A história como hiper-ficção. Sidney Chalhoub

(Sidney Chalhoub, historiador da Universidade de Harvard e da UNICAMP, enviou este texto para divulgação na sexta feira, 18 de março)

Itaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens. Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos. O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade. Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam. Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.

Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga. Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas. Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João. O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro. Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.

O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação. Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela. No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado. A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga. Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.

Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário. De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI. De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.

Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio. Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?

P.S. A semelhança entre Simão Bacamarte e um determinado juiz de província do Brasil atual me foi sugerida por um amigo aqui de Harvard, a quem agradeço pela inspiração. Obrigado a todos aqueles que sairão às ruas, neste 18 de março, em defesa da democracia.

#VemPraDemocracia

Fotos do Album de Felipe Altenfelder

Manifestações pela democracia, em defesa do mandato de Dilma Roussseff, em 18/3/2016 em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Rio Branco, Porto Alegre, Curitiba e Brasília

sao paulorio de janeirofortalezareciferio brancoporto alegrecuritibabrasilia

 

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Eu quero passar com a minha dor

Recentemente, tivemos a boa notícia de que a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade foi aceita pela UNESCO. Para receber o título e ser incluída na lista, ainda falta a avaliação do sítio arqueológico pelos técnicos especializados e o parecer final do Comitê; mas, um passo importante foi dado nessa direção. Caso se tenha um resultado positivo, esse será o primeiro local a ser reconhecido como patrimônio da humanidade no Brasil tendo como núcleo central da sua justificativa a história da escravização de africanos e da população negra. Outros sítios que fazem parte da lista de patrimônio mundial no nosso país guardam profundas relações com essa história, como por exemplo o conjunto arquitetônico do Pelourinho em Salvador e a cidade histórica de Ouro Preto, mas ela não aparece com destaque nas suas apresentações. O Cais do Valongo tem a candidatura defendida a partir de seu reconhecimento como lugar de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados e da resistência cultural e política da população negra a uma longa história de violência e exclusão. Situado no Rio de Janeiro, o cais é o testemunho material do local de desembarque do maior número de africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Em nenhuma outra parte do mundo chegaram tantos cativos trazidos da África.

Não são apenas as pedras pisadas no local de desembarque de tanta gente trazida à força do lado de lá do oceano, durante o mais longo processo de migração forçada da história da humanidade. É o Cais do Valongo e seu entorno. Estamos falando também do cemitério dos pretos novos, do quilombo da Pedra do Sal, das esquinas e ruas por onde circularam João Alabá e Prata Preta, da fundação do Ile Ase Opo Afonja no Rio de Janeiro, do sindicato dos trabalhadores portuários, e de tantos outros personagens, movimentos e fatos históricos que fazem da região parte fundamental da Pequena África na cidade – como nomeou Heitor dos Prazeres. E aos vestígios e construções se agrega a tradição viva – tal como a chamava o grande historiador africano Amadou Hampaté-Bâ – que dá sentido e mantém acesa a chama que arde nas rodas de samba e de capoeira, nos tambores e afoxés.

No entanto, aqui nesse texto eu venho trazer a dor e a violência como parte dessa história. E não se trata simplesmente de uma dor diluída numa história de um passado remoto, num tempo em que submeter o outro a uma situação de desumanização era natural. Quero recordar a dor que existia apesar do fato das pessoas de outra época acreditarem ter o direito de escravizar alguém. E lembrar, da parte dos que sofreram, o medo, a incompreensão e o espanto frente a uma realidade que mais parecia um pesadelo. Esse conjunto de sensações aos quais me reporto também definem, junto com a força da criação de tantas coisas belas, a atmosfera do Valongo. Tudo isso faz desse lugar onde tanto se celebra – com toda a razão – a presença africana e negra na cidade do Rio de Janeiro e no país, um sítio de memória sensível. Um lugar em que durantes anos desaguava um mar de gente depois de uma travessia em que não morrer poderia ser esperar sobreviver dolorosamente.

Mas, por que lembrar de tantas coisas ruins frente a uma notícia que é tão boa; afinal, podemos celebrar as heranças africanas com (re)conhecimento do mundo de que somos o país mais negro fora da África, e que mais do que isso, fazermos dessa história monumento e marco de nossa identidade?

Quero escrever sobre a dor e a violência por que é importante lembrar que o tráfico atlântico de africanos escravizados é um crime contra humanidade e o Brasil ainda não o reconheceu oficialmente como tal. Num crime, há vítimas. Nem de longe estou me referindo a sujeitos-objetos, transformados em mercadorias e submetidos sem reação. Não é essa qualidade de vítima. Estou dizendo dos que sofreram, e nos legaram essa memória. O ser vítima não significa perder a capacidade de agir, e mesmo de transformar.  Devo lembrar que assim como toda a beleza e poder da criação, a dor é parte da herança deixada por nossos antepassados africanos. Essa dor que atravessa a memória sensível dos descendentes faz do trauma da escravidão um processo cultural de base na formação de identidades no pós-abolição. Sem nenhum exagero, e com todo o drama, não há como encarar o Cais do Valongo e permitir que essa dimensão da história se dissolva no tempo. Até porque, como a tradição oral africana, ela está viva, e esbarramos com ela nas nossas ruas e quebradas hoje. O trauma coletivo não foi superado, ainda que em alguns casos se consiga aprender de alguma forma a lidar com ele.

Hoje o Cais do Valongo e a região que o cerca se tornaram roteiros frequentes de aulas de campo de muitos professores da Educação Básica, sobretudo os de História. Cursos de formação de professores que incluem a educação patrimonial entre seus temas fazem da visita à região portuária do Rio de Janeiro uma etapa necessária. Oficinas e roteiros guiados conduzem educadores, profissionais do turismo e interessados de diferentes origens a conhecer os logradouros de referência na área. Além de estudantes e educadores, turistas e moradores da cidade descobrem a região motivados por uma valorização da mesma pelas obras de reforma urbana e a presença de museus.

Acompanho algumas experiências no campo do ensino de História que transitam nos caminhos do Valongo, e me interessa entender como lidam com a história da dor e da violência. Como se pode fazer estratégias de aprendizagem a partir do contato com esses aspectos da experiência dos nossos antepassados contribuindo para desnaturalizar a violência da escravidão, pensada sob o ponto de vista de quem a sofria? Fico procurando perceber como os professores encontram meios de articular o conhecimento sobre as diferentes maneiras de se celebrar a vida, de se tecer solidariedades, de afirmar-se em suas práticas religiosas e artísticas, à enorme carga de sofrimento físico e psíquico daquelas pessoa e as suas marcas na história de seus descendentes.

