está registrado na Cronologia do Choro, em um pequeno vídeo de 1:03 que vale conferir antes de continuar a leitura. É só clicar na imagem.

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É importante esclarecer, porém, que a estruturação do choro como gênero musical na cidade só aconteceu nas primeiras décadas do século XX, com destacada atuação de Pixinguinha. Fechamos o post com mais um vídeo da cronologia de Luiza Mara, sobre o sucesso do conjunto Os Oito Batutas, dirigido por Pixinguinha, nas décadas de 1910 e 1920 (1:53). Com a participação de músicos negros, o conjunto viajou por todo o Brasil, gravou na Argentina e se apresentou em Paris.  Convidamos os nossos leitores a ver o vídeo, basta clicar na imagem abaixo.

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Há muito mais para ver, ler o ouvir na Cronologia do Choro e muito outros roteiros no site. Confiram!

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Escravidão, Pós-Abolição e a Política da Memória

Alguns trechos da resenha do antropólogo Luis Nicolau Parés para a Caixa de DVDs Passados Presentes (AfroAsia 49).

No campo da historiografia do negro no Brasil, a transição da escravidão para a emancipação e o período pós-Abolição talvez sejam das áreas que mais vitalidade adquiriram na última década. Uma expressão dessa tendência é a coletânea Passados presentes, uma série de quatro documentários sobre as trajetórias, memórias e práticas culturais dos descendentes dos escravizados na região da antiga província do Rio de Janeiro. Os quatro filmes, intitulados Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-Abolição (2005), Jongos, calangos e folias: música negra, memória e poesia (2007), Versos e Cacetes: o jogo do pau na cultura afro-fluminense (2009) e Passados presentes: memória negra no sul fluminense (2011), foram produzidos pelo Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI/UFF), sob a direção geral das historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu.

Lançada em 2012, a coletânea reúne trabalhos produzidos ao longo de mais de seis anos, a partir do acervo audiovisual do LABHOI, que hoje conta com cerca de 300 horas de gravações. O primeiro filme, Memórias do cativeiro, utiliza, entre outros, registros de entrevistas com descendentes de escravos africanos gravadas em São Paulo, em 1987, e no Rio de Janeiro e Espírito Santo nos anos de 1994 e 1995. Porém, o conteúdo substancial da série está baseado em registros videográficos mais recentes, produzidos, na sua maioria, na primeira década deste século, no estado do Rio de Janeiro, e constitutivos do Acervo UFF Petrobrás Cultural – Memória e Música Negra, principal base documental da série.

Para além [do] foco na política da memória, consoante com o espírito do LABHOI, a coletânea é inovadora na sua tentativa de desenvolver formas de narrativa historiográfica a partir de uma escrita audiovisual.

Como os quatro documentários têm por base o mesmo acervo documental, várias personagens aparecem de forma reiterada, conferindo ao conjunto uma relativa unidade. Por exemplo, o entranhável senhor Manoel Seabra, nascido em 1919, liderança da comunidade da antiga Fazenda São José da Serra, no município de Valença, no Vale do Paraíba — hoje Quilombo de São José — aparece, no primeiro filme, rememorando seus ancestrais africanos, vindos da Bahia; no segundo, dançando o jongo; e, no terceiro, praticando o jogo do pau. O senhor Manuel Morais, líder da comunidade do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, aparece também em diversos momentos. Assim, embora os documentários tenham sua autonomia, acabam por oferecer uma visão multifacetada e polifônica de uma mesma realidade sociocultural.

Como se sabe, a presença contemporânea de famílias afrodescendentes na região sudeste do estado do Rio de Janeiro é, em grande medida, resultado histórico do recrutamento massivo de mão de obra escravizada, em meados do século XIX, para satisfazer a demanda da economia do café. No Vale do Paraíba, concretamente, nesse período, os africanos chegaram a constituir 90% da população. As falas, recordações, práticas culturais e ação política dos descendentes desses escravizados são o alvo prioritário de reflexão historiográfica da coletânea em questão.