Aprendo com os professores e estudantes e percebo que as dimensões não se opõem, se completam, e se tornam mais compreensíveis quando vistas em conjunto. O samba na Pedra do Sal se mostra por inteiro quando se situa historicamente a perseguição aos terreiros, a luta dos trabalhadores portuários e a dureza da repressão. A emoção sentida ao visitar o lugar onde os corpos dos africanos recém-chegados eram deixados à flor da terra , humaniza o conhecimento que se adquire. E permite ver com outros olhos a luta quilombola hoje.

Tudo isso, se não explica o que acontece em nossos dias, sem dúvida ajuda a exercitar a sensibilidade. E é fundamental não a perder de vista. Estamos num tempo em que as estatísticas de mortalidade de jovens negros e de violência contra mulheres, e em especial mulheres negras, soam como lugar-comum. O racismo segue vivo e presente, rasgando a pele da nossa realidade. Aproximar-nos dessas histórias como numa visita a um lugar de memória talvez nos lembre de nossa dimensão humana. Como na maioria dos processos traumáticos, o silêncio é cúmplice, e rompê-lo é um caminho para não deixar que o medo nos paralise.

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A Pequena África, coração da cidade negra do Rio de Janeiro no século XIX e início do século XX, onde se insere o Cais do Valongo, tornou-se cenário para um roteiro em forma de aplicativo que será lançado no próximo dia 2 de abril, dentro do projeto Passados Presentes 

Mais sobre o Cais do Valongo nesse blog:

https://conversadehistoriadoras.com/complexo-do-valongo/

https://conversadehistoriadoras.com/2014/05/25/memoria-e-cidadania-no-complexo-do-valongo/

placa quilombo pedra do sal

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#Dia13EuNãoVou

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Preocupante Semelhança?

Durante o segundo semestre de 2013, em função da minha pesquisa sobre o engenheiro abolicionista André Rebouças, eu lia diariamente exemplares das edições mensais de um periódico publicado em Nova York, por um jornalista brasileiro, do qual André foi ativo colaborador. O Novo Mundo registrava notícias dos Estados Unidos para o Brasil durante a década que se seguiu à guerra de secessão americana.

No antigo sul escravista derrotado, o período conhecido como “Reconstrução Radical” (1865-1877) foi pioneiro em reconhecer direitos civis e políticos aos ex-escravos tornados livres com a vitória da União. Muitos se alfabetizaram, participaram politicamente em seus locais de moradia, votando e sendo eleitos, junto aos políticos republicanos radicais oriundos do Norte do país. As conquistas sociais realizadas neste curto espaço de tempo são impressionantes e preenchem as melhores páginas da historiografia social e política sobre o pós-emancipação nos Estados Unidos.

No entanto, o movimento fracassou, graças principalmente à eficácia de um discurso de fundo aristocrático, construído a partir da manipulação seletiva de uma série de casos de corrupção, segundo o qual toda a ação política dos libertos e o idealismo republicano eram uma simples fachada para a ação criminosa de um grupo de aventureiros corruptos que enganavam ex-escravos desinformados. Esta leitura foi depois potencializada pela memória, associou-se ao chamado “racismo científico” do final do século XIX, e progressivamente foi corroendo as conquistas dos libertos, ainda pouco sedimentadas, resultando em leis de segregação racial em todo o Sul a partir dos anos 1890, que durariam até a segunda metade do século XX.

Todo este projeto foi glamourizado em um dos filmes pioneiros da indústria do cinema americano, um ícone da ideologia da supremacia branca, o conhecido The Birth of a Nation (Griffth, 1915), em que os cavaleiros da Ku Klux Klan são os heróis que salvam a América.  Apesar de repugnante em sua mensagem, o filme é uma aula sobre os riscos de processos como o que venho de relatar. E como eles podem ser duradouros. Ainda em 1939, de uma forma menos explícita, a interpretação de Griffth continuava forte e presente no famoso Gone With the Wind (E o Vento Levou), dirigido pelo trio Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood. Neste ano de 2016, Nate Parker lançou, nos Estados Unidos, um novo filme com o mesmo título, The Birth of a Nation,  contando a história da rebelião negra de Nat Turner, na Virginia, em 1831. O filme ganhou o festival de Sundance e fez o país do filme do passado e o do presente dialogarem. Voltarei a ele em um próximo post, mas hoje, é a tragédia anunciada da Reconstrução Radical que me mobiliza a escrever.

Através das páginas de O Novo Mundo, acompanhei o dia a dia da tragédia que se anunciava e as semelhanças com o que eu ouvia no Brasil do século XXI, então em acirrada campanha eleitoral, muitas vezes me preocuparam. Uma versão muito próxima dos parágrafos acima abriam um texto que publiquei durante a campanha eleitoral de 2013. Na última sexta feira, quando eu me preparava para escrever o post da semana, o espetáculo midiático da condução forçada do ex-presidente Lula a depor no aeroporto de Congonhas me fez mais uma vez lembrar do primeiro The Birth of a Nation e a temer, mais que nunca, pelas muitas conquistas democráticas que o país obteve desde a Constituição de 1988.

HistoriadorAs

Quando decidimos abrir o formato do blog, uma das motivações foi exatamente poder trazer perspectiva mais autoral para alguns dos textos. É o caso da minha convicção e preocupação pessoais em como, desde o início, têm sido apropriadas, espetacularizadas e partidarizadas as investigações da operação lava jato. Na semana do dia internacional da mulher, porém, aproveito também para compartilhar, com minhas colegas de conversa, uma breve reflexão sobre outros sentidos do novo formato. Porque foi assim meio por acaso, enquanto eu e Martha pensávamos sobre possíveis colaboradoras para o blog, que nos demos conta que o fato de termos nos assumido no feminino nas conversas tinha se tornado uma marca essencial do blog. Por que conversa de historiadorAs e não conversa de historiadorXs?

A crítica às vulgarizações do pensamento de Gilberto Freyre, sobretudo o chamado mito da democracia racial que ele ajudou a disseminar, tornou-se bandeira política dos movimentos negros após 1970. Mas a universalidade da obra de Freyre, principalmente em Casa Grande e Senzala, está exatamente na identificação explícita que o autor faz do lugar de que ele fala. Em Casa Grande e Senzala, “todo brasileiro” traz na “alma” e/ou no “corpo” a “sombra do indígena ou do negro” … porque teria sido “embalado por uma mucama negra” ou sido iniciado sexualmente “no amor físico” por uma “mulata”, e também por que teve um “muleque” como companheiro. O brasileiro de Freyre era homem, ex-senhor de escravos e branco. E por que nos fala com brilho da relação deste brasileiro com o mundo que o cercava, e que a modernidade ameaçava destruir, Casa Grande e Senzala envelheceu sem perder poder explicativo. Sempre leio Freyre com as minhas turmas de graduação, e como na leitura de O Novo Mundo, sempre nos perguntamos ao final do livro, o quanto daquele mundo ainda permanece?

As historiadoras têm papel importante na historiografia produzida nas universidades brasileiras desde o seu início. Alice Canabrava, Eulália Lobo, Katia Mattoso, Maria Yedda Linhares são nomes que estão na fundação do campo acadêmico do profissional de história no Brasil. Quase todas elas, mulheres brancas de classe média ou alta.  Ainda hoje, uma olhadinha na lista de pesquisadores do CNPq na área de história nos apresenta uma alta proporção de mulheres. Impressiona o equilíbrio de gênero entre os profissionais da área, talvez sinal de um relativo desprestígio da profissão.

Apesar disso, tirando o campo específico dos estudos de gênero, a escrita historiográfica feminina raramente foi problematizada enquanto tal. As mulheres historiadoras tem procurado, em sua maioria, uma escrita comprometida com a neutralidade científica, produzida como a fala de um sujeito universal. Trabalhamos, nós historiadoras, pelo menos as historiadoras brancas de classe média e alta até a minha geração, no mais das vezes, com a ilusão do universalismo. À exceção da historiografia feminista sobre gênero e história das mulheres, é claro. E talvez por isso os  estudos de gênero permaneçam como um campo a parte, ainda isolado na disciplina da história. Convido então os leitores a revisitar os textos das historiadoras brasileiras, pensando em seus lugares de fala e em como esses lugares influenciaram suas perguntas. Creio que poderemos ter boas surpresas com uma releitura delas a partir dessa perspectiva.

Foi a experiência do blog, com seis historiadoras de diferentes gerações, origens e lugares de fala, que  me fez enxergar isso. E com essa constatação, chego a pensar, de forma otimista, que talvez as minhas preocupações do início do texto não tenham fundamento. Na experiência democrática brasileira dos últimos anos, o mundo patriarcal de Gilberto Freyre pareceu realmente estar mudando e o  novo mundo, buscado por André Rebouças, nunca pareceu tão próximo.

(Na foto, da esquerda para a direita, HistoriadorXs NegrXs no Simpósio Nacional da ANPUH 2015; Alice Canabrava, Eulália Lobo, Katia Mattoso, Maria Yedda Linhares)

 

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O Oscar das ausências

Agora de noite, quando este post for ao ar, mais uma cerimônia do Oscar vai estar começando. Só que este ano resolvi não ligar a tevê e me juntar ao Spike Lee no protesto contra a brancura dos indicados (mas vou ficar torcendo para “O menino e o mundo”, do diretor Alê Abreu e trilha sonora de Emicida). Como entender a política das escolhas? E das premiações?

Há dois anos, estávamos comemorando a eleição de Doze Anos de Escravidão como o melhor filme e a estatueta recebida por Lupita Nyong’o como melhor atriz coadjuvante. Ano passado, Selma foi meio que menção honrosa. E agora, nada.

Obama tem razão: as indicações ao Oscar são parte de uma questão muito mais ampla, nada fácil de responder. Se nem a Cheryl Boone Isaacs, que é presidente da Academy of Awards e se disse desapontadíssima com os indicados, consegue encontrar uma explicação convincente para a falta de diversidade da disputa, imagina eu.

O produtor e jornalista americano Aurin Squire tem um argumento forte: em artigo publicado na New Republic em fevereiro de 2015,  a temática das relações raciais só é premiada no Oscar quando a história apresenta um importante e geralmente benevolente personagem branco. Foi assim com Histórias Cruzadas (2011), por exemplo. A Cor Purpura (1985) e Um Grito de Liberdade (1987) não ganharam nada. Nem Selma (2014). Isso sem falar em Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) do Spike Lee, um clássico instantâneo sobre as relações raciais na Nova Iorque dos anos 80, que perdeu para a comédia romântica Conduzindo Miss Daisy, uma história de amor entre uma excêntrica senhora judia branca e seu motorista negro. A Academia levou 25 anos para fazer a coisa certa e premiar o diretor pelo conjunto de sua obra. Nem Doze Anos de Escravidão (2013) escapou: seu herói branco é o abolicionista canadense Samuel Bass, ninguém menos que Brad Pitt.

Estou com Squire e arrisco uma pequena hipótese. Entre premiar um filme sobre escravidão como Doze Anos… e escolher atrizes, atores ou diretores negros, a primeira opção é a mais fácil. Afinal, a escravidão passou, e não há quem hoje em dia a defenda. Quanto mais violenta a cena, mais ela nos causa aversão, e em matéria de retratar violência Doze Anos foi imbatível. Já encarar a presença viva do racismo hoje e a desigualdade das indicações ao Oscar — e, de resto, toda a questão mais ampla lembrada por Obama — é bem mais complicado. Nada como um filme sobre o passado para redimir o presente.

* * *

Outra ausência do Oscar deste ano é a indicação do brasileiro Que horas ela volta? para o Oscar de melhor filme estrangeiro . Na época da escolha do filme como representante do Brasil, muita gente boa, como Stephanie Ribeiro e minha amiga de conversa Giovana Xavier, reclamou da cor da personagem da Jéssica, interpretada por Camila Márdila, filha da Val (Regina Casé), da ausência de personagens negros no filme e de qualquer discussão sobre o preconceito racial na relação entre patroas e empregadas domesticas. Concordo com muitos dos pontos por elas destacados. Na época, minha leitura foi um pouco diferente. O texto abaixo, publicado na Revista Ciência Hoje 331, circulou pouco, por isso o reproduzo aqui. Ele vai um pouquinho modificado, fruto da conversa entre as historiadoras deste blog. A versão original pode ser acessada aqui.

Ela não volta mais

A certa altura do filme Que horas ela volta?, Val (Regina Casé), a empregada que mora no serviço em São Paulo, ralha com sua filha Jéssica (Camila Márdila), recém-chegada do Nordeste, ao vê-la aceitar  o sorvete que seria do filho dos patrões, e diz mais ou menos assim: “Eles só oferecem alguma coisa que é deles porque sabem que a gente não aceita”. Em outra cena, como se estivesse continuando a anterior,  é Jéssica quem ralha com a mãe, afrontando: “Quem é que te ensinou essas regras? Elas estão escritas em algum livro?”. Ao que Val responde, com raiva: “Ninguém precisa ensinar; a gente já nasce sabendo as regras”.