[confira a resenha integral, com abordagem em separado de cada um dos filmes]

… A estrutura narrativa, nos dois primeiros filmes, impõe a cronologia linear do tempo historiográfico, partindo da África, passando pelo cativeiro, a Abolição, até o presente. Porém, o tempo da memória negra não acompanha necessariamente essa linearidade, ao contrário, funciona como uma reverberação que se move em múltiplas direções e sentidos. Trata-se de uma memória de luzes e sombras, de silêncios, de interrupções e vazios. Há uma consciência da perda, com a insistência na ideia de que os velhos não falavam, não passavam para os mais novos, mas também uma tenaz reconstrução da cadeia de transmissão: meu pai contava, meu pai me falou, os antigos contavam… O registro videográfico tem a capacidade de mostrar esse esforço vacilante da recordação, ora com o trunfo impiedoso do esquecimento que submerge, ora com a vitória da lembrança que, puxando o fio do primeiro verso, traz o seguinte e, no final, a cantiga toda reemerge. O maior desafio da escrita videográfica seria construir uma narrativa que evocasse ou refletisse a dinâmica errática e imprevisível dessa memória espectral.

Refletindo sobre a memória da escravidão em Serra Leoa, Rosalind Shaw distingue entre a memória discursiva, expressa por meio das falas, e a memória prática, que se perpetua inscrita nos comportamentos, nos gestos, nas danças e nos rituais. Se o primeiro e o último documentários lidam, predominantemente, com a voz dos entrevistados e, portanto, com a memória discursiva, o segundo, Jongos, calangos, e folias, embora continue a privilegiar o busto falante, focaliza também o papel da palavra no contexto ritual, apresentando, assim, um caso de articulação desses dois tipos de memória. Já o terceiro filme, com seu foco no jogo do pau, abriria espaço para uma reflexão sobre o papel do corpo na experiência da dança e do ritual e, portanto, para as formas de memória prática. Porém, como já foi dito, a performance ritual recebe uma atenção discreta no documentário. A possibilidade do “dar a ver” ao espectador, própria do filme etnográfico, é aqui minimizada em favor do “dar a ouvir”, ou seu correlato, o “dar a voz”.

Os quatro filmes combinam de forma proporcionada o primeiro plano das vozes afrodescendentes com a informação contextual fornecida por cartazes, voz em off  e, sobretudo, o diálogo e contraponto dos comentários dos historiadores e pesquisadores. Nesse sentido, cabe destacar o seleto grupo de consultores com que o projeto contou e a participação de vários bolsistas de produção científica. Porém, o espaço conferido à reflexividade, ou seja, à visibilidade dos produtores do filme no próprio filme, é pouco. Só na metade do primeiro filme se escuta, brevemente, a voz dos entrevistadores, e nos créditos aparecem imagens dos cineastas. O segundo filme incorpora entrevistas com historiadores, e aparecem tangencialmente imagens das diretoras do filme. No terceiro, a voz do entrevistador é mais audível, e Assunção interage com os entrevistados, inclusive se engajando com eles no jogo do pau. No quarto filme, as diretoras Mattos e Abreu aparecem brevemente e, talvez num dos momentos mais etnográficos da coletânea, Geraldo Romão, membro da comunidade do Bracuí, acompanha a equipe de filmagem, apresentando o quilombo e visitando o antigo engenho da fazenda. Essa sequência registra a interação entre filmmakers e filmado e, nela, o filmado é quem dirige e comanda a cena.

Concluindo, cabe destacar o valor historiográfico e o interesse didático de uma coletânea que deve contribuir de forma significativa para a difusão e valorização da memória e do patrimônio cultural dos afrodescendentes nas salas de aulas, tanto do ensino secundário, no contexto das diretrizes nacionais para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, como no ensino superior. Nesse sentido, vale lembrar a riqueza dos “Extras” dos DVDs, com registros documentais de performances rituais, informações sobre as regiões visitadas e sobre os participantes do filme, assim como entrevistas com pesquisadores e referências de documentos históricos. Junto à seriedade historiográfica e a sua vocação didática, Passados presentes apresenta um elevado índice militante, com uma aguçada consciência do papel que a representação do passado e a representação da memória têm na política do presente e na luta pelos direitos de cidadania das populações afrodescendentes. A rica polifonia de vozes desses documentários, aliada à persuasão comunicativa inerente à linguagem cinematográfica, capaz de atingir um público amplo e variado, com certeza deverá contribuir para essa reafirmação política e cultural.