Há muito o que dizer do filme de Anna Muylaert, que acaba de ser designado como o candidato do Brasil ao Oscar de 2016. Das mães que saem para trabalhar e daquelas que ficam em casa, criando os filhos dos outros, deixando seus próprios para trás. Do espanto meio incrédulo da patroa ao ouvir da filha da empregada que ela faria vestibular para a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (“Tá vendo, o país tá mudando mesmo”) ao desconforto igualmente incrédulo de Jéssica ao receber uma estapafúrdia proposta de casamento do patrão de sua mãe.

Tem razão a diretora quando argumenta tratar-se de um filme sobre afetos. É mesmo. A casa é o espaço do conforto e do afeto, e não seria diferente na casa de classe média alta do Morumbi, onde se passa a história. Só não creio que seja um afeto “de  aluguel”, como ela o denomina. O afeto de Val por Fabinho, de quem continua sendo babá, é real. O afeto dos patrões por Val também o é, e vice-versa. É esse afeto que, mesmo permeado pela hierarquia e pela desigualdade, permite a convivência entre eles por tantos anos. E é esse mesmo afeto que, no filme, é reinventado por mãe e filha. Pena que Fabinho e sua mãe escolham o caminho contrário. Se, ao fim da história, Val e Jéssica se reencontram em uma nova casa, Fabinho, ao ser reprovado no vestibular, ganha dos pais uma temporada na Austrália, bem longe. “Que lonjura”; Val é a única que reclama.

Mas é de afeto e muito mais que trata o filme. Na impossibilidade de explorar tudo, fico com as regras silenciosas, que compartilhamos todos os dias na intimidade de nossos lares. Se houvesse apenas um resquício da escravidão no Brasil de hoje – infelizmente, há muitos – ele estaria ali, na cozinha, no banheiro, no quartinho de empregada. O espaço doméstico recria a tragédia de 500 anos de história brasileira: a violência, o paternalismo, a hierarquia, o racismo, a dependência. A subserviência e a arrogância disfarçada de generosidade.

Com tudo isso, é um alento assistir à atitude descarada de Jéssica abertamente desrespeitando as regras que ela finge desconhecer. Mas bom mesmo é acompanhar a lenta transformação de Val, tão bem representada pelas bandejas com as quais lida. No aniversário da patroa, Val lhe dá de presente uma bandeja com xícaras e pires brancos e pretos, para serem usados misturados  – modernos.  A patroa rejeita tanta modernidade e prefere ficar com a bandeja quatrocentona de sua avó. Pouco tempo depois, limpando com força, Val sem querer quebra a bandeja da família. Lá se foi a tradição, e não teve cola que desse jeito de consertar. Sobrou a bandeja moderna, barata, onde preto e branco se misturam, que Val, com toda a propriedade, tomou para si.

Entre a tradição e a modernidade, nem é de se espantar que o filme tenha o final que tem. Ao deixar para trás a bandeja de prata que usava para servir café nas festas dos bacanas e ficar com a de plástico para ela, é Val quem opera a mudança fundamental do filme. Se era ela quem mandava dinheiro todo mês para permitir que Jéssica estudasse, é ela quem possibilita a libertação real da filha, e a impede de repetir a sua própria história. Ao deixar o emprego, Val libera Jéssica para criar o próprio filho. E também para estudar. E até para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

No filme, Jéssica será a única mulher que terá esta chance. Mas, para isso, Val, a empregada à moda antiga, não volta mais. Disso, todas as empregadas domésticas já sabem, mesmo as que ainda trabalham à moda antiga. O serviço doméstico não está em extinção, mas a empregada que mora na casa dos patrões está. Resta saber se as classes média e alta já entenderam isso.

Que horas ela volta? é um filme otimista sobre as transformações recentes da sociedade brasileira. Mas estará o país mudando mesmo? Para as jéssicas que hoje nem precisam sair de suas cidades para ingressar nas universidades, certamente. Para suas mães, que viajam de avião e têm celular, também. Mas as revoluções no espaço doméstico, quando ocorrem, são lentas. Basta lembrar que o mesmo público que aplaude a Regina Casé vocifera contra a PEC das domésticas, proposta de emenda constitucional que confere novos direitos às empregadas domésticas no Brasil. São os mesmos que designam banheiros diferenciados para babás em clubes de luxo da Zona Sul do Rio de Janeiro e que não abrem mão de uma boa folguista nos finais de semana. E que, certamente, consideram suas empregadas domésticas quase como se fossem da família. Afinal, são elas que cuidam dos seus filhos [clique aqui para ler um ótimo texto sobre o trabalho domestico e a racialização do cuidado].

Pena que uma coisa que emenda constitucional nenhuma pode fazer sozinha é mudar uma sociedade onde a hierarquia é tamanha que impede patrões e empregados domésticos de sentarem-se juntos à mesa para partilhar um mísero sorvete. O filme Doméstica, de Gabriel Mascaro, registra bem os limites dos afetos dessa relação. De novo, o problema é menos o trabalho doméstico em si – que existe em tantos países do mundo –, e mais o fosso social que ele representa. Para transpô-lo, filmes emotivos como o Que horas ela volta? ajudam, e muito.

Para a classe média ainda quase toda branca que reclama de suas empregadas e vai ao cinema, é uma oportunidade rara de exercitar a identificação com aquelas de quem acham que são diferentes. Menos cordialidade e mais empatia, talvez seja disso que precisemos para deixar a sociedade das patroas e de suas empregadas para trás.

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Com que fantasia eu vou?

07/02/2016 – Domingo de Carnaval. A expectativa da abertura do desfile das escolas do grupo especial coexistia com o transcorrer de aproximadamente cem blocos que flanavam pela cidade desde 9h da matina. Lá em casa, o espírito de equipe falou mais alto. E assim integrei-me ao público do Cordão do Boitatá, com marido e filho. Nos primeiros quinze minutos de andança na Praça XV, avistei um homem fantasiado de “cego” e uma mulher vestida de empregada doméstica, “dando voz” à criatividade das desigualdades, com direito a espanador e avental. Fechando o trio, esbarrei com outro homem que ostentava as vestimentas de preto-velho. Branco como os demais, este último caprichou no black face, no black body e em tudo que tinha direito, incluindo abordagens não consentidas para ofertar consultas a mulheres que passavam. Os três personagens ganharam reforços com a inestimável criatividade da família que escolheu homenagear seu filho, um menino negro, com a fantasia de macaco (tudo bem, era o macaco Abu da Disney!). Uma situação alvo de fortes críticas como a de Mariana Emiliano. Esse hábito de se fantasiar no carnaval reproduzindo representações racistas (sempre de um “outro”) com a intenção de fazer rir “é coisa da antiga”. Já no século XIX, Martha Abreu nos conta sobre diabinhos e Pais Joãos que faziam gargalhar foliões em cordões, ranchos e bailes. Deixei o Cordão do Boitatá perguntando-me: quais as fronteiras entre opressão e brincadeira? Como defini-las?

As perguntas, embora novas, foram formuladas em diálogo com Gabriela Monteiro. Menos do que presidir julgamentos individuais ou, nas palavras da autora, tornar-me “consultora política da folia”, desejo conversar sobre os diferentes sentidos que uma fantasia pode assumir, tanto para quem usa quanto para quem a vê. Esses sentimentos relacionam-se com a história do país e de seus sujeitos. Eles dizem respeito às histórias de afirmação, preterimento ou opressão que carregamos em nossos corpos. A depender dos corpos fantasiados, tais histórias falam de nós. Por nós. Ou sobre nós.

Se o pessoal é político, é pertinente questionar o universalismo presente na ideia do “direito de escolha”. “Para não fazer feio” um caminho é se indagar sobre as motivações para escolha de um traje carnavalesco. Por que se fantasiar de trabalhadora doméstica em um país que apenas em 2013 regulamentou esta profissão? Em que medida, o “direito de escolha” de incorporar a empregada compactua com estereótipos de hipersexualização, particularmente das mulheres negras, nacionalmente mais de 50% dessa categoria? O que pensar na manutenção de blocos como o Domésticas de Luxo, exclusivo para homens brancos, que promovem um espetáculo de racismo e machismo nas ruas de Juiz de Fora?

Domésticas de luxo - Carna 2016Desfile do Bloco Domésticas de Luxo, 2016.

No caso da família Aladin: como enfrentar a realidade, mediada por confetes e serpentinas, de uma criança negra vestida de macaco devido ao “direito de escolha” de seus pais? Que relações esta fantasia “carinhosa” guarda com a cultura da “justiça com as próprias mãos”, ilustrada por recorrentes linchamentos de jovens negros em bairros de classe alta? Com medidas governamentais como a diminuição expressiva dos ônibus que ligam a zona norte à parte sul da cidade? Ou com operações policias proibindo adolescentes, em sua maioria, negros e pobres de seguirem viagem até a orla carioca? Quanto ao traje de preto-velho: como pensá-lo frente às perseguições, agressões físicas e verbais de praticantes das religiões de matrizes afro-brasileiras, incluindo crianças apedrejadas e proibidas de frequentarem escolas? Embora compartilhe da opinião da historiadora Erika Arantes sobre a diminuição do número de “negas malucas” nos blocos cariocas este ano, os exemplos acima permanecem evidenciando racismos, machismos e assédios construídos historicamente e que são naturalizados ou desqualificados como brincadeiras de carnaval.

Sabe-se, no entanto, que, desde as primeiras décadas do século XX, o Carnaval também foi marcado por contestações políticas em clima de sátira e pilhéria. A expressão elefante branco foi criada e encenada nos festejos de momo de 1910 em referência à compra pelo governo brasileiro do navio Minas Gerais, o encouraçado de uma tonelada que nunca foi à guerra pela Marinha de Guerra, como mostrou em suas pesquisas o historiador João Roberto Martins Filho. A criação de cordões carnavalescos como O Macaco é o Outro por homens e mulheres negros revelam o papel de descendentes de escravos na subversão de estigmas e estereótipos que lhes eram atribuídos, de acordo com pesquisas de Eric Brasil. Lembrando-me desses exemplos, senti que em 2016, a conversa sobre usos políticos das fantasias tornou-se mais forte. No lendário ensaio técnico do Salgueiro, Cris Alves e Vivi Araújo causaram atravessando o sambódromo fantasiadas das pombagiras Maria Navalha e Maria Padilha. A repercussão foi enorme, gerando debates sobre gênero, raça e racismo entre feministas negras como Djamila Ribeiro, Stephanie Ribeiro e eu própria. No dia seguinte ao desfile da comunidade salgueirense, a funkeira Ludmilla, musa da escola, sofreu manifestações explícitas de racismo por usar uma peruca black power, comparada à palha de aço Bombril por Val Marchiori na Rede TV. Cidinha da Silva analisou com categoria o incômodo da socialite como parte da peleja estereótipos raciais x empoderamento negro.

Ludimila - Musa do SalgueiroLudimilla, Musa do Salgueiro, no Desfile 2016 (Foto: Isac Luz/EGO).

Existem sentidos em disputa na escolha, criação e uso de uma fantasia. As representações de Fridas Kahlo, Ganeshas, Dandaras, Panteras Negras, Pombagiras como lembrou a psicóloga Amana Mattos, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros, merecem atenção. Tais personagens, vistas em quantidades expressivas em blocos, são encarnadas por mulheres que lançam mão do “direito de escolha” para afirmar e conferir visibilidade às lutas pela igualdade de gênero e raça ao longo da história. Nesses casos, os sentidos em disputa trazem instigantes questões sobre feminismo, raça e empoderamento. O que dizer das discussões de Joice Berth acerca das relações entre o arquétipo das pombagiras e as lutas feministas? Quais os sentidos históricos de fantasias como a da Squel? A porta-bandeira da verde e rosa encantou a avenida com o belo bailado e seu inesquecível sorriso. A impecável maquiagem, inspirada nas pinturas das iaôs (filhas de santo iniciadas), divide opiniões sobre o direito de publicizar referências sagradas. Nos dizeres da socióloga Elizabeth Viana, trata-se de “outros tempos”. Tempos nos quais símbolos impensáveis de serem levados para fora do terreiro tornam-se de domínio público. “Outros tempos” que nos fazem pensar nas fronteiras entre sagrado e profano. Direito e respeito. Afirmação e apropriação cultural…

Squel Jorgea               Squel Jorgea, porta-bandeira da Mangueira, escola campeã do Carnaval 2016. (Foto: Michele Iassanori).