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Sobre as ruínas do Sahy

Ninguém esquece um elefante. Nossa querida amiga e colega, a saudosa Ana Lugão Rios, assim intitulou um de seus textos abordando a demografia e a memória do tráfico ilegal de escravos no litoral fluminense na primeira metade do século XIX.  Estávamos então surpresas com a descoberta de uma muito viva tradição oral sobre a chegada ilegal de africanos escravizados na região, durante o desenvolvimento do projeto de história oral Jongos, Calangos e Folias, em 2007. No artigo, Ana revisitava a demografia do tráfico ilegal, centenas de milhares de pessoas chegadas em cerca de 20 anos no Rio de Janeiro, numa estreita faixa de terra entre o mar e a montanha.

Mas apesar da força da tradição oral, até muito recentemente, só a memória local parecia querer lembrar do acontecido, sem que historiadores ou outros formadores de opinião se interessassem em parar para ouvir o que os moradores da região tinham a dizer. É impressionante o silêncio na historiografia e na memória oficial sobre o tema por todo o século XX. Já na primeira metade do século XIX, apesar da atividade negreira envolver enormes estruturas e milhares de pessoas, os que a ela se dedicavam intencionalmente não deixaram registros escritos. Quase todas as fontes históricas mencionando a atividade são produtos das tentativas de repressão, realizadas logo após a aprovação da primeira lei de abolição do tráfico em 1831 e, principalmente, ao longo da primeira metade da década de 1850, após a lei que finalmente “pegou”. Elas nos dão notícias de 500, 800 e até mil pessoas em um só desembarque.

As ruínas na praia do Sahy, em Mangaratiba, bem em frente à Restinga da Marambaia, são um testemunho eloquente da envergadura desse silêncio e do tamanho daquilo que se tentou esconder. Formadas por extensas paredes de pedra protegidas por densa vegetação, há muito tempo elas estão ali para serem vistas por quem tem olhos para ver, sem que historiadores ou documentos oficiais consigam precisar do que se trata. O que vemos hoje é uma enorme área murada com laterais de cerca de 100 metros, com indícios de um cais, um cemitério e possivelmente de um pequeno canal em seu interior. Tudo isso ligado a uma segundo complexo retangular ou quadrado, menor, com laterais de cerca de 30 metros. Para olhos leigos, as ruínas passam a impressão de uma pequena vila fortificada, bem perto do mar.

Para quem tem ouvidos para ouvir, talvez o mistério não seja tão grande. Segundo os moradores da região, trata-se de um mercado e armazem de escravos, ligados à área de “engorda” de africanos recém chegados na restinga da Marambaia. Um informante se referiu explicitamente a um “cemitério de pretos novos” em um dos limites externos das ruínas e há registros da existência de um calabouço, relatado pela primeira tentativa de trabalho arqueológico na área. Os moradores contam ainda, com graça, antigas lendas que percorrem quase todo sítio com forte memória ligada à escravidão atlântica, como por exemplo a história de um conjunto de escravos que teriam se atirado para a morte da Pedra da Conquista, “após um banquete com coisas roubadas de seus senhores”. O relato evoca fortemente a narrativa de Rocha Pitta, no século XVIII, sobre a possível morte de Zumbi dos Palmares, atirando-se com seus seguidores de um penhasco, que durante anos prevaleceu como verdade histórica e foi registrada nos primeiros livros didáticos brasileiros do século XIX. Cercada de tão forte tradição oral, a área das ruínas do Sahy tem hoje extenso uso religioso, como local para rituais e oferendas de cultos afro-brasileiros.

A arqueóloga e historiadora Camilla Agostini, com autorização do IPHAN e apoio da Fundação Mario Peixoto da Prefeitura de Mangaratiba, do CNPq e da FAPERJ, está começando a pesquisar o sítio arqueológico, em um projeto baseado no LABHOI-UFF, do qual participamos como co-proponentes junto ao CNPq e à FAPERJ.