No mote dos sentidos em disputa, a fantasia do que não se quer ser garantiu espaço na folia para conferir visibilidade às lutas políticas protagonizadas cotidianamente. No jocoso faz de conta, algumas personagens tornaram-se marcantes:

Lolo Figueroa, de Luana Teofilo. Luana descreveu assim sua socialite-paneleira e usuária do pau de selfie: “Lolo não é racista, mas acha que lugar de moreninho não é na universidade ao seu lado, pois cada um deve ficar no seu devido lugar. As flores no cabelo mostram um certo clima hippie chic, afinal ela quer paz e amor com o apoio do aparelho policial do Estado para defender seu patrimônio e os seus”.

Lolo Figueroa - Carna 2016(Foto: Reprodução/Facebook)

Patricinha Gratidão, concebida por Caroline Cavassa, feminista interseccional Caracterizada com uma indefectível white face, que deixava os foliões em dúvida sobre sua “verdadeira raça”, a patricinha distribuiu bambolês na Praça XV para pessoas brancas, professando o bordão “Namastê, estou fantasiada de você”. No dia seguinte, desdobramentos na versão “Paquita Gratidão” eram ostentadas no Bloco Comuna que Pariu.

Patricinha Gratidão - Carol Cavassa                (Foto: Reprodução/Facebook)

Mulata do Gois #sqn/E por acaso eu sou fantasia?, da Giovana Xavier. Concebida para o Bloco Comuna que Pariu, que trouxe o enredo “Na raça, contra o racismo”, a fantasia representou uma resposta ao devaneio de Ancelmo Gois de escolher Grazi Massafera como a mulata da coluna. No país da “democracia racial”, a eleição de uma mulata branca para chamar de “sua” revela intersecções de gênero, racismo e machismo que nenhum laço cor de rosa poderia dar conta.

A Mulata do Gois - Carna 2016.jpg                  (Foto: Reprodução/Facebook)

P.S. As fantasias escolhidas são de autoria de mulheres negras que botaram o bloco na rua. Para desespero de Lolo Figueroa que não para de pensar “o Brasil está realmente mudando…”

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A cegueira da TV Globo

Na terça feira gorda de carnaval, pela manhã, terminei de assistir ao desfile da Imperatriz e da Mangueira e continuei com a mesma sensação desagradável da véspera.  A cobertura da TV Globo havia se superado em termos de mediocridade – e desde domingo.  Entrei no facebook e encontrei alguns textos de historiadores que ajudavam a pensar. Paulo Cavalcante foi categórico: “A cobertura da Globo é um atentado contra a cultura brasileira”. Era isso mesmo. Rapidamente coloquei minha raiva no papel e postei no face um texto, denunciando a cegueira da TV Globo.

Não tenho muitos elementos para entender por que os desfiles desse ano foram tão especiais, mas foram.  Vi muita coisa maravilhosa acontecendo nas escolas. Lá estavam ícones religiosos e musicais da cultura afro-brasileira, como os Exus e as pombas giras, divindades africanas, maracatus, sambas de roda, folias de reis e do divino; as inovações de jovens negros diretores da bateria e da harmonia, muitos deles filhos e netos dos fundadores, alas e passistas com lindas coreografias, contando, com muita beleza e orgulho, a história da população negra e brasileira. Até mesmo o Marquês de Sapucaí ficou amigo da Ciata, e logo na Beija Flor! Quem diria!  Aliás, o samba da Beija Flor é imbatível.

Lamentavelmente, a cobertura da Globo não conseguiu ver nada disso, o que revela um impressionante descaso com a cultura popular e com a história da população negra no Rio de Janeiro.  Nenhum comentário  relacionado às comunidades, seus problemas (como UPPs e  intolerância religiosa), suas vitórias, seus  fundadores, lideranças, sambistas, alas e histórias.  As escolas de samba, nas transmissões da TV Globo, não parecem pertencer ao Rio de Janeiro.

E logo nesse ano que estamos comemorando os 100 anos do samba no Rio de Janeiro, ao menos o que foi registrado por Donga e gravado em 1916 pela Odeon. A Globo não tem a mínima ideia das várias iniciativas que estão sendo feitas pelas próprias escolas de samba para registrarem suas memórias, como na Vila Isabel e no Salgueiro, e construírem um acervo que valorize seus projetos educacionais e culturais. A Mangueira reúne hoje o maior centro de documentação sobre o samba, o Centro Cultural Cartola,  e  o Museu do Samba. Vale a visita.

Vida longa às escolas samba!  Elas são uma das mais antigas instituições brasileiras e fazem parte de um dos nossos maiores patrimônios culturais, reconhecidos, pelo IPHAN, em 2007, no Livro de Registro das Formas de Expressão, em nome das matrizes do samba carioca: samba de partido alto, samba enredo e samba de terreiro. Para se saber mais sobre a história desse patrimônio, é fácil o acesso ao dossiê que embasou o reconhecimento oficial.

Apesar da raiva e tristeza, não dá para desanimar. Hoje conhecemos muito mais do que a Globo consegue visualizar.  Jovens pesquisadores de diferentes áreas desenvolvem importantes trabalhos sobre a história das escolas de samba.  Se ainda precisam encontrar maior campo de atuação e visibilidade, a universidade já tem feito muito por isso.  De uma forma complementar, professores de história, como Eric Brasil, também começam a entender que o carnaval não termina na quarta feira de cinzas, com a programação da Globo.  Em seu post no facebook,  recomenda o trabalho em sala com o enredo do Salgueiro, a Opera do Malandro, pois cabe muito bem como recurso à implementação da lei 10639/03. É uma ótima estratégia de combate à intolerância em relação às religiões afro-brasileiras nas escolas.

No dia que publiquei o texto no face, registrei minhas saudades dos tempos em que  Haroldo Costa e  Leci Brandão conseguiam imprimir outros sentidos aos  lamentáveis  comentários da Globo. Hoje posso anunciar com alegria que a TV Brasil cobriu os desfiles das campeãs, com comentários super qualificados, liderados por Nilcemar Nogueira  (neta de D. Zica e Cartola, coordenadora do Centro Cultural Cartola e doutora em Psicologia Social pela UERJ) e Luiz Antonio Simas  (professor de história e autor de vários trabalhos sobre a história do samba).  Além disso, acompanhamos  entrevistas de qualidade com sambistas  e o emocionante momento do “esquenta das escolas”. Novos tempos… espero!

Obs: A TV Globo não televisionou o desfile das campeãs. Inacreditável!