Estivemos no sítio na última quarta feira, quando registramos um primeiro relatório audiovisual das hipóteses de Camilla sobre os antigos usos da área. A beleza das ruínas e a envergadura do trabalho que a arqueóloga começa a desenvolver podem ser acompanhados no pequeno trecho de filme abaixo. No dia seguinte, seguimos viagem para o Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, local onde ouvimos pela primeira vez a forte tradição oral sobre o tráfico ilegal. Nessa segunda parte da viagem, nosso objetivo era apresentar um projeto de exposição permamente, voltada para o turismo de memória, para a qual contamos com o  apoio do último Edital Petrobras Cultural de Patrimônio Imaterial. Em breve daremos mais notícias sobre esse projeto

A visita às ruínas do Sahy não nos evocou apenas a tradição oral com a qual temos convivido desde 2007, mas também a necessária releitura dos nossos dados de pesquisa sobre a primeira metade do século XIX. Hebe, por exemplo, juntamente com Keila Grinberg, há muito vem trabalhando com alguns escritos do jurista autodidata Antônio Rebouças, por diversas vezes deputado na assembléia legislativa brasileira pela província da Bahia nas décadas que se seguiram à independência política. A renovação do conhecimento sobre o funcionamento do tráfico ilegal abriu novas perspectivas para a interpretacão de alguns de seus escritos. Homem pardo, nos termos de época, ele era ativo combatente pela extinção do tráfico negreiro. Em face da aprovação no Senado de uma proposição para revogar a lei de abolição do tráfico de 1831, em 1837, defendeu na Câmara, naquele mesmo ano, a revogação paralela de uma outra lei, de 1830, que proibia a entrada de africanos livres no país. Segundo ele, respeitáveis chefes de família estariam envolvidos nos desembarques e nas compras dos africanos contrabandeados, o que comprovava serem os trabalhadores africanos desejáveis e impossível a repressão à sua entrada no país. Em vista disso, defendia a continuidade do comércio com a África, sob a fiscalização das autoridades brasileiras, como já acontecia nas Antilhas francesas, e a incorporação dos recém-chegados desde 1828 [data dos primeiros acordos com a Inglaterra] com o estatuto de africanos livres. Sintetizando seu pensamento, podemos afirmar que ele considerava urgente conter a crescente tragédia humanitária que se configurava com o aumento da mortalidade dos cativos sob o égide da ilegalidade, o que, em suas palavras, resultava por vezes na “perda de carregações inteiras”, ao mesmo tempo em que se mostrava contrário a adoção de políticas de branqueamento da população livre. Não teve sucesso em revogar a lei que proibia a imigração de africanos livres, de 1830, mas talvez por temor de que sua proposição fosse aprovada, a revogação da lei de extinção do tráfico de 1831 também não foi confirmada na Câmara. Continuou em vigor e a ser escandalosamente descumprida, transformando as lindas praias da Costa Verde em um espetáculo de horror, até meados da década de 1850.

Hoje, quase ninguém se lembra das proposições de Antônio Rebouças, apesar dele ter publicado em livro todos os seus principais discursos parlamentares. Os sentidos de sua defesa da revogação da lei de 1830, juntamente com a lei de extinção do tráfico de 1831, simplesmente perderam-se com o apagamemto da memória dos efeitos cotidianos de mais de 20 anos de tráfico ilegal.  Em pleno século XXI, do Cais do Valongo ao Sahy, passando pelas memórias dos quilombolas do Bracuí, as iniciativas de memorialização do tema significam uma inflexão importante na forma como até recentemente foi construída a narrativa nacional brasileira.  Ainda que tarde, o Brasil como nação começa a falar sobre nosso esquecido holocausto particular e a tentar reparar as feridas por ele deixadas em nossa sociedade.

Camilla está em trabalho de campo na região, com uma equipe de voluntários de altíssimo nível, formada por Fernanda Codevilla / Pós-doutoranda em Arqueologia pela UFMG; Jimena Cruz / Mestre em Arqueologia pela UFMG; Thiago Campos Pessoa / Doutorando em História pela UFF; Pedro Gil Mendonça / Graduando em Arqueologia pela PUC/GO; Suzana Correa Barbosa / Jornalista, Graduanda e Mestranda em História pela UFF; Iran Maia / Graduando em História pela UFF; Alana Verani/ Graduanda em História pela UFF; e Renata Anunciação da Silva Borges / Graduanda em História CEDERJ. O trabalho de campo conta ainda com a consultoria de Ximena Villagran / Geoarqueóloga, Pós-doutoranda Universitat Tubingen e com o apoio de Raquel Terto / Graduanda em História pela UFF, enviando documentos de arquivos via internet.  O trabalho de campo conta com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente / Prefeitura de Mangaratiba; da Fundação Mário Peixoto; da Associação dos Pescadores Maricultores Lazer do Sahy e da Associação de Moradores do Sahy. É o segundo trabalho de campo no sítio sob a coordenação de Camilla. O projeto contou, em sua primeira fase,  com o a colaboração especial de Mirian Bondim (da Fundação Mario Peixoto).  A todos, muito obrigada!

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Roda dos Saberes e o Inventário UFF_UNESCO

Acabamos de chegar de uma viagem de trabalho às ruínas de um local de desembarque ilegal de africanos na praia do Saí, em Mangaratiba, e ao Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, lugares de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados no Rio de Janeiro.

Domingo passado, a final da copa não permitiu que a nossa conversa de fim de semana para o blog ocorresse como de costume, mas esta semana a conversa rendeu ao longo de nosso encontro com a equipe de arqueologia em trabalho de campo nas ruínas do Saí, bem como na reunião sobre um novo projeto envolvendo os lugares de memória do patrimônio imaterial da diáspora africana no Rio de Janeiro, no Quilombo do Bracuí. O papo do próximo fim de semana já rolou. Aguardem o post de domingo.

Antes disso, o Inventário LABHOI-UNESCO sobre a memória dos africanos escravizados no Brasil, e na cidade do Rio, em especial, é o tema de palestra de Martha, na Roda dos Saberes do Cais do Valongo, que antecede a já tradicional Roda de Capoeira, no terceiro sábado de cada mês. Fazemos este post de meio de semana para divulgar o evento.

#ficaadica.

RodaDosSaberes_19-07-2014-MarthaAbreu

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Futebol e racismo

Como divulgado em vários jornais e redes sociais, muitos torcedores abusaram de xingamentos racistas para criticar a terrível falta de Zúñiga em Neymar, mostrando que o futebol no Brasil também está impregnado desse tipo de atitude, tão marcante em diversos campos de futebol pelo mundo, como o caso de Daniel Alves há pouco tempo foi exemplo. Sem dúvida, não somos tão diferentes dos europeus nesses assuntos. Especialmente no Brasil e na América Latina, futebol e racismo possuem uma longa e intrincada história, fruto da  internacionalização e popularização do esporte, ao longo do século XX.

Em  princípios do século XX, o futebol no Brasil, como quase todos os esportes, era uma atividade de elite, de afirmação social de determinados grupos brancos e intelectualizados, que se representavam como os mais saudáveis, finos e educados — os melhores da cidade. No caso do Rio de Janeiro, o futebol era mais um local de reprodução das hierarquias socais e raciais, de comprovação da supremacia branca no pós-abolição, como já é mais ou menos conhecido.

Sobre o tema, vale acompanhar o livro pioneiro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicado pela primeira vez em 1947. Naquele momento, Mário Filho, reconhecido fundador do jornalismo esportivo no Brasil, sentiu necessidade de escrever um livro sobre o “penoso e longo” caminho de participação e valorização do negro no futebol, processo que denominou de “democratização do futebol brasileiro”  na segunda edição do livro, em 1964.

O autor denuncia o quanto era branco o futebol dos primeiros  tempos, até a década de 1920, pelo menos.  “Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção”… . Nos jogos dos clubes chics, como o Fluminense, o Botafogo e o Flamengo, branco pobre, pretos e mestiços, poderiam até estar presentes, mas como torcedores, na geral. “Cada um no seu lugar”. “O Futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. Onde se podia encontrar melhor demonstração de que tudo era como deveria ser? O branco superior ao preto. Os ídolos do futebol todos brancos. Quando muito, morenos”… Mesmo nos clubes das fábricas, como na Bangu, haveria um esforço, registra Mario Filho, para se colocar mais brancos que “pretos”, ao menos em jogos da Zona Sul.

Ao longo década de 20 e 30, outros times dos subúrbios cariocas, como o Vasco, o São Cristovão, o Bangu, o América e o Vila, começariam a incorporar os negros e, com eles, a ganhar campeonatos, em paralelo ao processo de profissionalização do futebol. Apesar disso, Mario Filho relata diversos mecanismos excludentes que continuariam a atingir os jogadores negros, como a necessidade de provarem seus meios de sobrevivência e grau de escolarização para serem inscritos nos campeonatos, a preferência por jogadores brancos nos clubes e nas seleções que representavam o país, o constrangimento para adotarem mecanismos físicos de branqueamento –  um trato especial para os cabelos e pele, a  vergonha e a  negação da cor, ou a impossibilidade de frequentar as sedes sociais dos clubes.