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Novas Conversas

 

O Conversa de Historiadoras volta renovado em 2016. Criado em março de 2014 por Hebe Mattos e Martha Abreu, durante dois anos o blog publicou basicamente textos a quatro mãos oriundos de conversas das duas historiadoras.  Em 2016, o blog se abre para novas conversas e mais textos individuais. Agora somos seis historiadoras que produziremos uma animadíssima conversa semanal. A cada domingo, um novo texto, individual ou coletivo, sobre temas de interesse do blog. Além de Hebe e Martha, Ana Flávia Magalhães PintoGiovana XavierKeila Grinberg e Mônica Lima agora são também parte do conversa de historiadoras. Confiram o Sobre e o Quem Somos para conhecer melhor o nosso novo grupo de conversas! Martha Abreu, analisando a cobertura do carnaval do Rio abrirá amanhã (domingo, 14 de fevereiro) a série de artigos. Não deixem de conferir.

Dia histórico, 13/2/2016, começando as conversas por skype, entre Rio, Niterói, Campinas e Chicago

Conversa Skype

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Feliz Ano Novo

O Conversa de Historiadoras completa seu segundo ano no ar. Inauguramos o blog, em 15 de março de 2014, com um texto que chamamos de O Novo Caso do Bracuí. Hebe estava então como professora visitante em Nova York. Martha, no Rio, tinha acompanhado de perto o carnaval da Império Serrano, com enredo sobre Angra dos Reis, baseado em nosso filme Jongos, Calangos e Folias. O Quilombo do Bracuí tinha destaque no enredo, belamente defendido pela escola de samba da Serrinha, mas os quilombolas não puderam estar na avenida. Para completar sua decepção, as chuvas daquele fevereiro fizeram cair o teto da sede da associação quilombola. A situação de fragilidade social do grupo nos afligia e queríamos que o Projeto Passados Presentes, aprovado no edital de patrimônio imaterial da Petrobras do ano anterior e que tinha no Quilombo do Bracuí um de seus proponentes, se tornasse uma ferramenta para modificar isso. Nosso primeiro artigo e o próprio blog surgiram da vontade de construir um veiculo para divulgar o trabalho que então se iniciava.

Local de memória dos últimos desembarques ilegais de africanos no Rio de Janeiro, a história do quilombo do Bracuí e sua poderosa tradição oral são a matéria prima da exposição memorial inaugurada em 14 de novembro deste ano de 2015 na casa da quilombola Marilda de Souza. Ponto 1 do circuito de memória Passados Presentes no Rio de Janeiro, o Projeto reflete e divulga a experiência da última geração de africanos, sequestrados em África ainda meninos e trazidos para portos clandestinos da costa do Sudeste, como a antiga fazenda do Bracuí.

Enquanto montávamos a exposição no Bracuí, o terreno de Marilda foi invadido e três das placas do circuito de memória sinalizado foram arrancadas e destruídas. Ainda que a festa de inauguração tenha sido um grande sucesso e as visitas tenham se avolumado desde então, a fragilidade social dos quilombolas do Bracuí continuava a nos afligir, quase dois anos depois de iniciados o Blog e o Projeto.

Mas o ano de 2015 termina com uma ótima notícia para os quilombolas. Dia 23 de dezembro, foi finalmente publicado, no Diário Oficial da União, o edital que trata da regularização fundiária do território do Bracuí. A comunidade esperava desde o final dos anos 1990 por esse dia. Quase um presente de Natal. Claro que o caminho para a titulação definitiva ainda é longo, mas 2016 se anuncia com alguma esperança.

No Brasil e no mundo, 2015 foi um ano desafiador, ainda assim o Blog tem muito a agradecer e a comemorar. Em 30 de abril de 2015, o Quilombo de São José da Serra, segundo ponto do circuito de memória do projeto Passados Presentes, depois de 20 anos de luta, recebeu oficialmente a posse integral de seu território! Formado pelos descendentes de dois casais de africanos que moraram na antiga fazenda cafeeira que se metamorfoseou em quilombo abolicionista, a memória do jongo e de suas raízes na África Central estão na base do memorial erguido no Quilombo e no circuito de visitação desenvolvido pelos quilombolas.

Também em 2015, o Quilombo São José e o Jongo de Pinheiral, grupo que encabeçou o projeto Passados Presentes para o edital Petrobras Cultural, foram ganhadores do Prêmio de Cultura Afro-Fluminense. A cerimônia de premiação aconteceu no dia 19 de dezembro, na Casa do Jongo, em Madureira.

O memorial Passados Presentes erguido na cidade de Pinheiral celebra as migrações negras do século 20, que fizeram do jongo patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Ele foi inaugurado juntamente com o Parque das Ruinas da Fazenda de São José do Pinheiro, no último 26 de julho, dia estadual do Jongo. A parceria que surgiu daí, entre o Grupo de Jongo de Pinheiral, a Prefeitura da Cidade e o projeto Passados Presentes, tornou Pinheiral, oficialmente, Cidade do Jongo.

Fechamos o ano com a sensação de dever cumprido e isto é sempre muito bom. E ainda conseguimos guardar uma surpresa para março de 2016, quando iremos inaugurar o circuito dos lugares de memória em torno da Capoeira e da Pequena Africa no centro da cidade do Rio de Janeiro.

O Blog entra em recesso até fevereiro de 2016, quando voltaremos ampliando ainda mais nossas conversas sobre história, gênero, escravidão atlântica e políticas de memória.

Bom Ano Bom Para Tod@s!

Baixe o aplicativo Passados Presentes!

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Sobre a BNCC e os historiadores

(por Hebe Mattos)

É com preocupação que tenho acompanhado a reação indignada, predominante em alguns círculos historiográficos, à divulgação, para consulta pública, do texto de história da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), em elaboração no MEC. Como todos os outros textos da base, trata-se de um texto preliminar, aberto à discussão, construído por uma equipe de pesquisadores da área de ensino da disciplina em questão. Este caráter técnico do recrutamento do grupo de trabalho, efetuado a partir da expertise no campo do ensino da disciplina, tornou possível que o próprio ex-ministro da educação, professor de filosofia e ética da USP, Renato Janine Ribeiro, fosse o primeiro a fazer ressalvas públicas ao texto base de história, em sua conta pessoal no facebook.  Um comentário postado por ele teve grande repercussão na imprensa.

“O documento entregue, porém, na sua primeira versão ignorava quase por completo o que não fosse Brasil e África. Pedi que o revissem. (…) Mas o grupo que elaborava a base não entendia assim. Não havia sequência histórica. (…) Queriam partir do presente para ver o passado. No caso do Brasil, por exemplo, propunham a certa altura estudar revoluções com participação de escravos ou índios. E deixavam de lado a Inconfidência Mineira!”, escreveu o ministro.