A escrita da história do negro no futebol de Mário Filho, em 1947, revela muito sobre as formas de operação do racismo no Brasil do pós-abolição, como os mecanismos não explicitados de exclusão racial e as articulações preconceituosas entre condição social e  cor. Na bela “nota ao leitor” da primeira edição, Mário registra que não poderia ter escrito o livro sem o apoio da tradição oral, “muito mais rica, muito mais viva do que a escrita dos documentos oficiais…” Os documentos oficiais teriam mostrado ao autor que a “história verdadeira se escreve de outro jeito”…  Os livros, “as atas, as correspondências dos clubes não falam de negros… não tocam, nem de leve, em questões de raça”…

A primeira edição de 1947 teve prefácio de Gilberto Freyre, que valorizava a importância do papel do negro na formação da identidade nacional. Para o autor, o futebol inglês teria se tornado uma instituição brasileira, com evidentes traços originais e mestiços. E, de fato, o livro de Mário ajuda muito a entender a tessitura das relações entre brasilidade e futebol desde então. Algumas frases da apresentação da segunda edição, por exemplo, escritas por Mário Filho, expressam, como poucas, o que estamos vivendo hoje, especialmente depois da saída de Neymar da Copa: “No fundo o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele. O jogador representa-o, representa o clube, a sua cidade, o seu estado, a sua pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor…”

Na edição de 1964, entretanto, Mário Filho  procura mostrar que não pretendeu defender “uma visão otimista a respeito de uma integração racial” do negro no futebol, “sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto”, em suas palavras.  Lembra que a derrota do Brasil, no Maracanã, no final da copa de 1950, teria provocado um “recrudescimento do racismo”, já que “culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho”… “Os bodes expiatórios,  escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada”… Ainda na convocação para a Copa de 1958, na Suécia, a maior preocupação, salienta Mário Filho, era de embranquecer o escrete. Didi teria sido o único preto na estreia contra a Austria! Só aos poucos o time foi escurecendo com a entrada de Garrincha, Vavá, Djalma Santos, Zózimo e, finalmente, Pelé.

Segundo Edson Carneiro,  antropólogo, negro, que escreveu a orelha da segunda edição, apesar das  diversas “ofensivas segregacionistas” impostas aos jogadores negros, o “negro não se deu por vencido –  no campo e na pelada… Ao menos no futebol, afirma com ênfase, havia chegado “a vez do preto, tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé”. A reedição do livro em 1964 parecia evidenciar a  necessidade de afirmação  do talento dos jogadores negros, sinalizando o quanto combater o racismo ainda era o pano de fundo do livro, mesmo dois anos após o Brasil  ter se tornado bi-campeão do mundo (conquistas de 1958 e 1962), com uma seleção maravilhosamente multirracial.

Passados cinquenta anos, em plena copa contra o racismo, o problema ainda persiste nos insultos que se repetem nas redes sociais dos mais diversos países, na segregação econômica que impõe uma maioria branca nos estádios ou no racismo invisível que resulta em uma minoria negra de crianças escolhidas para entrar em campo com os jogadores, através de indicação dos países e campanhas comerciais.  Mas exatamente por isso, é importante valorizar a decisão de abrir cada jogo com o anúncio da campanha Say No To Racism (Diga Não Ao Racismo) lido pelos capitães de cada seleção, no caso de sexta feira última  por Thiago Silva e Mario Yepes, em suas línguas nativas.  Com certeza,  vale a pena o esforço de divulgar bem alto,  em todos os estádios e em todas as TVs desse país, que o racismo é crime e envolve todas as formas de preconceito, seja de gênero, cor ou de origem.

A democratização do futebol, nos termos sonhados por Mário Filho, ainda é uma boa bandeira para se lutar.

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Seleção brasileira, 1950, antes do jogo em que goleou a Suécia por 7X1.

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Seleção brasileira, campeã do mundo, 1958.

 

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