Li este pequeno comentário, publicado na imprensa, antes de conhecer o texto completo publicado por Renato Janine. Imediatamente me lembrei da minha principal experiência com o ensino da história. Há quinze anos atrás, deixei a meio caminho a coordenação da equipe de história do Telecurso 2000, da Fundação Roberto Marinho, por desentendimentos com a direção da Fundação, que passavam pelo lugar da Inconfidência Mineira nas aulas de história e por um suposto ‘excesso’ do tema da escravidão nas aulas propostas para a história do Brasil. A crítica me soou como um convite para que eu lesse com atenção o que “o grupo que elaborava a base” estava propondo. Pareceu-me que eles podiam estar disputando os repertórios que ainda hoje compõem as narrativas canônicas da história brasileira. Construídos quase todos, como sabemos bem, a partir de uma perspectiva racista e eurocêntrica, no século 19 ou na primeira metade do século 20. Ganhavam minha simpatia.

Eu ainda estava lendo o documento com a atenção que merece, para formar minha opinião sobre ele, quando tive acesso a uma segunda crítica, que se pretendia devastadora. A atual diretoria da ANPUH-Rio de Janeiro convocou uma jornada de estudos para discutir o texto. Já na convocação, me chamou a atenção que o GT História Indígena e o GT Emancipações e Pós-Abolição, que reúnem inúmeros historiadores do Rio de Janeiro, muitos com destacado reconhecimento internacional, não tivessem sido formalmente convidados. E mesmo o GT Ensino de História, presente à reunião, foi desconsiderado na redação do documento final, divulgado no site da Associação. A carta acabou por gerar um pequeno abaixo assinado daqueles que não se sentiam representados pelo texto, encabeçado pelos representantes do GT de ensino de história na reunião e pela minha colega Martha Abreu.

Pessoalmente, me senti profundamente incomodada com o tom dos primeiros parágrafos da carta crítica, que vaticinava que a proposta em discussão estava em flagrante “descompasso com as pesquisas historiográficas de ponta”. Concedia ao texto, apenas, “a boa intenção” de romper com uma perspectiva eurocêntrica e quadripartite do tempo histórico. Ainda que sem sucesso, pois, para os autores, “o tempo histórico é o tempo humano, o tempo da espécie humana em seu fazer-se, o Homem se reconhecendo em suas relações sociais”. Quase parei a leitura após esta frase. Pelo menos na minha área de estudos, o ser humano universalizado no masculino e com agá maiúsculo não se faz presente em qualquer pesquisa de ponta. Há muitos anos.

Voltei à leitura do documento proposto para discussão, com redobrada boa vontade. Não sei se precisamos de uma base curricular comum. Se precisamos, ela sem dúvida deve ser amplamente discutida com a comunidade de educadores, de historiadores e com a sociedade, antes de ser aprovada. Mas fico feliz que tenhamos largado para discussão a partir de um documento tão radical no seu esforço de romper com o eurocentrismo que informa a concepção de história até agora predominante no ensino de história do país. Inclusive nas nossas universidades.

Por onde recortar para apresentar aos estudantes uma história global não eurocêntrica? Do neolítico à internet, como escolher o que estudar? A entrada pela história do Brasil, espaço de inserção política do estudante, faz todo sentido no contexto de um base curricular mínima nacional. E pode ser amplamente cosmopolita, se conseguir articular de forma consistente o local, o global e o nacional.  A ênfase nas representações do passado no tempo presente também me pareceu chave interessante para propor recortes em sala de aula, capazes de ajudar o professor a problematizar as noções de tempo e de historicidade, matérias primas da disciplina da história. Os usos do passado no presente são também ferramenta eficaz para elencar conteúdos programáticos anteriores à colonização portuguesa no Brasil, problematizando legados filosóficos, artísticos ou religiosos fortemente presentes na contemporaneidade. No conjunto, porém, parece-me necessário precisar mais quais contextos, em cada uma das fases do aprendizado, permitirão refletir sobre a dimensão temporal da história humana, bem como sobre a alteridade entre épocas e culturas.

De fato, concordo com algumas das críticas elencadas pelo ex-ministro Janine ou pela carta da ANPUH-Rio, apenas me parece que elas devem ser dirigidas aos especialistas que vem trabalhando o documento, para que a proposta seja aperfeiçoada. No texto apresentado, em especial na proposta de ensino médio, o esforço de se libertar da organização eurocêntrica da história resultou, em grande medida, em uma dificuldade de abordar historicamente a centralidade da expansão europeia para a própria construção de uma “História do Brasil”. A incorporação da noção de história Atlântica, articulando América, Europa e África, a partir da expansão marítima e comercial europeia, pode ser uma chave de leitura eficaz para superar o problema. Algum investimento na interdisciplinaridade com a filosofia e a sociologia me parece também fundamental.

A ideia de fazer uma base nacional curricular mínima é em si bastante problemática. Pessoalmente, não gosto da ideia. Currículos mínimos pressupõem consensos mínimos sobre o que deve ser ensinado e isso não é fácil. E também não é estritamente técnico. Em nenhuma área. Nas ciências humanas mais do que nas outras.

Por outro lado, o grupo que elabora a base foi recrutado entre os especialistas em ensino de história, campo que teve importante desenvolvimento nos últimos anos. É uma área que vem pensando há anos como ensinar a história, para quem estamos ensinando história e para que serve a história ensinada. Seus especialistas estão fortemente embasados no que de melhor tem acontecido nas salas de aula do ensino básico e das universidades na matéria. O MEC mostra-se consciente do caráter preliminar da proposta apresentada – e da delicadeza política da missão, o que é bastante auspicioso. A base está aberta para críticas e comentários em um site específico, e diversos historiadores, nacionalmente reconhecidos e com interface com o campo do ensino da história, de diversas áreas, foram convidados a atuar como leitores críticos, conforme adiantou o ex-ministro Renato Janine e relatou Martha, em carta divulgada em sua conta pessoal no facebook. Outros historiadores e nossas associações serão todos ouvidos. Pessoalmente, redigi uma pequena contribuição sobre o texto, que pode ser acessada aqui.

Com as tensões teóricas e políticas inevitáveis à decisão de construir um currículo mínimo nacional, e tendo em vista a obrigatoriedade legal de abordar a história indígena, da África e da cultura afro-brasileira, o trabalho me parece estar muito bem encaminhado.

Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 2015

Hebe Mattos

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